quinta-feira, 30 de abril de 2020

Leitura Orante – 4º Domingo da PÁSCOA, 03 de Maio de 2020

Leitura Orante – 4º Domingo da PÁSCOA, 03 de Maio de 2020.

BOM PASTOR: na escola da vida...

“Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10)


Texto Bíblico: João 10,1-10


1 – O que diz o texto?
Todo 4º domingo de Páscoa é dedicado ao tema do Bom Pastor. Embora o Evangelho de hoje não fale de “aparições” do Ressuscitado, não nos afastamos do tema pascal: a “Vida” é o verdadeiro tema pascal.

A fé pascal é isso: crer na vida. E quando dizemos “crer na vida”, não estamos falando em professar crenças, dogmas, doutrinas... Dizemos viver; dizemos confiar no potencial de vida em nós mesmos e nos outros; dizemos rebelar-nos contra todos os poderes que asfixiam a vida; dizemos fazer-nos presentes junto àqueles cujas vidas estão feridas; dizemos ser humilde fermento que transforma e levanta a história; dizemos respirar em paz e continuar caminhando cada dia, apesar do fracasso, da doença e da morte... 

Crer na Páscoa é uma maneira original de ser e de viver.

Para crer n’Aquele que é o Vivente, não é necessário sepulcros vazios, nem anjos e nem aparições milagrosas, pois tudo está “animado”(inspirado) pelo Anjo da Vida, tudo é milagre, todos os sepulcros estão vazios de ausência, mas cheios de boa presença, da Graça de ser que Jesus viveu. 

Só é preciso que abramos o coração e os olhos para apalpar a Vida em todas as mãos e pés feridos, em tudo o que é e palpita: o caminhante anônimo, o imigrante expulso, os índios invadidos, o ancião solitário, a criança abandonada, os enfermos esquecidos, os sem teto-pão-trabalho... 

A presença do Pastor Ressuscitado, que vem ao nosso encontro em cada passo, nos chama pelo nosso nome e nos diz no segredo do coração: “amigo, amiga, não temas; confia e vive!”.

O Evangelho é um contínuo chamado à Vida. Não qualquer vida, mas a Vida verdadeira, a Vida que deseja ser despertada para romper com tudo aquilo que a limita. Por isso, o relato do Bom Pastor é uma verdadeira catequese sobre o encontro com Aquele que é Vida e que é fonte de Vida em crescente amplitude. 


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus não vem prolongar a vida biológica, vem comunicar a Vida de Deus que Ele mesmo possui pelo Espírito e da qual pode dispor. Ao mesmo tempo, vem ativar em mim as potencialidades de vida que ainda não encontraram possibilidades de expressão. Sou um manancial de vida que se visibiliza na criatividade, na capacidade de sonhar, no encontro compassivo com os outros, na comunhão com todas as manifestações de vida.

Em Jesus acontece algo totalmente novo; Ele traz uma nova maneira de viver e de comunicar vida que não cabe nos meus esquemas. É justamente isso o que mais atrai em sua pessoa. Quem entra em comunhão de vida com Ele, conhece uma vida diferente, de qualidade nova, expansiva...

Nesse sentido, a experiência do Seguimento de Jesus é uma verdadeira “escola de vida”, cujo aprendizado me leva ao âmago do meu ser, para enraizar minha vida no coração da Trindade, dele haurir a seiva da vida divina e deixar-me plenificar pela graça transbordante de Deus.

Pois, em minha vida flui a plenitude da Vida, e minha vida flui para sua plenitude, em passagem ou páscoa permanente. Nada mais contrário ao espírito do Evangelho que a vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores...

Jesus de Nazaré “passou fazendo o bem”, não de qualquer modo. Aquele homem que movia multidões em toda a Galiléia, por sua pregação e milagres, não era um revolucionário violento. E, no entanto, nem por isso, deixou de ser inquietante e perigoso. Como Bom Pastor, aproximou-se e cuidou, de forma preferencial, dos mais fracos, pequenos, necessitados..., deixando-se “tocar” e “tocando” as situações humanas mais rejeitadas, mais quebradas, mais dolorosas, mais sofredoras e marginalizadas...

Como Bom Pastor, Jesus transbordou ternura sobre minha humanidade ferida, despertando a vida atrofiada e escondida em meu interior.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Para o evangelista João, a “vida” é uma totalidade, ou seja, a vida presente, a vida atual, possui tal plenitude que, com toda razão, posso chamá-la de “vida eterna”; uma vida com tal força que nem a morte mesma terá poder sobre ela. A vida eterna, então, não é um prolongamento ao infinito de minha vida biológica. É a dimensão inesgotável e decisiva de minha existência. Ela torna-se “eterna” desde já.

Preciso adquirir uma consciência mais profunda da vida enquanto “ser já ressuscitada”, perceber as pulsações desta vida eterna que está em mim, do mesmo modo que, prestando atenção, percebo as batidas do coração de toda a criação. Nesse sentido, a vida tem a dimensão do milagre e até na morte anuncia o início de algo novo; ela carrega no seu interior o destino da ressurreição. “Minha vida é uma sucessão de milagres interiores” (Etty Hillesum). Vida plena prometida por Jesus.

