segunda-feira, 8 de junho de 2020

Leitura Orante – CORPUS CHRISTI, 11 de Junho de 2020

Leitura Orante – CORPUS CHRISTI, 11 de Junho de 2020

CORPUS CHRISTI: 
“Deus se faz Corpo em nossos corpos”

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue 
permanece em mim e eu nele.” (Jo 6,56)


Texto Bíblico: João 6,51-58


1 – O que diz o texto?
O cristianismo foi muitas vezes compreendido como uma religião do “espírito” contra a “carne”, uma religião do desprezo do corpo e inimiga de tudo o que se refere à dimensão corporal. Se isso é verdade, vai totalmente contra a primeira inspiração de Jesus e da Igreja, que proclamaram e continuam proclamando uma religião do “corpo”, ou seja, do Deus Encarnado na história (na carne) dos homens e mulheres.

É isso que nos revela a festa de “Corpus Christi”; é a festa que recolhe todas as festas cristãs e as condensa na “carne” do Corpo de Jesus, com sua riqueza de sentidos e significados.

“Tocar a carne de Cristo” implica tocar e acolher nossa própria “carne”, ou seja, o corpo como lugar onde Deus faz sua morada. Assim vamos buscando compreender o que é a Encarnação.

O próprio Deus se fez corpo, no corpo de uma mulher: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

A Encarnação foi o caminho que a Trindade escolheu para se aproximar da humanidade e fazer história conosco. Nosso corpo humano, feito de barro – vaso frágil e quebradiço – tornou-se o lugar privilegiado da chegada e da revelação do amor trinitário.

“Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós?” (1Cor 6,19)

O nosso corpo é o “templo” santo e santificado, onde Deus Trino faz sua morada.

O corpo é presença e linguagem - tudo nele fala: fala o rosto, falam os olhos, falam os movimentos e as posturas, falam os gestos, acompanhando, reforçando e expressando a intenção íntima.

Celebrar “Corpus Christi” é “cristificar” nossos corpos.

Cresce cada vez mais a consciência de que não “temos um corpo” que nos aprisiona, mas que somos a corporeidade, esse sistema complexo de matéria e energia, fonte de sensações, de expansão, de prazer...

O corpo é a primeira condição de possibilidade de nosso “ser no mundo”, único modo disponível para relacionar-nos com a natureza, com os outros e com o que nos transcende. Em definitiva, único modo de ser, e de sermos humanos. 


2 – O que o texto diz para mim?
Sou corpo que vibra e pulsa que necessita do abraço e do olhar de outro corpo, do calor de outras peles. E ali encontro Deus, pois Ele quis fazer-se corpo e sangue, para acariciar com meus braços, para olhar com os meus olhos, para respirar com os meus pulmões, para amar com meu coração, para fazer ardentes minhas entranhas compassivas... Aqui, nas transformações do corpo, Ele se faz presente. 

Diante do Corpo de Cristo, meu corpo se plenifica na comunhão com outros corpos, com Deus e com o corpo da natureza. Em Jesus, Deus se revelou encarnado na história e, por sua atuação, morte e ressurreição, deixou transparecer que fez do universo seu Corpo. A presença real de Jesus, no pão e vinho da Eucaristia, me desperta a reconhecê-Lo presente no coração do Cosmos e da História.

Meu humilde corpo é parte da Criação inteira e meu bem-estar faz sorrir a natureza.

O evangelho deste dia me revela que a união ativa do discípulo com Jesus expressa-se, agora, mediante a metáfora do “comer” e do “beber”. A adesão a Jesus é adesão de amor.

Jesus quis permanecer entre as pessoas de modo diferente. Não aceitou ser peça de museu, nem fonte de estudos eruditos. Quis permanecer vivo. Escolheu a forma convivial da refeição. É em comunidade que se celebra sua memória. O pão do cotidiano, o vinho da festa; o pão do alimento, o vinho da entrega radical.

O pão e o vinho, comido e bebido, se transformam em mim; o corpo de Cristo e seu sangue me transforma n’Ele. Pelo pão e vinho, vivo e me alegro. Pelo corpo e sangue de Jesus, Ele vive em mim e me alegra. Comer do seu corpo e beber do seu sangue significa “ingerir” e fazer minha, sua mentalidade, suas preferências, suas opções, seu estilo de vida, sua original maneira de viver, de pensar e de atuar...

