quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Leitura Orante – 33º DOMINGO TEMPO COMUM, 17 de NOVEMBRO de 2019


Leitura Orante – 33º DOMINGO TEMPO COMUM, 17 de NOVEMBRO de 2019

PEDRAS QUE SOTERRAM A VIDA

“Vós contemplais essas coisas; 
mas dias virão em que não ficará pedra sobre pedra” (Lc 21,6)


Texto Bíblico: Lucas 21,5-19


1 – O que diz o texto?
Estamos chegando ao final de mais um tempo litúrgico (Tempo Comum); fizemos uma longa “caminhada contemplativa”, tendo os olhos fixos em Jesus e deixando-nos ensinar por Ele. Hoje, mais uma vez, ressoa forte em cada um de nós, o apelo de Jesus: é preciso “sair dos próprios muros”, remover as pedras que soterram a vida dentro de nós, derrubar as muralhas que cercam nosso coração.

O contexto é a presença de Jesus no Templo de Jerusalém e a admiração dos discípulos diante da grandeza e da beleza do edifício. No entanto, Jerusalém e o Templo traíram sua missão e serão destruídos, pois se fecharam em suas fronteiras, em suas seguranças e não acolheram a transformação interior que Jesus trouxera. Com toda a sua beleza e grandiosidade o Templo carrega sinais de morte dentro de si. A destruição do santuário é para Jesus a consequência do fechamento interior dos seus habitantes e da recusa em acolher a novidade do Reino. Não só o Templo, mas as realidades que parecem intocáveis e eternas devem cair para que seja possível a Nova Jerusalém, humana e humanizadora.

Os grandes templos costumam ser muito solenes em suas estruturas e em seus muros. Mas, tanta pedra, com frequência, impede que a vida circule por ali; e também impedem que os de dentro deixem-se afetar pelo movimento da vida que se faz visível nos lugares abertos.

A imagem de um Templo construído com enormes pedras e rodeado de grandes muros é a expressão de uma religião petrificada, fria e sem a marca da compaixão. Jesus, o verdadeiro Templo, desmascara toda religião que se fundamenta em edifícios vistosos, em ritos suntuosos... É só aparência que causa espanto, mas não se sustenta. Tudo o que se fundamenta na pura exterioridade, cai por si mesmo.

Certamente, o Templo de Jerusalém era belo, imponente, sagrado, não só por sua forma externa (grandes e pesadas pedras), senão por sua função social. Para os judeus, o templo simbolizava e expressava a presença de Deus, que habitava no meio do povo. Nesse sentido, aparecia como lugar privilegiado de oração e purificação. O santuário de Deus garantia, com seu edifício e liturgia expiatória, a ordem da terra; o Templo era a chave e o sentido da estabilidade do mundo. Se falhasse o templo, o mundo perderia seu sentido e os homens ficariam sem chão, sem união com Deus, sem garantias de vida e sobrevivência.

Jesus vincula a chegada dos tempos finais à ruína e queda desse Templo. Tudo o que parecia ser sólido e consistente sofrerá abalos e cairá. Só assim poderá dar lugar ao verdadeiro santuário de Deus; só assim  poderá chegar a humanidade reconciliada, o templo de verdade, que são os homens e mulheres como presença e transparência de Deus.

Para Jesus, a verdadeira imagem de Deus é o ser humano. Por isso, Ele entrou em conflito com o Templo onde o judaísmo oficial havia condensado (e fechado) a sacralidade e a presença de Deus.


2 – O que o texto diz para mim?
É nesse contexto que Jesus afirma que “não ficará pedra sobre pedra”. E não diz por desespero, mas com uma imensa esperança, pois somente a queda do Templo poderia abrir o caminho para o Reino de Deus, que é a nova humanidade.

A destruição do Templo será o início de uma nova e mais alta construção humana. Só ali, onde acaba um tipo de ordem fundado e centrado no templo, pode chegar o Reino de Deus.

A expressão usada por Jesus – “não ficará pedra sobre pedra” – desvela também minha construção interior, muitas vezes sustentada sobre as pedras do preconceito e da intolerância, rodeada de muros que excluem, ambientes frios que alimentam a cultura da indiferença. Construção centrada na mera aparência, que pode provocar assombro; no seu interior, vazio.

Deus não se deixa prender nos templos: “meu Pai é adorado em espírito e verdade”. O verdadeiro Tempo é a vida; a verdadeira religião é aquela que sustenta as relações, reconstrói os vínculos, acolhe e integra o diferente. Templo vivo que humaniza e é espaço de humanização.

Na vida, há uma tendência sempre presente em todos os seres humanos: construir muros, elevar grossas paredes...; exteriormente, parecem belíssimos, mas  dificultam alimentar as relações interpessoais. São os muros religiosos, políticos, raciais, sociais... São demasiados muros e paredes que me impedem viver a cultura do encontro. São paredes que me impedem ver a luz da verdade também presente nos outros; paredes que me atrofiam e não me deixam sentir afetados pelos sinais que cada dia Deus me envia através dos acontecimentos da vida.

