terça-feira, 24 de março de 2020

Leitura Orante – 5º Domingo da QUARESMA, 29 de Março 2020

Leitura Orante – 5º Domingo da QUARESMA, 29 de Março 2020

“E A VIDA SEMPRE TEM RAZÃO...”

“Eu sou a ressurreição e a vida”.
“Quem crê em mim, ainda que morra, viverá.” (Jo 11,25)


Texto Bíblico: João 11,1-45


1 – O que diz o texto?
O quinto domingo da Quaresma é como uma espécie de Monte da visão, de onde podemos contemplar as primeiras luzes da Páscoa e da Vida. Ela ainda não é realidade, mas já podemos ver seus primeiros sinais. O importante é nos perguntar se, de verdade, estamos nos aproximando deste Monte da visão ou, simplesmente, ficamos no caminho, cansados, fatigados ou indiferentes. 

A Páscoa é a nossa verdadeira meta? É o nosso verdadeiro horizonte?

É preciso tomar consciência de onde saímos: lugares estreitos, visões atrofiadas, atitudes conservadoras, ideias enfaixadas, sentimentos carregados de ego, coração petrificado... Ou será que vamos chegar à Páscoa tão escravos como quando partíamos, no início da Quaresma?

Quantas liberdades têm hoje que não tínhamos no começo? 

A CF deste ano nos apresenta como tema: “Vida: dom e missão”.

Sabemos que este caminho em favor da vida é belo, instigante, mas muito arriscado. Aqueles que trabalham em favor da vida, aqueles que tiram homens e mulheres de seus túmulos, são frequentemente perseguidos, porque há interesses em jogo e muitos preferem que as coisas continuem do mesmo modo. Assim diz o Evangelho: “Que morra um (Jesus) para que o “bom” sistema prossiga...” Que morram muitos, milhões, para que o sistema neoliberal continue sobrevivendo. 

É perigoso optar pela vida e testemunhar a ressurreição neste mundo de morte. Há muitos (pessoas e instituições) que preferem manter as coisas assim, traficando com a morte (vendedores de armas, promotores de uma economia que mata etc). O evangelho revela que os primeiros traficantes da morte (“que Lázaro apodreça!”) são os dirigentes religiosos e políticos que controlam o poder a partir da mesma morte.

A única verdade é a que abre espaço de vida para todos, em justiça e paz. O único valor é a vida, cada vida, acima da “santa nação” à qual apelava Caifás, compactuando com o Sacro Império de Roma.


2 – O que o texto diz para mim?
No processo do seguimento de Jesus, ao longo da Quaresma, sou tomada por uma “moção à vida” que me impulsiona a uma “missão em defesa da vida”. Da moção à missão:  este é o dinamismo original deste tempo litúrgico.

Alguém já teve a ousadia de afirmar que a morte é mais universal que a vida; todos morrem, mas nem todos “vivem”, porque incapazes de reinventar a vida no seu dia-a-dia; marcados pelo medo permanecem atados, debaixo de uma fria lápide, sem nunca poder entrar em contato com a vida que flui dentro de si e ao seu redor. Na maioria dos casos, as pessoas passam sobre a vida como sobre brasas: de uma maneira superficial, fugindo do grande sentido da própria existência. Diante do impulso por viver em plenitude, contentam-se em mal viver ou sobreviver. Trata-se de pessoas mortas diante do sentido da vida, ou seja, pessoas alienadas, desconectadas de si mesmas, sem experiência pessoal profunda e sem ter dentro de si a fonte da confiança e do entusiasmo. Criam sepulturas e se enterram.

Quem não sabe por que vive e para quê vive, não pode eleger o como quer viver.

O apelo de Jesus – “Lázaro, vem para fora!” - é um princípio de esperança, mas também de compromisso em favor da justiça neste mundo.

“Lázaro, vem para fora!” Hoje, com muito mais intensidade, é preciso deixar ressoar este grito. Venha para fora, de maneira que não viva mais de mortes, que não viva mais na indiferença e na letargia, envolvida em sudários e vendas, compactuando com a violência e com a injustiça, dando cobertura aos que matam!

Esta expressão – “vem para fora!”- é para todos; tenho de sair de um mundo em que, de um modo ou de outro, me acostuma com as mortes, defendendo mediações e estruturas que atrofiam a vida.

Sair do túmulo significa viver para a vida, na justiça e na solidariedade; que eu possa viver para a acolhida e a concórdia, condenando a violência de um modo radical.

O caminho da vida começa ali onde tomo consciência que não se pode matar ninguém para “manter a própria segurança”; que ninguém se aproveite da injustiça para justificar algum tipo de ação opressora.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Jesus era muito de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro”, e é nessa corrente de vida e amor onde aprendo a força sanadora que as relações têm. Os três irmãos representam a nova comunidade dos seguidores de Jesus; e Jesus está totalmente integrado no grupo por seu amor a cada um. Cada membro da comunidade se preocupa pela saúde do outro. 

A morte de Lázaro se converteu em uma benção para suas irmãs e seus amigos. Depois de atravessarem juntos a experiência dos limites, de reconhecerem-se feridos e de abraçarem a dor, fortaleceram-se os vínculos entre eles, e a amizade pode se expandir.

