terça-feira, 23 de junho de 2020

SÃO PEDRO e SÃO PAULO, 28 de Junho de 2020

SÃO PEDRO e SÃO PAULO, 28 de Junho de 2020

PEDRO E PAULO: 
duas referências inspiradoras no seguimento de Jesus

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15) “Quem és tu, Senhor?” (At 9,5)

Texto Bíblico: Mateus 16,13-19

1 – O que diz o texto?
Os acontecimentos e, sobretudo, as pessoas que encontramos ao longo da existência, são os que vão nos fazendo passar por contínuas transformações. Por isso, quando narramos nossa história de vida, quase sempre mencionamos alguém em particular que nos marcou profundamente. Já não somos mais os mesmos depois de ter conhecido certas pessoas que se tornaram especiais. Nosso olhar e nossa memória retornam a elas frequentemente, por sua constante inspiração e companhia. 

Por isso, a pergunta que Jesus dirige aos discípulos não é superficial – “E vós, quem dizeis que eu sou?” Esta é a questão, a grande pergunta de Jesus que continua ressoando em todos nós, seus seguidores. Dependendo da resposta que damos, isso terá implicações profundas em nossa existência: a centralidade do modo de ser e de agir de Jesus em nossos compromissos, a ressonância de suas palavras em nossa vida, a sintonia com suas grandes opções, a sensibilidade diante dos mais pobres e excluídos, a nova relação com o Pai... Em outras palavras, o encontro com a identidade de Jesus desvela nossa verdadeira identidade e, por isso mesmo, nosso modo de ser e de agir serão cristificados.

Segundo o evangelho deste domingo, só reconhecendo a identidade de Jesus estaremos capacitados para escutar o que Ele tem a nos dizer. Por isso, quando Pedro declarou quem era de verdade Aquele a quem tinham seguido, o Senhor mudou seu nome – “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja”. Só Jesus conhece bem quem somos e o que podemos realizar.

O ser humano é um ser chamado. Chegamos a ser nós mesmos graças ao chamado, ao olhar, à palavra de outro. E na palavra e no chamado que nos vem de Jesus, vamos percebendo que o mistério de Deus, totalmente outro e absolutamente íntimo, nos envolve e nos fundamenta.

Não podemos definir Jesus com dogmas e doutrinas, mas também não podemos deixar de nos fazer a pergunta: “quem é este homem Jesus”? Toda tentativa de responder com fórmulas fechadas não solucionará o problema. A resposta deve ser vivencial, não teórica: “quê dizes tua vida de mim?”, pergunta Jesus.

Nossa vida, enquanto seguidores é a que deve dizer quem é Jesus para nós. Do esforço dos primeiros cristãos por compreender a Jesus devemos fazer nossas as perguntas que foram feitas, não as respostas que deram. Por mais informações que recebamos sobre Ele, por mais normas morais e ritos que aprendamos e pratiquemos, se ninguém nos convida, com sua vida, a prolongar o estilo de vida de Jesus, tudo permanecerá superficial e em nada nos enriquece.


2 – O que o texto diz para mim?
Dar por definitivas as respostas dos primeiros concílios acaba me afundando na rotina da repetição de fórmulas. O decisivo é descobrir a qualidade humana de Jesus e deixar que Ele desvele o que há de mais humano em mim. Afinal, o centro da missão do Mestre de Nazaré está em me ajudar a ser um pouco mais humana, sobretudo nas relações com os outros e com o Pai.

Se eu creio que o importante é a resposta, que já está dada permanecerei em paz e acomodada; isso é grave. Hoje sei que o importante é que eu continue fazendo a pergunta; a resposta me paralisa; a pergunta me mantém acesa e criativa, pois esta tem impacto no modo cristificado de viver.

Uma fé, vivida sem perguntas, acaba se esvaziando daquele mesmo impulso vital de Jesus. Sou seguidora de uma Pessoa (Jesus Cristo) e não de respostas teológicas.

Minha fé cristã hoje é a mesma de Pedro e de Paulo: seguir Jesus Cristo e, em minha maneira de viver, oferecer o Evangelho a todos. Assim se compreende que a Igreja celebre Pedro e Paulo numa única festa. E, por isso, não devo me escandalizar se, com frequência, na Igreja aflore o “Simão”, ao invés de Pedro: as ânsias de triunfalismo, busca de poder, medos na hora da perseguição... Também não posso me escandalizar se, com frequência, aflore o “Saulo”, ao invés de Paulo: fechamento nas próprias ideias e convicções, desembocando na intolerância, no dogmatismo e na violência, inclusive física.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Estes dois grandes personagens (Simão e Saulo) passaram por uma profunda transformação, a partir do encontro com a pessoa de Jesus Cristo; foi um processo lento, sendo lapidados pela graça de Deus até redescobrirem uma nova identidade escondida debaixo das cinzas do auto-centramento e da prepotência; identidade que agora se expressa em novos nomes: Pedro e Paulo.

Como distinguir, na Igreja, “Simão” de “Pedro”? Como distinguir “Saulo” de “Paulo”? Onde estão as fronteiras, se, ao mesmo tempo, Simão é Pedro e Pedro é Simão? Onde estão os limites, se, ao mesmo tempo, Saulo é Paulo e Paulo é Saulo? 

