QUEM FOI SÃO PAULO?

 QUEM FOI SÃO PAULO APÓSTOLO?


“Não há mais diferença entre judeu e grego,
entre escravo e livre, entre homem e mulher,
pois, todos vocês são um só em Jesus Cristo.”(Gl 3,28).
                                 

Apresentação

Não é nossa intenção apresentar uma biografia ou teologia completa sobre Paulo, mas somente alguns aspectos relevantes de sua vida  como, por exemplo: quem foi Paulo, onde nasceu, qual a cultura de sua época, como foi sua juventude e educação, algumas hipóteses crítico históricas que, no mundo do estudo da Bíblia, praticamente, já formam um denominador comum, as fontes que nos ajudarão neste estudo, porquê se tornou perseguidor dos cristãos, o que aconteceu no caminho de Damasco, e, por fim, o chamado a uma missão especial, e  a importância da comunidade de Antioquia e Barnabé.  O apóstolo Paulo foi quem compreendeu e interpretou melhor o Evangelho de Jesus Cristo. 
Segundo o documento de Aparecida (n. 273), “Paulo, o evangelizador incansável, nos indicou o caminho da audácia missionária e a vontade de se aproximar de cada realidade cultural com a Boa-Nova da salvação”. Por esse motivo queremos conhecer sempre mais este grande Apóstolo e torná-lo conhecido para que sejamos todos impulsionados a uma mudança radical em nossas vidas, uma mudança que nos faça buscar uma única coisa: O amor de Jesus Cristo! E poder, dizer como ele: “Já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Noemi Dariva, fsp

1. CONHEÇA PAULO DE TARSO

Paulo nasceu no início da era cristã. Seus pais eram judeus que viviam na cidade de Tarso, capital da Cilícia Oriental.

Durante sua vida, Paulo não teve grande fama no mundo então conhecido... Diferente do que aconteceu com Jesus. A literatura greco-romana não menciona Paulo, e a literatura judaica nada fala sobre ele. Seu nome está ausente também nos escritos do historiador judeu: Flavio Josefo. 

Porém, na história do cristianismo, Paulo aparece de maneira singular. Os livros, com comentários de suas cartas, enchem as bibliotecas. Mas esta recepção não foi igual em todas as épocas da Igreja. Alcançou seu ápice com a Reforma de Lutero, e, graças ao protestantismo ortodoxo, conseguiu manter-se! É possível que Paulo nunca tenha estado tão vivo como hoje. 

Os Atos dos Apóstolos, que na sua segunda metade informam, com detalhes, a atividade missionária de Paulo, contribuíram de modo decisivo para que sua lembrança permanecesse viva.

Nos primeiros séculos, no tempo dos chamados Padres Apostólicos, a autoridade de Paulo foi inquebrantável. Inácio de Antioquia louva e cita frequentemente os escritos de Paulo. 

Contudo, predomina a doutrina moral. Raras vezes se comenta o verdadeiro conteúdo teológico da doutrina da justificação.

Agostinho de Hipona radicaliza a problemática e pergunta por que Deus, que concede a um misericórdia, a nega a outro! E só pode responder a essa interrogação fazendo referência através da citação de Paulo aos Romanos 11,13: “Dirijo-me a vós outros que sois gentios! 
Visto, pois, que eu sou apóstolo dos gentios, glorifico o meu ministério.” Agostinho convida todo o cristão não só a aprender de cor e ao pé da letra a palavra de Paulo, mas também tratá-la sempre como o pão divino da alma”.

Descobriu-se também que algumas cartas de Paulo, que chegaram até nós, constam de duas ou até mais cartas do Apóstolo, agrupadas mediante um trabalho de redação. Explica-se este procedimento porque comunidades que possuíam cartas de Paulo,fizeram-nas chegar a outras comunidades a fim de que todas as tivessem. A segunda carta aos Coríntios e a carta aos Filipenses, segundo alguns autores, teriam várias divisões.

O estudo crítico de Paulo teve como objetivo apresentar o ideal do Apóstolo e assinalar sua originalidade. A teologia de Paulo sofreu uma evolução e atravessou várias etapas. Sem dúvida, determinadas questões centrais ocuparam sempre o pensamento de Paulo. 

Questões que se referem a diversos temas de sua teologia e que emergem nitidamente ao comentar as questões de Israel e o significado da Lei. São temas que aparecem em quase todas as cartas, mas de modo especial na carta aos Romanos  e aos Gálatas.

J. Klausner reconstrói tudo o que os judeus de seu tempo pensaram sobre Paulo, e passa logo a tomar uma postura pessoal.  Em sua opinião o judaísmo não podia aceitar em sua totalidade a doutrina de Paulo, embora ele tenha ideias nobres e excelsas. .Klausner as valoriza como genuinamente judias e atribui ao Apóstolo o mérito de haver contribuído para promover a influência sobre a cultura cristã. Ao contrário, Schoeps afirma que a pregação e a teologia de Paulo não são judfaicas.

Nietzsche afirma que o evangelho paulino da cruz e ressurreição de Jesus constituem um escândalo insuperável e chama Paulo de ”falsificador!”. Paulo é a personificação do ódio contra Roma e contra o mundo. É o judeu, é o judeu eterno por excelência. Segundo ele a salvação vem dos judeus. 

O nacionalista Rosenberg falando a partir de uma vertente do racismo, afirma que Paulo “judaizou o cristianismo...”.

Um amante da história afirma que Paulo está no centro, no centro do cristianismo, convidando e desafiando, chamando à fé e estimulando a contrapor, amado e odiado, um apóstolo e testemunha para o qual Cristo é o único que vale.

2. AS QUESTÕES DAS FONTES

Para falar sobre a vida, a pregação e a teologia de Paulo, nós só podemos contar com as cartas que foram escritas por ele. São as cartas chamadas protopaulinas e são sete: a carta aos Romanos, a primeira e a segunda aos Coríntios, a carta aos Gálatas, a carta aos Filipenses, a primeira aos Tessalonicenses e a carta a Filêmon. As outras, as chamadas Deuteropaulinas, se supõe que nasceram depois da morte de Paulo, em círculos de seus discípulos, de suas comunidades, que pretendiam desenvolver e conservar a herança do Apóstolo. Elas são também de grande interesse para captar a vivência das ideias paulinas, porém não as teremos em conta para provar a teologia paulina.

As cartas protopaulinas são cartas que o Apóstolo dirigiu a comunidades fundadas por ele, com exceção da carta aos Romanos e a carta a Filêmon que têm uma posição singular, uma comunidade doméstica, talvez em Tessalônica... Paulo mesmo, em 2Cor 2,4, diz que escreveu várias cartas aos Coríntios.

Para reconstruir a vida e as atividades do Apóstolo, temos ainda, além das cartas, os Atos dos Apóstolos. No momento, interessam-nos somente as tradições sobre Paulo, sustentadas pelo autor; porém, estas são de natureza muito variadas. Vão desde dados biográficos concretos, passando por rotas de viagem, até narrações em estilo de lendas.

Temos que ter presente que Lucas remodelou muito suas fontes e as coloriu com seu próprio estilo, de maneira que se torna difícil saber o que é verdadeiro. Contudo, não podemos nem devemos deixar de lado os Atos dos Apóstolos...

Não podemos esquecer que Lucas, que escreve sua obra três décadas depois da morte de Paulo, sem dúvida, começou seus trabalhos antes, e contou com diversas possibilidades para procurar informações e materiais. Visitou as principais comunidades paulinas e pediu a outras que recolhessem informações para ele. Fez um verdadeiro trabalho de investigação. Devemos exclusivamente a ele determinados dados concretos da vida de Paulo.

Só por meio dos Atos dos Apóstolos sabemos que Paulo era natural de Tarso e que também se chamava Saulo. Temos mais certeza quando se trata de informações que se encontram tanto nos Atos como nas cartas de Paulo. Entre elas, temos a de que Paulo atuou na Macedônia e na Acaia, fundou comunidades em Filipos, Tessalônica e Corinto, de que Éfeso foi um ponto central de sua atuação missionária. Também suas três viagens a Jerusalém, confirmadas por ele, estão narradas nos Atos dos Apóstolos. Para o fim de Paulo (ida a Roma e martírio...), dependemos totalmente dos Atos dos Apóstolos.

3. JUVENTUDE E EDUCAÇÃO

Embora Paulo não nos tenha dito muita coisa sobre sua juventude e educação, olhando o contexto histórico e sociológico em que ele viveu, podemos afirmar que ele nasceu em Tarso, na Cilícia. Informação esta confirmada por três vezes nos Atos dos Apóstolos, quando tem relação com sua vocação e sua relação com o templo de Jerusalém. “Eu sou certamente judeu, de Tarso, na Cilícia, cidade bem conhecida” (cf. At 21,39; 22,3), confessa o Paulo lucano diante do tribuno romano. E Ananias, em Damasco, é encarregado de “ir buscar um homem de Tarso, chamado Saulo” (cf. At 9,11). Também é significativo que Paulo, algum tempo depois de sua vocação, vá a Tarso, onde visita Barnabé (cf. At 9,30; 11,25).

