terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Leitura Orante – EPIFANIA do Senhor, 05 de Janeiro 2020

Leitura Orante – EPIFANIA do Senhor, 05 de Janeiro 2020

EPIFANIA: Deus se manifesta sempre, 
mas a partir de dentro.

“Ficaram extremamente felizes ao ver a estrela.” (Mt 2,10)


Texto Bíblico: Mateus 2,1-12


1 – O que diz o texto?
O relato evangélico deste domingo é desconcertante: o Deus, escondido na fragilidade humana, não é encontrado pelos que vivem instalados no poder ou fechados na segurança religiosa. Ele se deixa revelar àqueles que, guiados por pequenas luzes, buscam incansavelmente uma esperança para o ser humano, na ternura e na pobreza da vida.

Para além da intencionalidade do evangelista Mateus, o texto contém um profundo simbolismo, carregado de sabedoria. Tudo começa com uma “estrela”. É a luz interior (intuição, insight) que desencadeia o processo de busca e nos põe a caminho. Pode aparecer de maneira inesperada, em qualquer momento e, com frequência, costuma surgir numa situação de crise que, ao remover nossos hábitos, faz com que nos abramos a uma dimensão mais profunda.

Estar a caminho de Belém é fazer a travessia em direção a nós mesmos. Ao buscar uma Criança na Gruta, buscamos nossa verdade mais profunda e original, a verdade interna da alegria e do amor, do sentida da vida, em meio a um mundo no qual a maioria só parece buscar coisas externas, afastando-se de si mesma.

A luz que aqui importa é a tua, a nossa, a minha, ou seja, a de Deus que ilumina o caminho da vida, que nos leva até Jesus e com Jesus nos leva ao Reinado do Pai, que é a plenitude de nossa própria vida. 

Peregrinos, são todos, mas não em guerra de estrelas (star-wars) e sim em um caminho messiânico que leva ao ouro, incenso e mirra de Belém, que é o sinal da verdade da vida.

Trata-se sempre da voz do desejo que nos habita, e que não é outra coisa que expressão de nossa verdadeira identidade que nos chama para “voltar a casa”.

Com efeito, o caminho no qual o desejo nos introduz é o caminho da verdade; a estrela sempre conduz à verdade. E sabemos ou intuímos que a verdade vai nos desnudar de tudo aquilo que havíamos absolutizado.

Por esse motivo, é importante que nos perguntemos se realmente buscamos a verdade..., ou nos conformamos com qualquer coisa que a substitua.

A estrela não tem outra finalidade que a de conduzir-nos a “casa”, nossa gruta interior. Mas, apenas iniciamos o caminho, aparecem às dificuldades: os apegos que não estamos dispostos a soltar, as formas de viver que se fizeram habituais, o medo do incômodo que toda mudança supõe, o susto diante do desconhecido... e, em último termo, a ignorância básica que nos faz acreditar naquilo que não somos e nos mantém acomodados na noite da insatisfação existencial.


2 – O que o texto diz para mim?
Os Magos (sábios) do Oriente são símbolo do ser humano em sua busca de Deus, em seu desejo de infinito e plenitude. Esta é a “impressão digital” de artista que Deus deixou em cada ser humano: a saudade do divino, do sublime, do infinito, do pleno, do Outro.

A estrela simboliza a força dos desejos mais profundos do ser humano (no latim, a palavra desejo “desiderium”, contém a raiz “sid”: sideral, firmamento, horizonte). Portanto, quem deseja transgride as estreitas fronteiras da vida e se deixa conduzir para além de si mesmo; quem não ativa os desejos profundos, limita-se a vegetar, a cercar-se de proteção, a buscar segurança... atrofiando a própria existência. Só os nobres desejos, presentes em meu interior, alimentam o espírito de busca, acendem a criatividade e me move ao encontro do novo e do diferente. 

Se eu levasse a sério o movimento de “saída” dos Magos, muitas coisas poderiam mudar: o interior de mim mesma, meu entorno mais próximo, a estrutura social, as igrejas, as religiões, a ecologia...

O “quê” da questão não está nos verbos senão no sujeito ativo que gera o ato de sair, buscar e encontrar.

Como os Magos, preciso ativar a capacidade de abrir a janela que me conecta com a vida dos outros e me permite continuar interessada, com paixão e com lucidez (para ter boas fontes de informação), por tudo aquilo que está ocorrendo em meu convulsionado mundo. Visitar ambientes que talvez nunca tivesse ocasião de conhecer, sair de meus espaços rotineiros e conhecidos, abrir-me às surpresas da vida...

Os Magos perguntam àqueles que podem ajudá-los. Hoje preciso dialogar com mais profundidade. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Todo ser humano é aventureiro por essência; com ardor, ele anseia por uma causa última pela qual viver, um valor supremo que unifique a multiplicidade caótica de suas vivências e experiências, um projeto que mereça sua entrega radical. Para dar sentido à sua vida e realizar-se como pessoa, o ser humano necessita da auto transcendência, isto é, viver para além de si mesmo, de seus impulsos, caprichos, interesses.

Ele carrega dentro de si à sede do infinito, a criatividade, a capacidade de romper fronteiras, os sonhos, a luz... Portador de uma força que o arrasta para algo maior que ele, não se limita ao próprio mundo; traz uma aspiração profunda de ser pleno, de realização, de busca do “mais”...

