quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Leitura Orante – 1º DOMINGO DO ADVENTO, 01 de dezembro de 2019


Leitura Orante – 1º DOMINGO DO ADVENTO, 01 de dezembro de 2019

ADVENTO: “O Senhor vem!... na sua direção...”

“Como aconteceu nos dias de Noé, assim será a vinda do Filho do Homem.” (Mt 24,37)


Texto Bíblico: Mateus 24,37-44  


1 – O que diz o texto?
Começamos um novo ano litúrgico. É um tempo especial que a Igreja nos oferece como escola de oração e oficina de discipulado: ela nos convida à contemplação e invocação dos mistérios de Jesus “hoje” e à aprendizagem do autêntico discipulado neste nosso tempo.

O Ano Litúrgico nos diz que o tempo não é movimento circular, repetição do mesmo (chrónos), mas renovação permanente, acontecimento surpreendente (kairós). Acolhamos este novo ano litúrgico como tempo de graça e salvação.

No Advento, somos movidos a “sentir o tempo” de um modo novo, a fazer-nos amigo dele, a nomear e acompanhar o tempo que nos cabe viver, a habitar com intensidade as diferentes etapas de nossa vida. Cada momento esconde sua pérola, e é muito excitante quando chegamos a descobri-la.

Falar do “tempo” não é tão simples e óbvio; é frequente encontrar-nos numa situação na qual vivemos o tempo como um túnel, contínuo, repetitivo...

Trata-se de um tempo que absorve, devora, desgasta, esgota...; túnel onde só há presente e sua prolongação homogênea. É cenário de uma frenética e acelerada corrida por rentabilizar ao máximo os minutos e as horas. O tempo torna-se cada vez mais veloz, fugaz, estressante... “Kronos” continua a devorar com maior intensidade o que cria. Diante disso, não há futuro auspicioso, nem esperança que sustenta...

Com isso, corremos o risco de viver em um “tempo sem tempo”! Um tempo para “ter”! Um tempo para preencher! Um tempo de excesso de informação circulante e de atividades insensatas (sem sentido)! Um tempo sem eternidade.

Um tempo assim só é habitado pelo “ego”; não há lugar para o outro, muito menos para o Outro.

Podemos dizer que um tempo assim cheira a mofo, não está arejado...; é monstro que nos devora.

Trata-se de um “tempo sem advento”: não vem ninguém, não esperamos ninguém...

Também Deus não consegue entrar em nossos “tempos apertados”.

Marcados pelo “tempo vazio” a ser preenchido a todo custo, acabamos por perder a consciência da riqueza do “tempo do Advento”. Tempo forte carregado de sentido, que nos humaniza e nos faz caminhar em direção Àquele que vem vindo... ao nosso encontro. Tempo que nos faz ter acesso àquilo que é mais humano em nós: o sentido da esperança, a travessia, o encontro com o novo...; tempo que nos arranca de nossas rotinas e modos fechados de viver.


2 – O que o texto diz para mim?
Advento,  me  revela a presença da eternidade no coração do tempo. O Eterno irrompe na história, iluminando a dura rotina e a sequencia do cotidiano. E, no meu interior, o Eterno tem seu templo.

Quando o Advento aponta para a eternidade, bem que eu poderia olhar para dentro de mim mesma. Aí, no meu interior, há tanto de eterno. A eternidade dialoga comigo, fala por dentro.

Passo a viver, então, o tempo da espera e da esperança, das buscas e dos silêncios... 

Sem a eternidade do coração que pulsa em mim, que me unifica e plenifica, a vida se empobrece.

Por outro lado, o Advento me desperta para “olhar” ao meu redor e descobrir que Deus continua vindo. Sempre e por caminhos surpreendentes. Advento me convida a “contaminar-me” da realidade; e isso me humaniza. Toda a minha vida torna-se Advento.

Deus está no coração do tempo. Deus está ali como força explosiva que dá à minha vida nova dimensão e à minha existência, infinito valor. De agora em diante, cada um de meus momentos está cheio de Sua presença, pois a eternidade está no coração do tempo. Deus transforma o “kronos” em “Kairós”.

