quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Leitura Orante – 7º Domingo TC, 23 de Fevereiro 2020



Leitura Orante – 7º Domingo TC, 23 de Fevereiro 2020


O LABIRINTO DO PERFECCIONISMO

“Portanto, sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste”. (Mt 5,48)


Texto Bíblico: Mateus 5,38-48


1 – O que diz o texto?
O evangelho deste domingo é continuação do discurso de Jesus sobre o Monte, onde apresenta o modo original de ser e de viver dos seus seguidores; trata-se da nova justiça do Reino, aonde Jesus vai até às raízes mais profundas de nosso ser para ativar o amor ali presente; este amor, aberto, oblativo, gratuito..., é capaz de uma nova relação até com os inimigos, em profunda sintonia com o modo de agir do Pai, que ama a todos, bons e maus, pois todos são seus filhos e filhas.

Mas, quando Jesus fala em amar os inimigos, não se refere somente àqueles inimigos externos.

Suas palavras se referem também a um acontecimento interior. Quando o inimigo é uma força externa nem sempre há motivos para assumirmos a culpa. Mas quando o inimigo se encontra no nosso interior e nós não conseguimos entrar em acordo com ele, os responsáveis somos nós mesmos; precisamos saber lidar com nossas sombras e fragilidades e, assim, reconciliar-nos com o inimigo interno que rejeitamos.

Reconciliar-nos com nossas fraquezas e nossos lados sombrios é um processo doloroso, mas, quando tentamos evitar essa dor e ignoramos o nosso adversário interior, acabamos gastando muita energia na ilusão de mantê-lo afastado.

Se não chegarmos a um acordo com o inimigo em nosso interior, ele se transformará em um tirano que nos dominará; aquilo que rejeitamos em nós se transforma em juiz interior e esse nos manterá confinados na prisão do nosso próprio medo e da auto rejeição. 

A cura significa também reconciliação; nosso inimigo interior só se transformará em nosso amigo e ajudante no nosso caminho de vida se nos reconciliarmos com ele.

Ao oferecer-nos um gesto de perdão em vez de um gesto de repulsão ou de condenação, tornamo-nos mais humanos.  Demonstramo-nos humanos com quem mais precisa de humanidade: nós mesmos.

É o momento da compaixão para conosco mesmo.


2 – O que o texto diz para mim?
Diante da necessidade de reconciliação com minhas sombras, limites, fragilidades e fracassos..., pode parecer estranho a afirmação final, no evangelho de hoje: “Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”.

Lucas, no entanto, modifica as palavras de Jesus para escrever: “Sede misericordiosos, como vosso Pai é misericordioso”. Sem dúvida, esta expressão parece mais ajustada, inclusive por todo o contexto. E tem razão, porque não se pode exigir que o ser humano seja “perfeito”; não só não está ao seu alcance, mas essa demanda pode conduzi-lo a um perfeccionismo estéril e esgotador.

Foi assim que, ao longo da história, surgiu uma cultura da perfeição; por séculos, a perfeição seduziu, modelou, dominou e controlou a existência de comunidades e sociedades inteiras.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A minha cultura é controlada pela ideia de que o ser humano pode e deve ser “perfeito”.

Desde a minha infância fui impelida a procurar a perfeição.

Anos e anos, essa ideia de “perfeição” foi modelando minha mente e petrificando meu coração.

Também na vida cristã, inúmeras pessoas e grupos religiosos nasceram e cresceram seguindo as pautas de formação do chamado “ideal de perfeição”, gerando muita rigidez, moralismos, culpabilidades, escrúpulos... e farisaísmo. O seguimento da pessoa de Jesus foi se esvaziando, dando lugar a um voluntarismo centrado na prática minuciosa de leis e normas (legalismo).

Esse conceito assumiu um valor central na compreensão e na orientação da minha vida espiritual, reforçando-se a ideia de que tudo aquilo que diz respeito a Deus deve ser perfeito.

E a santidade passou a ser considerada como sinônimo de perfeição.

Nas suas formas mais graves, a busca da perfeição é estressante, conduz ao desprezo de si mesmo, torna insuportável a relação com os outros e pode conduzir à automutilação.

Quem tem sua vida centrada na busca da perfeição, aceitar o erro é uma tarefa muito humilhante e dificultosa. Longe de ser uma oportunidade, o fato de equivocar-se representa uma ameaça à sua dignidade. Para ele não basta ser bom, é preciso ser perfeito. E, embora, no segredo mais íntimo aceito que jamais será perfeito, pelo menos tenta aparentar isso diante dos outros. Este modo de proceder tem um nome – perfeccionismo – e são muitos os que caminham por seu labirinto.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, isso não é vida. Quero habitar e transitar por lugares onde a compaixão e o cuidado possam abraçar minhas fragilidades e limites. Devo passar de um humanismo da “auto exaltação” para um humanismo da “auto acolhida”.

A compaixão afirma o “eu real” contra as pretensões do “eu ideal”.

A compaixão me orienta para a realidade profunda da minha fragilidade; na compaixão alcanço a mim mesma; a compaixão me leva de volta à casa, revestindo-me de uma atitude amorosa para comigo.

O tecido da vida cotidiana me oferece muitas ocasiões para esta prática de bondade para comigo.

