LEITURA ORANTE - ANO B



Leitura Orante – 02 de novembro de 2015

FINADOS: O QUE HÁ DE ETERNO NO MUNDO

“Pois esta é a vontade do Pai: 
que toda pessoa que vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna. 
E eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,40)


Texto Bíblico: Jo 6,37-40



1 – O que diz o texto?
A Igreja, hoje, nos convida a entrar em comunhão com o Deus da Vida e rezar com nossos falecidos e por nós que “vivemos esta vida com sabor de eternidade”.

Começamos nossa reflexão fazendo memória de uma cena encontrada nos relatos da Paixão: junto a Jesus, aos pés da cruz, há um grupo de mulheres. Elas contemplam o absurdo, a morte do inocente; elas não tem medo de olhar a morte de frente.



2 – O que o texto diz para mim?
Esse grupo de mulheres, porque olham a morte de frente, vão mais além, vão mais profundo e fazem a experiência da não-morte, da vida eterna.  Elas vêem o amor na morte; elas sabem que a vida de Jesus não lhe será tomada porque Ele a doou. Aos pés da Cruz elas contemplam o Amor mais forte que a morte. 

E é assim que elas, porque olham a morte de frente, vão ser as primeiras testemunhas da Ressurreição. 

Por isso elas trazem algo novo à minha experiência, porque se me escondo da morte não poderei ir ao outro lado, ao além da morte.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Em algum momento de minha vida é preciso me deixar levar por esta atitude. 

Trata-se de aceitar o meu ser mortal para ir além do meu ser mortal. Porque é no fundo desta experiência mortal que posso entrar na contemplação do que é imortal. Acompanhar a morte dos outros, sentir que caminho para a própria morte, vai me tornar capaz de olhá-la de frente.

E o que se chama de Vida Eterna não é a vida depois da morte, mas é a vida antes, durante e depois da morte. E que é eterna.

A morte é processo permanente de esvaziamento do ego para viver de uma maneira mais oblativa, no compromisso e na doação aos outros. Este esvaziamento não significa a anulação da “pessoa”, mas sua potenciação. Na medida em que os aspectos que a limitam diminuem, aumenta o que há de plenitude.

Considerar minha morte como travessia para a plenitude, me leva a mergulhar na condição humana, a descobrir dimensões de minha própria humanidade.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, vivo uma cultura na qual a dor e a morte foram expulsas da experiência humana. É algo feio, de mau gosto, algo a ser eliminado da vida cotidiana.

A morte já não está presente no cenário cotidiano, já não existe. A morte é distante e virtual, que não afeta à minha própria sensibilidade. 

Vivo como se tivesse que ser imortal. Sempre é assunto dos outros, mas nunca pode ser assunto “meu”. Quando ela está perto, as pessoas se afastam dela, ou então, ela é afastada para locais específicos. É o fracasso radical de uma cultura fundada sobre o êxito e o sucesso e, quando sente a presença da morte, tudo fica desestabilizado.

A negação da morte sempre cobra um preço – o encolhimento da minha vida interior, o embaçamento da visão, o achatamento da racionalidade, a atrofia dos sonhos. 

Encarar a morte como plenitude não só me pacifica como também torna a existência mais aguda, mais preciosa, mais vital. Essa abordagem da morte leva a um compromisso maior para com a vida.



5 – O que a Palavra me leva a viver?
O confronto com a morte não precisa desembocar em um desespero que possa destituir a vida de todo sentido. Ao contrário, ela pode ser uma experiência que me faz despertar para uma vida mais intensa.

Ela me faz reingressar na vida de uma maneira mais rica e apaixonada; ela aumenta a consciência de que esta vida, minha única vida, deve ser vivida intensa e plenamente.

A experiência da morte pode servir como uma experiência reveladora, um catalisador extremamente útil para grandes mudanças na vida. 

O essencial não é encontrar um caminho para alcançar a imortalidade, mas aprender a “morrer em Cristo”. A partir deste momento vou aprendendo a conviver com a morte, com a d’Ele, com a minha e com a dos outros. 

“A morte, menos temida, dá mais vida”.

S. Agostinho escreveu que “é apenas perante a morte que o caráter de um homem nasce”.

E pensadores mais antigos me fazem lembrar da interdependência entre vida  e  morte.



Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje –  Jo 6,37-40
             Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
             Desenho: Osmar Koxne       


Leitura Orante –  Todos os Santos e Santas, 01 de novembro de 2015

SANTIDADE: um “caso de amor” com a vida.


Texto Bíblico: Mt 5,1-11   


1 – O que diz o texto?
A Igreja Católica celebra, neste primeiro dia de novembro, a festa de “Todos os Santos e Santas”; esta é a festa de todos os(as) amigos(as) de Deus, mulheres e homens que nos precederam e que deixaram sua “marca” na vida de tantas pessoas, melhorando uma parte do mundo. Damos graças a eles e elas por terem sido portadores da vida de Deus: de sua herança herdamos, com sua voz cantamos, de sua presença inspiradora nos alimentamos, de sua vida recebemos Vida, com Aquele que é o Deus dos Vivos.


2 – O que o texto diz para mim?
Na vida de um(a) santo(a), mais que contemplá-lo(a) na sua glória, é bom considerar sua caminhada para a santidade: é o Espírito do Senhor que o(a) conduz.

Um(a) santo(a) é a “irrupção” original e única do Espírito de Deus. Uma maravilha sem comparação que invade a história e permite que seja dito o Indizível e experimentado o Transcendente.

A presença de um(a) santo(a) ultrapassa a minha estatura. Algo  “maior” se levanta, seduzindo-me, atraindo-me e surpreendendo-me. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Sejam santos, porque eu sou SANTO” (Lev. 11,45)

Esta é a vocação fundamental à qual sou chamada, enquanto seguidora de Jesus Cristo. Ser santo(a)  é ser dócil para “deixar-me conduzir” pelos impulsos de Deus, por onde muitas vezes não sei e não entendo. Seus caminhos não são os meus caminhos.

Este “deixar-se levar” pela mão providente de Deus é uma ousadia.

Na vida espiritual a liberdade tem que ser ousada, mas a maior ousadia é “deixar-se levar”.

Ser santo(a)  é “arriscar-se” em Deus. É privar-se das humanas certezas em nome da Sua Verdade. É excluir-se das seguranças e estabilidades do mundo. 

