quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Leitura Orante – 3º Domingo TC, 26 de Janeiro 2020


Leitura Orante – 3º Domingo TC, 26 de Janeiro 2020

JESUS: “COM AS PERIFERIAS NO CORAÇÃO”

“Jesus deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, 
cidade litorânea, nos confins entre Zabulon e Neftali.” (Mt 4,13)


Texto Bíblico: Mateus 4,12-23


1 – O que diz o texto?
Galiléia foi a primeira decisão importante que Jesus tomou no início de sua vida pública. Ele começa sua atividade longe da Judéia, de Jerusalém, do templo, das autoridades religiosas.

Jesus, na Galiléia, encontrou o seu lugar: junto ao mar, nas estradas poeirentas, nas margens... Um “lugar sagrado” que nasceu do seu coração, carregado de afeto, de inspiração, de vitalidade...

Ali, Ele teve suas preferências e elegeu o seu “lugar” entre os mais pobres e excluídos, vítimas daqueles que se faziam donos dos lugares; ali revelou a presença d’Aquele que se faz presente e santifica todos os lugares: o Pai.

Jesus se fez presente nos lugares onde se encontravam aqueles que não tinham “lugar”, os “deslocados”, os socialmente rejeitados e que eram a razão de seu amor e do seu cuidado; fez-se solidário com os “sem lugares” e os convidou a caminhar para um novo lugar: lugar de vida, de comunhão...

Sua missão foi a de reconstruir a identidade das pessoas, devolvendo a elas o seu “lugar”.

Seu ensinamento, cheio de “autoridade”, introduziu uma perspectiva nunca ouvida antes; apresentou uma alternativa que as pessoas mais simples do povo entendiam como revelação do Pai aos pequeninos.

A partir das periferias do mundo, surgiu um canto de vida nova, a sabedoria oculta a muitos sábios e expertos; uma sabedoria que vinha de Deus, desconcertando a sabedoria exibida a partir do centro.

Jesus desconcertou a “sabedoria” do centro a partir da “loucura” da periferia.

Podemos, então, afirmar que Jesus descentralizou o mundo a partir da periferia.

O fato surpreendente é que, em Jesus, Deus não só se fez homem, mas também se fez “margem”.

O próprio Jesus foi “margem”. Belém e Calvário são os dois extremos periféricos – início e fim – de toda uma vida, despojada e pobre.

Todos tinham os olhos voltados para o centro. No templo de Jerusalém era elaborado o saber que ia se expandindo até chegar à menor das sinagogas. No entanto, em Jesus, o Reino de Deus anunciado movimentou-se em direção contrária: subiu a partir da mais baixa periferia, para o centro. Ele começou a falar a partir da margem geográfica, cultural, religiosa e econômica.

Nesse sentido, a vida de Jesus foi “excêntrica”, porque não combinava nem se ajustava com a construção social de todos aqueles que controlavam o mundo a partir do centro.

No entanto, Jesus fez o “centro” da história. Nele, o Pai “nos escolheu antes da criação do mundo”.

Isto quer dizer que o “centro” da história teve seu aparecimento na “periferia”.

Portanto, Jesus descentralizou a história para sempre e situou o surgimento da salvação nas terras excluídas. A ação de Jesus provocou um deslocamento geográfico-social-religioso. 

O centro da história já não se encontra mais em Roma, nem em Jerusalém, e sim na “margem”. Todo aquele que, a partir de então, pretende encontrar-se com Jesus terá de voltar à cabeça e peregrinar em direção às margens, onde estão os prediletos do Pai.


2 – O que o texto diz para mim?
Tendo Jesus se encarnado para sempre nas “periferias” do mundo, porque desejou assumir toda a história a partir daí, também eu, seguidora, tenho de dirigir constantemente o olhar para as “novas periferias”, a partir de onde Ele continua me questionando.

“Êxodo para as periferias”: terra privilegiada, de onde posso contemplar a história e a própria humanidade. A razão mais importante de todo este caminho é a união ao movimento de encarnação de Jesus, decidido pelo Pai como caminho privilegiado para a realização de seu Projeto.

Cada passo na direção das periferias do mundo também é um passo contemplativo em busca do encontro com o Senhor da História, que me chama de “baixo” e de “fora”.

“O discípulo-missionário é um descentrado: o centro é Jesus Cristo que convoca e envia. O discípulo é enviado para as periferias existenciais. A posição do discípulo-missionário não é a de centro, mas de periferias: vive em tensão para as periferias” (Papa Francisco)

Quê significa “fronteiras geográficas e existenciais”? É preciso sair dos limites conhecidos; sair de minhas seguranças para adentrar-me no terreno do incerto; sair dos espaços onde me sinto forte para me arriscar a transitar por lugares onde sou frágil; sair do inquestionável para assumir o novo...

É decisivo estar disposta a abrir espaços em minha história a novas pessoas e situações, novos encontros, novas experiências... Porque sempre há algo diferente e inesperado que pode me enriquecer...

A vida está cheia de possibilidades e surpresas; inumeráveis caminhos que posso percorrer; pessoas instigantes que aparecem em minha vida; desafios, encontros, aprendizagens, motivos para celebrar, lições que aprenderei me fará um pouco mais lúcida, mais humana e mais simples...

A periferia passa a ser terra privilegiada onde nasce o “novo”, por obra do Espírito. Ali aparece o broto original do “nunca visto”, que em sua pequenez de fermento profético torna-se um desafio ao imobilismo petrificado e um questionamento à ordem estabelecida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus começou sua vida pública com um novo ensinamento, rompendo esquemas e modos de viver ditados pelo Templo. Diariamente ouço, leio e me deparo com esta palavra que está tão em moda: inovação; expressão presente em todas as instâncias humanas: empresarial, educativo, social...