Nem sempre sei viver de maneira intensa: conformo-me com uma vida estreita, estéril, fechada ao novo, carregada de “murmurações”, presa ao cotidiano repetitivo e “normótico”. O dinamismo do Seguimento de Jesus, no entanto, é gerar vida, possibilitar que o discípulo viva a partir da verdade mais profunda de si mesmo; ou seja, viver a partir do coração, do “ser profundo”.

A imagem de Jesus “Bom Pastor”, conduzindo e abrindo novos espaços para suas ovelhas, me ajuda a conhecer minha própria interioridade (redil) e despertar minha vida, arrancando-a de seu fatal “ponto morto”, de seus limites estreitos e constituindo-a como vida que se desloca em direção a novos horizontes.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor o seguimento proporciona vigor inesgotável, minha vida se destrava e torna-se potencial de inovação criadora, expressão permanente de liberdade, consciência, amor, arte, alegria, compaixão... É vida em movimento, gesto de ir além de mim mesma; vida fecunda, potencial humano. Vida com fome e sede de significado, que busca o sentido... Vida que é encontro, interação, comunhão, solidariedade. Vida que é seduzida pelo amor, pela ternura. Vida que desperta o olhar para o vasto mundo. Vida que é voz, é canto, é dança, é festa, é convocação...

Sou Vida, não há lugar para o temor!

Na Igreja de hoje, assim como naquela de São João, devo ser presença de compreensão, de abertura, de acolhida, de compaixão, de tolerância e de perdão, caso eu queira multiplicar a vida em abundância e semear a esperança. Se asfixiar as pessoas, se recusar a acolhê-las como são, se as condenar, não posso pretender querer alimentar a vida em abundância n’aquela que me são confiados. Tenho esta responsabilidade de abrir espaços para que a vida vá se expandindo. É a mais bela das vocações e é a única maneira de ser fiel ao Cristo Bom Pastor.

Na vivência pascal sou tomada de uma “moção à vida”, que me impulsiona a prolongar o ministério do Bom Pastor, sempre em favor da vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Para viver uma “passagem” autêntica (Páscoa) é impossível não ser movida a viver mais intensamente, a valorizar a vida e a colocar-se a serviço dela; porque, neste percurso litúrgico, experimento a paixão eterna de Jesus pela vida e por todas as manifestações de vida na face da terra. No tempo pascal, como seguidora do Bom Pastor revisar minha própria vida à luz do amor criador e redentor de Deus; perceber o dom da vida na minha origem e alimentar a gratidão para expandir este dom como presença criativa e original.

Jesus continua exercendo seu “pastoreio” através de mim sua seguidora; que ações concretas, eu posso ativar no dia-a-dia, para que nelas transpareça o coração do Bom Pastor?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – João 10,1-10
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Meu pastor – fx 10
Autor: Pe. Agnaldo José
Intérprete: Pe. Agnaldo José
CD: És o meu Senhor
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:44






quarta-feira, 22 de abril de 2020

Leitura Orante – 3º Domingo da PÁSCOA, 26 de Abril de 2020.

Leitura Orante – 3º Domingo da PÁSCOA, 26 de Abril de 2020.

EMAÚS: recordar a história – sentir a história

“E conversavam a respeito de tudo o que tinha acontecido” (Lc 24,14)


Texto Bíblico: Lucas 24,13-35


1 – O que diz o texto?
Nossa vida é parte da História, e esta, por sua vez, é formada pelas histórias de nossas vidas, pontilhadas e marcadas pela presença de outras muitas histórias.

A História, por si mesma, é provocante e nos fascina; ela tem um estranho poder de sedução. Nós nos reconhecemos nas histórias da História; isso nos facilita tomar consciência de onde estamos e quem somos, e nos ajuda a assumir decisões mais maduras frente aos desafios e surpresas que a vida nos reserva.

A vida só tem sentido quando se torna História, isto é, quando não se limita a repetir o passado, mas quando engendra algo novo e diferente a partir de uma História internalizada e saboreada.

É somente no nível mais profundo que o ser humano transforma seu “tempo” em história e seu “espaço” em encontro.

No relato dos “discípulos de Emaús”, o encontro com o Ressuscitado nos ajuda a “ler” a História, pessoal e coletiva, de uma maneira diferente e instigante. A história triste e fracassada dos dois discípulos adquire um novo sentido a partir da luz dos relatos bíblicos que o Peregrino traz à memória.

A partir da “memória bíblica”, eles são movidos a “reler” a própria história com novos olhos, reconstruindo-a, dando a ela um novo significado e deixando-se impelir a escrever uma nova história.

Marcados pelo dinamismo da Ressurreição, cremos profundamente na força evocativa e transformadora da história; encontrar-nos com ela significa caminharmos para o interior do mistério da mesma história; significa também deixar-nos questionar, iluminar e mobilizar por ela.

Com isso, reiniciamos um novo caminho de aventura, que consiste não só em receber e celebrar a história, mas atualizá-la, reescrevê-la, confirmá-la... Uma história com rosto de futuro... e um futuro inspirador.


2 – O que o texto diz para mim?
A história se revela, assim, como um húmus vivente, uma atmosfera de graça, uma torrente subterrânea na qual se nutre todo o processo do seguimento de Jesus. Não é fora da História e de minha história que como seguidora de Jesus pode reconhecer a Vontade de Deus e escutar Seu apelo; porque “Deus se fez História” e só o Verbo Encarnado, agora Ressuscitado, pode ser “o verdadeiro fundamento da história” (Santo Inácio). A partir do Jesus ressuscitado, a história de cada um e da humanidade inteira adquire uma nova luz e um novo sentido e se abre a um vasto horizonte de compromisso.