Durante o primeiro milênio, Tarso é conhecida como sede de um reino que controla a região da Cilícia. A cidade de Tarso, muito elogiada por sua cultura e prestigio de seus habitantes, é florescente e poderosa, com fama de metrópole.

Ciente da importância de sua cidade de origem, Paulo pôde dizer, com certo orgulho, ao oficial romano, que estava para introduzi-lo como prisioneiro na fortaleza Antônia, em Jerusalém, um pouco antes de partir para Roma: “Eu sou um judeu de Tarso, da Cilícia, cidadão de uma cidade certamente não sem importância” (cf. At  21,37-39). 

Não se sabe ao certo quando e como a família de Paulo chegou a Tarso. Alguns autores colocam a origem de Paulo em uma localidade da Galileia, chamada Giscala, ao norte de Nazaré. Pertencia à tribo de Benjamim, e emigrou com seus pais para Tarso, quando os romanos tomaram a cidade. Depois os pais o enviaram a Jerusalém para estudar a Lei e frequentar a escola de Gamaliel.

Em Tarso, as culturas marcaram Paulo. A judia, no ambiente doméstico; e a grega, dominante na cidade à qual ele não podia subtrair-se. Paulo era, e continuou sendo, um viajante entre dois mundos.

Provavelmente Paulo nasceu em Tarso nos primeiros anos da era cristã  (entre 1 e 10 d.C.). Sendo assim, Paulo seria poucos anos mais novo do que Jesus. Ele insiste várias vezes em sua ascendência judia. Ele é hebreu, israelita, da linhagem de Abraão (cf. 2Cor 11,22). Em Rm 11,1, completa o anterior: “da tribo de Benjamim”. Em Flp 3,5, recolhe os seguintes dados: “Circuncidado ao oitavo dia, da descendência de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu, filho de hebreus, fariseu na observância da Lei”. Paulo obteve o sinal da eleição de Israel, a “circuncisão, como ordena a Lei” (cf. Gn 17,2).

Se partimos de que a família de Paulo, por ser hebreia, manteve estreito contato com a metrópole, podemos pensar que ele peregrinou a Jerusalém  em diversas ocasiões para celebrar algumas  festas judaicas. O vínculo com a metrópole confere probabilidade à notícia recolhida em At 23,16, de que sua irmã estava casada em Jerusalém. Esta é a única notícia que temos sobre os membros e sua família. Seus dois nomes, Saulo e Paulo, confirmam que ele pertenceu a duas culturas. O primeiro nome só é conhecido através dos Atos dos Apóstolos que prefere a versão grega, isto é, Saulo, mas que oferece a forma original quando se refere à sua vocação, sobretudo na pergunta: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (cf. At 9,4; 22,7). Não se sabe ao certo por que lhe colocaram o nome Paulo, que não era frequente entre os romanos.

Seus pais devem ter pertencido à classe média. Deduzimos isto por terem procurado dar uma formação acadêmica a seu filho, como demonstra o nível de suas cartas. Também o ofício de artesão tem algo a ver com sua cidade natal, seja que ele aprendera nela, ou que seu pai lhe tenha ensinado a  profissão dele. Um pai judeu era obrigado a ensinar a seu filho a Torá (Lei) e  um ofício. Ele não só fabricava lona, mas também confeccionava mantas, roupas, chapéus e selas para montar, com a pele das cabras, que eram abundantes na Cilícia.

Segundo At 22,23-29, Paulo era cidadão romano por nascimento. Isto significa que ele herdou de seus pais a cidadania romana. Somente os Atos dos Apóstolos nos transmitem este dado. Porém, dificilmente podemos colocar em dúvida isto porque somente um cidadão romano podia recorrer a Roma, em caso de litígio.

4. PERSEGUIDOR DA IGREJA DE DEUS

Na perspectiva autobiográfica, ditada por Paulo, em uma de suas cartas, enviadas à Igreja de Corinto, ele se coloca entre as primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus Cristo. 
A lista das testemunhas se abre com o nome de Cefas, que faz parte do grupo dos “Doze”. 
Em seguida, vem a menção de um segundo grupo de “quinhentos irmãos”, depois vem Tiago, e então se fala de “todos os Apóstolos”.

A experiência pessoal de Paulo se liga a este último grupo, apresentado nos seguintes termos: “Em último lugar, apareceu a mim, que sou um aborto. De fato, eu sou o menor dos Apóstolos e não mereço ser chamado Apóstolo pois persegui a Igreja de Deus” (cf. 1Cor 15,8-9). Nessa declaração paulina percebe-se a tensão entre a sua consciência de ser ”apóstolo”, plenamente legitimado pela experiência de encontro com Jesus Cristo ressuscitado, e a lembrança de seu passado, como perseguidor da Igreja de Deus. A imagem que Paulo tem de si mesmo como “apóstolo” de Jesus Cristo se coloca no pano de fundo da sua atividade anterior contra a Igreja.

A breve auto confissão de Paulo levanta algumas perguntas sobre a possível reconstrução do perfil biográfico de Paulo como ex perseguidor da Igreja de Deus e Apóstolo de Jesus Cristo. Em que sentido ele perseguiu  “a Igreja de Deus?” Qual seu papel nessa ação persecutória? O que devemos entender com a expressão “Igreja de Deus?” Refere-se a todas comunidades cristãs da primeira geração, ou apenas àquelas de matriz hebraica situadas em Jerusalém? Como avaliar este testemunho direto de Paulo, comparado com outras informações encontradas em suas epístolas e nos Atos dos Apóstolos? Essas são algumas questões, as quais pedem uma investigação que dê consistência histórica à imagem tradicional de Paulo “perseguidor da Igreja de Deus”, chamado a ser Apóstolo do Evangelho de Jesus Cristo.

Paulo não nos revela a qual comunidade concreta perseguia, mas surpreendentemente ele fala logo da comunidade/Igreja de Deus: “Persegui a Igreja de Deus” (1Cor 15,9); “...com que excesso perseguia a Igreja de Deus” (Gl 1,13). Hoje se está bastante de acordo em que Paulo, ao utilizar a expressão “Igreja de Deus”, usa um conceito que a comunidade de Jerusalém se aplicava a si mesma e que logo se transportou às comunidades vizinhas. 

Assim ele menciona em 1Ts 2,14 as comunidades de Deus, na Judeia, aquelas que os judeus haviam causado os mesmos sofrimentos que os de Tessalônica haviam ocasionado aos cristãos dessa região. Segundo o que foi dito, a perseguição ia contra a comunidade de Jerusalém...mas há necessidade de maior pesquisa.

Queremos ainda dizer algo mais sobre o conceito de “comunidade de Deus”. Este designa o Povo de Deus que se congrega no final dos tempos, que aguarda a vinda definitiva de Deus. Este conceito é encontrado nos documentos de Qumran.

A comunidade de Jerusalém constava de dois grupos: os hebreus e os helenistas. Atos 6,1ss fala de uma disputa que se instalou entre os dois grupos e que levou a constituir um grêmio de sete homens cujos nomes nos comunicam. À frente se encontra Estêvão (At 6,15). Este relato introduz a história de Estêvão. Ela fala de um explosivo confronto entre Estêvão, judeo-cristão  helenista, e membros da sinagoga dos libertos e dos cireneus, dos alexandrinos, dos cilicianos e dos asiáticos (At 6,9). A disputa termina com o linchamento de Estêvão (cf. At 7,54-60). Disso resulta uma perseguição sobre partes da comunidade que fogem para várias regiões da Judeia e Samaria. 

Com o desdobramento da direção composta por sete homens, o grupo dos helenistas, inserido na comunidade cristã de Jerusalém, passa a contar com uma direção própria. O relato dos Atos não expõe claramente este fato porque o autor tem interesse teológico em destacar a vinculação com os Apóstolos. Imaginar os sete varões somente encarregados de atender as viúvas, equivale a desvalorizar em excesso seu significado. A diferença entre hebreus e helenistas se devia essencialmente à língua. Os hebreus, na maior parte, não entendiam o grego. Nem os helenistas dominavam o hebraico e o aramaico. Este fato trouxe a necessidade de estabelecer dois cultos divinos separados, em ambas as línguas. 

Mais: Às diferenças linguísticas se somavam as diferenças teológicas. Esta dificuldade pode ter aparecido antes do problema das viúvas, mas Lucas silencia devido ao seu interesse teológico. Porém, este ponto de divergência emerge com a maneira que os judeus tratam os dois grupos. Perseguem e expulsam os helenistas. Mas os Apóstolos podem ficar, porque estão do lado dos hebreus.

Com estes fatos é possível enquadrar, com maior precisão, a perseguição levada a cabo por Paulo. Como natural de Tarso, ele tinha relação com as sinagogas dos judeus procedentes da diáspora e que viviam em Jerusalém. Aqui teve início o conflito porque também os judeu cristãos helenistas, apesar de todas as críticas, viviam, mesmo assim, ligados ao judaísmo. Quando a perseguição teve início contra eles, também Paulo os perseguia. Os primeiros cristãos judeus abandonaram Jerusalém e se agruparam de novo nas cidades donde haviam saído e fundaram comunidades em Antioquia e também em Damasco. É possível que Paulo tenha centrado sua atenção nestes novos pequenos grupos cristãos que emergiam fora de Jerusalém, na diáspora.

