terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Leitura Orante – EPIFANIA do Senhor, 05 de Janeiro 2020

Leitura Orante – EPIFANIA do Senhor, 05 de Janeiro 2020

EPIFANIA: Deus se manifesta sempre, 
mas a partir de dentro.

“Ficaram extremamente felizes ao ver a estrela.” (Mt 2,10)


Texto Bíblico: Mateus 2,1-12


1 – O que diz o texto?
O relato evangélico deste domingo é desconcertante: o Deus, escondido na fragilidade humana, não é encontrado pelos que vivem instalados no poder ou fechados na segurança religiosa. Ele se deixa revelar àqueles que, guiados por pequenas luzes, buscam incansavelmente uma esperança para o ser humano, na ternura e na pobreza da vida.

Para além da intencionalidade do evangelista Mateus, o texto contém um profundo simbolismo, carregado de sabedoria. Tudo começa com uma “estrela”. É a luz interior (intuição, insight) que desencadeia o processo de busca e nos põe a caminho. Pode aparecer de maneira inesperada, em qualquer momento e, com frequência, costuma surgir numa situação de crise que, ao remover nossos hábitos, faz com que nos abramos a uma dimensão mais profunda.

Estar a caminho de Belém é fazer a travessia em direção a nós mesmos. Ao buscar uma Criança na Gruta, buscamos nossa verdade mais profunda e original, a verdade interna da alegria e do amor, do sentida da vida, em meio a um mundo no qual a maioria só parece buscar coisas externas, afastando-se de si mesma.

A luz que aqui importa é a tua, a nossa, a minha, ou seja, a de Deus que ilumina o caminho da vida, que nos leva até Jesus e com Jesus nos leva ao Reinado do Pai, que é a plenitude de nossa própria vida. 

Peregrinos, são todos, mas não em guerra de estrelas (star-wars) e sim em um caminho messiânico que leva ao ouro, incenso e mirra de Belém, que é o sinal da verdade da vida.

Trata-se sempre da voz do desejo que nos habita, e que não é outra coisa que expressão de nossa verdadeira identidade que nos chama para “voltar a casa”.

Com efeito, o caminho no qual o desejo nos introduz é o caminho da verdade; a estrela sempre conduz à verdade. E sabemos ou intuímos que a verdade vai nos desnudar de tudo aquilo que havíamos absolutizado.

Por esse motivo, é importante que nos perguntemos se realmente buscamos a verdade..., ou nos conformamos com qualquer coisa que a substitua.

A estrela não tem outra finalidade que a de conduzir-nos a “casa”, nossa gruta interior. Mas, apenas iniciamos o caminho, aparecem às dificuldades: os apegos que não estamos dispostos a soltar, as formas de viver que se fizeram habituais, o medo do incômodo que toda mudança supõe, o susto diante do desconhecido... e, em último termo, a ignorância básica que nos faz acreditar naquilo que não somos e nos mantém acomodados na noite da insatisfação existencial.


2 – O que o texto diz para mim?
Os Magos (sábios) do Oriente são símbolo do ser humano em sua busca de Deus, em seu desejo de infinito e plenitude. Esta é a “impressão digital” de artista que Deus deixou em cada ser humano: a saudade do divino, do sublime, do infinito, do pleno, do Outro.

A estrela simboliza a força dos desejos mais profundos do ser humano (no latim, a palavra desejo “desiderium”, contém a raiz “sid”: sideral, firmamento, horizonte). Portanto, quem deseja transgride as estreitas fronteiras da vida e se deixa conduzir para além de si mesmo; quem não ativa os desejos profundos, limita-se a vegetar, a cercar-se de proteção, a buscar segurança... atrofiando a própria existência. Só os nobres desejos, presentes em meu interior, alimentam o espírito de busca, acendem a criatividade e me move ao encontro do novo e do diferente. 

Se eu levasse a sério o movimento de “saída” dos Magos, muitas coisas poderiam mudar: o interior de mim mesma, meu entorno mais próximo, a estrutura social, as igrejas, as religiões, a ecologia...

O “quê” da questão não está nos verbos senão no sujeito ativo que gera o ato de sair, buscar e encontrar.

Como os Magos, preciso ativar a capacidade de abrir a janela que me conecta com a vida dos outros e me permite continuar interessada, com paixão e com lucidez (para ter boas fontes de informação), por tudo aquilo que está ocorrendo em meu convulsionado mundo. Visitar ambientes que talvez nunca tivesse ocasião de conhecer, sair de meus espaços rotineiros e conhecidos, abrir-me às surpresas da vida...

