quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Leitura Orante – 1º Domingo da QUARESMA, 01 de Março 2020

 

Leitura Orante – 1º Domingo da QUARESMA, 01 de Março 2020

DESERTO, LUGAR DO DISCERNIMENTO

“O Espírito conduziu Jesus ao deserto...” (Mt 4,1)


Texto Bíblico: Mateus 4,1-11


1 – O que diz o texto?
Na experiência do batismo, Jesus escutou a voz do Pai. Trata-se do principal momento teofânico de sua vida, juntamente com a transfiguração. Mateus se serve deles para proclamar que a identidade de Jesus consiste em ser o Filho amado do Pai. Essa é sua identidade e nela se revela que seu “código genético” consiste em ser o Filho, o Amado, o Predileto..., sobre quem se visibiliza a complacência do Pai. 

Agora podemos compreender sua ida ao deserto, movido pelo Espírito, como uma necessidade imperiosa de “processar”, no silêncio e na solidão, essa revelação, de alargar espaço, em sua interioridade, para o deslumbramento e o assombro. 

O significado do deserto não é prioritariamente o penitencial. “Levá-lo-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração”, tinha dito Oséias (2,16), convertendo o deserto em um lugar privilegiado de encontro pessoal e de escuta da Palavra. Jesus é conduzido ao deserto para acolher a Palavra escutada em seu coração no momento de seu batismo. Ele precisava de tempo para assentar no mais profundo de seu ser uma Palavra que o descentrasse para sempre de si mesmo e o situasse à sombra da ternura incondicional de Alguém maior.

O evangelista Mateus apresenta a estadia de Jesus no deserto como um tempo de lucidez, fazendo-nos perceber que a relação filial da qual Ele tinha tomado consciência, iluminou de tal maneira sua visão, que se tornara impossível confundir a Deus com os falsos ídolos que o tentador lhe apresenta: um deus em busca de um mágico e não de um Filho; um “deus” contaminado das vazias pretensões do pior da condição humana: ter, brilhar, ostentar poder, exercer domínio...

O que parece claro é que Jesus buscou o deserto para um tempo de discernimento, em oração e em solidão, diante do Pai que o proclamou seu Filho; Ele teve de refletir e discernir sobre o modo como assumiria sua missão em sua vida pública. 

Ora, essa missão comportava, de fato, não só um fim que havia de realizar (a salvação e a libertação total da humanidade) senão, também, um meio, ou seja, um caminho e uma maneira de proceder, tendo em vista alcançar aquele fim. E esse meio ou esse procedimento era, essencialmente, a solidariedade com todos os pecadores e excluídos da terra, a ponto de morrer com eles e por eles.

Como viver sua missão e a partir de quê lugar? Buscando seu próprio interesse ou escutando fielmente a Palavra do Pai? Como deverá atuar? Dominando os outros ou pondo-se a seu serviço? Buscando sua própria glória ou a vontade de Deus? Centrando sua vida na busca de poder e riqueza ou assumindo uma vida pobre, como expressão de solidariedade com os mais excluídos?


2 – O que o texto diz para mim?
Não posso esquecer que o tentador não propõe a Jesus que se afastasse de seu fim, ou seja, de seu projeto messiânico de salvação (“Se és o Filho de Deus...”), senão que, na realidade, o que ele faz é oferecer a Jesus alguns meios determinados para realizar a implantação do Reino do Pai.

Na cena das tentações, vejo Jesus reagindo do mesmo modo como fez ao longo de toda sua vida: centrado e em sintonia afetiva com tudo aquilo que Ele vai descobrindo como o querer de seu Pai: a vida abundante daqueles que veio buscar e salvar. Ele não veio para preocupar-se de seu próprio pão, mas de preparar uma mesa na quais todos pudessem se sentar para comer; Ele não veio para que os anjos o carregassem sobre as asas, para angariar fama e “ter um nome”, mas para dar a conhecer o nome do Pai e carregar sobre seus ombros todos os perdidos, como um pastor carrega a ovelha extraviada. Não veio para possuir, dominar ou ser o centro, mas para servir e dar a vida.

O que livra Jesus de cair nos enganos do tentador é sua excentricidade, sua referência ao Pai e à sua Palavra, e, a partir desse Centro, receberá o impulso para abandonar o deserto e se deixar conduzir pela corrente de Vida, alimentada pelo Espírito. A partir desse momento, o verei caminhando pela Galiléia, entrando em relação com o mundo dos pobres e excluídos, anunciando o Reino, criando uma nova comunidade de vida, buscando colaboradores, aproximando-se das pessoas, entrando nas casas, acolhendo, curando, ensinando, abrindo um horizonte de sentido para a vida das pessoas...

A passagem evangélica das tentações também me inspira a encontrar com o mesmo Deus a quem Jesus conheceu no deserto: um Deus que não exige de mim proezas nem gestos espetaculares, mas somente alimentar minha confiança n’Ele e meu agradecimento; um Deus que me dirige sua Palavra, não para me impor obrigações ou para apontar minhas fragilidades, mas para me alimentar e me fazer crescer; um Deus que não é encontrado nos lugares carregados de prepotência, de poder, de vaidade e consumismo, mas nos lugares do despojamento e da simplicidade de vida, nos lugares dos “descartados” e excluídos. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Muitas vezes penso que Deus é um “estraga-prazeres”, ou um Deus triste que não quer que eu viva prazerosamente. E, então, tenho a sensação que as tentações são essas coisas fascinantes que me seduzem, mas que tenho de renunciá-las em nome de uma suposta “perfeição”. Porém, Deus não é Aquele que complica minha vida com leis, sacrifícios, renúncias... Ele quer que eu viva e, de maneira intensa.