O desejo do encontro é força determinante para manter acesa a chama da dinâmica da busca. É uma chama que se mantém acesa em proporção ao sentido e à grande importância de quem ou do que se busca. Vale a pena buscar o que é importante e encontrar Aquele que responde às razões mais profundas da busca.

Os Magos ensinam como devo me mobilizar para viver esse deslocamento (geográfico, interno, social...) para acolher intensamente a surpresa do encontro: caminham em busca, observam os sinais com atenção, desfrutam o trajeto com alegria, porque a alegria consiste em caminhar para o outro, entram no lugar onde Maria já oferece o ambiente aberto... É interessante notar este detalhe do texto do evangelho: “viram o menino com Maria, sua mãe” (v. 11); tudo indica que o tinham em frente, no centro, como o mais importante. Maria põe o Filho fácil de ser encontrado. Nem sequer perguntam por Ele, já o descobrem imediatamente. Não estabelecem diálogo com a mãe. Vão mudos e diretos ao objetivo. Posso aqui intuir o regozijo de Maria, pois sua felicidade é que a humanidade descubra seu Filho como ela o descobriu.

Uma vez dentro, os visitantes se prostram, se abaixam, reconhecem, identificam, adoram. Em seguida abrem seus cofres e oferecem seus presentes.

O relato diz que os magos levaram ouro, incenso e mirra. A meta, para a qual aponta a voz do desejo, requer desapego e desprendimento de meus “tesouros”. E isso só é possível quando compreendo que aquilo à qual me havia apegado se esvazia diante da verdade d’Aquele diante de quem estou.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Procuro Senhor, neste dia festivo, seguir os passos do processo de busca e encontro manifestação que os Magos experimentaram. Eles buscavam o Rei dos judeus porque “viram sua estrela”, e o encontram em um menino, em casa, com sua mãe, Maria. Descobrem o divino no humano mais frágil. Este é o núcleo da mensagem do relato da Adoração dos Magos. O divino está no humano. Quanto mais humano mais divino. 

Como os Magos, também eu sou buscadora de Deus. E, como eles, devo me perguntar: a quê Deus busco? Onde o encontro? Como é possível saber que de fato o encontro?

A Epifania consiste no encontro com Recém-nascido em Belém; o reconhecimento recíproco transforma os Magos em testemunhas vivas da Boa-Nova. Transformados, eles mesmos se tornam Boa-Nova e assim anuncia, em diálogo vivo, a Luz das nações.

Epifania é deter-me a contemplar aquela Criança, o Mistério de Deus que se faz homem na humildade e na pobreza; mas é, sobretudo, acolher de novo em mim mesma aquele Menino, que é Cristo Senhor, para viver de sua mesma vida, para fazer que seus sentimentos, seus pensamentos, suas ações, sejam meus sentimentos, meus  pensamentos, minhas ações. Celebrar a Epifania é, portanto, manifestar à alegria, a novidade, a luz que o Nascimento de Jesus trouxe e que afeta toda a minha existência, para ser, também eu, portadora da alegria, da autêntica novidade, da luz de Deus aos outros.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Em sua aparente simplicidade, o relato dos Magos me apresenta perguntas decisivas: diante de quem me ajoelho? Como se chama o “deus” que adoro no fundo de meu ser? Como cristã, adoro o Menino de Belém? Coloco a seus pés minhas riquezas? Estou disposta a escutar seu chamado para entrar na lógica do Reinado de Deus e sua justiça?

O que os Magos despertam em mim, hoje?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 2,1-12
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Revelação do Natal aos Reis
Autor: José Acácio Santana
Intérprete: Coral Acorde Coração
CD: Natividade – Oratório de Natal
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 08:51




domingo, 29 de dezembro de 2019

Leitura Orante – ANO NOVO, 01 de Janeiro 2020


Leitura Orante – ANO NOVO, 01 de Janeiro 2020

ANO NOVO: presença visível do Deus da Paz

“Paz na terra aos homens que o Senhor ama!” (Lc 2,14)

Texto Bíblico: Lucas 2,16-21


1 – O que diz o texto?
Novamente nos encontramos abrindo um Ano Novo: desejado, esperado, buscado...; estreamos e recomeçamos um novo tempo; ocasião privilegiada para aprofundar o sentido do tempo, no qual se desenrola nossa existência. Não podemos fazer a “travessia” em direção ao Novo Ano sem fazer uma reflexão sobre nós mesmos e examinar como estamos fazendo uso de algo tão importante e tão passageiro como o tempo.

No texto bíblico, encontramos duas palavras gregas que traduzimos por “tempo”, mas que tem um significado muito diferenciado. 

“Chronos” é o tempo astronômico que se refere à passagem das horas, dias e anos. Em princípio, é o que estamos celebrando hoje. Trata-se de um tempo que absorve, devora, desgasta, esgota...; ele se torna cada vez mais veloz, fugaz, estressante... Tempo de excessos, com a marca da ansiedade e do estresse; por isso mesmo, gerador de conflitos e tensões.

Com isso, a existência inteira faz-se maquinal e rotineira: é a soma das horas, dos dias, dos anos. Marcados por tradições e hábitos, dialogamos com o possível, o já esperado, o já testado, o “sempre fez assim”...