Os Magos perguntam àqueles que podem ajudá-los. Hoje preciso dialogar com mais profundidade. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Todo ser humano é aventureiro por essência; com ardor, ele anseia por uma causa última pela qual viver, um valor supremo que unifique a multiplicidade caótica de suas vivências e experiências, um projeto que mereça sua entrega radical. Para dar sentido à sua vida e realizar-se como pessoa, o ser humano necessita da auto transcendência, isto é, viver para além de si mesmo, de seus impulsos, caprichos, interesses.

Ele carrega dentro de si à sede do infinito, a criatividade, a capacidade de romper fronteiras, os sonhos, a luz... Portador de uma força que o arrasta para algo maior que ele, não se limita ao próprio mundo; traz uma aspiração profunda de ser pleno, de realização, de busca do “mais”...

O desejo do encontro é força determinante para manter acesa a chama da dinâmica da busca. É uma chama que se mantém acesa em proporção ao sentido e à grande importância de quem ou do que se busca. Vale a pena buscar o que é importante e encontrar Aquele que responde às razões mais profundas da busca.

Os Magos ensinam como devo me mobilizar para viver esse deslocamento (geográfico, interno, social...) para acolher intensamente a surpresa do encontro: caminham em busca, observam os sinais com atenção, desfrutam o trajeto com alegria, porque a alegria consiste em caminhar para o outro, entram no lugar onde Maria já oferece o ambiente aberto... É interessante notar este detalhe do texto do evangelho: “viram o menino com Maria, sua mãe” (v. 11); tudo indica que o tinham em frente, no centro, como o mais importante. Maria põe o Filho fácil de ser encontrado. Nem sequer perguntam por Ele, já o descobrem imediatamente. Não estabelecem diálogo com a mãe. Vão mudos e diretos ao objetivo. Posso aqui intuir o regozijo de Maria, pois sua felicidade é que a humanidade descubra seu Filho como ela o descobriu.

Uma vez dentro, os visitantes se prostram, se abaixam, reconhecem, identificam, adoram. Em seguida abrem seus cofres e oferecem seus presentes.

O relato diz que os magos levaram ouro, incenso e mirra. A meta, para a qual aponta a voz do desejo, requer desapego e desprendimento de meus “tesouros”. E isso só é possível quando compreendo que aquilo à qual me havia apegado se esvazia diante da verdade d’Aquele diante de quem estou.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Procuro Senhor, neste dia festivo, seguir os passos do processo de busca e encontro manifestação que os Magos experimentaram. Eles buscavam o Rei dos judeus porque “viram sua estrela”, e o encontram em um menino, em casa, com sua mãe, Maria. Descobrem o divino no humano mais frágil. Este é o núcleo da mensagem do relato da Adoração dos Magos. O divino está no humano. Quanto mais humano mais divino. 

Como os Magos, também eu sou buscadora de Deus. E, como eles, devo me perguntar: a quê Deus busco? Onde o encontro? Como é possível saber que de fato o encontro?

A Epifania consiste no encontro com Recém-nascido em Belém; o reconhecimento recíproco transforma os Magos em testemunhas vivas da Boa-Nova. Transformados, eles mesmos se tornam Boa-Nova e assim anuncia, em diálogo vivo, a Luz das nações.

Epifania é deter-me a contemplar aquela Criança, o Mistério de Deus que se faz homem na humildade e na pobreza; mas é, sobretudo, acolher de novo em mim mesma aquele Menino, que é Cristo Senhor, para viver de sua mesma vida, para fazer que seus sentimentos, seus pensamentos, suas ações, sejam meus sentimentos, meus  pensamentos, minhas ações. Celebrar a Epifania é, portanto, manifestar à alegria, a novidade, a luz que o Nascimento de Jesus trouxe e que afeta toda a minha existência, para ser, também eu, portadora da alegria, da autêntica novidade, da luz de Deus aos outros.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Em sua aparente simplicidade, o relato dos Magos me apresenta perguntas decisivas: diante de quem me ajoelho? Como se chama o “deus” que adoro no fundo de meu ser? Como cristã, adoro o Menino de Belém? Coloco a seus pés minhas riquezas? Estou disposta a escutar seu chamado para entrar na lógica do Reinado de Deus e sua justiça?

O que os Magos despertam em mim, hoje?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 2,1-12
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Revelação do Natal aos Reis
Autor: José Acácio Santana
Intérprete: Coral Acorde Coração
CD: Natividade – Oratório de Natal
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 08:51




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