Para cruzar os desertos da vida é preciso ativar uma atitude de esvaziamento de tudo aquilo que é “peso morto” para chegar ao mais profundo e verdadeiro de meu ser. O deserto me revela de onde vim e para onde vou; ele me remete inteiramente ao Doador da vida e desperta outros recursos vitais, aninhados em meu interior.

Tudo o mais é pouco para a sede do coração. “Só Deus basta”, me sussurra o deserto.

Desde sempre, a humanidade inteira e eu, estou exposta à tentação. Faz parte de minha condição humana. Trata-se de um conflito permanente que pode travar minha existência por dentro.

Por um lado, sinto o apelo e o impulso para o bem, para a liberdade, para o compromisso e a fraternidade. Mas por outro, sinto também a sedução e a tendência para o egocentrismo, o prestígio e os instintos de poder e posse. Sinto-me simultaneamente santa e pecadora, oprimida e libertada. 

As tentações sempre estão diante de mim, como pedras que se convertem em pães, como aplauso buscado a partir dos critérios do mundo, ou como joelhos que se dobram frente às promessas de um ídolo com pés de barro.  São dinamismos que bloqueiam o fluxo da vida, impedindo-a de se expandir e de se colocar a serviço de outras vidas.

Ser tentado é próprio do humano, mas o que é divino pode também ser encontrado em meu interior.

Quem é conduzido pelo Espírito, é capaz de acessar à própria interioridade e não se deixa enredar pelos estímulos externos nem pelos impulsos egoicos.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor diante das tentações do poder, do ter e do prestígio, o seguidor de Jesus responde com a partilha, o serviço, a comunhão, a solidariedade... O tempo quaresmal vem ativar esse dinamismo expansivo. E a Campanha da Fraternidade me motiva a fazer da vida um grande dom e um profundo compromisso.

Só quem se deixa conduzir pelo Espírito, como Jesus, consegue romper com tudo aquilo que atrofia a vida; só assim consegue fazer o salto libertador.

Trata-se de ser dócil para deixar-se conduzir pelos impulsos do Espírito, por onde muitas vezes não entende e não sabe. É Ele quem ativa a que há de melhor em mim mesma, expandindo minha vida em direção aos valores do Reino: desapego, serviço, esvaziamento do ego...

Na realidade, só existe uma “grande tentação” para os cristãos: a tentação radical da infidelidade a Cristo e a seu Reino. É a tentação de traçar para si mesmo um caminho, isto é, de projetar uma vida para si, dando uma direção diferente daquela que lhe deu o próprio Deus. Esta é a maneira de trair o melhor de si mesmo, de renunciar ao que há de melhor em si mesmo. Tentação essa que significa o fracasso da própria vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Diante de “Jesus tentado”, recordar as experiências pessoais de tentação: quais são aquelas que mais me afetam e me seduzem? 

Como proceder para não me deixar conduzir e nem me determinar por elas?

Recordar dimensões da vida que precisam ser ampliadas a partir da experiência do deserto.  


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 4,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 

Sugestão: 
Música: Sem perder a ternura 
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: A profecia e a coragem em canção
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:07






segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Leitura Orante – 4ª feira de Cinzas, 26 de fevereiro 2020


Leitura Orante – 4ª feira de Cinzas, 26 de fevereiro 2020

INÍCIO DA QUARESMA: cinzas que dão vida

“E o teu Pai, que vê no escondido, te recompensará.” (Mt 6,4)


Texto Bíblico: Mateus 6,1-6.16-18


1 – O que diz o texto?
Com a cerimônia da “imposição das Cinzas”, toda a Igreja dá início ao percurso Quaresmal. Neste tempo litúrgico, inspirados pelo tema da CF2020, teremos a oportunidade de experimentar um modo diferente de viver, onde a verdadeira liberdade terá a chance de se expressar. 

Quaresma pode ser escola de vida para o restante do ano; é tempo favorável para “ordenar a própria vida” na direção do sonho de Deus para toda a humanidade. Para que este processo de “ordenamento” aconteça, o tempo litúrgico quaresmal nos convida a “considerar” as nossas relações vitais: com Deus, conosco, com os outros e com o mundo.

Nem sempre sabemos viver de maneira intensa: conformamo-nos com uma vida estreita, estéril, fechada ao novo, carregada de “murmurações”... O dinamismo do Seguimento de Jesus, no entanto, é gerar vida, possibilitar que o(a) discípulo(a) viva a partir da verdade mais profunda de si mesmo(a); ou seja, viver a partir do coração. O seguimento proporciona vigor inesgotável, a vida se destrava e torna-se potencial de inovação criadora, expressão permanente de liberdade, consciência, amor, arte, alegria, compaixão...

Por isso, o sinal decisivo de que alguém crê no Deus de Jesus está na vida que leva; ou seja, está na experiência de viver como viveu Jesus de Nazaré.