A história pessoal do cristão e a história do mundo tornam-se, portanto, o “lugar” habitual da experiência de Deus, a montanha da misteriosa sarça ardente que não se consome.

Fazer memória das histórias não significa querer mudá-las, mas adquirir nova perspectiva, um novo olhar. Com frequência, esta perspectiva me ajuda a entender melhor minha situação atual. Trata-se da “memória agradecida”: tudo tem sentido, nada é desperdiçado... 

Quando a história é contada e recontada, acontece a cura da memória. Em lugar de uma história opressiva e pesada, passo a contar com uma “história redentora”. O momento da Graça é precisamente esse: quando, de repente, a perspectiva muda encontra um “novo sentido” e surge uma saída do emaranhado de lembranças, emoções e histórias de fracassos e decepções.

Isso aparece claramente no relato evangélico deste domingo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Na narrativa, o Forasteiro ajuda os dois discípulos a “desatar” o nó de suas lembranças traumáticas e a compor uma nova história. A história de Jesus, com seu fim decepcionante, tornou-se pesada e eles procuram fugir de Jerusalém e da terrível lembrança da morte do Mestre. Mas a história os acompanha na estrada. Não param de repeti-la. Mesmo quando dizem as palavras certas, a intensidade emocional da experiência não lhes permite ouvir a história de uma perspectiva diferente.

Enquanto caminhavam, conversavam e discutiam com tal intensidade que nem perceberam a aproximação do forasteiro. Falar de maneira tão intensa de uma experiência recente demonstra que ela teve forte impacto na vida deles, mas o significado desta dura experiência está envolvido numa obscuridade.

Para eles, a história não faz sentido. A história de Jesus, com seu fim decepcionante, tornou-se agora traumática. Esforçam-se para encontrar a única coisa que vai ajudá-los a superar a dor, transformar a lembrança, permitir que continuem suas vidas, refugiando-se no passado.

Foi preciso discernimento por parte do Forasteiro para libertar seus discípulos daquela interpretação nociva da história. Ele reorienta a história sem diminuir a gravidade do que acontecera.

O Forasteiro não só reconta a história de Jesus, mas também tem de remodelar todas as histórias das relações de Deus com Israel. A “história pessoal” é “recontada” e considerada no contexto de uma história muito mais ampla; há uma ligação profunda entre todas as histórias, constituindo-se na grande História da Salvação. A descoberta desta nova perspectiva acontece como momento de graça que desce sobre eles.

A história recontada começa a reconstruir a humanidade deles, a esperança vai retornando, os corações vão se aquecendo, a alegria vai surgindo em seus rostos... O Forasteiro, ao criar um círculo de confiança, abriu “espaço terapêutico” para que os discípulos contassem sua história em segurança e começassem a realimentar uma nova esperança. Foi criado um ambiente de hospitalidade que culminou na Ceia.

É nesse ambiente que a taça do sofrimento transformou-se na “taça da esperança”.

Das cinzas brotaram a esperança, o entusiasmo e os sonhos... e eles apressaram-se a voltar para Jerusalém a fim de partilhar a descoberta de um novo sentido da história. 

A partir do fundamento da História (Jesus Cristo), contemplo minha própria história (pessoal e institucional): história que deve ser observada, lida, discernida. Tal experiência me ajuda a abrir os olhos para a novidade inesgotável da vida, me faz “aquecer o coração”, desperta em mim o desejo e mobiliza todas as minhas capacidades para um compromisso de ação transformadora na história pessoal e coletiva.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a História está sempre aberta, me desafiando, me arrancando de meu imobilismo, despertando minha criatividade para ser reescrita de uma maneira diferente.

Minha história pode ser poderosa motivadora de mudança; ela me levanta quando estou dispersa e sem direção; ela não é apenas relato do passado, mas parte viva do que sou agora; ela me traz para “casa”, para minha própria integridade e identidade.

Assim, a experiência pascal significa “conhecer”, “sentir” e “amar” a minha própria história. É uma verdadeira experiência de Ressurreição.

Só assim a história se converte em “Epifania” (manifestação) de Deus e me permite compreender, acolher e integrar tudo o que acontece, dentro e fora de mim.

Este é um tempo de Graça: o encontro vivo da “história” celebrada com o compromisso de construção da “nova história”, mais ousada e mais criativa. Trata-se de um momento tão fortalecedor e jubiloso que estremeço reverente diante do que celebro.

Sem a luz da Ressurreição, minha história, pessoal e coletiva, se reduz a eventos opacos, vazios, tristes...

Com a Ressurreição, a história se ilumina se transfigura e me desafia. A Ressurreição plenifica, dá sentido e costura os eventos, constituindo-se em “História de Salvação”. Ela me faz ver o que todo mundo vê, mas de um “modo” diferente: vejo mais longe, vejo além, vejo mais fundo...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Diante da história pessoal e social, sinto-me desafiada? Paralisada? Com medo? Inquieta?

Quanto de esperança carrego em meu interior?