O motivo principal do desencontro aconteceu porque os helenistas, disseminados pelas cidades vizinhas, não só fundavam comunidades, mas também admitiam os pagãos em suas fileiras. Isto significa que eles integravam os pagãos em suas comunidades como membros com plenos direitos.

Por conseguinte, não diferenciavam, como nas sinagogas, os membros de plenos direitos, e tementes a Deus, com privilégios e obrigações diferentes, mas concediam a mesma coisa para todos. O Batismo havia substituído a circuncisão. Com ele se eliminava de fato a fronteira, zelosamente, guardada, entre Israel e os gentios.

Em todos os casos os grupos contavam com argumentos teológicos: para os hebreus, a santidade de Israel; para os pagãos, a salvação ampliada aos gentios, pela cruz e ressurreição de Jesus.

O confronto resultava explosivo especialmente porque os judeus cristãos helenistas, a partir de um ponto de vista oficial seguiam integrados plenamente nas sinagogas. Acontecia também em Damasco, cidade onde Paulo se dirigiu como perseguidor. Numerosos judeus viviam na Síria. Tanto em Antioquia como em Damasco havia grandes comunidades de judeus da diáspora. Oscilam os números que Flávio Josefo dá para Damasco. A cifra estaria entre 10.500 e 18.000.

Lembremos que os damascenos, seguidores do “Novo Caminho” haviam vivido em Jerusalém antes. A intenção que levou Paulo e seus companheiros a atuar nas sinagogas de Damasco, teria sido a de fazer  retornar os dissidentes, e movê-los a desistir de sua concepção da Lei que vulnerava  a santidade de Israel. Com certeza não queriam limitar-se a discutir!... Os tribunais das sinagogas tinham poder para impor penas.

5. A VOCAÇÃO DE PAULO

O que conhecemos sobre a vocação de Paulo ao apostolado está condicionado ao relato um tanto ornamental que nos oferece os Atos dos Apóstolos. Conectando com essa ideia, fala-se também de sua “conversão”... Contudo, teremos uma imagem um pouco diferente, se olharmos o que Paulo fala em suas cartas. 

Partindo dos Atos dos Apóstolos, Paulo nos fala da vocação, em três passagens: At 9,1-13; 22,1-21; 26,2-23.

Observemos que não se fala imediatamente de uma visão de Cristo. Paulo cai por terra (e também seus companheiros). Cristo se dá a conhecer somente mediante a voz que só Paulo ouve. A voz fala em hebraico. O Senhor ordena que Paulo vá à cidade e lá lhe será dito o que deve fazer. Surpreende-nos que ele não recebe uma missão imediata. No capítulo 26,16ss de Atos, aparece esta missão com clareza: “O motivo pelo qual eu apareci a você é este: eu o constituí para ser servo e testemunha desta visão, na qual você me viu, e também de outras visões, nas quais eu aparecerei a você. Eu vou livrá-lo deste povo e dos pagãos aos quais eu o envio, para que você abra os olhos deles e assim se convertam  das trevas para a luz, da autoridade de Satanás para Deus.

Paulo fica cego durante três dias por causa da luz. Durante este tempo não ingere comida nem bebida alguma. Na verdade este não é um relato de uma vocação mas é a história de uma conversão. Ananias, um cristão judeu, de Damasco, vai até Paulo e, ao impor as mãos sobre ele, este recobra a visão, recebe o Espírito Santo e é batizado.

Paulo começa imediatamente proclamar nas sinagogas de Damasco que Jesus é o Filho de Deus. As reações hostis o obrigam a fugir através das muralhas e sair da cidade. Vai a Jerusalém onde debate com os judeus helenistas (cf. At 9,19-30; 22,17-21), diz, sobretudo, que Paulo, enquanto estava orando, durante uma visita ao templo, foi arrebatado em êxtase e viu o Senhor que lhe ordenou não pregar mais em Jerusalém, mas dirigir-se aos gentios.

Se tomarmos ao pé da letra esta tradição, a primeira aparição de Cristo ressuscitado, a Paulo, teve lugar em Jerusalém, e lá foi onde Cristo o encarregou, pela primeira vez, de evangelizar os  gentios. O que precede a esta primeira aparição foi sua conversão a Cristo, passou de ímpio, a temente a Deus: “Agora está em oração”.

Para receber a missão, é necessário, antes de tudo, converter-se e receber o Batismo. Tudo o que escrevemos nos leva a concluir que a tradição de Atos dos Apóstolos nos serve, somente com reservas, para reconstruir  o “sucesso de Damasco”. Podemos afirmar que Lucas esquematizou os Atos e os ordenou. Separou a conversão da vocação...

Se perguntarmos a Paulo pelo sucesso de Damasco, jamais obteremos dele um relato. Limita-se a fazer dele frequentes alusões. Ele dá como errado que suas comunidades já sabem o que aconteceu. Ele pensa no sucesso de Damasco quando fala de seu chamado ao apostolado e se chama “apóstolo por vocação” (Rm 1,1), “apóstolo das gentes (Rm 11,13), ou “apóstolo, não por parte dos homens, nem por alguma mediação de homem, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai” (Gl 1,1).

Vê-se com clareza que ele não viveu como conversão o ocorrido, mas o entendeu como chamamento, como vocação ao apostolado, que o igualava aos outros apóstolos. Sem dúvida, as circunstâncias especiais que rodeavam seu chamamento o fizeram tomar consciência de que ele devia sua existência apostólica somente à graça divina. Nomeia esta graça em vários textos de suas cartas: Rm 1,5; 15,15; 1Cor 3,10; Gl 1,15). Mas em 1Cor 15,10 encontramos a mais linda expressão:  “Pela graça de Deus, sou o que sou”.

O termo revelação aparece em Gl 1, e somente lá a caracterização de sua vocação.Trata-se de fundamentar seu Evangelho. Não recebeu através  de homens o evangelho que proclama, não o obteve pela via da tradição mas através de uma revelação de Jesus Cristo. 

Ao revelar-se Jesus Cristo a Paulo, este recebeu o Evangelho que devia pregar A finalidade da revelação é enviar Paulo aos povos gentios e, com ele, seu chamado a ser Apóstolo, Apóstolo das gentes.

A vocação ao apostolado coincide para Paulo com o chamamento à fé em Cristo. Talvez  ninguém captou como ele a radicalidade  desta vocação. O Apóstolo chegou a entender que triunfar nesta luta era sinônimo de graça. Como cristão e apóstolo sabia não somente que seu cimento era a graça, mas também, que esta o sustentava e transportava. 

A aceitação de Paulo, por Cristo, experimentada no sucesso de Damasco fez com que ele superasse o ódio. O ódio o havia impelido a converter-se em perseguidor. Daí que a revelação de Cristo fora para ele também uma revelação do amor de Deus que o fazia transpor as fronteiras excludentes do judaísmo sem romper com seu povo (cf. Rm 9,1). 

Quando Paulo disse em outra ocasião que o amor de Deus tinha sido derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm 5,5) ou que o amor de Deus nos urge (2Cor 5,14) devemos pensar que também isto tem seu fundamento último na hora de sua vocação.

É improvável que ele tenha sido batizado (9,18). Como Apóstolo chamado sem intermediário por Cristo, Paulo sabia que era iluminado por ele. Com a menção do Batismo, Lucas se adapta ao estilo de seu relato para a conversão. Segundo sua própria confissão, Paulo foi à Arábia, onde permaneceu durante certo tempo (cf. Gl  1,17).

6. PAULO,  DE TARSO PARA O MUNDO

De Jerusalém a Damasco, e em todos os lugares de seu anúncio, nas cidades do Império Romano

Onde ele passou - Onde ele pregou - Nas rotas do Mediterrâneo - Nos caminhos de então - Em qualquer lugar por onde andou - Nós seguimos seus passos - Procurando suas pegadas

“Não há mais diferença, entre judeu e grego, entre escravo e livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo” (Gl 3,28).

JERUSALÉM – Centro religioso dos judeus. O zelo extremo e radical, que se manifesta na não aceitação do cristianismo nascente e na hostilidade diante de sua posição nos confrontos da Lei e do templo. Aprofundamento da Toráh.  Paulo recebe cartas para perseguir os cristãos de Damasco.

DAMASCO – Local de refúgio dos cristãos perseguidos em Jerusalém...

Por que os cristãos se refugiavam em Damasco?

Para evitar as hostilidades dos irmãos judeus.  Damasco era uma cidade grande e eles poderiam se esconder entre a multidão; além disso, era próxima para se transferirem...

O encontro entre Saulo e Cristo a caminho de Damasco ocupa a parte central da narração de Lucas, dando destaque a um episódio crucial, não apenas para Paulo, mas também para toda a história do cristianismo: a luz do céu, a voz do Ressuscitado, a queda por terra, o assombro dos companheiros de viagem... são imagens para representar o que acontece no mundo interior de  Saulo.

