quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Leitura Orante – 19º DOMINGO TEMPO COMUM, 09 de Agosto de 2020

Leitura Orante – 19º DOMINGO TEMPO COMUM, 09 de Agosto de 2020

A ARTE DE ENFRENTAR TEMPESTADES

“A barca, já estava longe da costa, sacudida pelas ondas, 
pois o vento era contrário.” (Mt 14,24)


Texto Bíblico: Mateus 14,22-33


1 – O que diz o texto?
Poderíamos dizer que o relato da “travessia tormentosa” é uma síntese da história de nossas vidas.

Seguramente as primeiras comunidades cristãs, como todos nós hoje, se identificaram facilmente com esse grupo de discípulos em meio a uma tormenta que sacode com força a barca em que estavam. Viver com Jesus ausente requer confiança absoluta, esperança firme e capacidade para descobri-Lo presente em sua aparente ausência. No envio que recebemos d’Ele para ir à outra margem é possível que nossa barca seja também sacudida pelos movimentos das ondas dos medos que nos fazem ver fantasmas, impedindo-nos reconhecer o Ressuscitado, caminhando ao nosso lado.

Todos compartilham, para além do tempo e do espaço no qual nos encontramos, a mesma bela e frágil natureza humana. Por isso, embora as circunstâncias que nos envolvem sejam diferentes, e certamente estas podem favorecer ou dificultar nosso seguimento de Jesus, reconhecemos que os verdadeiros obstáculos, para viver centrados n’Ele e comprometidos com seu Reino, não nos vem de fora, mas brotam de nosso próprio interior. E o maior deles é o medo.

Os medos acompanham nossa vida cotidiana. Quem se pergunta honestamente – o que eu temo? – reconhecerá sem dúvida, uma pequena ou grande lista de medos que o habitam, travando o fluir de sua vida. 

Quando o ser humano quebrou sua aliança com Deus no Paraíso, o medo foi sua reação imediata. “Ouvi teus passos no jardim; fiquei com medo, porque estava nu, e me escondi” (Gen. 3,10).

O medo se instalou em seu coração. E o ser humano continua a temer através dos desertos e cidades, de dia e de noite, no coração e na sociedade..., onde quer que esteja; ele vive sob um medo constante, sentido com maior ou menor intensidade, mas sempre presente.

Medo dos passos de Deus e de seus próprios passos; medo de estranhos e de amigos; medo do futuro; medo do diferente; medo de seu corpo e da sua afetividade; medo de decidir; medo de se comprometer; medo de romper as amarras do passado; medo do novo; medo de viver e de morrer, medo de si mesmo. Uma longa cadeia de medos, da primeira à última respiração, nesta terra de sombras.

Todos os medos estão inter-relacionados e, qualquer que seja seu objeto imediato, todos têm em comum o sentimento sombrio do perigo ameaçador.


2 – O que o texto diz para mim?
Sei que o medo deixa as pessoas vulneráveis à manipulação. Não existe depósito de munição mais potencialmente explosivo do que os estoques de medo nas escuras profundezas de suas vidas.

As pessoas ficam tensas e projetam estas tensões na realidade circundante. Encaram os outros como inimigos, e as oportunidades como ameaças. O trabalho é competição, e a vida, um campo de batalha.

O medo quebra o ritmo biológico e ataca os tecidos do corpo; ele nasce na mente, mas sua influência é sentida nos nervos, no pulso, nos músculos e na respiração.

As pessoas temem os perigos que conhecem e mais ainda os que não conhecem, mas os vislumbram presentes em cada esquina. Um medo que pode ser nomeado perde o terror e a capacidade de ferir; no entanto, um medo sem nome, um fantasma sem rosto, escuro como uma sombra e rápido como uma tempestade aumenta o pavor e paralisa a ação. Medo sem nome que assombra e queima as energias que poderiam ser canalizadas para algo criativo. 

O medo distorce a percepção da realidade; ele gera muitos fantasmas e prejuízos que, como consequência, maximizam os fatores objetivos causantes do perigo.