O que me faz abrasar o coração diante de uma história que parece um fracasso?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Lucas 24,13-35
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 

Sugestão: 
Música: Emaús – fx 9
Autor: Reginaldo Veloso
Intérprete: Reginaldo Veloso
CD: Emaús
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 05:28


quarta-feira, 15 de abril de 2020

Leitura Orante – 2º Domingo da PÁSCOA, 19 de Abril de 2020

Leitura Orante – 2º Domingo da PÁSCOA, 19 de Abril de 2020.

RESSURREIÇÃO: tocar a carne, curar as feridas.

“... mostrou-lhes as mãos e o lado.” (Jo 20,20)


Texto Bíblico: João 20,19-31


1 – O que diz o texto?
No segundo domingo de Páscoa de cada ano, a liturgia nos apresenta o belíssimo relato que só se encontra no evangelho de João. Esta dupla aparição do Ressuscitado aos discípulos, primeiro na ausência de Tomé, e depois na sua presença, nos diz algo sobre a comunidade cristã primitiva, mas também traz luz sobre as nossas comunidades hoje. 

Aí está constituída a nova comunidade pascal; uma comunidade em torno à presença de Jesus; uma comunidade chamada a viver da experiência do encontro com Aquele que consumou sua vida em favor da vida de todos; suas chagas serão, de agora em diante, a melhor expressão da identidade entre o Crucificado e o Ressuscitado. Uma comunidade animada pelo mesmo Espírito de Jesus; uma comunidade não fechada sobre si mesma, alienada das chagas da humanidade, mas aberta, como Ele, ao amor universal para com todas as pessoas. Uma comunidade de amor, capaz de viver o perdão e ser presença misericordiosa.

Somos já “seres ressuscitados” quando vivemos estes dons do Ressuscitado, comprometidos com o Seu projeto carregado de vida, para aliviar as dores e as feridas da humanidade.

A Campanha da Fraternidade deste ano, com o tema “Vida: dom e missão” nos faz tomar consciência que, aquele que se experimenta a si mesmo como “Vida” é já uma pessoa “ressuscitada”. 

Pois a vida autêntica é a vida movida, iluminada, impulsionada pelo amor. 

Quando acolhemos a presença do Ressuscitado, nossa vida se destrava e torna-se potencial de inovação criadora, expressão permanente de liberdade, consciência, amor, arte, alegria, compaixão... É vida em movimento, gesto de ir além de nós mesmos; vida fecunda, potencial humano. Vida com fome e sede de significado, que busca o sentido... Vida que é encontro, interação, comunhão, solidariedade. Vida que é seduzida pelo amor, pela ternura. Vida que desperta o olhar para o vasto mundo e move à missão.

Chama-nos a atenção (sobretudo nos evangelhos de Lucas e de João) que Jesus ressuscitado tenha tanto interesse em mostrar a seus discípulos as chagas de suas mãos, seus pés e de seu lado aberto. Quê significa isto, um ressuscitado com chagas? Diante de um martirizado ressuscitado, qualquer um esperaria ver um corpo totalmente renovado, rejuvenescido, limpo, sem feridas e marcas do martírio.

E, no entanto, Jesus ressuscitado toma a iniciativa, deixa-se ver, faz-se presença, provoca um encontro. Os discípulos e discípulas buscam um cadáver, para lhe manifestar respeito e carinho. Jesus ressuscitado, como bom pedagogo, busca aqueles e aquelas que o tinham seguido desde a Galiléia e, respeitando a liberdade e os tempos de cada um, os ressuscita também, reconstruindo-os em sua identidade ferida.


2 – O que o texto diz para mim?
As chagas de Jesus ressuscitado são algo mais que um modo de dizer “sou eu mesmo”. Elas são expressão de identidade, ou seja, pertence a seu novo ser de ressuscitado. 

Dito de outro modo: Jesus, vencedor da morte, não abandona o que é caduco e frágil da existência mortal. A fragilidade da carne foi assumida na glória do Corpo ressuscitado. Por isso, suas chagas são terapêuticas, pois curam as minhas chagas do fracasso, do medo, da tristeza, da solidão, da dor... São feridas que curam feridas.

A ressurreição afeta todo o meu ser: tudo é iluminado, resignificado, tudo adquire novo sentido.

Em meio à comunidade dos discípulos reunida, o evangelho de João destaca a figura de Tomé, elaborando em torno a ele um relado de muita densidade e com muita inspiração. Tomé é a expressão do ser humano a quem lhe custa crer na ressurreição do Jesus Histórico, do Jesus das chagas nas mãos e no lado, do Jesus da carne, do Jesus do povo crucificado.

Provavelmente, ele acreditava em Jesus, mas em um “Jesus espiritual”, puramente interior, sem necessidade de compromisso comunitário, sem chagas no seu corpo. Talvez, ele estivesse mais centrado no Cristo glorioso, desligado da história de Jesus, das mãos que tocaram os pobres e curaram os doentes, do coração que amou os excluídos da sociedade, dos pés que romperam barreiras e fronteiras... 

Por meio de outros testemunhos da literatura cristã antiga, sei que Tomé queria tocar em Jesus só de um modo espiritual, criando um tipo de comunidade de feição “quase angelical”, distanciando-se da humanidade de Jesus e vivendo uma religião desumanizadora, centrada só em ritos, doutrinas, leis...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Contra isso, a comunidade me diz que é preciso “tocar nas chagas de Jesus”, que o Ressuscitado é o mesmo Jesus da História, Aquele que foi chagado pela violência e pela rejeição.