Corro o risco de viver em mundos-bolha; a construir minha vida encapsulada em espaços feitos de hábito e segurança, convivendo com pessoas semelhantes a mim e dentro de situações estáveis.

É difícil romper e sair do terreno conhecido, deixar o convencional. Tudo parece conspirar para que me mantenha dentro dos limites politicamente corretos. Todo ser humano pode terminar estabelecendo fronteiras vitais, sociais e religiosas impermeáveis ao diferente. Se isso acontece, acabo tendo perspectivas pequenas, visões atrofiadas e horizontes limitados, ignorando um mundo amplo, complexo e cheio de surpresas. Muitas vezes “vejo” o diferente, mas só como notícia, como o olhar do espectador que sabe das “coisas que acontecem”, mas não sente e nem se compadece por elas.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O maior perigo é buscar segurança numa patologia religiosa: emoção petrificada, conceitos e pré-conceitos petrificados, imagem de Deus petrificada, atitudes petrificadas, religião petrificada (legalismo, moralismo, perfeccionismo...). Sou submetida ao grande risco de ficar imobilizada, emparedada  em meu corpo, murados em meus pensamentos, em meu coração e em meu espírito.

Um coração petrificado se expressa numa atitude de intolerância e insensibilidade frente aos outros.

Normalmente, a petrificação interior é sempre recheada de devocionismos externos, repetitivos, de moralismos estéreis... O legalismo intransigente e inflexível desemboca no orgulho e na vaidade, levando a pessoa a assumir o lugar de Deus, fazendo-se juiz dos outros.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, São Cura d’Ars dizia que “os santos têm o coração líquido”; ou seja, ser santo é ser flexível, manso, não petrificado, sensível... O ser humano, na sua essência, é um ser fluído. Resgatar em mim a “fluidez do ser” é reencontrar meu ser em movimento, meu ser em marcha. O fluído está sempre em movimento.

Ao falar de fluidez penso sempre na qualidade cristalina e poderosa da água viva que brota do meu “eu profundo”. Aceitar, com fluidez, cada momento, é deixar minha vida deslizar como um rio, acolhendo as surpresas do percurso. Serei mais fluído, mais “líquido”, à medida que eu substituir o medo pela confiança, pela abertura, pela não resistência, pela descontração, pelo amor oblativo...; para vencer a rigidez devo ter mais ternura e humor em relação a mim mesmo e aos outros.

A rigidez só é boa na pedra, não no ser humano.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
É importante ir descobrindo em minha vida que a experiência de fé deve estar atravessada pelo serviço incondicional aos outros; é assim que vou sentindo a presença de Deus em minha existência e é assim que vou construindo o verdadeiro Templo de Deus, que não se identifica com edificações ostentosas, mas com a comunidade de seguidores e seguidoras de Jesus, inspirando-se na sua Palavra e no seu modo de viver.

Estar atenta em situações de minha vida em que me sentir “emparedado”, “petrificado”, “rígido”..., atrofiando o fluir da vida.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 21,5-19
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: A luz do teu mistério – fx 08
Autor: Jorge Trevisol
Intérprete: Jorge Trevisol
CD: A dança do Universo
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 05:09





terça-feira, 5 de novembro de 2019

Leitura Orante – 32º DOMINGO TEMPO COMUM, 10 de NOVEMBRO de 2019


Leitura Orante – 32º DOMINGO TEMPO COMUM, 10 de NOVEMBRO de 2019

MILITANTES DA VIDA

“...para Ele, todos vivem” (Lc 20, 38)


Texto Bíblico: Lucas 20,27-38


1 – O que diz o texto?
Estamos nos aproximando do final do ano litúrgico. Finalmente, depois de um longo percurso contemplativo e fazendo caminho com Jesus, chegamos a Jerusalém. Lucas já narrou a entrada solene na cidade e a purificação do Templo. Continua a polêmica e os conflitos com os dirigentes religiosos. 

Os saduceus, que tinham seu suporte junto ao templo, entram em cena. Formado pela aristocracia laica e sacerdotal, eles constituíam a elite econômica, social e religiosa da sociedade judaica nos tempos de Jesus. Eram colaboracionistas dos romanos, uma estratégia para não colocar em risco seus interesses. Só admitiam o Pentateuco como livro sagrado e não acreditavam na ressurreição. Por isso, um grupo deles se aproxima de Jesus, ironizando precisamente sobre o tema da ressurreição, apresentando um absurdo caso hipotético de vários irmãos que, sucessivamente e de acordo com a lei do levirato, casam-se com a mesma mulher.

Jesus, porém, não responde diretamente à pergunta absurda. Como bom pedagogo, aproveita a ocasião e responde, sim, àquilo que deviam ter perguntado. Jesus sempre foi muito sóbrio ao falar da vida nova depois da ressurreição. No entanto, quando este grupo de aristocratas ridiculariza a fé na ressurreição dos mortos, Jesus reage elevando a questão ao seu verdadeiro nível e fazendo afirmações básicas.

