domingo, 5 de abril de 2020

Leitura Orante – Segunda-feira SANTA, 06 de abril 2020



 Leitura Orante – Segunda-feira SANTA, 06 de abril 2020

Betânia: casa de encontro, comunidade de amor.  

“A casa inteira encheu-se do aroma do perfume” 


Texto Bíblico: João 12,1-11
+ Prepare-se para a oração, criando um clima de silêncio e escuta amorosa.

+ Concentre a atenção no seu interior: sinta o pulsar do coração e o ritmo da respiração. 

+ Permaneça, por uns instantes, saboreando o silêncio do seu coração, pois onde há 
silêncio, aí está Deus presente.

+ Peça a Deus a graça de poder transformar a sua casa em nova Betânia: casa da 
acolhida, da amizade, da partilha solidária, da convivência sadia...

+ Antes de “entrar em contemplação”, leia os “pontos” abaixo:


1 – O que diz o texto?
Neste início de Semana Santa, o Espírito nos leva a viver Betânia, a ser Betânia, a assumir Betânia:

- casa de hospitalidade e de escuta, onde todos somos irmãos sentados à mesma mesa, junto ao Mestre, o único Senhor, em quem se centra nossa hospitalidade e nossa escuta;

- lugar de descanso, como foi para Jesus, onde encontra humanidade, calor humano, compreensão, alívio;

- lugar de passagem, onde se recupera forças para viver situações de Páscoa; 

- “casa dos pobres” (Beth-anawim): nela, em primeiro lugar, habitam nossas pobrezas pessoais e comunitárias, nossa pequenez e nossa fragilidade; mas, também, onde a dor de nosso mundo, da humanidade, tem lugar e tocam nosso estilo de viver, de nos relacionar, de nos confrontar em nosso seguimento de Jesus;

Jesus, perseguido pelos poderes civil e religioso, vai a Betânia, na casa das suas amigas Marta e Maria e de Lázaro. Mesmo sabendo que a polícia estava atrás de Jesus, os três irmãos receberam-no em casa e ofereceram-lhe um jantar. Acolher em casa uma pessoa perseguida e oferecer-lhe um jantar era perigoso. Mas o amor faz superar o medo.

Betânia é, para Jesus, o lugar da acolhida, da hospitalidade, da escuta, da amizade e do serviço. Ali, Ele expressa as atitudes humanas presentes na cotidianidade de uma família que Ele amava e que O amava. 

Betânia é, para Jesus, um prolongamento de Nazaré, o lugar do cotidiano, do pequeno, do simples: o lugar da revelação. 


2 – O que o texto diz para mim?
Neste ambiente, já não há mais rivalidade entre as duas irmãs, Marta e Maria, mas colaboração e complementariedade. Juntas se fazem transparentes para algo maior que elas mesmas. Certamente Jesus deixou “refletir” em sua vida o que viu fazer estas duas mulheres.

Os discípulos levavam muito tempo com Jesus e nenhum tinha feito com Ele o que estas duas mulheres fizeram. Ninguém lhe havia manifestado gestos de tanto amor. Elas estão totalmente presentes a Jesus; aceitam o que vai acontecer e o acompanham. Marta servindo a mesa e as mãos de Maria acariciando e ungindo os pés de Jesus. E Ele deixando que elas o façam. Um gesto que Judas julgou e a Pedro lhe custou receber.

Marta e Maria expressam sua amizade e fazem com Jesus o que Ele logo fará com seus discípulos no momento de sua despedida: os serve à mesa e lava seus pés. Jesus se deixou fazer, para poder fazer isso com outros e quis tomar para si os gestos destas mulheres para fazer memória de sua vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Impressiona-me que neste relato elas não falam, e expressam todo seu amor “mais em obras que em palavras” (S. Inácio).

Em lugar do cheiro da morte, a casa inteira enche-se do aroma do perfume. O perfume de Maria é o símbolo da vida e do amor de cada um. É um amor que não tem preço e está sempre voltado para os pobres.

Aqui, no centro do Evangelho de João, a comunidade, reconstruída no amor, exala o bom perfume que enche toda a casa.

“À luz de Betânia e de minha realidade quais perfumes derramar para superar mau odor dos meus ambientes?”

O que cheira mal entre em mim seguidora de Jesus: medo do risco e do novo, medo de perder seguranças; medo de equivocar-me, de experimentar outras maneiras de viver;  medo de enfrentar situações desafiantes na sociedade, medo da dor e da morte...

Cheira mal as seguranças petrificadas, o imobilismo. Cheira mal a indiferença e a acomodação, sobretudo diante das necessidades de meu mundo. Cheira mal a desesperança frente a um futuro incerto.