O Senhor Ressuscitado continua sendo aquele que carrega em suas mãos e lado as feridas de sua entrega, os sinais de seu amor crucificado em favor de todos. Este Jesus pascal continua estando presente nas chagas dos homens e mulheres de mãos quebradas, na ferida do lado dos homens e mulheres que sofrem.

As chagas de Jesus, em seu lado e em suas mãos, são as chagas de um perseguido e condenado pela “justiça” do mundo. Isso significa que o Jesus ressuscitado não é um “fantasma”, mas o mesmo Jesus que foi crucificado. 

Ao mostrar suas chagas, Jesus ressuscitado revela que as chagas da humanidade continuam abertas, esperando que seus seguidores prolonguem os gestos de cura e cuidado do mesmo Jesus. São estes e estas que hoje atestam a vitalidade do Ressuscitado.

No entanto, não há mais o Cristo visível para tocar. Os únicos traços para ver e tocar, que confirmam a realidade de sua presença, são as pessoas de cada tempo que lutam por uma terra onde os pobres e os excluídos terão seu lugar, onde o ódio não rege as relações, onde a bondade predomina sobre o desprezo, onde o respeito impede a violência capaz dos piores instintos, onde a acolhida impede o fechamento em si mesmo. 

Portanto, crer na Ressurreição não é simples adesão a um dogma de fé, é compromisso com a vida.

O “toque pascal” de Tomé (“coloque tua mão em minha ferida...”) é o “toque das chagas”, é a experiência dos crucificados do mundo. Só posso “tocar” em Jesus de verdade, e confessar sua Páscoa, “tocando” (ajudando) os enfermos e crucificados da história.

Não há experiência pascal se eu não descobrir Jesus ressuscitado nas chagas dos pobres, doentes e excluídos de meu mundo; “tocar” estas chagas vai além de um gesto físico; implica ser presença solidária, acompanhar, ajudar, alimentar uma sintonia e comunhão com aqueles que clamam por uma presença consoladora, carregada de ternura.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor o evangelho deste domingo me pede: 

- Que eu possa abrir as portas e as janelas das comunidades cristãs, para que todos possam ver o quanto de vida há dentro dela, para que vejam quem são como vivem..., de maneira que eu possa oferecer e compartilhar espaço de perdão, de acolhida sem preconceitos, de amor oblativo...; é preciso afastar a pedra do dogmatismo, do legalismo, do ritualismo que me mantém sufocada ou respirando o ar fétido dos túmulos.

- Que eu possa viver em comunhão, que permita que Tomé retorne à comunidade. A transformação de Tomé implica também uma mudança da Igreja, que o acolhe e lhe oferece um lugar a partir do Jesus crucificado; que ela seja espaço aberto, integrador, acolhedor do diferente. 

- Que eu possa sonhar também com uma Igreja que rompa os túmulos do conservadorismo, do legalismo, da apatia, e se abra à desafiante situação de meu mundo, “vivendo em saída” para “tocar” os chagados e lhes oferecer o dom da unção e do consolo.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Nos Exercícios Espirituais, Santo Inácio me convida a considerar como o Ressuscitado exerce o “ofício de consolar”.  

Sou, pois, consolada em minhas tribulações e dores para poder consolar os outros nas suas. Trata-se de uma experiência transbordante, expansiva, que me impulsiona em direção aos outros. 

Como seguidora do Vivente, sou chamada a exercer este “ofício de consolar”; a experiência da Ressurreição me move a “descer” junto à realidade do outro (seus dramas, fracassos, enfermidades, perda de sentido da vida...) e exercer este ministério humanizador. “Ser vida ressuscitada que desperta outras vidas”: vida plenificada, iluminada, integrada pela experiência de encontro com o Ressuscitado e que flui em direção às vidas bloqueadas, necrosadas... Assim como a consolação é o canal privilegiado pelo qual o Deus da Vida se comunica e atua em mim, o ofício do consolo é o canal por onde flui a vida.

- Como ser presença consoladora nestes tempos de pandemia?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 20,19-31
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Viver para acreditar – fx 4
Autor: Ziza Fernandes
Intérprete: Ziza Fernandes
CD: Mais que os pássaros
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:33

sábado, 11 de abril de 2020

Leitura Orante – Ressurreição, 12 de abril 2020

Leitura Orante – Ressurreição, 12 de abril 2020

RESSURREIÇÃO: quando os túmulos se esvaziam...

“Tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram” (Jo 20,2)


Texto Bíblico: João 20,1-9


1 – O que diz o texto?
Em Jesus ocorre algo totalmente novo. Ele traz uma nova maneira de viver que não cabe em nossos esquemas, que não se encaixa em nossos hábitos, sempre limitado e estreito. 

O “mistério pascal” é o salto para a novidade, para a beleza, para a transcendência. Imersos na história e na natureza, a Ressurreição nos faz descobrir a verdadeira extensão da Vida.

Não encontramos o Ressuscitado no sepulcro, mas na vida. Não encontramos o Ressuscitado enfaixado e paralisado pela morte, mas livre como a brisa da vida.

A pedra que fora removida do túmulo de Jesus indicou a Maria Madalena uma novidade que seu coração buscava, uma novidade que espanta, enche o coração do desejo de procura: “Ele vive”.