Distanciar-se da vida superficial consumista e eleger a vida plena, profunda, comprometida: aqui está o sentido do “percurso quaresmal. 

Em sintonia com todas as comunidades cristãs somos chamados a viver o “tempo quaresmal” sempre de maneira nova e inspiradora. O centro de nossa vida é Jesus Cristo, sua pessoa, sua mensagem, o mistério de sua morte e de sua ressurreição. O caminho do seu seguimento é sempre rico e surpreendente. Muitas vezes, corremos o risco de viver o tempo litúrgico da Quaresma como uma celebração rotineira, algo já conhecido.

Contemplando Jesus Cristo, descobrimos também quem somos nós. Ele nos interpela: que queremos fazer de nossa vida? Como queremos viver? Para quê e para quem vivemos?...

Nesse sentido, através da Campanha da Fraternidade, a Igreja no Brasil nos motiva a viver a Quaresma como um tempo privilegiado para dar um novo sentido à nossa vida. 

Através do tema “Vida, dom e Missão” e do lema “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”, somos movidos a desatar todas as ricas possibilidades e recursos que querem se expressar e que se encontram no mais profundo de nossa interioridade. 

O Evangelho da 4ª feira de Cinzas fala das “práticas quaresmais” da oração, esmola e jejum, onde nossas relações são iluminadas e questionadas pelo modo de viver e de proceder de Jesus.

São três gestos que nos humanizam e tornam a vida mais leve e com sentido; eles condensam o sentido da vida cristã e apresentam-se como uma alternativa privilegiada para viver com mais intensidade.

A vida é um abrir-se aos demais (esmola), sintonizar-se com o coração de Deus (oração) e colocar ordem na própria existência (jejum).

É preciso criar espaço novo no coração e na mente, para que coisas novas aconteçam.


2 – O que o texto diz para mim?
A imagem de Jesus, presente junto às vidas feridas e bloqueadas, me ajuda a conhecer minha própria interioridade e desperta minha vida, arrancando-a de seu fatal “ponto morto”, de seus limites estreitos e constituindo-a como vida expansiva em direção a novos horizontes.

Nesse sentido, minha quaresma torna-se um “estar com Jesus” para, como Ele, dar a Deus o lugar central de minha vida. A quaresma é um tempo em que dou maior liberdade a Deus para agir em mim; é abrir espaço, alargar o coração para a ação de Deus. É tempo de reconstrução de mim mesma (conversão), de retomada da opção fundamental por Deus e pelo seu Reino (maior serviço, mais compaixão, mais partilha mais solidariedade...).


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Sintonizada com o lema da CF – “viu, sentiu compaixão e cuidou dele” – a Quaresma é também um tempo privilegiado para reeducar a olhar: superar o olhar possessivo, interesseiro, frio... e entrar em sintonia com o modo de olhar de Jesus, ou seja, olhar carregado de admiração, compaixão, calor humano... Este tempo litúrgico me move a fixar o olhar naquilo que vivo a contemplar tudo o que compõe minha existência, para dar um novo sentido e significado.

Como o bom samaritano, preciso reaprender a olhar, para me deixar impactar pela situação dos outros, sobretudo dos mais carentes e excluídos. Nesse sentido, as três práticas quaresmais – “jejum, oração e esmola” – implicam também uma conversão do olhar, para captar o mistério da vida que me envolve e me aproximar d’Aquele que é Fonte da Vida.

A liturgia quaresmal me propõe o jejum; aqui, a novidade não está tanto em reduzir o que comer o que ingerir de uma maneira quase mecânica. O jejum também tem a ver com o sentido da visão: olhar a mim mesma, fixar a atenção naquilo que me alimenta ativar a prática de me olhar com mais compaixão; talvez, afastar de mim aquele olhar que me destrói por dentro, que me causa dano, que bloqueia a expressão de minha verdadeira identidade.

O olhar é o reflexo de minha interioridade; ele tem um grande poder porque deixa transparecer o que acontece e o que sinto por dentro.

A outra prática quaresmal proposta é a esmola; dar o que tenho não o que me sobra; aqui significa compartilhar um olhar novo, que eleva o outro, que consegue perceber nele um tesouro escondido, olhar humanizante e humanizador; tem a ver com o presentear ao outro um olhar de consolo, de acolhida, de cuidado, de sorriso...; acostumada a “ver” as coisas, as pessoas e, de tanto ver, banalizo o olhar, perdendo a capacidade de despertar assombro e encantamento. Vejo e não olho. O que está próximo de mim, o que me é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual vai se estreitando e tudo se torna rotina.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor é salvífico ativar o olhar mais expansivo e contemplativo, um olhar que me faz sair de mim mesma, me conduzindo à admiração e ao encantamento diante do dom maravilhoso da vida, em suas múltiplas expressões. Olhar que desperta a gratidão e o louvor. Um olhar que deixa transparecer, neste tempo propício, que a Vida com maiúscula é possível.

E, finalmente, a prática quaresmal por excelência: a oração. Deixar retumbar dentro de mim a pergunta: “a partir de onde você olha?” A liturgia me pede, neste tempo litúrgico, que eu seja capaz de olhar a partir de Deus; que fixando meu olhar no Senhor Jesus, eu seja capaz de me olhar com mais bondade, de olhar os outros com mais carinho, de olhar a criação com mais admiração. Só assim terei olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo.

