terça-feira, 29 de outubro de 2019

Leitura Orante – FIÉIS DEFUNTOS, 02 de novembro de 2019



Leitura Orante – FIÉIS DEFUNTOS, 02 de novembro de 2019

FINADOS: todos vivem n’Aquele que vive

“...que eu nada perca daquilo que me deu,
 mas que o ressuscite no último dia” (Jo 6,39)


Texto Bíblico: João 6,37-40


1 – O que diz o texto?
Ao celebrar o “Dia dos mortos”, todas as culturas e religiões, cada uma à sua maneira, intuíram o que não se pode dizer, ou o que só pode ser dito com muito recato: que a morte é passagem, eclosão, nascimento; que nela entramos nesse processo definitivo de libertação, de transformação, de acesso à Plenitude da Vida, à Comunhão dos santos, à Santidade de Deus...

Este dia, em que fazemos “memória daqueles (as) que já vivem a Páscoa definitiva”, é uma ocasião privilegiada para considerar a morte como evento humano e cristão; sabemos do seu aspecto doloroso, mas, a experiência cristã insiste que ela deve ser entendida também como um gesto de generosidade: “morrer é deixar um lugar para os outros”. 

Participando da morte de Jesus, podemos também fazer de nossa morte um ato de decisão, de entrega, de oblação. A certeza de nossa fé em Cristo, morto e ressuscitado, nos ajuda a tirar do coração os medos, os impulsos egoístas de busca de segurança, a ilusão de sermos imortais, e encontrar uma paz profunda que nos permita fazer de nossa vida uma oferenda gratuita para a vida de outros.

O Evangelho nos ajuda a descobrir que o cuidado doentio da própria vida atenta contra a qualidade humana e cristã dessa mesma vida. Aqui descobrimos outra lei profunda da realidade: alcança-se a maturidade da vida à medida que ela é entregue para dar vida a outros.

Sabemos que toda expressão de vida flui para a morte. No entanto, porque sabemos que somos mortais e dotados de liberdade, nós, seres humanos, nos interrogamos sobre o sentido da vida; somos capazes de vivê-la como um projeto, fruto de nossa decisão e podemos transformar a morte no último e supremo ato de nosso viver. 

A consciência de que se morre por alguma grande e nobre causa despoja a morte de seu caráter de catástrofe absurda, não somente aos olhos de quem vai morrer, mas também aos olhos dos que o amam.

A morte se transforma em “fator de criação de vida”, em “boa notícia” para aqueles que se atreveram a viver como Jesus viveu. Viveram para dar vida e morreram para defendê-la. Viveram a vida como entrega e sua morte foi uma consequência lógica de seu modo de vida. Levaram a existência até os limites de suas possibilidades e fizeram dela uma semente permanente de vida. A lembrança da vida e da morte dessas pessoas continua semeando vontade de viver com autenticidade. Elas derrotaram a morte.


2 – O que o texto diz para mim?
O ser humano não deve admitir sua morte como uma derrota humilhante, mas, do mesmo modo que pode dar direção à sua própria vida, deve também incluir o ato de morrer, o último ato de sua vida, o ápice de sua existência temporal.

A morte somente pode ter um sentido e significação se a vida também os tiver; quando alguém sabe “para quê e para quem vive”, realizando sua original missão, pode morrer em paz. 

Aqueles que vivem intensamente enfrentam com grande serenidade seu envelhecimento e a proximidade da morte, vendo nela mais uma etapa no processo normal de seu amadurecimento e de sua realização.

Conscientes de ter vivido por alguma causa, de ter levado uma vida plena, podem dar sentido e significado espontâneos ao último ato de sua existência, a morte. É o modo como alguém vive que qualifica a morte. Há mortes que, para além da inevitável dor que causam aos familiares e amigos, provocam paz, agradecimento, vontade de viver seriamente, despertam impulsos para se levantar e sair da superficialidade e da mediocridade.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O modo de viver de Jesus recebe o sim definitivo de Deus e me mostra que a vida entregue para dar vida é o caminho para derrotar a morte e continuar vivendo. No acontecimento infinitamente doloroso da morte de Jesus se revela e se promete o sentido último do viver e do morrer humano. “Jesus morreu de tanto viver”.

Fazer “memória” desta morte é abrir-se para a vida, não somente para aquela vida plena do mundo futuro, mas também a mais profunda qualidade desta vida presente: bondade e esperança lúcidas, solidariedade alegre, compaixão ousada, liberdade arriscada, proximidade santificadora...

Como seguidora de Jesus, não me limito a assistir passivamente o fato da morte. Confiando n’Aquele que é Fonte de Vida, acompanho meus entes queridos com amor e com minha oração, nesse misterioso encontro com Deus. Na liturgia cristã pelos mortos não há desolação, rebelião ou desesperança. Em seu centro, só uma oração de confiança: “Em vossas mãos, Pai de bondade, confiamos à vida do nosso ser querido”. 

E afirmar a ressurreição não é consolo ilusório, nem evasão do compromisso com a história e com a vida. É decisão firme de continuar o projeto de Jesus, de defender a vida onde quer que esteja ameaçada, de arriscar-se pelos mais fracos e excluídos para que tenham vida, curando feridas, levantando corações, semeando esperanças, tirando da Cruz aqueles que nela estão dependurados...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a ressurreição me faz experimentar que esta vida peregrina revela-me como tempo da gestação concedido a cada ser humano para que, dentro desse imenso ventre cósmico, quer na vida ou quer na morte, eu possa sentir sempre envolvida pelo Amor criativo d’Aquele que é sempre Vida. Nesse sentido, “ninguém morre”, pois todos “vivem n’Aquele que vive”.

Portanto, “recordar” (visitar de novo com o coração) os entes queridos que já fizeram a “grande travessia”, me capacita a uma nova visão da morte e a assumi-la como acontecimento que faz parte de minha vida. Afinal, todos morrem, mas nem todos sabem viver. 

- A primeira consequência positiva do “fazer memória” é que a morte me faz viver agradecida: quando tomo consciência da morte, eu me dou conta de que a vida é um verdadeiro milagre, que cada instante aqui deve ser vivido como um presente e devo  saboreá-la o máximo possível, porque não sei quando se acabará. 

- A segunda, é que a morte põe as coisas em seu devido lugar: a morte desloca, sim, mas também realoca, porque me faz tomar consciência daquilo que é o mais importante em minha vida e o que de verdade merece a pena. Ela me faz repensar como me relaciono como uso às coisas, o dinheiro, onde investir a vida, quais são os verdadeiros valores, etc... 

- E por último, a morte me ajuda a tomar decisões em favor da vida e a me comprometer. S. Inácio de Loyola, nos Exercícios Espirituais, aconselha como critério para decidir, me imaginar à hora da morte e pensar qual decisão gostaria de ter tomado. Essa decisão leva irremediavelmente a um compromisso por toda a vida, pois ela me torna consciente de que esta vida passa, e passa rápido, e não quero ficar presa às afeições desordenadas, mas desejo investir toda minha vida em um projeto que me dê sentido e me implique totalmente.

A fé cristã não é masoquista ou sádica quando me ensina a bem morrer. Assim me dá maior responsabilidade diante da minha própria vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
“Fazer memória agradecida” de tantos familiares, amigos ou pessoas mais próximas que viveram intensamente e que, generosamente, partiram e “deixaram um cantinho deste mundo” mais iluminado.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 6,37-40
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Descanse em paz – fx 06
Autor: Frei Luiz Turra
Intérprete: Coral Imaculada Conceição
CD: Vida agora e sempre
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:28





Nenhum comentário:

Postar um comentário