Há um forte mau odor dentro de minha “bolha mofada”; custa-me reforçar laços, alimentar solidariedade, entrar em sintonia com a paixão da humanidade.  Prefiro conservar a arriscar; percebo a inércia e a falta de renovação séria e profunda, uma falta de abertura frente ao diferente, uma perda de tempo gasto em estéreis conflitos entre pessoas, grupos, gerações, dentro de minha família e comunidade.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, detrás destes maus odores, vou tomando consciência do que os causa, isto é, uma série de atitudes, que necessitariam ser trabalhadas com o aroma de Cristo, fontes de vida nova, de libertação e de transformação. Algumas destas atitudes são: individualismo, ativismo, indiferença, preconceito, consumismo, intolerância...

A casa de Betânia se enche do “esbanjamento” do amor, da ternura, da misericórdia frente ao mau odor da violência, da exclusão, do orgulho autossuficiente. 

Junto a Jesus, sou desafiada a esbanjar a vida com Ele, isto é, viver em e a partir da comunhão com o Deus da vida. Viver, em definitiva, como Jesus viveu, ou seja, Ele “derramou”, doou toda sua vida através de um compromisso real para fazer visível o amor de Deus.

Assim na experiência cristã, a vida se “derrama” para tornar visível o amor de Jesus a toda pessoa humana. Um “esbanjamento”, muitas vezes, incompreensível para tantos contemporâneos meu. Eles me lançam um duro questionamento: não seria a vivência cristã uma espécie de desperdício de energias humanas, um desperdício de talentos?


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
+ Ler, com calma, a cena do Evangelho indicado para este dia: João 12,1-11

+ Com a imaginação “fazer-se presente” na casa em Betânia: ver as pessoas, escutar o que elas dizem observar o que elas fazem. Deixar-me “afetar” pelo ambiente simples e acolhedor desta casa.

+ Procurar identificar-me com os personagens desta cena:

- Com Jesus Mestre, fazer-me mais humana e próxima;

- Com Marta, professar a fé e servir na gratuidade;

- Com Lázaro, passar da morte à vida e caminhar na liberdade do Espírito;

- Com Maria, quebrar os frascos e derramar o perfume da escuta e do amor.

+ Enfim, inspirando-me na casa de Betânia, desejar fazer de minha casa: espaço da mesa compartilhada, lugar da unção e do cuidado, ambiente que exala perfume da amizade, da gratidão, do amor... 

+ Fazer a revisão da oração e anotar os sentimentos mais profundos que brotarem na minha visita à Betânia


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 12,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Inquietações da fé – fx-06
Autor: Frei Luiz Turra
Intérprete: Coral Imaculada Conceição
CD: Caminhar sem medo
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:04





segunda-feira, 30 de março de 2020

Leitura Orante – Domingo de RAMOS, 01 de abril 2020


Leitura Orante – Domingo de RAMOS, 01 de abril 2020

RAMOS: a Vida abre passagem

“Este é o profeta, Jesus, o  Nazaré da Galiléia” (Mt 21,11)


Texto Bíblico: Mateus 21,1-11


1 – O que diz o texto?
A vida de Jesus é uma grande subida a Jerusalém; e nesta subida, segundo os relatos evangélicos, Ele desconcertou a todos. Evidentemente, desconcertou as pessoas mais religiosas e observantes da religião judaica: fariseus, escribas, sacerdotes, anciãos... Não só Jesus foi à pessoa mais desconcertante de toda a história, mas nele aconteceu algo também desconcertante. Ele desencadeou na história da humanidade um “modo de viver” que quebrou toda estrutura petrificada, sobretudo religiosa, constituindo um “movimento” ousado, que colocava o ser humano no centro. 

Um movimento alternativo às instituições romanas e à organização sacerdotal do judaísmo; um movimento “marginal” que dava prioridade aos pobres, aos deslocados, aos doentes e excluídos, aos perdedores... e que não tinha nada a ver com uma organização fundada no poder, no prestígio, na riqueza...

Este movimento, desencadeado na Galiléia, chega agora às portas da “cidade santa”, Jerusalém.

Aquele homem que movia multidões por todo o país, por sua pregação e milagres, não é um revolucionário violento. E, no entanto, nem por isso deixa de ser inquietante transgressor e perigoso.

Jesus foi assim e assim Ele viveu; todo o resto lhe sobrava (leis, culto, templo, estrutura religiosa...).

Em nome de um Deus que a todos acolhe e chama que é Pai-Mãe de todos, Jesus transgrediu a estrutura que sustentava uma sociedade fechada, fundada na lei do mais forte e na violência de quem detém o poder. 

Jesus foi um transgressor porque rompeu as fronteiras que foram traçadas pelos poderosos, abrindo um caminho de humanidade a partir de baixo, do lado dos excluídos... Ele não veio para sancionar uma ordem existente, deixando cada um com sua exclusão, senão para oferecer a todos um caminho de humanidade. 

Um transgressor consequente, a serviço da vida e dos últimos.

Como transgressor subiu a Jerusalém; e por isso sua morte será tramada por aqueles que se sentiam ameaçados e sua vida acabará destroçada pelas mãos dos profissionais da morte.


2 – O que o texto diz para mim?
Em Jesus acontece algo totalmente novo; Ele desencadeou um “movimento de vida”; Ele trouxe uma nova maneira de viver e de comunicar vida que não cabia nos esquemas daqueles que estavam petrificados em suas posições e visões.

