quarta-feira, 1 de julho de 2020

Leitura Orante – 14º DOMINGO TEMPO COMUM, 05 de Julho de 2020

Leitura Orante – 14º DOMINGO TEMPO COMUM, 05 de Julho de 2020

UM CORAÇÃO SEM DISTÂNCIA

“...que sou tolerante e humilde de coração, 
e encontrareis repouso para vossas vidas” (Mt 11,29)


Texto Bíblico: Mateus 11,25-30


1 – O que diz o texto?
Inútil discutir e dar voltas: o distanciamento social veio e começou a fazer parte do nosso ritmo cotidiano; não nos resta outro remédio a não ser tomar medidas para aprender a manejá-lo e a incorporá-lo em nossa vida da maneira menos danosa possível.

De fato, seus perigos são evidentes: o distanciamento físico (“que só se aproximem até um metro”), pode gerar o distanciamento social (“que não me venham com mais problemas, porque já tenho os meus”) e desembocar no distanciamento emocional (“olho ao meu redor e sinto as pessoas como uma ameaça”).

O evangelho deste domingo pode nos oferecer uma inspiração neste momento dramático que vivemos.

Jesus nos revela que toda manifestação de distanciamento (sanitário, físico, social, religioso, cultural, político...) pode ser quebrado a partir do coração. Toda proximidade com o outro começa pelo coração. Nesse sentido, encontramos uma pérola de grande valor naquilo que o evangelista Mateus nos desvela: “Aprendei de mim, que sou tolerante e humilde de coração”.

Ao se apresentar como referência para os seus discípulos - “aprendam de mim!”, Jesus frisou duas atitudes pelas quais pautava a sua vida: a mansidão, tolerância e a humildade. Elas são o reflexo das bem-aventuranças que Ele sempre deixou transparecer no encontro com os outros.

É do coração que brotam a mansidão, a tolerância e a humildade, únicos remédios que substituem a expressão do afeto e a cordialidade manifestada por via táctil (dar as mãos, abraçar...). Mesmo quando a situação impede que mãos e braços se encontrem, os corações se abraçam.

Este “tempo de confinamento” está nos fazendo tomar consciência de nossas debilidades, quebrando toda pretensão de auto-suficiência e de soberba; ao mesmo tempo, está nos fazendo experimentar que não somos donos de nossos estados de ânimo e que precisamos dedicar tempos ao descanso e à gratuidade. 

Vivemos em meio à cultura da produtividade, da competição, da eficiência, e isso nos deixa cansado, raivosos, angustiados e tristes, sem um motivo aparente e sem poder encontrar uma solução para isso.  Constatamos que nossa fragilidade carrega em si a necessidade de sair, de passar tempos distendidos, de reaprender a estar com os outros, de oxigenar nossa vida em meio a tantos venenos que nos asfixiam...


2 – O que o texto diz para mim?
A humildade e a mansidão, tolerância do coração me trazem para o chão da vida e me possibilita viver com mais humanidade. E estas virtudes estão disponíveis, em abundância, no meu interior. Basta abrir espaços para elas e o meu cotidiano adquirirá novo sabor e calor.

É suave a condição humana quando, em vez de ocultar minha debilidade, descobrir com assombro que é ela que me conduz pela mão a me aproximar calorosamente dos demais. Quando vivo a debilidade de forma agradecida, é mais fácil perdoar que condenar, compreender que murmurar, aceitar que julgar.

A debilidade humana descansa nas mãos de Deus. Talvez seja esta a aprendizagem principal de minha vida, pois a tenho saboreado internamente. Só assim poderei oferecer, também a mim, um lugar acessível de repouso para os cansaços e fragilidades dos outros.

“Descansar” não é a outra face da ação de trabalhar; é participar, ter parte, na vida mesma de Deus, onde ação e repouso coincidem numa única pulsação, num único movimento de segurança e de felicidade, de consentimento e de abandono, nessa Presença Humilde que flui dentro de mim, me atrai e me conduz com suavidade. O decisivo é ir ao seu encontro e deixar-me aliviar, para aprender d’Ele a ser mais humana.

Se eu viver só em chave de mandamentos, de doutrinas, de normas..., comerei pão de fadigas e sentimentos de culpa; se eu viver em chave de bem-aventuranças, certamente poderei caminhar aliviada, porque o peso e a fecundidade da vida estão apoiados em Outro e não dependem só de mim.