O amor e a amizade devolveram a vida a Lázaro, recriando esse “tecido de relações” que Jesus estabeleceu com esta família de amigos, em Betânia. 

Vivo também eu um tempo de decomposição social e de relações superficiais. 

Talvez, quem sabe, muitos acontecimentos que me custam viver escondem também uma benção.

As perdas, a dor, a doença..., me aproximam dos outros, me fazem mais solidária. 

Humaniza-me também a ternura, a bondade, o tratar mutuamente com cordialidade... 

O sofrimento e a perda podem me despertar para a dimensão de profundidade da realidade e de mim mesma. Mas preciso passar por um processo de transformação para que o sofrimento e a dor me abram ao Mistério e não me afundem no desespero. 

Jesus vai ajudar Marta e Maria a passar por este processo.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, em chave da interioridade, no relato evangélico deste domingo, “Lázaro” pode significar também aquilo que rejeito em mim mesma, aquilo que deixo enterrado sob uma lápide porque não me agrada; o que ocorre é que tudo o que enterro e reprimo começam a exalar mau cheiro. 

Para começar a viver, é preciso, antes de qualquer coisa, reconhecer o que já está morto em mim (falta de sentido, ego inflado, preconceito, frieza nas relações); reconhecer meu Lázaro interior naquilo que há de positivo e que ainda não foi ativado, porque preferi me fechar em mecanismos egocêntricos; reconhecer meu Lázaro naquilo que me pesa e que é reprimido, ameaçando-me continuamente como uma sombra.

Mas não é suficiente reconhecê-lo. Exige-se também crer na força da vida e no dinamismo do próprio ser habitado por Deus, que me cria constantemente. A partir daí, posso escutar a palavra de Jesus que chama à vida e ressuscita o Lázaro que ainda vive em mim. O que mais preciso é reagir à apatia e à acomodação, a partir da confiança na vida e na palavra de Jesus.

O “ego” é meu principal sepulcro: tudo o que significa culto ao “eu”, todo tipo de egoísmo, narcisismo e individualismo. É a incapacidade para a relação aberta e generosa; é o coração solitário; é aquele que se fecha em si mesmo, se asfixia, morre. No fundo, é o sepulcro do não amor. 

Sei disso: “todo aquele que não ama está morto”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Contemplar o coração de Jesus comovido, sacudido, diante da dor e da morte; assim é o meu coração: feito com as fibras da fortaleza e da coragem, entrelaçadas com as fibras da compaixão e da ternura.

Captar a presença de Deus em minha vida, ficar atenta, desperta, não perdida em tantas coisas que me levem a viver afastada de mim mesma.

Deus é presença calada e respeitosa. No silêncio e no olhar profundo poderei captar os vestígios de sua presença. No amor aos outros, me abrir à densidade de Seu amor.

No assombro diante da vida, sentida em meu interior, perceber em estar mergulhada no Mistério.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 11,1-45
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Jesus só tu és o Mestre
Autor: Maria Luiza Ricciardi, fsp
Intérprete: Emmanuel
CD: Sejamos Comunicação 
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:53




terça-feira, 17 de março de 2020

Leitura Orante – 4º Domingo da QUARESMA, 22 de Março 2020


Leitura Orante – 4º Domingo da QUARESMA, 22 de Março 2020

“DESCER” ÀS ÁGUAS DE SILOÉ

“Vai, lava-te na piscina de Siloé” (Jo 9,6)


Texto Bíblico: João 9,1-38


1 – O que diz o texto?
Tem-se dito, e com razão, que a espiritualidade cristã é uma “espiritualidade de olhos abertos”. 

Na realidade, isso vale para toda espiritualidade genuína, ou, em outras palavras, não seria verdadeira aquela espiritualidade que nos alienasse ou nos isolasse da realidade, em particular da realidade mais dolorida e sofredora. Há motivos para suspeitar de uma espiritualidade que não desemboca na compaixão, entendida esta como a capacidade de entrar em sintonia com o outro que sofre, e que se traduz numa ação eficaz a seu favor. 

A CF deste ano nos apresenta o samaritano como personagem inspirador na nossa vivência da espiritualidade cristã: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”.

Todos nós, de uma maneira ou de outra, somos cegos de nascimento, porque nascemos e crescemos em meio a sistemas sociais e religiosos que domesticaram nosso olhar, nos educaram a ter um olhar avesso e atrofiado. A cura do cego de nascimento, apresentado pelo evangelista João, é o sinal que nos fala daquilo que o Senhor nos oferece: caminhar na claridade do dia. 

Este homem está cego, já que nasceu no mundo fechado e ao longo de toda a sua vida aprendeu a ver com o olho cego da sinagoga. Jesus vai curá-lo através de um gesto de íntima proximidade; não realiza um espetáculo para provocar espanto, nem diz palavras ininteligíveis. Simplesmente agachou-se, cuspiu no chão e com sua própria saliva fez um pouco de barro; com a gema de seus dedos tocou com ternura os olhos do cego e o enviou a lavar-se na piscina de Siloé. É uma cena de reconstrução de uma pessoa quebrada e que nos recorda o primeiro barro com que Deus oleiro criou o primeiro ser humano.

No cego curado se revela a ação permanente de Deus: despertar a luz escondida em nosso interior, ativar a vida para dar-lhe amplitude maior.