Corremos o risco de sermos apenas imitadores ou repetidores, pois tememos nos perder na busca do novo; as respostas são confirmadas, mesmo que estas estejam velhas e desfocadas e as perguntas são silenciadas. Vivemos restritos ao cotidiano com o anonimato que ele envolve. 

Um tempo assim só é habitado pelo “ego”, não há lugar para o outro. Também Deus não consegue entrar nesses “tempos apertados”.

Aqui, a paz tão desejada, não encontra terreno propício para se tornar realidade.

Outro termo grego referente ao tempo é “Kairós”: este é o tempo humano; é o tempo oportuno, carregado da presença d’Aquele que é o “Senhor dos tempos”.

Trata-se do tempo que nos é dado como dom e como oportunidade para ativar todos os nossos recursos internos.  É o tempo da interioridade, de crescimento no ser. Viver o “kairós” significa sentir o desejo do retorno à espontaneidade, alimentar a aventura na descoberta de um mundo diferente, ativar o impulso à transcendência, proporcionar um clima favorável à paz como dimensão plena da existência humana. 


2 – O que o texto diz para mim?
Viver o “kairós” me faz tomar consciência de que me encontro diante de uma grande carência existencial e que os anjos, na noite do Natal, souberam proclamar aos pastores e à toda humanidade: a presença da Paz. Eles revelaram o significado daquela Noite Santa: o céu e a terra se reconciliam, porque Deus faz chegar à paz e a salvação a todos os seres humanos. A Criação inteira celebra a soberana Bondade e o amoroso Coração do Criador, sendo, portanto, uma celebração da alegria e da paz.

Felizes aqueles (as) que, na Gruta de Belém, se mostram sedentos de paz e justiça, e desperta dentro de si uma fome crescente para tornar realidade à igualdade e dignidade de todo ser humano!

Creio na paz do coração e no empenho por deixá-la transparecer no mundo em que vivo, tão carente de pacificadores.

Paz, um bem escasso, mas tão precioso que é sempre desejado e buscado, para que a vida se torne um pouco mais plena e com sentido: paz interior, paz na família, paz nas relações de trabalho, paz na ação política e paz entre os povos.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Muitos se perguntam para onde vai esse mundo, surpreendidos e preocupados pelo crescimento de uma violência desconcertante. Em muitos países triunfam líderes populistas, manejados por forças ocultas sem escrúpulos e marcados por discursos intolerantes, preconceituosos e julgamentos moralistas; a corrupção vai lançando raízes em todos os ambientes; os conflitos e as rupturas se acentuam; a Igreja católica é sacudida por uma grande crise de credibilidade; o sistema de valores e conhecimentos está mudando profundamente. Vivo um momento de um grande colapso civilizatório: uma metamorfose da sociedade que afeta todos os aspectos da vida, pessoal e coletiva, de toda a humanidade. Trata-se, pois, de uma crise global, embora às vezes possa parecer local ou inclusive pessoal. Tudo isso me inquieta, me tira a paz.

Em virtude dessa brutal situação de violência, observa-se em toda parte um grande clamor social pela paz. Esse clamor das multidões está nas ruas, nas grandes passeatas pela paz, nas redes sociais e está no desejo mais profundo de cada ser humano.

Infelizmente, todos os dias aparecem nos meios de comunicação, mais motivações para a violência do que razões para a paz. Entretanto, preciso afirmar: “não fui feita para a violência”; a humanidade não é naturalmente inclinada à violência. Meu coração é habitado por um desejo profundo de paz: “Felizes os que promovem a paz!” (Mt 5,9)


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, na raiz bíblica do termo “shalom” (paz) está a ideia de “algo completo, inteiro”, “estar terminado”.  

Paz significa o que é integral, o que plenifica a vida. Shalom é vida em expansão, na presença de Deus.

Portanto, quem vive no “Shalom” está com saúde, sente-se bem, encontra-se em um estado de plenitude.

Quando alguém deseja “Shalom” a outro é como se dissesse: “Que Deus te conceda todo o necessário para viver em amizade com Ele, em fraternidade com o próximo e calmo dentro de ti mesmo”.

A paz pertence à plenitude, à completude, enquanto a violência está do lado da falta, da carência, do incompleto. Paz reflete harmonia consigo boas relações com os outros, aliança com Deus, enquanto a violência infecciona os relacionamentos, contamina a convivência, quebra as relações, exclui os mais fracos...; há uma paz falsa que é a injustiça estabelecida, porque a verdadeira paz está ligada à justiça. Não há paz sem liberdade, não há paz sem verdade. 

Em Belém, sou pacificada de minhas ansiedades e pressas, de minha sede de poder e de acumular mais; e, se permaneço em silêncio ali, diante do menino deitado no presépio, brotará em mim um desejo profundo de ser mais humana, de ser aquilo que já sou no rosto aberto daquela Criança; ao mesmo tempo, brotará também um desejo de venerar cada ser humano, de contemplá-lo em seu interior, esse lugar ainda não profanado em cada pessoa, o lugar de sua infância e de sua paz. 

Ao me reconhecer nessa morada interior, posso receber a paz cantada pelos anjos diante dos pastores; não só isso: descobrir que, na essência, “sou paz”. Não é a “paz do mundo”, que sempre é oscilante e inconstante, senão a Paz que abraça todas as situações da vida, porque estou enraizada naquilo que realmente sou.

A paz natalina é a paz que sou, no meu “eu” mais profundo.