Por isso a santidade é surda aos critérios do mundo, ao cálculo utilitarista...; não sucumbe às idolatrias do progresso a qualquer custo, da eficiência, da produtividade... Ela navega no oceano da gratuidade, da compaixão, da solidariedade...

O modo de proceder do(a) santo(a) no mundo é imagem fiel do modo de proceder do próprio Deus, que é princípio e garantia da Verdade, do Bem, da Justiça, da Misericórdia, da Compaixão...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, vejo que coloca no coração de cada ser humano a busca da santidade. Uma busca que se experimenta como impulso vital, sopro do Espírito, aqui e agora, nas circunstâncias concretas da vida.

Nesse sentido, santos e santas são os portadores de vida, homens e mulheres que buscam viver intensamente; que acolhem a vida e a expandem, que bebem do prazer da vida e que ajudam os outros também a beberem, sabendo que a vida é dom, presente que compartilha, a todos, no mundo. 

“Os(as) santos(as), como os poetas, vivem de encantamentos…” encantados com a vida, com a beleza, com a verdade... 


5 – O que a Palavra me leva a viver?
O seguimento de Jesus pede uma nova forma de santidade: a santidade da vida comum, da resposta à Providência divina em meio às rotinas do tempo, uma caridade tecida nos pequenos gestos...

Perguntaram a uma criança de 7 anos quem eram os santos. Ela deu uma resposta magistral: “Um santo é quem deixa passar a luz”. Sem dúvida, em sua imaginação estavam presentes os vitrais da Igreja onde sua mãe a levava. É evidente, os(as) santos (santas) deixam passar a luz de Deus para a vida de cada ser humano. Essa transparência é sua santidade.

Os(as) santos(as) são pessoas humanas que me mostram o que se pode atingir quando me abro à luz de Deus, à maravilhosa “influência divina”, à potencialidade de seu Reino.


Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje –  Mt 5,1-11   
              Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
              Desenho: Osmar Koxne       




Leitura Orante –  30° domingo do tempo comum, 25 de outubro de 2015

CEGO DE JERICÓ: tudo começou com um grito...

“Mas ele gritava mais ainda: ’Filho de Davi, tem piedade de mim!’” (Mc 10,48)


Texto Bíblico: Mc 10,46-52


1 – O que diz o texto?
Jesus está a caminho de Jerusalém, onde vai acontecer o desenlace de sua “missão”.

Ele tem pressa; não está sozinho: os discípulos e as multidões o acompanham.

O barulho dos passos, a balbúrdia e o vozerio das pessoas despertam a curiosidade de um cego, que estava sentado, mendigando às margens da estrada. Tendo sido informado de quem passava por perto, da sua boca brota uma invocação incontrolável, cada vez mais persistente; uma oração, um ato de fé: 

“Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!”.


2 – O que o texto diz para mim?
O cego ouve a multidão passar com Jesus e aproveita da única e última oportunidade, pois não desfruta da vida em plenitude. Depende dos outros. Sem ver o trajeto, está impossibilitado para seguir a marcha com Ele. Encontra-se deslocado, fora do percurso. À margem do caminho cresce a passividade e o conformismo. Seu lugar revela carência de futuro. Junto à margem não vingam seus projetos e o sentido da existência desaparece.

Encontrando-se incapacitado para progredir por uma rota desconhecida, o cego reage da única maneira que pode, gritando; não lhe basta pedir, grita para ser escutado. 

Frente àqueles que querem fazê-lo calar, grita mais forte ainda e atrai a atenção de Jesus. Se seus olhos não podem ajudar-lhe, a potência de sua voz expressará sua vontade firme de curar-se e sua tenacidade na busca da recuperação da visão. Porque seus gritos por ajuda foram escutados e seu clamor teve resposta, abriu-se para este homem a possibilidade de uma história com futuro.

O cego, que ainda não podia ver, mas consegue entender que está diante de Alguém que o olha, que lê no fundo do seu coração e que vai mudar o rumo, o horizonte e o sentido de sua vida, que vai acabar com seu sofrimento. Ambos se põem um diante do outro. A multidão, ao invés, quase desaparece atrás deste cenário. Bartimeu não está mais excluído, às margens da estrada. Agora, ele se encontra no centro da cena: face a face com o “Filho de Davi”.

- “o que queres que eu te faça? – pergunta-lhe Jesus. É um diálogo de tu a tu, sem intermediários, que lhe oferece a possibilidade de se revelar diante de alguém, de expressar os desejos mais profundos de seu coração. O espaço de diálogo experimentado lhe devolve a confiança, lhe confere autonomia e o ganha para o Reino. A palavra acolhida e oferecida é geradora e criadora.

A resposta do cego foi rápida; já estava pronta, preparada dentro de si, cultivada no seu íntimo, há muito tempo, no segredo e na noite do desejo, no silêncio da espera, na obscuridade do sofrimento.

Seu pedido foi claro e direto, cheio de confiança; as migalhas não lhe bastam mais; não se satisfaz mais apenas com esmolas: quer mais, muito mais (“Mestre, quero ver de novo”).


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A multidão procurava interrompê-lo, porque seu grito incomodava. Aquele grito parecia desviar Jesus do seu objetivo e interromper o “clima sereno” que se criara em torno do Mestre.

Merece atenção a atitude das pessoas que caminham com Jesus. É curioso como no início mandam Bartimeu ficar calado e logo mais adiante, quando Jesus lhe chama, o animam. Em tão poucas linhas revela-se o melhor retrato da reação de uma multidão. Dispersos numa massa é difícil manter uma atitude pessoal e diferenciada. No meio de um grupo muito grande as pessoas são mais propensas à mudança rápida e à contradição. 

A conclusão se impõe: em minha relação com Jesus não pode depender do ambiente.

Bartimeu me ensina a ter personalidade e a buscar Jesus para além do apoio ou da oposição do ambiente.

Bartimeu sabe que havia manifestado um desejo que, até então, lhe parecia impossível; ao encontrar-se com Jesus, percebe ter no coração um pedido bem mais profundo: finalmente ele pode ver, não apenas o rosto das pessoas, a côr de uma flôr, o sorriso de uma criança, o encanto da aurora ou o pôr do sol, mas, sobretudo, ver a própria existência, o sentido das coisas, da história, dos acontecimentos humanos e da vida, sob o ponto de vista justo e na direção certa.