Partindo do evangelho deste domingo, posso também fazer esta pergunta: qual é a “inovação do Evangelho”? Que há de inovador, na vida de Jesus, que pode me inspirar?

Com certeza, há uma inovação acima de todas: a paixão de Jesus pela vida, pelo Reino, pelas pessoas, de maneira especial pelas mais excluídas e feridas. Por isso, Jesus inicia sua missão fora dos “espaços sagrados” do Templo; é nas “margens” que Ele, com sua presença inspiradora, ativa um movimento inovador e, ao mesmo tempo, humanizador.

Essa paixão de Jesus se revela em cada passagem do Evangelho, em cada palavra que sai de sua boca, em cada gesto que faz tremer todas as instituições, em cada ação que visa levantar, curar e devolver a dignidade a todo ser humano com quem se encontra. Não há um indício sequer de dogma, de doutrina, de regras, de leis..., a não ser isso: tudo o que faço, vivo e desejo, seja em prol das pessoas, para seu bem e sua felicidade.

A inovação de Jesus está em eliminar da vida todo o peso do legalismo, do moralismo, da culpa..., para fazer emergir o que há de mais humano e divino presente em cada pessoa. A expressão “pescador do humano” deixa transparecer essa inovação mobilizada por Jesus, a partir do mais profundo de cada um.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, seguindo Jesus e deixando-me impactar por sua inovação em favor da vida, estarei, também eu, inovando, quando deixar transparecer uma paixão pelas pessoas, que se manifesta em minha acolhida, em meus gestos, no meu olhar contemplativo, nas minhas palavras mobilizadoras...; trata-se de investir a vida em favor da vida e fazendo os outros se sentirem mais irmãos e mais filhos de um mesmo Pai.

Nesse sentido, Mateus também situa, no início da vida pública de Jesus, o chamado dos quatro primeiros discípulos. Detrás disso, há uma intencionalidade teológica, que busca mostrar Jesus e seus discípulos compartilhando a mesma missão: aliviar o sofrimento humano, com a certeza de que o Reino de Deus tinha chegado. Assim, inicia-se um grande “movimento humanizador”, a partir de baixo, das margens...

Nesse entorno da Galiléia está o futuro do Evangelho; Galiléia é a terra do chamado e, a partir desse lugar, inicia-se também novo caminho do seguimento.

Por isso, os discípulos devem entrar em sintonia com o modo original de ser e de viver de Jesus na Galiléia. É ali que se devem encontrar todos os seus seguidores, para também ali prolongar o movimento iniciado pelo Mestre de Nazaré.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Aquele Desconhecido se aproxima, ainda hoje, do meu mar da Galiléia, que representa os lugares, os afetos, os segredos, os costumes da minha vida cotidiana... ; Ele fixa seu olhar em mim e, com sua Palavra inspiradora, me desafia a transgredir os meus lugares estreitos e entrar em outro mar.

O Evangelho deste domingo faz emergir algumas perguntas que são significativas para a vida cristã:

Eu vivo em processo de mudanças ou continuo sempre igual? 

Meu modo de viver o seguimento de Jesus é sempre criativo ou continua “normótico” (normalidade doentia, sem inspiração, sem afeto...)?

Sou peregrina ou estou ancorada no de sempre? 

Estou me convertendo constantemente para uma vida nova e melhor, ou me contento com uma mera repetição?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 4,12-23
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Quem nos chamou – fx 01
Autor: Pe. José Carlos Sala
Intérpretes: Ana Clara, Ana Paula Ramalho, Fátima Souza, Hemerson Jean , Luiz Felipe, Marcelo Mattos
CD: Há sempre uma luz
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:26

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Leitura Orante – 2º Domingo TC, 19 de Janeiro 2020



Leitura Orante – 2º Domingo TC, 19 de Janeiro 2020

SEGUIDORES DO CORDEIRO

“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29)

Texto Bíblico: João 1,29-34   


1 – O que diz o texto?
Estamos no início de um novo ciclo litúrgico, o “Tempo Comum”, centrado no Evangelho de Mateus; mas, o relato deste domingo é tirado do evangelho de João, que começa com uma imagem forte de João Batista, retomando o motivo do domingo anterior (batismo de Jesus), que hoje é revelado como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Começamos, então, o novo ano afirmando que o sinal de Deus é um Cordeiro; não é a Águia destruidora, nem o Leão furioso que se impõe na selva do mundo, nem o pesado Elefante... O sinal é um Cordeiro que nos conduz ao campo da vida, desde o princípio dos tempos. Jesus, o Cordeiro que se faz presente entre os pequenos, os fracos, excluídos..., e abre caminhos de vida para todos.

Segundo os evangelhos, já não há mais necessidade de sacrifícios de animais, realizados por grandes sacerdotes, porque Deus se fez Cordeiro entre os cordeiros, porque é Graça que perdoa e que ama, e porque os seres humanos podem corresponder, entrando em sintonia com seu amor.

Esta é a experiência fontal: frente a uma religião centrada nos pecados e sacrifícios, o Jesus do 4º Evangelho abre um caminho de graça aos homens e mulheres de todos os tempos; assim, rompe a escravidão religiosa, centrada nas culpas e expiações, e oferece o dom da salvação a todos, sem exceção: judeus e pagãos, cristãos e não cristãos.