Nesse sentido, as bem-aventuranças da humildade e a mansidão, tolerância são o terreno sólido sobre o qual posso assentar minha vida e ativar todas as potencialidades humanas que me habitam.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Humildade” vem de húmus, chão, barro. Ela está vinculada ao amor à verdade e a ele se submete.  Ser humilde é amar a verdade mais que a si mesmo. Humildade é andar na verdade” (S. Teresa).

“Onde está a humildade, está também à caridade” (S. Agostinho). É que a humildade leva ao amor, e todo amor verdadeiro a supõe; sem a humildade, o ego ocupa o espaço disponível, e só vê o outro como objeto ou como inimigo. A humildade me conduz à pura gratuidade do amor desinteressado.

Por outro lado, aqueles que vivem sob o impulso da mansidão, não rejeitam nada, não exigem nada. Estão abertos às surpresas da vida, vão interiorizando as contrariedades de cada dia e ampliando um espaço no próprio interior, onde acolher a realidade e reafirmá-la; revelam um coração que cria e alimenta proximidades com todos, porque pulsa no ritmo do coração do outro, fisicamente presente ou distante.

A mansidão, tolerância se assemelha a um sentimento de não violência ativa, a “essa capacidade passiva de recepção que se encontra no fundo da estrutura da pessoa” (Edith Stein).

Mansidão, tolerância não é debilidade, mas força suavizada; ela não é a atitude medíocre daqueles que se sentem anulados pela presença violenta do outro. É força que não provém da violência externa, mas de uma transformação interna. Por isso, o manso, o tolerante pode realizar ações impossíveis a quem é violento e sentir-se bem-aventurado e feliz, uma vez que tem esperança de conquistar o coração dos outros e se encontra entre os que herdarão a “terra prometida” do coração de Deus.

A mansidão, tolerância cristã, reflexo daquela de Jesus, é plena de força. Suavidade e força que recorda o modo “suave-forte” divino de agir. Trata-se daquela harmonia conquistada pelo ser humano que alcançou seu centro mais profundo e ali encontra o dom da liberdade. A mansidão, tolerância é o estado interior a ser alcançado pelos corações dos homens e mulheres livres.

Nessa ótica, de fato, quando perco a mansidão, a tolerância vejo minha liberdade diminuída. Entro na lógica do revide e a emoção indomada preside minhas ações.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, vivo em um mundo onde imperam a prepotência, a agressividade, a vingança, o ataque e o desafio preventivo, o amedrontamento, a extorsão e a imposição violenta como meios habituais para conseguir os fins que se pretendem. Esta mesma estratégia de morte é utilizada em diferentes ambientes, tanto civis como religiosos, políticos como econômicos, entre pessoas e entre grupos ou nações.

Com isso, a vida e as relações se convertem num campo de batalha contínua, como se fosse uma manada de lobos disputando o cordeiro.

Como seguidora d’Aquele que é o humilde artífice da paz, testemunho e profetizo que a mansidão, tolerância é o verdadeiro rosto da Igreja.

Não é por acaso que muitas pessoas que lutaram em favor da justiça, pagando com a própria vida, tenham essa característica comum: a mansidão, a tolerância (Gandhi, Luther King, Dom Romero...). São descritos como indivíduos mansos, tolerantes e humildes, amáveis e de agir discreto, abertos ao diálogo e à acolhida do outro, pacientes e simples. E, exatamente por isso, dotados de uma força diferente e, sobretudo, muito eficaz.

Bem-aventurados os humildes os mansos, os tolerantes! Graças a eles o mal, na terra, pode se transformar em bem!


5 – O que a Palavra me leva a viver?
De onde brotam a mansidão, a tolerância e a humildade? Como ativá-las e fazê-las crescer? Ninguém pode improvisá-las. A raiz última da mansidão, tolerância, humildade é contemplativa. Nasce em um clima de oração, numa proximidade íntima que faz o meu coração pulsar no mesmo movimento do Coração compassivo de Deus. Desse encontro, de coração a Coração, emergem das profundezas de meu ser estes dinamismos mais humanos e mais divinos. A partir da fonte original, a mansidão, tolerância e a humildade vão se expandindo na direção dos outros, alimentando novas relações, acolhendo o diferente, vibrando com o bem presente no outro...

- No ritmo de minha vida, o que mais se faz visível: mansidão, tolerância e humildade? Ego inflado e soberbo? Agradecimento assombrado ou ingratidão venenosa? Suavidade divina ou prepotência que petrifica?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 11,25-30
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Vem comigo – fx 05
Autor: Jorge Trevisol
Intérprete: Jorge Trevisol
CD: Mística, amor e sentido
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04.24





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