No centro de tudo está a pergunta: Quem és tu, Senhor? Lucas considera que Paulo é depositário de uma revelação, que não são as imagens apresentadas (luz, queda etc.) mas uma revelação destinada a iluminar três grandes verdades: a identidade de Saulo que recebe uma nova leitura de si; a identidade de Cristo, que revive a sua Páscoa na comunidade perseguida; a identidade da comunidade, lugar privilegiado no qual Cristo toma forma. A “transfiguração” de Paulo nasce dessa revelação.

Como interpretar aqui o termo “conversão”?

O termo “conversão reporta a uma inversão de rota, uma mudança profunda de prospectiva, uma modalidade nova de ler Deus, a si mesmo e a história.

Por que Paulo vai à Arábia?

A tradição vê nesta viagem uma necessidade de silêncio e de oração por parte de Paulo. O apóstolo parece, no entanto, viver uma primeira experiência  de anúncio... não coroada de sucesso.

TARSO – cidade portuária – domínio romano – Confronto com as outras culturas; cidade onde Paulo nasceu. “Eu sou judeu, natural de Tarso, cidade não insignificante da Cilícia... (At 21,39). “E partiu Barnabé para Tarso à procura de Saulo; tendo-o encontrado, levou-o para Antioquia” (At 11,25-26).

A atividade apostólica de Paulo se desenvolve segundo uma trama linear e clara que está descrita em 3 grandes viagens às quais se acrescenta, no final, a viagem da prisão, de Jerusalém a Roma.   

CHIPRE - Após a morte de Estêvão, “os discípulos foram dispersos até a Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus. Alguns deles, porém que eram de Chipre e de Cirene, falavam também aos gregos anunciando-lhes o evangelho do Senhor Jesus” (At 11,20). 

Barnabé queria levar Marcos junto, na viagem de volta às cidades que haviam visitado, mas Paulo não queria...  “Então houve entre Paulo e Barnabé tal desavença que vieram a separar-se. Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre. Mas Paulo, tendo escolhido a Silas dirigiu-se à Síria e à  Cilícia...” (At 15,39-41).

Por que Marcos abandona Paulo?

Medo... Saudade... Incompatibilidade? Parecem respostas simples que encobrem um problema mais complexo; provavelmente Marcos não está preparado para confrontar-se com a abertura radical de Paulo ao mundo pagão.  Tornar-se aberto ao diálogo com o mundo pagão comporta riscos. O primeiro entre todos é o de caminhar com os pés em duas canoas, aderindo ao Evangelho sem mudar em nada os costumes pagãos precedentes. É o que acontece com  o  procônsul  Sérgio Paulo.

Desde o momento em que os discípulos encontram o Ressuscitado, o convite dirigido a eles é claro: “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações” (Mt 28,18). É este o tormento que Cristo coloca no coração de Paulo no caminho de Damasco: “Levanta-te e fica de pé. O motivo pelo qual te apareci é este: Eu te estabeleci para que sejas meu servo e testemunha desta visão, e de outras ainda nas quais te aparecerei” (At 26,16).

O mesmo tormento invade o coração de Pedro, um dia depois de Pentecostes: “Não podemos calar sobre o que vimos e ouvimos (At 4,20): “Ide... A Igreja deve se mover! A estática não faz parte da natureza da Igreja. Ela deve partir, atormentar-se, dar-se ao mundo: esse impulso vem do próprio Cristo e de seu desejo de alcançar cada coração”.

É significativo apresentar a alma missionária da Igreja, que se manifesta na dedicação dos Institutos missionários masculinos e femininos, no trabalho de uma grande fila de voluntários e famílias missionárias. Exemplo do papa Francisco: “Uma Igreja em saída!...”

ANTIOQUIA -  A comunidade de Antioquia necessita de conforto, quando Barnabé chega, enviado pelos irmãos de Jerusalém. Diante da recusa de reconhecer as pretensões divinas do imperador, a comunidade judaica foi tratada a ferro e fogo. Os primeiros a serem atingidos foram os cristãos. A comunidade ficou sem líder. Barnabé vai a Tarso buscar Saulo. Isto explica também o motivo pelo qual estes procuram Paulo: quem pode consolar uma comunidade perseguida, melhor do que um ex perseguidor convertido?

A comunidade vive um clima muito diferente daquele de Jerusalém. Os judeus ali residentes estão acostumados a conviver com o mundo pagão, e o terreno revela-se pronto para um lançar-se mais corajoso que seria impensável em Jerusalém.  Em Antioquia começaram a pregar também aos gregos... anunciando-lhes a Boa-Nova de Jesus.  

O fato das perseguições leva a uma dispersão que se faz anúncio e testemunho em lugares inesperados. E a comunidade de Antioquia se torna uma das comunidades mães do cristianismo. Como houvesse mais profetas e mestres, o Espírito Santo disse: “Separai-me Saulo e Barnabé para a obra a que os tenho chamado.” E os dois partiram para diversas cidades de gentios...

Barnabé soube viver e conduzir uma das páginas mais difíceis da comunidade de Antioquia, com comportamento justo, confiança e capacidade de construir na esperança. Soube reconhecer o talento de Paulo, encaminhando-o à missão e deixando que lentamente ele se tornasse uma pessoa independente e importante...

Muitas vezes imaginamos Paulo como um caminhante solitário, um anunciador autônomo da força do evangelho, um apóstolo independente de todos... Muito diferente, no entanto, é o perfil que é esboçado pelos textos. Paulo torna-se uma figura de destaque na comunidade cristã, graças às pessoas que se colocaram ao seu lado, compartilhando um trecho de estrada e tecendo relações de profunda solidez. Estêvão incide sobre sua existência com o dom da vida; Ananias lhe restitui a visão acolhendo-o com fé na primeira comunidade cristã; Barnabé o investe com a missão em Antioquia... Essas pessoas foram determinantes na vida e na missão do apóstolo Paulo.

ICÔNIO – Como os judeus não queriam aceitar a pregação de Paulo e Barnabé, eles então se dirigiram aos gentios, porque o Senhor assim determinou: “Eu te constituí para a luz das nações...” (At 13,47) e, sacudindo a poeira dos pés, se dirigiram a Icônio. Como percebessem que os judeus queriam apedrejá-los... fugiram para Listra e Derbe.

CORINTO – Em Corinto Paulo encontra-se com certo judeu chamado Áquila, recentemente chegado da Itália com sua mulher Priscila. Como tinham o mesmo ofício, fazer tendas, foi morar e trabalhar com eles. E ali pregava nas sinagogas persuadindo tanto judeus como gregos...

A comunidade de Corinto nasce sob o signo do desafio. Os passos que levam à formação da Igreja são um tanto expressivos. Inicialmente Paulo apresenta-se na sinagoga aos sábados, propondo-lhes uma leitura da história sagrada à luz de Jesus que ele aponta como o Cristo. As primeiras resistências nascem quando Paulo começa a pregar todo o dia, o que se torna uma ameaça constante. 

Talvez não seja expulso da sinagoga porque o chefe, Crispo, é fascinado por suas palavras. Um dia, porém, as tensões chegam a um ponto que não tem mais volta: os judeus presentes começam a blasfemar o nome de Jesus, e Paulo rompe com a comunidade local. Quando, para sua pregação, escolhe uma casa pagã, próxima à sinagoga, a provocação está feita.  

Pode-se imaginar o que acontece quando Crispo se faz batizar com toda a sua família: a situação torna-se explosiva! Caracterizada pelo dom dos carismas (profecia, línguas, ensinamentos)... Corinto é uma cidade problemática. Paulo envia-lhe várias cartas nas quais transparece um relacionamento atormentado e complexo que se traduz em um desafio para o próprio Apóstolo.

Quantas cartas Paulo escreveu aos Coríntios?

O NT lhe atribui duas. Contudo, a correspondência entre o apóstolo e a comunidade parece ter sido muito mais abundante. Os estudiosos supõem um mínimo de seis escritos (a segunda carta aos Coríntios reunirá várias cartas) das quais duas teriam se perdido.

As comunidades nascidas da ação missionária de Paulo possuem traços específicos pelos quais transparece a riqueza da Igreja das origens e a complementaridade da diversidade.... Neste contexto pode ser significativo refletir-se sobre o tema do ecumenismo e sobre as grandes confissões presentes no rico panorama da fé cristã:

Sintetizando: Igreja católica romana, As Igrejas orientais (copta, siríaca, etiópica, armênia, indiana) e as Igrejas da reforma de Lutero; Igrejas Batistas, Metodistas etc.

CESARÉIA – O Senhor apareceu a Paulo e lhe disse: “Coragem!  Do modo como deste testemunho a meu respeito, em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma.” 

O filho da irmã de Paulo contou-lhe que os judeus estavam tramando uma cilada... não comeriam nem beberiam sem antes matar Paulo... Falou ao comandante e este ordenou a dois centuriões que o enviassem ao governador Félix durante a noite, acompanhado por 200 soldados, 200 lanceiros, setenta de cavalaria, e escreveu uma carta ao governador Félix... dizendo que estava enviando Paulo porque ele apelara para César...