2 – O que o texto diz para mim?
Com o relato do cego de nascença, o evangelista João está propondo um processo catecumenal que conduz o ser humano das trevas à luz, da opressão à liberdade, da identidade ferida à identidade reconstruída, da exclusão à participação. Mas, para isso, é preciso deslocar-se, fazer a travessia e descer em direção a Siloé, lugar das águas recriadoras. Este texto remete à experiência fundante da vida. 

O caminho de “descida” é o caminho da vida. Siloé está situada na parte baixa da cidade, afastada daqueles que, na parte alta, controlam e manipulam religião e as pessoas, através da centralidade da lei, do culto, da tradição... Ali não há possibilidade da vida se expandir e se expressar em todas as suas potencialidades. 

O reservatório de Siloé estava situado fora das muralhas, na parte baixa de Jerusalém e recolhia a água da fonte de Guijón e que chegava até ele conduzida por um canal-túnel (daí o nome aramaico de “siloah”= emissão-envio, água emitida-enviada). Era uma maravilha de engenharia, mandado construir pelo rei Ezequias no ano 700 ac, para fazer a água chegar à cidade. 

No final daquele túnel o cego se faz presente, lava-se, assume sua vida, torna-se independente: um novo nascimento. Agora ele começa a acreditar em si mesmo, em seu valor como ser humano, em sua capacidade de ver e de dar direção à sua vida; assume sua condição humana e deixa de se sentir escravo dos outros, controlado por pais e mestres, como um mendigo inútil; na sua liberdade, ele agora pode assumir sua vida, decidir, dizer, afirmar-se... 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Inspirada no evangelista João eu poderia dizer: a doença é a manifestação da perda do contato do ser humano com sua fonte divina. As duas narrativas de cura mais importantes no 4º evangelho, ocorrem no tanque de Betesda e no reservatório de Siloé. Quando o ser humano é separado de sua fonte divina, ele adoece, e a cura acontece, quando esse contato com a fonte interior é reestabelecido.

Para que isso aconteça, Jesus não precisa levar o doente até a piscina de Siloé; bastam o encontro com Ele e a força de Sua palavra para reconectar o enfermo com sua fonte profunda, da qual estivera separado. 

Jesus reconstrói o cego quebrado em sua dignidade, mas motiva-o a assumir sua responsabilidade, deslocando-se ao reservatório de água de Siloé e rompendo sua dependência para com os fariseus e sacerdotes que o oprimiam, mantendo-o preso à sua situação de cegueira existencial. 

O apelo de Jesus é para que o cego seja ele mesmo, em liberdade; com seus gestos e com a força de sua palavra, Jesus despertou no cego a mobilidade e independência.

Nesse sentido, caminhar em direção a Siloé é descer em direção à própria humanidade, ao mais profundo de si mesmo, para lavar-se no manancial das águas puras.

O cego seguiu as instruções, recuperou a vista e atingiu a integridade humana: passou da morte à vida, da opressão à liberdade.

Sei que o ser humano é dotado de recursos internos inesgotáveis. Cada um possui dentro de si uma fonte de forças reconstrutoras, renováveis, resilientes. Mas, muitas vezes, é preciso de um estímulo externo para reconectar com essa fonte. 

Sei e sinto, no mais profundo, o que é mais saudável e vital para mim, porém preciso do encorajamento externo para voltar a confiar em minhas próprias potencialidades.

O evangelho deste domingo me ensina o caminho através do qual desço a uma dimensão mais profunda e assim chego à corrente subterrânea; aqui experimento a unidade de meu ser; aqui é o lugar da transcendência, onde minha transformação realmente acontece.

Tal experiência significa abertura, dilatação do coração, expansão da consciência ao ver que tudo parte de Deus (Fonte do rio da vida) e tudo volta para Deus (rio que mergulha no Mar).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a experiência de oração, junto à Piscina de Siloé, me conduzirá à outra fonte, aquela que brota do coração, e que estava ressequida, impedindo-me de reconhecer o murmúrio da água viva.

Sentada à beira da fonte silenciosa, poderei, também eu, atingir experiências imprevistas e surpreendentes, ou reconhecer, através do murmúrio das águas, “vozes novas” que me incitam a peregrinar para as regiões desconhecidas do meu próprio interior. Só assim, poderei vislumbrar o outro lado e tocar as raízes mais profundas que dão sentido e consistência ao meu viver. 

O manancial de meu ser essencial constitui minha autêntica vida. Descobri-lo, abrir-me a ele, fazer-me transparente a ele e vivê-lo cada dia..., constituem a plenitude de minha realização. 

A “descida” até o mais profundo de mim mesma requer que eu deixe para trás um contexto de competição, de rivalidade e vazio, de fechamento e rigidez, de superficialidade e isolamento...

O encontro com a “água viva”  abre futuro novo, me motivando à tomada de decisões, a assumir um estilo de vida coerente com aquilo que encontro no fundo do meu próprio coração.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Sentar junto à minha Siloé interior.

Mergulhar na “fonte” que corre.

Descer às “águas” do amor do Pai. 

Deixar molhar pelas Palavras do Filho e receber a força e a luz do Espírito.

