quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Leitura Orante – 7º Domingo TC, 23 de Fevereiro 2020



Leitura Orante – 7º Domingo TC, 23 de Fevereiro 2020


O LABIRINTO DO PERFECCIONISMO

“Portanto, sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste”. (Mt 5,48)


Texto Bíblico: Mateus 5,38-48


1 – O que diz o texto?
O evangelho deste domingo é continuação do discurso de Jesus sobre o Monte, onde apresenta o modo original de ser e de viver dos seus seguidores; trata-se da nova justiça do Reino, aonde Jesus vai até às raízes mais profundas de nosso ser para ativar o amor ali presente; este amor, aberto, oblativo, gratuito..., é capaz de uma nova relação até com os inimigos, em profunda sintonia com o modo de agir do Pai, que ama a todos, bons e maus, pois todos são seus filhos e filhas.

Mas, quando Jesus fala em amar os inimigos, não se refere somente àqueles inimigos externos.

Suas palavras se referem também a um acontecimento interior. Quando o inimigo é uma força externa nem sempre há motivos para assumirmos a culpa. Mas quando o inimigo se encontra no nosso interior e nós não conseguimos entrar em acordo com ele, os responsáveis somos nós mesmos; precisamos saber lidar com nossas sombras e fragilidades e, assim, reconciliar-nos com o inimigo interno que rejeitamos.

Reconciliar-nos com nossas fraquezas e nossos lados sombrios é um processo doloroso, mas, quando tentamos evitar essa dor e ignoramos o nosso adversário interior, acabamos gastando muita energia na ilusão de mantê-lo afastado.

Se não chegarmos a um acordo com o inimigo em nosso interior, ele se transformará em um tirano que nos dominará; aquilo que rejeitamos em nós se transforma em juiz interior e esse nos manterá confinados na prisão do nosso próprio medo e da auto rejeição. 

A cura significa também reconciliação; nosso inimigo interior só se transformará em nosso amigo e ajudante no nosso caminho de vida se nos reconciliarmos com ele.

Ao oferecer-nos um gesto de perdão em vez de um gesto de repulsão ou de condenação, tornamo-nos mais humanos.  Demonstramo-nos humanos com quem mais precisa de humanidade: nós mesmos.

É o momento da compaixão para conosco mesmo.


2 – O que o texto diz para mim?
Diante da necessidade de reconciliação com minhas sombras, limites, fragilidades e fracassos..., pode parecer estranho a afirmação final, no evangelho de hoje: “Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”.

Lucas, no entanto, modifica as palavras de Jesus para escrever: “Sede misericordiosos, como vosso Pai é misericordioso”. Sem dúvida, esta expressão parece mais ajustada, inclusive por todo o contexto. E tem razão, porque não se pode exigir que o ser humano seja “perfeito”; não só não está ao seu alcance, mas essa demanda pode conduzi-lo a um perfeccionismo estéril e esgotador.

Foi assim que, ao longo da história, surgiu uma cultura da perfeição; por séculos, a perfeição seduziu, modelou, dominou e controlou a existência de comunidades e sociedades inteiras.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A minha cultura é controlada pela ideia de que o ser humano pode e deve ser “perfeito”.

Desde a minha infância fui impelida a procurar a perfeição.

Anos e anos, essa ideia de “perfeição” foi modelando minha mente e petrificando meu coração.

Também na vida cristã, inúmeras pessoas e grupos religiosos nasceram e cresceram seguindo as pautas de formação do chamado “ideal de perfeição”, gerando muita rigidez, moralismos, culpabilidades, escrúpulos... e farisaísmo. O seguimento da pessoa de Jesus foi se esvaziando, dando lugar a um voluntarismo centrado na prática minuciosa de leis e normas (legalismo).

Esse conceito assumiu um valor central na compreensão e na orientação da minha vida espiritual, reforçando-se a ideia de que tudo aquilo que diz respeito a Deus deve ser perfeito.

