terça-feira, 16 de junho de 2020

Leitura Orante – 12º DOMINGO TEMPO COMUM, 21 de Junho de 2020

Leitura Orante – 12º DOMINGO TEMPO COMUM, 21 de Junho de 2020

“Analisa com cuidado teus medos e verás que todos são ridículos”

“Não tenhais medo!” (Mt 10,31)


Texto Bíblico: Mateus 10,26-33


1 – O que diz o texto?
O ser humano amadurece no confronto entre desejo e medo. Não há medo sem um desejo escondido e não há desejo que não traga consigo um medo. O desejo e o medo estão profundamente ligados. 

É constitutiva, na natureza humana, a tendência natural de tentar ultrapassar o imediato, de arriscar novos horizontes, de enfrentar perigos, de buscar, de criar, de se aventurar; mas, em seu interior, está também presente a tendência oposta, ou seja, poupar-se e acautelar-se, a necessidade inata de evitar o perigo, de se afastar dos obstáculos, de se acomodar no passado, no conhecido, no que dá segurança...

Há, em todos nós, um desejo de plenitude e o medo do fracasso. No nosso processo de crescimento humano, o medo não superado e o desejo bloqueado vão gerar frustrações; de outro lado, o medo superado e o desejo desbloqueado vão permitir que sejamos mais ousados e criativos.

O evangelho deste domingo nos revela que Jesus é um profundo conhecedor do coração humano; ele sabe de quê somos feitos e o que se passa no mais profundo de cada um de nós. Ele conhece profundamente as inseguranças e os medos que nos habitam.

Por isso, do seu humano coração, marcado com as fibras da coragem, brota este apelo: “Não tenhais medo!” Esta expressão está situada no contexto do envio dos discípulos em missão. Jesus acaba de dizer a seus seguidores que eles serão perseguidos e encarcerados.

Se Jesus nos convida a não ter medo, não é porque nos prometa um caminho de rosas. Não se trata de confiar em que não nos acontecerá nada desagradável, ou, se algo mal nos acontece, alguém nos livrará do perigo. Trata-se de uma segurança que permanece intacta em meio às dificuldades, sabendo que os contratempos não podem atrofiar nosso ser essencial. Deus não é a garantia de que tudo irá bem, mas a segurança de que Ele estará aí presente, em qualquer situação que estivermos envolvidos.

O apelo de Jesus também pode ser aplicado a todas as situações de medo paralisante que podemos encontrar na vida. Por detrás de numerosos comportamentos destrutivos – o consumo compulsivo, a dependência, o ódio, o racismo, a intolerância, a indiferença, a suspeita, a violência, a competição, a exclusão, a prepotência, o abuso de poder ... -  se oculta o medo. O medo continua enchendo nosso planeta de vítimas anônimas, impedindo que a humanização e a harmonia, nossa vocação última, se expressem.


2 – O que o texto diz para mim?
No atual momento, toda a humanidade está atravessada por um terrível medo: a contaminação pelo covid-19. Mas, os grandes medos não aparecem com frequência; são os pequenos medos, que surgem dos encontros diários com a realidade, que roubam da pessoa sua vitalidade e dinamismo. O medo inibe o pensamento, impede a concentração e é, portanto, muito responsável por se fazer às coisas de modo medíocre, sem valor, abaixo das possibilidades e contra as próprias expectativas. 

O medo não é um ato moral nem uma omissão. Sem ser convidado, ele cresce no coração humano. Em tal atmosfera de medo, a imaginação e todas as energias criativas se atrofiam. 

O medo é um câncer que ameaça a fé, o amor e a esperança de pessoas e instituições; ele corrói as fibras humanas, asfixia talentos, esvazia a vida e mata a criatividade. O medo encolhe o ser humano, inibe a decisão e bloqueia os movimentos em direção ao “mais”. Sua intensidade pode anular a capacidade de reação das pessoas ou das instituições; ele impede o discernimento e a busca da solução mais inteligente para os problemas; longe de resolvê-los, pode agravá-los a médio e longo prazo.

