terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Leitura Orante – Apresentação de JESUS, 02 de Fevereiro 2020


Leitura Orante – Apresentação de JESUS, 02 de Fevereiro 2020

APRESENTAÇÃO DO SENHOR: “Deus no colo”

“Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus” (Lc 2,28)


Texto Bíblico: Lucas 2,22-40


1 – O que diz o texto?
Neste ano, o 4º dom do Tempo Comum coincide com 02 de fevereiro, um dia de festa de Jesus e de sua mãe Maria; festa que é conhecida com vários nomes:

- Apresentação de Jesus no Templo, para ser oferecido a Deus; a humanidade, representada por Maria e José, “presenteiam” a Deus o maior dom que possuem seu filho primogênito, a Luz das Nações;

- Purificação da mãe Maria, a quem Simeão revela seu destino sofredor e ativo de Mãe. Esta é a festa das sete dores que purificam e iluminam, quando são assumidas a serviço dos outros;

- Festa da Luz, dia das Candeias. Quarenta dias depois do nascimento de Jesus (fechando o ciclo do Natal), os cristãos (especialmente as mulheres) iam às igrejas com velas/candeias, dando graças pela vida.

Todos nós sabemos e experimentamos que o modo de agir de Deus é discreto, silencioso. Ele se deixa encontrar no cotidiano e nas histórias simples.  O mundo está cheio de mistérios grandiosos que cobrimos com a rotina e as pressas. Falta-nos capacidade de assombro e pureza no olhar para captar o mistério do simples. Quando a realidade é vista tão somente com os olhos estreitos e interessados, perdemos a oportunidade de contemplar o rosto d’Aquele que se deixa encontrar em tudo e em todos.

Todo o relato da Apresentação de Jesus no Templo está atravessado de cotidianidade, com a marca da simplicidade e dos olhares contemplativos. Aqui se faz visível uma festa de promessas cumpridas.  

Simeão e Ana tiveram o privilégio de contemplar o Salvador, porque souberam esperar e permanecer. E porque souberam contemplar e viram na vulnerabilidade de um menino, o esperado de Israel.

Podemos imaginar os rostos irradiantes e os olhos cheios de luz destes dois anciãos diante do Menino que lhes abre o futuro e alarga os seus sonhos!...

O Nascimento de Jesus parece despertar os anciãos: Zacarias, o idoso que põe em dúvida a promessa de Deus; Isabel, aquela que concebe na velhice; José, aquele que não compreende o que está acontecendo, mas confia na palavra de Deus; Simeão, o homem que envelhece com a esperança de ver o Messias antes que a morte feche seus olhos; Ana, a profetisa, aquela que dá graças ao Senhor e proclama a todos o nascimento do Messias.


2 – O que o texto diz para mim?
Nos relatos de Lucas, não são os sacerdotes do templo, nem os mestres da lei, nem os legitimados pela religião ou pelo poder social que falam ou reconhecem. Falam os pequenos, os pobres e os simples. Aqueles que não costumam ter palavra – pastores, ilegais, pagãos – são os que veem mais além, maravilham-se, reconhecem e confessam o Menino de Belém.

É com eles que devo estar se quero também reconhecer Jesus.

Alguém poderia perguntar: por que tantos idosos no Nascimento de Jesus?

Infelizmente, não vivo em tempos favoráveis aos idosos; considerados “improdutivos” são “descartados”; para muitos, são só um estorvo.

E, no entanto, são eles as testemunhas da esperança messiânica, as testemunhas das promessas do Espírito Santo, as testemunhas do futuro e do novo, as testemunhas da fé, as testemunhas de um caloroso entardecer da vida. Os anciãos são aqueles que mantêm viva a memória de seu povo, mantém viva a continuidade da história; são eles que sustentam em seus braços o novo que começa; são eles que esquecem a nostalgia do passado, sorriem e cantam o nascimento do novo. Mesmo com sua visão limitada, são capazes de ver e reconhecer as surpresas e as maravilhas de Deus.

Simeão é o ancião que soube esperar. Recebeu a promessa de não morrer sem ver o Messias. E hoje o vejo com o Menino Jesus em seus braços; ele sente sua vida realizada, reconhece o sentido de tudo o que viveu e agora pode soltar-se e abandonar-se em paz; a promessa foi realizada: “viu o Senhor”.