No evangelho deste domingo, João Batista não só aponta para quem é Jesus, mas também indica sua missão: “tirar o pecado do mundo”. Tanto no texto grego como latino, “pecado” está no singular. Não se refere aos “pecados” individuais, tais como os entendemos hoje. No evangelho de João, “pecado do mundo” tem um significado muito preciso: é o mundo fechado que rejeita Deus, é o mundo que quer dominar pela força e sacrificar os outros para se impor, é a injustiça e a violência que se expressam nas diferentes formas de intolerâncias e preconceitos, é a humilhação que desumaniza a todos...

Trata-se do “pecado de raiz”, a opressão que, enraizada nas estruturas sociais - política - econômicas religiosas, atrofia o ser humano, impedindo-o desenvolver-se como pessoa e como ser de relações. Todos os demais pecados se reduzem a este. 

O dinamismo do mal está entranhado no nosso mundo exterior e interior, nos nossos projetos, desejos e ações. A experiência do pecado é de desvio de rota, de frustração da nossa vocação, experiência que nos desumaniza e nos faz viver uma existência vazia; com isso passamos a viver exilados, desterrados...

O modo de “tirar” este pecado não é através de uma morte expiatória. Jesus tira o pecado do mundo destruindo a opressão, ativa e passiva, não pagando a Deus uma dívida que nós tínhamos contraído. Aqui não estamos diante de um Deus ofendido que exige a morte do Filho para satisfazer suas ânsias de justiça. Nada a ver com a experiência do Abbá que Jesus viveu.

O “pecado do mundo” não tem que ser expiado, mas arrancado, eliminado, destruído. Jesus “tira” o pecado do mundo inteiro, reconstruindo as relações quebradas; não aniquila alguns pecados concretos, algumas faltas particulares, mas o “pecado cósmico”, ou seja, tudo o que trava o fluir da vida.


2 – O que o texto diz para mim?
Para o evangelista João, portanto, há um só pecado (a opressão, a injustiça) e um só mandamento (o serviço, o amor). Jesus tirou o pecado do mundo escolhendo o caminho do serviço, da humildade, da pobreza, amando a todos indistintamente até à entrega radical. Esta atitude destrói toda forma de domínio, de injustiça e violência, revelando que a salvação de Deus chegou para todos. Ao abrir o caminho da verdadeira vida, Jesus rompe todas as cadeias que mantinham oprimidas todas às pessoas.

Na perspectiva bíblica, o pecado aparece em primeiro lugar como a ruptura de uma aliança com o Criador, com os outros e com as criaturas. Não se trata de uma mera infração, uma quebra de lei, nem mesmo de uma falta contra a mim mesma, mas sim de quebra de uma relação de amor e de amizade. 

Em uma palavra, trata-se de uma recusa a viver e a amar. 

Os horrores do sofrimento que o ódio, a violência, o terrorismo, a injustiça, a exclusão apresentam aos meus olhos, descrevem, em imagens bem vivas, a “experiência infernal” que a humanidade vive. Elas estão aí, onipresentes, como pesadelo assustador diante de minha vista, veiculado diariamente pelos meios de comunicação. É a consequência da resistência do meu mundo em deixar-se transformar pelo amor redentor do Senhor; são expressões do fechamento da humanidade à proposta de vida do Criador, alimentando o dinamismo de morte, presente em seu interior.

É a partir daqui que o relato evangélico deste domingo desperta em mim a tomada de consciência de uma “história de pecado”: história de desintegração, de divisão, de desumanização... 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Meu drama é perder a memória de que sou parte do todo: ao distanciar-me do Deus Criador rompe a relação cordial com todos e caio num devastador vazio existencial. O “auto-centramento”, sem levar em conta a rede de vida que me envolve, provoca a quebra da “religação com tudo e com todos. 

São as “amarras sociais” que me prendem, atrofiam minha liberdade, bloqueiam o fluxo da vida divina e matam o impulso de “expandir-me” em direção aos outros e à realidade que me cerca. 

Este é o veneno que me corrói por dentro: petrificação de minha interioridade, a perda do gosto pela verdade, pelo belo e pelo bem, o extravio da ternura e da transcendência, a atrofia da comunhão com o todo cósmico, o esvaziamento dos encontros...

O pecado – enquanto ruptura de relações – me faz cega e surda diante do mundo da exclusão e da violência. E se há fome e sofrimento ao meu redor, isso já não me impacta. A maldade, a mentira, o preconceito, a intolerância..., não me afetam mais. Não choro mais as dores do mundo que construí e ao qual pertenço; anestesio minha sensibilidade e entro num estado de apatia e indiferença para com o mundo, as coisas e as pessoas. A compaixão está cada vez mais ausente da esfera pública e de minhas relações com o outro diferente e com o outro distante que sofre. 

Aqui está a chave da incapacidade de minha sociedade para responder aos desafios atuais.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o que busco, ao considerar o “pecado da humanidade”, é alimentar o desejo e o compromisso de que o mundo seja novamente o sonho de Deus: lugar onde todas as expressões de vida se encontram, em profunda sintonia. Está em minhas mãos construir outro mundo.

Minha vocação, como seguidora do Cordeiro é a de construir pontes e ser presença reconciliadora em situações de fronteira, colocando minhas energias, minha formação, minha vida a serviço, para criar, alimentar e sustentar os laços humanos, as relações sociais, as estruturas políticas e econômicas que tornem possível a solidariedade entre todos os seres humanos e aponte para um mundo fraterno e justo. 

É aqui, neste mundo, que Deus me chama a estender o seu Reinado, trabalhando cada dia como amiga de Jesus que passa, se compadece, cura, ajuda, transforma, multiplica  os esforços humanos.