E a compaixão faz parte da essência de meu ser. É a mais humana de todas as virtudes humanas. É ela que me oferece inúmeras ocasiões para me tratar como amiga, em vez de me tratar como estranha.

Graças à compaixão, posso me levantar depois de cada queda, abrir-me novamente à presença da Graça de Deus, continuar a amar tudo aquilo que dentro e fora do meu ser se apresenta sob as vestes do humano. Deste modo, realizo uma orientação sadia no fundo do meu ser.

Assim, o discípulo de Jesus deve ser perfeito no Amor como o Pai celestial é perfeito no Amor. Ele ama a todos sem distinção, “fazendo nascer o sol e cair a chuva sobre maus e bons, justos e injustos”.

Neste sentido, o chamado do Evangelho a ser “perfeitos como o Pai” está em um contexto do amor incondicional e envolvente de Deus, um amor que faz com que o sol se levante para as pessoas más e boas, e que permite que a chuva caia sobre justos e pecadores. Em outras palavras, a perfeição cristã é o convite a um amor que nunca se esgota; é o convite para aprender a perdoar como Deus perdoa e a amar como Deus ama.

Alguns exegetas interpretam que, em hebraico, a expressão “perfeito” faz alusão a algo “completo”. Nesse sentido, o apelo a ser “perfeitos” deve ser entendido como um chamado a aceitar-se em toda a sua verdade. Este sentido seria totalmente aceito a partir de uma antropologia humanista, como um princípio básico de unificação e crescimento: “te aceita com toda tua verdade, com tua luz e tua sombra, teus acertos e erros, tuas qualidades e defeitos...!”

Sou chamada a ser “completa”, aceitando minha verdade e me abrindo à minha verdadeira identidade que transcende meu ego; só assim poderei viver a misericórdia ou compaixão.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A aceitação do limite me ajuda a celebrar a vida em todas as circunstâncias e a saborear a realidade, cheia de riscos, incerta e insegura para todos, mas, ao mesmo tempo, única e irrepetível para sempre.

Longe da tirania do perfeccionismo, saberei conviver com a rica pobreza de minha condição humana; é a calma e o silêncio da oração que irão me libertar da banalidade e do perfeccionismo, me fazendo reconciliar com as fragilidades, próprias e alheias.

- Minha vida é regida pela “pauta da perfeição” ou da “misericórdia”?



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 5,38-48
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Misericórdia infinita
Autor: Walmir Alencar
Intérprete: Walmir Alencar
CD: Misericórdia infinita
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:26




quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Leitura Orante – 6º Domingo TC, 16 de Fevereiro 2020


Leitura Orante – 6º Domingo TC, 16 de Fevereiro 2020

JUSTIÇA DO REINO: “a mais sublime bondade”

“Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus...” (Mt 5,20)


Texto Bíblico: Mateus 5,17-37


1 – O que diz o texto?
Na Bíblia, a justiça é um dos conceitos centrais, com uma diversidade de sentidos e, por isso mesmo, difícil de ser definido. Em todo caso, trata-se de um conceito que inclui “relação”.

Nas “antíteses” – “ouvistes o que foi dito..., eu, porém, vos digo” – do Sermão da Montanha, somos colocados diante de cinco casos concretos que tem a ver com a vida relacional e comunitária: a reconciliação, o olhar puro que não se apossa de outra pessoa, a veracidade e transparência no falar, a não violência (ou mansidão bíblica) e o amor gratuito que inclui o “inimigo”.

Em todos eles, podemos crescer sempre mais, graças à compreensão de quem somos no nível mais profundo; o “eu, porém, vos digo” de Jesus nos inspira a descer até às raízes de nosso ser, esvaziando-nos progressivamente de nosso ego e ativando todos os recursos humanizadores aí presentes.

Na perspectiva bíblica, “justo” é aquele que, perante Deus e os homens, se “ajusta” ao modo de agir do mesmo Deus, vivendo e agindo com a marca da bondade.

Visto que justiça designa o comportamento do ser humano em conformidade com a Vontade de Deus, pode-se falar de “praticar a justiça”; ou de “cumprir toda a justiça”.

Portanto, a expressão “justiça de Deus” não tem nenhuma relação com o julgamento de Deus; ela é, antes de tudo, misericórdia e fidelidade a uma vontade de salvação. O conceito descreve uma maneira de ser ou de agir de Deus. Deus é justo porque é bondade e misericórdia. Por isso, também do lado humano a justiça deve significar uma maneira de prolongar o ser e o agir de Deus.

O problema da relação entre misericórdia e justiça está em considerar como rivais ou como incompatíveis esses dois atributos de Deus. É preciso afirmar os dois ao mesmo tempo e procurar compreender como ambos estão em Deus, sem que um anule o outro, mas reforçando-se mutuamente. Poderíamos formular assim: Deus é justo em sua misericórdia e misericordioso em sua justiça. Segundo o Papa Francisco, “a misericórdia não exclui a justiça e a verdade, mas, antes de tudo, temos que dizer que a misericórdia é a plenitude da justiça e a manifestação mais luminosa da verdade de Deus”.