Antes de tudo, Jesus rejeita a ideia infantil dos saduceus que imaginavam a vida dos ressuscitados como prolongamento desta vida que agora conhecemos. É um erro representar a vida ressuscitada por Deus a partir de nossas experiências atuais.

Jesus tira sua própria conclusão, fazendo uma afirmação decisiva para nossa fé: “Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos, pois todos vivem para Ele”. E a ressurreição não é como supõem os saduceus, um retorno ao passado. Pelo contrário, é a entrada em outra vida. Ressuscitar não é voltar a ser como antes, é voltar a ser como depois. 

Por ser “Deus dos vivos”, a experiência da ressurreição consiste numa Nova Criação. Deus é fonte inesgotável de Vida e acolhe a todos em seu amor de Pai-Mãe. Nesse sentido, há uma diferença radical entre nossa vida terrestre e essa vida plena, sustentada pelo Amor criativo de Deus, depois da morte. É Vida absolutamente “nova”, que deve ser esperada, mas nunca descrita ou explicada. As relações interpessoais não serão uma cópia do modo de ser desta vida. A Ressurreição é uma “novidade” que está além de toda e qualquer experiência terrestre e que é antecipada e preparada na maneira de “viver intensamente” esta vida.


2 – O que o texto diz para mim?
Sou  destinada, portanto, não à morte, mas à Vida e essa Vida já começou. Não tenho Vida, sou Vida! Experimento que sou Vida. Vida mais além desta vida, e não meramente “vida depois”, nem sequer “vida perdurável”, mas vida transformada no seio da Vida que se faz vida em mim. Vivo no fluxo da única Vida que vive em mim. Nessa Vida repouso, surpreendida e maravilhada por aquilo que Ela realiza em e através de tudo o que existe.

Sou visibilização da Vida, envolvida, sustentada e inspirada por Ela. Sou a Vida, ou mais precisamente, Ela é em mim. E a Vida é uma contínua celebração de si mesma. É o Divino em mim que ativa todas as possibilidades de minha vida, conduzindo-me ao seio da única Vida.

Por isso, crer no Deus que é Vida, revela uma forma de viver e implica ser militante em favor da vida, frente a uma cultura de morte e violência. E crer na vida é rebelar-se contra todos os poderes que a asfixiam, fazer-se presente junto às vidas rejeitadas, ser humilde fermento que levanta e transforma as vidas caídas, abrir o coração e os olhos para apalpar a Vida em todas as mãos e pés feridos daqueles que são vítimas da “cultura do descarte”: os imigrantes expulsos, os índios despojados de suas terras, as mulheres marginalizadas, as crianças e idosos abandonados...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Com frequência, muitas pessoas que creem, estabelecem uma separação entre Deus e a vida; ou seja, para elas, Deus e vida são realidades dissociadas e, sobretudo, contrapostas.

São muitos aqueles que veem na vida, com seus males, seus sofrimentos e suas contradições, a grande dificuldade para acreditar que existe um Deus infinitamente bom e misericordioso. 

E, em sentido contrário, outros veem em Deus o grande obstáculo para viver, desenvolver e desfrutar a vida em toda sua plenitude; pois o Deus que lhes é anunciado é o Deus que manda, proíbe, ameaça e castiga.

Tem-se a impressão que, para viver a vida com todas as suas possibilidades e suas riquezas, é preciso prescindir de Deus.

Na realidade, o que acontece é que, em Nome de Deus, muitas vezes as religiões reprimem tudo aquilo que na vida significa dinamismos, impulsos, forças..., enfim, tudo aquilo que o ser humano mais deseja e necessita: ser feliz, viver com segurança, com dignidade, respeitado em seus direitos, acolhido em suas diferenças, com a possibilidade real e concreta de viver prazerosamente.

Com isso, a religião e a vida entram em conflito, porque a religião complica a vida de muitas pessoas que levam a sério sua experiência de Deus. E a vida, com seus dinamismos, seus direitos e seus instintos mais básicos, é vista, pelos responsáveis pela religião, como um perigo para fazer uma experiência de Deus.  

Aí me vou enchendo de culpas até que eu me sinta como ser miserável que só merece a eterna condenação.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, eu sei e experimento as consequências funestas desta confrontação entre Deus e a vida: a centralidade do sacrifício e da renúncia, a repressão dos instintos da vida, a violência contra os dinamismos da sexualidade, a agressão a tudo o que se refere ao prazer e à alegria de viver...

No entanto, o Evangelho deixa muito claro que a mediação entre os seres humanos e Deus é a vida, não a religião. A religião é uma expressão fundamental da vida e deve estar sempre a seu serviço.

Nesse sentido, a religião é aceitável só na medida em que serve para potenciar e dignificar a vida, inclusive o prazer e a alegria de viver. Quando a religião é vivida de maneira a agredir a vida e à dignidade das pessoas, ela se desnaturaliza e se desumaniza, e acaba sendo uma ofensa ao Deus da vida revelado por Jesus.