Jesus não fez nada, não tocou os olhos turvos do cego; com grande delicadeza e profundo respeito, simplesmente pôs a fé daquele homem em evidência (“A tua fé te curou”).

Assim, ilumina a fé de Bartimeu e o torna livre: “Vai!”


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Finalmente, Bartimeu poderá decidir onde ir, o que fazer da própria vida e como dirigir-se ao próprio Deus. Jesus não o segura; não o convida a segui-lo, mas ativa nele a capacidade de ver na direção certa; desperta-lhe a liberdade; ajuda-o a descobrir que, o desejo de viver, de caminhar, de gritar, nasce da fé. Jesus o ajuda a tomar consciência da própria fé.

E tudo isso começou de um grito...

Pela sua fé, pela sua perseverança na oração e pelo seu seguimento de Jesus, Bartimeu é apresentado como modelo do verdadeiro discípulo. 

Senhor, preciso dar  nome aos meus “mantos” que me mantém presa ao passado, travando minha vida e impedindo uma resposta pronta ao chamado de Jesus.

A existência humana pode ser marasmo, estagnação, medo, repetição, inércia, fixismo... Mas há um momento em que é preciso “dar o salto”: isso requer coragem, ousadia, agilidade e mobilidade para ir adiante na longa jornada que a vida apresenta. 

A oração é o ambiente natural para que eu possa me mobilizar e me preparar para o grande salto da vida: um novo projeto, um novo compromisso, uma nova missão...


5 – O que a Palavra me leva a viver?
O gesto e a resposta de Bartimeu ao chamado de Jesus que as pessoas lhe transmitem é muito significativo. Reage com rapidez. Deixa de lado seu manto, sem hesitar: sua riqueza, sua segurança, seu teto... e dá um salto. Sai de seu fechamento (o manto era considerado um prolongamento da pessoa). Desfaz-se daquilo que lhe traz segurança e recupera sua dignidade: “pôs-se de pé”.

Jogar seu manto supõe desfazer-se não só de algo importante que serve para se proteger e que confere dignidade à pessoa, mas é sobretudo algo sobre o qual estava sentado e na qual se encontravam as esmolas recebidas. Bartimeu, ao lançá-lo fora, se desfaz de seu sustento na vida, de tudo o que tem nesse momento. Seu salto adquire então toda sua força.

Esquece o que deixa para trás e se fixa no que está à frente. É um autêntico salto na fé, é o salto para o seguimento de Jesus. 


Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje –  Mc 10,46-52
              Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
              Desenho: Osmar Koxne       



Leitura Orante –  29° domingo do tempo comum, 18 de outubro de 2015

Os “Zebedeus” que nos habitam

”Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda quando estiveres na tua glória” Mc 10,37)


Texto Bíblico:    Mc 10,35-45 


1 – O que diz o texto?
Outra vez um texto forte. Jesus acaba de anunciar aos seus discípulos a decisão de ir a Jerusalém, lugar da entrega da vida a serviço do Reino; os doze, no entanto, começando pelos filhos de “Zebedeu”, só pensam em “estar bem colocados” para alcançar uma cota maior de poder. Os “zebedeus” pedem trono, mas Jesus só lhes pode oferecer seu próprio gesto de entrega da vida; os dois irmãos pensam em títulos de honras e preferências, mas Jesus só lhes garante sua fidelidade no caminho do Reino: “Vós bebereis o cálice que eu devo beber e seres batizados com o batismo com que eu devo ser batizado” (Mc 10,38).


2 – O que o texto diz para mim?
Os “zebedeus” seguiam a Jesus, mas não entendiam Sua proposta, não compreendiam que Ele não queria ocupar um trono (não queria reinar), mas doar a vida em favor dos outros, para que todos, homens e mulheres (e em especial os mais necessitados), fossem dignificados. Jesus não busca trono, nem para si nem para seus seguidores, pois seu Reino não pode ser entendido na linha da “tomada de poder”.

Eles caminham ao lado de Jesus mas só escutam aquilo que não lhes convém; fazem estrada com Jesus mas estão fechados em seus próprios interesses; seguem Jesus de perto mas estão bem longe de sua proposta de vida. Todos “sobem a Jerusalém”, mas cada um com sentimentos diferentes.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus, com seu modo de viver, me coloca diante da contínua tentação que me ameaça: o gosto do poder, da comodidade, de pompas, de querer ser como os “chefes das nações”, de ter privilégios, de ser servida... Sua proposta de vida é de uma sabedoria e de uma humanidade finíssima; seu horizonte é o serviço.

A busca de poder nunca consegue unificar nem criar harmonia, mas divide as pessoas, criando ressentimentos, competições, vaidades...

Jesus não quer “chefes” sentados à sua direita e à sua esquerda, mas servidores como Ele, gente de entrega eficaz, que saiba gastar a vida em favor dos outros. Sua comunidade não se constrói a partir da imposição dos de cima, não haverá lugar para o poder que oprime; nela não cabe hierarquia alguma de honra e dominação, mas hierarquia de serviço; tampouco métodos e estratégias de poder; é o serviço que constrói a comunidade cristã. “Quem quiser ser grande seja vosso servidor; e quem quiser ser o primeiro seja o escravo de todos” (Mc 10,43).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Inspirados no modo de proceder de Jesus, posso traçar o perfil do servidor cristão,

* Pessoas abertas à ação de Deus com um  projeto de vida comum, orientada por uma Espiritualidade  e coerentes com seu testemunho de vida.

* Pessoas sensíveis e conscientes frente à realidade social, comprometidas em um testemunho de vida a serviço aos outros e com os outros, para transformar e construir uma sociedade na paz e na convivência.

* Pessoas compassivas: possuidoras de uma qualidade humana fundada no amor, na compaixão, na ternura e no serviço.

* Pessoas comprometidas: que acompanham o processo de crescimento do outro de maneira tolerante, justa, próxima e exigente.

* Pessoas com identidade espírito comunitário, capazes de trabalhar em equipe.