Estes dois personagens me fazem ter acesso à minha condição humana: sou barro, frágil, inconstante... mas carrego um tesouro que me dignifica. Nas profundezas de meu ser, há um “pedro” e um “paulo” escondidos, esperando uma oportunidade para se manifestar. Exteriormente, talvez eu tenha sido muito mais “simão” e “saulo”, mas, o que decide minha vida, é a minha interioridade, morada do “Pedro” e do “Paulo”. É ali que a Graça de Deus trabalha em mim, fazendo emergir, junto a estes dois personagens, o que é mais nobre e mais divino em mim. Deus, na sua eterna paciência, espera momentos especiais para dar o seu “toque” em meu eu profundo, e assim despertar o “pedro” e “paulo” que ainda dormem. 

Diante de mim está Jesus Cristo para me dar a “chave” como a deu a Pedro; ela me facilitará o acesso ao mistério insondável da Vida. Na perspectiva bíblica “céus” significa vida em profundidade, vida expansiva, vida que nunca se acaba. Como dinamismo humanizador, a chave da interioridade é mola mestra que movimenta grandes intuições e sonhos, me retira do individualismo, cultiva a solidariedade, corrige rotas de vida, excita a imaginação, realça o poder criativo...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, eu tenho em minhas mãos as chaves da vida. O que faço com elas? Posso abrir ou fechar, ligar ou desligar, atar ou desatar... “Ter a chave da vida”: abrir ou fechar as portas do futuro, das relações, dos sonhos, da missão... Dar direção à vida. Atar e desatar os nós que bloqueiam o fluir da vida... Aqui está o grande desafio: abrir  ou fechar; me abrir à vida, ao novo, ao outro, ao desafiante ou diferente... ou me fechar no medo, no conhecido, no rotineiro...

Deus confiou e colocou em minhas mãos a “chave da vida”. Ele não impõe, não obriga. Corre o risco de me criar livre. Aqui está minha grandeza, enquanto ser humano: optar por uma vida aberta ou fechada, ser nó ou desatar, ligar ou desligar, expandir ou retrair...

Sempre há o perigo de construir, dentro de mim, um condomínio onde portas se fecham, chaves se perdem, segredos são esquecidos... e, com isso, mergulho na mais profunda solidão.

Minha própria interioridade é a rocha consistente e firme (“tu és Pedro”), bem talhada e preciosa que tenho em mim, para encontrar segurança e caminhar na vida superando os desafios e as inevitáveis resistências na vivência do seguimento de Jesus. 

É no “eu mais profundo”  que as forças vitais se acham disponíveis para me ajudar  a crescer dia-a-dia, tornando-me aquilo para o qual fui chamada a ser. Trata-se da dimensão mais verdadeira de mim mesma, a sede das decisões vitais, o lugar das riquezas pessoais, onde vivo o melhor de mim mesma, onde se encontram os dinamismos do meu crescimento, de onde partem as minhas aspirações e desejos fundamentais, onde percebo as dimensões do Absoluto e do Infinito da minha vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
A oração me torna transparente; ela deixa transparecer o “simão” e o “pedro” de minha interioridade; ela desvela o “saulo” e o “paulo”  que atuam em mim.

A interioridade é espaço aberto, onde, a intimidade com Deus não anula minha personalidade, mas me capacita a fazer uma contínua passagem do “simão para o Pedro”, do “saulo para o Paulo”.

- O que tem predominado em minha vida: “simão ou Pedro”? “saulo ou Paulo”?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 16,13-19
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Paulo de Tarso – fx 04
Autor: Antonio Cardoso
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Cristo vive em mim
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:04

terça-feira, 16 de junho de 2020

SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS, 19 de Junho de 2020

SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS, 19 de Junho de 2020

CORAÇÃO DIVINO QUE NOS HUMANIZA

“...aprendei de mim, que sou tolerante e humilde de coração” (Mt 11,29)


Texto Bíblico: Mateus 11,25-30


1 – O que diz o texto?
Uma das devoções que tiveram (e continua tendo) mais êxito ao longo da história da Igreja é a do Sagrado Coração de Jesus. As “paredes” do universo estão cheias do eco que as palavras da famosa jaculatória deixaram – “Sagrado Coração de Jesus, eu confio em vós”. São incontáveis as vezes que foram pronunciadas, e imensuráveis a fé de que foi portadora.

Graças ao Coração de Jesus, entronizado em milhares de casas e colocado na porta de milhões de lares, se manteve firme a experiência de prolongar a humanidade de Jesus em nossas relações cotidianas, a vinculação do Evangelho com a vida concreta, a vivência do amor, uma maneira original e inspiradora de se situar no mundo (trabalhos, atividades, compromissos...), a sintonia com a Presença Providente de Deus...

Para muitos de nossos contemporâneos, causam certa resistência às representações que mostram Jesus com o coração transpassado e, com frequência, rodeado com uma coroa de espinhos. Se quisermos atualizar esta devoção e encontrar um sentido que responda aos anseios de muitas pessoas de hoje, é necessário deixar de concentrar nosso olhar no “coração físico” de Jesus e recuperar o sentido bíblico e amplo do coração, como centro de nossa afetividade e de nossas decisões mais íntimas. Neste sentido, o Coração de Jesus revela a misericórdia de Deus que se expressa em todas as palavras e atos do Mestre de Nazaré.