Apaixonada por Deus - apaixonada pelo mundo que, em sua diversidade, riqueza, profundidade, fragilidade, sabedoria fala-me e me revela o rosto misericordioso do Deus que se humanizou para humanizar minha vida.

Eu só poderei chegar a ser ponte, em meio às divisões de um mundo fragmentado, se eu tiver feito a experiência do encontro com a Misericórdia reconstrutora do Deus Pai-Mãe.

Desse modo, frente a uma “cultura da morte”, cooperarei com o Senhor na construção de um mundo novo, para uma “globalização na solidariedade”.

A conversão significa, portanto, reorientar a cabeça e o coração para as “margens”, ativar o dinamismo da compaixão, desenvolver uma sensibilidade solidária e assumir lutas em defesa da vida e da dignidade das pessoas: “outro mundo é possível”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Contemplar a realidade com os olhos misericordiosos do Pai e com os olhos dos excluídos deste mundo.

Sentir a dor do Pai e a dor dos excluídos.

Olhar o rosto dos feridos deste mundo; olhar o rosto do Crucificado.

Fazer memória do mundo fragmentado, dividido, desumanizador que clama por reconciliação.

Minha presença, neste mundo, faz diferença? 

Eu deixo fluir, através de todo o meu ser, a vida do Cordeiro? 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 1,29-34   
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Ó cordeiro de Deus – Fx 08
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
Coro: Dalva, Karla, Sueli, Luan, Vanessa, Beto, Betinho, Sonia Mata
CD: Um grito de paz
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 01:06



quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Leitura Orante – BATISMO do Senhor, 12 de Janeiro 2020


Leitura Orante – BATISMO do Senhor, 12 de Janeiro 2020

BATISMO DE JESUS: “tatuado” pelo amor do Pai

“Este é o meu Filho amado, nele me comprazo”.  (Mt 3,17)


Texto Bíblico: Mateus 3,13-17


1 – O que diz o texto?
Começamos o “Tempo Comum” do novo ano litúrgico (Ano A: evangelista Mateus); ao longo deste ano vamos realizar um percurso contemplativo, deixando-nos impactar pelos mais importantes acontecimentos da vida pública de Jesus. É natural que comecemos com o primeiro relato deste percurso, o batismo.

Sem dúvida, foi a experiência decisiva na vida de Jesus. Ali, Ele tem clareza de ser o Messias, enviado pelo Pai, a serviço do Reino. 

Jesus mergulha no rio Jordão e, ao sair das águas, experimenta uma “teofania” (manifestação) que revela seu mistério mais profundo e que antecipa sua Páscoa. Jesus é proclamado oficialmente o “Filho amado do Pai” e sobre Ele desce o Espírito. 

Jesus se sente verdadeiramente o Filho amado do “Abbá”, e o batismo deixa claro que o motor de toda sua trajetória humana é obra do Espírito.

Nesse sentido, o Batismo revela-se como um momento chave no percurso de Jesus, marcando-o para toda sua vida; marcou sua experiência de Deus; marcou a experiência de si mesmo e marcou o caminho que tinha adiante.

Em Jesus, essa tomada de consciência de quem é Deus n’Ele, foi um processo que não terminou nunca. O relato do batismo está nos falando de um passo a mais, embora decisivo, nessa tomada de consciência.

O que a cena do Batismo nos relata é uma autêntica conversão de Jesus, o que não quer dizer que vivia uma situação de pecado, mas um profundo despertar de sua missão, em seu caminhar para a plenitude.


2 – O que o texto diz para mim?
Pela primeira vez, em sua condição humana, Jesus sente a confissão do Pai sobre Ele; confessa-o como Filho. E lhe marca com os sinais do amor:Este é meu Filho o amado, no qual eu pus o meu agrado”.

É a experiência messiânica fundante que marcará para sempre: júbilo, confiança, disponibilidade, fé profunda, fidelidade total, docilidade incondicional ao Pai e a seu desígnio de salvação.

Em seu batismo, Jesus ficou como que “tatuado” pelo amor do Pai. E por isso viveu numa total liberdade de espírito. Não importava se o rejeitavam, pois Ele se sentia profundamente unido ao Pai. Não importava se o criticavam, pois Ele se sentia marcado pelo amor do Pai. Não importava se os seus lhe abandonavam, pois Ele se sentia “tatuado” pelo amor do Pai.

Jesus quer viver sempre sendo Filho amado, que ama a seu Pai e, portanto, que ama o que seu Pai ama. Quer deixar-se apaixonar por aquilo que seduzia o coração do Pai: a vida da criação, a vida digna dos seus filhos e filhas, a quem também deixa transparecer um amor de predileção. 

Essa experiência de ser “o Filho amado” será sua força vital durante toda a vida de Jesus. E essa também deveria ser a experiência do (a) seguidor (a) d’Ele: ser alguém “marcado como o (a) amado (a) de Deus”. Quando descobre este sinal e esta “tatuagem” de ser também ele (ela) “o (a) amado (a), o (a) predileto (a) de Deus”, então descobrirá o que é ser cristão (â), compreenderá sua fé, entenderá as exigências do Evangelho, acolherá o grande mandamento do Amor: “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado”. 