Na minha vida, o que está bloqueando, impedindo a manifestação das melhores forças,  inspirações, criatividade?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 9,1-38
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Cura-me Senhor e serei curado
Autor: Frei Luiz Turra
Intérprete: Maria Diniz 
Coro: Idalina Miraci, Terezinha Reghellin, Maria do Carmo Diniz, Frei Luiz Turra, Luciano Baldasso e Fabio Cadorin
CD: Cura-me Senhor e serei curado
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:34




segunda-feira, 9 de março de 2020

Leitura Orante – 3º Domingo da QUARESMA, 15 de Março 2020

Leitura Orante – 3º Domingo da QUARESMA, 15 de Março 2020

TEMOS ÁGUA, FALTA-NOS SEDE

“Todo aquele que bebe desta água terá sede de novamente.” (Jo 4,13) 


Texto Bíblico: João 4,5-42


1 – O que diz o texto?
Diante da imagem do deserto, muito presente durante o tempo quaresmal, a sensação é de sede. 

O deserto evoca nossa sede de água e de plenitude. Onde encontrar a água? Como saciar nossa sede?

É cada vez maior o número de restaurantes que dispõem de “cardápio de águas”. Águas dos mananciais mais puros, dos aquíferos mais profundos, das nascentes mais cristalinas... Água abundante e ao alcance daqueles que podem pagar por ela. Uma água para todas as sedes e uma sede para cada água. 

No entanto, no mais profundo de nosso ser, somos habitados por uma sede que nenhuma água pode saciar: sede de sentido, de plenitude, de vida inspirada e criativa...

Bendita sede que nos mantém abertos a Deus e aos outros! As pessoas que fizeram diferença e mudaram o mundo foram aquelas profundamente sedentas. Amaram essa sede de que fala Jesus: “Se tu conhecesses o dom de Deus...” Pessoas que ativaram a sede de justiça, no deserto de uma injustiça asfixiante; pessoas que suportaram a sede de paz sob forte pressão das fábricas de armas; pessoas que viveram a fundo sua fé em uma Igreja que, com frequência, as deixava sedentas e as colocava à margem. Pessoas que se encheram de Deus porque renunciaram saciar aquela sede com qualquer água.

Precisamos de pessoas, como a samaritana, que nos deem as coordenadas d’Aquele que pode despertar nossa sede, antes de nos dar água.

Jesus, junto ao poço de Jacó, é a viva imagem de um “Deus sedento”, que ama a humanidade até morrer de sede por ela, e que uma esponja molhada em vinagre não conseguirá apagá-la. 

Junto ao poço, nossa pequena sede e a sede de Deus se encontram. Sua sede de justiça confrontada com nossa sede de harmonia; sua sede de misericórdia confrontada com nossa sede de reconhecimento; sua sede de compaixão confrontada com nossa sede de segurança. Não para diminuir nossa sede, mas para ampliá-la; não para menosprezá-la, mas para dignificá-la.

A vida, carregada de obrigações, compromissos, preocupações, rotinas..., onde investimos tanta atenção e energia, pode maquiar ou bloquear as sensações profundas, fazendo-nos perder o contato com nossa sede original e criando um deserto existencial.

Jesus assume nosso deserto; acolhe-o, fazendo-se presente em seus recantos de dúvida, de medo, de solidão. “Dá-me de beber”, ressoará no nosso eu mais profundo. E poderíamos lhe dizer: com a sede que temos nos pedes que sacie a tua sede? A resposta não se faz esperar: é Deus quem tem sede de nós, é Jesus que nos convida a partilhar de nossa água com Ele.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus cansado e sedento, sentado à beira do poço; uma mulher com sede que acode com seu balde para tirar água. Dois sedentos e com a água no poço.  Sedentos os dois de água, mas, possivelmente, os dois também sedentos de algo mais que água. Jesus sedento quer encher de água viva aquele coração cheio de “maridos”; uma mulher sedenta de algo mais que pudesse apagar a sede que seus maridos não conseguiam.

A samaritana chega ao poço, alheia ao que ali lhe esperava e que, na trivialidade de sua vida cotidiana, tudo se fazia previsível: vai somente buscar água com o cântaro vazio para retornar à sua casa com ele bem cheio. Não há mais expectativas, nem outros planos, nem mais desejos.

Mas o imprevisível está esperando por ela, na pessoa daquele Galileu sentado na beira do poço, que inicia uma conversação sobre coisas banais, talvez para não assustá-la: falam de água e de sede, de poços e de velhas desavenças entre povos vizinhos, coisas de todos os dias. 

Jesus começa como o frágil sedento que se atreve a pedir água. A mulher, muito segura de si, sente-se dona do poço, da água e do balde. Subitamente, irrompe a linguagem das “coisas do alto”: o dom, uma água que se converte em manancial vivo, a promessa de uma sede saciada para sempre, um Deus que me busca, fora dos espaços estreitos de templos e santuários.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A samaritana se defende e procura manter a conversa em um nível de trivial superficialidade, fugindo da irrupção do “novo” em sua vida. Mas, no final da cena, o cântaro que era símbolo da pequena capacidade que está disposta a oferecer, permanece esquecido junto ao poço, já inútil à hora de conter uma água viva.