ÉFESO – Da Síria navegou para Êfeso com Áquila e Priscila. Chegando ali encontrou alguns discípulos e perguntou-lhes se haviam recebido o Espírito Santo. Eles disseram: Nem sequer ouvimos que ele existe... Paulo perguntou: Em que fostes batizados? 

No batismo de João, eles responderam... Disse-lhes Paulo: João realizou o Batismo de arrependimento, pedindo ao povo que cresse naquele que viria depois dele, a saber, em Jesus. E eles foram batizados em nome do Senhor Jesus.  Visto que muitos deles falavam mal do Caminho, Paulo afastou-se deles e pregava diariamente na casa de Tirano, onde permaneceu por dois anos. Deus, pelas mãos de Paulo, fazia milagres extraordinários. Êfeso  serve de base para o anúncio do Evangelho nas cidades da Ásia Menor.

De Êfeso partem os missionários para Laodicéia, Colossos, Hierápolis.... Para estas comunidades o maior risco é a tentação do compromisso entre a novidade cristã e a cultura pagã (com seus rituais, a sua mentalidade, o seu estilo de vida). Daí a insistência do Apóstolo em romper com o estilo de vida precedente. A autenticidade da adesão à fé, exprime-se lá onde a vida deixa-se modelar de maneira nova, despojando-se do assim chamado “homem velho”, para vestir a novidade do Ressuscitado (cf. Ef 4,1-5,22).

FILIPOS – Cidade da Macedônia.  Saíram da cidade e foram para a beira do rio procurando um lugar de oração e se assentaram junto às mulheres que para ali haviam se dirigido. Uma mulher, vendedora de púrpura, chamada Lídia, foi batizada e rogou a Paulo que ficasse em sua casa. No caminho para a oração, encontrou uma jovem de espírito adivinhador... Ele pediu ao espírito que a deixasse, em nome de Jesus Cristo, e o espírito a deixou... Os donos da jovem, que ganhavam dinheiro com ela, se revoltaram com o povo... Paulo e Silas foram presos e açoitados... 

Durante a noite houve um grande barulho e abriram-se as portas e soltaram-se as cadeias... O carcereiro despertou do sono e vendo as portas abertas, ia suicidar-se... Então Paulo gritou: Não te faças nenhum mal pois estamos todos aqui... e depois lavou-lhes os vergões e o  batizou  com toda a sua família. 

No dia seguinte os pretores haviam combinado soltá-los, mas Paulo não aceitou dizendo que eram cidadãos romanos.  Os pretores, espantados, rogaram a Paulo que se retirasse logo da cidade. Paulo e Silas voltaram à casa de Lidia e depois saíram da cidade...

TESSALÔNICA – (At 17,1): “Tendo passado por Anfípolis e Apolônia, chegaram à Tessalônica, onde havia uma sinagoga de judeus. Paulo, segundo o seu costume, foi procurá-los e por três sábados, expôs as Escrituras demonstrando ter sido necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos. E este é o Cristo Jesus que eu vos anuncio. Muitos gregos aderiram como também muitas mulheres...”

Os judeus, porém,  movidos de inveja, trazendo consigo alguns homens maus, assaltaram a casa de Jasom, onde Paulo e Silas haviam se hospedado, e procuravam trazê-los para o meio do povo. Porém, não os encontrando, arrastaram Jasom e alguns irmãos perante as autoridades dizendo que Paulo e Silas haviam afirmado ser Jesus outro rei. Contudo, soltaram Jasom e os irmãos após terem recebido a fiança estipulada. Durante a noite os irmãos enviaram Paulo e Silas para Beréia.

Tessalônica é a comunidade que inspirou o primeiro escrito do NT: A Carta aos Tessalonicenses. Essa carta inaugura uma nova estratégia missionária que une ao anúncio do Evangelho uma obra de formação e acompanhamento dos fiéis por meio do escrito e da presença de Paulo e de seus colaboradores. Isso dá provas de uma profunda atenção humana, deixando emergir o lado Pastoral de Paulo. 

Ele compara-se a uma mãe que, com carinho, cuida de seus filhinhos (1Ts 1,2-7), a um pai que,  “exorta, encoraja, repreende” a seus filhos para que caminhem de maneira  digna de Deus (1Ts 2,11-12); a um irmão que reconhece nos tessalonicenses um motivo de alegria e de esperança (1Ts 2,19).

ATENAS – (At 17,13-34): Logo que os judeus de Tessalônica souberam que a palavra de Deus era anunciada por Paulo também em Beréia, foram lá excitar e perturbar o povo. Então os irmãos promoveram a partida de Paulo para o lado do mar. Silas e Timóteo continuaram ali. Os responsáveis por Paulo levaram-no até Atenas e voltaram pedindo a Silas e Timóteo que fossem o mais depressa possível ter com Paulo.

Percebendo a grande idolatria da cidade, Paulo se revoltava, mas continuava pregando nas sinagogas e nas praças entre judeus e gentios. Entre eles havia alguns filósofos epicureus e estoicos que levaram Paulo ao Areópago para que lhes explicasse sua doutrina. 

Paulo então afirma que os via acentuadamente religiosos porque passando e observando os objetos de seu culto havia encontrado também um altar no qual estava escrito: “Ao deus desconhecido”. E afirmou: Pois esse que adorais sem conhecer é precisamente aquele que eu vos anuncio. O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe....  

Quando ouviram falar de ressurreição dos mortos alguns escarneceram, e outros lhe disseram: te ouviremos em outra ocasião... Paulo então se retirou do meio deles.  Houve, porém, alguns homens que creram e se agregaram a ele. Entre eles estava Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Dâmaris e outros mais. De Atenas Paulo parte para Corinto...

Quando se lê o discurso de Paulo em Atenas, fica-se surpresos porque ele não fala da cruz. Parece que propositalmente ele evita este tema, talvez para não cansar a plateia ou para  dirigir uma espécie de pré-evangelização, destinada a preparar os corações  de quem o escuta. O seu discurso é bem cuidado, bem preparado, mas parece que foi um fiasco... 

É difícil saber quais as consequências; porém, sabe-se que depois da experiência de Atenas, a cruz assume uma posição central na mensagem de Paulo e o apóstolo colocará à parte qualquer preocupação ao fazer referência a ela.

RODES – Paulo passou na terceira viagem. Ilha entre Creta e Mileto.

ALEXANDRIA - Na viagem para a Itália, chegando em Mirra na Lícia, embarcaram em um navio de Alexandria que também ia para a Itália, o qual  navegava vagarosamente. Neste ficaram longos dias... e sofreram o naufrágio...

PERGE – Paulo passou na segunda viagem. (At 13,13): “De Pafos, Paulo e seus companheiros se dirigiram a Panfília. João Marcos, porém voltou para Jerusalém. Indo num sábado na sinagoga, Paulo faz a leitura da Lei e os irmãos pedem-lhe que se tiver alguma exortação, que o faça. Paulo então coloca toda a história da salvação... 

Muitos judeus e prosélitos seguiram Paulo e Barnabé. No sábado seguinte afluiu mais gente ainda, mas os judeus com inveja, começaram a blasfemar contra eles. Paulo então disse: “Cumpria que a vós outros em primeiro lugar fosse pregada a palavra de Deus; mas visto que vós mesmos a rejeitais, nós nos volvemos para os gentios... porque o Senhor assim o determinou: Eu te constituí para a luz dos gentios... Ouvindo isto os gentios se regozijaram... Mas os judeus os expulsaram daquela cidade. E eles sacudindo até o pó dos pés foram para Icônio.

DERBE – Paulo passou na segunda viagem. (At 16,1-4): Chegou também a Derbe e a Listra. Havia ali um discípulo chamado Timóteo, filho de uma judia crente mas de pai grego. Quis Paulo que ele fosse em sua companhia e por isso circuncidou-o por causa dos judeus daqueles lugares; pois todos sabiam que seu pai era grego...

Da segunda carta a Timóteo transparece o cansaço do discípulo (Timóteo) em levar adiante o anúncio do Evangelho em um contexto complexo como o de Éfeso. Timóteo parece cansado, incapaz de intervir nas situações problemáticas da comunidade, preso a um sentimento de inadequação, de desencorajamento e solidão. Sobre este pano de fundo, o escrito que Paulo lhe dirige torna-se iluminador para muitos fiéis tentados, como Timóteo, a ceder ao desafio de testemunhar o Evangelho em um contexto complexo como o atual. 

Paulo indica como referência, pelo menos quatro grandes recursos:

1. O primeiro é o do Espírito Santo (cf. 2Tm 1,6-8). Espírito não de timidez ou de covardia, mas de força, de amor e de sapiência. A invocação do dom do Espírito deve acompanhar o anúncio do fiel. 

2. O segundo recurso é a Escritura (cf. 2Tm 3,14-17). O fiel encontra nela a base que plasma a sua identidade e a fonte útil para ensinar, repreender, corrigir, educar....O amor à Escritura entra no mesmo espírito da piedade, que corta pela raiz qualquer tipo de negligência espiritual.