A invasão da eternidade no tempo confere a este mesmo tempo uma plenitude de ser, um peso de realidade e existência, uma densidade de sentido que ele é incapaz de ter por si só. De agora em diante, nada em minha vida é insignificante, nem rotineiro. A ação mais simples é transfigurada e assume uma dimensão eterna e divina. Nada é banal, nada é comum para alguém cuja vida mergulha no eterno.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Viver o tempo intensamente vivificá-lo, cuidá-lo e artisticamente orientá-lo para aquilo que desejo. Este “tempo presente” é oportuno, precioso e não volta mais. Vivê-lo para além dele, na espera do que deve vir carregá-lo de intenção e de presença.

Mais uma vez, é preciso parar e descer a esse nível do tempo para ir descobrindo uma Presença que completa meu ser, que plenifica minha existência, que responde à minha interrogação existencial...; está aí, vindo em direção à minha vida, mais uma vez e de maneira surpreendente, como sempre esteve.

“Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Apc 3,20).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o texto de Mateus me oferece uma perspectiva mais ampla e atual.

Deus está vindo a todo instante, mas só quem está verdadeiramente desperto entrará em sintonia com essa presença e deixar-se-á inspirar por ela. Se eu não descobrir essa presença, minha vida poderá transcorrer sem tomar consciência da maior riqueza que está ao meu alcance. Deus não tem que vir em nenhum momento especial, nem vem de parte alguma, porque é a base e fundamento de meu ser; e se Ele se separasse de mim um só instante, meu ser voltaria ao nada. O que chamo Deus está em mim como fundamento, mesmo que não descubro sua presença. Mas, como ser humano, minha mais alta possibilidade de plenitude consiste precisamente em descobrir e viver conscientemente essa realidade. Deus está presente em tudo, habita em todos os seres, mas só o ser humano pode ser consciente dessa presença.

É preciso recuperar a força do “hoje” de Deus para comigo, reconhecer o “tempo” de sua Vinda, em tempos de deslocamentos. Vislumbrar “algo” no horizonte e perceber seus passos enquanto chega; e a história é o rumor desses passos. Caminho para Ele quanto mais me adentro no profundo de mim mesma e da realidade. 

Contemplando o “hoje” de Deus, o coração se alarga até o assombro, os braços se abrem para a acolhida, os pés se movem para o encontro, os olhos se aquecem para o reconhecimento.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
É preciso despertar e abrir bem os olhos. 

Viver vigilante para olhar mais além de meus pequenos interesses e preocupações. O Evangelho me convida a estar vigilante. Estar desperto é a condição mínima para ativar minha humanidade. 

- O que eu estou vislumbrando no meu horizonte pessoal, social, espiritual, profissional, relacional...?

- Deus entra em minha agenda, em meu tempo? Quê sinais de sua presença eu percebo no ritmo cotidiano de minha vida?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 24,37-44  
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Prólogo da luz
Autor: Antônio Cardoso
Intérprete: Antônio Cardoso
CD: CD1 de Natal - Paulinas
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:16






terça-feira, 19 de novembro de 2019

Leitura Orante – CRISTO REI, 24 de novembro de 2019


Leitura Orante – CRISTO REI, 24 de novembro de 2019

REALEZA DESCENTRADA

“Hoje estarás comigo no Paraíso”. (lc 23,43)


Texto Bíblico: Lucas 23,35-43


1 – O que diz o texto?
Celebramos neste domingo a festa de “Cristo Rei”, cume do Ano Litúrgico. 

Muitos se sentem incomodados com essa imagem. Não querem que Cristo seja “rei”, não suportam a imagem de um monarca governando a partir de cima. De fato, quando o Papa Pio XI (1925) proclamou esta festa, havia um interesse nada evangélico: a Igreja estava perdendo seu poder e seu prestígio, acossada pela modernidade. Como pura imitação dos reis deste mundo, a Igreja desejava reconquistar sua influência, correndo o risco de utilizar este título para manipular ideias, dominar consciências, alimentar sentimentos de culpa, impor o servilismo e o medo...