Senhor, que o meu seguimento e serviço a Jesus Mestre, possa se desenvolver em uma liderança inserida nas realidades deste mundo; clara, realista, centrada, universal, comprometida com a vida;  sempre com o olhar fixo em discernir para buscar, encontrar, sentir e fazer  o que é “melhor” no serviço divino. Uma líder que ama o que faz, pois é consciente da missão que recebeu, sempre amorosa e infatigável na busca da Vontade de Deus.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Como seguidora de Jesus, abraçar o último lugar; assim, a partir da perspectiva dos últimos, terei melhor visão daquilo que eles mais necessitam e estar mais próxima e servir a todos.

A verdadeira grandeza consiste em servir com amor; o serviço é a manifestação prática do amor. E o amor busca sempre o último lugar, precisamente porque esse é o lugar mais universal; é o lugar que mais me humaniza, o que mais humaniza a vida, a convivência, a sociedade.

Portanto, liderar com autoridade implica espírito de confiança, tratar o outro com bondade, ouvir atentamente, ter verdadeiro respeito para com os talentos do outro, ter real interesse por ajudar o outro para que tenha êxito, manter acesa a chama do sonho para que cada um possa tirar o melhor de si mesmo a favor da comunidade, sintonizar com os princípios profundos e valores permanentes da vida, expressar consideração, elogio e reconhecimento pela atuação do outro, afastar todo preconceito...


Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje –  Mc 10,35-45 
             Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
             Desenho: Osmar Koxne       


Leitura Orante –  28° domingo do tempo comum, 11 de outubro de 2015

“Pesos mortos” que travam o seguimento

“Mas quando ele ouviu isso, 
ficou abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico” 


Texto Bíblico: Mc 10,17-30


1 – O que diz o texto?
No evangelho, o “jovem rico” aproxima-se de Jesus, correndo, movido por uma angustiante inquietação que o devorava  por dentro e lhe pergunta: “Quê devo fazer para ganhar a vida eterna?”

Ajoelhou-se diante do Mestre com respeito, como se visse nele seu último recurso para encontrar resposta à questão que era urgente resolver. Não se dirigia a Jesus como os outros personagens, oprimidos pela enfermidade ou pela pobreza, mas a partir de um mal estar interior: por quê, apesar de ter tudo e levar uma vida irrepreensível, continuava sentindo-se insatisfeito? Isto nos causa surpresa, pois tinha tudo o que hoje nos é proposto como meta: juventude, riqueza e status. A vida terrena não lhe preocupava: tinha sua subsistência resolvida; ele perguntava por uma “outra vida”, que lhe desse o sentido e a plenitude que lhe estavam faltando. 


2 – O que o texto diz para mim?
O diálogo de Jesus com o jovem rico está marcado por contrastes. O jovem começa com uma pergunta focada no âmbito do “fazer”: “quê devo fazer?”. E a finalidade do “fazer” se formula com o verbo “ter”: “...para ganhar a vida eterna”.

Jesus, no entanto, situa sua resposta em outra dimensão. Primeiro, reconduz o objeto direto do “fazer” a um sujeito com maiúsculas: “Por quê me chamas de bom? Só Deus é Bom”. Logo, não é questão só de “fazer o que é bom”, mas de “ser” como Deus: pura bondade.

O verbo “ter” também se transforma por “entrar” na vida eterna. A vida eterna não se “obtém”; na vida eterna “entra-se”.

Os quatro imperativos que o jovem recebeu como resposta (“vai, vende, dá, segue-me”), lhe desconcertaram: ele explicitara sua inquietação pela vida eterna em termos de posse (“quê devo fazer para ganhar”?), pois até os mandamentos ele os havia cumprido. Mas Jesus o orientou em outra direção: não para a acumulação, a posse ou a herança, mas para a desapropriação, o esvaziamento e a entrega. 

Isso era “o que lhe faltava”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A cena do evangelho de hoje ilustra bem como uma “aderência afetiva” (fixação afetiva) a coisas, posses, pessoas, idéias, cargos, status, ídolos, dependências... pode me travar e impedir de me mover com facilidade. Perder o “fluxo” da vida, o impulso do movimento, a suavidade do “deslizar pela existência”.

“Diga-me o tamanho dos seus apegos, e eu lhe direi o tamanho do seu sofrimento”.

 “Seis homens que caminhavam em busca de novas terras depararam-se com um rio caudaloso que lhes impedia avançar em seu caminho. Construíram um barco, prepararam os remos e entraram nele. 

Remaram juntos, e assim chegaram à outra margem. Desembarcaram para prosseguir o seu caminho, mas como o barco havia sido muito útil, carregaram-no sobre os ombros e seguiram assim penosamente sua peregrinação pela terra seca”.

Levo “cargas” como essas em meu interior, e são justamente elas que dificultam minha caminhada pela vida. Se eu soube construir um barco quando foi preciso, também saberei construir outro caso volte a se apresentar a situação; enquanto isso é melhor desfazer-me de cargas incômodas para andar com maior desenvoltura e alegria pela vida. 

O medo de perder “algo” no futuro atrapalha viver intensamente o presente. Quantos “pesos mortos” arrasto em minha vida, com recordações, lembranças, apegos, afetos desordenados...!


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, sou como o jovem rico... 

Carrego no coração a mesma inquietação do jovem; nele posso me reconhecer, sobretudo neste tempo em que me ronda a insegurança, a obscuridade do horizonte, a dúvida...

Vivo em uma cultura que me apresenta a apropriação e a acumulação como meta da existência, Jesus, imperturbável, apresenta sua alternativa: perder, vender, dar, deixar, não armazenar, não entesourar, não reter avidamente, desapropriar-se, esvaziar-se, partilhar...

Eleger a partilha, o despojamento e a simplicidade de vida é a base e condição para poder seguí-Lo no trabalho do Reino; barcos, redes ou mesa de negócios devem ser abandonados.

A escolha de uma vida despojada expressa a liberdade para colocar-se a serviço do Reino.

A afeição aos bens, à acumulação, pelo contrário, acarreta o enorme risco de se ficar cego e surdo para atender ao chamado de Jesus.

Estou em tempo de soltar as ataduras que me travam e de iniciar, despojada e livre, um caminho novo junto ao Mestre.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
O apego aos “bens” apresenta-se como uma das tentações mais poderosas para todo seguidor de Jesus. 