De fato, para Jesus, o primeiro é a vida e não a religião. Ele colocou a religião onde deve estar: a serviço da vida, para dignificá-la. Ele tomou partido da vida, contra aqueles que, a partir da religião, cometiam todo tipo de agressão contra a vida.

Jesus sempre se deixou conduzir pelo Espírito do Senhor para aliviar o sofrimento humano, levar a Boa Nova aos pobres, devolver a vista aos cegos, dar a liberdade aos presos e oprimidos, dar vida àqueles que tinham a vida massacrada ou diminuída, devolver a dignidade da vida àqueles que eram encurvados pelo peso da opressão e do legalismo.

Isto significa que a espiritualidade cristã, apresentada pelo Evangelho, funde a causa de Deus com a causa da vida; os cristãos encontram a Deus somente na medida em que defendem, respeitam e dignificam a vida. Nesse sentido, a vida tem a dimensão do milagre e até na morte anuncia o início de algo novo; ela carrega no seu interior o destino da ressurreição.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A maior perda da vida é o que “resseca” dentro de mim enquanto vivo: sonhos, criatividade, intuição.

A vida não é uma realidade estática, nem um momento congelado ou petrificado. Cada dia é único e nela vou construindo uma história irrepetível, percorrendo um caminho em direção à Vida plena: ressurreição.

- Quando vou começar a viver como ressuscitado? 
Há na vida muitas coisas – pequenas ou imensas – que vão morrendo e nascendo de novo, diferentes, melhores, reconciliadas... 

- Que sinais de ressurreição vão vislumbrando no meu cotidiano?

- Sou militante em favor da vida, ou alimento a cultura da morte: julgamentos, intolerância, preconceitos...?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 20,27-38
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Jesus é luz – fx 11
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Canções que a fé escreveu
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:56





quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Leitura Orante – TODOS OS SANTOS, 01 de novembro de 2019


Leitura Orante – TODOS OS SANTOS, 01 de novembro de 2019

BEM-AVENTURANÇAS: rosto visível da santidade

“Jesus explicou, com toda a simplicidade, o que é ser santo; fê-lo quando nos deixou as bem-aventuranças. Estas são como que o bilhete de identidade do cristão. Assim, se um de nós se questionarmos sobre «como fazer para chegar a ser um bom cristão», a resposta é simples: é necessário fazer – cada qual a seu modo – aquilo que Jesus disse no sermão das bem-aventuranças. Nelas está delineado o rosto do Mestre, que somos chamados a deixar transparecer no dia-a-dia da nossa vida”.
““A palavra «feliz» ou bem-aventurada» torna-se sinônimo de «santo», porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade” 
(Papa Francisco, GE n. 63-64)


Texto Bíblico: Mateus 5,1-11


1 – O que diz o texto?
“Sejam santos, porque eu sou SANTO” (Lev 11,45)

Esta é a vocação fundamental à quais todos são chamados. A santidade de Deus é a vocação universal de todos os seres humanos, cada um à sua maneira.

Deus colocou no coração de cada pessoa a busca da santidade. Uma busca que se experimenta como impulso vital, sopro do Espírito, aqui e agora, nas circunstâncias concretas da vida.

Nesse sentido, santos e santas são os portadores de vida, homens e mulheres que buscam viver intensamente; que acolhem a vida e a expandem, que bebem do prazer da vida e que ajudam os outros também a beberem, sabendo que a vida é dom, presente que compartilhamos todos, no mundo. São pessoas em cujo entorno se desatam correntes de vida, esperança, alegria de viver, reconciliação e amor. “Os (as) santos (as), como os poetas, vivem de encantamentos…”, encantados com a vida, com a beleza, com a verdade... 

Os santos e as santas são as testemunhas (martyria) da vida, ou seja, aqueles (as) que, inspirados na santidade de Jesus, são presenças inspiradoras no mundo, portadores (as) de valores humanos e que constroem suas vidas sobre a rocha firme do amor incondicional e generoso; homens e mulheres que “vivem um caso de amor com a vida”. 

A santidade é nossa verdade mais íntima e universal. 

Por isso, falamos de “santidade primordial”, ou seja, a força radical da vida, o anseio de viver, a decisão de viver mais intensamente, o impulso expansivo que move a pessoa a sair de si mesma e a entrar em sintonia com os outros, com a criação e com Aquele que “é três vezes Santo”. É a “faísca da santidade de Deus” presente no mais profundo do seu ser e que se deixa transparecer no seu modo de viver. Para muitas pessoas, é sua forma habitual de vida; a “santidade primordial” vai se fazendo conatural ao longo da existência. 

Queremos com isso dizer que santa é a vida e santo (a) é defendê-la; fascinante é ver grandes esforços para protegê-la e potenciá-la. Ao defender e propiciar a vida, a santidade primordial se revela como “humana”, pois santo (a) é “ser humano (a)” por excelência.

Nessa santidade primordial tornam-se presentes as “virtudes” admiráveis, tanto as tradicionais como as novas, em tempos de compromisso e libertação: solidariedade, serviço, simplicidade, disponibilidade para acolher o dom de Deus, força no sofrimento, compromisso até o martírio, perdão ao ofensor...