A paz não é “algo”, nem vem “de fora”, nem é condicionada. A Paz da qual os anjos proclamam é a unidade com minha interioridade: é outro nome de minha verdadeira identidade. 

E diante dessa manifestação, o que me resta? A atitude de Maria: acolher todas as coisas, “guardá-las”, “meditando-as no coração”. Ir mais além dos conceitos e das palavras e, desse modo, descansar – admirada, agradecida, irmanada – no Mistério e deixar-me conduzir por Ele.

“Meditar as coisas no coração” significa ativar o “olhar contemplativo”, presente em mim mesma e que se manifesta quando cesso meu palavreado crônico. Serenada interiormente, serei presenteada com o dom de permanecer no presente, onde tudo está bem, onde tudo flui mansamente e na santa paz.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Que a “entrada” neste Novo Ano me faça descer em direção à minha humanidade. 

Ali, nas grutas de meu interior, recanto de paz, uma infância divina me espera... e me enche de alegria. Ditosa sou se posso saborear e abraçar a paz do coração que o Menino Jesus traz e oferecê-la largamente para que outros possam também receber seu dom: sem defesas, sem preços, sem temores.

Que meu coração, apesar de tudo, continue pulsando em paz, na Paz que tudo cria e transforma!

Como seguidora do Menino Deus deve criar politicamente outro tipo de sociedade fundada nas relações justas entre todos, com a natureza, com a Mãe Terra e com o Todo que me sustenta. Então florescerá a paz que a tradição ética definiu como “a obra de justiça”.

Que 2020 seja, para todos, um Kairós carregado daquela Paz que brota da Gruta de Belém.



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 2,16-21
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Quero ser um fazedor de paz – fx 04
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Deus é muito mais
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:16




quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Leitura Orante – SAGRADA FAMÍLIA, 29 de dezembro 2019


Leitura Orante – SAGRADA FAMÍLIA, 29 de dezembro 2019

“EXÍLIO, UMA “FAMÍLIA CLANDESTINA”

“Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito!” (Mt 2,13)


Texto Bíblico: Mateus 2,13-15.19-23


1 – O que diz o texto?
Hoje, fala-se muito da crise da instituição familiar. Mas a história nos ensina que nos tempos difíceis os vínculos familiares se estreitam mais.

Concretamente, no contexto da grave crise social-política-econômica que estamos vivendo, a família corre o risco de ser uma escola do preconceito, da intolerância, da indiferença diante do diferente e daquele que pede abrigo. Mas, em sentido contrário, ela pode ser o lugar no qual se faz memória que temos um Pai comum, e que o mundo não se limita às paredes da própria casa.

Por isso, não podemos celebrar a festa da Família de Nazaré sem escutar o desafio de nossa fé. Nem toda família se deixa inspirar pela Família de Nazaré. Há famílias abertas ao serviço da sociedade e famílias egoístas, fechadas sobre si mesmas. Há Famílias autoritárias e há famílias onde se aprende a dialogar. Há famílias que educam no egoísmo e famílias que ensinam a solidariedade. 

Será nossos lares um lugar onde as novas gerações poderão escutar o chamado do Evangelho à fraternidade universal, à defesa dos abandonados e à busca de uma sociedade mais justa, ou se converterão na escola mais eficaz da indiferença, da passividade egoísta e da insensibilidade frente os problemas sociais?

Só podemos celebrar a festa da “Sagrada Família” quando descobrimos que as famílias mais sagradas, aquelas que devemos respeitar proteger e potenciar, são aquelas que não têm casa, nem pátria, nem meios de vida..., e no entanto, continuam caminhando. 


2 – O que o texto diz para mim?
Já desde pequeno Jesus se solidariza com os pobres, os últimos, a “massa sobrante”...; Ele fez a experiência da exclusão. Ele é um Deus frágil que arma tenda nos acampamentos dos exilados, nas favelas e cortiços da miséria total; é um Deus que acompanha e compartilha a sorte dos fugitivos, expulsos das aldeias, mandados para fora da segurança e da tranquilidade dos muros da cidade.

Para Ele permanecem cerradas as portas de ferro dos palácios.

Maria compartilha a sorte do menino, vive para ele e com ele assume os riscos da fuga e exílio. Ela cuida, protege, educa o menino entre perseguições e exílio. Enquanto existirem mães que protegem e cuidam das crianças, como Maria, haverá Natal.

José, em meio à perseguição, põe-se a serviço do Deus fugitivo, expulso, exilado do mundo. Como verdadeiro esposo e pai, ameaçado e fugitivo, percorre, com Maria e o menino, os caminhos do desterro.

Enquanto existirem pais que, como José, se arriscam pela mulher e pelos filhos, que são sua riqueza, o dom de Deus, enquanto estiverem dispostos a sofrer por seus filhos e pelas mães de seus filhos, no exílio ou na pobreza, haverá Natal.

É por esse caminho que posso chegar à descoberta e à experiência de Deus; é também por este caminho que posso chegar ao conhecimento de mim mesma e me fazer mais “humana” e “solidária”. Ali tenho de buscá-Lo e encontrá-Lo, eu que celebro a festa da Sagrada Família.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Cada vez mais, multidões em todos os continentes vivem o exílio na própria carne. Cada vez mais, famílias inteiras são expulsas de seus países pela fome, falta de trabalho, violência, guerra e insegurança. Cruzam mares, montanhas e desertos para bater à porta dos países desenvolvidos, onde enfrentam o rosto cruel da falta de solidariedade e do preconceito. Tais famílias vivem a dura experiência de um sentimento permanente de serem inadequadas, de não pertencer a nada nem a ninguém. Um nó na garganta e uma tristeza no coração se fazem presentes, quando elas evocam saudosamente a antiga terra, de onde foram desenraizadas.