3. O terceiro recurso é o de envolvimento pleno na fé. Paulo não ama meias medidas e oferece a Timóteo imagens concretas de tal envolvimento ativo: imagens militares (o bom soldado de Cristo), imagens esportivas ( o atleta que quer conquistar o prêmio),  imagens agrícolas (o agricultor que trabalha arduamente). Cf. 2Tm 2,1-7. Não há outro modo de cortar pela raiz o sentimento de inadequação.

4. No que diz respeito à solidão humana experimentada por Timóteo, Paulo retoma as relações profundas nas quais ele, como apóstolo, sempre acreditou: convida a saudar Áquila e Priscila, exorta-o a contatar a família de Onesíforo. Depois tem Marcos: “Toma contigo Marcos e traze-o” (2Tm 4,11), tem Carpo: “Quando vieres, traze contigo a capa que deixei em Trôade, na casa de Carpo, e os livros, principalmente os pergaminhos”(2Tm 4,13). Mas sobretudo tem ele, Paulo: “Apressa-te, o quanto antes, a vir ter comigo” (2Tm 4,9).  A mensagem é clara: Paulo convida Timóteo a abrir os olhos e a perceber melhor o que o rodeia. Trata-se de recursos sempre atuais; todos somos chamados a atingi-los para que nossa fé mantenha o dinamismo vital que deve caracterizá-la.

MILETO – Terceira viagem de Paulo – (At 20,17): Em Mileto Paulo manda chamar os presbíteros de Êfeso e faz o discurso de despedida... Todos choram quando ele diz que não verão mais seu rosto pois irá a Roma e não sabe o que irá lhe acontecer...

ANTÁLIA - Antália, antiga Adália, é uma cidade do sul da Turquia situada na região do Mediterrâneo, capital da área metropolitana e da província de Antália. Fica perto de Anatote, ao norte de Jerusalém, cidade de Benjamim, de Jeremias, do Sumo Sacerdote Abiatar e de Ananias. Cidade que está repleta de campos de trigo e de Oliveiras.

Quando Saulo se dirigia a Damasco para prender os cristãos, e recebeu aquela luz que o fez cair por terra... passou por perto. As notícias já tinham chegado ao conhecimento de Ananias, um dos sacerdotes que estavam em Anatote (cf. At 9,10-20). Saulo vinha perseguindo os cristãos com determinação de  um Hitler quando perseguia os judeus!...

MALTA – (At 28,1): “Uma vez em terra, verificamos que a ilha se chamava Malta. Os bárbaros nos trataram com singular humanidade, porque acendendo uma fogueira, acolheram-nos a todos, por causa da chuva que caía e por causa do frio.” Quando Paulo estava ajuntando uns gravetos para colocar na fogueira, uma víbora, fugindo do calor enrolou-se na mão dele. Quando os bárbaros viram, disseram: com certeza este é um assassino, porque, salvo do mar, a justiça não deixa viver... Porém, ele sacudindo o réptil no fogo não sofreu mal nenhum; então os bárbaros mudaram de parecer julgando que ele fosse um deus...

Perto daquele lugar havia um sítio pertencente a Públio, que os recebeu e hospedou por três dias. Estando doente seu pai, Paulo o curou e então todo o povo veio e trouxeram seus enfermos para Paulo curá-los... depois foram presenteados com muitas honrarias para a viagem até Roma...

ROMA – (At 28,16-31): “Uma vez em Roma, foi permitido a Paulo morar por sua conta, tendo em sua companhia o soldado que o guardava. Três dias depois, Paulo fala aos judeus... e conta-lhes que havia se sentido impelido a apelar para César... Mais tarde, prega a um grande número de pessoas... Permanece nesta casa por dois anos, pregando o Reino de Deus. Com toda a intrepidez e sem impedimento algum, ensina as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo, até ser decapitado... (1).

(1) Trabalho inspirado nas apostilas (em espanhol), enviadas pelo professor Luis Gabriel Espindola  para o  Curso “Diplomado” -  EAD – Bogotá-Co -  2010.

BIBLIOGRAFIA
Referências Bibliográficas utilizadas pelo autor nas Apostilas:
A. Schweitzer, Geschichte der Paulinischen Forschung, Tubinga 1933; W.G. Kümmael Das NT. Geschichte der Erforschung seiner probleme (O III/3), Friburgo de Br.-Münich 1964; B. Rigaux, Paulus und seine Briefe, Munich 1964; G. Bornkamm, Paulus Suttgart 1969; tr. Esp.; Pablo de Tarso, Sigueme, Salamanca 1993; Sch. Ben-Chorin, Paulus, Munich 1970, E.E. Ellis, Paul and his Recent Interpreters,Gran Rapids,  1971; A. Lindemann, Paulus im altesten Christentum (BHTh 58), Tubinga 1979; H. Hübner, “Paulus Forschung seit 1945”; ANRW II 25.4 (1987) 2646-2840; O. Merk, “Paulus Forschung 1936-1985”; ThR 53 (1988) 1-81; M.A. Hubaut, Paul de Tarse, Paris 1989; E. Biser, Paulus, Munich 1992; E.P. Sanders, Paulus, Stuttgart 1995.



QUAL A IMPORTÂNCIA DA COMUNIDADE DE ANTIOQUIA E DE BARNABÉ?

Não sabemos, com certeza, quanto tempo Paulo ficou na Síria e na Cilícia, depois da conversão. O que sabemos é que em Atos 11,25-26, lemos: “E partiu Barnabé  para Tarso à procura de Saulo; tendo-o encontrado, levou-o para Antioquia. Passaram um ano inteiro trabalhando juntos nesta igreja e instruíram muita gente... Foi em Antioquia que os cristãos receberam, pela primeira vez, o nome de cristãos...”

Antioquia  junto a Orontes, capital da Síria, a terceira cidade do império romano, com meio milhão de habitantes, precedida somente por Roma e Alexandria, tinha conquistado já um papel importante no cristianismo.

O início da comunidade cristã de Antioquia remonta ao tempo em que os cristãos, judeus helenistas, foram expulsos de Jerusalém, porque sua fé em Cristo era diferente daquela  professada pela comunidade primitiva da Palestina, isto é, por sua liberdade diante da lei judaica.

Entre os fundadores da comunidade de Antioquia temos que lembrar Barnabé, cristão, judeu helenista, nascido em Chipre e domiciliado em Jerusalém. Barnabé possuía muitos bens e,  por muito tempo, atuou como missionário, ora com Paulo, ora sozinho. Supõe-se que, junto com os partidários de Estêvão, teve que sair de Jerusalém  e assim tornou-se missionário. Segundo a construção de Lucas em Atos dos Apóstolos 11,19ss “alguns habitantes de Chipre e da cidade de Cirene chegaram a Antioquia e começaram a pregar, também para os gregos, anunciando-lhes a Boa Notícia do Senhor Jesus... A notícia chegou aos ouvidos da igreja de Jerusalém, e esta enviou Barnabé para Antioquia.

Lá chegando, Barnabé  percebeu o efeito da graça de Deus, ficou muito contente e animou a todos a permanecerem ligados ao Senhor.  Barnabé era homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé.  Assim,  uma considerável multidão se uniu ao Senhor. Barnabé foi então para Tarso em busca de Saulo. E, tendo-o encontrado,  levou-o para Antioquia...

Podemos imaginar a alegria de Paulo ao encontrar uma comunidade já formada e  comprometida  com o Evangelho que ele pregava! Antioquia tornou-se o centro de operações da missão paulina.

Quais são os elementos mais importantes da Assembleia de Jerusalém e o conflito de Antioquia?

A Assembleia celebrada em Jerusalém, por volta do ano 48 D.C., demonstra que a unidade ameaçada, de maneira surpreendente, não chegou a romper-se.  Ela pode ser considerada, com toda a razão, como o acontecimento mais importante da história da comunidade primitiva. O próprio Paulo em Gl 2,1-10, como também em Atos dos Apóstolos, informa sobre ela com muitos detalhes... e todos, cada um à sua maneira, reconheceram sua capital importância.

Até a Assembleia, tudo gira em torno da comunidade de Jerusalém e de suas principais figuras, principalmente Pedro; depois da Assembleia, todos eles quase desaparecem... enquanto que Paulo entra em ação, e sua obra constitui o tema exclusivo “da grande sinfonia”.

Paulo examina os sucessos da Assembleia, bem mais tarde, e o faz  na situação conflitante  da carta aos Gálatas.

A apresentação que Paulo faz da Assembleia apostólica nos permite constatar o que a motivou. Os Atos dos Apóstolos se encarregam de confirmar essa constatação: cristãos judeus, de estrita observância, vindos de Jerusalém, alvoroçaram a comunidade de Antioquia e exigiram a circuncisão dos cristãos vindos dos gentios. Para resolver esta discussão foi decidido enviar Paulo e Barnabé a Jerusalém, com o fim de esclarecer a questão com os primeiros apóstolos.

Segundo Gl 2,1ss, Paulo diz: “Catorze anos depois, voltei a Jerusalém com Barnabé e levei também Tito comigo. Fui lá seguindo uma  revelação. Expus a eles o Evangelho que anuncio aos pagãos, mas o expus, reservadamente, às pessoas mais notáveis, para não me arriscar a correr ou ter corrido em vão...”