Numa sociedade como a minha, em constante tensão pelo “conflito de gerações”, a figura de Simeão torna-se curiosa e até simpática. Seus braços unem e abraçam o velho e o novo; seus braços apertam o passado e o presente; seus braços são o encontro entre o ontem e o hoje; seus braços, estreitando o menino, são a harmonia entre o que se vai e o que vem.

Simeão não tem nada e, ao mesmo tempo, tem tudo: tem a promessa que alimentou sua vida de esperança até o final; tem os braços calorosos para acolher Deus neles e embalá-lo; e tem a alegria e o prazer de uma ancianidade feliz, realizada e cumprida. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Ao ler e escutar o Evangelho deste domingo, também sou convidada a me fixar em uma pessoa que passa quase desapercebida: Ana, a profetisa. Ela pode me ensinar a ser profeta e profetisa dos buscadores da Vida em um mundo tão desafiante como o meu, onde, muitas vezes, me sinto pequena, incapaz, pobre..., mas também afortunada, livre, discípula d’Aquele que sabe quem sou e por isso me elege, me chama, me convoca a fazer caminho com Ele.

Ana revela uma presença muito discreta, no templo; mas está atenta a tudo o que ali acontece. Ela não faz ruído, passa longas horas em silêncio, sua vida não tem maior relevância social e religiosa...

Lucas só dedica três versículos para revelar o perfil de Ana, e neles sou informada que era “profetisa”, “anciã” e possuidora de um nome significativo: “Ana” vem do verbo “hanan” que em hebraico significa “agraciar”, “favorecer”, e aparece vinculada a um passado marcado por nomes benditos: “Fanuel” significa “rosto de Deus” e “Aser” significa “feliz” ou “afortunado”; mas, o fato de ser viúva desde jovem a associa irremediavelmente a uma situação de perda, vazio e carência. E aqui, aparece vinculada ao templo e dedicada assiduamente ao serviço de Deus.

Mas, de uma maneira imprevista, sua vida deu um grande salto ao aproximar-se de outro ancião, Simeão, precisamente no momento em que este tinha tomado nos braços um menino, filho de uns pobres e desconhecidos Galileus, chamando-o salvador, luz e glória. Junto aos pastores de Belém, Ana recebe as primícias da presença de Jesus, e seu nome de “Agraciada”, que possuía só como promessa, se faz realidade nela; e a partir desse momento, com todo seu ser reverdecido e os olhos cheios de luzes (candeias), dava “graças a Deus e falava do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém”.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a liturgia deste domingo apresenta-se como ocasião privilegiada para eu me  recordar que a velhice é uma etapa da vida, com suas limitações e problemas, mas também com suas grandes possibilidades. Não posso negar o desgaste e os problemas que o passar dos anos traz consigo, mas, ao mesmo tempo, inspirada nos idosos Simeão e Ana, sou motivada a não esquecer que a velhice é a etapa que me oferece a possibilidade de coroar minha vida.

O decisivo é adotar uma postura aberta e positiva diante da última etapa da vida. “Vivê-la positivamente como a culminação da vida, como a etapa sem a qual a vida ficaria inacabada, inconclusa” (L. Diez).

Segundo o Papa Francisco, a pessoa idosa pode viver com mais sabedoria e sensatez, para relativizar, inclusive com humor, muitas coisas que antes dava tanta importância; a ancianidade é tempo para recordar (visitar de novo com o coração) o essencial; o tempo para a quietude e a contemplação; é o tempo para viver mais devagar, sem pressas, encontrando-se consigo mesmo com mais profundidade; é o tempo de desfrutar de maneira mais sossegada cada experiência, cada pessoa, cada encontro.

Frente a uma vida fragmentada e dispersa, os anciãos estão em melhores condições de unificar e integrar sua existência. Esta última etapa da vida se converte em tempo de graça e salvação, pois pode contar sempre com a presença e o auxílio amoroso d’Aquele que é o Senhor dos tempos.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Precisa-se de homens como Simeão e mulheres como Ana, da tribo dos que estão reconciliados com sua própria vida; pessoas com uma presença benevolente e carinhosa para tudo o que lhes rodeia. 

Com olhos expandidos por dentro, eles puderam perceber a salvação de um modo muito diferente do que haviam imaginado. 