A novidade de Jesus consistia, justamente, em afirmar que existe um caminho para encontrar a Deus que não passa pelo Templo, pela pompa dos ritos e pela observância estrita das leis. Desse modo, reconhece-se a vida como lugar privilegiado da Sua Presença.

Quem entra em comunhão de vida com Ele, conhece uma vida diferente, de qualidade nova, expansiva...

Isso implica: acolher outras vidas na minha própria vida, abrir espaços para que as histórias dos excluídos e diferentes encontrem morada nas minhas entranhas, na minha memória e no meu coração; descer de minha montaria, como bom samaritano para me aproximar e cuidar das vidas feridas...

A entrada de Jesus em Jerusalém é um chamado à vida. Ele é a Vida que abre caminho por aqueles espaços urbanos, carregados de poder e morte. Vida despojada de vaidade e prestígio, conduzida por um jumentinho. 

Jesus se apresenta sem coroa e sem ornamentos; não tem outra coisa a compartilhar a não ser o amor e o serviço; não vem para governar e impor sua vontade, mas fazer-se irmão de todos. Jesus não busca grandes aclamações, nem aplausos, mas tão somente busca o sentido e a razão de viver.

“Quando Jesus entrou em Jerusalém, a cidade inteira ficou agitada” (v.10). 

“Agitar”: este verbo não traduz bem a realidade: na verdade, a cidade ficou abalada, como se fosse um tremor de terra. Quando Jesus entrou, como Rei messiânico em Jerusalém, a cidade tremeu, como aconteceu com o anúncio do seu nascimento (Mt 2,3) e como será na hora da sua morte (Mt 27,51). 

Jesus, com sua presença surpreendente, sacudiu a cidade de sua “normalidade doentia”, de sua letargia, de seu ritualismo comandado por aqueles que eram os poderosos traficantes da dor e da morte.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus é a Vida verdadeira, a Vida que deseja despertar vida nos outros, para romper com tudo aquilo que a limita. Por isso, o relato deste Domingo de Ramos quer expressar o encontro de uma cidade com Aquele que é Vida e que é fonte de vida em crescente amplitude. Jesus, o “biófilo”, também sonhava com uma Jerusalém acolhedora, espaço da convivência e da paz.

Quando Jesus quer entrar no coração humano, não busca fazer espetáculos. Busca a simplicidade. 

O povo lançava ao solo seus mantos. O que eu deveria pôr como tapete para que Jesus venha até mim caminhando sobre ele? Em vez de mantos, talvez eu pudesse cobrir o solo com tudo aquilo que me sobra e outros necessitam; também eu deveria forrar o chão com minhas debilidades, com minhas resistências, com minhas carências... Porque também minha pobreza pode cobrir de festa o caminho. O caminho de Jesus que vem a mim é também caminho de libertação e cura.

A liturgia deste dia também me recorda que o “espaço urbano” é, certamente, área de missão da Igreja e dos cristãos. Sua principal preocupação deve ser a defesa integral da vida e de seu sentido último, o mundo dos valores éticos que iluminam o homem e a mulher na sua ação no mundo. 

Como seguidora de Jesus, é preciso voltar a pôr o coração de Deus no coração da grande cidade, para renová-la a partir de dentro.

Faz-se necessário uma opção por adentrar e viver imersos, com todas as consequências, no interior dos grandes centros urbanos, em seu coração, para aí descobrir o verdadeiro coração de Deus que pulsa ao ritmo dos despossuídos, dos excluídos, dos sofredores e dos sedentos por uma vida mais digna.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor no meio das cidades encontro homens e mulheres “especiais” que carregam alegremente, e muitas vezes com um profundo sentido crítico e político, a dor da humanidade, e se convertem assim em fator essencial de esperança para um futuro humanizador; são pessoas que prestam sua vida, sua acolhida e seus cuidados aos doentes, aos moradores de rua, aos deficientes, aos anciãos e solitários...

Neste tempo de pandemia do “coronavírus”, devo expressar minha especial gratidão aos “profissionais da saúde” que arriscam suas vidas para que outros possam fazer a “travessia” sem piores consequências.

Sou convidada a viver a mística dos profetas nas grandes cidades. O místico não se cansa de ser sinal de esperança e testemunha do Deus da Vida no meio das contradições da cidade. Na cidade sou chamada a abrir minha casa e estar sempre pronta para receber os desafios que vem da rua.

A ação profética é sempre a busca permanente do outro, além das paredes da própria casa.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Preparar-me para fazer o “caminho da fidelidade” de Jesus, vivendo intensamente os mistérios da Semana Santa, através das celebrações, do silêncio solidário e do compromisso com aqueles que, na Jerusalém de hoje,  prolongam a Paixão de Jesus.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 21,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: O amor é a tua lei
Autor: José Tomas Filho e Fabreti
Intérprete: Marcos
Coral Palestina de Curitiba
CD: Cantos da semana santa
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 01:54





terça-feira, 24 de março de 2020

Leitura Orante – 5º Domingo da QUARESMA, 29 de Março 2020

Leitura Orante – 5º Domingo da QUARESMA, 29 de Março 2020

“E A VIDA SEMPRE TEM RAZÃO...”