Os cristãos fazem memória de uma família que viveu a dura realidade do exílio no Egito; mas, parece que essa memória não desperta espírito de solidariedade e acolhida em seus corações, pois os países ditos “cristãos” são aqueles que se revelam mais frios, intransigentes e desumanos quando se trata de acolher pessoas que, por diversos motivos, foram arrancadas de suas terras. Como exilados, Jesus e seus pais, fazem parte da corrente ininterrupta das vítimas do poder, que são obrigados a percorrer lugares inóspitos, desertos, cidades estrangeiras, gente hostil, durante o percurso dos séculos. Jesus e seus pais são irmãos de todos os refugiados políticos dos países repressivos.

Em chave de interioridade, meu “Egito” não é outro que a identificação com o “ego”, que me reduz à pior das escravidões.  “Egito”, em hebraico significa “lugar estreito”; vida estreita, sonhos estreitos, famílias estreitas... A “Terra Prometida” é o despertar da consciência, minha verdadeira identidade, o território esquecido e, com frequência, oculto detrás de tantos “mapas desumanos” que a minha mente fabrica. 

É preciso transitar pelos territórios interiores com liberdade, integrando e pacificando vivências, fatos, encontros e desencontros.
Ao sair desse “egito interior”, irei me encontrando com todos aqueles que são obrigados a se deslocar. Também com o próprio Jesus, cuja identidade compartilha, porque não pode haver senão um único Território, o da humanidade que transgride todas as fronteiras desumanizadoras.

Só quem transita com liberdade pelos lugares interiores será capaz de ir ao encontro do diferente, de acolhê-lo e de entrar em sintonia com ele. Transitar pela interioridade alarga a mente, expande o coração e ativa uma nova sensibilidade solidária.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor esta é a realidade: eu penso, sinto, amo... a partir de onde estão meus pés; quando piso lugares atrofiados (fechados, guetos, condomínios...), meus pensamentos e sentimentos ficam atrofiados.

Vivo um paradoxo da “Pós-modernidade”: enquanto a tecnologia me permite aumentar meus conhecimentos de lugares e pessoas tão distantes de mim, ao mesmo tempo cresce o “medo do outro”, daquele que é “diferente”, daquele que não pertence à minha raça, religião, cultura, encerrando-me em pequenos mundos. “À medida que a sociedade se faz cada vez mais globalizada, nos faz a todos vizinhos; mas não nos faz irmãos” (Bento XVI).

Não é comum prestar atenção àqueles que estão sem “lugar”, sobretudo aqueles que pensam e sentem de maneira diferente; tornou-se “normal” perceber, delimitar, defender e fechar-se no próprio lugar. Isso é vivido de maneira tão zelosa que nem se vê aqueles que estão para além do próprio lugar. São grandes os riscos de se viver em horizontes tão estreitos. Tal estreiteza aprisiona a solidariedade e dá margem à indiferença, à insensibilidade social, à falta de compromisso com aqueles que foram arrancados de seus lugares. O próprio lugar se torna uma couraça e o espírito de hospitalidade some do horizonte inspirador de tudo aquilo que se faz.

A festa da Sagrada Família pede muita sabedoria, lucidez e discernimento; ela pede de mim cristã “uma espiritualidade da acolhida”, para estender pontes entre culturas, raças, sexos, crenças religiosas, visões políticas..., para romper fronteiras a partir da não - violência, para criar redes que interatuam. 

Preciso sair de meus pequenos e atrofiados “egitos” para criar vínculos com tantos grupos, organizações sociais, movimentos... que buscam outra cultura, a cultura da solidariedade, da hospitalidade, do encontro comprometido.

Preciso me levantar cotidianamente de meus “lugares”: há sempre pessoas “sem lugares” que esperam espaços excluídos a serem visitados, ambientes atrofiados a serem curados; é preciso lançar por terra meu modo arcaico de proceder, romper com os espaços rotineiros e cansativos para ir ao encontro dos “novos lugares” dos excluídos e expulsos de suas terras...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Contemplar o rosto do Menino clandestino é perigoso: subverte minhas opções, meu modo de viver, meus valores... e me compromete com o sonho de Deus.

Contemplar, com os olhos e o coração de Maria e José, a entrada na terra que fora o lugar da escravidão dos meus antepassados. Terei recordado a história do meu sofrimento no cativeiro e da minha libertação, realizada pelo poder de Deus.

É o momento de perguntar e de admirar, de deixar-se comover e converter, de agradecer e de calar.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 2,13-15.19-23
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Oração pela família 
Autor: Pe. Zezinho, scj 
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Canções que o amor escreveu
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:58








segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Leitura Orante – NATAL, 25 de dezembro de 2019


Leitura Orante – NATAL, 25 de dezembro de 2019

A “EXCITANTE” NOITE DO NATAL

“Na mesma região, havia alguns pastores passando a noite nos campos...; 
a glória do Senhor resplandeceu em volta deles.” (Lc 2,8-9) 


Texto Bíblico: Lucas 2,1-14


1 – O que diz o texto?
O evento do Nascimento de Jesus, o anúncio deste acontecimento e a resposta a este anúncio acontecem na noite, na pobreza, na pequenez. Alguém, na noite profunda, nasce para nós: agitam-se os acampamentos noturnos daqueles que aguardam o dia.