O gesto de Simeão me ensina há todos os dias: bendizer e agradecer a vida nova nos outros.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 2,22-40
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Cântico de Simeão – fx 07
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Cantigas ao som da Bíblia
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:00


quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Leitura Orante – 3º Domingo TC, 26 de Janeiro 2020


Leitura Orante – 3º Domingo TC, 26 de Janeiro 2020

JESUS: “COM AS PERIFERIAS NO CORAÇÃO”

“Jesus deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, 
cidade litorânea, nos confins entre Zabulon e Neftali.” (Mt 4,13)


Texto Bíblico: Mateus 4,12-23


1 – O que diz o texto?
Galiléia foi a primeira decisão importante que Jesus tomou no início de sua vida pública. Ele começa sua atividade longe da Judéia, de Jerusalém, do templo, das autoridades religiosas.

Jesus, na Galiléia, encontrou o seu lugar: junto ao mar, nas estradas poeirentas, nas margens... Um “lugar sagrado” que nasceu do seu coração, carregado de afeto, de inspiração, de vitalidade...

Ali, Ele teve suas preferências e elegeu o seu “lugar” entre os mais pobres e excluídos, vítimas daqueles que se faziam donos dos lugares; ali revelou a presença d’Aquele que se faz presente e santifica todos os lugares: o Pai.

Jesus se fez presente nos lugares onde se encontravam aqueles que não tinham “lugar”, os “deslocados”, os socialmente rejeitados e que eram a razão de seu amor e do seu cuidado; fez-se solidário com os “sem lugares” e os convidou a caminhar para um novo lugar: lugar de vida, de comunhão...

Sua missão foi a de reconstruir a identidade das pessoas, devolvendo a elas o seu “lugar”.

Seu ensinamento, cheio de “autoridade”, introduziu uma perspectiva nunca ouvida antes; apresentou uma alternativa que as pessoas mais simples do povo entendiam como revelação do Pai aos pequeninos.

A partir das periferias do mundo, surgiu um canto de vida nova, a sabedoria oculta a muitos sábios e expertos; uma sabedoria que vinha de Deus, desconcertando a sabedoria exibida a partir do centro.

Jesus desconcertou a “sabedoria” do centro a partir da “loucura” da periferia.

Podemos, então, afirmar que Jesus descentralizou o mundo a partir da periferia.

O fato surpreendente é que, em Jesus, Deus não só se fez homem, mas também se fez “margem”.

O próprio Jesus foi “margem”. Belém e Calvário são os dois extremos periféricos – início e fim – de toda uma vida, despojada e pobre.

Todos tinham os olhos voltados para o centro. No templo de Jerusalém era elaborado o saber que ia se expandindo até chegar à menor das sinagogas. No entanto, em Jesus, o Reino de Deus anunciado movimentou-se em direção contrária: subiu a partir da mais baixa periferia, para o centro. Ele começou a falar a partir da margem geográfica, cultural, religiosa e econômica.

Nesse sentido, a vida de Jesus foi “excêntrica”, porque não combinava nem se ajustava com a construção social de todos aqueles que controlavam o mundo a partir do centro.

No entanto, Jesus fez o “centro” da história. Nele, o Pai “nos escolheu antes da criação do mundo”.

Isto quer dizer que o “centro” da história teve seu aparecimento na “periferia”.

Portanto, Jesus descentralizou a história para sempre e situou o surgimento da salvação nas terras excluídas. A ação de Jesus provocou um deslocamento geográfico-social-religioso. 

O centro da história já não se encontra mais em Roma, nem em Jerusalém, e sim na “margem”. Todo aquele que, a partir de então, pretende encontrar-se com Jesus terá de voltar à cabeça e peregrinar em direção às margens, onde estão os prediletos do Pai.


2 – O que o texto diz para mim?
Tendo Jesus se encarnado para sempre nas “periferias” do mundo, porque desejou assumir toda a história a partir daí, também eu, seguidora, tenho de dirigir constantemente o olhar para as “novas periferias”, a partir de onde Ele continua me questionando.

“Êxodo para as periferias”: terra privilegiada, de onde posso contemplar a história e a própria humanidade. A razão mais importante de todo este caminho é a união ao movimento de encarnação de Jesus, decidido pelo Pai como caminho privilegiado para a realização de seu Projeto.

Cada passo na direção das periferias do mundo também é um passo contemplativo em busca do encontro com o Senhor da História, que me chama de “baixo” e de “fora”.

“O discípulo-missionário é um descentrado: o centro é Jesus Cristo que convoca e envia. O discípulo é enviado para as periferias existenciais. A posição do discípulo-missionário não é a de centro, mas de periferias: vive em tensão para as periferias” (Papa Francisco)

Quê significa “fronteiras geográficas e existenciais”? É preciso sair dos limites conhecidos; sair de minhas seguranças para adentrar-me no terreno do incerto; sair dos espaços onde me sinto forte para me arriscar a transitar por lugares onde sou frágil; sair do inquestionável para assumir o novo...