Mas, esta festa de “Cristo Rei”, pode ser ocasião propícia para “transgredir” nossa concepção de “rei” e “reinado”, e evitar um triunfalismo religioso, pura imitação dos reis deste mundo que vivem à custa de seus súditos.

Jesus, no seu anúncio e vivência, desencadeou um movimento de Reino, sem tomada de poder, sem palácios e riquezas, sem cetro de comando, sem instituições militares de domínio, sem meios de imposição econômica, sem títulos de nobreza. Mas sua visão de Reino não foi acolhida; por isso foi rejeitado pelos sacerdotes do templo e pelos representantes do poder do império romano. 

Evidentemente se trata de um rei muito estranho, em discordância total com os reis de então e os de hoje. 

É chamativo este rei ser crucificado entre dois “malfeitores”; não se tratava de criminosos comuns, mas de homens que se haviam levantando contra o poder de Roma. 

Algo havia em Jesus que permitia interpretá-lo como um perigo para o poder imperial. Um poeta que canta a beleza dos lírios do campo ou dos pássaros do céu não terminaria sua vida dessa maneira.


2 – O que o texto diz para mim?
A piedade cristã procurou cobrir Jesus de Nazaré com títulos de glória tão pomposos que quase o sepultou de novo. Ao elevar o carpinteiro da Galiléia até a mais alta dignidade, ao fazê-lo subir até o mais alto dos céus, ao coroá-lo rei dos reis e senhor dos senhores..., quase conseguiu silenciar por completo o Jesus dos pobres, das multidões famintas, dos marginalizados, o Jesus rodeado de “más companhias e de pecadores”. Pintou-o tão acima no céu e tão cheio da deslumbrante luz divina, que quase não sou mais capaz de contemplar Jesus percorrendo os caminhos poeirentos da Galiléia, em meio aos mendigos, leprosos, pobres e excluídos, no empenho por tornar presente o sonho de Deus para este mundo. 

Enfim, acabo por esquecer o que é nuclear em minha fé cristã: em Jesus, Deus se faz homem, mas homem pobre; nasce em um estábulo, não tem onde reclinar a cabeça e morre desnudo numa cruz, o suplício dos últimos, dos mais pobres daquela sociedade. 

Jesus sempre viveu voltado para aqueles que sofriam e necessitavam de ajuda. Não ficou alheio a nenhum sofrimento. Sua missão era essa: “aliviar o sofrimento humano”. Por isso se identificou com todos os pobres e excluídos da história. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A narrativa de Lucas deste domingo é muito provocativa: o único que o reconhece Jesus como rei é um condenado à morte, um maldito, um marginalizado da lei. Este está mais perto do reinado de Deus que as autoridades religiosas e as demais pessoas. Por isso Jesus o acolhe como companheiro inseparável. Juntos morrerão crucificados e juntos entrarão no Reino de Vida. 

Jesus sempre viveu “em más companhias” e agora morre entre dois malfeitores. Mais uma vez, não assume o papel de juiz sobre os outros, mas oferece uma nova chance de salvação. O moribundo que dá vida: presença solidária, vida descentrada que, mesmo em meio ao pior sofrimento, oferece companhia e consolo a outros sofredores.

Um dos malfeitores, impactado pela serenidade e testemunho de Jesus “rouba o paraíso”.

Em meio aos escárnios e zombarias, brota do seu coração uma surpreendente invocação: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu reinado”.

Não se trata de um discípulo ou seguidor de Jesus. Lucas nos apresenta um malfeitor como admirável exemplo de fé no Crucificado, e que no último instante de sua vida “roubou” a promessa de Vida que acontece no “hoje”. “Hoje estarás comigo no paraíso”.

À primeira vista parece um paradoxo que dos lábios de um homem aparentemente derrotado e praticamente moribundo, brote uma palavra de vida, acompanhada de uma certeza que a faz eterna, ou seja, válida para todo momento, em um presente sempre atual: o “hoje” de Lucas significa “todo momento”, qualquer instante em que ouvintes ou leitores se abrem à Palavra.