E os dois, Jesus e a mulher, terminam esquecendo-se da sede, da água, do poço e do balde. Duas vidas que se encontram e se comprometem: Jesus, que vai abrindo caminho para chegar ao profundo daquele coração feminino; a mulher que resiste, mas, aos poucos, se abre às palavras daquele homem imprevisível; Jesus, que vai desvelando a mulher por dentro, fazendo emergir seus profundos vazios; a mulher que começa a sentir o borbulhar do manancial em seu coração, encontrando-se com a verdade de si mesma; Jesus que vai se esquecendo do poço de Jacó e vai abrindo uma nova fonte naquele coração de mulher; a mulher que se esquece da água e do cântaro e regressa ao seu povoado gritando o que seu coração encontrara.

O encontro com a mulher samaritana é um belo ícone para descobrir o Mestre da Galiléia que, como um grande mistagogo, vai conduzindo-a ao centro de si mesmo, à profundidade de seu mistério pessoal e à consciência de ser uma “mulher habitada”.

“Descer” ao fundo do poço é a oportunidade para descobrir regiões novas e novos horizontes, para conhecer o reino interior, para encontrar a riqueza profunda e assim experimentar a transformação.

O caminho para uma nova qualidade de vida passa pela descida ao mais profundo do meu próprio poço.

Isso requer coragem para passar por todas as regiões sombrias e chegar ao fundo. Mas essa descida me possibilita descobrir um mundo diferente que não conhecia, ou que havia perdido.

Lá no fundo, encontra-se um bem precioso que posso levar comigo, que me ajuda em meu caminho e que me faz totalmente íntegra e sã.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a Campanha da Fraternidade deste ano, com o tema “Vida, dom e missão”, me motiva a despertar as potencialidades de vida que ainda permanecem adormecidas. É preciso “descer” até às profundezas para descobrir uma nova riqueza que plenificará minha vida; é “descendo” que poderei revitalizar a vida que se tornara vazia e ressequida. É preciso despertar, escavar, avançar em direção ao “manancial” e saber que este não é minha propriedade; ele me é oferecido. Não basta falar de “água viva”, é também necessário “escavar” meu “chão interior”, desbloquear e ampliar o espaço do coração para que o manancial ali presente encontre chance de emergir e dar um novo sabor à minha vida. 

A vida sempre está oculta nas profundezas. A pessoa superficial são aquelas que se confundem com suas ideias, seus apegos, suas falsas seguranças... A pessoa do “eu profundo” é aquela que vive a partir da raiz, da fonte mesma da vida, e deixa vir à tona todas as suas riquezas, dons, capacidades...

O percurso quaresmal “desvela” meu “eu profundo”, o lugar onde habitam os aspectos benéficos da minha personalidade, as boas tendências, as qualidades positivas, os dons naturais, as riquezas do ser, as beatitudes originais, as aspirações de grande fôlego, as ideias força, os dinamismos da vida..., que formam o eixo de minha existência, o melhor de mim mesma, o fundamento de minha verdadeira identidade.

O “tesouro do ser” (certezas, intuições, projetos, valores...), ainda que pareça esquecido, permanece armazenado em sua mensagem essencial, e pode se tornar a força que orienta toda a vida, a sabedoria da própria vida, um lugar de fecundidade, de criatividade, fonte de renovação...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Para eu realizar e desenvolver toda a minha potencialidade, buscar, na oração, cavar mais profundamente, até atingir as raízes de meu ser, o núcleo original de minha personalidade. 

- Diante da presença de Deus, estar aberta ao contato com a minha própria realidade interior, para que venha à superfície aquilo que sustenta e dignifica o meu viver.

- Dirigir o meu olhar para o mais íntimo de mim mesma, onde nascem sentimentos e valores, decisões e gestos..., onde eu sou convidada a me alegrar com os rastros da Graça.

- Deixar-me conduzir pela “sede” de Deus que está enraizada em meu coração.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 4,5-42
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Tenho sede 
Autor: Irmã Míria Terezinha Kolling
Int: Chorus Mutantis
Participação: Adélia Issa
CD: Serei o amor - Santa Teresinha do menino Jesus
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:43

quarta-feira, 4 de março de 2020

Leitura Orante – 2º Domingo da QUARESMA, 08 de Março 2020


Leitura Orante – 2º Domingo da QUARESMA, 08 de Março 2020

A LUZ QUE NOS TRANSFIGURA

“Seu rosto ficou resplandecente como o sol, 
e suas vestes tornaram-se como a luz.” (Mt 17,2)


Texto Bíblico: Mateus 17, 1-9


1 – O que diz o texto?
“Saí de vossas trevas! Deixai para trás a segurança do vale e empreendei, sem medo, a subida ao monte, porque lá no alto a luz vos espera!”. Este poderia ser o apelo do evangelho da Transfiguração, que pede de nós mobilidade para sair das falsas seguranças de uma vida sem horizontes.

De fato, há em nós uma força atrofiadora que nos faz preferir a acomodação, permanecendo tranquilos, perdidos no imediato e alheio à capacidade de transfiguração que se esconde por detrás da aparente normalidade das pessoas e das coisas.

“O mundo está cheio de esplendor espiritual e de segredos maravilhosos, mas basta um pequeno cisco sobre nossos olhos para que tudo fique escondido”. (Baal Sem Tov)

Por isso, no Evangelho de hoje, e com diferentes graus de intensidade, o evangelista sai da esfera plana das descrições precisas e exatas e se expressa na linguagem do excessivo, do simbólico, do totalizante: “seu rosto brilhou como o sol”, “suas roupas ficaram brilhantes como a luz”, “uma nuvem luminosa os cobriu”... 