E a santidade passou a ser considerada como sinônimo de perfeição.

Nas suas formas mais graves, a busca da perfeição é estressante, conduz ao desprezo de si mesmo, torna insuportável a relação com os outros e pode conduzir à automutilação.

Quem tem sua vida centrada na busca da perfeição, aceitar o erro é uma tarefa muito humilhante e dificultosa. Longe de ser uma oportunidade, o fato de equivocar-se representa uma ameaça à sua dignidade. Para ele não basta ser bom, é preciso ser perfeito. E, embora, no segredo mais íntimo aceito que jamais será perfeito, pelo menos tenta aparentar isso diante dos outros. Este modo de proceder tem um nome – perfeccionismo – e são muitos os que caminham por seu labirinto.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, isso não é vida. Quero habitar e transitar por lugares onde a compaixão e o cuidado possam abraçar minhas fragilidades e limites. Devo passar de um humanismo da “auto exaltação” para um humanismo da “auto acolhida”.

A compaixão afirma o “eu real” contra as pretensões do “eu ideal”.

A compaixão me orienta para a realidade profunda da minha fragilidade; na compaixão alcanço a mim mesma; a compaixão me leva de volta à casa, revestindo-me de uma atitude amorosa para comigo.

O tecido da vida cotidiana me oferece muitas ocasiões para esta prática de bondade para comigo.

E a compaixão faz parte da essência de meu ser. É a mais humana de todas as virtudes humanas. É ela que me oferece inúmeras ocasiões para me tratar como amiga, em vez de me tratar como estranha.

Graças à compaixão, posso me levantar depois de cada queda, abrir-me novamente à presença da Graça de Deus, continuar a amar tudo aquilo que dentro e fora do meu ser se apresenta sob as vestes do humano. Deste modo, realizo uma orientação sadia no fundo do meu ser.

Assim, o discípulo de Jesus deve ser perfeito no Amor como o Pai celestial é perfeito no Amor. Ele ama a todos sem distinção, “fazendo nascer o sol e cair a chuva sobre maus e bons, justos e injustos”.

Neste sentido, o chamado do Evangelho a ser “perfeitos como o Pai” está em um contexto do amor incondicional e envolvente de Deus, um amor que faz com que o sol se levante para as pessoas más e boas, e que permite que a chuva caia sobre justos e pecadores. Em outras palavras, a perfeição cristã é o convite a um amor que nunca se esgota; é o convite para aprender a perdoar como Deus perdoa e a amar como Deus ama.

Alguns exegetas interpretam que, em hebraico, a expressão “perfeito” faz alusão a algo “completo”. Nesse sentido, o apelo a ser “perfeitos” deve ser entendido como um chamado a aceitar-se em toda a sua verdade. Este sentido seria totalmente aceito a partir de uma antropologia humanista, como um princípio básico de unificação e crescimento: “te aceita com toda tua verdade, com tua luz e tua sombra, teus acertos e erros, tuas qualidades e defeitos...!”

Sou chamada a ser “completa”, aceitando minha verdade e me abrindo à minha verdadeira identidade que transcende meu ego; só assim poderei viver a misericórdia ou compaixão.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A aceitação do limite me ajuda a celebrar a vida em todas as circunstâncias e a saborear a realidade, cheia de riscos, incerta e insegura para todos, mas, ao mesmo tempo, única e irrepetível para sempre.

Longe da tirania do perfeccionismo, saberei conviver com a rica pobreza de minha condição humana; é a calma e o silêncio da oração que irão me libertar da banalidade e do perfeccionismo, me fazendo reconciliar com as fragilidades, próprias e alheias.

- Minha vida é regida pela “pauta da perfeição” ou da “misericórdia”?



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 5,38-48
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Misericórdia infinita
Autor: Walmir Alencar
Intérprete: Walmir Alencar
CD: Misericórdia infinita
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:26




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