“Eu sou a ressurreição e a vida”.
“Quem crê em mim, ainda que morra, viverá.” (Jo 11,25)


Texto Bíblico: João 11,1-45


1 – O que diz o texto?
O quinto domingo da Quaresma é como uma espécie de Monte da visão, de onde podemos contemplar as primeiras luzes da Páscoa e da Vida. Ela ainda não é realidade, mas já podemos ver seus primeiros sinais. O importante é nos perguntar se, de verdade, estamos nos aproximando deste Monte da visão ou, simplesmente, ficamos no caminho, cansados, fatigados ou indiferentes. 

A Páscoa é a nossa verdadeira meta? É o nosso verdadeiro horizonte?

É preciso tomar consciência de onde saímos: lugares estreitos, visões atrofiadas, atitudes conservadoras, ideias enfaixadas, sentimentos carregados de ego, coração petrificado... Ou será que vamos chegar à Páscoa tão escravos como quando partíamos, no início da Quaresma?

Quantas liberdades têm hoje que não tínhamos no começo? 

A CF deste ano nos apresenta como tema: “Vida: dom e missão”.

Sabemos que este caminho em favor da vida é belo, instigante, mas muito arriscado. Aqueles que trabalham em favor da vida, aqueles que tiram homens e mulheres de seus túmulos, são frequentemente perseguidos, porque há interesses em jogo e muitos preferem que as coisas continuem do mesmo modo. Assim diz o Evangelho: “Que morra um (Jesus) para que o “bom” sistema prossiga...” Que morram muitos, milhões, para que o sistema neoliberal continue sobrevivendo. 

É perigoso optar pela vida e testemunhar a ressurreição neste mundo de morte. Há muitos (pessoas e instituições) que preferem manter as coisas assim, traficando com a morte (vendedores de armas, promotores de uma economia que mata etc). O evangelho revela que os primeiros traficantes da morte (“que Lázaro apodreça!”) são os dirigentes religiosos e políticos que controlam o poder a partir da mesma morte.

A única verdade é a que abre espaço de vida para todos, em justiça e paz. O único valor é a vida, cada vida, acima da “santa nação” à qual apelava Caifás, compactuando com o Sacro Império de Roma.


2 – O que o texto diz para mim?
No processo do seguimento de Jesus, ao longo da Quaresma, sou tomada por uma “moção à vida” que me impulsiona a uma “missão em defesa da vida”. Da moção à missão:  este é o dinamismo original deste tempo litúrgico.

Alguém já teve a ousadia de afirmar que a morte é mais universal que a vida; todos morrem, mas nem todos “vivem”, porque incapazes de reinventar a vida no seu dia-a-dia; marcados pelo medo permanecem atados, debaixo de uma fria lápide, sem nunca poder entrar em contato com a vida que flui dentro de si e ao seu redor. Na maioria dos casos, as pessoas passam sobre a vida como sobre brasas: de uma maneira superficial, fugindo do grande sentido da própria existência. Diante do impulso por viver em plenitude, contentam-se em mal viver ou sobreviver. Trata-se de pessoas mortas diante do sentido da vida, ou seja, pessoas alienadas, desconectadas de si mesmas, sem experiência pessoal profunda e sem ter dentro de si a fonte da confiança e do entusiasmo. Criam sepulturas e se enterram.

Quem não sabe por que vive e para quê vive, não pode eleger o como quer viver.

O apelo de Jesus – “Lázaro, vem para fora!” - é um princípio de esperança, mas também de compromisso em favor da justiça neste mundo.

“Lázaro, vem para fora!” Hoje, com muito mais intensidade, é preciso deixar ressoar este grito. Venha para fora, de maneira que não viva mais de mortes, que não viva mais na indiferença e na letargia, envolvida em sudários e vendas, compactuando com a violência e com a injustiça, dando cobertura aos que matam!

Esta expressão – “vem para fora!”- é para todos; tenho de sair de um mundo em que, de um modo ou de outro, me acostuma com as mortes, defendendo mediações e estruturas que atrofiam a vida.

Sair do túmulo significa viver para a vida, na justiça e na solidariedade; que eu possa viver para a acolhida e a concórdia, condenando a violência de um modo radical.

O caminho da vida começa ali onde tomo consciência que não se pode matar ninguém para “manter a própria segurança”; que ninguém se aproveite da injustiça para justificar algum tipo de ação opressora.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Jesus era muito de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro”, e é nessa corrente de vida e amor onde aprendo a força sanadora que as relações têm. Os três irmãos representam a nova comunidade dos seguidores de Jesus; e Jesus está totalmente integrado no grupo por seu amor a cada um. Cada membro da comunidade se preocupa pela saúde do outro. 

