terça-feira, 26 de maio de 2020

Leitura Orante – PENTECOSTES, 31 de Maio de 2020

Leitura Orante – PENTECOSTES, 31 de Maio de 2020

PENTECOSTES: “somos terras do Espírito”

...soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22)


Texto Bíblico: João 20,19-23


1 – O que diz o texto?
A festa de Pentecostes é a culminância de todo o tempo pascal. As primeiras comunidades cristãs tinham claro que tudo o que estava se passando nelas era obra do Espírito, e tudo o que o Espírito tinha realizado em Jesus, agora estava realizando em cada um deles. 

Também para cada um de nós, celebrar a Páscoa significa descobrir a presença do Deus-Espírito em nosso interior e na realidade que nos envolve, ora como brisa mansa, ora como vento impetuoso.

Tanto a “ruah” hebraico como o “pneuma” grego significam ar, vento, sopro. É neutro em grego, masculino em latim (“spiritus”), feminino em hebraico, pois transcende, acolhe e abençoa todas as identidades de gênero. É alento vital profundo. Brisa suave no sufoco, vento forte na apatia. “O vento sopra onde quer”, vem de tudo e de sempre, nos leva onde não sabemos.

A raiz da palavra “ruah”, nas línguas semíticas, é “rwh”, que significa o espaço existente entre o céu e a terra, que pode estar em calma ou em movimento. Seria o ambiente no qual os seres vivos bebem a vida. A terra mesma era concebida como um ser vivo, o vento era sua respiração.

Nestas culturas, o sinal de vida era a respiração. “Ruah” veio a significar “sopro vital”. Quando Deus modela o homem de barro, sopra em seu nariz o hálito de vida. 

No Evangelho deste domingo, prolongando o sexto dia da criação, Jesus sopra sobre os apóstolos para comunicar seu Espírito. 

Pentecostes vem nos recordar que o Espírito faz parte de nós mesmos, constitui nossa verdadeira identidade e não tem que vir de nenhum lugar. Somos habitados por Ele, está em nós, antes mesmo que nós começássemos a existir. É o fundamento de nosso ser e a causa de todas as nossas possibilidades de crescer em todas as dimensões da vida. Nada podemos fazer sem ele, como também não podemos estar privados de sua presença em nenhum momento. Todas as orações, encaminhadas a pedir a vinda do Espírito, só tem sentido quando nos levam a tomar consciência de sua presença e ação em nós; tais orações ativam em nós o impulso para nos deixar conduzir por essa presença inspiradora e criativa.

Assim é o Espírito que vibra na entranha do infinitamente grande e do infinitamente pequeno, nesta nossa Terra e no universo sem medida. O Espírito sopra onde quer que é como dizer “em tudo”, pois ama tudo e anima tudo. É a “alma” de tudo quanto vive e respira. É a esperança invencível, a aspiração irresistível de todos os seres, sem exceção. É a energia que toma forma na matéria e a faz matriz inesgotável de novas expressões de vida, sem fim.

Nesse sentido, nós somos a terra propícia onde atua o Espírito. Onde há mais carência, vulnerabilidade, pobreza... há mais e maiores possibilidades criativas. Nenhuma situação pode afastar-nos de Sua visita. Toda terra baldia é boa para o Espírito. Ele é o buscador incansável e com um “sim” ousado e forte recria de novo nossa história, estabelecendo o “cosmos” (harmonia e beleza”) em nosso “caos” existencial. 


2 – O que o texto diz para mim?
As “terras do Espírito” albergam milhares de nomes: chama-se esperança para aqueles que sonham outro mundo possível; chama-se amada paz para aqueles que vivem em meio à barbárie dos conflitos; chama-se liberdade para aqueles que foram privados dos seus direitos fundamentais; chama-se justiça para aqueles que vivem continuamente sendo espoliados e explorados; chama-se beleza, porque tudo o que foi criado é bom e precioso; chama-se humanidade porque é neste “húmus-chão” onde a presença da “Ruah” transforma a existência.

No silencioso sussurro da voz do Espírito, toda minha realidade interior fica abençoada: os sentimentos contraditórios, os dinamismos opostos, os pensamentos divergentes..., se harmonizam. Ele “desce” para me encontrar e despertar minha vida atrofiada. Com seu toque, uma identidade nova ressurge: não sou mais estrangeira, nem inimiga de mim mesma. Sua presença dá calor e sabor à minha existência.