Quaresma é um tempo para eu me deixar olhar por Deus, para descobrir o olhar em cada irmão e aprender a olhar como Deus olha, porque um olhar Seu, bastará para me fazer “converter e crer no evangelho”.

“Um olhar contemplativo percebe sinais de evangelho nos acontecimentos mais simples” (Ir. Roger).

Quaresma é um convite a começar outra vida, a concentrar minhas energias e a me deslocar em outra direção. Nesse sentido, a vivência quaresmal é uma verdadeira “escola de vida”, cujo aprendizado me leva ao centro do meu ser, para enraizar minha vida no coração da Trindade, dele haurir a seiva da vida divina e deixar-me plenificar pela graça transbordante de Deus.

Nada mais contrário ao espírito do Evangelho que a vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores... É vida em movimento, gesto de ir além de mim mesma; vida fecunda, potencial humano. Vida com fome e sede de significado, que busca o sentido... Vida que é encontro, interação, comunhão, solidariedade. Vida que é seduzida pelo amor, pela ternura. Vida que desperta o olhar para o vasto mundo. Vida que é voz, é canto, é dança, é festa, é convocação...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Tornar o meu coração vulnerável ao olhar do Pai, receptivo a todo apelo que vem d’Ele, deixando-me tocar pelo inesperado, pela novidade, pela iniciativa amorosa de Deus.

Evangelizar o olhar: aprender a olhar como Jesus, ultrapassando as aparências.

Estar atenta em perceber de como é o meu “olhar” as pessoas, as coisas, os fatos, o mundo...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 6,1-6.16-18
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Olhares diferente
Autor: Jorge Trevisol
Intérprete: Jorge Trevisol
CD: A dança do universo
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:55



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Leitura Orante – 7º Domingo TC, 23 de Fevereiro 2020



Leitura Orante – 7º Domingo TC, 23 de Fevereiro 2020


O LABIRINTO DO PERFECCIONISMO

“Portanto, sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste”. (Mt 5,48)


Texto Bíblico: Mateus 5,38-48


1 – O que diz o texto?
O evangelho deste domingo é continuação do discurso de Jesus sobre o Monte, onde apresenta o modo original de ser e de viver dos seus seguidores; trata-se da nova justiça do Reino, aonde Jesus vai até às raízes mais profundas de nosso ser para ativar o amor ali presente; este amor, aberto, oblativo, gratuito..., é capaz de uma nova relação até com os inimigos, em profunda sintonia com o modo de agir do Pai, que ama a todos, bons e maus, pois todos são seus filhos e filhas.

Mas, quando Jesus fala em amar os inimigos, não se refere somente àqueles inimigos externos.

Suas palavras se referem também a um acontecimento interior. Quando o inimigo é uma força externa nem sempre há motivos para assumirmos a culpa. Mas quando o inimigo se encontra no nosso interior e nós não conseguimos entrar em acordo com ele, os responsáveis somos nós mesmos; precisamos saber lidar com nossas sombras e fragilidades e, assim, reconciliar-nos com o inimigo interno que rejeitamos.

Reconciliar-nos com nossas fraquezas e nossos lados sombrios é um processo doloroso, mas, quando tentamos evitar essa dor e ignoramos o nosso adversário interior, acabamos gastando muita energia na ilusão de mantê-lo afastado.

Se não chegarmos a um acordo com o inimigo em nosso interior, ele se transformará em um tirano que nos dominará; aquilo que rejeitamos em nós se transforma em juiz interior e esse nos manterá confinados na prisão do nosso próprio medo e da auto rejeição. 

A cura significa também reconciliação; nosso inimigo interior só se transformará em nosso amigo e ajudante no nosso caminho de vida se nos reconciliarmos com ele.

Ao oferecer-nos um gesto de perdão em vez de um gesto de repulsão ou de condenação, tornamo-nos mais humanos.  Demonstramo-nos humanos com quem mais precisa de humanidade: nós mesmos.

É o momento da compaixão para conosco mesmo.


2 – O que o texto diz para mim?
Diante da necessidade de reconciliação com minhas sombras, limites, fragilidades e fracassos..., pode parecer estranho a afirmação final, no evangelho de hoje: “Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”.

Lucas, no entanto, modifica as palavras de Jesus para escrever: “Sede misericordiosos, como vosso Pai é misericordioso”. Sem dúvida, esta expressão parece mais ajustada, inclusive por todo o contexto. E tem razão, porque não se pode exigir que o ser humano seja “perfeito”; não só não está ao seu alcance, mas essa demanda pode conduzi-lo a um perfeccionismo estéril e esgotador.

Foi assim que, ao longo da história, surgiu uma cultura da perfeição; por séculos, a perfeição seduziu, modelou, dominou e controlou a existência de comunidades e sociedades inteiras.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A minha cultura é controlada pela ideia de que o ser humano pode e deve ser “perfeito”.

Desde a minha infância fui impelida a procurar a perfeição.

Anos e anos, essa ideia de “perfeição” foi modelando minha mente e petrificando meu coração.