O dinheiro, os bens, as posses apresentam-se, como solo firme sob os meus pés; eles provocam o fascínio, a adoração e as identificações mais perniciosas.

A fidelidade ao Deus único fica interditada e o seguimento de Cristo fica fragilizado.

É possível viver, desde agora, uma “vida eterna”, transbordante e plena, apesar das limitações do tempo, da fragilidade e da caducidade das relações humanas, para além das gratificações e das buscas de recompensas...

Na perspectiva bíblica, há uma incompatibilidade radical entre a paixão pelas riquezas e a paixão pelo Reino. Ninguém pode servir a dois senhores.


Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje –  Mc 10,17-30
            Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne       



Leitura Orante –  27° domingo do tempo comum, 04 de outubro de 2015

Abraço humanizador

“Então, abraçando as crianças, abençoou-as, impondo as mãos sobre elas”. (Mc 10,16)


Texto Bíblico: Mc 10,2-16


1 – O que diz o texto?
O abraço é a palavra da pele que acaricia, das mãos que tocam, dos braços que sustentam, do corpo que diz sua verdade a outro corpo, o compromisso de acolher e defender a outra pessoa. Foi neste nível que Jesus se situou, expressando às crianças a alegria de sua vida e recebendo, em troca, a ternura e a carícia que elas lhe transmitiam com a sua alegria; Jesus se revela em gesto generoso de entrega e doação, para que o outro seja, para que a criança possa crescer em humanidade.

O Mestre de Nazaré se identifica com as “crianças” ou “os últimos” (abraçar significa identificar-se) e deixa claro que só pode compreender e viver seu projeto – que Ele chamava “Reino de Deus” – quem está disposto a “ser criança”, ou seja, a colocar-se voluntariamente no último lugar, como Ele mesmo havia feito: “o filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45).

Para abraçar uma criança é preciso “descer” em direção à ela; com isso o abraço significa colocar-se no mesmo nível dela. Não se abraça de cima para baixo. O abraço nos faz iguais e nos humaniza.



2 – O que o texto diz para mim?
Não é preciso ser especialista culto ou profissional para descobrir que o abraço expressa proximidade, afeto, carinho, solidariedade, empatia, amor. O abraço é sem dúvida algo comum na família e na sociedade, mas quando se realiza no espaço religioso expressa, com gestos concretos, o amor e a benevolência de Deus Pai a seus filhos e filhas, seja qual for sua situação física, cultural, social ou moral. É um abraço que antecipa o abraço eterno do Pai às suas criaturas no final dos tempos.

Como afirma o Papa Francisco, “no abraço ao pobre estamos abraçando a carne de Cristo”.

Através de seus abraços e através da pastoral do abraço Jesus me aproximou da presença e  ternura de Deus. Com seus abraços me manifestou e expressou o abraço do Pai a seu povo.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
No filme “O Decálogo 1” do cineasta polonês K. Kiewsloski, o protagonista é um menino de nome Pawel, órfão de mãe, cujo pai o educa sem ensinamento religioso. Um dia o menino, brincando com o computador, vira-se repentinamente em direção à sua tia que está no quarto e lhe pergunta: “Tia, como é Deus?”. A tia permanece em silêncio por um instante, fixa nele o olhar, depois abre os braços e diz: “Vem aqui Pawel”. Ambos se abraçam intensamente.

E a tia lhe pergunta: “Diga-me Pawel, como você se sente agora?”. O menino responde: “Bem, eu me sinto bem”. E aquela que o abraça, diz: “É isso Pawel, Deus é assim”.

Deus como um abraço: uma das mais sugestivas definições de Deus, elaboradas não a partir de uma linguagem teológica, talvez sofisticada e complexa, definição encontrada nos catecismos, mas uma definição que brota da experiência do abraço, no estilo das parábolas de Jesus.

“Deus como um abraço”, experimentado na ternura e no carinho de um abraço. Um Deus que conforta a vida, porque “nominar” Deus deve equivaler a confortar a vida.

O abraço fala uma linguagem universal.

A tecnologia ergue barreiras, um abraço as derruba.

A linguagem do abraço é a tradução da linguagem do coração.

Deixar o abraço falar, quando as palavras parecerem inoportunas ou saírem com dificuldades...

Um abraço nunca diz: “A culpa é sua”. É comemoração, celebração. Significa apreço, afeição, reconhecimento. Significa confiança, empatia, segurança.

Desde sempre sou abraçada pelo Criador: prolongar este gesto divino no meu cotidiano. Abraçar sempre! Abraçar muito!



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Abraçar é: segurar, envolver alguém com os braços, especialmente de modo afetuoso, manter próximo. É uma forma de carinho, de apoio e compreensão.

Não se abraça só o corpo, mas a pessoa. É um gesto que ‘diz’: “eu estou unido a você”.

“O abraço é como uma circunferência. De forma simbólica, é um elo. Um momento em que os corações estão mais próximos e se comunicam. Entrega até anatomicamente.”

Senhor, seguramente a pastoral do abraço precisa complementar-se com outras mediações pastorais, mas, com certeza, é o caminho pastoral mais impactante, e, em muitos casos, o mais necessário e o único possível, quando as palavras e os gestos são incapazes de expressar algo muito profundo.

O abraço pastoral faz parte da dimensão encarnatória da salvação e da graça. Deus não chega até às pessoas através de uma espécie de fluidos etéreos e invisíveis, mas através de mediações sensíveis, físicas, corporais, sacramentais. O abraço sacramental é como um sacramento que expressa a dignidade de cada pessoa e o amor misericordioso do Pai, que em Jesus se revelou a todos e que o Espírito atualiza na história.



5 – O que a Palavra me leva a viver?
Abraçar o pobre, o enfermo, a mulher abandonada, o ancião desamparado, o privado de liberdade...

O papa Francisco não se limita a falar dos pobres ou a optar por eles, mas se aproxima deles e os abraça. Não é simplesmente um abraço pastoral mas algo mais profundo, a pastoral do abraço. É um abraço que tem um profundo sentido profético de denúncia de um sistema que descarta e exclui.

Por isso, o papa Francisco abraça sobretudo àqueles que não tem quem os abrace, aos que estão sozinhos, aos marginalizados, aos descartados, aos feridos do caminho;  a estes lhes manifesta a ternura e o carinho de Deus.


Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje –  Mc 10,2-16
             Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
             Desenho: Osmar Koxne       

Leitura Orante –  26° domingo do tempo comum, 27 de setembro de 2015

No princípio era a diferença

“...vimos um homem expulsar demônios em teu nome,
mas nós o proibimos, porque ele não anda conosco ”  (Mc 9,38)


Texto Bíblico:  Mc 9,38-43.47-48


1 – O que diz o texto?
“nós o proibimos porque não é dos nossos”.

Tais dinamismos negativos desvelam uma profunda insegurança pessoal. Um eu psicológico e espiritual não suficientemente integrado revelar-se-á carente de “seguranças absolutas”, que sustentem sua precária e instável sensação de identidade. Esta ameaça é a que se esconde por detrás das palavras de João, no evangelho de hoje: “nós o proibimos porque não é dos nossos”.

Diante da postura preconceituosa de João, Jesus reage: “Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim”.



2 – O que o texto diz para mim?
Sou chamada a considerar a diferença como oportunidade, destacando a necessidade de estender pontes de diálogo e facilitar encontros com aqueles que são diferentes, tanto na Igreja como na sociedade.

Como seguidora de Jesus, faço parte da identidade da Igreja que é plural e diversa em seus membros, pelo qual é chamada à “comunhão na diversidade” (diferentes espiritualidades, liturgias, teologias...)

No entanto, a busca deste ideal se deparou, desde sempre, com diferentes desafios: dogmatismos, fechamento, sentimentos de superioridade, apego a normas, elitismo, legalismo, moralismo, etc...

A fé cristã em Deus, que é uno e trino, aparece como o primeiro fundamento para acolher a diferença. Também o exemplo de Jesus convida seus seguidores a sair de si mesmos, a acolher o outro como revelação de Deus. Essa fé se expressa no chamado “pluralismo comprometido”, ou seja, a busca, através de um diálogo honesto, de uma verdade, bondade e beleza sempre maiores.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
É terrível quando alguém se aferra às suas próprias ideias e crenças, gerando fanatismos.

O fanatismo cega e impede ver a verdade. O fanático se empenha em permanecer preso ao passado e bate de frente contra quem pretende abrir caminhos de futuro.

Quando alguém se fecha em suas ideias, é inútil mostrar-lhe a verdade. Quando alguém fecha sua mente aos demais é inútil mostrar-lhe a luz. Porque o fanático só crê em seus próprios pensamentos, só crê em suas próprias ideias, crê ser o único dono da verdade.

O fanatismo costuma ser o maior obstáculo para ver e acolher a verdade presente nos outros; costuma ser o maior obstáculo para ver a luz que os outros irradiam.

Todo fanatismo é perigoso, mas o pior fanatismo é o religioso. Uma coisa é a fidelidade e outra é o fanatismo. O fanatismo fecha as portas a qualquer luz que venha de fora.

Quantas vítimas do fanatismo da lei! E tudo em nome de Deus; e tudo em nome da religião; e tudo em nome da defesa da verdade.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, aqueles que temem a diferença, amoitam-se no comodismo e na estagnação; tornam-se incapazes de viver a inter-compreensão, a comunhão e o respeito recíproco. Desumanizam-se na solidão estéril e caem no fundamentalismo fechado, inimigo de toda diferenciação e cego em face da pluralidade. Aqui nasce a intolerância, que por sua vez gera o desprezo do outro diferente, e o desprego gera a agressividade que rompe a harmonia universal.

Despertar o meu eu profundo e universal é descobrir que sou uma habitante de um universo novo e espaçoso, onde a consciência expandida me conduz ao encontro do “diferente” como chance de enriquecimento vital e de intercâmbio criativo.

Deus, você “se fez diferente” e é na “diferença” que você vem ao meu encontro. Obrigada.



5 – O que a Palavra me leva a viver?

Não posso permanecer trancada em redutos que rejeitam as diferenças existenciais. A humanidade deixou de ser distante para tornar-se mais próxima, mediante as diferenças, os diálogos e as convergências.

Daí a importância e a urgência de aprender a valorizar o que é próprio e também o que é diferente, esforçando-me para não transformar as diferenças normais (geográficas, culturais, de raça, de gênero...) em desigualdades. É preciso educar e preservar as diferenças humanas.

Segundo o físico Andréi Sajarov “a intolerância é a angústia de não ter razão”.



Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Mc 9,38-43.47-48
             Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
             Desenho: Osmar Koxne       


Leitura Orante –  25° domingo do tempo comum, 20 de setembro de 2015

A autoridade dos últimos

“Quem acolher em meu nome uma destas crianças é a mim que estará acolhendo” (Mc 9,37)


Texto Bíblico:  Mc 9,30-37


1 – O que diz o texto?
Mais uma vez o Evangelista Marcos nos situa Jesus “em casa”, lugar de reunião da comunidade, onde Ele estabelece um diálogo com os Doze. 
O paradoxo é brutal: pelo caminho, enquanto seguiam a Jesus, iam discutindo para ver “quem era o maior entre eles”. Os Doze tinham interiorizado os critérios da velha sociedade, edificada a partir dos poderosos.

E Jesus, ao descobrir a má intensão dos discípulos, corta o mal pela raiz: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que  serve a todos”. 

Depois, coloca uma criança no meio deles e a abraça. O gesto de Jesus e as palavras que o acompanham tornam-se chocantes e surpreendentes. O lugar central já não corresponde nem a Pedro nem a João nem a Tiago; no espaço central da Igreja, abraçada a Jesus, encontramos uma criança, ou seja, um ser humano que depende da acolhida e ajuda dos outros, um necessitado que nem sequer pertence ao grupo. 



2 – O que o texto diz para mim?
Sempre a mesma discussão e a mesma tentação: quem é o maior? quem é o primeiro? quem é aquele que manda?... O Evangelho de hoje me situa em Cafarnaum, lugar onde são “desvelados” dois dinamismos opostos. De um lado, Cafarnaum como lugar onde o poder se torna competição e intriga, onde o seguimento se torna privilégio, onde palavras como serviço, entrega ou humildade soam vazias porque por detrás delas há outras intenções menos evangélicas. E é tão difícil sair daí. É tão complicado deixar que a criança ocupe o centro, que os últimos sejam os primeiros. O impulso do poder e da vaidade vão se impondo a tal ponto que acabo sufocando a criança que quer se expressar e deixar-se surpreender dentro de mim.