Para amar como Ele amou, antes é preciso fazer a experiência de sentir-se amado (a) pelo Pai.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Deixando-se conduzir pelo Espírito, Jesus se encaminha para a plenitude humana, marcando-me o caminho de minha plenitude. Mas, é preciso ser muito consciente de que só nascendo de novo, nascendo da água e do Espírito, poderei ativar todas as minhas possibilidades humanas. Não sigo Jesus a partir de fora, como se tratasse de um líder, mas entrando, como Ele, na dinâmica da vivência interior, onde o Espírito atua com liberdade. Daí em diante, tudo o que eu disser e fizer será a manifestação continuada do Reinado de Deus, que experimento em mim mesma.

Deus chega sempre a partir de dentro, não de fora. Minha mensagem “cristã” de doutrinas, normas e ritos, estão muito distante daquilo que Jesus viveu e pregou. O centro de sua mensagem consiste em convidar todos os homens e mulheres a ter a mesma experiência de Deus que Ele teve. Depois dessa experiência, Jesus vê com toda claridade que essa é a meta de todo ser humano e pode dizer como disse a Nicodemos: “é preciso nascer de novo”. Porque Ele já havia nascido da água e do Espírito.

Deus quer suscitar vibrações novas em minha vida e sua Presença instigante desperta em mim o grande desejo de entrar em sintonia com Seu coração. Abrir os olhos e os ouvidos à Presença e à ação de Deus me faz ficar atônita fascinada e sensível à voz divina que cada dia ressoa em meu interior.

Talvez Ele precise colocar outro ritmo em minha existência, que me permita estar atenta e à escuta das surpresas que a vida desvela. A mim corresponde me mobilizar e estar atenta aos movimentos do Seu Espírito e dos acontecimentos.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a experiência do batismo de Jesus também é importante para mim e para compreender o verdadeiro sentido de minha vida.

As raízes de minhas histórias podem estar marcadas pelo amor ou pelo desamor. Quando estas raízes estão marcadas pelo amor, cresço em harmonia comigo mesma, em harmonia com os outros e em harmonia com o mundo. Quando minhas raízes estão regadas pelo amor cresço com segurança em mim mesma com confiança nos outros e minha vida passa a adquirir o sentido da unidade interior.

Somente aqueles (as) que mergulham nas águas do perdão, da compaixão, do amor solidário..., saem marcados pelo Espírito e confirmados na filiação. 

O mundo seria diferente se as pessoas, rompendo o medo e a insegurança, se atrevessem a sair dos seus moldes, dos seus hábitos arcaicos, das suas maneiras atrofiadas de pensar, sentir, amar...

Recordando os inícios do cristianismo, com João Batista submergindo as pessoas no rio Jordão, não posso deixar de dar um destaque especial que também Jesus se submergiu.

Jesus se submerge e experimenta, escuta, sente, adquire lucidez... Essa passagem de Jesus é determinante para que eu possa me abrir a uma experiência nova na vivência do seu seguimento. Aproxima-me ao abraço refrescante de Deus, recebido nas águas. O que para os outros foi purificação, perdão..., para Jesus é de um dinamismo incomparável. Essa experiência O transforma, O faz ir além de si mesmo, rompendo visões estreitas de Deus, quebrando conceitos antigos de religião...

Submergir é sinônimo de deixar Deus, a Vida, trabalhar em mim. A água, com sua força misteriosa, com sua capacidade de gestar vida, é também um símbolo que me move a abandonar o que é arcaico para deixar-me submergir no que é de Deus, nunca antigo, nunca ultrapassado. A água que corre que flui, sempre é nova. Deus Fonte inesgotável: Ruah, ar, alento, espírito, dinamismo, puro fluir.

Encharcada de água, entro no fluir daquele maravilhoso início, quando a Ruah fluía e enchia minha vida de alento e inspiração. Preciso me atrever a submergir de novo, adentrando-me por caminhos desconhecidos, para descobrir meu mapa interior e minha verdadeira identidade: “Filhos e filhas, amados (as) do Pai”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Na musicalidade da vida sentir a regência, suave e delicada, do Grande Compositor, arrancando notas divinas da dispersão caótica do meu cotidiano. 

Sentir a cadência da música divina que vibra, conduz e vivifica. 

Receber, com gratidão, o mais leve toque das mãos providentes e ternas do Grande Maestro.

Aguçar os meus ouvidos e escutar até com os olhos a sinfonia que brota do mais profundo de meu ser.

Fazer memória de minha experiência batismal; renovar, junto ao Jordão interior, meu compromisso batismal.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 3,13-17
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Vida nova através do Batismo – FX 02
Autor: Gilson Coimbra Braga / Renato Parmagnani / Hélio Miguel
Intérprete: Marcelo Mattos
CD: Avancem para as águas mais profundas
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 01:58


terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Leitura Orante – EPIFANIA do Senhor, 05 de Janeiro 2020

Leitura Orante – EPIFANIA do Senhor, 05 de Janeiro 2020

EPIFANIA: Deus se manifesta sempre, 
mas a partir de dentro.

“Ficaram extremamente felizes ao ver a estrela.” (Mt 2,10)


Texto Bíblico: Mateus 2,1-12


1 – O que diz o texto?
O relato evangélico deste domingo é desconcertante: o Deus, escondido na fragilidade humana, não é encontrado pelos que vivem instalados no poder ou fechados na segurança religiosa. Ele se deixa revelar àqueles que, guiados por pequenas luzes, buscam incansavelmente uma esperança para o ser humano, na ternura e na pobreza da vida.

Para além da intencionalidade do evangelista Mateus, o texto contém um profundo simbolismo, carregado de sabedoria. Tudo começa com uma “estrela”. É a luz interior (intuição, insight) que desencadeia o processo de busca e nos põe a caminho. Pode aparecer de maneira inesperada, em qualquer momento e, com frequência, costuma surgir numa situação de crise que, ao remover nossos hábitos, faz com que nos abramos a uma dimensão mais profunda.