Jesus revela uma promessa que muitas pessoas precisam ouvir hoje, sobretudo aquelas que carregam cruzes injustas e pesadas, que vivem realidades atravessadas pela dor, pela solidão, incompreensão ou pranto... 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o evangelista parece estar me dizendo: “Essa Palavra é válida também para ti, hoje, desde que sejas capaz de abrir-te a ela e acolhê-la. Também para ti há uma promessa de vida, que não se acaba na fronteira da morte. Tu também ‘hoje estarás comigo no paraíso’”

Assim compreendida, a narração me apresenta uma dupla questão: por um lado, como pôde Jesus pronunciar essa Palavra de Vida nessas circunstâncias de morte?; por outro, como posso acolhê-la, de modo que eu seja alcançada e vitalizada por ela?

A festa de “Cristo Rei” me convida também a tomar a Cruz da fidelidade e do serviço solidário, e “descer” com Jesus até à cruz da humanidade.

A solidariedade com os pobres, a fidelidade à vida evangélica, me faz descer aos porões das violências sociais e políticas, às realidades inóspitas, aos terrenos contaminados pelo preconceito e intolerância, às periferias insalubres da miséria das quais todos fogem e onde os excluídos deste mundo lutam por sobreviver. Ali me encontro com o Crucificado, identificado com os crucificados da história.

Entende-se, assim, o grande “grito” que brotou das profundezas da dor de Jesus na Cruz e que continua ecoando como clamor angustiado. Nele se condensam todos os gritos da humanidade sofredora.

Ao ecoar seu grito junto aos crucificados, provocará grandes novidades. Um grito que não fica no vazio, mas aponta para a vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O Crucificado desmascara minhas mentiras e covardias; pendente na Cruz Seu grito denuncia o aburguesa-mento de minha fé, a minha acomodação ao bem estar e minha indiferença diante daqueles que sofrem. Celebrar a festa do “Cristo Rei” é aproximar-me mais dos crucificados da minha história e me comprometer a tirá-los da Cruz.

Como soarão estas palavras no meu interior: “Hoje estarás comigo no Paraíso”

+ Hoje: porque as mudanças, a nova criação, a humanidade reconciliada, não tem que esperar mais; hoje, agora, já...; talvez esse “hoje” não chega é por causa de tantas pessoas que não decidem, não optam, esperam sentadas...

+ Comigo: promessa de viver em sua companhia e desperta ecos de uma plenitude que não consigo entender.

+ No paraíso: que não é um mítico Éden, mas lugar de plenitude de vida, onde não haverá mais pranto, nem dor; realidade já presente onde habitará a justiça e a paz.

- Deixar ressoar esta expressão de Jesus para construir, hoje, o Paraíso em meu cotidiano.

Que a festa de Cristo rei seja uma ocasião privilegiada que me ajude a desvelar a verdadeira realeza de Jesus, o carpinteiro de Nazaré, para poder segui-Lo de perto, comprometendo-me com seu modo de ser e viver. 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 23,35-43
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Jesus Cristo me deixou inquieto – fx05
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Histórias que eu canto e conto
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:10


quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Leitura Orante – 33º DOMINGO TEMPO COMUM, 17 de NOVEMBRO de 2019


Leitura Orante – 33º DOMINGO TEMPO COMUM, 17 de NOVEMBRO de 2019

PEDRAS QUE SOTERRAM A VIDA

“Vós contemplais essas coisas; 
mas dias virão em que não ficará pedra sobre pedra” (Lc 21,6)


Texto Bíblico: Lucas 21,5-19


1 – O que diz o texto?
Estamos chegando ao final de mais um tempo litúrgico (Tempo Comum); fizemos uma longa “caminhada contemplativa”, tendo os olhos fixos em Jesus e deixando-nos ensinar por Ele. Hoje, mais uma vez, ressoa forte em cada um de nós, o apelo de Jesus: é preciso “sair dos próprios muros”, remover as pedras que soterram a vida dentro de nós, derrubar as muralhas que cercam nosso coração.

