quarta-feira, 22 de julho de 2020

Leitura Orante – 17º DOMINGO TEMPO COMUM, 26 de Julho de 2020

Leitura Orante – 17º DOMINGO TEMPO COMUM, 26 de Julho de 2020

Quando o tesouro e a pérola nos encontram

“Em sua alegria, vai e vende tudo o que possui 
e compra aquele campo” (Mt 13,44)


Texto Bíblico: Mateus 13,44-52   


1 – O que diz o texto?
As parábolas são uma expressão de surpresa diante da vida, que nos ultrapassa sempre, fazendo-nos capazes de pensar de um modo diferente, captar o outro lado da realidade concreta e abrir-nos à dimensão da transcendência. Dessa forma, elas recolhem e desvelam a vida real dos homens e mulheres de cada tempo, movendo-os a assumir uma atitude mais aberta e mais comprometida com a situação onde estão envolvidos. Isso significa acolher o dom e a missão do Reino.

Em geral, as parábolas evocam experiências desconcertantes e em quase todas elas se revela um dinamismo que rompe os esquemas “normais” da vida, conduzindo o ouvinte (ou leitor) a outro patamar, mais inspirador e desafiante. Elas removem a vida, arrancando-a da “normose” (normalidade doentia) e despertando outros recursos internos, que não foram ainda mobilizados. Assim, esta mesma vida, começa a adquirir outro sabor e outro sentido.

O Evangelho deste domingo recolhe duas pequenas parábolas fulgurantes de Jesus: uma do tesouro e outra da pérola. São relatos de uma enorme eficácia. Elas nos situam frente a uma experiência desencadeante de vida, frente à surpresa de Deus, e assim expõem e põem em marcha o caminho do Reino. Elas também nos situam diante da máxima riqueza e exigem, ao mesmo tempo, o maior desprendimento.

São imagens que pedem radicalidade, ou seja, “vender tudo” para adquirir o tesouro ou a pérola. 

Mas, quase não percebemos que há um passo prévio: a descoberta, a iluminação interior, o ver claramente. Tanto o caminhante pelos campos como o comerciante de pérolas, vendem tudo porque se convenceram de que o investimento valia a pena.


2 – O que o texto diz para mim?
Nestas duas pequenas parábolas, são apresentadas duas opções para que cada qual possa identificar-se: ou é aquele que encontra inesperadamente o tesouro e compra o campo, ou é aquele que tem a vocação de comerciante e percorre o mundo procurando pérolas preciosas.

Alguns irão passear, deixando-se surpreender pela vida e pelos acontecimentos, sem perder a capacidade de assombro, de entusiasmo, de admiração. A pessoa dessa parábola, ao ser encontrado pelo tesouro, “sai” de si para vender quanto tem, procura o proprietário e compra aquele campo. Mas também percebo que faz tudo isso a partir de dentro, como se houvesse conectado com algo pessoal e íntimo, que lhe permite “sair” do mais profundo de si mesmo. E esse duplo movimento é carregado de uma plenificante alegria.

Outros serão de mentalidade “comercial”: encanta-lhes a aventura, a busca, a estratégia. Não nasceram para estar quietos, nem para se conformar com boas e bonitas pérolas. O específico seu é continuar viajando e buscando sempre a pérola maior até encontrá-la. E quando a encontram, compram-na, e continuam buscando sempre. Porque isso é próprio de um comerciante: apostar, comprar, vender, às vezes ganhar, outras vezes perder... A pérola também sai ao encontro daquele que busca.

A decisão e o risco que assumiram tanto o comerciante de pérolas quanto o caminhante pelos campos, mudaram suas vidas. O tesouro e a pérola continuarão sendo valiosos, quer eles vivam com fidelidade e paixão ou não. O que os transforma não é o tesouro ou a pérola em si, mas a atitude e a decisão que tomam atraídos por eles. É um tesouro e uma pérola que exigem uma transformação do antigo e conhecido passado para um novo e desconhecido futuro.

Quando a pessoa se fecha às surpresas da vida, ou quando deixa de esperar algo bom e precioso, ela se invalida para ser descobridora de tesouros ou buscadora de pérolas.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Para deixar-me encontrar pelo tesouro e pela pérola é preciso deslumbrar-me, fascinar-me, encantar-me, apaixonar-me. Parece simples, mas é muito aberto e evocador. “Aquilo pelo qual me encanta mobiliza minha imaginação e acaba por deixar minha marca em tudo”, dizia Pe. Pedro Arrupe.

