segunda-feira, 9 de março de 2020

Leitura Orante – 3º Domingo da QUARESMA, 15 de Março 2020

Leitura Orante – 3º Domingo da QUARESMA, 15 de Março 2020

TEMOS ÁGUA, FALTA-NOS SEDE

“Todo aquele que bebe desta água terá sede de novamente.” (Jo 4,13) 


Texto Bíblico: João 4,5-42


1 – O que diz o texto?
Diante da imagem do deserto, muito presente durante o tempo quaresmal, a sensação é de sede. 

O deserto evoca nossa sede de água e de plenitude. Onde encontrar a água? Como saciar nossa sede?

É cada vez maior o número de restaurantes que dispõem de “cardápio de águas”. Águas dos mananciais mais puros, dos aquíferos mais profundos, das nascentes mais cristalinas... Água abundante e ao alcance daqueles que podem pagar por ela. Uma água para todas as sedes e uma sede para cada água. 

No entanto, no mais profundo de nosso ser, somos habitados por uma sede que nenhuma água pode saciar: sede de sentido, de plenitude, de vida inspirada e criativa...

Bendita sede que nos mantém abertos a Deus e aos outros! As pessoas que fizeram diferença e mudaram o mundo foram aquelas profundamente sedentas. Amaram essa sede de que fala Jesus: “Se tu conhecesses o dom de Deus...” Pessoas que ativaram a sede de justiça, no deserto de uma injustiça asfixiante; pessoas que suportaram a sede de paz sob forte pressão das fábricas de armas; pessoas que viveram a fundo sua fé em uma Igreja que, com frequência, as deixava sedentas e as colocava à margem. Pessoas que se encheram de Deus porque renunciaram saciar aquela sede com qualquer água.

Precisamos de pessoas, como a samaritana, que nos deem as coordenadas d’Aquele que pode despertar nossa sede, antes de nos dar água.

Jesus, junto ao poço de Jacó, é a viva imagem de um “Deus sedento”, que ama a humanidade até morrer de sede por ela, e que uma esponja molhada em vinagre não conseguirá apagá-la. 

Junto ao poço, nossa pequena sede e a sede de Deus se encontram. Sua sede de justiça confrontada com nossa sede de harmonia; sua sede de misericórdia confrontada com nossa sede de reconhecimento; sua sede de compaixão confrontada com nossa sede de segurança. Não para diminuir nossa sede, mas para ampliá-la; não para menosprezá-la, mas para dignificá-la.

A vida, carregada de obrigações, compromissos, preocupações, rotinas..., onde investimos tanta atenção e energia, pode maquiar ou bloquear as sensações profundas, fazendo-nos perder o contato com nossa sede original e criando um deserto existencial.

Jesus assume nosso deserto; acolhe-o, fazendo-se presente em seus recantos de dúvida, de medo, de solidão. “Dá-me de beber”, ressoará no nosso eu mais profundo. E poderíamos lhe dizer: com a sede que temos nos pedes que sacie a tua sede? A resposta não se faz esperar: é Deus quem tem sede de nós, é Jesus que nos convida a partilhar de nossa água com Ele.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus cansado e sedento, sentado à beira do poço; uma mulher com sede que acode com seu balde para tirar água. Dois sedentos e com a água no poço.  Sedentos os dois de água, mas, possivelmente, os dois também sedentos de algo mais que água. Jesus sedento quer encher de água viva aquele coração cheio de “maridos”; uma mulher sedenta de algo mais que pudesse apagar a sede que seus maridos não conseguiam.

A samaritana chega ao poço, alheia ao que ali lhe esperava e que, na trivialidade de sua vida cotidiana, tudo se fazia previsível: vai somente buscar água com o cântaro vazio para retornar à sua casa com ele bem cheio. Não há mais expectativas, nem outros planos, nem mais desejos.

Mas o imprevisível está esperando por ela, na pessoa daquele Galileu sentado na beira do poço, que inicia uma conversação sobre coisas banais, talvez para não assustá-la: falam de água e de sede, de poços e de velhas desavenças entre povos vizinhos, coisas de todos os dias. 

Jesus começa como o frágil sedento que se atreve a pedir água. A mulher, muito segura de si, sente-se dona do poço, da água e do balde. Subitamente, irrompe a linguagem das “coisas do alto”: o dom, uma água que se converte em manancial vivo, a promessa de uma sede saciada para sempre, um Deus que me busca, fora dos espaços estreitos de templos e santuários.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A samaritana se defende e procura manter a conversa em um nível de trivial superficialidade, fugindo da irrupção do “novo” em sua vida. Mas, no final da cena, o cântaro que era símbolo da pequena capacidade que está disposta a oferecer, permanece esquecido junto ao poço, já inútil à hora de conter uma água viva.