A imagem do Coração de Jesus, em sua origem, fala de amor, com maiúsculas. O Amor. Não uma imagem suave das coisas nem uma aproximação só emocional à fé, mas o Amor, que dizemos que é Deus, e que se faz visível em Jesus. Amor verdadeiro, que é uma maneira original de olhar a realidade, conhecendo-a, assumindo-a e comprometendo-se com ela. É assim que Deus nos olha. É assim que Jesus nos olha. 

Seu coração se rompeu numa cruz, mas continua pulsando já ressuscitado. E essa pulsação é hoje clamor em nossa história e nosso presente.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus vivia a partir de seu coração e contagiava com a força poderosa de seu amor e de sua entrega.

Por isso, a melhor devoção ao Sagrado Coração de Jesus é “entrar em Seu coração”, é sentir o amor que queimava n’Ele; é me sentir amada por Ele, é aprender que o caminho do verdadeiro seguimento não é um ato de piedade, mas uma atitude de vida no amor. É descobrir que a verdade das “Nove primeiras Sextas-feiras” não se restringe em “confessar e comungar”, mas está no aprender a amar como Ele me amou.

Estou no coração de Cristo. Estou no Amor de Deus. Fui introduzida na Sagrada Humanidade d’Aquele que, sendo Deus, humanizou-se e se fez semelhante a mim para que eu pudesse me sentir n’ Ele e me tornar um pouco mais humana.

Uma devoção ao Coração de Jesus que não me conduz a estabelecer novas relações humanas, prolongando o modo humano de ser e de viver de Jesus, torna-se uma devoção vazia, estéril, marcada por uma piedade alienante e alienada. 

Na minha cultura atual, a imagem do coração perdeu muito de sua expressão, tornando-se muito banalizado: corações nas emoções, nos desenhos, talhados em árvores, nas taças e chaveiros; corações em canções, rompidos, roubados, feridos, apaixonados, pesados, leves; corações que sentem, e outros insensíveis. O coração parece como um depósito de sentimentos.

Por outro lado, vivo um contexto de muitos “corações de pedra”, intransigentes, cheios de ressentimentos e juízos implacáveis, corações fechados em jaulas de pré-juízos e de suspeitas, que acabam envenenando as relações e rompendo os laços humanos.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A devoção ao Coração de Jesus pode me ajudar a descobrir as enormes possibilidades de meu próprio coração. O Coração divino que humaniza meu coração, tornando-o aberto e sensível a tudo o que é humano; ao mesmo tempo, ativa em um coração que faz solidário e comprometido a afastar de minhas relações tudo o que desumaniza: fechamento, intolerância, julgamento, preconceito, ódio... 

O Coração de Jesus me capacita olhar a realidade, compreender cada pessoa em sua situação e viver oblativamente, a partir da gratidão e da responsabilidade. Ao sentir o pulsar de meu coração em sintonia com o Coração de Jesus me ajuda a recuperar o “humanismo” que estou perdendo. 

Humanizar meu coração para humanizar as relações.

No sentido bíblico, “coração” é uma palavra primordial; ela me remete ao mais profundo e vital de minha essência e existência. O coração designava o complexo mundo interior do ser humano.

O coração profundo é o centro de meu ser, o meu cerne mais íntimo, o coração do coração, que não consiste no sentimento, mas no lugar do encontro com Deus. A antropologia bíblica considera o coração como o interior do ser humano, num sentido muito mais lato que o das línguas latinas, no qual o coração evoca a vida afetiva. Trata-se do centro existencial que permite à pessoa orientar-se como um todo e plenamente em direção a Deus e ao bem.

Recordações, pensamentos, projetos e decisões são alguns dos componentes essenciais desse órgão vital por excelência. O que acontece no coração tem caráter decisivo. “O mistério interior do ser humano, tanto na linguagem bíblica como no não bíblico, se expressa com a palavra coração” (Xavier León-Dufour).

O despertar da identidade única de cada pessoa se dá no santuário de seu interior, que é o coração. Nele está estampada a imagem e semelhança divinas, pois no coração está gravada a imagem divina oculta. São Serafim de Sarov o denomina “o altar de Deus”.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, “o sentido de minha vida não é outro que a busca deste lugar do coração” (Olivier Clément). Ou seja, no centro de mim mesma, unificando meu ser, está o coração, o “cofre” onde se guarda - oculta o que é mais nobre e rico em mim. Por isso Jesus dava tanta importância ao coração: “a boca fala daquilo que está cheio o coração” (Lc 6,45); “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8).

O coração é uma dessas palavras nas quais toda a multiplicidade se torna uno.

É ele que possibilita a pessoa chegar à unificação de todo o seu ser, integrando a corporalidade, a afetividade, a sensibilidade, a razão..., para além da bela expressão de Pascal: “O coração tem razões que a razão não conhece”. O fato é que há “olhos no coração” que permitem compreender o que nem os olhos do corpo, nem a razão são capazes de perceber: “Rogo a Deus que ilumine os olhos dos vossos corações, para que conheça qual é a esperança à qual fostes chamados” (Ef 1,18).

Enfim, o coração do ser humano é a própria fonte de sua personalidade consciente, inteligente e livre. É o lugar de suas escolhas decisivas, fonte das bem-aventuranças, santuário da ação misteriosa de Deus e do encontro com Ele. Por isso, chegar ao lugar do coração é dom de Deus.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Talvez o resumo mais belo do que gera a oração do coração seja o que disse São João Crisóstomo: “O coração absorve o Senhor, e o Senhor absorve o coração, e os dois se fazem uno”.