O contexto é a presença de Jesus no Templo de Jerusalém e a admiração dos discípulos diante da grandeza e da beleza do edifício. No entanto, Jerusalém e o Templo traíram sua missão e serão destruídos, pois se fecharam em suas fronteiras, em suas seguranças e não acolheram a transformação interior que Jesus trouxera. Com toda a sua beleza e grandiosidade o Templo carrega sinais de morte dentro de si. A destruição do santuário é para Jesus a consequência do fechamento interior dos seus habitantes e da recusa em acolher a novidade do Reino. Não só o Templo, mas as realidades que parecem intocáveis e eternas devem cair para que seja possível a Nova Jerusalém, humana e humanizadora.

Os grandes templos costumam ser muito solenes em suas estruturas e em seus muros. Mas, tanta pedra, com frequência, impede que a vida circule por ali; e também impedem que os de dentro deixem-se afetar pelo movimento da vida que se faz visível nos lugares abertos.

A imagem de um Templo construído com enormes pedras e rodeado de grandes muros é a expressão de uma religião petrificada, fria e sem a marca da compaixão. Jesus, o verdadeiro Templo, desmascara toda religião que se fundamenta em edifícios vistosos, em ritos suntuosos... É só aparência que causa espanto, mas não se sustenta. Tudo o que se fundamenta na pura exterioridade, cai por si mesmo.

Certamente, o Templo de Jerusalém era belo, imponente, sagrado, não só por sua forma externa (grandes e pesadas pedras), senão por sua função social. Para os judeus, o templo simbolizava e expressava a presença de Deus, que habitava no meio do povo. Nesse sentido, aparecia como lugar privilegiado de oração e purificação. O santuário de Deus garantia, com seu edifício e liturgia expiatória, a ordem da terra; o Templo era a chave e o sentido da estabilidade do mundo. Se falhasse o templo, o mundo perderia seu sentido e os homens ficariam sem chão, sem união com Deus, sem garantias de vida e sobrevivência.

Jesus vincula a chegada dos tempos finais à ruína e queda desse Templo. Tudo o que parecia ser sólido e consistente sofrerá abalos e cairá. Só assim poderá dar lugar ao verdadeiro santuário de Deus; só assim  poderá chegar a humanidade reconciliada, o templo de verdade, que são os homens e mulheres como presença e transparência de Deus.

Para Jesus, a verdadeira imagem de Deus é o ser humano. Por isso, Ele entrou em conflito com o Templo onde o judaísmo oficial havia condensado (e fechado) a sacralidade e a presença de Deus.


2 – O que o texto diz para mim?
É nesse contexto que Jesus afirma que “não ficará pedra sobre pedra”. E não diz por desespero, mas com uma imensa esperança, pois somente a queda do Templo poderia abrir o caminho para o Reino de Deus, que é a nova humanidade.

A destruição do Templo será o início de uma nova e mais alta construção humana. Só ali, onde acaba um tipo de ordem fundado e centrado no templo, pode chegar o Reino de Deus.

A expressão usada por Jesus – “não ficará pedra sobre pedra” – desvela também minha construção interior, muitas vezes sustentada sobre as pedras do preconceito e da intolerância, rodeada de muros que excluem, ambientes frios que alimentam a cultura da indiferença. Construção centrada na mera aparência, que pode provocar assombro; no seu interior, vazio.

Deus não se deixa prender nos templos: “meu Pai é adorado em espírito e verdade”. O verdadeiro Tempo é a vida; a verdadeira religião é aquela que sustenta as relações, reconstrói os vínculos, acolhe e integra o diferente. Templo vivo que humaniza e é espaço de humanização.