Na noite irrompe a luz, no silêncio ressoam o canto e a festa, na gruta surge a Vida.

A noite é justamente o lugar do amor, o ventre do mistério, o tempo da concepção e do “natal”, o momento do encontro, do espanto e da acolhida.

A luz daquela noite calmamente ilumina e dá sentido a tantos pensamentos e a tantas expectativas. A noite permanece, mas torna-se finalmente compreensível, fascinante, eloquente...

Contemplando a noite do Natal, o coração se alarga até o assombro, os braços se abrem para a acolhida, os olhos se aquecem ao reconhecer Àquele que, como criança, veio ao nosso encontro. Nas sombras das cidades Ele se faz encontrar, na solidão revela sua presença, na fragilidade mostra seu rosto.

O Menino de Belém nos é doado simplesmente como Luz na noite, como canto de louvor que interrompe o silêncio, como paz que nasce da experiência de sentir-se amado.

Na noite, o Senhor da História se faz história, o divino se faz humano, o Silêncio torna-se Palavra e o Verbo se faz Criança. O dia não chega de improviso; também não é fácil reconhecer o instante preciso em que isso começa, assim como não cresce de improviso a vida no ventre de uma mulher. 

Naquela noite, a atitude de velar mantém os pastores em estado de atenção: vigilantes, eles conservam seus olhos abertos e oferecem mutuamente calor e companhia. Em um primeiro momento, ao receber tanta luz de uma vez só, ela os cega e o medo se apodera deles. 

Mas, depois do encontro com a Luz e retornando aos seus lugares, levam consigo a frágil e exultante tranquilidade do Menino. Assim, aquele encontro se transforma num festivo canto de louvor pela experiência vivida.

Eles agora são criaturas novas, não são mais como antes. O anúncio ouvido na noite deu-lhes a conhecer a fidelidade da “Palavra que se fez carne”, manifestada no Menino de Belém.


2 – O que o texto diz para mim?
A história da humanidade ganha sentido e orientação somente à luz deste evento natalício; Luz que vem do alto e ressoa dentro, no silêncio e na noite do caminho, como um canto de alegria e um anúncio de paz.

Sobre o Menino se inclina sua Mãe, em silêncio: o Amor não precisa de palavras para ser entendido.

Na noite Ele vem; no vento pronuncia o meu nome; na cidade dos homens se deixa acolher; na solidão revela sua presença; na fragilidade se faz encontrar...

Natal é a irrupção da Luz. Com seu nascimento, Jesus dissipa as sombras do mundo, enche a Noite Santa de um fulgor celestial e difunde sobre o rosto dos homens e mulheres o esplendor da Beleza de Deus Pai.

Em torno ao Menino Jesus, movem-se personagens obscuros e outros tocados pela luz. Aqueles que não são capazes de vê-lo serão também aqueles que o rejeitarão mais tarde.

A luz, de fato, está fora de mim, é exterior, impalpável, intocável; mas também está em mim e sobre mim, me ilumina, individualiza, é vida e calor. Sempre que tenho a possibilidade de “mais luz” em minha vida, também rondam os medos e, muitas vezes, toda transformação se encontra bloqueada pelo medo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Mas, uma vez que a Luz do Menino me toca, iluminando minhas dimensões sombrias, já não posso retornar aos meus lugares do mesmo modo: passo a carregar em meu interior uma Presença que me plenifica. Tudo fica transformado pela irradiação da Luz que emerge a partir de dentro, iluminando todos os lugares por onde passo e revelando a dignidade e a beleza de tudo e de todos. Diante de tal Luz, vou me tornando “lugar iluminado”; e a vida inteira passa a ser presépio, gruta, espaço sem limites onde acolher os outros.

A ação de Deus provoca um “deslocamento” geográfico, social, religioso..., e todo aquele que pretende encontrar-se com Jesus terá de dar meia-volta e peregrinar em direção às “margens”.

O Senhor vem!..., em meio à noite de minha existência. Na sua direção põem-se a caminho os simples, os pobres, os excluídos, os últimos: somente eles têm olhos capazes de reconhecer... a Luz; a Ele vão todos os que, em seu coração, lançam-se a uma busca aberta: somente quem deseja a Luz pode ver o brilho nos olhos do Menino de Belém! Na presença dele tudo é iluminado, tudo é aceito, tudo encontra seu lugar, nada é recusado.

Natal, noite dos “excessos”; a noite de Belém teve muito “disso”, ou seja, de exceder-se e transbordar, de ultrapassar todos os limites, todas as medidas, todo o conveniente, todo o adequado: escuridão inundada de resplendor, silêncio explodindo em hinos, pastores correndo em busca do Pastor, uma gruta transformada em templo aberto... Em palavras de Efrém de Nísive (séc. IV): o Grande se fazia pequeno, o Silencioso se tornava Palavra, o Senhor se transformou em servo, o Sentinela permanecia adormecido sobre um presépio.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, para transitar na noite de meu tempo preciso buscar na Gruta de Belém a Luz que a ilumine e me indique a direção e o sentido de minha existência.