É decisivo estar disposta a abrir espaços em minha história a novas pessoas e situações, novos encontros, novas experiências... Porque sempre há algo diferente e inesperado que pode me enriquecer...

A vida está cheia de possibilidades e surpresas; inumeráveis caminhos que posso percorrer; pessoas instigantes que aparecem em minha vida; desafios, encontros, aprendizagens, motivos para celebrar, lições que aprenderei me fará um pouco mais lúcida, mais humana e mais simples...

A periferia passa a ser terra privilegiada onde nasce o “novo”, por obra do Espírito. Ali aparece o broto original do “nunca visto”, que em sua pequenez de fermento profético torna-se um desafio ao imobilismo petrificado e um questionamento à ordem estabelecida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus começou sua vida pública com um novo ensinamento, rompendo esquemas e modos de viver ditados pelo Templo. Diariamente ouço, leio e me deparo com esta palavra que está tão em moda: inovação; expressão presente em todas as instâncias humanas: empresarial, educativo, social...

Partindo do evangelho deste domingo, posso também fazer esta pergunta: qual é a “inovação do Evangelho”? Que há de inovador, na vida de Jesus, que pode me inspirar?

Com certeza, há uma inovação acima de todas: a paixão de Jesus pela vida, pelo Reino, pelas pessoas, de maneira especial pelas mais excluídas e feridas. Por isso, Jesus inicia sua missão fora dos “espaços sagrados” do Templo; é nas “margens” que Ele, com sua presença inspiradora, ativa um movimento inovador e, ao mesmo tempo, humanizador.

Essa paixão de Jesus se revela em cada passagem do Evangelho, em cada palavra que sai de sua boca, em cada gesto que faz tremer todas as instituições, em cada ação que visa levantar, curar e devolver a dignidade a todo ser humano com quem se encontra. Não há um indício sequer de dogma, de doutrina, de regras, de leis..., a não ser isso: tudo o que faço, vivo e desejo, seja em prol das pessoas, para seu bem e sua felicidade.

A inovação de Jesus está em eliminar da vida todo o peso do legalismo, do moralismo, da culpa..., para fazer emergir o que há de mais humano e divino presente em cada pessoa. A expressão “pescador do humano” deixa transparecer essa inovação mobilizada por Jesus, a partir do mais profundo de cada um.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, seguindo Jesus e deixando-me impactar por sua inovação em favor da vida, estarei, também eu, inovando, quando deixar transparecer uma paixão pelas pessoas, que se manifesta em minha acolhida, em meus gestos, no meu olhar contemplativo, nas minhas palavras mobilizadoras...; trata-se de investir a vida em favor da vida e fazendo os outros se sentirem mais irmãos e mais filhos de um mesmo Pai.

Nesse sentido, Mateus também situa, no início da vida pública de Jesus, o chamado dos quatro primeiros discípulos. Detrás disso, há uma intencionalidade teológica, que busca mostrar Jesus e seus discípulos compartilhando a mesma missão: aliviar o sofrimento humano, com a certeza de que o Reino de Deus tinha chegado. Assim, inicia-se um grande “movimento humanizador”, a partir de baixo, das margens...

Nesse entorno da Galiléia está o futuro do Evangelho; Galiléia é a terra do chamado e, a partir desse lugar, inicia-se também novo caminho do seguimento.

Por isso, os discípulos devem entrar em sintonia com o modo original de ser e de viver de Jesus na Galiléia. É ali que se devem encontrar todos os seus seguidores, para também ali prolongar o movimento iniciado pelo Mestre de Nazaré.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Aquele Desconhecido se aproxima, ainda hoje, do meu mar da Galiléia, que representa os lugares, os afetos, os segredos, os costumes da minha vida cotidiana... ; Ele fixa seu olhar em mim e, com sua Palavra inspiradora, me desafia a transgredir os meus lugares estreitos e entrar em outro mar.

O Evangelho deste domingo faz emergir algumas perguntas que são significativas para a vida cristã:

Eu vivo em processo de mudanças ou continuo sempre igual? 

Meu modo de viver o seguimento de Jesus é sempre criativo ou continua “normótico” (normalidade doentia, sem inspiração, sem afeto...)?

Sou peregrina ou estou ancorada no de sempre? 