A morte de Lázaro se converteu em uma benção para suas irmãs e seus amigos. Depois de atravessarem juntos a experiência dos limites, de reconhecerem-se feridos e de abraçarem a dor, fortaleceram-se os vínculos entre eles, e a amizade pode se expandir.

O amor e a amizade devolveram a vida a Lázaro, recriando esse “tecido de relações” que Jesus estabeleceu com esta família de amigos, em Betânia. 

Vivo também eu um tempo de decomposição social e de relações superficiais. 

Talvez, quem sabe, muitos acontecimentos que me custam viver escondem também uma benção.

As perdas, a dor, a doença..., me aproximam dos outros, me fazem mais solidária. 

Humaniza-me também a ternura, a bondade, o tratar mutuamente com cordialidade... 

O sofrimento e a perda podem me despertar para a dimensão de profundidade da realidade e de mim mesma. Mas preciso passar por um processo de transformação para que o sofrimento e a dor me abram ao Mistério e não me afundem no desespero. 

Jesus vai ajudar Marta e Maria a passar por este processo.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, em chave da interioridade, no relato evangélico deste domingo, “Lázaro” pode significar também aquilo que rejeito em mim mesma, aquilo que deixo enterrado sob uma lápide porque não me agrada; o que ocorre é que tudo o que enterro e reprimo começam a exalar mau cheiro. 

Para começar a viver, é preciso, antes de qualquer coisa, reconhecer o que já está morto em mim (falta de sentido, ego inflado, preconceito, frieza nas relações); reconhecer meu Lázaro interior naquilo que há de positivo e que ainda não foi ativado, porque preferi me fechar em mecanismos egocêntricos; reconhecer meu Lázaro naquilo que me pesa e que é reprimido, ameaçando-me continuamente como uma sombra.

Mas não é suficiente reconhecê-lo. Exige-se também crer na força da vida e no dinamismo do próprio ser habitado por Deus, que me cria constantemente. A partir daí, posso escutar a palavra de Jesus que chama à vida e ressuscita o Lázaro que ainda vive em mim. O que mais preciso é reagir à apatia e à acomodação, a partir da confiança na vida e na palavra de Jesus.

O “ego” é meu principal sepulcro: tudo o que significa culto ao “eu”, todo tipo de egoísmo, narcisismo e individualismo. É a incapacidade para a relação aberta e generosa; é o coração solitário; é aquele que se fecha em si mesmo, se asfixia, morre. No fundo, é o sepulcro do não amor. 

Sei disso: “todo aquele que não ama está morto”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Contemplar o coração de Jesus comovido, sacudido, diante da dor e da morte; assim é o meu coração: feito com as fibras da fortaleza e da coragem, entrelaçadas com as fibras da compaixão e da ternura.

Captar a presença de Deus em minha vida, ficar atenta, desperta, não perdida em tantas coisas que me levem a viver afastada de mim mesma.

Deus é presença calada e respeitosa. No silêncio e no olhar profundo poderei captar os vestígios de sua presença. No amor aos outros, me abrir à densidade de Seu amor.

No assombro diante da vida, sentida em meu interior, perceber em estar mergulhada no Mistério.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 11,1-45
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Jesus só tu és o Mestre
Autor: Maria Luiza Ricciardi, fsp
Intérprete: Emmanuel
CD: Sejamos Comunicação 
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:53




terça-feira, 17 de março de 2020

Leitura Orante – 4º Domingo da QUARESMA, 22 de Março 2020


Leitura Orante – 4º Domingo da QUARESMA, 22 de Março 2020

“DESCER” ÀS ÁGUAS DE SILOÉ

“Vai, lava-te na piscina de Siloé” (Jo 9,6)


Texto Bíblico: João 9,1-38


1 – O que diz o texto?
Tem-se dito, e com razão, que a espiritualidade cristã é uma “espiritualidade de olhos abertos”. 

Na realidade, isso vale para toda espiritualidade genuína, ou, em outras palavras, não seria verdadeira aquela espiritualidade que nos alienasse ou nos isolasse da realidade, em particular da realidade mais dolorida e sofredora. Há motivos para suspeitar de uma espiritualidade que não desemboca na compaixão, entendida esta como a capacidade de entrar em sintonia com o outro que sofre, e que se traduz numa ação eficaz a seu favor. 

A CF deste ano nos apresenta o samaritano como personagem inspirador na nossa vivência da espiritualidade cristã: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”.

Todos nós, de uma maneira ou de outra, somos cegos de nascimento, porque nascemos e crescemos em meio a sistemas sociais e religiosos que domesticaram nosso olhar, nos educaram a ter um olhar avesso e atrofiado. A cura do cego de nascimento, apresentado pelo evangelista João, é o sinal que nos fala daquilo que o Senhor nos oferece: caminhar na claridade do dia. 