Somos santos (as). Não somos santos (as) porque sejamos irrepreensíveis, senão simplesmente porque somos, e vivemos nos movemos e somos sempre em Deus e Deus em nós, também quando nos sentimos medíocres e inclusive fracassados. Somos um tesouro em vasos de barro em formação, e Deus é o paciente oleiro na sombra mais profunda de nosso barro. 


2 – O que o texto diz para mim?
“Viver a partir da santidade de Deus” representa a melhor definição da santidade cristã: reconhecer como quem recebe tudo de Deus, deixar-se amar e guiar por Ele, assemelharem-se a Ele para tornar visível, em mim, os sentimentos de compaixão e misericórdia que Ele tem para com todas as pessoas.

Em outras palavras, a santidade significa viver o divino que há em mim.

Só descobrindo o que há de Deus em mim, poderei cair na conta da minha verdadeira identidade. 

As bem-aventuranças não são leis para simplesmente evitar o mal, mas o potencial humano que, quando ativado, espalha criativamente, por todos os lugares, a Santidade, a Bondade e a Beleza divinas.  Expressa de modo conciso e explícito, o coração mesmo de Jesus e seu desejo ardente de contagiar a todos os que se encontravam com Ele.

Eu sei que, em muitos ambientes cristãos, quando se fala de santidade enfatiza-se muito mais a renúncia, a mortificação, o sofrimento, a austeridade, o sacrifício, a resignação..., ao passo que não é comum encontrar pessoas que, espontaneamente, associem santidade à alegria de viver e, em geral, a tudo aquilo que se faz sentir melhor, sentir-se bem e ser mais feliz.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus propõe a ventura sem limites, a felicidade plena para seus (suas) seguidores (as). Deus não quer a dor, a tristeza, o sofrimento; Deus quer precisamente o contrário: que o ser humano se realize plenamente, que viva feliz... Jesus acreditava na vida, e queria que todos vivessem intensamente.

Sou santa, porque o meu verdadeiro ser é o que há de Deus em mim; embora a imensa maioria das pessoas não tenha consciência disso ainda, não posso deixar de manifestar o que sou. Sou santa pelo que Deus é em mim, não pelo que eu sou para Deus. É santa a pessoa que descobre o amor que chega até ela sem mérito algum de sua parte, mas deixa-se envolver por este amor expansivo e passa a viver uma presença amorosa.

Os (as) santos (as) foram e são humanos por excelência. E a plenitude do humano só se alcança no divino, que já está presente em mim. 

Nesse sentido, posso dizer que as bem-aventuranças são a plenificação daquilo que é o mais humano em mim; elas são a quinta-essência da vivência da santidade, no caminho do seguimento e identificação com Jesus, a presença visível da santidade do Pai.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Jesus anuncia as Bem-aventuranças como um programa para viver a santidade; e o motivo primeiro é porque todas elas são, na verdade, o caminho da santidade universal (acima e além de toda religião, pois elas são simples e profundamente humanas). As Bem-aventuranças são como o mapa de navegação para minha vida; são o horizonte de sentido e o ambiente favorável para minha santificação, entendida como empenho para viver com mais plenitude, segundo o querer de Deus.

Dizer que são felizes os pobres, os que choram os mansos, os misericordiosos, os que têm fome e sede de justiça, os perseguidos... é um contrassenso para o meu contexto social, onde ditoso é aquele que mais acumula bens, que tem mais poder, mais prestígio..., sem se preocupar com a situação dos outros. 

As bem-aventuranças se visibilizam no pequeno, no cotidiano, no próximo mais próximo, e me impulsiona a proclamar: a paz é possível, a alegria é uma realidade, a justiça não é um luxo, a mansidão está ao alcance da mão... Elas me dizem que nasci para a bondade, a beleza, a compaixão...

As bem-aventuranças devem ser escutadas e acolhidas como uma mensagem que brota do mais profundo da vida e que tem como finalidade apresentar, a qualquer pessoa, o mais humano que existe em si.

Ser feliz é deixar viver a criatura livre, alegre e simples presente dentro de mim. A santidade é, assim, o livre curso da vida, o fluxo contínuo da Vida em mim que se “entretece” com a vida dos outros.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A chave da felicidade está em permitir que se revele o sentido da luminosidade presente nas profundezas de meu ser. O que me tira a energia e me torna estéril é afastar-me desse princípio vital que é o Divino em mim. 

A santidade é luz expansiva do divino que se faz visível no “modo contemplativo” de viver.