Sendo uma emoção primária, o medo, com frequência, impede o discernimento e a busca da solução mais inteligente para os problemas; longe de resolvê-los, pode agravá-los a médio e longo prazo.

Quando o medo e a sensação de impotência impregnam minha vida cotidiana, se aviva em mim a consciência permanente de “vulnerabilidade”. Não estou preparada para acolher minha fragilidade, minha condição humana.

Enfim, o medo obscurece o sentido e a direção da vida, tira o brilho tão próprio do amor; ele me acovarda e me enterra na acomodação mesquinha.

É bom lembrar que o ser humano amadurece através do confronto entre desejo e medo. Não há medo sem um desejo escondido e não há desejo que não traga consigo um medo. O desejo e o medo estão ligados. Tenho medo do que desejo e desejo o que me faz medo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
DESEJO e MEDO: existe, na natureza humana, a tendência natural de ultrapassar o imediato, de caminhar para a “outra margem”... para arriscar novos horizontes; necessidade de afrontar o perigo, de tentar, de se aventurar...

Mas existe também a tendência oposta de se poupar e de se acautelar, a necessidade inata de evitar o perigo, de se afastar dos obstáculos, de fugir das tempestades... O ser humano que confia é também o ser humano que teme; o ato de coragem carrega, também, o medo.

No meu crescimento humano e espiritual, o medo não superado, ou desejo bloqueado, vão gerar tempestades. Ou, pelo contrário, o medo superado, o desejo desatado, vão permitir a maturação. E minha vida evolui assim, através do meu desejo de plenitude e o meu medo de destruição (impulso de vida x impulso de morte).

Todos, no nível pessoal ou coletivo, vivem experiências de tempestades; algumas como um “tsunami”, como este que vivo no atual momento.  Estou diante de uma “onda nova” de risco e de vida, na madrugada de um dia que pode e deve ser de salvação: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”

Uma coisa é sentir medo; outra é permanecer paralisado com medo de arriscar e não aventurar por novas terras, na descoberta infindável que é a vida.

É preciso não ter medo do medo, e fazer dele uma mediação para o próprio crescimento, descobrindo o desejo de viver que se esconde atrás de cada medo. E que vai permitir ir mais longe.

As batalhas mais profundas do espírito (a quebra de limites da mente e do costume, o avanço sobre novos ideais e sonhos...) se conquistam com o atrevimento da coragem, com a força da fé, com a imaginação solta, com a criatividade livre e desimpedida.

Desafiando os medos aprende-se a ter coragem. Aceitar os medos é o caminho para tornar-se destemido. O conhecimento da própria fraqueza é a maior força.

Cada medo não resolvido é um peso na vida. É preciso descobri-los, identificá-los, nomeá-los e tomá-los como são até que se possa dissolvê-los em consciência e coragem.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, também a Igreja se mostra, muitas vezes, presa ao medo, matando seu espírito profético. Uma Igreja medrosa torna-se conivente com a cultura da violência e da morte. Enquanto mais teme, mais se fecha e se entrincheira atrás de normas, doutrinas, ritos...; e quanto mais se entrincheira, mais frágil se torna. 

A grande comunidade dos seguidores de Jesus é chamada por Ele a viverem contínuas travessias, a sair dos seus espaços estreitos e “normótico” (normalidade doentia), a ser “provada” pelas tormentas e ventos contrários, a esvaziar sua barca de tantos pesos para poder fluir com mais leveza, levantando suas velas e aproveitando da força dos mesmos ventos.

É o mesmo Espírito de Jesus que sopra as velas da grande barca, conduzindo-a para a “outra margem”, a margem do compromisso em favor da vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Entrar na barca de minha vida, em companhia do Senhor; deixar que a presença d’Ele desmascare os medos que atrofiam minha identidade e originalidade.

- Dar nomes aos meus medos; nomeá-los, já é dar o primeiro passo para não se deixar determinar por eles.

- O que eu faria se não tivesse medo?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 14,22-33
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 



Sugestão: 
Música: Jesus amigo – fx 10
Autor: Antonio Cardoso
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Pede um amor às estrelas
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:51




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