Já no Primeiro Testamento encontramos afirmações deste tipo: a justiça de Deus é sua misericórdia. A justiça de Deus coincide com sua misericórdia, sua bondade, sua santidade. São Paulo, em sua carta aos romanos, afirma que a justiça de Deus se manifesta na justificação do pecador, de modo que o Deus justo é justificador. Podemos concluir, pois, que Deus é justo porque quer que todos se salvem. É de esperar, portanto, que esta vontade de Deus se cumpra. É claro que, diante do dom da salvação intervém a liberdade humana, porque salvação é acolhida do Deus que é Amor, e não há amor sem recíproca acolhida.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus veio expandir o horizonte do comportamento humano; veio me libertar dos perigos do moralismo e do legalismo. À luz da justiça de Deus (“força que salva”), Jesus me apresenta um modo de proceder mais radical, relendo os mandamentos.

A justiça de Deus não é poder que se impõe, mas amor aberto e libertador, a partir dos últimos e dos excluídos da humanidade. A liberdade criadora de Deus, que é amor aos pobres, se torna princípio de justiça, pois o evangelho chama “justos” precisamente aqueles que acolhem os exilados, visitam os encarcerados, dá pão a quem tem fome..., ou seja, àqueles que colocam suas vidas a serviço dos excluídos e vítimas das instituições sociais e econômicas injustas.

O único fundamento de qualquer justiça é Cristo. N’Ele eu me torno justiça de Deus (2Cor 5,21).

A partir desta perspectiva, posso entender o que Jesus fez em seu tempo com a Lei de Moisés. Disse que não vinha abolir a lei, mas plenificá-la, porque foi acusado pelas autoridades religiosas de ser um transgressor das leis. Jesus não foi contra a Lei, senão que foi mais além da Lei. Quis dizer que toda lei é sempre limitada, que sempre posso ir mais além da letra da lei, da pura formulação, até descobrir o espírito que a inspira. A vontade de Deus está mais além de qualquer formulação, por isso, não posso me limitar ao que está escrito, mas preciso sempre dar um passo a mais. Na vivência do amor, que emana do meu eu mais profundo, devo ser sempre mais radical, não cedendo diante da mínima manifestação do meu auto-centramento. Na realidade, quem ama, não precisa de leis. Segundo São Paulo, “quem ama, cumpre toda lei”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus passou de um cumprimento externo de leis a uma descoberta das exigências de seu próprio ser. Esta revolução que Ele iniciou, ainda está por ser realizada. Avanço muito pouco nessa direção. Todas as indicações do evangelho no sentido de viver no espírito e não na letra, parece que estão sendo ignoradas. Caio facilmente no legalismo, no farisaísmo que se perde em meio a um emaranhado de leis, desviando-se do essencial, que é a vivência do amor oblativo, gratuito, expansivo...

“Ouvistes o que foi dito: não matarás, não cometerás adultério, não jurarás falso; eu, porém, vos digo...” Não fica abolido o mandamento antigo, mas elevado a níveis incrivelmente mais profundos. Jesus me revela que uma atitude interna negativa é já uma falha contra meu próprio ser, ainda que não se manifeste numa ação concreta contra o outro.

Por isso, segundo Jesus, não basta cumprir a Lei, que ordena “não matarás”. É necessário, além disso, arrancar de minha vida a agressividade, o desprezo ao outro, os insultos ou as vinganças. Aquele que não mata cumpre a Lei, mas, se em seu coração há resquícios de violências, ali não reina o Deus que busca construir nesse mundo uma vida mais humana.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor eu estou percebendo que está se estendendo cada vez mais, na sociedade atual, uma linguagem que reflete o crescimento da agressividade, do preconceito, da intolerância, do fechamento diante de quem pensa e sente de maneira diferente... Cada vez são mais frequentes os insultos ofensivos, proferidos só para humilhar, desprezar e ferir. Palavras nascida da rejeição, do ressentimento, do ódio ou da vingança...

Por outra parte, as conversações (sobretudo nas redes sociais) estão tecidas de palavras injustas que espalham condenações e semeiam suspeitas (fake-news). Palavras ditas sem amor e sem respeito que envenenam a convivência causam danos e rompem as relações entre as pessoas.

Portanto, os mandamentos continuam tendo sentido. É um mapa de rota, uma proposta, um chamado para entender a vida. A chave é compreendê-los e vivê-los, não a partir do medo ao fracasso e ao castigo, mas a partir da disposição de crescer humanamente na relação com os outros. 

Quês me ensinam eles sobre o ser humano, sobre as relações sociais e sobre eu mesma? 

Quê caminho me propõe para a vida? 

Quê horizonte me mostra?

É necessário dirigir meu olhar a Jesus para que, na comunidade cristã, a instituição não seja mais importante que o Evangelho, nem que a Lei seja mais importante que a misericórdia. O Plano de Deus e a fé cristã são muito mais que uma adesão doutrinal, é humanizar-se para amar. “O cristianismo não é uma ética de mínimos de justiça, mas uma religião de máximos de felicidade. Os mínimos de justiça lhe parecem irrenunciáveis, mas tais mínimos não esgotam o conteúdo da religião cristã. Suas propostas não competem com a ética cívica, senão que a complementam. Enquanto que a universalidade dos mínimos de justiça é uma universalidade exigível, a dos máximos de felicidade é uma universalidade ofertável” (Adélia Cortina). 

#Justiça do Evangelho, centrado no amor #Justiça humana, centrada na lei.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O empenho em favor da justiça não terá fim. Numa releitura da 4ª bem-aventurança posso afirmar:

“Felizes os famintos de justiça, que nunca serão saciados”.