A noite pede pessoas marcadas pela experiência natalina, capazes de ver a presença do Menino Deus no meio das realidades simples e cotidianas, no profundo do coração de cada ser humano, de cada realidade vivente, de cada palmo de minha terra, no mistério insondável do universo grávido de graça.

Preciso cultivar não só olhos que vejam a realidade, senão que sejam capazes de contemplar, no meio da noite, a presença da Luz: uma luz que brota das profundezas da realidade, do profundo do ser onde o Deus, fonte de vida, sustenta tudo; uma luz que me faz descobrir meu ser essencial: filhos e filhas amados (as) e irmanados (as) com todos e com tudo.

Certamente, meu mundo está envolvido em muitas trevas (intolerâncias, violências, preconceitos...), mas, no meio delas, permanece acesa uma luz de humanismo e de esperança, porque só Deus pode fazer-se tão humano e suscitar em mim sentimentos de bondade e de fraternidade. São João, no prólogo do seu evangelho afirma que as trevas não conseguiram apagar a Luz; é a luz que brilha em meio às trevas. Também no primeiro Natal a luz brilhou no meio das trevas da prepotência e opressão do Império Romano, no meio da hipocrisia dos sacerdotes e fariseus, no meio da crueldade do rei Herodes, no meio da indiferença dos vizinhos que não lhe deram pousada e não o receberam. Os pastores, sim, captaram esta Luz.

Natal é Jesus Deus conosco, Deus Menino que me acompanha sempre.

Não deixar que me roubem esta esperança porque a Luz do Natal antecipa a luz da Páscoa da Ressurreição e vence as trevas de meu mundo. Mesmo que seja uma luz tão pequena...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Nesta noite, a mais clara, redescobrir que o sentido de minha vida não é outro que ser luz e levar luz a tantos ambientes envoltos nas trevas da violência e da morte, ativando a luz presente no interior de cada pessoa.

Redescobrir que o sentido de minha existência está em esvaziar a mim mesmo para que o amor chegue puro e limpo a todos.

Reencontrar o sentido de minha vida, ou seja, servindo, para que todos cheguem à Gruta de Belém, o único lugar onde não há excluídos.

Que a Luz Natalina brilhe e se faça presente nos corações e em todos os lares e comunidades.      Pe. Adroaldo Palaoro sj


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 2,1-14
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Silent night 
Autor: Franz Gruber
Intérprete: Instrumental
CD: Sinfonia de Natal
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 05:53





terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Leitura Orante – 4º DOMINGO DO ADVENTO, 22 de dezembro de 2019


Leitura Orante – 4º DOMINGO DO ADVENTO, 22 de dezembro de 2019

JOSÉ, O HOMEM DO ADVENTO

“Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado e aceitou sua esposa” 


Texto Bíblico: Mateus 1,18-24


1 – O que diz o texto?
Estamos já no centro do mistério da Encarnação. Os relatos “da infância de Jesus” (Mateus e Lucas), não são crônicos de acontecimentos, não é “história” no sentido que hoje damos à palavra. É “teologia narrativa”.

O relato do evangelho deste domingo nos revela que Deus dirige a história. Para isso se serve de pessoas eleitas. Cada vez que há um acontecimento importante na história da salvação, ali aparece um homem ou uma mulher como mediadores da obra de Deus ou transmissores de sua vontade. 

O acontecimento mais importante da história da salvação é o Nascimento do Filho de Deus. Para “fazer-se homem”, Deus precisava de uma família. O nome de José está profundamente ligado ao mistério de Jesus. E se o anjo é um sinal de que Deus se faz presente na vida de uma pessoa para comunicar-lhe algum de seus desígnios, Deus mesmo se fez presente a José, por meio de seu anjo. Segundo o evangelho de Mateus, José é a pessoa a quem primeiro lhe é revelado o mistério que sua esposa guardava em seu ventre.

Quantas coisas acontecem envolvidas pela noite e pelo mistério! 

Enquanto o agricultor dorme, na noite rompe-se a casca e cresce a semente lançada na escura terra, acompanhada de renovadas expectativas e esperança.

Tudo começa na noite: na noite dos pensamentos, dos corações, das intenções, das esperas, dos encontros.

Eis o mistério, eis a noite! A noite, a nossa noite, é habitada por Aquele que vem.

Até na noite da desolação, na solidão, no deserto, é possível encontrá-Lo.

Contemplando a noite de José, nosso coração se alarga até o assombro, nossos braços se abrem para a acolhida, nossos olhos se aquecem ao reconhecer Àquele que vem e na brisa pronuncia o nosso nome. Nas sombras da vida Ele se faz encontrar, na solidão revela sua presença, na fragilidade mostra seu rosto.

O mistério da Encarnação de Jesus, sem dúvida, significou também “a paixão vivida por José, esposo de Maria”. Momentos de angústia, de dúvida; momentos de obscuridade em seu coração; momentos de pura fé na palavra de Deus.

José, assim como Maria, vai além da lógica e das condições humanas; também ele termina se apresentando como “o servo do Senhor”, dizendo em seu coração: “faça-se em mim segundo tua palavra”.

Como a Maria, Deus também diz a José: “Não tenhas medo de receber Maria como tua esposa”. 