Este homem está cego, já que nasceu no mundo fechado e ao longo de toda a sua vida aprendeu a ver com o olho cego da sinagoga. Jesus vai curá-lo através de um gesto de íntima proximidade; não realiza um espetáculo para provocar espanto, nem diz palavras ininteligíveis. Simplesmente agachou-se, cuspiu no chão e com sua própria saliva fez um pouco de barro; com a gema de seus dedos tocou com ternura os olhos do cego e o enviou a lavar-se na piscina de Siloé. É uma cena de reconstrução de uma pessoa quebrada e que nos recorda o primeiro barro com que Deus oleiro criou o primeiro ser humano.

No cego curado se revela a ação permanente de Deus: despertar a luz escondida em nosso interior, ativar a vida para dar-lhe amplitude maior.


2 – O que o texto diz para mim?
Com o relato do cego de nascença, o evangelista João está propondo um processo catecumenal que conduz o ser humano das trevas à luz, da opressão à liberdade, da identidade ferida à identidade reconstruída, da exclusão à participação. Mas, para isso, é preciso deslocar-se, fazer a travessia e descer em direção a Siloé, lugar das águas recriadoras. Este texto remete à experiência fundante da vida. 

O caminho de “descida” é o caminho da vida. Siloé está situada na parte baixa da cidade, afastada daqueles que, na parte alta, controlam e manipulam religião e as pessoas, através da centralidade da lei, do culto, da tradição... Ali não há possibilidade da vida se expandir e se expressar em todas as suas potencialidades. 

O reservatório de Siloé estava situado fora das muralhas, na parte baixa de Jerusalém e recolhia a água da fonte de Guijón e que chegava até ele conduzida por um canal-túnel (daí o nome aramaico de “siloah”= emissão-envio, água emitida-enviada). Era uma maravilha de engenharia, mandado construir pelo rei Ezequias no ano 700 ac, para fazer a água chegar à cidade. 

No final daquele túnel o cego se faz presente, lava-se, assume sua vida, torna-se independente: um novo nascimento. Agora ele começa a acreditar em si mesmo, em seu valor como ser humano, em sua capacidade de ver e de dar direção à sua vida; assume sua condição humana e deixa de se sentir escravo dos outros, controlado por pais e mestres, como um mendigo inútil; na sua liberdade, ele agora pode assumir sua vida, decidir, dizer, afirmar-se... 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Inspirada no evangelista João eu poderia dizer: a doença é a manifestação da perda do contato do ser humano com sua fonte divina. As duas narrativas de cura mais importantes no 4º evangelho, ocorrem no tanque de Betesda e no reservatório de Siloé. Quando o ser humano é separado de sua fonte divina, ele adoece, e a cura acontece, quando esse contato com a fonte interior é reestabelecido.

Para que isso aconteça, Jesus não precisa levar o doente até a piscina de Siloé; bastam o encontro com Ele e a força de Sua palavra para reconectar o enfermo com sua fonte profunda, da qual estivera separado. 

Jesus reconstrói o cego quebrado em sua dignidade, mas motiva-o a assumir sua responsabilidade, deslocando-se ao reservatório de água de Siloé e rompendo sua dependência para com os fariseus e sacerdotes que o oprimiam, mantendo-o preso à sua situação de cegueira existencial. 

O apelo de Jesus é para que o cego seja ele mesmo, em liberdade; com seus gestos e com a força de sua palavra, Jesus despertou no cego a mobilidade e independência.

Nesse sentido, caminhar em direção a Siloé é descer em direção à própria humanidade, ao mais profundo de si mesmo, para lavar-se no manancial das águas puras.

O cego seguiu as instruções, recuperou a vista e atingiu a integridade humana: passou da morte à vida, da opressão à liberdade.

Sei que o ser humano é dotado de recursos internos inesgotáveis. Cada um possui dentro de si uma fonte de forças reconstrutoras, renováveis, resilientes. Mas, muitas vezes, é preciso de um estímulo externo para reconectar com essa fonte. 

Sei e sinto, no mais profundo, o que é mais saudável e vital para mim, porém preciso do encorajamento externo para voltar a confiar em minhas próprias potencialidades.

O evangelho deste domingo me ensina o caminho através do qual desço a uma dimensão mais profunda e assim chego à corrente subterrânea; aqui experimento a unidade de meu ser; aqui é o lugar da transcendência, onde minha transformação realmente acontece.

Tal experiência significa abertura, dilatação do coração, expansão da consciência ao ver que tudo parte de Deus (Fonte do rio da vida) e tudo volta para Deus (rio que mergulha no Mar).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a experiência de oração, junto à Piscina de Siloé, me conduzirá à outra fonte, aquela que brota do coração, e que estava ressequida, impedindo-me de reconhecer o murmúrio da água viva.

Sentada à beira da fonte silenciosa, poderei, também eu, atingir experiências imprevistas e surpreendentes, ou reconhecer, através do murmúrio das águas, “vozes novas” que me incitam a peregrinar para as regiões desconhecidas do meu próprio interior. Só assim, poderei vislumbrar o outro lado e tocar as raízes mais profundas que dão sentido e consistência ao meu viver. 

O manancial de meu ser essencial constitui minha autêntica vida. Descobri-lo, abrir-me a ele, fazer-me transparente a ele e vivê-lo cada dia..., constituem a plenitude de minha realização. 