- Frente às pessoas que pensam e sentem de maneira diferente, o que prevalece em mim, o peso da lei ou a força da misericórdia?

- Como eu vivo o quinto mandamento -“não matar” - no uso das redes sociais?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 5,17-37
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Amor nunca morre
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérpretes: Pe. Zezinho, scj
CD: Oração pela família
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:31


terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Leitura Orante – 5º Domingo TC, 09 de Fevereiro 2020


Leitura Orante – 5º Domingo TC, 09 de Fevereiro 2020

ILUMINA TEU ANDAR COM A LUZ QUE HÁ EM TI MESMO

“Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14)


Texto Bíblico: Mateus 5,13-16


1 – O que diz o texto?
O evangelho deste domingo é continuação das bem-aventuranças; estamos no início do primeiro discurso de Jesus, conhecido como “Sermão da Montanha”. É, portanto, um texto ao qual Mateus quer dar suma importância. As duas imagens, luz e sal, tem forte impacto na vida do seguidor e seguidora de Jesus, pois sua presença no mundo deveria fazer a diferença: iluminar e dar sabor. 

A mensagem de hoje é muito simples e de grande valor; efetivamente, todo aquele ou aquela que alcançou a iluminação, ilumina. Se uma vela está acesa, necessariamente tem de iluminar. Se colocamos sal no alimento, este necessariamente ficará temperado. O encontro com Aquele que é a Luz ativa a luz, talvez atrofiada, em nosso interior.

Quanto mais luz emergir de dentro, mais brilhante será o mundo em que vivemos.

Sabemos que a luz, por si mesma, é contagiosa e expansiva; em oposição às trevas, a luz exalta o que belo e bom, na realidade e nas pessoas. Pelo fato de ser benfazeja e criadora, ela nos permite dizer com o poeta Thiago de Mello, no meio de impasses, ameaças e conflitos que pesam sobre nossa vida: “Faz escuro, mas eu canto”.

Mas, o quê quer dizer quando aplicamos a uma pessoa humana o conceito de iluminada? 

Todos os grandes líderes espirituais falam de iluminação. Não é fácil entender o que isso significa. Na realidade, só pode compreender isso quem faz a experiência de estar iluminado.

Quando as tradições religiosas falam de iluminação, elas se referem a uma pessoa que despertou, ou seja, que ativou todas as suas possibilidades de ser humano. Estamos, então, falando de uma pessoa plenamente humana: aquela que vive uma interioridade iluminada.

Isto é precisamente o que está nos dizendo o evangelho de hoje. Dá por suposto que o caminho do seguimento de Jesus é um “caminho de humanização”, é uma experiência de iluminação; os discípulos, na convivência com o Iluminado, são despertados, mobilizam seus recursos iluminantes e tornam-se também iluminados; como consequência, são capazes de expandir suas luzes e mobilizar a luz escondida nos outros. É inútil tentar iluminar os outros, estando apagados, adormecidos, paralisados em sua obscura vida.


2 – O que o texto diz para mim?
Devo ter cuidado de iluminar, não deslumbrar. Como é sedutor estar no candeeiro! Há muitos que anseiam estar no candeeiro, mas não tem luz. Não se trata de “subir” ao candeeiro, mas possibilitar que a luz interior ilumine a partir dele.

O candeeiro não é para que os outros me vejam; é para que a luz de minha vida  ilumine melhor. O candeeiro não é para que eu esteja mais alto, e sim, para que a luz interior se espalhe mais e desperte a “faísca de luz”, presente no coração dos outros. “Estar no candeeiro” significa estar a serviço do outro, pensando no bem dele e não em minha vaidade; devo oferecer o que o outro espera e necessita, não o que eu quero lhe oferecer. 

Muitas vezes, eu cristã sou mais afeiçoada a deslumbrar que a iluminar; tenho a tendência a ser presença iluminante desde que com isso se potencie meu “ego”. Porque o ego necessita fazer-se notar e brilhar; não está disposto a consumir-se nem a passar desapercebido.

Cego as pessoas com imposições excessivas e torna inútil a mensagem de Jesus para iluminar a vida real de cada dia. Quando tiro alguém de sua obscuridade, devo dosar a luz para não causar dano a seus olhos.

O sal é um dos minerais mais simples (cloreto de sódio), mas também é um dos mais imprescindíveis para minha alimentação. Mas tem muitas outras virtudes que podem me ajudar a entender o relato deste domingo. No tempo de Jesus, eram usados blocos de sal para revestir por dentro os fornos de pão. Com isso, conseguia-se conservar o calor para o cozimento do pão. Este sal, com o tempo, perdia sua capacidade térmica e devia ser substituído. Os restos das placas retiradas eram utilizados para compactar a terra dos caminhos.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Agora posso compreender a frase do evangelho: “se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens”.

O sal não se torna insosso; o sal dos fornos sim pode perder a qualidade de conservar o calor. 

A expressão latina “evanuerit” significa desvirtuar-se, desvanecer-se. A tradução melhor seria assim: se o sal perde sua qualidade, como poderá recuperar-se. Esse sal “queimado” só serve para ser jogado nos caminhos e ser pisado pelas pessoas.

Há um aspecto no qual sal e luz coincidem: não tem utilidade por si mesma. Se o sal permanece isolado em um recipiente, não serve para nada; só quando entra em contato e se dissolve nos alimentos pode dar sabor ao que como; para salgar, o sal precisa desfazer-se, deixar de ser o que era. 