Sua presença junto a mim é transparência da santidade de Deus.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 5,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Em santidade 
Autor: Walmir Alencar
Intérprete: Walmir Alencar
CD: Em santidade – Ministério Adoração e vida
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 06:13






terça-feira, 29 de outubro de 2019

Leitura Orante – FIÉIS DEFUNTOS, 02 de novembro de 2019



Leitura Orante – FIÉIS DEFUNTOS, 02 de novembro de 2019

FINADOS: todos vivem n’Aquele que vive

“...que eu nada perca daquilo que me deu,
 mas que o ressuscite no último dia” (Jo 6,39)


Texto Bíblico: João 6,37-40


1 – O que diz o texto?
Ao celebrar o “Dia dos mortos”, todas as culturas e religiões, cada uma à sua maneira, intuíram o que não se pode dizer, ou o que só pode ser dito com muito recato: que a morte é passagem, eclosão, nascimento; que nela entramos nesse processo definitivo de libertação, de transformação, de acesso à Plenitude da Vida, à Comunhão dos santos, à Santidade de Deus...

Este dia, em que fazemos “memória daqueles (as) que já vivem a Páscoa definitiva”, é uma ocasião privilegiada para considerar a morte como evento humano e cristão; sabemos do seu aspecto doloroso, mas, a experiência cristã insiste que ela deve ser entendida também como um gesto de generosidade: “morrer é deixar um lugar para os outros”. 

Participando da morte de Jesus, podemos também fazer de nossa morte um ato de decisão, de entrega, de oblação. A certeza de nossa fé em Cristo, morto e ressuscitado, nos ajuda a tirar do coração os medos, os impulsos egoístas de busca de segurança, a ilusão de sermos imortais, e encontrar uma paz profunda que nos permita fazer de nossa vida uma oferenda gratuita para a vida de outros.

O Evangelho nos ajuda a descobrir que o cuidado doentio da própria vida atenta contra a qualidade humana e cristã dessa mesma vida. Aqui descobrimos outra lei profunda da realidade: alcança-se a maturidade da vida à medida que ela é entregue para dar vida a outros.

Sabemos que toda expressão de vida flui para a morte. No entanto, porque sabemos que somos mortais e dotados de liberdade, nós, seres humanos, nos interrogamos sobre o sentido da vida; somos capazes de vivê-la como um projeto, fruto de nossa decisão e podemos transformar a morte no último e supremo ato de nosso viver. 

A consciência de que se morre por alguma grande e nobre causa despoja a morte de seu caráter de catástrofe absurda, não somente aos olhos de quem vai morrer, mas também aos olhos dos que o amam.

A morte se transforma em “fator de criação de vida”, em “boa notícia” para aqueles que se atreveram a viver como Jesus viveu. Viveram para dar vida e morreram para defendê-la. Viveram a vida como entrega e sua morte foi uma consequência lógica de seu modo de vida. Levaram a existência até os limites de suas possibilidades e fizeram dela uma semente permanente de vida. A lembrança da vida e da morte dessas pessoas continua semeando vontade de viver com autenticidade. Elas derrotaram a morte.


2 – O que o texto diz para mim?
O ser humano não deve admitir sua morte como uma derrota humilhante, mas, do mesmo modo que pode dar direção à sua própria vida, deve também incluir o ato de morrer, o último ato de sua vida, o ápice de sua existência temporal.

A morte somente pode ter um sentido e significação se a vida também os tiver; quando alguém sabe “para quê e para quem vive”, realizando sua original missão, pode morrer em paz. 

Aqueles que vivem intensamente enfrentam com grande serenidade seu envelhecimento e a proximidade da morte, vendo nela mais uma etapa no processo normal de seu amadurecimento e de sua realização.

Conscientes de ter vivido por alguma causa, de ter levado uma vida plena, podem dar sentido e significado espontâneos ao último ato de sua existência, a morte. É o modo como alguém vive que qualifica a morte. Há mortes que, para além da inevitável dor que causam aos familiares e amigos, provocam paz, agradecimento, vontade de viver seriamente, despertam impulsos para se levantar e sair da superficialidade e da mediocridade.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O modo de viver de Jesus recebe o sim definitivo de Deus e me mostra que a vida entregue para dar vida é o caminho para derrotar a morte e continuar vivendo. No acontecimento infinitamente doloroso da morte de Jesus se revela e se promete o sentido último do viver e do morrer humano. “Jesus morreu de tanto viver”.

Fazer “memória” desta morte é abrir-se para a vida, não somente para aquela vida plena do mundo futuro, mas também a mais profunda qualidade desta vida presente: bondade e esperança lúcidas, solidariedade alegre, compaixão ousada, liberdade arriscada, proximidade santificadora...

Como seguidora de Jesus, não me limito a assistir passivamente o fato da morte. Confiando n’Aquele que é Fonte de Vida, acompanho meus entes queridos com amor e com minha oração, nesse misterioso encontro com Deus. Na liturgia cristã pelos mortos não há desolação, rebelião ou desesperança. Em seu centro, só uma oração de confiança: “Em vossas mãos, Pai de bondade, confiamos à vida do nosso ser querido”. 