Também na vida cristã, inúmeras pessoas e grupos religiosos nasceram e cresceram seguindo as pautas de formação do chamado “ideal de perfeição”, gerando muita rigidez, moralismos, culpabilidades, escrúpulos... e farisaísmo. O seguimento da pessoa de Jesus foi se esvaziando, dando lugar a um voluntarismo centrado na prática minuciosa de leis e normas (legalismo).

Esse conceito assumiu um valor central na compreensão e na orientação da minha vida espiritual, reforçando-se a ideia de que tudo aquilo que diz respeito a Deus deve ser perfeito.

E a santidade passou a ser considerada como sinônimo de perfeição.

Nas suas formas mais graves, a busca da perfeição é estressante, conduz ao desprezo de si mesmo, torna insuportável a relação com os outros e pode conduzir à automutilação.

Quem tem sua vida centrada na busca da perfeição, aceitar o erro é uma tarefa muito humilhante e dificultosa. Longe de ser uma oportunidade, o fato de equivocar-se representa uma ameaça à sua dignidade. Para ele não basta ser bom, é preciso ser perfeito. E, embora, no segredo mais íntimo aceito que jamais será perfeito, pelo menos tenta aparentar isso diante dos outros. Este modo de proceder tem um nome – perfeccionismo – e são muitos os que caminham por seu labirinto.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, isso não é vida. Quero habitar e transitar por lugares onde a compaixão e o cuidado possam abraçar minhas fragilidades e limites. Devo passar de um humanismo da “auto exaltação” para um humanismo da “auto acolhida”.

A compaixão afirma o “eu real” contra as pretensões do “eu ideal”.

A compaixão me orienta para a realidade profunda da minha fragilidade; na compaixão alcanço a mim mesma; a compaixão me leva de volta à casa, revestindo-me de uma atitude amorosa para comigo.

O tecido da vida cotidiana me oferece muitas ocasiões para esta prática de bondade para comigo.

E a compaixão faz parte da essência de meu ser. É a mais humana de todas as virtudes humanas. É ela que me oferece inúmeras ocasiões para me tratar como amiga, em vez de me tratar como estranha.

Graças à compaixão, posso me levantar depois de cada queda, abrir-me novamente à presença da Graça de Deus, continuar a amar tudo aquilo que dentro e fora do meu ser se apresenta sob as vestes do humano. Deste modo, realizo uma orientação sadia no fundo do meu ser.

Assim, o discípulo de Jesus deve ser perfeito no Amor como o Pai celestial é perfeito no Amor. Ele ama a todos sem distinção, “fazendo nascer o sol e cair a chuva sobre maus e bons, justos e injustos”.

Neste sentido, o chamado do Evangelho a ser “perfeitos como o Pai” está em um contexto do amor incondicional e envolvente de Deus, um amor que faz com que o sol se levante para as pessoas más e boas, e que permite que a chuva caia sobre justos e pecadores. Em outras palavras, a perfeição cristã é o convite a um amor que nunca se esgota; é o convite para aprender a perdoar como Deus perdoa e a amar como Deus ama.

Alguns exegetas interpretam que, em hebraico, a expressão “perfeito” faz alusão a algo “completo”. Nesse sentido, o apelo a ser “perfeitos” deve ser entendido como um chamado a aceitar-se em toda a sua verdade. Este sentido seria totalmente aceito a partir de uma antropologia humanista, como um princípio básico de unificação e crescimento: “te aceita com toda tua verdade, com tua luz e tua sombra, teus acertos e erros, tuas qualidades e defeitos...!”

Sou chamada a ser “completa”, aceitando minha verdade e me abrindo à minha verdadeira identidade que transcende meu ego; só assim poderei viver a misericórdia ou compaixão.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A aceitação do limite me ajuda a celebrar a vida em todas as circunstâncias e a saborear a realidade, cheia de riscos, incerta e insegura para todos, mas, ao mesmo tempo, única e irrepetível para sempre.

Longe da tirania do perfeccionismo, saberei conviver com a rica pobreza de minha condição humana; é a calma e o silêncio da oração que irão me libertar da banalidade e do perfeccionismo, me fazendo reconciliar com as fragilidades, próprias e alheias.

- Minha vida é regida pela “pauta da perfeição” ou da “misericórdia”?



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 5,38-48
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Misericórdia infinita
Autor: Walmir Alencar
Intérprete: Walmir Alencar
CD: Misericórdia infinita
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:26




quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Leitura Orante – 6º Domingo TC, 16 de Fevereiro 2020


Leitura Orante – 6º Domingo TC, 16 de Fevereiro 2020

JUSTIÇA DO REINO: “a mais sublime bondade”

“Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus...” (Mt 5,20)


Texto Bíblico: Mateus 5,17-37


1 – O que diz o texto?
Na Bíblia, a justiça é um dos conceitos centrais, com uma diversidade de sentidos e, por isso mesmo, difícil de ser definido. Em todo caso, trata-se de um conceito que inclui “relação”.

Nas “antíteses” – “ouvistes o que foi dito..., eu, porém, vos digo” – do Sermão da Montanha, somos colocados diante de cinco casos concretos que tem a ver com a vida relacional e comunitária: a reconciliação, o olhar puro que não se apossa de outra pessoa, a veracidade e transparência no falar, a não violência (ou mansidão bíblica) e o amor gratuito que inclui o “inimigo”.