Segundo os entendidos na arte culinária, não é o sal de “dá sabor”; ele realça o sabor de cada alimento. O humilde sal é feito para os outros, para que os outros sejam eles mesmos.

O mesmo acontece com a luz; se ela permanece fechada e oculta, não pode iluminar ninguém. Só quando está em meio às trevas pode iluminar e orientar. A luz não é para ser vista, caso contrário, cega. A lâmpada ou a vela produz luz, mas o azeite ou a cera se consomem. Imagens que revelam que minha existência só terá sentido na medida em que me consumo em benefício dos outros. Uma comunidade cristã isolada do mundo não pode ser sal e nem luz.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, ser sal e luz do mundo me move a encontrar outras vidas, outras histórias, outras situações…; escutar outros relatos que trazem muita luz para a minha própria vida. Olhar a partir de um horizonte mais amplo, ajuda a relativizar meus próprios absolutos e deixar-me impactar pelos valores presentes no outro. Escutar de tal maneira que o que ouço penetra na minha própria vida; isso significa implicar-me afetivamente, relacionar-me com pessoas, não com etiquetas. Acolher na minha própria vida outras vidas; abrir espaços para que as histórias dos excluídos e diferentes encontrem morada nas minhas entranhas, na minha memória e no meu coração.

Ser sal e luz é dizer sim à vida. Experimento isso quando eu me mergulho na vida, quando cresço nela, buscando, saboreando até o final o que ela me oferece em cada circunstância. 

Nunca alheia à vida, nada desprezando, nada lamentando. 

Ser sal e luz não é um programa. É uma experiência de vida, um modo de estar no mundo a partir da confiança numa promessa. Enraizada na pessoa e promessa de Jesus, o chamado a ser sal e luz me propõe um estilo próprio de vida aberto e expansivo: uma maneira alegre, pacífica, compassiva, responsável e generosa de se fazer presente neste mundo onde são centrais o cuidado de todo o vivente e o trabalho em favor da justiça. 

O apelo de Jesus me move a transformar o que, com frequência, é terra insípida ou deserto inóspito em um mundo mais humano, com sabor de lar humanizador.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
“Deus é Luz, e n’Ele não há treva alguma” (1Jo 1,5).

É preciso buscar esta faísca de luz dentro de mim, no meu eu mais profundo. Talvez por isso um dia alguém escreveu: no ser humano há mais coisas dignas de admiração que de desprezo.

Minha relação com os outros: deixar transparecer a luz da compaixão, da acolhida ao diferente, do cuidado...

Descobrir o sabor que minha presença revela na realidade onde eu vivo. Fazer a diferença. Inspirar...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 5,13-16
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Está faltando uma luz
Autor: Pe Zezinho, scj
Intérpretes: Pe Zezinho, scj
Coro: Dalva Tenório, Maria Diniz, Sueli Gondim, Ricardo Moreno, Paulinho Campos, Rubinho Ribeiro, Beto, Betinho, Sonia Mara, Marluce
CD: Canções para o sol maior
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:02


terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Leitura Orante – Apresentação de JESUS, 02 de Fevereiro 2020


Leitura Orante – Apresentação de JESUS, 02 de Fevereiro 2020

APRESENTAÇÃO DO SENHOR: “Deus no colo”

“Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus” (Lc 2,28)


Texto Bíblico: Lucas 2,22-40


1 – O que diz o texto?
Neste ano, o 4º dom do Tempo Comum coincide com 02 de fevereiro, um dia de festa de Jesus e de sua mãe Maria; festa que é conhecida com vários nomes:

- Apresentação de Jesus no Templo, para ser oferecido a Deus; a humanidade, representada por Maria e José, “presenteiam” a Deus o maior dom que possuem seu filho primogênito, a Luz das Nações;

- Purificação da mãe Maria, a quem Simeão revela seu destino sofredor e ativo de Mãe. Esta é a festa das sete dores que purificam e iluminam, quando são assumidas a serviço dos outros;

- Festa da Luz, dia das Candeias. Quarenta dias depois do nascimento de Jesus (fechando o ciclo do Natal), os cristãos (especialmente as mulheres) iam às igrejas com velas/candeias, dando graças pela vida.

Todos nós sabemos e experimentamos que o modo de agir de Deus é discreto, silencioso. Ele se deixa encontrar no cotidiano e nas histórias simples.  O mundo está cheio de mistérios grandiosos que cobrimos com a rotina e as pressas. Falta-nos capacidade de assombro e pureza no olhar para captar o mistério do simples. Quando a realidade é vista tão somente com os olhos estreitos e interessados, perdemos a oportunidade de contemplar o rosto d’Aquele que se deixa encontrar em tudo e em todos.

Todo o relato da Apresentação de Jesus no Templo está atravessado de cotidianidade, com a marca da simplicidade e dos olhares contemplativos. Aqui se faz visível uma festa de promessas cumpridas.  

Simeão e Ana tiveram o privilégio de contemplar o Salvador, porque souberam esperar e permanecer. E porque souberam contemplar e viram na vulnerabilidade de um menino, o esperado de Israel.

Podemos imaginar os rostos irradiantes e os olhos cheios de luz destes dois anciãos diante do Menino que lhes abre o futuro e alarga os seus sonhos!...