Enfim, o medo obscurece o sentido e a direção da vida, tira o brilho, tão própria do amor e seca as fontes da esperança; ele me acovarda e me enterra na acomodação mesquinha.

No evangelho, que acabei de escutar, Jesus faz referência ao medo que pode vir de fora, provocado por aqueles que se fecham e resistem frente à novidade do anúncio do Reino. Mas, também posso considerar o apelo de Jesus – “Não tenhais medo!” – em chave de interioridade; esta expressão se refere a um acontecimento interior, pois o medo é o inimigo de meu eu original. 

Quando o inimigo é uma força externa, nem sempre há motivos para alimentar o medo. Mas quando os inimigos se encontram no meu próprio interior (traumas, recalques, frustrações, fracassos...), provocando medos paralisantes, é preciso ter a coragem para desvelá-los, conhecer a raiz de onde brotam entrar em diálogo e reconciliar-me com tudo aquilo que foi rejeitado e que continua envenenando minha vida. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Posso ser presa fácil de um medo que foi introjetado pelas experiências de insegurança e frustração do passado, e que impede deslanchar todas as minhas potencialidades humanas. Tal medo me aniquila, pois mina toda possibilidade de alimentar a fé confiança em mim mesma, nos outros, e, sobretudo n’Aquela que nunca provoca medo, com ameaças de inferno, julgamentos...

No fundo, o medo é a ignorância com respeito a mim mesma; vivo a cultura da superficialidade e esqueço o caminho que dá acesso ao meu coração. Se eu conhecesse meu verdadeiro ser, não haveria lugar para o medo, que me mantém confinada na prisão de minha interioridade doentia. Se eu experimentasse, por mim mesma, a realidade que me fundamenta, estaria sempre tranquila e em paz.

Uma sadia interioridade supõe mobilizar o coração para a imprevisível revelação de um Deus Outro, que faz de meu ser sua morada.  Isso implica adentrar-me com os pés descalços, despojando-me de meu afã de domínio, de controle, “deixando Deus ser Deus”: amor, mistério, surpresa, desconcerto, noite...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor eu já tive a oportunidade de perceber as consequências funestas quando levo uma vida dispersa, agitada, ansiosa, evasiva, inquieta...; e, ao contrário, o que sinto e saboreio quando entro no espaço interior, mesmo que seja por poucos instantes: a paz do coração, a serenidade prazerosa, a percepção do sussurro amável, a brisa que me envolve quando permaneço submergida na certeza de saber que sou amada, sem dependência e nem fragmentação.

Alguns testemunhos confirmam e dão crédito a esta experiência interior: “Fizeste-nos para ti, e inquieto está nosso coração até que descanse em ti” (S. Agostinho). “Nada te perturbe, nada te espante, quem a Deus tem nada lhe falta, só Deus basta” (S. Teresa de Jesus)

Sem a superação cotidiana desse medo, minha missão estará comprometida; perderá sua força inovadora, garantida pela novidade do Projeto de Deus. O compromisso com o Reino requer de mim uma forte dose de coragem e uma alma ágil, animada e vivificada pelo sabor da aventura e da novidade.

Nada de medo nesta terra sobre a qual Jesus pisou e nos corações que Ele visita diariamente.

O velho medo não vigora onde os olhos se abrem para a suprema realidade do mundo como criação de Deus, e da vida como um presente d’Ele.

Vencido o medo, eu me tornarei autêntica, criativa e audaz seguidora de Jesus.

Quem for medroso e tímido volte para trás” (Jz 7,3).


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Jesus conhece a necessidade de intervir no mais escondido de cada um dos seus discípulos; ali estão alojados os mais diferentes medos,  que minam a força e a coragem do seguimento.

* Dar nomes aos medos pessoais: são reais? Imaginários?

* Quê desejos alimenta e sustenta minha vida?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 10,26-33
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Nada te perturbe – fx15
Autor: Kaer e Pe.Joãozinho,scj
Intérprete: Maria do Rosário 
CD: Louvemos o Senhor
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:48



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