Em todos eles, podemos crescer sempre mais, graças à compreensão de quem somos no nível mais profundo; o “eu, porém, vos digo” de Jesus nos inspira a descer até às raízes de nosso ser, esvaziando-nos progressivamente de nosso ego e ativando todos os recursos humanizadores aí presentes.

Na perspectiva bíblica, “justo” é aquele que, perante Deus e os homens, se “ajusta” ao modo de agir do mesmo Deus, vivendo e agindo com a marca da bondade.

Visto que justiça designa o comportamento do ser humano em conformidade com a Vontade de Deus, pode-se falar de “praticar a justiça”; ou de “cumprir toda a justiça”.

Portanto, a expressão “justiça de Deus” não tem nenhuma relação com o julgamento de Deus; ela é, antes de tudo, misericórdia e fidelidade a uma vontade de salvação. O conceito descreve uma maneira de ser ou de agir de Deus. Deus é justo porque é bondade e misericórdia. Por isso, também do lado humano a justiça deve significar uma maneira de prolongar o ser e o agir de Deus.

O problema da relação entre misericórdia e justiça está em considerar como rivais ou como incompatíveis esses dois atributos de Deus. É preciso afirmar os dois ao mesmo tempo e procurar compreender como ambos estão em Deus, sem que um anule o outro, mas reforçando-se mutuamente. Poderíamos formular assim: Deus é justo em sua misericórdia e misericordioso em sua justiça. Segundo o Papa Francisco, “a misericórdia não exclui a justiça e a verdade, mas, antes de tudo, temos que dizer que a misericórdia é a plenitude da justiça e a manifestação mais luminosa da verdade de Deus”.

Já no Primeiro Testamento encontramos afirmações deste tipo: a justiça de Deus é sua misericórdia. A justiça de Deus coincide com sua misericórdia, sua bondade, sua santidade. São Paulo, em sua carta aos romanos, afirma que a justiça de Deus se manifesta na justificação do pecador, de modo que o Deus justo é justificador. Podemos concluir, pois, que Deus é justo porque quer que todos se salvem. É de esperar, portanto, que esta vontade de Deus se cumpra. É claro que, diante do dom da salvação intervém a liberdade humana, porque salvação é acolhida do Deus que é Amor, e não há amor sem recíproca acolhida.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus veio expandir o horizonte do comportamento humano; veio me libertar dos perigos do moralismo e do legalismo. À luz da justiça de Deus (“força que salva”), Jesus me apresenta um modo de proceder mais radical, relendo os mandamentos.

A justiça de Deus não é poder que se impõe, mas amor aberto e libertador, a partir dos últimos e dos excluídos da humanidade. A liberdade criadora de Deus, que é amor aos pobres, se torna princípio de justiça, pois o evangelho chama “justos” precisamente aqueles que acolhem os exilados, visitam os encarcerados, dá pão a quem tem fome..., ou seja, àqueles que colocam suas vidas a serviço dos excluídos e vítimas das instituições sociais e econômicas injustas.

O único fundamento de qualquer justiça é Cristo. N’Ele eu me torno justiça de Deus (2Cor 5,21).

A partir desta perspectiva, posso entender o que Jesus fez em seu tempo com a Lei de Moisés. Disse que não vinha abolir a lei, mas plenificá-la, porque foi acusado pelas autoridades religiosas de ser um transgressor das leis. Jesus não foi contra a Lei, senão que foi mais além da Lei. Quis dizer que toda lei é sempre limitada, que sempre posso ir mais além da letra da lei, da pura formulação, até descobrir o espírito que a inspira. A vontade de Deus está mais além de qualquer formulação, por isso, não posso me limitar ao que está escrito, mas preciso sempre dar um passo a mais. Na vivência do amor, que emana do meu eu mais profundo, devo ser sempre mais radical, não cedendo diante da mínima manifestação do meu auto-centramento. Na realidade, quem ama, não precisa de leis. Segundo São Paulo, “quem ama, cumpre toda lei”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus passou de um cumprimento externo de leis a uma descoberta das exigências de seu próprio ser. Esta revolução que Ele iniciou, ainda está por ser realizada. Avanço muito pouco nessa direção. Todas as indicações do evangelho no sentido de viver no espírito e não na letra, parece que estão sendo ignoradas. Caio facilmente no legalismo, no farisaísmo que se perde em meio a um emaranhado de leis, desviando-se do essencial, que é a vivência do amor oblativo, gratuito, expansivo...

“Ouvistes o que foi dito: não matarás, não cometerás adultério, não jurarás falso; eu, porém, vos digo...” Não fica abolido o mandamento antigo, mas elevado a níveis incrivelmente mais profundos. Jesus me revela que uma atitude interna negativa é já uma falha contra meu próprio ser, ainda que não se manifeste numa ação concreta contra o outro.

Por isso, segundo Jesus, não basta cumprir a Lei, que ordena “não matarás”. É necessário, além disso, arrancar de minha vida a agressividade, o desprezo ao outro, os insultos ou as vinganças. Aquele que não mata cumpre a Lei, mas, se em seu coração há resquícios de violências, ali não reina o Deus que busca construir nesse mundo uma vida mais humana.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor eu estou percebendo que está se estendendo cada vez mais, na sociedade atual, uma linguagem que reflete o crescimento da agressividade, do preconceito, da intolerância, do fechamento diante de quem pensa e sente de maneira diferente... Cada vez são mais frequentes os insultos ofensivos, proferidos só para humilhar, desprezar e ferir. Palavras nascida da rejeição, do ressentimento, do ódio ou da vingança...