E os dois, Jesus e a mulher, terminam esquecendo-se da sede, da água, do poço e do balde. Duas vidas que se encontram e se comprometem: Jesus, que vai abrindo caminho para chegar ao profundo daquele coração feminino; a mulher que resiste, mas, aos poucos, se abre às palavras daquele homem imprevisível; Jesus, que vai desvelando a mulher por dentro, fazendo emergir seus profundos vazios; a mulher que começa a sentir o borbulhar do manancial em seu coração, encontrando-se com a verdade de si mesma; Jesus que vai se esquecendo do poço de Jacó e vai abrindo uma nova fonte naquele coração de mulher; a mulher que se esquece da água e do cântaro e regressa ao seu povoado gritando o que seu coração encontrara.

O encontro com a mulher samaritana é um belo ícone para descobrir o Mestre da Galiléia que, como um grande mistagogo, vai conduzindo-a ao centro de si mesmo, à profundidade de seu mistério pessoal e à consciência de ser uma “mulher habitada”.

“Descer” ao fundo do poço é a oportunidade para descobrir regiões novas e novos horizontes, para conhecer o reino interior, para encontrar a riqueza profunda e assim experimentar a transformação.

O caminho para uma nova qualidade de vida passa pela descida ao mais profundo do meu próprio poço.

Isso requer coragem para passar por todas as regiões sombrias e chegar ao fundo. Mas essa descida me possibilita descobrir um mundo diferente que não conhecia, ou que havia perdido.

Lá no fundo, encontra-se um bem precioso que posso levar comigo, que me ajuda em meu caminho e que me faz totalmente íntegra e sã.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a Campanha da Fraternidade deste ano, com o tema “Vida, dom e missão”, me motiva a despertar as potencialidades de vida que ainda permanecem adormecidas. É preciso “descer” até às profundezas para descobrir uma nova riqueza que plenificará minha vida; é “descendo” que poderei revitalizar a vida que se tornara vazia e ressequida. É preciso despertar, escavar, avançar em direção ao “manancial” e saber que este não é minha propriedade; ele me é oferecido. Não basta falar de “água viva”, é também necessário “escavar” meu “chão interior”, desbloquear e ampliar o espaço do coração para que o manancial ali presente encontre chance de emergir e dar um novo sabor à minha vida. 

A vida sempre está oculta nas profundezas. A pessoa superficial são aquelas que se confundem com suas ideias, seus apegos, suas falsas seguranças... A pessoa do “eu profundo” é aquela que vive a partir da raiz, da fonte mesma da vida, e deixa vir à tona todas as suas riquezas, dons, capacidades...

O percurso quaresmal “desvela” meu “eu profundo”, o lugar onde habitam os aspectos benéficos da minha personalidade, as boas tendências, as qualidades positivas, os dons naturais, as riquezas do ser, as beatitudes originais, as aspirações de grande fôlego, as ideias força, os dinamismos da vida..., que formam o eixo de minha existência, o melhor de mim mesma, o fundamento de minha verdadeira identidade.

O “tesouro do ser” (certezas, intuições, projetos, valores...), ainda que pareça esquecido, permanece armazenado em sua mensagem essencial, e pode se tornar a força que orienta toda a vida, a sabedoria da própria vida, um lugar de fecundidade, de criatividade, fonte de renovação...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Para eu realizar e desenvolver toda a minha potencialidade, buscar, na oração, cavar mais profundamente, até atingir as raízes de meu ser, o núcleo original de minha personalidade. 

- Diante da presença de Deus, estar aberta ao contato com a minha própria realidade interior, para que venha à superfície aquilo que sustenta e dignifica o meu viver.

- Dirigir o meu olhar para o mais íntimo de mim mesma, onde nascem sentimentos e valores, decisões e gestos..., onde eu sou convidada a me alegrar com os rastros da Graça.

- Deixar-me conduzir pela “sede” de Deus que está enraizada em meu coração.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 4,5-42
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Tenho sede 
Autor: Irmã Míria Terezinha Kolling
Int: Chorus Mutantis
Participação: Adélia Issa
CD: Serei o amor - Santa Teresinha do menino Jesus
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:43

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