A “descida” até o mais profundo de mim mesma requer que eu deixe para trás um contexto de competição, de rivalidade e vazio, de fechamento e rigidez, de superficialidade e isolamento...

O encontro com a “água viva”  abre futuro novo, me motivando à tomada de decisões, a assumir um estilo de vida coerente com aquilo que encontro no fundo do meu próprio coração.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Sentar junto à minha Siloé interior.

Mergulhar na “fonte” que corre.

Descer às “águas” do amor do Pai. 

Deixar molhar pelas Palavras do Filho e receber a força e a luz do Espírito.

Na minha vida, o que está bloqueando, impedindo a manifestação das melhores forças,  inspirações, criatividade?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 9,1-38
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Cura-me Senhor e serei curado
Autor: Frei Luiz Turra
Intérprete: Maria Diniz 
Coro: Idalina Miraci, Terezinha Reghellin, Maria do Carmo Diniz, Frei Luiz Turra, Luciano Baldasso e Fabio Cadorin
CD: Cura-me Senhor e serei curado
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:34




segunda-feira, 9 de março de 2020

Leitura Orante – 3º Domingo da QUARESMA, 15 de Março 2020

Leitura Orante – 3º Domingo da QUARESMA, 15 de Março 2020

TEMOS ÁGUA, FALTA-NOS SEDE

“Todo aquele que bebe desta água terá sede de novamente.” (Jo 4,13) 


Texto Bíblico: João 4,5-42


1 – O que diz o texto?
Diante da imagem do deserto, muito presente durante o tempo quaresmal, a sensação é de sede. 

O deserto evoca nossa sede de água e de plenitude. Onde encontrar a água? Como saciar nossa sede?

É cada vez maior o número de restaurantes que dispõem de “cardápio de águas”. Águas dos mananciais mais puros, dos aquíferos mais profundos, das nascentes mais cristalinas... Água abundante e ao alcance daqueles que podem pagar por ela. Uma água para todas as sedes e uma sede para cada água. 

No entanto, no mais profundo de nosso ser, somos habitados por uma sede que nenhuma água pode saciar: sede de sentido, de plenitude, de vida inspirada e criativa...

Bendita sede que nos mantém abertos a Deus e aos outros! As pessoas que fizeram diferença e mudaram o mundo foram aquelas profundamente sedentas. Amaram essa sede de que fala Jesus: “Se tu conhecesses o dom de Deus...” Pessoas que ativaram a sede de justiça, no deserto de uma injustiça asfixiante; pessoas que suportaram a sede de paz sob forte pressão das fábricas de armas; pessoas que viveram a fundo sua fé em uma Igreja que, com frequência, as deixava sedentas e as colocava à margem. Pessoas que se encheram de Deus porque renunciaram saciar aquela sede com qualquer água.

Precisamos de pessoas, como a samaritana, que nos deem as coordenadas d’Aquele que pode despertar nossa sede, antes de nos dar água.

Jesus, junto ao poço de Jacó, é a viva imagem de um “Deus sedento”, que ama a humanidade até morrer de sede por ela, e que uma esponja molhada em vinagre não conseguirá apagá-la. 

Junto ao poço, nossa pequena sede e a sede de Deus se encontram. Sua sede de justiça confrontada com nossa sede de harmonia; sua sede de misericórdia confrontada com nossa sede de reconhecimento; sua sede de compaixão confrontada com nossa sede de segurança. Não para diminuir nossa sede, mas para ampliá-la; não para menosprezá-la, mas para dignificá-la.

A vida, carregada de obrigações, compromissos, preocupações, rotinas..., onde investimos tanta atenção e energia, pode maquiar ou bloquear as sensações profundas, fazendo-nos perder o contato com nossa sede original e criando um deserto existencial.

Jesus assume nosso deserto; acolhe-o, fazendo-se presente em seus recantos de dúvida, de medo, de solidão. “Dá-me de beber”, ressoará no nosso eu mais profundo. E poderíamos lhe dizer: com a sede que temos nos pedes que sacie a tua sede? A resposta não se faz esperar: é Deus quem tem sede de nós, é Jesus que nos convida a partilhar de nossa água com Ele.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus cansado e sedento, sentado à beira do poço; uma mulher com sede que acode com seu balde para tirar água. Dois sedentos e com a água no poço.  Sedentos os dois de água, mas, possivelmente, os dois também sedentos de algo mais que água. Jesus sedento quer encher de água viva aquele coração cheio de “maridos”; uma mulher sedenta de algo mais que pudesse apagar a sede que seus maridos não conseguiam.

A samaritana chega ao poço, alheia ao que ali lhe esperava e que, na trivialidade de sua vida cotidiana, tudo se fazia previsível: vai somente buscar água com o cântaro vazio para retornar à sua casa com ele bem cheio. Não há mais expectativas, nem outros planos, nem mais desejos.

