terça-feira, 14 de julho de 2020

Leitura Orante – 16º DOMINGO TEMPO COMUM, 19 de Julho de 2020

Leitura Orante – 16º DOMINGO TEMPO COMUM, 19 de Julho de 2020

ACEITAR O JOIO NOS HUMANIZA  

“Deixai-os crescer juntos até a colheita!” (Mt 13,30)


Texto Bíblico: Mateus 13,24-43


1 – O que diz o texto?
Jesus costumava contar parábolas com frequência e as pessoas gostavam de ouvi-lo; suas parábolas brotavam do chão da vida, estavam carregadas de vida e comprometiam as pessoas a viverem de um modo diferente, deixando-se inspirar por Aquele que é Fonte da Vida. Como relatos instigantes, as parábolas faziam emergir uma nova imagem de Deus e uma nova imagem do ser humano.

Sabemos que as imagens, que cada um guarda em seu interior, tem um peso e marcam a vida: elas podem fazer adoecer ou ativar uma vida sadia, podem alimentar medos ou despertar coragem, podem estreitar a vida ou expandi-la.... Todos têm experiências das funestas consequências das falsas imagens de Deus, que acabam alimentando, em cada um, uma autoimagem atrofiada e paralisante. Jesus, com suas parábolas provocativas, desejava quebrar tais imagens nocivas e substituí-las por outras saudáveis. 

Para isso, Ele usa uma pedagogia para nos provocar e dirigir nossa atenção para algo específico, que nos inquieta: quando nos sentimos incomodados com Suas imagens, isso significa que estamos sendo confrontados com imagens falsas de Deus e de nós mesmos, petrificadas em nosso interior. Algum aspecto nosso, que até então havia permanecido na sombra, é iluminado; agora somos capazes de nos ver de modo diferente. Essa transformação interior, de nossa visão e de nossos sentimentos, não pode ser alcançada por meio de meras palavras de ensinamento. Para isso, precisamos da arte das parábolas, pois elas desvelam, põem às claras, situações e modos fechados de viver, visões distorcidas, falsas verdades, ideias atrofiadas, crenças vazias..., que nos dão uma sensação de segurança e temos resistências em abrir mão de tudo isso.

Como muitas outras parábolas, também a do “joio e do trigo” é um relato provocativo. Não só porque parece ir contra o “senso comum”, que aconselha arrancar o joio que impede o crescimento do trigo, mas porque é também uma resposta às críticas que o próprio Jesus recebia por sua atitude com relação àqueles que a religião tinha excluído. Não em vão Ele foi acusado de ser “amigo de publicanos e pecadores”.

Por outro lado, a parábola pode deixar transparecer as inquietações da comunidade de Mateus, preocupada por separar com clareza os “bons discípulos” daqueles que não eram. Como tantos grupos humanos, a tentação é marcar uma linha divisória, entre o “trigo” e o “joio”. Essa separação, no interior da comunidade cristã, acaba se projetando nas relações sociais, políticas, econômicas, culturais..., criando “muros” e “fronteiras” que esvaziam o processo de humanização.

Pois bem, seja porque se refira à vida histórica de Jesus, seja porque se tenha adaptado para responder a alguma polêmica comunitária posterior, o certo é que a mensagem da parábola não deixa lugar a dúvidas: “deixai crescer um e outro até a colheita!”.


2 – O que o texto diz para mim?
A atitude sábia de deixar o “trigo e o joio crescerem juntos”, me remete precisamente ao que tenho de fazer com o meu próprio “joio”: aceitá-lo, acolhê-lo, integrá-lo, reconhecê-lo como meu, sem reduzir-me a ele e sem me deixar determinar por ele. Tal atitude implica um crescimento em integração e em humildade. Por mais estranho que pareça, a aceitação do “joio” me humaniza, pois me faz descer de meu pedestal egoico feito de exigência, perfeccionismo e de complexo de superioridade – e aproximar-me de meu ser verdadeiro.

Quanto mais eu me conheço e conheço o Sol que me habita (Deus), mais me integro e mais me humanizo.

Humanizar-se, não no sentido de ser mais virtuoso, brilhante, bem-sucedido, perfeccionista... Humanizar-se é também a capacidade de acolher-se frágil, vulnerável e, ao mesmo tempo, ativar a vigor, ser criativo, resistir, poder traçar caminhos... Fazer a síntese entre ternura e vigor.