Estou me convertendo constantemente para uma vida nova e melhor, ou me contento com uma mera repetição?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 4,12-23
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Quem nos chamou – fx 01
Autor: Pe. José Carlos Sala
Intérpretes: Ana Clara, Ana Paula Ramalho, Fátima Souza, Hemerson Jean , Luiz Felipe, Marcelo Mattos
CD: Há sempre uma luz
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:26

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Leitura Orante – 2º Domingo TC, 19 de Janeiro 2020



Leitura Orante – 2º Domingo TC, 19 de Janeiro 2020

SEGUIDORES DO CORDEIRO

“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29)

Texto Bíblico: João 1,29-34   


1 – O que diz o texto?
Estamos no início de um novo ciclo litúrgico, o “Tempo Comum”, centrado no Evangelho de Mateus; mas, o relato deste domingo é tirado do evangelho de João, que começa com uma imagem forte de João Batista, retomando o motivo do domingo anterior (batismo de Jesus), que hoje é revelado como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Começamos, então, o novo ano afirmando que o sinal de Deus é um Cordeiro; não é a Águia destruidora, nem o Leão furioso que se impõe na selva do mundo, nem o pesado Elefante... O sinal é um Cordeiro que nos conduz ao campo da vida, desde o princípio dos tempos. Jesus, o Cordeiro que se faz presente entre os pequenos, os fracos, excluídos..., e abre caminhos de vida para todos.

Segundo os evangelhos, já não há mais necessidade de sacrifícios de animais, realizados por grandes sacerdotes, porque Deus se fez Cordeiro entre os cordeiros, porque é Graça que perdoa e que ama, e porque os seres humanos podem corresponder, entrando em sintonia com seu amor.

Esta é a experiência fontal: frente a uma religião centrada nos pecados e sacrifícios, o Jesus do 4º Evangelho abre um caminho de graça aos homens e mulheres de todos os tempos; assim, rompe a escravidão religiosa, centrada nas culpas e expiações, e oferece o dom da salvação a todos, sem exceção: judeus e pagãos, cristãos e não cristãos.

No evangelho deste domingo, João Batista não só aponta para quem é Jesus, mas também indica sua missão: “tirar o pecado do mundo”. Tanto no texto grego como latino, “pecado” está no singular. Não se refere aos “pecados” individuais, tais como os entendemos hoje. No evangelho de João, “pecado do mundo” tem um significado muito preciso: é o mundo fechado que rejeita Deus, é o mundo que quer dominar pela força e sacrificar os outros para se impor, é a injustiça e a violência que se expressam nas diferentes formas de intolerâncias e preconceitos, é a humilhação que desumaniza a todos...

Trata-se do “pecado de raiz”, a opressão que, enraizada nas estruturas sociais - política - econômicas religiosas, atrofia o ser humano, impedindo-o desenvolver-se como pessoa e como ser de relações. Todos os demais pecados se reduzem a este. 

O dinamismo do mal está entranhado no nosso mundo exterior e interior, nos nossos projetos, desejos e ações. A experiência do pecado é de desvio de rota, de frustração da nossa vocação, experiência que nos desumaniza e nos faz viver uma existência vazia; com isso passamos a viver exilados, desterrados...

O modo de “tirar” este pecado não é através de uma morte expiatória. Jesus tira o pecado do mundo destruindo a opressão, ativa e passiva, não pagando a Deus uma dívida que nós tínhamos contraído. Aqui não estamos diante de um Deus ofendido que exige a morte do Filho para satisfazer suas ânsias de justiça. Nada a ver com a experiência do Abbá que Jesus viveu.

O “pecado do mundo” não tem que ser expiado, mas arrancado, eliminado, destruído. Jesus “tira” o pecado do mundo inteiro, reconstruindo as relações quebradas; não aniquila alguns pecados concretos, algumas faltas particulares, mas o “pecado cósmico”, ou seja, tudo o que trava o fluir da vida.


2 – O que o texto diz para mim?
Para o evangelista João, portanto, há um só pecado (a opressão, a injustiça) e um só mandamento (o serviço, o amor). Jesus tirou o pecado do mundo escolhendo o caminho do serviço, da humildade, da pobreza, amando a todos indistintamente até à entrega radical. Esta atitude destrói toda forma de domínio, de injustiça e violência, revelando que a salvação de Deus chegou para todos. Ao abrir o caminho da verdadeira vida, Jesus rompe todas as cadeias que mantinham oprimidas todas às pessoas.