A intimidade não é fechar-se em si mesmo, mas abertura máxima. A partir do centro do coração, o orante se abre ao coração da realidade.

- Deixar “transparecer” meu coração na vivência cotidiana...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 11,25-30
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Sagrado Coração de Jesus
Autor: Jonny
Intérprete: Jonny
CD: Um toque de fé
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:04



Leitura Orante – 12º DOMINGO TEMPO COMUM, 21 de Junho de 2020

Leitura Orante – 12º DOMINGO TEMPO COMUM, 21 de Junho de 2020

“Analisa com cuidado teus medos e verás que todos são ridículos”

“Não tenhais medo!” (Mt 10,31)


Texto Bíblico: Mateus 10,26-33


1 – O que diz o texto?
O ser humano amadurece no confronto entre desejo e medo. Não há medo sem um desejo escondido e não há desejo que não traga consigo um medo. O desejo e o medo estão profundamente ligados. 

É constitutiva, na natureza humana, a tendência natural de tentar ultrapassar o imediato, de arriscar novos horizontes, de enfrentar perigos, de buscar, de criar, de se aventurar; mas, em seu interior, está também presente a tendência oposta, ou seja, poupar-se e acautelar-se, a necessidade inata de evitar o perigo, de se afastar dos obstáculos, de se acomodar no passado, no conhecido, no que dá segurança...

Há, em todos nós, um desejo de plenitude e o medo do fracasso. No nosso processo de crescimento humano, o medo não superado e o desejo bloqueado vão gerar frustrações; de outro lado, o medo superado e o desejo desbloqueado vão permitir que sejamos mais ousados e criativos.

O evangelho deste domingo nos revela que Jesus é um profundo conhecedor do coração humano; ele sabe de quê somos feitos e o que se passa no mais profundo de cada um de nós. Ele conhece profundamente as inseguranças e os medos que nos habitam.

Por isso, do seu humano coração, marcado com as fibras da coragem, brota este apelo: “Não tenhais medo!” Esta expressão está situada no contexto do envio dos discípulos em missão. Jesus acaba de dizer a seus seguidores que eles serão perseguidos e encarcerados.

Se Jesus nos convida a não ter medo, não é porque nos prometa um caminho de rosas. Não se trata de confiar em que não nos acontecerá nada desagradável, ou, se algo mal nos acontece, alguém nos livrará do perigo. Trata-se de uma segurança que permanece intacta em meio às dificuldades, sabendo que os contratempos não podem atrofiar nosso ser essencial. Deus não é a garantia de que tudo irá bem, mas a segurança de que Ele estará aí presente, em qualquer situação que estivermos envolvidos.

O apelo de Jesus também pode ser aplicado a todas as situações de medo paralisante que podemos encontrar na vida. Por detrás de numerosos comportamentos destrutivos – o consumo compulsivo, a dependência, o ódio, o racismo, a intolerância, a indiferença, a suspeita, a violência, a competição, a exclusão, a prepotência, o abuso de poder ... -  se oculta o medo. O medo continua enchendo nosso planeta de vítimas anônimas, impedindo que a humanização e a harmonia, nossa vocação última, se expressem.


2 – O que o texto diz para mim?
No atual momento, toda a humanidade está atravessada por um terrível medo: a contaminação pelo covid-19. Mas, os grandes medos não aparecem com frequência; são os pequenos medos, que surgem dos encontros diários com a realidade, que roubam da pessoa sua vitalidade e dinamismo. O medo inibe o pensamento, impede a concentração e é, portanto, muito responsável por se fazer às coisas de modo medíocre, sem valor, abaixo das possibilidades e contra as próprias expectativas. 

O medo não é um ato moral nem uma omissão. Sem ser convidado, ele cresce no coração humano. Em tal atmosfera de medo, a imaginação e todas as energias criativas se atrofiam. 

O medo é um câncer que ameaça a fé, o amor e a esperança de pessoas e instituições; ele corrói as fibras humanas, asfixia talentos, esvazia a vida e mata a criatividade. O medo encolhe o ser humano, inibe a decisão e bloqueia os movimentos em direção ao “mais”. Sua intensidade pode anular a capacidade de reação das pessoas ou das instituições; ele impede o discernimento e a busca da solução mais inteligente para os problemas; longe de resolvê-los, pode agravá-los a médio e longo prazo.

Enfim, o medo obscurece o sentido e a direção da vida, tira o brilho, tão própria do amor e seca as fontes da esperança; ele me acovarda e me enterra na acomodação mesquinha.

No evangelho, que acabei de escutar, Jesus faz referência ao medo que pode vir de fora, provocado por aqueles que se fecham e resistem frente à novidade do anúncio do Reino. Mas, também posso considerar o apelo de Jesus – “Não tenhais medo!” – em chave de interioridade; esta expressão se refere a um acontecimento interior, pois o medo é o inimigo de meu eu original. 

Quando o inimigo é uma força externa, nem sempre há motivos para alimentar o medo. Mas quando os inimigos se encontram no meu próprio interior (traumas, recalques, frustrações, fracassos...), provocando medos paralisantes, é preciso ter a coragem para desvelá-los, conhecer a raiz de onde brotam entrar em diálogo e reconciliar-me com tudo aquilo que foi rejeitado e que continua envenenando minha vida. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Posso ser presa fácil de um medo que foi introjetado pelas experiências de insegurança e frustração do passado, e que impede deslanchar todas as minhas potencialidades humanas. Tal medo me aniquila, pois mina toda possibilidade de alimentar a fé confiança em mim mesma, nos outros, e, sobretudo n’Aquela que nunca provoca medo, com ameaças de inferno, julgamentos...