Há homens que são importantes não pelo que fazem, mas pelo que são no coração. Há homens que são grandes não por suas grandes ideias, mas por acolher a lógica de Deus, que quebra toda lógica humana. José foi o homem humilde de um povoado como carpinteiro; mas José foi grande por ser o “homem da fé”.


2 – O que o texto diz para mim?
É preciso recuperar o sentido da surpresa, que é a atmosfera própria do tempo do Advento; é preciso recordar que a visão bíblica da história, dirige-se para uma meta surpreendente. Para isso, faz-se necessário despertar novamente a capacidade de maravilhar-se. 

José era um pobre noivo, pertencente a uma nação oprimida e a uma categoria social esquecida, mas conservava límpidos os olhos do espírito, prontos para perceber a maravilha que estava acontecendo na sua vida e na vida de Maria. Nele, devo recobrar o sentido da expectativa, da novidade, da coragem.

Deus é encontrado, não na estrada suntuosa do domínio e do triunfo, mas na estrada do desapego, da doação, do despojamento e da fragilidade. Para entrar em sintonia com sua Vontade e deixar-se conduzir pelo seu Anjo, não é preciso estar coberto de títulos honoríficos, nem envolto pelo manto de obras realiza-das; é preciso, isto sim, ser como José, sem títulos e sem riquezas, mas justo e humano, como o seu Filho que “não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida”.

Como costuma acontecer com todas aquelas pessoas às quais lhes são confiadas missões importantes, José é um homem discreto. Sua presença é silenciosa. Na relação de José com Jesus, posso aplicar a ele estas palavras: “é preciso que ele (Jesus) cresça e que eu diminua” (João 3,30). 

Não posso entender a presença de José em função de si mesmo, mas a serviço de Jesus e de seu mistério. Saber estar em função de outro não é fácil, mas é um dos modos mais belos de amar. O silêncio de José não tem nada de ingênuo. É o silêncio daquele que escuta atentamente para assim poder servir melhor.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
José, “homem justo”: para alguns o termo é sinônimo de “delicadeza ou piedade”, para outros significa “respeito, reverência” em relação ao mistério de Maria; para outros ainda, é um título jurídico, ou seja, “obediente à lei”.  Sei que o “Justo” por excelência é Deus, fiel à Aliança e que, com constância, continua seu projeto salvífico, apesar das rupturas provocadas pela infidelidade humana.

O “homem justo” é aquele que, como Abraão, na fé acolhe o plano de Deus e com Ele colabora. José é “justo” porque adere ao misterioso desígnio de Deus, é justo porque confia em Deus, arrisca com Deus, ainda que os contornos do Seu Plano permaneçam obscuros e, em certos aspectos, incompreensíveis.

José é “justo” porque se ajusta ao modo de agir surpreendente de Deus. É “justo” porque se abre para o infinito, inspirando-se em Deus mesmo, o Justo; à justiça exterior, farisaica, ele opõe a justiça da fé e do coração. Portanto, o termo justo quer indicar a abertura e a adesão à ação suprema de Deus.

Nesse sentido, José se coloca na linha das grandes figuras da história da salvação. Sua vida é um exemplo de silenciosa dedicação ao Reino.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, este José é hoje o homem do Advento, e me alegro que ele tenha se mantido firme e mudado seus critérios para estar a serviço da Vida. Também eu sou “José”, neste domingo final de Advento. Também eu, algumas vezes, me encontro em momentos de obscuridade, marcados por dúvidas e crises, pensando em fugir, abandonar a missão. É normal que, ao adentrar-me em meu próprio mistério, me encontre com meus medos e preocupações, minhas feridas e tristezas, minha mediocridade e incoerência.

Mas Deus quer atuar em mim e através de mim; Ele sempre conta comigo para uma nobre missão.

Não devo me inquietar, mas permanecer no silêncio. A presença amistosa, que está no meu íntimo, irá me pacificando, libertando e sanando. “Esta experiência do coração é a única com a qual se pode compreender a mensagem de fé do Natal: Deus se fez homem” (Karl Rahner). 

Este mistério último da vida é um mistério de bondade, de perdão e salvação, que está em mim: dentro de mim. Se o acolho em silêncio, conhecerei a alegria do Natal.

Na vida, há muitos momentos nos quais só cabe o silêncio, em vez do alvoroço, só cabe a serenidade, em vez da precipitação; cabe a mim renunciar aos meus próprios critérios e esperar que Deus fale.

Isso pede de mim confiança total, muitas vezes sem compreender nem conhecer o “por quê e o como”; o decisivo é “deixar-me fazer” por Deus, deixar-me conduzir por Aquele que, a partir do mais profundo de mim mesma, abre um horizonte de sentido e de surpresas. Aprendo de José a abrir meu interior e deixar-me surpreender por Deus.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Durante a oração devo me deter particularmente na figura de José. Ele teve seus pensamentos próprios, suas preocupações e suas provações, suas perguntas dilacerantes e suas dúvidas angustiantes. 

Mas Deus nunca deixa de atuar no meio das minhas noites, dúvidas, provações. Ele conhece meus pensamentos e temores. E, no momento certo, me liberta dos  meus medos e me dá a conhecer sua Vontade.

Recordar momentos de dúvidas, incertezas, desolações..., mas que me ajudaram a amadurecer na fé e na adesão ao projeto de Deus.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 1,18-24
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Cantiga por José – fx 08
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Oração pela família
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:17