Na perspectiva bíblica, o pecado aparece em primeiro lugar como a ruptura de uma aliança com o Criador, com os outros e com as criaturas. Não se trata de uma mera infração, uma quebra de lei, nem mesmo de uma falta contra a mim mesma, mas sim de quebra de uma relação de amor e de amizade. 

Em uma palavra, trata-se de uma recusa a viver e a amar. 

Os horrores do sofrimento que o ódio, a violência, o terrorismo, a injustiça, a exclusão apresentam aos meus olhos, descrevem, em imagens bem vivas, a “experiência infernal” que a humanidade vive. Elas estão aí, onipresentes, como pesadelo assustador diante de minha vista, veiculado diariamente pelos meios de comunicação. É a consequência da resistência do meu mundo em deixar-se transformar pelo amor redentor do Senhor; são expressões do fechamento da humanidade à proposta de vida do Criador, alimentando o dinamismo de morte, presente em seu interior.

É a partir daqui que o relato evangélico deste domingo desperta em mim a tomada de consciência de uma “história de pecado”: história de desintegração, de divisão, de desumanização... 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Meu drama é perder a memória de que sou parte do todo: ao distanciar-me do Deus Criador rompe a relação cordial com todos e caio num devastador vazio existencial. O “auto-centramento”, sem levar em conta a rede de vida que me envolve, provoca a quebra da “religação com tudo e com todos. 

São as “amarras sociais” que me prendem, atrofiam minha liberdade, bloqueiam o fluxo da vida divina e matam o impulso de “expandir-me” em direção aos outros e à realidade que me cerca. 

Este é o veneno que me corrói por dentro: petrificação de minha interioridade, a perda do gosto pela verdade, pelo belo e pelo bem, o extravio da ternura e da transcendência, a atrofia da comunhão com o todo cósmico, o esvaziamento dos encontros...

O pecado – enquanto ruptura de relações – me faz cega e surda diante do mundo da exclusão e da violência. E se há fome e sofrimento ao meu redor, isso já não me impacta. A maldade, a mentira, o preconceito, a intolerância..., não me afetam mais. Não choro mais as dores do mundo que construí e ao qual pertenço; anestesio minha sensibilidade e entro num estado de apatia e indiferença para com o mundo, as coisas e as pessoas. A compaixão está cada vez mais ausente da esfera pública e de minhas relações com o outro diferente e com o outro distante que sofre. 

Aqui está a chave da incapacidade de minha sociedade para responder aos desafios atuais.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o que busco, ao considerar o “pecado da humanidade”, é alimentar o desejo e o compromisso de que o mundo seja novamente o sonho de Deus: lugar onde todas as expressões de vida se encontram, em profunda sintonia. Está em minhas mãos construir outro mundo.

Minha vocação, como seguidora do Cordeiro é a de construir pontes e ser presença reconciliadora em situações de fronteira, colocando minhas energias, minha formação, minha vida a serviço, para criar, alimentar e sustentar os laços humanos, as relações sociais, as estruturas políticas e econômicas que tornem possível a solidariedade entre todos os seres humanos e aponte para um mundo fraterno e justo. 

É aqui, neste mundo, que Deus me chama a estender o seu Reinado, trabalhando cada dia como amiga de Jesus que passa, se compadece, cura, ajuda, transforma, multiplica  os esforços humanos.

Apaixonada por Deus - apaixonada pelo mundo que, em sua diversidade, riqueza, profundidade, fragilidade, sabedoria fala-me e me revela o rosto misericordioso do Deus que se humanizou para humanizar minha vida.

Eu só poderei chegar a ser ponte, em meio às divisões de um mundo fragmentado, se eu tiver feito a experiência do encontro com a Misericórdia reconstrutora do Deus Pai-Mãe.

Desse modo, frente a uma “cultura da morte”, cooperarei com o Senhor na construção de um mundo novo, para uma “globalização na solidariedade”.

A conversão significa, portanto, reorientar a cabeça e o coração para as “margens”, ativar o dinamismo da compaixão, desenvolver uma sensibilidade solidária e assumir lutas em defesa da vida e da dignidade das pessoas: “outro mundo é possível”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Contemplar a realidade com os olhos misericordiosos do Pai e com os olhos dos excluídos deste mundo.

Sentir a dor do Pai e a dor dos excluídos.

Olhar o rosto dos feridos deste mundo; olhar o rosto do Crucificado.