No fundo, o medo é a ignorância com respeito a mim mesma; vivo a cultura da superficialidade e esqueço o caminho que dá acesso ao meu coração. Se eu conhecesse meu verdadeiro ser, não haveria lugar para o medo, que me mantém confinada na prisão de minha interioridade doentia. Se eu experimentasse, por mim mesma, a realidade que me fundamenta, estaria sempre tranquila e em paz.

Uma sadia interioridade supõe mobilizar o coração para a imprevisível revelação de um Deus Outro, que faz de meu ser sua morada.  Isso implica adentrar-me com os pés descalços, despojando-me de meu afã de domínio, de controle, “deixando Deus ser Deus”: amor, mistério, surpresa, desconcerto, noite...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor eu já tive a oportunidade de perceber as consequências funestas quando levo uma vida dispersa, agitada, ansiosa, evasiva, inquieta...; e, ao contrário, o que sinto e saboreio quando entro no espaço interior, mesmo que seja por poucos instantes: a paz do coração, a serenidade prazerosa, a percepção do sussurro amável, a brisa que me envolve quando permaneço submergida na certeza de saber que sou amada, sem dependência e nem fragmentação.

Alguns testemunhos confirmam e dão crédito a esta experiência interior: “Fizeste-nos para ti, e inquieto está nosso coração até que descanse em ti” (S. Agostinho). “Nada te perturbe, nada te espante, quem a Deus tem nada lhe falta, só Deus basta” (S. Teresa de Jesus)

Sem a superação cotidiana desse medo, minha missão estará comprometida; perderá sua força inovadora, garantida pela novidade do Projeto de Deus. O compromisso com o Reino requer de mim uma forte dose de coragem e uma alma ágil, animada e vivificada pelo sabor da aventura e da novidade.

Nada de medo nesta terra sobre a qual Jesus pisou e nos corações que Ele visita diariamente.

O velho medo não vigora onde os olhos se abrem para a suprema realidade do mundo como criação de Deus, e da vida como um presente d’Ele.

Vencido o medo, eu me tornarei autêntica, criativa e audaz seguidora de Jesus.

Quem for medroso e tímido volte para trás” (Jz 7,3).


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Jesus conhece a necessidade de intervir no mais escondido de cada um dos seus discípulos; ali estão alojados os mais diferentes medos,  que minam a força e a coragem do seguimento.

* Dar nomes aos medos pessoais: são reais? Imaginários?

* Quê desejos alimenta e sustenta minha vida?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 10,26-33
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Nada te perturbe – fx15
Autor: Kaer e Pe.Joãozinho,scj
Intérprete: Maria do Rosário 
CD: Louvemos o Senhor
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:48



quarta-feira, 10 de junho de 2020

Leitura Orante – 11º DOMINGO TEMPO COMUM, 14 de Junho de 2020

Leitura Orante – 11º DOMINGO TEMPO COMUM, 14 de Junho de 2020

Seguidores de Jesus: movidos à compaixão

“...vendo as multidões, Jesus sentiu compaixão delas, 
porque estavam desorientadas e indefesas” (Mt 9,36)


Texto Bíblico: Mateus 9,36-10,8


1 – O que diz o texto?
Depois do percurso quaresmal e pascal, retomamos o tempo litúrgico conhecido como “Tempo Comum” (Ano A), seguindo o evangelista Mateus. Trata-se de uma longa “caminhada contemplativa”, deixando-nos inspirar pelo modo de ser e de agir de Jesus. Estamos na escola do discipulado, deixando-nos modelar pelo Mestre de Nazaré: seu estilo de vida, sua forma de pensar e de viver a relação com o Pai, sua maneira de entender o ser humano, sua relação com os outros, seu modo de conhecer, de crer, de esperar, de amar, sua liberdade diante da religião e das tradições, sua atitude diante das vítimas, dos sofredores e incluídos...

E o evangelho de hoje nos indica que Jesus vive uma presença diferente e inspiradora no contexto social e religioso de seu tempo; seu olhar contemplativo vê o emergente, o alternativo, o novo..., nas mesmas realidades que para outros são uma lixeira de coisas mortas, de amargura e desalento. Ele tem uma sensibilidade para perceber o Reino de Deus onde aparentemente não está, onde outros veem uma massa de pecadores, de excluídos que não conhecem a lei, de impuros, de publicanos a serviço do império romano.

A partir do olhar misericordioso do Pai, Jesus também contempla a vida e vislumbra aquilo que o olhar superficial e acostumado à linguagem da sinagoga não é capaz de descobrir.

Ao deixar-se impactar pela “massa sobrante”, “cansada, abatida, desorientada”, Jesus sente o despertar de suas entranhas compassivas. Esse é o sentido da verdadeira compaixão: “amor de entranhas”. Elas são o lugar onde estão localizadas as nossas emoções mais íntimas e mais intensas. Constituem o centro de onde brota o amor oblativo, que nos move a sair de nós mesmos para entrar em sintonia com a dor e a miséria do outro.

Quando os evangelhos falam da compaixão de Jesus como estremecimento de suas entranhas, eles expressam algo muito profundo e humano. A compaixão que Jesus sentia era obviamente muito diferente dos sentimentos superficiais ou passageiros de pesar ou de simpatia pela situação do outro. Pelo contrário, ela está relacionada com a palavra hebraica “rahamim”, que se refere ao ventre materno de Deus.