O Nascimento de Jesus parece despertar os anciãos: Zacarias, o idoso que põe em dúvida a promessa de Deus; Isabel, aquela que concebe na velhice; José, aquele que não compreende o que está acontecendo, mas confia na palavra de Deus; Simeão, o homem que envelhece com a esperança de ver o Messias antes que a morte feche seus olhos; Ana, a profetisa, aquela que dá graças ao Senhor e proclama a todos o nascimento do Messias.


2 – O que o texto diz para mim?
Nos relatos de Lucas, não são os sacerdotes do templo, nem os mestres da lei, nem os legitimados pela religião ou pelo poder social que falam ou reconhecem. Falam os pequenos, os pobres e os simples. Aqueles que não costumam ter palavra – pastores, ilegais, pagãos – são os que veem mais além, maravilham-se, reconhecem e confessam o Menino de Belém.

É com eles que devo estar se quero também reconhecer Jesus.

Alguém poderia perguntar: por que tantos idosos no Nascimento de Jesus?

Infelizmente, não vivo em tempos favoráveis aos idosos; considerados “improdutivos” são “descartados”; para muitos, são só um estorvo.

E, no entanto, são eles as testemunhas da esperança messiânica, as testemunhas das promessas do Espírito Santo, as testemunhas do futuro e do novo, as testemunhas da fé, as testemunhas de um caloroso entardecer da vida. Os anciãos são aqueles que mantêm viva a memória de seu povo, mantém viva a continuidade da história; são eles que sustentam em seus braços o novo que começa; são eles que esquecem a nostalgia do passado, sorriem e cantam o nascimento do novo. Mesmo com sua visão limitada, são capazes de ver e reconhecer as surpresas e as maravilhas de Deus.

Simeão é o ancião que soube esperar. Recebeu a promessa de não morrer sem ver o Messias. E hoje o vejo com o Menino Jesus em seus braços; ele sente sua vida realizada, reconhece o sentido de tudo o que viveu e agora pode soltar-se e abandonar-se em paz; a promessa foi realizada: “viu o Senhor”.

Numa sociedade como a minha, em constante tensão pelo “conflito de gerações”, a figura de Simeão torna-se curiosa e até simpática. Seus braços unem e abraçam o velho e o novo; seus braços apertam o passado e o presente; seus braços são o encontro entre o ontem e o hoje; seus braços, estreitando o menino, são a harmonia entre o que se vai e o que vem.

Simeão não tem nada e, ao mesmo tempo, tem tudo: tem a promessa que alimentou sua vida de esperança até o final; tem os braços calorosos para acolher Deus neles e embalá-lo; e tem a alegria e o prazer de uma ancianidade feliz, realizada e cumprida. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Ao ler e escutar o Evangelho deste domingo, também sou convidada a me fixar em uma pessoa que passa quase desapercebida: Ana, a profetisa. Ela pode me ensinar a ser profeta e profetisa dos buscadores da Vida em um mundo tão desafiante como o meu, onde, muitas vezes, me sinto pequena, incapaz, pobre..., mas também afortunada, livre, discípula d’Aquele que sabe quem sou e por isso me elege, me chama, me convoca a fazer caminho com Ele.

Ana revela uma presença muito discreta, no templo; mas está atenta a tudo o que ali acontece. Ela não faz ruído, passa longas horas em silêncio, sua vida não tem maior relevância social e religiosa...

Lucas só dedica três versículos para revelar o perfil de Ana, e neles sou informada que era “profetisa”, “anciã” e possuidora de um nome significativo: “Ana” vem do verbo “hanan” que em hebraico significa “agraciar”, “favorecer”, e aparece vinculada a um passado marcado por nomes benditos: “Fanuel” significa “rosto de Deus” e “Aser” significa “feliz” ou “afortunado”; mas, o fato de ser viúva desde jovem a associa irremediavelmente a uma situação de perda, vazio e carência. E aqui, aparece vinculada ao templo e dedicada assiduamente ao serviço de Deus.

Mas, de uma maneira imprevista, sua vida deu um grande salto ao aproximar-se de outro ancião, Simeão, precisamente no momento em que este tinha tomado nos braços um menino, filho de uns pobres e desconhecidos Galileus, chamando-o salvador, luz e glória. Junto aos pastores de Belém, Ana recebe as primícias da presença de Jesus, e seu nome de “Agraciada”, que possuía só como promessa, se faz realidade nela; e a partir desse momento, com todo seu ser reverdecido e os olhos cheios de luzes (candeias), dava “graças a Deus e falava do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém”.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a liturgia deste domingo apresenta-se como ocasião privilegiada para eu me  recordar que a velhice é uma etapa da vida, com suas limitações e problemas, mas também com suas grandes possibilidades. Não posso negar o desgaste e os problemas que o passar dos anos traz consigo, mas, ao mesmo tempo, inspirada nos idosos Simeão e Ana, sou motivada a não esquecer que a velhice é a etapa que me oferece a possibilidade de coroar minha vida.

O decisivo é adotar uma postura aberta e positiva diante da última etapa da vida. “Vivê-la positivamente como a culminação da vida, como a etapa sem a qual a vida ficaria inacabada, inconclusa” (L. Diez).