O caminho dela em direção ao túmulo é símbolo da coragem de atravessar o escuro da madrugada para ver resplandecer uma nova aurora em sua vida, pela força criadora da única Presença que tudo sustenta tudo recria e enche de amor. A presença do Cristo Ressuscitado.

Na madrugada da Páscoa, Maria Madalena vai ao sepulcro; ela é símbolo daquela comunidade que se movia entre a luz e a obscuridade. Ainda vive focada no sepulcro (morte); por isso, “ainda estava escuro”. Mas, ao mesmo tempo, começava a clarear (“ao amanhecer”) e a “pedra estava removida” (a pedra da dúvida, da tristeza e da resignação fatalista). Tudo parece anunciar algo definitivamente novo: é “o primeiro dia da semana”; trata-se, nada menos, que de uma nova Criação.

Segundo os evangelistas, as mulheres são as primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus Cristo, pois Ele aparece primeiramente a elas. Segundo Tomás de Aquino o motivo desta precedência é porque elas estavam mais bem preparadas que os homens para entender e acolher a maravilha da Vida. 

E estavam mais bem preparadas porque O tinham amado mais.


2 – O que o texto diz para mim?
Na ressurreição, a vida emerge de forma misteriosa; ela se impõe, simplesmente. Tal realidade desperta fascinação, provoca admiração e veneração..., porque a vida é sempre sagrada. Diante dela fico extasiada, boquiaberta, escancarado os olhos e afiados os ouvidos. Ela me atrai por sua força interna. 

Portador de uma vida inesgotável, revelada na madrugada pascal, o ser humano vive para mergulhar em algo diferente, novo e melhor. A vida, desde o mais íntimo da pessoa humana, deseja ser despertada e iluminada em plenitude. Amar é romper a casca para que a vida se expanda na doação. A morte do falso “eu” é a condição para que a vida se liberte.

Vida plena prometida por Jesus: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância” (Jo. 10,10).

“Viver como ressuscitado” implica esvaziar-se do “ego”, para deixar transparecer o que há de divino. 

Quem se experimenta a si mesmo como “Vida” é já uma pessoa “ressuscitada” e isso faz a grande diferença, pois tem um impacto no seu modo de ser e de viver.

Marcadas pela ressurreição, as pessoas captam muitos detalhes que antes não haviam percebido, vivem intensamente, amam com mais paixão, prestam atenção a muitas coisas que antes lhes passavam desapercebidas. Tem um comportamento diferente para com os outros; há, nestas pessoas, mais ternura, são mais sensíveis à dor e à injustiça. Ao saborear o presente da vida, vivem como se fossem ressuscitadas.  Creem que, amando mais a vida, se afastarão mais da morte e resistirão às hostilidades do mundo presente.

E, no entanto, continuam vivendo na mesma casa, no mesmo trabalho, fazendo as mesmas coisas... , mas seu olhar audacioso desperto as consciências, sacode as velhas estruturas, derruba os muros da exclusão.

A Ressurreição não só “dá o que pensar”, mas, sobretudo, “dá o que fazer”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O encontro com o Ressuscitado é fonte de vida e vida em crescente amplitude. Quando me disponho a caminhar com Ele, sob a ação do Espírito, realiza-se em mim um processo de abertura e de superação, de crescimento e de reconstrução de mim mesma...; tomo consciência de uma dimensão profunda de meu interior, que me permite experimentar outra vida, que supera tudo o que vivo até então.

A “vida eterna”, então, não é um prolongamento ao infinito de minha vida biológica. É a dimensão inesgotável e decisiva de minha existência. Ela torna-se “eterna” desde já.

A experiência da Ressurreição me revela que a “vida” é uma totalidade, ou seja, a vida presente, a vida atual, é uma vida que tem tal plenitude que, com toda razão, posso chamá-la de “vida eterna”, uma vida com tal força e tão sem limites, que nem a morte mesma terá poder sobre ela.

Preciso adquirir uma consciência mais profunda da vida do espírito, perceber as pulsações desta vida eterna que está em mim, do mesmo modo que, prestando atenção, percebo as batidas de meu coração.

A experiência do Ressuscitado me faz ter um “caso de amor com a vida”.

Pois a vida autêntica é a vida movida, iluminada, impulsionada pelo amor. 

Nem sempre sei viver: conformo-me  com uma vida estreita, estéril, fechada ao novo, carregada de “murmurações”. Quando acolho a presença do Ressuscitado, minha vida se destrava e torna-se potencial de inovação criadora, expressão permanente de liberdade, consciência, amor, arte, alegria, compaixão.... É vida em movimento, gesto de ir além de mim mesma; vida fecunda, potencial humano. Vida com fome e sede de significado, que busca o sentido... Vida que é encontro, interação, comunhão, solidariedade. Vida que é seduzida pelo amor, pela ternura. Vida que desperta o olhar para o vasto mundo. Vida que é voz, é canto, é dança, é festa, é convocação...

Com sua presença compassiva, o Ressuscitado desperta minha vida, arrancando-a de seus limites estreitos e constituindo-a como vida expansiva em direção a novos horizontes.

O Ressuscitado me precede, me sustenta e, na liberdade de seu amor, me impele a ampliar minha vida a serviço. Toda peregrinação, em clima de admiração e assombro, se revela rica em descobertas e surpresas, e desperta o coração para dimensões maiores que a rotina de cada dia. 