De outro lado, Cafarnaum é essa criança que é Boa Nova, que me abre às alegrias e às surpresas, que crê no amor, que reconhece sua ignorância e não se importa porque para ela sempre são novas todas as coisas, que em cada amanhecer descobre novas oportunidades, que não entende os grandes porque sabe que o essencial está em outro nível, que pede porque se reconhece necessitada, que é vulnerável e não se envergonha de suplicar o cuidado, que vive em meio a sonhos, que espera nas promessas...

Cafarnaum de crianças sempre últimas. Cafarnaum bendita e generosa. Cafarnaum possível.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Diante da oculta intenção dos discípulos de começar a construir uma nova comunidade sobre as bases do poder, a partir do maior e do primeiro, 

Jesus inverte esse modelo, pois Ele não precisa de seguidores que sejam os grandes nem os primeiros, mas de companheiros que queiram fazer-se últimos e servidores dos outros; Jesus destrói os desejos de poder dentro de seu grupo, e assim apresenta com realismo o que implica segui-lo no caminho do Reino. 



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Eu  preciso estar aberta  para as surpresas de Deus! Entrar na casa em Cafarnaum, mas não de qualquer maneira. Estou frente a um mistério santo. O “mistério” contemplado atinge as camadas mais profundas do afeto e do coração, gerando novidade em minha vida cotidiana.

Senhor, há muito que ver em Cafarnaum, mas nem todos os olhares poderão acolher o que ali acontece. Há olhares opacos que não se alegrarão, olhares desconfiados que não o entenderão, olhares frios que não vibrarão com a novidade das palavras e gesto de Jesus... Somente os olhares dos pobres e pequenos se admirarão, e a paz do coração será sua recompensa. 

“Ver de novo”, ver outras coisas diferentes daquilo que estou  acostumada a ver, é também “nascer de novo”. É preciso despertar a “criança interior” que há em mim, a capacidade de atenção à vida, de buscar com outros, de deixar-me surpreender diante da presença despojada de Deus. 

No lugar onde estava, Jesus colocou uma criança (não um templo, nem uma bíblia, nem o código canônico...), de quem todos devem se aproximar, acolher e servir.

Jesus coloca uma criança no centro para que ali fique; os discípulos discutiam sobre esse centro, mas agora descobrem que está ocupado pela criança a quem Jesus a coloca de pé, convertendo-a em hierarquia máxima, em meio ao grupo onde Ele mesmo estava.



5 – O que a Palavra me leva a viver?
“Entrar no Reino” significa entender e compartilhar o projeto de Jesus, ou seja a “fraternidade universal” e o “amor que se faz serviço”, pois Ele veio “buscar” os últimos (enfermos, excluídos, pecadores).

O poder deteriora relacionamentos, resvalando-se para o terreno pantanoso da competição, da suspeita, da intriga. A cultura do poder suga o “espírito” da vida de uma comunidade, minando a criatividade e fragilizando seus laços de convivência. Sorrateiramente esta tentação toma conta do coração humano e o petrifica, impedindo a expansão da vida em direção aos outros. Por isso Jesus quer que seus servidores saibam se colocar no final, para, a partir dali, acompanhar e ajudar os outros (especialmente os perdedores deste mundo), superando a lógica do mando e do poder.

Com seu gesto e palavra, Jesus declara as crianças como coração e autoridade suprema da Igreja. Dessa forma, o que começava sendo uma pergunta hierárquica sobre o poder, entendido como sinal de Deus sobre o mundo (quem é o maior?), desemboca numa exigência ética de inversão do poder, de anti-hierarquia. 

Dessa forma, Jesus interpreta a autoridade a partir da ternura: a criança é importante porque está no centro da comunidade. Por isso, uma sociedade que não cuida e não protege suas crianças, é uma sociedade fracassada...



Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Mc 9,30-37
            Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne       


Leitura Orante –  24° domingo do tempo comum, 13 de setembro de 2015

Pobre “EGO”

“Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo...”  (Mc 8,34)


Texto Bíblico:  Mc 8,27-35


1 – O que diz o texto?
Jesus fecha como chave de ouro, toda a cena do evangelho de hoje: “Quem quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me”.

Jesus faz o convite: entrar na lógica do dom, do descentramento do eu, da entrega gratuita, da superação da mera reciprocidade.

É a lógica aberta pelo Reinado de Deus, que alarga o horizonte da vida humana, enriquece as possibilidades de atuação e aumenta a criatividade no serviço. A lógica do dom implica deixar-se conduzir por Deus, conhecido através de Jesus, que é entrega de vida, misericórdia, perdão, amor infinito.

Uma consideração superficial destas palavras de Jesus deu margem a uma apresentação do cristianismo como a religião que enfatizava a dor, a renúncia e a negação da própria vida e da própria identidade.

Mas Jesus não buscava a dor e nem negava a vida. Suas palavras não são uma exaltação do sofrimento, mas expressam uma grande sabedoria: elas buscam “despertar” a pessoa para sua verdadeira identidade, para que assim ela possa assumir uma atitude acertada diante da vida.

O horizonte de toda pessoa é precisamente a vida e a plenitude. Isso é o que todos, sabendo ou não, buscamos. E buscamos isso em tudo o que fazemos e em tudo o que deixamos de fazer.



2 – O que o texto diz para mim?
Jesus oferece uma resposta carregada de sabedoria, na linha daquela que foi dada por todos os mestres e mestras espirituais: para caminhar na direção da vida, é necessário “desapegar-me” do ego.

“Renunciar a si mesmo”  ou “negar-se a si mesmo” é não se reduzir ao eu superficial ou ego. Só quando me desapego do ego, tomo consciência de minha identidade mais profunda, a vida que sou. Essa é a Vida de que fala o Evangelho, a mesma Vida que Jesus vivia, com a qual Ele estava identificado (“Eu sou a Vida”) e que buscava despertar em todos.

“Renunciar a si mesmo”: não se trata de negar o que sou, mas o que pretendo ser e não ser.

No meu mais profundo habita uma pretensão básica de querer “ser deus” – “sereis como deuses”. É o pecado de raiz já dos primeiros pais. É a tentação de querer ser outro, de não aceitar ser dependente, de não se aceitar como criatura, como humano (frágil e limitado)...