Na verdade, a compaixão é uma emoção tão profunda, central e poderosa em Jesus, que só pode ser descrita como um movimento de contração do “ventre de Deus”. Nele, está oculta toda a ternura e toda a bondade divina. Nele, Deus é pai e mãe, irmão e irmã, filho e filha. Nele, todos os sentimentos, emoções e paixões são uma só coisa no amor divino. Nesse sentido, a compaixão revela o abismo de ternura imensa, inesgotável e insondável de Deus. 

Jesus, presença visível da compaixão do Pai, sofre ao ver a distância que havia entre o sofrimento dos enfermos, excluídos, desnutridos e estigmatizados pela sociedade, e a vida que o mesmo Pai queria para todos. Jesus, então, põe em marcha um “movimento compassivo”, constituídos de discípulos e discípulas, que se deixaram seduzir por Ele, para prolongar na vida o mesmo compromisso compassivo do Mestre.


2 – O que o texto diz para mim?
Aqui, não se trata de adesão a um mero programa ou a uma doutrina, mas do convite a um seguimento (“vir comigo”), no calor e intimidade de uma relação pessoal que é dirigida a cada um em particular. Para isso, requer-se uma resposta sem reservas, com a marca da compaixão.

Sem compaixão, todo seguimento de Jesus torna-se vazio, burocrático, rotineiro, normativo...

A compaixão é princípio de humanidade e expressão da identidade do ser humano. Na sua essência, a pessoa pode ser definida como ser compassivo. Sem compaixão, não há humanidade, pois predomina a violência, a dureza de coração, a indiferença, o fechamento fanático da mente e da inteligência. 

Enquanto compassivo, o ser humano se sente solidário, terno, próximo... tanto diante da situação dos outros seres humanos, vítimas de exclusão e violência, como diante da natureza ferida, de forma que todo ato de homicídio e de ecocídio se converte em suicídio; matar a outra pessoa ou destruir a natureza é matar-se ou destruir-se a si mesmo. Sem compaixão, o ser humano se torna lobo solitário que se guia pela lei da selva. Sem compaixão, não há respeito pela vida dos outros, mas a guerra de todos contra todos.

De fato, a compaixão não é um sentimento menor de “piedade” para com os que sofrem.

A compaixão não é passiva, mas sim altamente ativa; é a capacidade de compartilhar a própria paixão com a paixão do outro. Trata-se de sair de si mesmo e de seu próprio círculo e entrar no universo do outro enquanto outro, para sofrer com ele, para cuidar dele, para alegrar-se com ele e caminhar junto a ele, e para construir uma vida em comunhão e solidariedade.

Quem já foi tocado por um olhar de uma pessoa pobre ou sofredora, e deixou que este olhar penetrasse no fundo do seu coração, sabe que não sai “ileso” desta experiência; algo mudou dentro de si.

É uma experiência que o modifica profundamente, tanto que muitos interpretam como uma “experiência de Deus”, uma experiência de ter conhecido no rosto do pobre o rosto de Cristo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
As comunidades cristãs, ao longo de sua história, se moveram entre duas atitudes: a insensibilidade diante do sofrimento humano e a compaixão para com as vítimas. Hoje, só terá credibilidade o cristianismo se, como o bom Samaritano, deixa-se afetar pela situação do outro e realiza gestos compassivos. 

Por isso, às notas tradicionais aplicadas à Igreja: una santa, católica, apostólica (os tradicionalistas acrescentam uma quinta: “romana”, que não faz parte do Credo), poderíamos acrescentar outras duas: samaritana e compassiva. Não é evangélica uma Igreja só preocupada com ritos, leis, doutrinas, sacrifícios..., desprovida de compaixão. É na vivência compassiva que a Igreja mais se identifica com Aquele que é centro mesmo dela, o Jesus Compassivo. Afinal, somos seguidores de uma pessoa compassiva e não simples adeptos de uma religião ou de uma determinada doutrina.

E que é a Igreja senão a grande comunidade, constituída de pequenas comunidades, seduzidas por esta compaixão ousada de Jesus? A Igreja, para ser Igreja, precisa fundamentar-se na compaixão de Jesus.

Para que serve a Igreja se não mantém aceso o fogo da compaixão de Jesus que aquece os corações e transforma sem cessar as estruturas? Jesus não estabeleceu nenhum sistema de dogmas, normas e ritos. Não é o fundador de uma religião, mas de um movimento vivo, ativado pela compaixão e animado por uma esperança sempre nova, renovadora da vida. Para que servem todos os dogmas, normas e ritos se não despertam a compaixão nem ajudam à vida em sua incessante renovação, diversidade e criatividade?

O Evangelho deste domingo também me possibilita considerar minha interioridade como “Israel”; Jesus me envia às “ovelhas perdidas” de meu interior: afetos, desejos, sentimentos, paixões, feridas, fracassos, traumas... Reordenar a vida interior, evangelizar minhas profundezas para que sejam presenças compassivas.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a evangelização começa pela própria interioridade. No percurso interior (caminho), levar a luz do Evangelho, a mensagem da boa-nova. Tudo deve ser integrado, acolhido, iluminado... para dar um novo sentido à minha própria existência. Carrego muitos “nomes”, muitas presenças que ainda não foram acolhidas.