Nesse sentido, a vida tem a dimensão do milagre e até na morte anuncia o início de algo novo; ela carrega no seu interior o destino da ressurreição.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor essa nova Vida é capacidade de amar como Jesus amou; é “passar pela vida fazendo o bem”. Sou um ser ressuscitado se vivo os mesmos critérios e valores de Jesus, engajados em seu mesmo projeto.

A “vivência pascal” leva a querer algo mais. É “antecipação criadora”; ela tem “rosto novo”.

É o futuro que ainda pode ser convertido em “história nova”; é vida vivida com encantamento.

A “pedra pesada” da minha impotência diante da dor, do fracasso e da morte, foi tirada pelo Mestre, que, me chama pelo “nome” e me desafia a viver como ressuscitado. 

Minha vida é uma experiência a acolher, uma aventura a amar e um mistério a celebrar. Rompido o túmulo, removida a pedra, resta caminhar... 

Deixar-me  iluminar, levar a Luz da Ressurreição nas minhas pobres e frágeis mãos, iluminando os recantos do meu cotidiano.

Pois vida é um contínuo despedir-se e partir; é inútil permanecer junto ao túmulo. Porque o ausente “aqui” está presente na “Galiléia”. E a Galiléia é o lugar do compromisso com a vida, a justiça e a paz.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Para viver a partir do ser mais profundo, é preciso dedicar uma atenção especial ao próprio coração e aprender a regozijar-se da maravilhosa vida de Deus em cada um. Basta um repouso e o estar presente para fazer acalmar a agitação interior e aproximar-se da fonte da vida.

- É tempo de esvaziar sepulcros; é tempo de remover as pedras da entrada do coração que impedem a entrada da luz, da vida, do canto... O que me impede afastá-las?

- Fazer  memória das experiências de ressurreição: nos encontros, na missão, sentimentos oceânicos de consolação, clareza diante do sentido da vida, amar e sentir-se amada, a vivência da bondade e do bem...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 20,1-9
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Aleluia – fx 13
Autor: G.F. Handel D.P. 
Intérprete: Instrumental
CD: Aleluia
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:03



sexta-feira, 10 de abril de 2020

Leitura Orante – Sábado SANTO, 11 de abril 2020

Leitura Orante – Sábado SANTO, 11 de abril 2020

UM LONGO E ESPERANÇOSO SÁBADO SANTO

“Tomaram o corpo de Jesus e o envolveram em panos de linho, com os bálsamos, como é o costume de sepultar os judeus...” (Jo 19,40)


Texto Bíblico: Marcos 15,42-47 / João 19,38-42


1 – O que diz o texto?
Sábado Santo é o dia da “solidão dos vivos”: Jesus ausente; os discípulos escondidos e cheios de medo; a dor de Maria e das mulheres discípulas...

Domina na comunidade cristã um ambiente carregado de morte, um dia esvaziado de toda esperança.

No caminho do seguimento de Jesus também há sábados santos, tanto no nível pessoal como comunitário. Noites escuros silêncios carregados de tristeza, incapacidade para orar e falta de esperança.

Mas este dia também nos ajuda a resignificar o sentido da solidão. Há solidão vazia, que deprime..., mas há solidão que nos faz ter acesso a dimensões desconhecidas de nossa vida.

É preciso, com Jesus, descer ao túmulo de nossa interioridade, transitar por espaços e dimensões não integradas e nem pacificadas. Só quem mergulha nas profundezas de sua existência é capaz de morrer às exigências do “ego” e vislumbrar as potencialidades de vida que ainda não foram ativadas. “Se o grão de trigo que cai na terra, não morre, fica só” (Jo 12,24).

Este espaço de silêncio não é de morte, mas de vida germinal, é noite que aponta à aurora, são as noites escuras da vida que desembocam na alegria da alvorada; é tempo de fé e de esperança, é momento de semear, mesmo que não vejamos os resultados, é tempo de crer que o Espírito do Senhor, criador e doador de vida, está fecundando a história e a terra para seu amadurecimento pascal e escatológico, para a terra nova e o céu novo. 

Todos querem fugir da solidão: queremos escapar de nós mesmos, ocultar nossa fragilidade e impotência, distanciar de nossa responsabilidade. Com isso, nos refugiamos no ativismo, nas distrações da superficialidade, na conexão descompromissada... E assim desembocamos numa solidão egoísta, sem espírito e nem vida, sem amor aos outros, sem verdadeira companhia.


2 – O que o texto diz para mim?
Um dos maiores problemas do mundo ocidental é a falta de solidão verdadeira: tenho medo de enfrentar a realidade, de viver em profundidade, de doar minha vida em transparência. Tenho medo de estar sozinha. Por isso me cerco do espetáculo da vida impessoal, dos meios de comunicação, de notícias sem fim. Dessa forma invento solidões sem comunicação, comunicações sem solidão e sem encontro pessoal. E enquanto isso há milhões de pessoas condenadas à solidão da doença, da fome, da exclusão, morrendo, como Jesus, em uma Cruz. 

Sábado Santo vem me dizer que só aquele que se conhece e se aceita na solidão, pode sair de si mesmo para viver o encontro. Só um verdadeiro solitário no amor pode ser solidário, só um coração desprendido pode atrair e congregar no amor os outros, formando com eles uma “rede” de vida. Dessa forma, a intimidade do solitário, que é senhor de si mesmo, se transforma em comunhão de vida que enriquece. Esta é a solidão para o encontro, uma intimidade para a companhia.