Estar a caminho de Belém é fazer a travessia em direção a nós mesmos. Ao buscar uma Criança na Gruta, buscamos nossa verdade mais profunda e original, a verdade interna da alegria e do amor, do sentida da vida, em meio a um mundo no qual a maioria só parece buscar coisas externas, afastando-se de si mesma.

A luz que aqui importa é a tua, a nossa, a minha, ou seja, a de Deus que ilumina o caminho da vida, que nos leva até Jesus e com Jesus nos leva ao Reinado do Pai, que é a plenitude de nossa própria vida. 

Peregrinos, são todos, mas não em guerra de estrelas (star-wars) e sim em um caminho messiânico que leva ao ouro, incenso e mirra de Belém, que é o sinal da verdade da vida.

Trata-se sempre da voz do desejo que nos habita, e que não é outra coisa que expressão de nossa verdadeira identidade que nos chama para “voltar a casa”.

Com efeito, o caminho no qual o desejo nos introduz é o caminho da verdade; a estrela sempre conduz à verdade. E sabemos ou intuímos que a verdade vai nos desnudar de tudo aquilo que havíamos absolutizado.

Por esse motivo, é importante que nos perguntemos se realmente buscamos a verdade..., ou nos conformamos com qualquer coisa que a substitua.

A estrela não tem outra finalidade que a de conduzir-nos a “casa”, nossa gruta interior. Mas, apenas iniciamos o caminho, aparecem às dificuldades: os apegos que não estamos dispostos a soltar, as formas de viver que se fizeram habituais, o medo do incômodo que toda mudança supõe, o susto diante do desconhecido... e, em último termo, a ignorância básica que nos faz acreditar naquilo que não somos e nos mantém acomodados na noite da insatisfação existencial.


2 – O que o texto diz para mim?
Os Magos (sábios) do Oriente são símbolo do ser humano em sua busca de Deus, em seu desejo de infinito e plenitude. Esta é a “impressão digital” de artista que Deus deixou em cada ser humano: a saudade do divino, do sublime, do infinito, do pleno, do Outro.

A estrela simboliza a força dos desejos mais profundos do ser humano (no latim, a palavra desejo “desiderium”, contém a raiz “sid”: sideral, firmamento, horizonte). Portanto, quem deseja transgride as estreitas fronteiras da vida e se deixa conduzir para além de si mesmo; quem não ativa os desejos profundos, limita-se a vegetar, a cercar-se de proteção, a buscar segurança... atrofiando a própria existência. Só os nobres desejos, presentes em meu interior, alimentam o espírito de busca, acendem a criatividade e me move ao encontro do novo e do diferente. 

Se eu levasse a sério o movimento de “saída” dos Magos, muitas coisas poderiam mudar: o interior de mim mesma, meu entorno mais próximo, a estrutura social, as igrejas, as religiões, a ecologia...

O “quê” da questão não está nos verbos senão no sujeito ativo que gera o ato de sair, buscar e encontrar.

Como os Magos, preciso ativar a capacidade de abrir a janela que me conecta com a vida dos outros e me permite continuar interessada, com paixão e com lucidez (para ter boas fontes de informação), por tudo aquilo que está ocorrendo em meu convulsionado mundo. Visitar ambientes que talvez nunca tivesse ocasião de conhecer, sair de meus espaços rotineiros e conhecidos, abrir-me às surpresas da vida...

Os Magos perguntam àqueles que podem ajudá-los. Hoje preciso dialogar com mais profundidade. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Todo ser humano é aventureiro por essência; com ardor, ele anseia por uma causa última pela qual viver, um valor supremo que unifique a multiplicidade caótica de suas vivências e experiências, um projeto que mereça sua entrega radical. Para dar sentido à sua vida e realizar-se como pessoa, o ser humano necessita da auto transcendência, isto é, viver para além de si mesmo, de seus impulsos, caprichos, interesses.

Ele carrega dentro de si à sede do infinito, a criatividade, a capacidade de romper fronteiras, os sonhos, a luz... Portador de uma força que o arrasta para algo maior que ele, não se limita ao próprio mundo; traz uma aspiração profunda de ser pleno, de realização, de busca do “mais”...

O desejo do encontro é força determinante para manter acesa a chama da dinâmica da busca. É uma chama que se mantém acesa em proporção ao sentido e à grande importância de quem ou do que se busca. Vale a pena buscar o que é importante e encontrar Aquele que responde às razões mais profundas da busca.

Os Magos ensinam como devo me mobilizar para viver esse deslocamento (geográfico, interno, social...) para acolher intensamente a surpresa do encontro: caminham em busca, observam os sinais com atenção, desfrutam o trajeto com alegria, porque a alegria consiste em caminhar para o outro, entram no lugar onde Maria já oferece o ambiente aberto... É interessante notar este detalhe do texto do evangelho: “viram o menino com Maria, sua mãe” (v. 11); tudo indica que o tinham em frente, no centro, como o mais importante. Maria põe o Filho fácil de ser encontrado. Nem sequer perguntam por Ele, já o descobrem imediatamente. Não estabelecem diálogo com a mãe. Vão mudos e diretos ao objetivo. Posso aqui intuir o regozijo de Maria, pois sua felicidade é que a humanidade descubra seu Filho como ela o descobriu.

Uma vez dentro, os visitantes se prostram, se abaixam, reconhecem, identificam, adoram. Em seguida abrem seus cofres e oferecem seus presentes.