Alimentar-me d’Ele é voltar ao mais puro, ao mais simples e mais autêntico de seu Evangelho; interiorizar suas atitudes mais básicas e essenciais; acender em mim o impulso de viver como Ele; despertar minha consciência de discípula e seguidora para fazer d’Ele o centro de minha vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Tradicionalmente, a festa de “Corpus Christi” acontece em meio a grandes pompas e suntuosas procissões. Belos tapetes são confeccionados nas ruas para que o cortejo, carregando o “Corpo de Cristo”, passe por ali. Este ano, por causa da situação pandêmica que estamos vivendo, as manifestações externas certamente não vão ocorrer. Talvez fosse uma ocasião privilegiada para repensar e redescobrir o verdadeiro sentido deste dia: fazer a experiência da “procissão interna”, deixando o “Corpo de Cristo” circular por meu corpo, para que este fique mais “cristificado”.

Todas as minhas demonstrações de veneração e respeito para com as “espécies consagradas do pão”, estão muito bem. Mas ajoelhar-me diante do Santíssimo e continuar menosprezando ou ignorando o corpo dos irmãos e irmãs, sobretudo dos mais sofredores e excluídos, é um escárnio. 

A última coisa que poderia ter ocorrido a Jesus era pedir que os demais seres humanos se pusessem de joelhos diante d’Ele. Ele, sim, se ajoelhou diante de seus discípulos para lhes lavar os pés; e, ao terminar essa tarefa de escravos, lhes disse: “vós me chamais de Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque sou. Se eu, o Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,13). Essa lição parece que não despertou tanto impacto em mim. “É mais cômodo transformar Jesus em “objeto” de adoração” que imitá-lo no serviço e na disponibilidade para com todas as pessoas. É uma ofensa prostrar-se diante do Corpo Eucarístico e distanciar-se de tantos corpos violentados que gritam: “eu quero respirar”.

O problema é que, com frequência, transformo a Eucaristia num rito cultual, tornando-se uma pesada obrigação que, se pudesse, tiraria de cima de meus ombros. Ela acabou se convertendo numa cerimônia rotineira, carente de convicção e compromisso, um ritual que tranquiliza as consciências, mas não modifica as atitudes. E, às vezes, se utiliza como ato de ostentação e pompa solene, que fomenta a adoração e a devoção, mas não transforma nem a Igreja, nem a sociedade.

A Eucaristia foi, para as primeiras comunidades cristãs, o ato mais subversivo imaginável. Os cristãos que a celebravam se sentiam comprometidos a viver o que o sacramento significava, conscientes de que recordavam o que Jesus tinha sido e comprometendo-se a viver como Ele viveu.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor é preciso sacudir minha rotina e mediocridade. Não posso comungar com Cristo na intimidade de meu coração sem comungar com os irmãos que sofrem. Não posso compartilhar o pão eucarístico ignorando a fome de milhões de seres humanos, privados de pão e de justiça. É uma ofensa dar a paz uns aos outros, sendo canais propagadores de ódio, de preconceito e intolerância. É um engano manifestar que estou em comunhão junto à mesa quando, na realidade, sou mediadora da “cultura da indiferença”.

Corpus Christi é um chamado urgente para que eu prostre diante do Cristo, humilde e caminhante, que passa continuamente diante de mim; passa vestido de mendigo, desempregado, enfermo, faminto, solitário, abandonado..., que me convida a viver a Eucaristia, não como milagre nem como mistério, mas como lugar de encontro com os mais necessitados.

Está bem que passem procissões com o Pão Eucarístico pelas ruas, com toda solenidade e pompa. Mas, que pensará Jesus ao passar diante das casas onde hoje falta o pão? Que pensará Jesus ao passar diante de crianças que tem fome? Que pensará Jesus ao passar diante de homens e mulheres que o acompanham com o estômago vazio, sendo Ele mesmo o “verdadeiro pão”? Quê pensará Jesus ao ser levado nos “andores” e carros alegóricos por pessoas que não conhecem a fome, enquanto à margem aplaudem os famintos?


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Meu corpo é tocado pela encarnação de Jesus. E lembro de que Deus conhece minha estrutura. Ele sabe de que barro foi feito.

Rezar minha humanidade, meu corpo de ser humano. 

Levar para minha oração os desafios do cotidiano, os imprevistos da vida. 

Ser humana diante de Deus, deixar meu corpo falar a Deus.

Rezar com meu corpo. E agradecida bendizer sempre o Senhor.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 6,51-58
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Lição de amor – fx 09
Autor: Padre Fábio de Melo
Intérprete: Padre Fábio de Melo
CD: De Deus um cantador
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:50


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