São tantas as pessoas que fazem experiência de vida no Espírito, que bebem d’Ele, vivem d’Ele, muitas vezes sem saber disso; elas têm uma visão aberta e são motivo de alegria e de cuidado para aqueles que delas se aproximam; homens e mulheres que levam alívio ao tecido da existência humana, pois, com suas presenças, dão um toque de cor e calor à realidade; como brisa leve, situam-se junto àqueles que atravessam momentos de desânimo, de tristeza e de fracasso...

O Espírito é o artífice secreto de todas as cores e texturas da vida, da beleza, que conheço e daquela que ainda me aguarda. Ele é a “alma do mundo” e disso só posso fazer aproximações, vislumbres... 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Reconheço o Espírito pelos efeitos que provoca: sem saber de onde vem nem para onde irá, me golpeia e clama no sofrimento dos inocentes, grita em todos os ambientes que maltratam a vida, ali onde não se respeita a dignidade e o valor das criaturas. Ele me alcança na expressão terna de um rosto, na tonalidade de uma voz, na carícia da natureza...

Ali onde meu ego se esvazia, o Espírito toma o lugar que lhe pertence, desde o princípio e para sempre.

Esse lugar não é um espaço físico nem está situado no tempo, senão que esse lugar está dentro vai comigo lá aonde vou. São “terras do Espírito”, e habitá-la é minha promessa.

A humanidade sempre sonhou e buscou a “terra prometida”; no entanto, esta não se reduz a um lugar geográfico ou um espaço paradisíaco. São as “terras do Espírito”, terras prometidas a todos que vivem a partir de sua própria interioridade.  É preciso descalçar-se para entrar nessas terras, fazer-se cada vez mais leves mais humildes, peregrinos... Quem se deixa conduzir pelo Espírito, nenhuma terra lhe é estranha; ao contrário, tudo lhe é familiar. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, eis que me encontro agora no tempo do “distanciamento social”, para não me contaminar. Imperceptíveis partículas me ameaçam onde menos espero. E procuram minar e destruir meu sistema vital.

Mas não devo esquecer que há outro tipo de “bendito contágio”, que procura ter acesso à minha interioridade mais profunda: é o contágio do Espírito, que me envolve e me pede que tire todas as máscaras com as me defendo d’Ele. É o Espírito que alenta (suspira) na beleza, na arte, nas relações de amor incondicional, no cuidado compassivo, na presença solidária, nas pessoas que ajudam desinteressadamente, na hospitalidade da vida... 

Jesus Ressuscitado, no encontro com os discípulos me entregou definitivamente este Espírito, sua santa Ruah que o habitava e o levou a entregar sua vida em favor da vida. 

É a “Ruah” que produz o contágio espiritual e que foi derramada sobre toda a humanidade.

A Santa Ruah é a memória permanente do “sim” do Abbá e de Jesus para todos os seres humanos. Não sou abandonada do Amor, nem da Misericórdia de meu Deus. Onde menos penso, ali surgem sinais de um grande e apaixonado amor pela humanidade. Tanto amou Deus o mundo, tanto amou Jesus à humanidade, tanto me amou que me entregou o Espírito Santo, essa bendita contaminação que me envolve por todos os lados, para que “eu tenha vida em abundância”.

Santa Ruah! Bendito contágio!


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Sou humana, quando deixo que, dentro de mim, o Espírito de Deus encontre espaço livre para mover-se, sussurrar e suscitar inquietações. Ao habitar-me, o Espírito não me invade, nem se impõe. 

- Abrir espaço à sua presença, para brotar uma sadia convivência que potencia o melhor de mim mesma, para meu coração e abrir os sentidos para que fiquem mais alertas e sintonizados com as surpresas que brotam da vida.

- No ritmo da silenciosa respiração, sentir a “Santa Ruah” tendo acesso às profundezas de meu ser, pacificando, integrando..., despertando novas energias e impulsos criativos e rompendo o medo, a apatia, a falta de sentido...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 20,19-23
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: O sopro
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Canções que a vida escreveu
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:29

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