O relato diz que os magos levaram ouro, incenso e mirra. A meta, para a qual aponta a voz do desejo, requer desapego e desprendimento de meus “tesouros”. E isso só é possível quando compreendo que aquilo à qual me havia apegado se esvazia diante da verdade d’Aquele diante de quem estou.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Procuro Senhor, neste dia festivo, seguir os passos do processo de busca e encontro manifestação que os Magos experimentaram. Eles buscavam o Rei dos judeus porque “viram sua estrela”, e o encontram em um menino, em casa, com sua mãe, Maria. Descobrem o divino no humano mais frágil. Este é o núcleo da mensagem do relato da Adoração dos Magos. O divino está no humano. Quanto mais humano mais divino. 

Como os Magos, também eu sou buscadora de Deus. E, como eles, devo me perguntar: a quê Deus busco? Onde o encontro? Como é possível saber que de fato o encontro?

A Epifania consiste no encontro com Recém-nascido em Belém; o reconhecimento recíproco transforma os Magos em testemunhas vivas da Boa-Nova. Transformados, eles mesmos se tornam Boa-Nova e assim anuncia, em diálogo vivo, a Luz das nações.

Epifania é deter-me a contemplar aquela Criança, o Mistério de Deus que se faz homem na humildade e na pobreza; mas é, sobretudo, acolher de novo em mim mesma aquele Menino, que é Cristo Senhor, para viver de sua mesma vida, para fazer que seus sentimentos, seus pensamentos, suas ações, sejam meus sentimentos, meus  pensamentos, minhas ações. Celebrar a Epifania é, portanto, manifestar à alegria, a novidade, a luz que o Nascimento de Jesus trouxe e que afeta toda a minha existência, para ser, também eu, portadora da alegria, da autêntica novidade, da luz de Deus aos outros.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Em sua aparente simplicidade, o relato dos Magos me apresenta perguntas decisivas: diante de quem me ajoelho? Como se chama o “deus” que adoro no fundo de meu ser? Como cristã, adoro o Menino de Belém? Coloco a seus pés minhas riquezas? Estou disposta a escutar seu chamado para entrar na lógica do Reinado de Deus e sua justiça?

O que os Magos despertam em mim, hoje?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 2,1-12
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Revelação do Natal aos Reis
Autor: José Acácio Santana
Intérprete: Coral Acorde Coração
CD: Natividade – Oratório de Natal
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 08:51




domingo, 29 de dezembro de 2019

Leitura Orante – ANO NOVO, 01 de Janeiro 2020


Leitura Orante – ANO NOVO, 01 de Janeiro 2020

ANO NOVO: presença visível do Deus da Paz

“Paz na terra aos homens que o Senhor ama!” (Lc 2,14)

Texto Bíblico: Lucas 2,16-21


1 – O que diz o texto?
Novamente nos encontramos abrindo um Ano Novo: desejado, esperado, buscado...; estreamos e recomeçamos um novo tempo; ocasião privilegiada para aprofundar o sentido do tempo, no qual se desenrola nossa existência. Não podemos fazer a “travessia” em direção ao Novo Ano sem fazer uma reflexão sobre nós mesmos e examinar como estamos fazendo uso de algo tão importante e tão passageiro como o tempo.

No texto bíblico, encontramos duas palavras gregas que traduzimos por “tempo”, mas que tem um significado muito diferenciado. 

“Chronos” é o tempo astronômico que se refere à passagem das horas, dias e anos. Em princípio, é o que estamos celebrando hoje. Trata-se de um tempo que absorve, devora, desgasta, esgota...; ele se torna cada vez mais veloz, fugaz, estressante... Tempo de excessos, com a marca da ansiedade e do estresse; por isso mesmo, gerador de conflitos e tensões.

Com isso, a existência inteira faz-se maquinal e rotineira: é a soma das horas, dos dias, dos anos. Marcados por tradições e hábitos, dialogamos com o possível, o já esperado, o já testado, o “sempre fez assim”...

Corremos o risco de sermos apenas imitadores ou repetidores, pois tememos nos perder na busca do novo; as respostas são confirmadas, mesmo que estas estejam velhas e desfocadas e as perguntas são silenciadas. Vivemos restritos ao cotidiano com o anonimato que ele envolve. 

Um tempo assim só é habitado pelo “ego”, não há lugar para o outro. Também Deus não consegue entrar nesses “tempos apertados”.

Aqui, a paz tão desejada, não encontra terreno propício para se tornar realidade.

Outro termo grego referente ao tempo é “Kairós”: este é o tempo humano; é o tempo oportuno, carregado da presença d’Aquele que é o “Senhor dos tempos”.

Trata-se do tempo que nos é dado como dom e como oportunidade para ativar todos os nossos recursos internos.  É o tempo da interioridade, de crescimento no ser. Viver o “kairós” significa sentir o desejo do retorno à espontaneidade, alimentar a aventura na descoberta de um mundo diferente, ativar o impulso à transcendência, proporcionar um clima favorável à paz como dimensão plena da existência humana. 


2 – O que o texto diz para mim?
Viver o “kairós” me faz tomar consciência de que me encontro diante de uma grande carência existencial e que os anjos, na noite do Natal, souberam proclamar aos pastores e à toda humanidade: a presença da Paz. Eles revelaram o significado daquela Noite Santa: o céu e a terra se reconciliam, porque Deus faz chegar à paz e a salvação a todos os seres humanos. A Criação inteira celebra a soberana Bondade e o amoroso Coração do Criador, sendo, portanto, uma celebração da alegria e da paz.