Na paciente espera pelo Deus Amor descobrirá o quanto Ele já preenche minha vida. Minha relação com Ele fica mais profunda e mais madura através da experiência purificadora da sua ausência (assim como duas pessoas que se amam, redescobrem-se depois de longos períodos de ausência).

Dando ouvidos aos meus anseios, ouço Deus como Criador.

Tocando o centro de minha solidão, sinto que fui tocada por mão misericordiosa.

Sentindo meu infinito desejo de amor, compreendo que só posso amar por ter sido amada antes e que posso oferecer minha intimidade apenas porque venho da intimidade de Deus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Sábado Santo, portanto, é o dia do lamento e da espera paciente, carregada de esperança. Acompanho Maria e os discípulos neste silêncio denso, nesta espera confiante. 

Algo pulsa em meu eu profundo, rebelando-se contra toda apatia e me recordando a faísca de esperança ali presente. Escuto meu interior, em meio ao silêncio!

Contemplo a espera angustiada de mundo, dos povos, das pessoas. Contemplo o mundo e a humanidade em seu sábado santo, em seu dia de silêncio, em seu isolamento social.

Esse parece ser o estado da humanidade neste momento; um estado de paralisação e de espera que parece não ter saída. Envolve-me a obscuridade; estou no túnel e não vejo a saída. O corpo da humanidade encontra-se ferido, desvitalizado. Não é a morte, mas tampouco é a vida.

Como os discípulos de Emaús, sou fustigada pela incredulidade, pelo desencanto. Ainda não há razões fortes para esperar. Experimento o Deus na noite escura, o Deus ausente. Parece que guarda silêncio e que não lhe importa que “desço aos infernos”.

Meu mundo carrega as feridas da doença e da morte; geme em dores de parto. “Sei que toda a Criação, até o presente, está gemendo como que em dores de parto, e não só ela, mas também eu, que temo as primícias do Espírito, que geme em meu íntimo, esperando a condição filial, a redenção de meu corpo” (Rom 8,22-23).

Só há uma pequena luz que permanece acesa da casa do discípulo amado, na casa daquele a quem Jesus confiou sua Mãe, no momento de sua morte. A Mãe é o símbolo da esperança no Sábado Santo. É o dia “mariano” por excelência. Nunca, como neste dia, ela se sentiu tão só, tão sem corpo. Mas, com certeza, o Abbá de Jesus tinha para ela um segredo, um advento inesperado: o momento de exclamar: “tu és o meu Filho, eu hoje te gerei” (Heb 1,5).

As mães geram a vida; por isso, custa-lhes crer na morte. Maria continua crendo na vida; ela é mãe demais para esquecer. Seu filho é muito Filho para morrer.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor envolve-me a noite de uma crise global que afeta a todos de maneira igual; mas, a “noite sabática” reacende a paixão pela vida, desafio mais urgente de meu tempo; paixão por toda expressão de vida, especialmente pelas vidas mais ameaçadas. 

Dar vida foi à paixão de Jesus, expresso nestas palavras: “Eu vim para que todos tenham vida e vida abundante” (Jo 10,10). Dar vida protegê-la, curá-la, cuidá-la, defender sua dignidade, denunciar tudo o que a ameaça e lutar contra isso foi o que levou Jesus a perder sua própria vida. Tal é a disposição que hoje preciso cultivar para iluminar a noite de meu tempo.

Lentamente, o olhar se faz penetrante, o ouvido se faz sensível, o tato se faz delicado e o imperceptível se faz concreto; o longínquo torna-se próximo, o desconhecido torna-se familiar, o extravio torna-se direção, a solidão torna-se companhia, o ignorado torna-se revelação.

A noite é o tempo do mistério e da promessa, é o lugar da espera e da realização, o espaço do desejo e do encontro, da invocação e da revelação, do sofrimento e da paixão, do silêncio e da oração, da vida e da morte... Na noite o que conta, o que vale não se diz, não se vê, não se sabe: deseja-se, espera-se, recebe-se, realiza-se. Não é um simples eco aquela voz que anuncia no escuro o início do cumprimento de uma promessa que vem de longe e traz luz, festa, alegria, canto...

A fidelidade da promessa ouvida na noite é uma semente. Existe, mas tem necessidade de permanecer escondida. Realiza-se, mas exige habitar espaços de penumbra.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A espera paciente e expectante é o fundamento da vida espiritual” (Simone Weil).

A humanidade inteira, frente à pandemia do Coronavírus, vive uma espera angustiante, muitas vezes impaciente vazia, sem sentido...

- Sábado Santo é tempo não só de espera, mas de esperança, é deixar que o grão de trigo morto começasse a germinar, é tempo de imaginar, de criar, de abrir-se a algo novo e inesperado, de sonhar um mundo melhor e uma humanidade mais samaritana. 

- É preciso envolver este “sábado santo da vida” com os perfumes da compaixão, solidariedade, comunhão...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 15,42-47 / João 19,38-42
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: No amor eu te gerei – fx 13
Autor: José Acácio Santana
Intérprete: Coral Acorde Coração
CD: Pai Eterno
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:01