E como contraste escuro frente a tanta luz, três pobres homens assustados que balbuciam disparates, que preferiam permanecer junto a esta situação tão surpreendente.

A Transfiguração está nos dizendo quem era realmente Jesus e quem somos realmente cada um de nós. 

Essa cena que Mateus relata é um símbolo das muitas “experiências de transfiguração” que todos experimentamos. A vida diária tende a fazer-se cinza, monótona, cansada, e a deixar-nos desanimados, sem forças para caminhar. Mas, eis que surgem momentos especiais, com frequência inesperados, em que uma luz atravessa nosso coração, e os olhos de nossa interioridade nos permitem ver muito mais longe e muito mais fundo daquilo que estávamos acostumados a olhar até esse momento. 

A realidade é a mesma, mas nos aparece transfigurada, com outra figura, revelando sua dimensão interior, essa na qual tínhamos acreditado, mas que com o cansaço do caminhar tínhamos esquecido. Essas experiências, verdadeiramente espirituais, nos permitem renovar nossas energias e, inclusive, entusiasmar-nos para continuar caminhando, com o sentimento de “como se víssemos o Invisível”.

Aquele Monte (Tabor) foi um espaço instigante para Jesus, lugar alto de sua experiência radical, de onde Ele podia ver os problemas da humanidade, para senti-los, para assumi-los e mudar... O mesmo Jesus nos faz subir à grande montanha para que vejamos as coisas de outra forma, de outra perspectiva... 


2 – O que o texto diz para mim?
É preciso, de vez em quando, tomar distância e me afastar do cotidiano rotineiro e atrofiado, para ampliar minha visão e contemplar o drama humano; é decisivo me situar diante do calor de Deus (sarça ardente) para desvelar minha verdadeira identidade. Somente assim a Montanha me transfigurará para que me empenhe no serviço em favor dos “desfigurados” do mundo.

Aspiro por experiências como a dos discípulos de Jesus no alto do Tabor. Mas eu não posso me encontrar com Jesus no Tabor da Galiléia. Necessito buscar meu Tabor particular, os rincões de minha morada interior, onde estão às fontes que mais forças me dão, as luzes com as quais me sintonizo para iluminar e dar um novo significado ao meu compromisso primeiro.

Sou portadora de uma luz que procede de dentro, uma iluminação interior, que só aquele que vive a partir de sua própria interioridade consegue ter acesso a ela.

Ao relatar suas experiências espirituais, muitos místicos fazem referência a uma luz que ilumina com força seu interior. É uma graça que não se revela rara, pois tenho consciência que “Deus é luz” e que o mesmo Jesus se definiu como a “Luz do mundo”. Sou envolvida providencialmente por esta expansiva Luz.

Todas as pessoas que fizeram esta experiência de encontro com o “Deus da Luz” puseram os meios para fazer a viagem interior e ativar a “faísca da luz divina” ali presente. Na medida em que se deixaram invadir por essa Luz, aproximaram-se cada vez mais dela para vivê-la com mais intensidade e para deixá-la refletir em seus rostos e ações. Por isso, foram pessoas de presenças originais e iluminantes em seu meio.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
No ritmo do cotidiano, o dom imenso da luz passa desapercebido. Que o digam aqueles que não podem ver; que o digam aqueles que nunca puderam estremecer-se diante de um pôr do sol ou diante das cores vivas de uma pintura; que o digam aqueles que nunca puderam ver o brilho de uns olhos cheios de amor...

Na costumeira cotidianidade, o perigo de não valorizar a luz é evidente; no entanto, para quem contempla sua cotidianidade, a formosura da luz que se derrama sobre cada um que vive neste planeta sem luz própria é a prova da generosidade de Deus para com todos.

Por isso mesmo, há vidas luminosas e vidas obscuras. Há pessoas cuja luz interior transfigura suas vidas: vivem na transparência da luz, seus gestos e atos são luminosos, admiram-se com o brilho da vida e desejam que tudo tenha esse brilho, iluminam com sensata positividade tudo o que acontece ao seu redor coloca-se sempre na perspectiva de quem desfruta da cor e do amor no encontro com os outros...

O resplendor da Transfiguração brilha em meu interior; não me vejo vazia por dentro porque no mais profundo de mim mesma, na morada mais interior, está o “sol de onde procede a uma grande luz” (Santa Teresa de Jesus).

Deixar-me transfigurar. Sou ser de luz e minha verdadeira transformação nasce de meu interior.

Na Transfiguração, Jesus me faz meu verdadeiro ser, que vejo refletido n’Ele.

A transfiguração não é condição de um “iluminado”, mas a realidade de toda pessoa que é capaz de “sair de seu próprio amor, querer e interesse” (S. Inácio). Deixar-se transfigurar é descentrar-se e expandir sua luz, para realizar aquele chamado único de Jesus dirigido a todos: “Vós sois a luz do mundo”.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, Transfiguração é festa da luz: Jesus é a Luz e no encontro com Sua Luz posso  ativar a tímida luz presente no meu interior. Só assim posso ampliar os espaços de luz em minha vida, para contagiar-me de luz e para comunicar uma mística de luz em meu  entorno. Não se trata de falsas iluminações, mas de alcançar outra perspectiva de vida, mais luminosa, mais positiva, mais esperançada.