Segundo o Papa Francisco, a pessoa idosa pode viver com mais sabedoria e sensatez, para relativizar, inclusive com humor, muitas coisas que antes dava tanta importância; a ancianidade é tempo para recordar (visitar de novo com o coração) o essencial; o tempo para a quietude e a contemplação; é o tempo para viver mais devagar, sem pressas, encontrando-se consigo mesmo com mais profundidade; é o tempo de desfrutar de maneira mais sossegada cada experiência, cada pessoa, cada encontro.

Frente a uma vida fragmentada e dispersa, os anciãos estão em melhores condições de unificar e integrar sua existência. Esta última etapa da vida se converte em tempo de graça e salvação, pois pode contar sempre com a presença e o auxílio amoroso d’Aquele que é o Senhor dos tempos.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Precisa-se de homens como Simeão e mulheres como Ana, da tribo dos que estão reconciliados com sua própria vida; pessoas com uma presença benevolente e carinhosa para tudo o que lhes rodeia. 

Com olhos expandidos por dentro, eles puderam perceber a salvação de um modo muito diferente do que haviam imaginado. 

O gesto de Simeão me ensina há todos os dias: bendizer e agradecer a vida nova nos outros.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 2,22-40
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Cântico de Simeão – fx 07
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Cantigas ao som da Bíblia
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:00


quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Leitura Orante – 3º Domingo TC, 26 de Janeiro 2020


Leitura Orante – 3º Domingo TC, 26 de Janeiro 2020

JESUS: “COM AS PERIFERIAS NO CORAÇÃO”

“Jesus deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, 
cidade litorânea, nos confins entre Zabulon e Neftali.” (Mt 4,13)


Texto Bíblico: Mateus 4,12-23


1 – O que diz o texto?
Galiléia foi a primeira decisão importante que Jesus tomou no início de sua vida pública. Ele começa sua atividade longe da Judéia, de Jerusalém, do templo, das autoridades religiosas.

Jesus, na Galiléia, encontrou o seu lugar: junto ao mar, nas estradas poeirentas, nas margens... Um “lugar sagrado” que nasceu do seu coração, carregado de afeto, de inspiração, de vitalidade...

Ali, Ele teve suas preferências e elegeu o seu “lugar” entre os mais pobres e excluídos, vítimas daqueles que se faziam donos dos lugares; ali revelou a presença d’Aquele que se faz presente e santifica todos os lugares: o Pai.

Jesus se fez presente nos lugares onde se encontravam aqueles que não tinham “lugar”, os “deslocados”, os socialmente rejeitados e que eram a razão de seu amor e do seu cuidado; fez-se solidário com os “sem lugares” e os convidou a caminhar para um novo lugar: lugar de vida, de comunhão...

Sua missão foi a de reconstruir a identidade das pessoas, devolvendo a elas o seu “lugar”.

Seu ensinamento, cheio de “autoridade”, introduziu uma perspectiva nunca ouvida antes; apresentou uma alternativa que as pessoas mais simples do povo entendiam como revelação do Pai aos pequeninos.

A partir das periferias do mundo, surgiu um canto de vida nova, a sabedoria oculta a muitos sábios e expertos; uma sabedoria que vinha de Deus, desconcertando a sabedoria exibida a partir do centro.

Jesus desconcertou a “sabedoria” do centro a partir da “loucura” da periferia.

Podemos, então, afirmar que Jesus descentralizou o mundo a partir da periferia.

O fato surpreendente é que, em Jesus, Deus não só se fez homem, mas também se fez “margem”.

O próprio Jesus foi “margem”. Belém e Calvário são os dois extremos periféricos – início e fim – de toda uma vida, despojada e pobre.

Todos tinham os olhos voltados para o centro. No templo de Jerusalém era elaborado o saber que ia se expandindo até chegar à menor das sinagogas. No entanto, em Jesus, o Reino de Deus anunciado movimentou-se em direção contrária: subiu a partir da mais baixa periferia, para o centro. Ele começou a falar a partir da margem geográfica, cultural, religiosa e econômica.

Nesse sentido, a vida de Jesus foi “excêntrica”, porque não combinava nem se ajustava com a construção social de todos aqueles que controlavam o mundo a partir do centro.

No entanto, Jesus fez o “centro” da história. Nele, o Pai “nos escolheu antes da criação do mundo”.

Isto quer dizer que o “centro” da história teve seu aparecimento na “periferia”.

Portanto, Jesus descentralizou a história para sempre e situou o surgimento da salvação nas terras excluídas. A ação de Jesus provocou um deslocamento geográfico-social-religioso. 

O centro da história já não se encontra mais em Roma, nem em Jerusalém, e sim na “margem”. Todo aquele que, a partir de então, pretende encontrar-se com Jesus terá de voltar à cabeça e peregrinar em direção às margens, onde estão os prediletos do Pai.


2 – O que o texto diz para mim?
Tendo Jesus se encarnado para sempre nas “periferias” do mundo, porque desejou assumir toda a história a partir daí, também eu, seguidora, tenho de dirigir constantemente o olhar para as “novas periferias”, a partir de onde Ele continua me questionando.

“Êxodo para as periferias”: terra privilegiada, de onde posso contemplar a história e a própria humanidade. A razão mais importante de todo este caminho é a união ao movimento de encarnação de Jesus, decidido pelo Pai como caminho privilegiado para a realização de seu Projeto.