Mas o imprevisível está esperando por ela, na pessoa daquele Galileu sentado na beira do poço, que inicia uma conversação sobre coisas banais, talvez para não assustá-la: falam de água e de sede, de poços e de velhas desavenças entre povos vizinhos, coisas de todos os dias. 

Jesus começa como o frágil sedento que se atreve a pedir água. A mulher, muito segura de si, sente-se dona do poço, da água e do balde. Subitamente, irrompe a linguagem das “coisas do alto”: o dom, uma água que se converte em manancial vivo, a promessa de uma sede saciada para sempre, um Deus que me busca, fora dos espaços estreitos de templos e santuários.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A samaritana se defende e procura manter a conversa em um nível de trivial superficialidade, fugindo da irrupção do “novo” em sua vida. Mas, no final da cena, o cântaro que era símbolo da pequena capacidade que está disposta a oferecer, permanece esquecido junto ao poço, já inútil à hora de conter uma água viva.

E os dois, Jesus e a mulher, terminam esquecendo-se da sede, da água, do poço e do balde. Duas vidas que se encontram e se comprometem: Jesus, que vai abrindo caminho para chegar ao profundo daquele coração feminino; a mulher que resiste, mas, aos poucos, se abre às palavras daquele homem imprevisível; Jesus, que vai desvelando a mulher por dentro, fazendo emergir seus profundos vazios; a mulher que começa a sentir o borbulhar do manancial em seu coração, encontrando-se com a verdade de si mesma; Jesus que vai se esquecendo do poço de Jacó e vai abrindo uma nova fonte naquele coração de mulher; a mulher que se esquece da água e do cântaro e regressa ao seu povoado gritando o que seu coração encontrara.

O encontro com a mulher samaritana é um belo ícone para descobrir o Mestre da Galiléia que, como um grande mistagogo, vai conduzindo-a ao centro de si mesmo, à profundidade de seu mistério pessoal e à consciência de ser uma “mulher habitada”.

“Descer” ao fundo do poço é a oportunidade para descobrir regiões novas e novos horizontes, para conhecer o reino interior, para encontrar a riqueza profunda e assim experimentar a transformação.

O caminho para uma nova qualidade de vida passa pela descida ao mais profundo do meu próprio poço.

Isso requer coragem para passar por todas as regiões sombrias e chegar ao fundo. Mas essa descida me possibilita descobrir um mundo diferente que não conhecia, ou que havia perdido.

Lá no fundo, encontra-se um bem precioso que posso levar comigo, que me ajuda em meu caminho e que me faz totalmente íntegra e sã.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a Campanha da Fraternidade deste ano, com o tema “Vida, dom e missão”, me motiva a despertar as potencialidades de vida que ainda permanecem adormecidas. É preciso “descer” até às profundezas para descobrir uma nova riqueza que plenificará minha vida; é “descendo” que poderei revitalizar a vida que se tornara vazia e ressequida. É preciso despertar, escavar, avançar em direção ao “manancial” e saber que este não é minha propriedade; ele me é oferecido. Não basta falar de “água viva”, é também necessário “escavar” meu “chão interior”, desbloquear e ampliar o espaço do coração para que o manancial ali presente encontre chance de emergir e dar um novo sabor à minha vida. 

A vida sempre está oculta nas profundezas. A pessoa superficial são aquelas que se confundem com suas ideias, seus apegos, suas falsas seguranças... A pessoa do “eu profundo” é aquela que vive a partir da raiz, da fonte mesma da vida, e deixa vir à tona todas as suas riquezas, dons, capacidades...

O percurso quaresmal “desvela” meu “eu profundo”, o lugar onde habitam os aspectos benéficos da minha personalidade, as boas tendências, as qualidades positivas, os dons naturais, as riquezas do ser, as beatitudes originais, as aspirações de grande fôlego, as ideias força, os dinamismos da vida..., que formam o eixo de minha existência, o melhor de mim mesma, o fundamento de minha verdadeira identidade.

O “tesouro do ser” (certezas, intuições, projetos, valores...), ainda que pareça esquecido, permanece armazenado em sua mensagem essencial, e pode se tornar a força que orienta toda a vida, a sabedoria da própria vida, um lugar de fecundidade, de criatividade, fonte de renovação...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Para eu realizar e desenvolver toda a minha potencialidade, buscar, na oração, cavar mais profundamente, até atingir as raízes de meu ser, o núcleo original de minha personalidade. 

- Diante da presença de Deus, estar aberta ao contato com a minha própria realidade interior, para que venha à superfície aquilo que sustenta e dignifica o meu viver.

- Dirigir o meu olhar para o mais íntimo de mim mesma, onde nascem sentimentos e valores, decisões e gestos..., onde eu sou convidada a me alegrar com os rastros da Graça.

- Deixar-me conduzir pela “sede” de Deus que está enraizada em meu coração.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 4,5-42
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Tenho sede 
Autor: Irmã Míria Terezinha Kolling
Int: Chorus Mutantis
Participação: Adélia Issa
CD: Serei o amor - Santa Teresinha do menino Jesus
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:43