A finalidade da evangelização das profundezas é colocar Deus em seu devido lugar em minha vida. É retornar a Ele, vivendo plenamente minha humanidade e deixando-a vivificar pelo seu Espírito. Trata-se, dessa maneira, de experimentar a salvação em todas as dimensões de meu ser, de recompor-me, reajustando-me às leis fundamentais da vida.

É indispensável “unificar-me” por dentro e descobrir que posso reinventar-me a cada dia, a cada passo, conduzindo conscientemente minha vida em direção à plenitude e não arrastá-la pelo chão.

Quem está “unificado” tem a coragem de redefinir-se, de eleger, de assumir-se; é alguém preparado para dar um salto arrojado e criativo.

A discreta presença do meu Mestre interior me move a acolher meu potencial de ternura, de cuidado e de resistência diante de todas aquelas situações e forças que desintegram a vida e me dividem por dentro. Então, minha interioridade evangelizada fará emergir a força compassiva que estava reprimida.

Só poderei ser compassiva na relação com os outros quando eu for compassiva com minha própria história de vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
A compaixão está cada vez mais ausente da esfera pública e de minhas relações com o outro diferente e com o outro que sofre. Aqui está a chave da incapacidade de minha sociedade para responder aos desafios atuais. Afirmo ser seguidora do Jesus Compassivo e, no entanto, a realidade deixa transparecer a trágica face da “sem paixão”; está se tornando “normal” ser intolerante, violento, preconceituoso, racista, misógino,...

Minha presença, frente ao contexto pandêmico, social, político, religioso..., revela “compaixão profética” ou “massa de manobra” da violência institucionalizada?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 9,36-10,8
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Ter compaixão – fx 09
Autor: Juliana de Paula
CD: Obras de arte
Intérprete: Juliana de Paula
Coro: Dalva Tenório, Giovane, Karla Fioravante, Robson Jr. E Alexandre Malaquias 
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:09


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Leitura Orante – CORPUS CHRISTI, 11 de Junho de 2020

Leitura Orante – CORPUS CHRISTI, 11 de Junho de 2020

CORPUS CHRISTI: 
“Deus se faz Corpo em nossos corpos”

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue 
permanece em mim e eu nele.” (Jo 6,56)


Texto Bíblico: João 6,51-58


1 – O que diz o texto?
O cristianismo foi muitas vezes compreendido como uma religião do “espírito” contra a “carne”, uma religião do desprezo do corpo e inimiga de tudo o que se refere à dimensão corporal. Se isso é verdade, vai totalmente contra a primeira inspiração de Jesus e da Igreja, que proclamaram e continuam proclamando uma religião do “corpo”, ou seja, do Deus Encarnado na história (na carne) dos homens e mulheres.

É isso que nos revela a festa de “Corpus Christi”; é a festa que recolhe todas as festas cristãs e as condensa na “carne” do Corpo de Jesus, com sua riqueza de sentidos e significados.

“Tocar a carne de Cristo” implica tocar e acolher nossa própria “carne”, ou seja, o corpo como lugar onde Deus faz sua morada. Assim vamos buscando compreender o que é a Encarnação.

O próprio Deus se fez corpo, no corpo de uma mulher: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

A Encarnação foi o caminho que a Trindade escolheu para se aproximar da humanidade e fazer história conosco. Nosso corpo humano, feito de barro – vaso frágil e quebradiço – tornou-se o lugar privilegiado da chegada e da revelação do amor trinitário.

“Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós?” (1Cor 6,19)

O nosso corpo é o “templo” santo e santificado, onde Deus Trino faz sua morada.

O corpo é presença e linguagem - tudo nele fala: fala o rosto, falam os olhos, falam os movimentos e as posturas, falam os gestos, acompanhando, reforçando e expressando a intenção íntima.

Celebrar “Corpus Christi” é “cristificar” nossos corpos.

Cresce cada vez mais a consciência de que não “temos um corpo” que nos aprisiona, mas que somos a corporeidade, esse sistema complexo de matéria e energia, fonte de sensações, de expansão, de prazer...

O corpo é a primeira condição de possibilidade de nosso “ser no mundo”, único modo disponível para relacionar-nos com a natureza, com os outros e com o que nos transcende. Em definitiva, único modo de ser, e de sermos humanos. 


2 – O que o texto diz para mim?
Sou corpo que vibra e pulsa que necessita do abraço e do olhar de outro corpo, do calor de outras peles. E ali encontro Deus, pois Ele quis fazer-se corpo e sangue, para acariciar com meus braços, para olhar com os meus olhos, para respirar com os meus pulmões, para amar com meu coração, para fazer ardentes minhas entranhas compassivas... Aqui, nas transformações do corpo, Ele se faz presente. 

Diante do Corpo de Cristo, meu corpo se plenifica na comunhão com outros corpos, com Deus e com o corpo da natureza. Em Jesus, Deus se revelou encarnado na história e, por sua atuação, morte e ressurreição, deixou transparecer que fez do universo seu Corpo. A presença real de Jesus, no pão e vinho da Eucaristia, me desperta a reconhecê-Lo presente no coração do Cosmos e da História.

Meu humilde corpo é parte da Criação inteira e meu bem-estar faz sorrir a natureza.

O evangelho deste dia me revela que a união ativa do discípulo com Jesus expressa-se, agora, mediante a metáfora do “comer” e do “beber”. A adesão a Jesus é adesão de amor.