Cada passo na direção das periferias do mundo também é um passo contemplativo em busca do encontro com o Senhor da História, que me chama de “baixo” e de “fora”.

“O discípulo-missionário é um descentrado: o centro é Jesus Cristo que convoca e envia. O discípulo é enviado para as periferias existenciais. A posição do discípulo-missionário não é a de centro, mas de periferias: vive em tensão para as periferias” (Papa Francisco)

Quê significa “fronteiras geográficas e existenciais”? É preciso sair dos limites conhecidos; sair de minhas seguranças para adentrar-me no terreno do incerto; sair dos espaços onde me sinto forte para me arriscar a transitar por lugares onde sou frágil; sair do inquestionável para assumir o novo...

É decisivo estar disposta a abrir espaços em minha história a novas pessoas e situações, novos encontros, novas experiências... Porque sempre há algo diferente e inesperado que pode me enriquecer...

A vida está cheia de possibilidades e surpresas; inumeráveis caminhos que posso percorrer; pessoas instigantes que aparecem em minha vida; desafios, encontros, aprendizagens, motivos para celebrar, lições que aprenderei me fará um pouco mais lúcida, mais humana e mais simples...

A periferia passa a ser terra privilegiada onde nasce o “novo”, por obra do Espírito. Ali aparece o broto original do “nunca visto”, que em sua pequenez de fermento profético torna-se um desafio ao imobilismo petrificado e um questionamento à ordem estabelecida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus começou sua vida pública com um novo ensinamento, rompendo esquemas e modos de viver ditados pelo Templo. Diariamente ouço, leio e me deparo com esta palavra que está tão em moda: inovação; expressão presente em todas as instâncias humanas: empresarial, educativo, social...

Partindo do evangelho deste domingo, posso também fazer esta pergunta: qual é a “inovação do Evangelho”? Que há de inovador, na vida de Jesus, que pode me inspirar?

Com certeza, há uma inovação acima de todas: a paixão de Jesus pela vida, pelo Reino, pelas pessoas, de maneira especial pelas mais excluídas e feridas. Por isso, Jesus inicia sua missão fora dos “espaços sagrados” do Templo; é nas “margens” que Ele, com sua presença inspiradora, ativa um movimento inovador e, ao mesmo tempo, humanizador.

Essa paixão de Jesus se revela em cada passagem do Evangelho, em cada palavra que sai de sua boca, em cada gesto que faz tremer todas as instituições, em cada ação que visa levantar, curar e devolver a dignidade a todo ser humano com quem se encontra. Não há um indício sequer de dogma, de doutrina, de regras, de leis..., a não ser isso: tudo o que faço, vivo e desejo, seja em prol das pessoas, para seu bem e sua felicidade.

A inovação de Jesus está em eliminar da vida todo o peso do legalismo, do moralismo, da culpa..., para fazer emergir o que há de mais humano e divino presente em cada pessoa. A expressão “pescador do humano” deixa transparecer essa inovação mobilizada por Jesus, a partir do mais profundo de cada um.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, seguindo Jesus e deixando-me impactar por sua inovação em favor da vida, estarei, também eu, inovando, quando deixar transparecer uma paixão pelas pessoas, que se manifesta em minha acolhida, em meus gestos, no meu olhar contemplativo, nas minhas palavras mobilizadoras...; trata-se de investir a vida em favor da vida e fazendo os outros se sentirem mais irmãos e mais filhos de um mesmo Pai.

Nesse sentido, Mateus também situa, no início da vida pública de Jesus, o chamado dos quatro primeiros discípulos. Detrás disso, há uma intencionalidade teológica, que busca mostrar Jesus e seus discípulos compartilhando a mesma missão: aliviar o sofrimento humano, com a certeza de que o Reino de Deus tinha chegado. Assim, inicia-se um grande “movimento humanizador”, a partir de baixo, das margens...

Nesse entorno da Galiléia está o futuro do Evangelho; Galiléia é a terra do chamado e, a partir desse lugar, inicia-se também novo caminho do seguimento.

Por isso, os discípulos devem entrar em sintonia com o modo original de ser e de viver de Jesus na Galiléia. É ali que se devem encontrar todos os seus seguidores, para também ali prolongar o movimento iniciado pelo Mestre de Nazaré.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Aquele Desconhecido se aproxima, ainda hoje, do meu mar da Galiléia, que representa os lugares, os afetos, os segredos, os costumes da minha vida cotidiana... ; Ele fixa seu olhar em mim e, com sua Palavra inspiradora, me desafia a transgredir os meus lugares estreitos e entrar em outro mar.

O Evangelho deste domingo faz emergir algumas perguntas que são significativas para a vida cristã:

Eu vivo em processo de mudanças ou continuo sempre igual? 

Meu modo de viver o seguimento de Jesus é sempre criativo ou continua “normótico” (normalidade doentia, sem inspiração, sem afeto...)?

Sou peregrina ou estou ancorada no de sempre? 

Estou me convertendo constantemente para uma vida nova e melhor, ou me contento com uma mera repetição?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 4,12-23
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Quem nos chamou – fx 01
Autor: Pe. José Carlos Sala
Intérpretes: Ana Clara, Ana Paula Ramalho, Fátima Souza, Hemerson Jean , Luiz Felipe, Marcelo Mattos
CD: Há sempre uma luz
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:26