Fazer memória do mundo fragmentado, dividido, desumanizador que clama por reconciliação.

Minha presença, neste mundo, faz diferença? 

Eu deixo fluir, através de todo o meu ser, a vida do Cordeiro? 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 1,29-34   
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Ó cordeiro de Deus – Fx 08
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
Coro: Dalva, Karla, Sueli, Luan, Vanessa, Beto, Betinho, Sonia Mata
CD: Um grito de paz
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 01:06



quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Leitura Orante – BATISMO do Senhor, 12 de Janeiro 2020


Leitura Orante – BATISMO do Senhor, 12 de Janeiro 2020

BATISMO DE JESUS: “tatuado” pelo amor do Pai

“Este é o meu Filho amado, nele me comprazo”.  (Mt 3,17)


Texto Bíblico: Mateus 3,13-17


1 – O que diz o texto?
Começamos o “Tempo Comum” do novo ano litúrgico (Ano A: evangelista Mateus); ao longo deste ano vamos realizar um percurso contemplativo, deixando-nos impactar pelos mais importantes acontecimentos da vida pública de Jesus. É natural que comecemos com o primeiro relato deste percurso, o batismo.

Sem dúvida, foi a experiência decisiva na vida de Jesus. Ali, Ele tem clareza de ser o Messias, enviado pelo Pai, a serviço do Reino. 

Jesus mergulha no rio Jordão e, ao sair das águas, experimenta uma “teofania” (manifestação) que revela seu mistério mais profundo e que antecipa sua Páscoa. Jesus é proclamado oficialmente o “Filho amado do Pai” e sobre Ele desce o Espírito. 

Jesus se sente verdadeiramente o Filho amado do “Abbá”, e o batismo deixa claro que o motor de toda sua trajetória humana é obra do Espírito.

Nesse sentido, o Batismo revela-se como um momento chave no percurso de Jesus, marcando-o para toda sua vida; marcou sua experiência de Deus; marcou a experiência de si mesmo e marcou o caminho que tinha adiante.

Em Jesus, essa tomada de consciência de quem é Deus n’Ele, foi um processo que não terminou nunca. O relato do batismo está nos falando de um passo a mais, embora decisivo, nessa tomada de consciência.

O que a cena do Batismo nos relata é uma autêntica conversão de Jesus, o que não quer dizer que vivia uma situação de pecado, mas um profundo despertar de sua missão, em seu caminhar para a plenitude.


2 – O que o texto diz para mim?
Pela primeira vez, em sua condição humana, Jesus sente a confissão do Pai sobre Ele; confessa-o como Filho. E lhe marca com os sinais do amor:Este é meu Filho o amado, no qual eu pus o meu agrado”.

É a experiência messiânica fundante que marcará para sempre: júbilo, confiança, disponibilidade, fé profunda, fidelidade total, docilidade incondicional ao Pai e a seu desígnio de salvação.

Em seu batismo, Jesus ficou como que “tatuado” pelo amor do Pai. E por isso viveu numa total liberdade de espírito. Não importava se o rejeitavam, pois Ele se sentia profundamente unido ao Pai. Não importava se o criticavam, pois Ele se sentia marcado pelo amor do Pai. Não importava se os seus lhe abandonavam, pois Ele se sentia “tatuado” pelo amor do Pai.

Jesus quer viver sempre sendo Filho amado, que ama a seu Pai e, portanto, que ama o que seu Pai ama. Quer deixar-se apaixonar por aquilo que seduzia o coração do Pai: a vida da criação, a vida digna dos seus filhos e filhas, a quem também deixa transparecer um amor de predileção. 

Essa experiência de ser “o Filho amado” será sua força vital durante toda a vida de Jesus. E essa também deveria ser a experiência do (a) seguidor (a) d’Ele: ser alguém “marcado como o (a) amado (a) de Deus”. Quando descobre este sinal e esta “tatuagem” de ser também ele (ela) “o (a) amado (a), o (a) predileto (a) de Deus”, então descobrirá o que é ser cristão (â), compreenderá sua fé, entenderá as exigências do Evangelho, acolherá o grande mandamento do Amor: “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado”. 

Para amar como Ele amou, antes é preciso fazer a experiência de sentir-se amado (a) pelo Pai.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Deixando-se conduzir pelo Espírito, Jesus se encaminha para a plenitude humana, marcando-me o caminho de minha plenitude. Mas, é preciso ser muito consciente de que só nascendo de novo, nascendo da água e do Espírito, poderei ativar todas as minhas possibilidades humanas. Não sigo Jesus a partir de fora, como se tratasse de um líder, mas entrando, como Ele, na dinâmica da vivência interior, onde o Espírito atua com liberdade. Daí em diante, tudo o que eu disser e fizer será a manifestação continuada do Reinado de Deus, que experimento em mim mesma.