Para transitar na noite de meu tempo preciso buscar, na Transfiguração, a Luz que a ilumine e me indique a direção e o sentido de minha existência.

A “noite de meu mundo”- carregada de tanta corrupção, violência, preconceito e intolerância - pedem pessoas marcadas pela experiência da Transfiguração, capazes de ver a presença d’Aquele que é a Luz no meio das realidades simples e cotidianas, no profundo do coração de cada ser humano, de cada realidade vivente, de cada palmo de minha terra, no mistério insondável do universo grávido de graça.

Preciso cultivar não só olhos que vejam a realidade, senão que sejam capazes de contemplar, no meio da noite, a presença da Luz: uma luz que brota das profundezas da realidade, do profundo do ser, onde o Deus, Fonte de vida, sustenta tudo; uma Luz que me faz descobrir meu ser essencial: filhos e filhas amados (as) e irmanados (as) com todos e com tudo.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Na minha vida cristã, não faltam momentos de claridade e certeza, de alegria de luz. 

E tudo depende de minha visão, ou seja, se meu olhar só capta o imediato e rasteiro que me rodeia, ou se é capaz de descobrir o profundo e o luminoso em tudo... 

- Como é meu olhar? Sou capaz de transfigurar o olhar para captar a presença da Luz, da profundidade de sentido, da presença de Deus... Que há por detrás de cada circunstância? 

- Minha presença cotidiana, é oportunidade para deixar transfigurar minha luz interior, que se visibiliza na bondade, na compaixão, no compromisso com a vida...?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 17, 1-9
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Jesus é luz
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Canções que a fé escreveu
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:02




quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Leitura Orante – 1º Domingo da QUARESMA, 01 de Março 2020

 

Leitura Orante – 1º Domingo da QUARESMA, 01 de Março 2020

DESERTO, LUGAR DO DISCERNIMENTO

“O Espírito conduziu Jesus ao deserto...” (Mt 4,1)


Texto Bíblico: Mateus 4,1-11


1 – O que diz o texto?
Na experiência do batismo, Jesus escutou a voz do Pai. Trata-se do principal momento teofânico de sua vida, juntamente com a transfiguração. Mateus se serve deles para proclamar que a identidade de Jesus consiste em ser o Filho amado do Pai. Essa é sua identidade e nela se revela que seu “código genético” consiste em ser o Filho, o Amado, o Predileto..., sobre quem se visibiliza a complacência do Pai. 

Agora podemos compreender sua ida ao deserto, movido pelo Espírito, como uma necessidade imperiosa de “processar”, no silêncio e na solidão, essa revelação, de alargar espaço, em sua interioridade, para o deslumbramento e o assombro. 

O significado do deserto não é prioritariamente o penitencial. “Levá-lo-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração”, tinha dito Oséias (2,16), convertendo o deserto em um lugar privilegiado de encontro pessoal e de escuta da Palavra. Jesus é conduzido ao deserto para acolher a Palavra escutada em seu coração no momento de seu batismo. Ele precisava de tempo para assentar no mais profundo de seu ser uma Palavra que o descentrasse para sempre de si mesmo e o situasse à sombra da ternura incondicional de Alguém maior.

O evangelista Mateus apresenta a estadia de Jesus no deserto como um tempo de lucidez, fazendo-nos perceber que a relação filial da qual Ele tinha tomado consciência, iluminou de tal maneira sua visão, que se tornara impossível confundir a Deus com os falsos ídolos que o tentador lhe apresenta: um deus em busca de um mágico e não de um Filho; um “deus” contaminado das vazias pretensões do pior da condição humana: ter, brilhar, ostentar poder, exercer domínio...

O que parece claro é que Jesus buscou o deserto para um tempo de discernimento, em oração e em solidão, diante do Pai que o proclamou seu Filho; Ele teve de refletir e discernir sobre o modo como assumiria sua missão em sua vida pública. 

Ora, essa missão comportava, de fato, não só um fim que havia de realizar (a salvação e a libertação total da humanidade) senão, também, um meio, ou seja, um caminho e uma maneira de proceder, tendo em vista alcançar aquele fim. E esse meio ou esse procedimento era, essencialmente, a solidariedade com todos os pecadores e excluídos da terra, a ponto de morrer com eles e por eles.

Como viver sua missão e a partir de quê lugar? Buscando seu próprio interesse ou escutando fielmente a Palavra do Pai? Como deverá atuar? Dominando os outros ou pondo-se a seu serviço? Buscando sua própria glória ou a vontade de Deus? Centrando sua vida na busca de poder e riqueza ou assumindo uma vida pobre, como expressão de solidariedade com os mais excluídos?


2 – O que o texto diz para mim?
Não posso esquecer que o tentador não propõe a Jesus que se afastasse de seu fim, ou seja, de seu projeto messiânico de salvação (“Se és o Filho de Deus...”), senão que, na realidade, o que ele faz é oferecer a Jesus alguns meios determinados para realizar a implantação do Reino do Pai.