Paulo leva junto um grego não circuncidado, Tito, que mais tarde será seu colaborador. A assembleia pediu energicamente que Paulo o circuncidasse, mas Paulo não cedeu (cf. Gl 2,5).

Podemos nos perguntar:  como pode ocasionar tamanha briga uma antiga cerimônia, que nem o judaísmo helenístico, liberal da diáspora havia mantido?

Tanto para o judaísmo como para o cristianismo judaico restrito, a circuncisão consistia no sinal inalienável da aliança, outorgada por Deus a Abraão,  para seus descendentes... Podemos citar a frase de Pascal: O Deus da fé cristã é também “o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó” e não o Deus dos filósofos”.

Segundo Atos 15,6-35, quando Paulo e Barnabé terminaram de falar, Tiago tomou a palavra e disse: ”... Eu sou do parecer que não devemos perturbar aqueles que, dentre os gentios, se convertem a Deus. Mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, bem como das relações sexuais  ilegítimas, da carne de animais sufocados e do sangue. Porque Moisés tem em cada cidade, desde tempos antigos, os que o pregam  nas sinagogas, onde é lido todos os sábados. 

Então os apóstolos e os anciãos, de acordo com toda a comunidade de Jerusalém, resolveram escolher alguns da comunidade para enviá-los com Paulo   e Barnabé para Antioquia. Escolheram Judas, chamado Bársabas, e Silas, que eram muito respeitados pelos irmãos, e através deles, enviaram uma carta contendo tudo o que havia sido resolvido na Assembleia...”.

Judas e Silas reuniram a assembleia de Antioquia e entregaram a carta. Sua leitura causou muita alegria por causa do estímulo que ela continha.

Quanto a Paulo e Barnabé permaneceram em Antioquia, e, junto com muitos outros, ensinavam e anunciavam a Boa Notícia da Palavra do Senhor.

Paulo fala pouco em suas cartas do que foi tratado na Assembleia, mas podemos entrever que, da  maneira como pregava o Evangelho, rompendo as barreiras entre gentios e judeus, convenceu os  apóstolos. Eles deram liberdade para Paulo pregar o Evangelho aos gentios (cf. Gl 2,6), da mesma forma como havia feito Pedro para exercer o apostolado entre os judeus (cf. Gl 2,1).

Assim com um aperto de mão de ambas as partes (Gl 2,9), selaram a unidade da Igreja, e os apóstolos  pediram apenas que se lembrassem dos pobres!... E Paulo afirma: “E isso eu tenho feito com muito cuidado...” (cf. Gl 2,10).

Um outro conflito que aconteceu em Antioquia foi quando Pedro esteve lá. “Eu o enfrentei em público, diz Paulo, porque ele estava claramente errado. De fato, antes de chegarem algumas pessoas, por parte de Tiago, Pedro comia com os pagãos, mas depois que chegaram, ele começou a evitar os pagãos...” (cf. Gl 2,11-14). E não somente Pedro, mas também os outros quatro, cristãos judeus, incluindo Barnabé, se submeteram de novo à legislação  judaica. Paulo qualifica esta conduta como “simulação”  e a denomina de “ desvio da verdade do Evangelho” (Gl 2,14). Isso nos permite pensar que naquela ocasião estava em jogo nada mais nada menos do que  a mensagem de Cristo e sua mesma fé. 

Para ele, o conflito não consistia numa insignificante divergência de pareceres, em cujo caso ele devia estar disposto a chegar a uma fórmula de compromisso. Mas é um fato de importância capital que abarca o todo. Conforme as palavras de Paulo, com sua maneira de ser, Pedro desmente a verdade de que, diante de Deus, o homem chega a ser justo, não mediante as obras da lei, mas somente pela fé em Jesus Cristo.

Paulo era da opinião de que Pedro e os demais cristãos judeus, não só haviam voltado as costas ao Evangelho, mas também tinham ido contra as decisões da Assembleia de Jerusalém.

Paulo estava pessoalmente convencido de que a unidade das igrejas, a superação da lei, como caminho de salvação, e a verdade do Evangelho, deviam ser proclamadas, também, precisamente na participação de judeus e não judeus, em uma comida comum.

A questão de procedimento é para Paulo, neste caso,  determinante, como aconteceu na discussão da Assembleia de Jerusalém: se Tito deveria ser circuncidado ou não!... Aquilo que a outros poderia ser insignificante e até aceitável, por amor à unidade da Igreja - pelo menos a paz com Jerusalém estava em jogo – se converteu para ele em um campo de batalha, nele que devia lutar pela verdade e a liberdade, enfrentando-se com supostas decisões autoritárias de uma instância eclesiástica. Talvez seja por isso que Lucas não escreve pormenores sobre este fato! Mas podemos perceber, pelo que Paulo escreve, que foi um  conflito muito sério.     

As experiências pelas quais Paulo teve que passar, constituíram, para ele, amarga desilusão! Talvez seja por isso que daqui para frente não nomeia mais o nome de Barnabé.

A ruptura com Pedro e Barnabé não foi, apesar de tudo, nem completa nem definitiva, e ele impulsionou até o fim, com todas  as suas forças, a unidade de suas comunidades com a primitiva comunidade de Jerusalém. 

E Paulo termina dizendo: “Fui morto na cruz com Cristo. Eu vivo, já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim...” (Gl 2,19-20).
O que significa “Paulo, apóstolo das nações?”

Paulo é realmente o apóstolo das nações. De nenhum outro missionário do cristianismo primitivo ficamos sabendo que chegasse tão longe e que se propusesse levar o Evangelho até os confins do mundo então conhecido.

Houve missão no início do cristianismo;  porém, não anúncio do Evangelho, entre os pagãos, pois  os helenistas já haviam feito chegar a mensagem de salvação aos gregos, e mesmo Paulo, desde seu chamado, já  havia atuado como missionário entre os pagãos. 

Todavia sua própria atividade na Arábia, Síria, Cilícia, Antioquia, Chipre e no Sul da Ásia Menor, não deixa entrever que, no começo, seus planos tivessem um alcance mundial.    

Após o episódio de Antioquia, Paulo e seus companheiros se dirigiram em direção transversal pela Ásia Menor até Trôade, Macedônia e Grécia. Durante o percurso, formaram comunidades na Galácia, Filipos, Tessalônica e Corinto. Estas informações nos são dadas tanto pelos Atos dos Apóstolos como pelas cartas de Paulo.

Lucas nos informa que missionários passaram antes pelas comunidades já fundadas e, em Listre, Paulo encontrou o colaborador Timóteo, a quem cita muitas vezes em suas cartas. Paulo conta que três vezes foram guiados para determinação de seu objetivo,  pela intervenção direta de Deus. O Espírito Santo lhes fechou o caminho, que ia na direção da província  romana da costa da Ásia Menor.

Foram a Trôade onde receberam pela terceira vez uma ordem divina: um macedônio aparece em sonhos a Paulo e lhe suplica que vá a eles... (cf. At 16,6-10).

Por meio da carta aos Gálatas, sabemos que Paulo ficou doente, enquanto  atravessava a Galácia, e que durante sua estadia involuntária, graças  à sua pregação, surgiram comunidades na Galácia (cf. Gl 4,13-20). Depois seguiu a Filipos, solo romano. Em Filipos nasce a primeira comunidade em solo europeu. Foi nesta cidade que recebeu a primeira perseguição por parte de um magistrado romano. Paulo teve que apelar pela sua cidadania romana. De Filipos, foi pela via Inácia e chegou a Tessalônica, onde em pouco tempo, nasceu uma comunidade cheia de vida. Depois, passando por Beréia e Atenas, foi até Corinto.

Em Corinto, encontra-se com Áquila e Priscila, casal de judeus, cristãos, que havia sido expulso de Roma. Apesar disso, Paulo mantinha o desejo de ir a Roma, embora tivesse como princípio não pregar onde outros já tivessem pregado... Na carta aos romanos escreve: “Assim, desde Jerusalém até a Ilíra, levei a cabo o anúncio do Evangelho de Cristo. Fiz questão de anunciar o Evangelho onde o nome de Jesus  ainda não havia sido anunciado, a fim de não construir  sobre alicerces que outros haviam colocado... Foi esse o motivo que muitas vezes me impediu de visitar vocês. Mas agora já não tenho tanto campo de ação nessas regiões. E porque há muitos anos, tenho grande desejo de visitá-los, quando eu for para a Espanha, espero vê-los por ocasião de minha passagem (em Roma) (cf. Rm 15,24). Estas palavras mostram os projetos de Paulo e deixam entrever a força que o guiava, e o propósito de incluir em sua missão toda a terra habitada, a todos os povos, até os confins do mundo. 

O que motivou este grande apóstolo Paulo foi sua fé em Jesus Cristo, o crucificado, a quem Deus exaltou como Senhor sobre todas as coisas e cujo senhorio se prolongará até o próximo fim... “ Quando Cristo entregar o Reino a Deus Pai, depois de ter destruído todo o principado, toda a autoridade, todo o poder...”cf. 1Cor 15,24).