Deus chega sempre a partir de dentro, não de fora. Minha mensagem “cristã” de doutrinas, normas e ritos, estão muito distante daquilo que Jesus viveu e pregou. O centro de sua mensagem consiste em convidar todos os homens e mulheres a ter a mesma experiência de Deus que Ele teve. Depois dessa experiência, Jesus vê com toda claridade que essa é a meta de todo ser humano e pode dizer como disse a Nicodemos: “é preciso nascer de novo”. Porque Ele já havia nascido da água e do Espírito.

Deus quer suscitar vibrações novas em minha vida e sua Presença instigante desperta em mim o grande desejo de entrar em sintonia com Seu coração. Abrir os olhos e os ouvidos à Presença e à ação de Deus me faz ficar atônita fascinada e sensível à voz divina que cada dia ressoa em meu interior.

Talvez Ele precise colocar outro ritmo em minha existência, que me permita estar atenta e à escuta das surpresas que a vida desvela. A mim corresponde me mobilizar e estar atenta aos movimentos do Seu Espírito e dos acontecimentos.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a experiência do batismo de Jesus também é importante para mim e para compreender o verdadeiro sentido de minha vida.

As raízes de minhas histórias podem estar marcadas pelo amor ou pelo desamor. Quando estas raízes estão marcadas pelo amor, cresço em harmonia comigo mesma, em harmonia com os outros e em harmonia com o mundo. Quando minhas raízes estão regadas pelo amor cresço com segurança em mim mesma com confiança nos outros e minha vida passa a adquirir o sentido da unidade interior.

Somente aqueles (as) que mergulham nas águas do perdão, da compaixão, do amor solidário..., saem marcados pelo Espírito e confirmados na filiação. 

O mundo seria diferente se as pessoas, rompendo o medo e a insegurança, se atrevessem a sair dos seus moldes, dos seus hábitos arcaicos, das suas maneiras atrofiadas de pensar, sentir, amar...

Recordando os inícios do cristianismo, com João Batista submergindo as pessoas no rio Jordão, não posso deixar de dar um destaque especial que também Jesus se submergiu.

Jesus se submerge e experimenta, escuta, sente, adquire lucidez... Essa passagem de Jesus é determinante para que eu possa me abrir a uma experiência nova na vivência do seu seguimento. Aproxima-me ao abraço refrescante de Deus, recebido nas águas. O que para os outros foi purificação, perdão..., para Jesus é de um dinamismo incomparável. Essa experiência O transforma, O faz ir além de si mesmo, rompendo visões estreitas de Deus, quebrando conceitos antigos de religião...

Submergir é sinônimo de deixar Deus, a Vida, trabalhar em mim. A água, com sua força misteriosa, com sua capacidade de gestar vida, é também um símbolo que me move a abandonar o que é arcaico para deixar-me submergir no que é de Deus, nunca antigo, nunca ultrapassado. A água que corre que flui, sempre é nova. Deus Fonte inesgotável: Ruah, ar, alento, espírito, dinamismo, puro fluir.

Encharcada de água, entro no fluir daquele maravilhoso início, quando a Ruah fluía e enchia minha vida de alento e inspiração. Preciso me atrever a submergir de novo, adentrando-me por caminhos desconhecidos, para descobrir meu mapa interior e minha verdadeira identidade: “Filhos e filhas, amados (as) do Pai”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Na musicalidade da vida sentir a regência, suave e delicada, do Grande Compositor, arrancando notas divinas da dispersão caótica do meu cotidiano. 

Sentir a cadência da música divina que vibra, conduz e vivifica. 

Receber, com gratidão, o mais leve toque das mãos providentes e ternas do Grande Maestro.

Aguçar os meus ouvidos e escutar até com os olhos a sinfonia que brota do mais profundo de meu ser.

Fazer memória de minha experiência batismal; renovar, junto ao Jordão interior, meu compromisso batismal.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 3,13-17
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Vida nova através do Batismo – FX 02
Autor: Gilson Coimbra Braga / Renato Parmagnani / Hélio Miguel
Intérprete: Marcelo Mattos
CD: Avancem para as águas mais profundas
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 01:58