Jesus quis permanecer entre as pessoas de modo diferente. Não aceitou ser peça de museu, nem fonte de estudos eruditos. Quis permanecer vivo. Escolheu a forma convivial da refeição. É em comunidade que se celebra sua memória. O pão do cotidiano, o vinho da festa; o pão do alimento, o vinho da entrega radical.

O pão e o vinho, comido e bebido, se transformam em mim; o corpo de Cristo e seu sangue me transforma n’Ele. Pelo pão e vinho, vivo e me alegro. Pelo corpo e sangue de Jesus, Ele vive em mim e me alegra. Comer do seu corpo e beber do seu sangue significa “ingerir” e fazer minha, sua mentalidade, suas preferências, suas opções, seu estilo de vida, sua original maneira de viver, de pensar e de atuar...

Alimentar-me d’Ele é voltar ao mais puro, ao mais simples e mais autêntico de seu Evangelho; interiorizar suas atitudes mais básicas e essenciais; acender em mim o impulso de viver como Ele; despertar minha consciência de discípula e seguidora para fazer d’Ele o centro de minha vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Tradicionalmente, a festa de “Corpus Christi” acontece em meio a grandes pompas e suntuosas procissões. Belos tapetes são confeccionados nas ruas para que o cortejo, carregando o “Corpo de Cristo”, passe por ali. Este ano, por causa da situação pandêmica que estamos vivendo, as manifestações externas certamente não vão ocorrer. Talvez fosse uma ocasião privilegiada para repensar e redescobrir o verdadeiro sentido deste dia: fazer a experiência da “procissão interna”, deixando o “Corpo de Cristo” circular por meu corpo, para que este fique mais “cristificado”.

Todas as minhas demonstrações de veneração e respeito para com as “espécies consagradas do pão”, estão muito bem. Mas ajoelhar-me diante do Santíssimo e continuar menosprezando ou ignorando o corpo dos irmãos e irmãs, sobretudo dos mais sofredores e excluídos, é um escárnio. 

A última coisa que poderia ter ocorrido a Jesus era pedir que os demais seres humanos se pusessem de joelhos diante d’Ele. Ele, sim, se ajoelhou diante de seus discípulos para lhes lavar os pés; e, ao terminar essa tarefa de escravos, lhes disse: “vós me chamais de Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque sou. Se eu, o Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,13). Essa lição parece que não despertou tanto impacto em mim. “É mais cômodo transformar Jesus em “objeto” de adoração” que imitá-lo no serviço e na disponibilidade para com todas as pessoas. É uma ofensa prostrar-se diante do Corpo Eucarístico e distanciar-se de tantos corpos violentados que gritam: “eu quero respirar”.

O problema é que, com frequência, transformo a Eucaristia num rito cultual, tornando-se uma pesada obrigação que, se pudesse, tiraria de cima de meus ombros. Ela acabou se convertendo numa cerimônia rotineira, carente de convicção e compromisso, um ritual que tranquiliza as consciências, mas não modifica as atitudes. E, às vezes, se utiliza como ato de ostentação e pompa solene, que fomenta a adoração e a devoção, mas não transforma nem a Igreja, nem a sociedade.

A Eucaristia foi, para as primeiras comunidades cristãs, o ato mais subversivo imaginável. Os cristãos que a celebravam se sentiam comprometidos a viver o que o sacramento significava, conscientes de que recordavam o que Jesus tinha sido e comprometendo-se a viver como Ele viveu.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor é preciso sacudir minha rotina e mediocridade. Não posso comungar com Cristo na intimidade de meu coração sem comungar com os irmãos que sofrem. Não posso compartilhar o pão eucarístico ignorando a fome de milhões de seres humanos, privados de pão e de justiça. É uma ofensa dar a paz uns aos outros, sendo canais propagadores de ódio, de preconceito e intolerância. É um engano manifestar que estou em comunhão junto à mesa quando, na realidade, sou mediadora da “cultura da indiferença”.

Corpus Christi é um chamado urgente para que eu prostre diante do Cristo, humilde e caminhante, que passa continuamente diante de mim; passa vestido de mendigo, desempregado, enfermo, faminto, solitário, abandonado..., que me convida a viver a Eucaristia, não como milagre nem como mistério, mas como lugar de encontro com os mais necessitados.

Está bem que passem procissões com o Pão Eucarístico pelas ruas, com toda solenidade e pompa. Mas, que pensará Jesus ao passar diante das casas onde hoje falta o pão? Que pensará Jesus ao passar diante de crianças que tem fome? Que pensará Jesus ao passar diante de homens e mulheres que o acompanham com o estômago vazio, sendo Ele mesmo o “verdadeiro pão”? Quê pensará Jesus ao ser levado nos “andores” e carros alegóricos por pessoas que não conhecem a fome, enquanto à margem aplaudem os famintos?


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Meu corpo é tocado pela encarnação de Jesus. E lembro de que Deus conhece minha estrutura. Ele sabe de que barro foi feito.

Rezar minha humanidade, meu corpo de ser humano. 

Levar para minha oração os desafios do cotidiano, os imprevistos da vida. 

Ser humana diante de Deus, deixar meu corpo falar a Deus.

Rezar com meu corpo. E agradecida bendizer sempre o Senhor.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 6,51-58
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Lição de amor – fx 09
Autor: Padre Fábio de Melo
Intérprete: Padre Fábio de Melo
CD: De Deus um cantador
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:50