E afirmar a ressurreição não é consolo ilusório, nem evasão do compromisso com a história e com a vida. É decisão firme de continuar o projeto de Jesus, de defender a vida onde quer que esteja ameaçada, de arriscar-se pelos mais fracos e excluídos para que tenham vida, curando feridas, levantando corações, semeando esperanças, tirando da Cruz aqueles que nela estão dependurados...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a ressurreição me faz experimentar que esta vida peregrina revela-me como tempo da gestação concedido a cada ser humano para que, dentro desse imenso ventre cósmico, quer na vida ou quer na morte, eu possa sentir sempre envolvida pelo Amor criativo d’Aquele que é sempre Vida. Nesse sentido, “ninguém morre”, pois todos “vivem n’Aquele que vive”.

Portanto, “recordar” (visitar de novo com o coração) os entes queridos que já fizeram a “grande travessia”, me capacita a uma nova visão da morte e a assumi-la como acontecimento que faz parte de minha vida. Afinal, todos morrem, mas nem todos sabem viver. 

- A primeira consequência positiva do “fazer memória” é que a morte me faz viver agradecida: quando tomo consciência da morte, eu me dou conta de que a vida é um verdadeiro milagre, que cada instante aqui deve ser vivido como um presente e devo  saboreá-la o máximo possível, porque não sei quando se acabará. 

- A segunda, é que a morte põe as coisas em seu devido lugar: a morte desloca, sim, mas também realoca, porque me faz tomar consciência daquilo que é o mais importante em minha vida e o que de verdade merece a pena. Ela me faz repensar como me relaciono como uso às coisas, o dinheiro, onde investir a vida, quais são os verdadeiros valores, etc... 

- E por último, a morte me ajuda a tomar decisões em favor da vida e a me comprometer. S. Inácio de Loyola, nos Exercícios Espirituais, aconselha como critério para decidir, me imaginar à hora da morte e pensar qual decisão gostaria de ter tomado. Essa decisão leva irremediavelmente a um compromisso por toda a vida, pois ela me torna consciente de que esta vida passa, e passa rápido, e não quero ficar presa às afeições desordenadas, mas desejo investir toda minha vida em um projeto que me dê sentido e me implique totalmente.

A fé cristã não é masoquista ou sádica quando me ensina a bem morrer. Assim me dá maior responsabilidade diante da minha própria vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
“Fazer memória agradecida” de tantos familiares, amigos ou pessoas mais próximas que viveram intensamente e que, generosamente, partiram e “deixaram um cantinho deste mundo” mais iluminado.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 6,37-40
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Descanse em paz – fx 06
Autor: Frei Luiz Turra
Intérprete: Coral Imaculada Conceição
CD: Vida agora e sempre
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:28





quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Leitura Orante – 30º DOMINGO TEMPO COMUM, 27 de OUTUBRO de 2019



Leitura Orante – 30º DOMINGO TEMPO COMUM, 27 de OUTUBRO de 2019

A IMPIEDOSA LEVEZA DE SENTIR-SE SUPERIOR AOS OUTROS

“...por não ser como os outros homens: 
gananciosos, injustos, adúlteros; nem como esse coletor de impostos.” (Lc 18,11)


Texto Bíblico: Lucas 18,9-14


1 – O que diz o texto?
Na pregação e na prática de Jesus nós nos deparamos com uma espiritualidade que vem de “baixo”,  que brota do encontro com a fragilidade humana. Ele, conscientemente, se compromete com os publicanos e pecadores, com os pobres e doentes... porque sente que eles estão abertos ao amor de Deus.

Os “justos” (praticantes da lei e observantes das normas religiosas), pelo contrário, vivem centrados em si mesmos e são aqueles que entram em permanente conflito com Jesus.

Os “fariseus” são os típicos representantes de uma espiritualidade legalista, distante da realidade humana. Eles não percebem que, observando detalhadamente todas as leis, não estão pensando em Deus, mas sim, em si mesmos. No fundo, não tem necessidade de Deus. Acredita que cumprindo perfeitamente todos os mandamentos por suas próprias forças, tem o direito de exigir de Deus uma recompensa. Não buscam viver o encontro com o Deus de misericórdia; o que mais lhes interessa são os cumprimentos minuciosos das normas e ideais que se impuseram a si mesmos.

De tanto se fixarem sobre as leis, esquecem o que Deus realmente deseja do ser humano, tornam-se frios, insensíveis... e assumem o papel de juiz para julgar o comportamento dos outros. Por isso Jesus os condena duramente, enquanto para os pecadores e fracos Ele se apresenta manso e misericordioso.

A parábola do “publicano e do fariseu” é como o espelho interior que nos desvela (tira o véu), nos ajuda a descobrir e acolher o que somos na realidade. 

Os personagens são muito simples, somente dois, estilizados, quase caricaturados: o “justo” e o “pecador”. Com os dois personagens e uma eloquente imagem na qual se vê refletida a atitude de cada um na oração, Jesus consegue nos colocar diante do espelho de nossa interioridade, desmascarando a estupidez da prepotência e nos animando a ativar a atitude da humildade, a mais humana das virtudes. 

Cada um dos personagens se retrata a si mesmo em seu modo de orar. Porque, diante de Deus, por um lado, vê-se com maior claridade o absurdo de querer se colocar acima dos outros, e, por outro, a humanidade da humildade.