Na vida, há uma tendência sempre presente em todos os seres humanos: construir muros, elevar grossas paredes...; exteriormente, parecem belíssimos, mas  dificultam alimentar as relações interpessoais. São os muros religiosos, políticos, raciais, sociais... São demasiados muros e paredes que me impedem viver a cultura do encontro. São paredes que me impedem ver a luz da verdade também presente nos outros; paredes que me atrofiam e não me deixam sentir afetados pelos sinais que cada dia Deus me envia através dos acontecimentos da vida.

Corro o risco de viver em mundos-bolha; a construir minha vida encapsulada em espaços feitos de hábito e segurança, convivendo com pessoas semelhantes a mim e dentro de situações estáveis.

É difícil romper e sair do terreno conhecido, deixar o convencional. Tudo parece conspirar para que me mantenha dentro dos limites politicamente corretos. Todo ser humano pode terminar estabelecendo fronteiras vitais, sociais e religiosas impermeáveis ao diferente. Se isso acontece, acabo tendo perspectivas pequenas, visões atrofiadas e horizontes limitados, ignorando um mundo amplo, complexo e cheio de surpresas. Muitas vezes “vejo” o diferente, mas só como notícia, como o olhar do espectador que sabe das “coisas que acontecem”, mas não sente e nem se compadece por elas.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O maior perigo é buscar segurança numa patologia religiosa: emoção petrificada, conceitos e pré-conceitos petrificados, imagem de Deus petrificada, atitudes petrificadas, religião petrificada (legalismo, moralismo, perfeccionismo...). Sou submetida ao grande risco de ficar imobilizada, emparedada  em meu corpo, murados em meus pensamentos, em meu coração e em meu espírito.

Um coração petrificado se expressa numa atitude de intolerância e insensibilidade frente aos outros.

Normalmente, a petrificação interior é sempre recheada de devocionismos externos, repetitivos, de moralismos estéreis... O legalismo intransigente e inflexível desemboca no orgulho e na vaidade, levando a pessoa a assumir o lugar de Deus, fazendo-se juiz dos outros.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, São Cura d’Ars dizia que “os santos têm o coração líquido”; ou seja, ser santo é ser flexível, manso, não petrificado, sensível... O ser humano, na sua essência, é um ser fluído. Resgatar em mim a “fluidez do ser” é reencontrar meu ser em movimento, meu ser em marcha. O fluído está sempre em movimento.

Ao falar de fluidez penso sempre na qualidade cristalina e poderosa da água viva que brota do meu “eu profundo”. Aceitar, com fluidez, cada momento, é deixar minha vida deslizar como um rio, acolhendo as surpresas do percurso. Serei mais fluído, mais “líquido”, à medida que eu substituir o medo pela confiança, pela abertura, pela não resistência, pela descontração, pelo amor oblativo...; para vencer a rigidez devo ter mais ternura e humor em relação a mim mesmo e aos outros.

A rigidez só é boa na pedra, não no ser humano.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
É importante ir descobrindo em minha vida que a experiência de fé deve estar atravessada pelo serviço incondicional aos outros; é assim que vou sentindo a presença de Deus em minha existência e é assim que vou construindo o verdadeiro Templo de Deus, que não se identifica com edificações ostentosas, mas com a comunidade de seguidores e seguidoras de Jesus, inspirando-se na sua Palavra e no seu modo de viver.

Estar atenta em situações de minha vida em que me sentir “emparedado”, “petrificado”, “rígido”..., atrofiando o fluir da vida.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 21,5-19
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: A luz do teu mistério – fx 08
Autor: Jorge Trevisol
Intérprete: Jorge Trevisol
CD: A dança do Universo
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 05:09





terça-feira, 5 de novembro de 2019

Leitura Orante – 32º DOMINGO TEMPO COMUM, 10 de NOVEMBRO de 2019


Leitura Orante – 32º DOMINGO TEMPO COMUM, 10 de NOVEMBRO de 2019

MILITANTES DA VIDA

“...para Ele, todos vivem” (Lc 20, 38)


Texto Bíblico: Lucas 20,27-38


1 – O que diz o texto?
Estamos nos aproximando do final do ano litúrgico. Finalmente, depois de um longo percurso contemplativo e fazendo caminho com Jesus, chegamos a Jerusalém. Lucas já narrou a entrada solene na cidade e a purificação do Templo. Continua a polêmica e os conflitos com os dirigentes religiosos. 