Felizes aqueles (as) que, na Gruta de Belém, se mostram sedentos de paz e justiça, e desperta dentro de si uma fome crescente para tornar realidade à igualdade e dignidade de todo ser humano!

Creio na paz do coração e no empenho por deixá-la transparecer no mundo em que vivo, tão carente de pacificadores.

Paz, um bem escasso, mas tão precioso que é sempre desejado e buscado, para que a vida se torne um pouco mais plena e com sentido: paz interior, paz na família, paz nas relações de trabalho, paz na ação política e paz entre os povos.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Muitos se perguntam para onde vai esse mundo, surpreendidos e preocupados pelo crescimento de uma violência desconcertante. Em muitos países triunfam líderes populistas, manejados por forças ocultas sem escrúpulos e marcados por discursos intolerantes, preconceituosos e julgamentos moralistas; a corrupção vai lançando raízes em todos os ambientes; os conflitos e as rupturas se acentuam; a Igreja católica é sacudida por uma grande crise de credibilidade; o sistema de valores e conhecimentos está mudando profundamente. Vivo um momento de um grande colapso civilizatório: uma metamorfose da sociedade que afeta todos os aspectos da vida, pessoal e coletiva, de toda a humanidade. Trata-se, pois, de uma crise global, embora às vezes possa parecer local ou inclusive pessoal. Tudo isso me inquieta, me tira a paz.

Em virtude dessa brutal situação de violência, observa-se em toda parte um grande clamor social pela paz. Esse clamor das multidões está nas ruas, nas grandes passeatas pela paz, nas redes sociais e está no desejo mais profundo de cada ser humano.

Infelizmente, todos os dias aparecem nos meios de comunicação, mais motivações para a violência do que razões para a paz. Entretanto, preciso afirmar: “não fui feita para a violência”; a humanidade não é naturalmente inclinada à violência. Meu coração é habitado por um desejo profundo de paz: “Felizes os que promovem a paz!” (Mt 5,9)


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, na raiz bíblica do termo “shalom” (paz) está a ideia de “algo completo, inteiro”, “estar terminado”.  

Paz significa o que é integral, o que plenifica a vida. Shalom é vida em expansão, na presença de Deus.

Portanto, quem vive no “Shalom” está com saúde, sente-se bem, encontra-se em um estado de plenitude.

Quando alguém deseja “Shalom” a outro é como se dissesse: “Que Deus te conceda todo o necessário para viver em amizade com Ele, em fraternidade com o próximo e calmo dentro de ti mesmo”.

A paz pertence à plenitude, à completude, enquanto a violência está do lado da falta, da carência, do incompleto. Paz reflete harmonia consigo boas relações com os outros, aliança com Deus, enquanto a violência infecciona os relacionamentos, contamina a convivência, quebra as relações, exclui os mais fracos...; há uma paz falsa que é a injustiça estabelecida, porque a verdadeira paz está ligada à justiça. Não há paz sem liberdade, não há paz sem verdade. 

Em Belém, sou pacificada de minhas ansiedades e pressas, de minha sede de poder e de acumular mais; e, se permaneço em silêncio ali, diante do menino deitado no presépio, brotará em mim um desejo profundo de ser mais humana, de ser aquilo que já sou no rosto aberto daquela Criança; ao mesmo tempo, brotará também um desejo de venerar cada ser humano, de contemplá-lo em seu interior, esse lugar ainda não profanado em cada pessoa, o lugar de sua infância e de sua paz. 

Ao me reconhecer nessa morada interior, posso receber a paz cantada pelos anjos diante dos pastores; não só isso: descobrir que, na essência, “sou paz”. Não é a “paz do mundo”, que sempre é oscilante e inconstante, senão a Paz que abraça todas as situações da vida, porque estou enraizada naquilo que realmente sou.

A paz natalina é a paz que sou, no meu “eu” mais profundo.

A paz não é “algo”, nem vem “de fora”, nem é condicionada. A Paz da qual os anjos proclamam é a unidade com minha interioridade: é outro nome de minha verdadeira identidade. 

E diante dessa manifestação, o que me resta? A atitude de Maria: acolher todas as coisas, “guardá-las”, “meditando-as no coração”. Ir mais além dos conceitos e das palavras e, desse modo, descansar – admirada, agradecida, irmanada – no Mistério e deixar-me conduzir por Ele.

“Meditar as coisas no coração” significa ativar o “olhar contemplativo”, presente em mim mesma e que se manifesta quando cesso meu palavreado crônico. Serenada interiormente, serei presenteada com o dom de permanecer no presente, onde tudo está bem, onde tudo flui mansamente e na santa paz.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Que a “entrada” neste Novo Ano me faça descer em direção à minha humanidade. 

Ali, nas grutas de meu interior, recanto de paz, uma infância divina me espera... e me enche de alegria. Ditosa sou se posso saborear e abraçar a paz do coração que o Menino Jesus traz e oferecê-la largamente para que outros possam também receber seu dom: sem defesas, sem preços, sem temores.

Que meu coração, apesar de tudo, continue pulsando em paz, na Paz que tudo cria e transforma!

Como seguidora do Menino Deus deve criar politicamente outro tipo de sociedade fundada nas relações justas entre todos, com a natureza, com a Mãe Terra e com o Todo que me sustenta. Então florescerá a paz que a tradição ética definiu como “a obra de justiça”.

Que 2020 seja, para todos, um Kairós carregado daquela Paz que brota da Gruta de Belém.



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 2,16-21
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Quero ser um fazedor de paz – fx 04
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Deus é muito mais
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:16