Na cena das tentações, vejo Jesus reagindo do mesmo modo como fez ao longo de toda sua vida: centrado e em sintonia afetiva com tudo aquilo que Ele vai descobrindo como o querer de seu Pai: a vida abundante daqueles que veio buscar e salvar. Ele não veio para preocupar-se de seu próprio pão, mas de preparar uma mesa na quais todos pudessem se sentar para comer; Ele não veio para que os anjos o carregassem sobre as asas, para angariar fama e “ter um nome”, mas para dar a conhecer o nome do Pai e carregar sobre seus ombros todos os perdidos, como um pastor carrega a ovelha extraviada. Não veio para possuir, dominar ou ser o centro, mas para servir e dar a vida.

O que livra Jesus de cair nos enganos do tentador é sua excentricidade, sua referência ao Pai e à sua Palavra, e, a partir desse Centro, receberá o impulso para abandonar o deserto e se deixar conduzir pela corrente de Vida, alimentada pelo Espírito. A partir desse momento, o verei caminhando pela Galiléia, entrando em relação com o mundo dos pobres e excluídos, anunciando o Reino, criando uma nova comunidade de vida, buscando colaboradores, aproximando-se das pessoas, entrando nas casas, acolhendo, curando, ensinando, abrindo um horizonte de sentido para a vida das pessoas...

A passagem evangélica das tentações também me inspira a encontrar com o mesmo Deus a quem Jesus conheceu no deserto: um Deus que não exige de mim proezas nem gestos espetaculares, mas somente alimentar minha confiança n’Ele e meu agradecimento; um Deus que me dirige sua Palavra, não para me impor obrigações ou para apontar minhas fragilidades, mas para me alimentar e me fazer crescer; um Deus que não é encontrado nos lugares carregados de prepotência, de poder, de vaidade e consumismo, mas nos lugares do despojamento e da simplicidade de vida, nos lugares dos “descartados” e excluídos. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Muitas vezes penso que Deus é um “estraga-prazeres”, ou um Deus triste que não quer que eu viva prazerosamente. E, então, tenho a sensação que as tentações são essas coisas fascinantes que me seduzem, mas que tenho de renunciá-las em nome de uma suposta “perfeição”. Porém, Deus não é Aquele que complica minha vida com leis, sacrifícios, renúncias... Ele quer que eu viva e, de maneira intensa.

Para cruzar os desertos da vida é preciso ativar uma atitude de esvaziamento de tudo aquilo que é “peso morto” para chegar ao mais profundo e verdadeiro de meu ser. O deserto me revela de onde vim e para onde vou; ele me remete inteiramente ao Doador da vida e desperta outros recursos vitais, aninhados em meu interior.

Tudo o mais é pouco para a sede do coração. “Só Deus basta”, me sussurra o deserto.

Desde sempre, a humanidade inteira e eu, estou exposta à tentação. Faz parte de minha condição humana. Trata-se de um conflito permanente que pode travar minha existência por dentro.

Por um lado, sinto o apelo e o impulso para o bem, para a liberdade, para o compromisso e a fraternidade. Mas por outro, sinto também a sedução e a tendência para o egocentrismo, o prestígio e os instintos de poder e posse. Sinto-me simultaneamente santa e pecadora, oprimida e libertada. 

As tentações sempre estão diante de mim, como pedras que se convertem em pães, como aplauso buscado a partir dos critérios do mundo, ou como joelhos que se dobram frente às promessas de um ídolo com pés de barro.  São dinamismos que bloqueiam o fluxo da vida, impedindo-a de se expandir e de se colocar a serviço de outras vidas.

Ser tentado é próprio do humano, mas o que é divino pode também ser encontrado em meu interior.

Quem é conduzido pelo Espírito, é capaz de acessar à própria interioridade e não se deixa enredar pelos estímulos externos nem pelos impulsos egoicos.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor diante das tentações do poder, do ter e do prestígio, o seguidor de Jesus responde com a partilha, o serviço, a comunhão, a solidariedade... O tempo quaresmal vem ativar esse dinamismo expansivo. E a Campanha da Fraternidade me motiva a fazer da vida um grande dom e um profundo compromisso.

Só quem se deixa conduzir pelo Espírito, como Jesus, consegue romper com tudo aquilo que atrofia a vida; só assim consegue fazer o salto libertador.

Trata-se de ser dócil para deixar-se conduzir pelos impulsos do Espírito, por onde muitas vezes não entende e não sabe. É Ele quem ativa a que há de melhor em mim mesma, expandindo minha vida em direção aos valores do Reino: desapego, serviço, esvaziamento do ego...

Na realidade, só existe uma “grande tentação” para os cristãos: a tentação radical da infidelidade a Cristo e a seu Reino. É a tentação de traçar para si mesmo um caminho, isto é, de projetar uma vida para si, dando uma direção diferente daquela que lhe deu o próprio Deus. Esta é a maneira de trair o melhor de si mesmo, de renunciar ao que há de melhor em si mesmo. Tentação essa que significa o fracasso da própria vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Diante de “Jesus tentado”, recordar as experiências pessoais de tentação: quais são aquelas que mais me afetam e me seduzem? 

Como proceder para não me deixar conduzir e nem me determinar por elas?

Recordar dimensões da vida que precisam ser ampliadas a partir da experiência do deserto.  


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 4,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 

Sugestão: 
Música: Sem perder a ternura 
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: A profecia e a coragem em canção
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:07