Os saduceus, que tinham seu suporte junto ao templo, entram em cena. Formado pela aristocracia laica e sacerdotal, eles constituíam a elite econômica, social e religiosa da sociedade judaica nos tempos de Jesus. Eram colaboracionistas dos romanos, uma estratégia para não colocar em risco seus interesses. Só admitiam o Pentateuco como livro sagrado e não acreditavam na ressurreição. Por isso, um grupo deles se aproxima de Jesus, ironizando precisamente sobre o tema da ressurreição, apresentando um absurdo caso hipotético de vários irmãos que, sucessivamente e de acordo com a lei do levirato, casam-se com a mesma mulher.

Jesus, porém, não responde diretamente à pergunta absurda. Como bom pedagogo, aproveita a ocasião e responde, sim, àquilo que deviam ter perguntado. Jesus sempre foi muito sóbrio ao falar da vida nova depois da ressurreição. No entanto, quando este grupo de aristocratas ridiculariza a fé na ressurreição dos mortos, Jesus reage elevando a questão ao seu verdadeiro nível e fazendo afirmações básicas.

Antes de tudo, Jesus rejeita a ideia infantil dos saduceus que imaginavam a vida dos ressuscitados como prolongamento desta vida que agora conhecemos. É um erro representar a vida ressuscitada por Deus a partir de nossas experiências atuais.

Jesus tira sua própria conclusão, fazendo uma afirmação decisiva para nossa fé: “Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos, pois todos vivem para Ele”. E a ressurreição não é como supõem os saduceus, um retorno ao passado. Pelo contrário, é a entrada em outra vida. Ressuscitar não é voltar a ser como antes, é voltar a ser como depois. 

Por ser “Deus dos vivos”, a experiência da ressurreição consiste numa Nova Criação. Deus é fonte inesgotável de Vida e acolhe a todos em seu amor de Pai-Mãe. Nesse sentido, há uma diferença radical entre nossa vida terrestre e essa vida plena, sustentada pelo Amor criativo de Deus, depois da morte. É Vida absolutamente “nova”, que deve ser esperada, mas nunca descrita ou explicada. As relações interpessoais não serão uma cópia do modo de ser desta vida. A Ressurreição é uma “novidade” que está além de toda e qualquer experiência terrestre e que é antecipada e preparada na maneira de “viver intensamente” esta vida.


2 – O que o texto diz para mim?
Sou  destinada, portanto, não à morte, mas à Vida e essa Vida já começou. Não tenho Vida, sou Vida! Experimento que sou Vida. Vida mais além desta vida, e não meramente “vida depois”, nem sequer “vida perdurável”, mas vida transformada no seio da Vida que se faz vida em mim. Vivo no fluxo da única Vida que vive em mim. Nessa Vida repouso, surpreendida e maravilhada por aquilo que Ela realiza em e através de tudo o que existe.

Sou visibilização da Vida, envolvida, sustentada e inspirada por Ela. Sou a Vida, ou mais precisamente, Ela é em mim. E a Vida é uma contínua celebração de si mesma. É o Divino em mim que ativa todas as possibilidades de minha vida, conduzindo-me ao seio da única Vida.

Por isso, crer no Deus que é Vida, revela uma forma de viver e implica ser militante em favor da vida, frente a uma cultura de morte e violência. E crer na vida é rebelar-se contra todos os poderes que a asfixiam, fazer-se presente junto às vidas rejeitadas, ser humilde fermento que levanta e transforma as vidas caídas, abrir o coração e os olhos para apalpar a Vida em todas as mãos e pés feridos daqueles que são vítimas da “cultura do descarte”: os imigrantes expulsos, os índios despojados de suas terras, as mulheres marginalizadas, as crianças e idosos abandonados...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Com frequência, muitas pessoas que creem, estabelecem uma separação entre Deus e a vida; ou seja, para elas, Deus e vida são realidades dissociadas e, sobretudo, contrapostas.