Por outra parte, as conversações (sobretudo nas redes sociais) estão tecidas de palavras injustas que espalham condenações e semeiam suspeitas (fake-news). Palavras ditas sem amor e sem respeito que envenenam a convivência causam danos e rompem as relações entre as pessoas.

Portanto, os mandamentos continuam tendo sentido. É um mapa de rota, uma proposta, um chamado para entender a vida. A chave é compreendê-los e vivê-los, não a partir do medo ao fracasso e ao castigo, mas a partir da disposição de crescer humanamente na relação com os outros. 

Quês me ensinam eles sobre o ser humano, sobre as relações sociais e sobre eu mesma? 

Quê caminho me propõe para a vida? 

Quê horizonte me mostra?

É necessário dirigir meu olhar a Jesus para que, na comunidade cristã, a instituição não seja mais importante que o Evangelho, nem que a Lei seja mais importante que a misericórdia. O Plano de Deus e a fé cristã são muito mais que uma adesão doutrinal, é humanizar-se para amar. “O cristianismo não é uma ética de mínimos de justiça, mas uma religião de máximos de felicidade. Os mínimos de justiça lhe parecem irrenunciáveis, mas tais mínimos não esgotam o conteúdo da religião cristã. Suas propostas não competem com a ética cívica, senão que a complementam. Enquanto que a universalidade dos mínimos de justiça é uma universalidade exigível, a dos máximos de felicidade é uma universalidade ofertável” (Adélia Cortina). 

#Justiça do Evangelho, centrado no amor #Justiça humana, centrada na lei.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O empenho em favor da justiça não terá fim. Numa releitura da 4ª bem-aventurança posso afirmar:

“Felizes os famintos de justiça, que nunca serão saciados”.

- Frente às pessoas que pensam e sentem de maneira diferente, o que prevalece em mim, o peso da lei ou a força da misericórdia?

- Como eu vivo o quinto mandamento -“não matar” - no uso das redes sociais?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 5,17-37
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Amor nunca morre
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérpretes: Pe. Zezinho, scj
CD: Oração pela família
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:31


terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Leitura Orante – 5º Domingo TC, 09 de Fevereiro 2020


Leitura Orante – 5º Domingo TC, 09 de Fevereiro 2020

ILUMINA TEU ANDAR COM A LUZ QUE HÁ EM TI MESMO

“Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14)


Texto Bíblico: Mateus 5,13-16


1 – O que diz o texto?
O evangelho deste domingo é continuação das bem-aventuranças; estamos no início do primeiro discurso de Jesus, conhecido como “Sermão da Montanha”. É, portanto, um texto ao qual Mateus quer dar suma importância. As duas imagens, luz e sal, tem forte impacto na vida do seguidor e seguidora de Jesus, pois sua presença no mundo deveria fazer a diferença: iluminar e dar sabor. 

A mensagem de hoje é muito simples e de grande valor; efetivamente, todo aquele ou aquela que alcançou a iluminação, ilumina. Se uma vela está acesa, necessariamente tem de iluminar. Se colocamos sal no alimento, este necessariamente ficará temperado. O encontro com Aquele que é a Luz ativa a luz, talvez atrofiada, em nosso interior.

Quanto mais luz emergir de dentro, mais brilhante será o mundo em que vivemos.

Sabemos que a luz, por si mesma, é contagiosa e expansiva; em oposição às trevas, a luz exalta o que belo e bom, na realidade e nas pessoas. Pelo fato de ser benfazeja e criadora, ela nos permite dizer com o poeta Thiago de Mello, no meio de impasses, ameaças e conflitos que pesam sobre nossa vida: “Faz escuro, mas eu canto”.

Mas, o quê quer dizer quando aplicamos a uma pessoa humana o conceito de iluminada? 

Todos os grandes líderes espirituais falam de iluminação. Não é fácil entender o que isso significa. Na realidade, só pode compreender isso quem faz a experiência de estar iluminado.

Quando as tradições religiosas falam de iluminação, elas se referem a uma pessoa que despertou, ou seja, que ativou todas as suas possibilidades de ser humano. Estamos, então, falando de uma pessoa plenamente humana: aquela que vive uma interioridade iluminada.

Isto é precisamente o que está nos dizendo o evangelho de hoje. Dá por suposto que o caminho do seguimento de Jesus é um “caminho de humanização”, é uma experiência de iluminação; os discípulos, na convivência com o Iluminado, são despertados, mobilizam seus recursos iluminantes e tornam-se também iluminados; como consequência, são capazes de expandir suas luzes e mobilizar a luz escondida nos outros. É inútil tentar iluminar os outros, estando apagados, adormecidos, paralisados em sua obscura vida.


2 – O que o texto diz para mim?
Devo ter cuidado de iluminar, não deslumbrar. Como é sedutor estar no candeeiro! Há muitos que anseiam estar no candeeiro, mas não tem luz. Não se trata de “subir” ao candeeiro, mas possibilitar que a luz interior ilumine a partir dele.