Mas o espelho mostra que os papéis estão invertidos. Aquele que afirma ser “justo” e perfeito cumpridor das leis, na realidade é o desumano. E aquele que se reconhece pecador, prostrando-se ao solo, na realidade é o mais humano. Este, porque “desceu” do pedestal do ego, encontra a reconciliação.


2 – O que o texto diz para mim?
Segundo Lucas, Jesus dirige esta parábola a alguns que se apresentavam serem “justos” diante de Deus e desprezavam os outros. Os dois protagonistas, que “subiram ao templo para orar”, representam duas atitudes religiosas contrapostas e irreconciliáveis. 

Mas, qual é a atitude justa e verdadeira diante de Deus? Esta é a pergunta de fundo.

Quando me vejo demasiadamente legalista, demasiadamente perfeita, exigente, rígida, ansiosa, agressiva, intolerante..., agiria bem me perguntando o quanto do “fariseu” habita em mim.

Na parábola acima mencionada, os dois personagens correspondem a dois aspectos de minha própria pessoa. Vive em mim um eu prepotente, que se considera justo e rejeita todo o imperfeito; é o eu rígido, fruto da exigência, que se identifica com a imagem idealizada de si mesmo e se alimenta do orgulho. Mas junto a ele, e com frequência sufocada, vive “outro eu” que teve de esconder-se porque não se sentiu reconhecido em sua verdade, nem aceito em seus limites. 

Somente quando integrar e me reconciliar com os aspectos que tinha negado ou até rejeitado – o publicano -  poderei alcançar a paz e a harmonia estáveis.  Portanto, meu grande empenho não consiste em ser “perfeita”, mas “completa”. Na medida em que sou mais “completa”, porque aceito de maneira integral toda a minha verdade, vou me tornando mais compassiva e humana.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A parábola me revela que a reconciliação virá por esse lado. Preciso abraçar toda a minha frágil realidade em toda a sua verdade e, a partir dessa humildade, começar a viver em gratuidade e em gratidão. Deus tem mais facilidade de entrar em minha vida pela porta da fragilidade e da limitação; ao contrário, não encontra acesso à minha vida quando estou petrificada em meu perfeccionismo e fechada em minha soberba.

Será justamente a partir da consciência de minha pobreza e de minha negatividade que poderei me abrir à experiência da gratuidade divina; é quando me encontro com mais necessidade de me abrir para cumular dos dons da graça divina.

A parábola me fala da necessidade de acolher o desprezível que descubro em mim, de receber amorosamente em meus braços o pobre “publicano interior”, de contemplá-lo com olhos compassivos e alimentá-lo. Desse modo, irei reduzindo meu abismo interior e avançarei para a totalidade a que Deus me chama em Jesus. 

Em outras palavras, a transformação interior só pode acontecer quando tudo quanto está em mim é referido a Deus, ao Deus que me ama e me conduz à verdade de minha existência.

Tudo quanto penso e sinto acontece na presença de Deus, Aquele que me olha com bondade e compaixão e que vê até o fundo de meus pensamentos e sentimentos.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a humildade é o coração mesmo da mensagem bíblica; ela é a transparente verdade que enobrece e engrandece, porque dá a exata medida de minha fraqueza e limitação. Ela é o segredo da paz interior.

Sei que uma das fontes de angústia e ansiedade é constatar a diferença entre o que pretendo ser, o que gostaria de ser e o que realmente sou.

“A humildade é a verdade” (S. Tereza d’Ávila); ser o que se é nada acrescentar, nada tirar, aceitar seu húmus, sua condição terrosa, suas grandezas e seus limites; maravilhar-se de que esta argila infinitamente frágil seja habitada pela santidade e seja capaz de amar.

“Todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (Lc 18,14).

A humildade, portanto, implica reconciliar com a minha condição terrena, com o mundo de meus  instintos e paixões, com o meu lado sombrio.

Eu tenho necessidade de bastante contato com o chão de minha existência para que o salto para Deus possa acontecer. O caminho para Deus passa sempre pela experiência da própria fraqueza.

Quando não consigo mais nada, quando tudo me foi retirado das mãos, quando sou forçada a constatar que fracassei, aí é também o lugar onde já não me resta outra coisa senão me entregar nas mãos de Deus, abrir minhas mãos e apresentá-las vazias a Deus.

A experiência de Deus nunca é uma recompensa pelo meu esforço, mas sim, a resposta à minha própria indigência. Entregar-me a Deus é a meta de todo caminho espiritual.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Na perspectiva cristã nada se perde; na oração, aprendo a acolher e a conviver com os cacos e fragmentos de minha vida, e a partir daí, com a graça de Deus, posso construir algo novo e surpreendente.

Deixar-me “desvelar” por Deus: quanto há de “fariseu” em seu coração? Quanto há de “publicano”?

Em quê circunstâncias de minha vida transparece o “fariseu” ou o “publicano”?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 18,9-14
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Fragilidade
Autor: Jorge Trevisol
Intérprete: Jorge Trevisol
CD: Amor, mística e angústia
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:15