São muitos aqueles que veem na vida, com seus males, seus sofrimentos e suas contradições, a grande dificuldade para acreditar que existe um Deus infinitamente bom e misericordioso. 

E, em sentido contrário, outros veem em Deus o grande obstáculo para viver, desenvolver e desfrutar a vida em toda sua plenitude; pois o Deus que lhes é anunciado é o Deus que manda, proíbe, ameaça e castiga.

Tem-se a impressão que, para viver a vida com todas as suas possibilidades e suas riquezas, é preciso prescindir de Deus.

Na realidade, o que acontece é que, em Nome de Deus, muitas vezes as religiões reprimem tudo aquilo que na vida significa dinamismos, impulsos, forças..., enfim, tudo aquilo que o ser humano mais deseja e necessita: ser feliz, viver com segurança, com dignidade, respeitado em seus direitos, acolhido em suas diferenças, com a possibilidade real e concreta de viver prazerosamente.

Com isso, a religião e a vida entram em conflito, porque a religião complica a vida de muitas pessoas que levam a sério sua experiência de Deus. E a vida, com seus dinamismos, seus direitos e seus instintos mais básicos, é vista, pelos responsáveis pela religião, como um perigo para fazer uma experiência de Deus.  

Aí me vou enchendo de culpas até que eu me sinta como ser miserável que só merece a eterna condenação.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, eu sei e experimento as consequências funestas desta confrontação entre Deus e a vida: a centralidade do sacrifício e da renúncia, a repressão dos instintos da vida, a violência contra os dinamismos da sexualidade, a agressão a tudo o que se refere ao prazer e à alegria de viver...

No entanto, o Evangelho deixa muito claro que a mediação entre os seres humanos e Deus é a vida, não a religião. A religião é uma expressão fundamental da vida e deve estar sempre a seu serviço.

Nesse sentido, a religião é aceitável só na medida em que serve para potenciar e dignificar a vida, inclusive o prazer e a alegria de viver. Quando a religião é vivida de maneira a agredir a vida e à dignidade das pessoas, ela se desnaturaliza e se desumaniza, e acaba sendo uma ofensa ao Deus da vida revelado por Jesus.

De fato, para Jesus, o primeiro é a vida e não a religião. Ele colocou a religião onde deve estar: a serviço da vida, para dignificá-la. Ele tomou partido da vida, contra aqueles que, a partir da religião, cometiam todo tipo de agressão contra a vida.

Jesus sempre se deixou conduzir pelo Espírito do Senhor para aliviar o sofrimento humano, levar a Boa Nova aos pobres, devolver a vista aos cegos, dar a liberdade aos presos e oprimidos, dar vida àqueles que tinham a vida massacrada ou diminuída, devolver a dignidade da vida àqueles que eram encurvados pelo peso da opressão e do legalismo.

Isto significa que a espiritualidade cristã, apresentada pelo Evangelho, funde a causa de Deus com a causa da vida; os cristãos encontram a Deus somente na medida em que defendem, respeitam e dignificam a vida. Nesse sentido, a vida tem a dimensão do milagre e até na morte anuncia o início de algo novo; ela carrega no seu interior o destino da ressurreição.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A maior perda da vida é o que “resseca” dentro de mim enquanto vivo: sonhos, criatividade, intuição.

A vida não é uma realidade estática, nem um momento congelado ou petrificado. Cada dia é único e nela vou construindo uma história irrepetível, percorrendo um caminho em direção à Vida plena: ressurreição.

- Quando vou começar a viver como ressuscitado? 
Há na vida muitas coisas – pequenas ou imensas – que vão morrendo e nascendo de novo, diferentes, melhores, reconciliadas... 

- Que sinais de ressurreição vão vislumbrando no meu cotidiano?

- Sou militante em favor da vida, ou alimento a cultura da morte: julgamentos, intolerância, preconceitos...?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 20,27-38
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Jesus é luz – fx 11
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Canções que a fé escreveu
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:56