Sempre que Paulo fala do Senhor, não se refere unicamente ao Senhor das comunidades reunidas no culto, mas ao Senhor que domina sobre poderes de todo o cosmo (Flp 2,6-11), ao Ressuscitado e exaltado, que há de ser Senhor dos mortos e dos vivos (Rm 14,9). Foi este Senhor que o fez apóstolo das gentes  (Rm 1,5). E este senhorio se manifesta em que “ele é rico com todos os que o invocam” (Rm 10,12).

Como conclusão, podemos afirmar que nos escritos paulinos o motivo da vitória de Cristo sobre os poderes cósmicos foi transposto na história concreta. O senhorio de Cristo se realiza na adesão dos povos à fé. Esta é a meta à qual o apóstolo Paulo se sente chamado.

 

Quem foi São Paulo?

Para conhecermos bem uma pessoa, temos que ter proximidade com ela. Chegarmos de mansinho, cada vez mais perto, ouvir a sua história, suas palavras, tocá-la de perto. Assim, vamos nos aproximar mais do Apóstolo Paulo, ele quer se revelar a nós hoje e tem “um dom espiritual para nos comunicar” (Rm 1,11).


Há três formas de conhecermos Paulo, através dos Atos dos Apóstolos, das suas cartas e por meio da Tradição Cristã.


O próprio apóstolo traça sua biografia
“Circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu, filho de hebreus; quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça que há na Lei, irrepreensível” ( Fl 3,5).

Através dessa descrição de Paulo, percebemos vários elementos de sua vida, como por exemplo:
· Sua religião
· Qual a sua descendência familiar
· De qual movimento dentro do Judaísmo ele pertencia
· Como era seu comportamento

Onde Paulo nasceu?

Em uma cidade chamada Tarso, que é a capital da Cilícia, situada na Ásia Menor, região que hoje corresponde à Turquia.

• Tarso era uma importante cidade da Ásia Menor, com uma grande universidade e um centro intelectual para aqueles que desejavam estudar.


• Segundo estudiosos, tinha aproximadamente 300 mil habitantes. Era também uma cidade portuária, com economia próspera e vida urbana agitada. Por Tarso passava a estrada romana que fazia ligação entre o oriente e o ocidente.

Nome

Saulo era o nome de Paulo antes do encontro com Jesus. Os judeus da diáspora costumavam ter dois nomes SAULO (hebraico) e PAULO (grego)
Shaúl = implorado, desejado
Paulo = Pequeno
Saul, o primeiro rei de Israel, era o personagem mais importante da Tribo de Benjamim, a qual a família de Paulo descendia. Certamente, os pais usavam colocar esse nome em seus filhos recordando o grande rei Saul. O mesmo ocorre hoje, como por exemplo, na região do Cariri, no Ceará, muitos pais colocam em seus filhos e filhas o nome Cícero ou Cícera em homenagem ou para pagar promessas ao pe. Cícero Romão.
Após seu encontro com o Cristo e na missão em meio aos gentios o “grande” Saulo, prefere ser chamado apenas de “pequeno”. Os judeus da diáspora eram aqueles que moravam fora da Palestina.

Estudos

Como era tradição de sua época, Paulo deve ter recebido a formação básica como judeu, primeiro, na casa dos pais e, logo após, na sinagoga local de Tarso e na escola ligada a sinagoga.

Segundo estudiosos, se quiséssemos traçar uma cronologia dos estudos de Paulo, seria mais ou menos assim:

· Aos 7 anos, Saulo entrou na escola da sinagoga, no bairro judeu de Tarso,onde aprendeu a ler a língua grega;

• Aos 10 anos, concluiu o curso primário, e aos 11, sabendo ler bem o grego, começou o secundário;

• Aos 15 anos terminou o ensino secundário;

• Dos 16 aos 20 anos é provável que Saulo tenha escolhido um mestre da Universidade;

• Aos 20 anos, Saulo escolheu especializar-se na cultura e religião de seu povo de origem, e foi para Jerusalém e lá tem como seu mestre Gamaliel (cf. At 22,3).

A cidadania

O título que Saulo recebeu ao nascer em Tarso era o de terceira categoria. Havia uma escala de direitos na cidadania romana:

Cidadãos plenos eram os que participavam do senado romano ou descendiam de famílias de imperadores ou senadores.

Cidadãos patrícios eram de famílias ricas e comandavam os exércitos e as batalhas ou dedicavam-se à vida intelectual e ao magistério.

Cidadãos plebeus eram livres, mas haviam sido escravos e depois libertos, ou seus descendentes que, mesmo nascendo livres, herdavam o título romano plebeu e sobreviviam com dificuldade, de um ofício manual.

Os cidadãos romanos plebeus eram desprezados pelas outras duas classes, porque faziam trabalho braçal. Gozavam de poucos privilégios e eram alvos das arbitrariedades dos juízes romanos. Como cidadão de Roma, Paulo gozava de alguns privilégios: não poderia ser flagelado, não podia ser crucificado, podia apelar para o Supremo Tribunal em Roma.

A escolha da profissão

Paulo queria tornar-se um intelectual e subir na escala social, por isso escolheu o curso para ser doutor da Lei.

Depois do seu encontro com Jesus, porém, Paulo aprendeu a trabalhar o couro, fabricava sandálias, cintos, tendas, bolsas etc.

O trabalho com o couro era impuro para os judeus. Paulo, como missionário itinerante opta por ser um “trabalhador que anuncia o Evangelho”, por onde vai, procura um trabalho. Isso não faz de Paulo um rico comerciante, pelo contrário, Paulo faz a opção de ser escravo, trabalha para os outros. O apóstolo não quer ser pesado para ninguém.

A Religião

Saulo era judeu e freqüentou a escola farisaica. Professava a fé na ação de Deus na história por meio daqueles que fossem fiéis ao seu projeto e procurassem o direito e a justiça.

O que Saulo pensava sobre Jesus?

Como fariseu, Saulo considerava Jesus um traidor.
Acreditava que Jesus era um falso mestre.
Pensava que Jesus tinha recebido a morte que merecia (a cruz).
Achava que os seguidores de Jesus tinham sido seduzidos por falsas promessas e deveriam voltar atrás.

O ACONTECIMENTO DE DAMASCO

Encontro com uma pessoa

Algumas Narrativas


At 9, 1-22 – Narrativa de Lucas.

At 22, 4-16 – Lucas narra Paulo falando de sua conversão ao povo.
At 26, 9-18 – Lucas narra Paulo falando de sua conversão ao rei Agripa e demais presentes.

Alguns textos de Paulo em suas cartas que aludem ao fato


Gl 1, 11-16 – ... Quando, porém, aquele que me separou desde o seio materno e me chamou por sua graça.

1 Cor 15, 8-10 – Apareceu também a mim como um abortivo.
Fl 3, 6-12 – Pois eu também fui alcançado por Cristo Jesus.

A pergunta de Jesus à Saulo


Saulo, Saulo, porque você me persegue?

Quem és tu, Senhor?
Eu sou Jesus, a quem você está perseguindo. (At 9,4-5)

Jesus se identifica com a comunidade perseguida.





A luz de Damasco


Paulo se dirigia para Damasco e lá iria prender e torturar os cristãos, mas, no fundo a inteligência e o amor de Paulo o faziam duvidar... talvez poderia estar dando um passo errado. Sua luta e perplexidade foram tão grandes, que conseguiram derrubá-lo e fazê-lo pensar melhor. E Paulo caiu por terra, vencido por Jesus Cristo.

A luz do Ressuscitado, que envolveu Paulo, colocou em seu coração uma experiência do Mistério. Ele compreendeu que tudo era vazio e inútil sem ele. Depois, ao longo da vida, foi-se configurando sempre mais com Cristo até o ponto de dizer: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.” (Gl 2,20)

A luz de Damasco foi luz afetiva, que inundou os olhos do coração de Paulo. Ele foi vencido pela luz. A luz é a fonte da missão. A partir de então Paulo tornou discípulo do Mestre Jesus e incansável missionário, anunciador da sua Palavra. “Porém, o que para mim era ganho, por causa de Cristo considerei perda. Mais ainda: considero tudo perda em comparação com o superior conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor.” (Fl 3,7-8)

Após sua conversão Paulo foi para Arábia, depois para Jerusalém encontrar-se com os apóstolos; de lá, retornou para Tarso por onde permaneceu por longos anos até ser chamado por Barnabé para ir à Antioquia da Síria e de lá com Barnabé (cf. At 13,2 ss) é enviado em missão. Durante sua vida, Paulo realiza quatro grandes viagens missionárias, funda comunidades, anima os cristãos, enfrenta muitas dificuldades (cf. 2 Cor 11, 23-28), escreve animando e orientando as comunidades.

Paulo foi martirizado por volta dos anos 64 a 68 em Roma, por ser cidadão Romano, foi decapitado. Segundo a tradição Cristã, quando Paulo foi decapitado, sua cabeça pulou três vezes e nos três lugares onde a cabeça do apóstolo pulou, brotaram fontes.
O túmulo do Apóstolo Paulo está na Basílica de São Paulo Fora dos Muros.

“Combati o bom combate, terminei minha carreira, conservei a fé.” (2Tm 4,7).