Não pretendo, pois, arrancar o joio; demonstrar com minha vida que, ser trigo, é mais humano.

Minha vida está repleta da graça divina. Vivo mergulhada na Graça que me santifica.

Ser santa é viver em plenitude minha humanidade. É aprender a descobrir e a redescobrir a “presença de Deus em tudo e tudo em Deus” (S. Inácio).


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Já foi dito que o ser humano nunca é tão grande como quando sabe reconhecer e aceitar sua fragilidade, sua limitação...  Reconhecer e aceitar sua própria “humanidade”, diante de Deus e dos outros, significa percorrer um caminho em direção a uma visão positiva, madura e profunda de si mesmo.

Com isso, já não desperdiço as minhas energias para tentar, inutilmente, afastar de mim algo que faz parte de minha vida e que devo aprender a integrar, a preencher de sentido, a transformar...

Às vezes, no mal que quero extirpar, há um bem que não sei descobrir.

Com efeito, tenho sempre a tentação de querer extirpar logo e totalmente o “joio” do meu coração, arriscando-me a arrancar com ele, pela raiz, os germes do bem que estão crescendo com dificuldade e que exigem uma atitude muito diferente, isto é, paciência e delicadeza, capacidade de intuição e clarividência, disponibilidade para alimentar uma sadia tolerância para comigo.

Todo este processo de integração interior se faz visível na integração com os outros com quem convivo.

Parece claro que, o ser humano, fica incomodado com o “diferente”, com aquele que sente, pensa e crê de outra maneira. Se a isso agrega a necessidade de “ter razão”, característica do ego, poderia explicar a origem de tantas intolerâncias, fanatismos, juízos, processos inquisitoriais e condenações... Tanto as religiões, como os grupos sociais, insistem em ter tudo bem clarificado e estabelecido, para evitar sobressaltos. Detrás de tudo isso, o que se busca é assegurar a sobrevivência e defender-se da ameaça da insegurança ou da necessidade de mudanças. Sair das próprias posições e convicções, no campo religioso, social, político, cultural... é, para muitos, um processo doloroso.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a parábola do (joio e trigo) é um chamado à tolerância e à paciência. A virtude da tolerância não é sinônima de “bonzinho amorfo”, nem constitui um relativismo suicida. Tolerância é respeito e valorização da pessoa, acima das diferenças, acima das atitudes contrárias e inclusive, segundo Jesus, frente às agressões recebidas: “Amai vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem”.

A personalidade fanática tende a ver a realidade dividida completamente em duas: tudo é branco ou preto, verdadeiro ou falso, bom ou mau, “trigo e joio”; para ela, não existem outras tonalidades. Por isso, ela se converte em juiz implacável que “salva” ou “condena”, assume atitudes fascistas ou nazistas, com a ilusão da raça pura, da ideologia pura, da religião pura...

Niels Bohr, um dos grandes iniciadores da física quântica, afirmou que “o oposto de uma verdade profunda pode ser também outra verdade profunda”. E para ele não se tratava de uma crença ou de uma opinião pessoal, mas de uma constatação, fruto de seus experimentos com partículas subatômicas.

Há um fato inegável: ninguém é igual a outro, todos tem algo que se diferencia. Por isso existe a biodiversidade, milhões de formas de vida. O mesmo e mais profundamente vale para o nível humano. Aqui as diferenças mostram a riqueza da única e mesma humanidade. Posso ser humana de muitas formas e devo ser tolerante, como toda a realidade é tolerante. A intolerância será sempre um desvio e uma patologia e assim deve ser considerada. 


5 – O que a Palavra me leva a viver?
O rigorismo não faz parte do caminho da Graça; o caminho da graça se chama compreensão e tolerância. A melhor resposta é dar a oportunidade para que o trigo amadureça; a melhor solução é abrir possibilidade para que o joio seja transformado. É questão de saber esperar. E disso, o amor é especialista.

- Frente ao “joio” presente em meu interior, que atitudes assumo: auto-julgamento? moralismo? intransigência?

- E frente ao “outro”, que “pensa, sente e ama de maneira diferente”, como eu me  situo?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 13,24-43
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Joio e trigo – fx 07
Autor: Ir. Lucia Silva, imc
Intérprete: Ir. Magnólia C. e Silva
CD: Partilha
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:43



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