quarta-feira, 4 de março de 2020

Leitura Orante – 2º Domingo da QUARESMA, 08 de Março 2020


Leitura Orante – 2º Domingo da QUARESMA, 08 de Março 2020

A LUZ QUE NOS TRANSFIGURA

“Seu rosto ficou resplandecente como o sol, 
e suas vestes tornaram-se como a luz.” (Mt 17,2)


Texto Bíblico: Mateus 17, 1-9


1 – O que diz o texto?
“Saí de vossas trevas! Deixai para trás a segurança do vale e empreendei, sem medo, a subida ao monte, porque lá no alto a luz vos espera!”. Este poderia ser o apelo do evangelho da Transfiguração, que pede de nós mobilidade para sair das falsas seguranças de uma vida sem horizontes.

De fato, há em nós uma força atrofiadora que nos faz preferir a acomodação, permanecendo tranquilos, perdidos no imediato e alheio à capacidade de transfiguração que se esconde por detrás da aparente normalidade das pessoas e das coisas.

“O mundo está cheio de esplendor espiritual e de segredos maravilhosos, mas basta um pequeno cisco sobre nossos olhos para que tudo fique escondido”. (Baal Sem Tov)

Por isso, no Evangelho de hoje, e com diferentes graus de intensidade, o evangelista sai da esfera plana das descrições precisas e exatas e se expressa na linguagem do excessivo, do simbólico, do totalizante: “seu rosto brilhou como o sol”, “suas roupas ficaram brilhantes como a luz”, “uma nuvem luminosa os cobriu”... 

E como contraste escuro frente a tanta luz, três pobres homens assustados que balbuciam disparates, que preferiam permanecer junto a esta situação tão surpreendente.

A Transfiguração está nos dizendo quem era realmente Jesus e quem somos realmente cada um de nós. 

Essa cena que Mateus relata é um símbolo das muitas “experiências de transfiguração” que todos experimentamos. A vida diária tende a fazer-se cinza, monótona, cansada, e a deixar-nos desanimados, sem forças para caminhar. Mas, eis que surgem momentos especiais, com frequência inesperados, em que uma luz atravessa nosso coração, e os olhos de nossa interioridade nos permitem ver muito mais longe e muito mais fundo daquilo que estávamos acostumados a olhar até esse momento. 

A realidade é a mesma, mas nos aparece transfigurada, com outra figura, revelando sua dimensão interior, essa na qual tínhamos acreditado, mas que com o cansaço do caminhar tínhamos esquecido. Essas experiências, verdadeiramente espirituais, nos permitem renovar nossas energias e, inclusive, entusiasmar-nos para continuar caminhando, com o sentimento de “como se víssemos o Invisível”.

Aquele Monte (Tabor) foi um espaço instigante para Jesus, lugar alto de sua experiência radical, de onde Ele podia ver os problemas da humanidade, para senti-los, para assumi-los e mudar... O mesmo Jesus nos faz subir à grande montanha para que vejamos as coisas de outra forma, de outra perspectiva... 


2 – O que o texto diz para mim?
É preciso, de vez em quando, tomar distância e me afastar do cotidiano rotineiro e atrofiado, para ampliar minha visão e contemplar o drama humano; é decisivo me situar diante do calor de Deus (sarça ardente) para desvelar minha verdadeira identidade. Somente assim a Montanha me transfigurará para que me empenhe no serviço em favor dos “desfigurados” do mundo.

Aspiro por experiências como a dos discípulos de Jesus no alto do Tabor. Mas eu não posso me encontrar com Jesus no Tabor da Galiléia. Necessito buscar meu Tabor particular, os rincões de minha morada interior, onde estão às fontes que mais forças me dão, as luzes com as quais me sintonizo para iluminar e dar um novo significado ao meu compromisso primeiro.

Sou portadora de uma luz que procede de dentro, uma iluminação interior, que só aquele que vive a partir de sua própria interioridade consegue ter acesso a ela.

Ao relatar suas experiências espirituais, muitos místicos fazem referência a uma luz que ilumina com força seu interior. É uma graça que não se revela rara, pois tenho consciência que “Deus é luz” e que o mesmo Jesus se definiu como a “Luz do mundo”. Sou envolvida providencialmente por esta expansiva Luz.