E como encantar-me? Não é só questão de vontade, mas de viver com os olhos abertos, atento à realidade, externa e interna, ser poroso para que me deixe encontrar pela pérola preciosa e pelo tesouro escondido; diante desta surpresa, não poderei deixar de ficar fascinada.

E então, sim, estarei disposta a queimar barcos, vender tudo, dar o salto. Talvez meu maior problema é que, na realidade, o que me interessa são minhas posses, poder, objetos, apegos à autoimagem e não descobrir ainda o tesouro escondido e a pérola fina, que não estão distantes de mim; pelo contrário, encontram-se no mais profundo de mim mesma.

“Descer” ao chão de minha interioridade é a oportunidade para descobrir regiões novas e novos horizontes, para conhecer o reino interior, para encontrar a riqueza interior e assim experimentar a transformação.

O caminho para uma nova qualidade de vida passa pela “descida” aos campos de meu coração.

Isso requer coragem para passar por todas as regiões, mesmo as sombrias, e chegar ao mais profundo. Mas essa descida me possibilita descobrir um mundo diferente que não conhecia, ou que havia perdido. Lá no fundo, encontra-se um bem precioso que posso levar comigo, que me ajuda em meu caminho e que me faz totalmente original e criativa.

É preciso “descer” até o fundo para descobrir uma nova riqueza para a minha vida; é “descendo” que poderei revitalizar a vida que se tornara vazia e ressequida.

Trata-se de despertar, de escavar, de avançar em direção ao “veio de ouro” e de saber que este não é minha propriedade; ele me é oferecido como dom. Não basta falar de “pedra preciosa”, é também necessário “escavar” meu “chão interior”, alargar meu coração, garimpar em direção às riquezas que estão no eu mais profundo, assim como o “fio de ouro” no meio dos cascalhos.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, eu possuo uma fonte inesgotável de qualidades-habilidades; posso dizer: “sou um presente”, um valor para os outros. A vida sempre está oculta nas profundezas. A pessoa superficial é aquela que se confundem com suas ideias, coisas... A pessoa do “eu profundo” é aquela que vive a partir da raiz, da fonte mesma da vida, e deixa vir à tona todas as suas riquezas, dons, capacidades...

É no coração que existem, em abundância, os aspectos positivos de minha personalidade, os talentos naturais e as boas tendências. Aí se aninham imensas riquezas que se exprimem de maneira diferente, dando a cada um, uma fisionomia própria, um caráter único.

Esta região profunda coincide com o mundo das certezas, dos valores, das ideias-força... que formam o eixo da minha existência, o melhor de mim, o lugar de minha recuperação e de minha realização, o positivo que me solicita continuamente a me tornar o que devo ser.

A força da transformação, portanto, eu não a encontro na superfície ou distante de mim, mas sim, nas profundezas. Para ter acesso à riqueza no interior de mim mesma, posso imitar, simbolicamente, os hábitos dos pescadores de certo atol do Pacífico. Eles vivem pauperrimamente sobre uma terra desprovida de vegetação e açoitada pelos ventos; mas o fundo do seu mar é muito rico em pérolas.

Desenvolveram aí aptidões excepcionais para o mergulho; descem sem qualquer aparelho, ao fundo do mar, localizam as pérolas, arrancam-nas, trazem-nas para a superfície, atiram-nas no barco, para depois mergulharem de novo.

Este é o caminho da verdadeira espiritualidade: “descer” até o fundo, mergulhar no oceano interior onde estão escondidas as pérolas que dão significado e sentido à minha vida.

Encantada com a descoberta trazê-las à tona e colocá-las a serviço dos outros, multiplicando-as.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Para realizar e desenvolver toda a minha potencialidade, buscar, na oração, cavar mais profundamente, até atingir as raízes de meu ser, o núcleo original de minha personalidade. 

- Olhar no profundo de meu coração, olhar no íntimo de mim mesmo, e perguntar: “tenho um coração que deseja o maior (“magis”) ou um coração adormecido pelas coisas? Meu coração conserva a inquietude da busca ou deixa-se sufocar pelos apegos, que acabam por atrofiar-me?”


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 13,44-52   
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: O tesouro – fx 03
Autor: Benedikt Enderlene Nalerio Cipri
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Diante de ti
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:09


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