O candeeiro não é para que os outros me vejam; é para que a luz de minha vida  ilumine melhor. O candeeiro não é para que eu esteja mais alto, e sim, para que a luz interior se espalhe mais e desperte a “faísca de luz”, presente no coração dos outros. “Estar no candeeiro” significa estar a serviço do outro, pensando no bem dele e não em minha vaidade; devo oferecer o que o outro espera e necessita, não o que eu quero lhe oferecer. 

Muitas vezes, eu cristã sou mais afeiçoada a deslumbrar que a iluminar; tenho a tendência a ser presença iluminante desde que com isso se potencie meu “ego”. Porque o ego necessita fazer-se notar e brilhar; não está disposto a consumir-se nem a passar desapercebido.

Cego as pessoas com imposições excessivas e torna inútil a mensagem de Jesus para iluminar a vida real de cada dia. Quando tiro alguém de sua obscuridade, devo dosar a luz para não causar dano a seus olhos.

O sal é um dos minerais mais simples (cloreto de sódio), mas também é um dos mais imprescindíveis para minha alimentação. Mas tem muitas outras virtudes que podem me ajudar a entender o relato deste domingo. No tempo de Jesus, eram usados blocos de sal para revestir por dentro os fornos de pão. Com isso, conseguia-se conservar o calor para o cozimento do pão. Este sal, com o tempo, perdia sua capacidade térmica e devia ser substituído. Os restos das placas retiradas eram utilizados para compactar a terra dos caminhos.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Agora posso compreender a frase do evangelho: “se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens”.

O sal não se torna insosso; o sal dos fornos sim pode perder a qualidade de conservar o calor. 

A expressão latina “evanuerit” significa desvirtuar-se, desvanecer-se. A tradução melhor seria assim: se o sal perde sua qualidade, como poderá recuperar-se. Esse sal “queimado” só serve para ser jogado nos caminhos e ser pisado pelas pessoas.

Há um aspecto no qual sal e luz coincidem: não tem utilidade por si mesma. Se o sal permanece isolado em um recipiente, não serve para nada; só quando entra em contato e se dissolve nos alimentos pode dar sabor ao que como; para salgar, o sal precisa desfazer-se, deixar de ser o que era. 

Segundo os entendidos na arte culinária, não é o sal de “dá sabor”; ele realça o sabor de cada alimento. O humilde sal é feito para os outros, para que os outros sejam eles mesmos.

O mesmo acontece com a luz; se ela permanece fechada e oculta, não pode iluminar ninguém. Só quando está em meio às trevas pode iluminar e orientar. A luz não é para ser vista, caso contrário, cega. A lâmpada ou a vela produz luz, mas o azeite ou a cera se consomem. Imagens que revelam que minha existência só terá sentido na medida em que me consumo em benefício dos outros. Uma comunidade cristã isolada do mundo não pode ser sal e nem luz.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, ser sal e luz do mundo me move a encontrar outras vidas, outras histórias, outras situações…; escutar outros relatos que trazem muita luz para a minha própria vida. Olhar a partir de um horizonte mais amplo, ajuda a relativizar meus próprios absolutos e deixar-me impactar pelos valores presentes no outro. Escutar de tal maneira que o que ouço penetra na minha própria vida; isso significa implicar-me afetivamente, relacionar-me com pessoas, não com etiquetas. Acolher na minha própria vida outras vidas; abrir espaços para que as histórias dos excluídos e diferentes encontrem morada nas minhas entranhas, na minha memória e no meu coração.

Ser sal e luz é dizer sim à vida. Experimento isso quando eu me mergulho na vida, quando cresço nela, buscando, saboreando até o final o que ela me oferece em cada circunstância. 

Nunca alheia à vida, nada desprezando, nada lamentando. 

Ser sal e luz não é um programa. É uma experiência de vida, um modo de estar no mundo a partir da confiança numa promessa. Enraizada na pessoa e promessa de Jesus, o chamado a ser sal e luz me propõe um estilo próprio de vida aberto e expansivo: uma maneira alegre, pacífica, compassiva, responsável e generosa de se fazer presente neste mundo onde são centrais o cuidado de todo o vivente e o trabalho em favor da justiça. 

O apelo de Jesus me move a transformar o que, com frequência, é terra insípida ou deserto inóspito em um mundo mais humano, com sabor de lar humanizador.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
“Deus é Luz, e n’Ele não há treva alguma” (1Jo 1,5).

É preciso buscar esta faísca de luz dentro de mim, no meu eu mais profundo. Talvez por isso um dia alguém escreveu: no ser humano há mais coisas dignas de admiração que de desprezo.

Minha relação com os outros: deixar transparecer a luz da compaixão, da acolhida ao diferente, do cuidado...

Descobrir o sabor que minha presença revela na realidade onde eu vivo. Fazer a diferença. Inspirar...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 5,13-16
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Está faltando uma luz
Autor: Pe Zezinho, scj
Intérpretes: Pe Zezinho, scj
Coro: Dalva Tenório, Maria Diniz, Sueli Gondim, Ricardo Moreno, Paulinho Campos, Rubinho Ribeiro, Beto, Betinho, Sonia Mara, Marluce
CD: Canções para o sol maior
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:02