Todas as pessoas que fizeram esta experiência de encontro com o “Deus da Luz” puseram os meios para fazer a viagem interior e ativar a “faísca da luz divina” ali presente. Na medida em que se deixaram invadir por essa Luz, aproximaram-se cada vez mais dela para vivê-la com mais intensidade e para deixá-la refletir em seus rostos e ações. Por isso, foram pessoas de presenças originais e iluminantes em seu meio.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
No ritmo do cotidiano, o dom imenso da luz passa desapercebido. Que o digam aqueles que não podem ver; que o digam aqueles que nunca puderam estremecer-se diante de um pôr do sol ou diante das cores vivas de uma pintura; que o digam aqueles que nunca puderam ver o brilho de uns olhos cheios de amor...

Na costumeira cotidianidade, o perigo de não valorizar a luz é evidente; no entanto, para quem contempla sua cotidianidade, a formosura da luz que se derrama sobre cada um que vive neste planeta sem luz própria é a prova da generosidade de Deus para com todos.

Por isso mesmo, há vidas luminosas e vidas obscuras. Há pessoas cuja luz interior transfigura suas vidas: vivem na transparência da luz, seus gestos e atos são luminosos, admiram-se com o brilho da vida e desejam que tudo tenha esse brilho, iluminam com sensata positividade tudo o que acontece ao seu redor coloca-se sempre na perspectiva de quem desfruta da cor e do amor no encontro com os outros...

O resplendor da Transfiguração brilha em meu interior; não me vejo vazia por dentro porque no mais profundo de mim mesma, na morada mais interior, está o “sol de onde procede a uma grande luz” (Santa Teresa de Jesus).

Deixar-me transfigurar. Sou ser de luz e minha verdadeira transformação nasce de meu interior.

Na Transfiguração, Jesus me faz meu verdadeiro ser, que vejo refletido n’Ele.

A transfiguração não é condição de um “iluminado”, mas a realidade de toda pessoa que é capaz de “sair de seu próprio amor, querer e interesse” (S. Inácio). Deixar-se transfigurar é descentrar-se e expandir sua luz, para realizar aquele chamado único de Jesus dirigido a todos: “Vós sois a luz do mundo”.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, Transfiguração é festa da luz: Jesus é a Luz e no encontro com Sua Luz posso  ativar a tímida luz presente no meu interior. Só assim posso ampliar os espaços de luz em minha vida, para contagiar-me de luz e para comunicar uma mística de luz em meu  entorno. Não se trata de falsas iluminações, mas de alcançar outra perspectiva de vida, mais luminosa, mais positiva, mais esperançada.

Para transitar na noite de meu tempo preciso buscar, na Transfiguração, a Luz que a ilumine e me indique a direção e o sentido de minha existência.

A “noite de meu mundo”- carregada de tanta corrupção, violência, preconceito e intolerância - pedem pessoas marcadas pela experiência da Transfiguração, capazes de ver a presença d’Aquele que é a Luz no meio das realidades simples e cotidianas, no profundo do coração de cada ser humano, de cada realidade vivente, de cada palmo de minha terra, no mistério insondável do universo grávido de graça.

Preciso cultivar não só olhos que vejam a realidade, senão que sejam capazes de contemplar, no meio da noite, a presença da Luz: uma luz que brota das profundezas da realidade, do profundo do ser, onde o Deus, Fonte de vida, sustenta tudo; uma Luz que me faz descobrir meu ser essencial: filhos e filhas amados (as) e irmanados (as) com todos e com tudo.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Na minha vida cristã, não faltam momentos de claridade e certeza, de alegria de luz. 

E tudo depende de minha visão, ou seja, se meu olhar só capta o imediato e rasteiro que me rodeia, ou se é capaz de descobrir o profundo e o luminoso em tudo... 

- Como é meu olhar? Sou capaz de transfigurar o olhar para captar a presença da Luz, da profundidade de sentido, da presença de Deus... Que há por detrás de cada circunstância? 

- Minha presença cotidiana, é oportunidade para deixar transfigurar minha luz interior, que se visibiliza na bondade, na compaixão, no compromisso com a vida...?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 17, 1-9
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Jesus é luz
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Canções que a fé escreveu
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:02




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