“Renunciar a si mesmo” é não deixar que o impulso para a vaidade, a soberba, o poder... predomine; não deixar que o centro seja o “eu”, mas Deus. Isso implica em “descer”, humildemente, ao próprio húmus.

Se não venço essa pretensão de “bastar-me a mim mesmo”, não posso seguir Jesus Cristo.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O seguimento de Jesus implica, um descentramento, um esvaziamento do “meu próprio amor, querer e interesse” (S. Inácio). Para poder viver o Evangelho de uma maneira inspirada, eu deveria deixar ressoar profundamente em mim essa expressão tão forte de Jesus: “negar-se a si mesmo” para poder viver com mais plenitude e transparência.

“Negar-se a si mesmo”  é deixar de se identificar com a tirania das mensagens dos meus pequenos “egos”, que se refletem em minha própria linguagem e autoimagem. “Negar-se a si mesmo” é um conselho sábio: significa negar o que na realidade “não é”, despertar-se da ilusão e do engano, deixar de girar em torno de um suposto “eu” que não existe, para viver a comunhão com todos e com tudo e agir assim de um modo mais coerente.

É saudável reconhecer esses “eus”  e dialogar com eles, pois de outra forma eles se fixarão em mim como rigidez ou me transformarão em fanática. Rigidez e fanatismo, dureza e intolerância, legalismo e moralismo... indicam a existência de “eus” inflados que atrofiam minha existência.

Por isso “renunciar-se a si mesmo” não é mutilar-se, nem buscar sacrifícios, nem anular-se..., mas é descer até “o dinamismo de vida” (a força germinadora) que pulsa no próprio coração, ansioso de plenitude, de vida e de amor.

A afirmação de Jesus, portanto, me faz descobrir que por detrás do “renunciar-se a si mesmo” pulsa o desejo de desprender-se do “ego desumano” para poder expandir a vida em direção a uma ousada criatividade.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, não sou os pequenos “egos” que acredito ser. Preciso despertar dessa ilusão e entrar em contato com meu verdadeiro Eu, meu Ser e, a partir dele, olhar a vida, olhar minha atividade e olhar os outros, a fim de viver em sintonia com quem sou em profundidade. É esse o modo de “ganhar a vida”.

Preciso desvelar (tirar o véu) de meus “pequenos eus”, detectar e reconhecer seus dinamismos sombrios e atrofiadores, para poder caminhar, com mais naturalidade e leveza, para além de mim mesma. Do contrário, eles travarão minha vida de uma maneira tirânica.

Quando experimento algum mal-estar existencial persistente, devo desmascarar meu pequeno “eu” sofredor (ressentido, desprezado, criticado, culpado...). A partir do melhor em mim, acolho e compreendo esse mal-estar, ao mesmo tempo que a ele expresso minha compreensão e acolhida; me humanizo à medida que tenho a coragem de descer ao encontro dos meus “egos” e não permitir que eles determinem minha vida. Cada vez que me reduzo ao “ego”, bloqueio o fluir da vida, e apenas sobrevivo na superficialidade de mim mesma.



5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
Sou habitada por um conjunto de “eus”, alguns conscientes, outros inconscientes. São os “pequenos egos” ocultos que habitam em meu interior. São elementos de minha própria sombra, aos quais deveria prestar mais atenção se eu quiser avançar rumo a uma plenitude humana e espiritual.

A sombra é composta por um conjunto de pequenos “egos” que fui alimentando no decorrer de minha vida. Na sombra pode haver um ego vaidoso, orgulhoso, sozinho, assustado, ressentido, angustiado, irado, invejoso, triste, sensual, avarento, vítima, sádico... Trata-se de descobrir, pouco a pouco, esses pequenos “egos” reprimidos e inflados, nomeá-los e dialogar com eles. Neles se esconde a pessoa que teve de ocultar-se, negar-se ou até rejeitar-se para sobreviver diante dos outros.

Para sair dessa armadilha é necessário criar coragem e me situar nesse “espaço interior”, aí onde me identifico com o meu “eu verdadeiro”, para perceber as coisas de forma adequada. Uma experiência espiritual profunda consiste em estar cada vez mais lúcida com relação a ele; identificando-me prazerosamente com o meu Eu verdadeiro vou “desvelando” e conhecendo mais meus “pequenos egos” ocultos.

Só posso dialogar proveitosamente com meus “egos” a partir do meu  “eu” verdadeiro (lugar da beatitude original). Desse diálogo brotam sentimentos de paz, abertura, espontaneidade, vitalidade, amor...



Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Mc 8,27-35
             Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
             Desenho: Osmar Koxne       




Leitura Orante –  23° domingo do tempo comum, 06 de setembro de 2015

Sentir o espírito da Palavra

“Abre-te! Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou...” Mc 7,35


Texto Bíblico:  Mc 7,31-37


1 – O que diz o texto?
O Evangelho de hoje nos diz que os pagãos também foram destinatários da presença inspiradora e salvadora de Jesus: Ele saiu da região de Tiro, passou por Sidônia até o mar da Galiléia e atravessou os limites da Decápole. É uma das pouquíssimas vezes que vemos Jesus fora de seu país, na região dos pagãos, em meio às pessoas de outra religião. 

O texto faz referência a um percurso corporal: de Jesus são nomeados as mãos, os dedos, a saliva, os olhos e a respiração; do surdo-mudo, os ouvidos e a língua. No começo do relato o surdo-mudo aparece fechado em seu silêncio e em sua solidão, levado diante de Jesus por outros e logo afastado deles pelo mesmo Jesus. Dir-se-ia que não só está atado e travado por seu problema de comunicação, mas também impedido para tomar iniciativas e decisões livres.

O contato com Jesus, em intensa proximidade corporal, e a força de seu imperativo “abre-te”, soltam-lhe todas suas ataduras e lhe permitem de novo pronunciar sua própria palavra. 

Como por um efeito contagioso, todos os presentes se põem a proclamar o ocorrido e escutamos seu rumor admirado, como um eco das palavras de Deus na criação: “Ele tem feito bem todas as coisas”. 



2 – O que o texto diz para mim?
 “Abre-te”: esta é a única palavra que Jesus pronuncia em todo o relato. Expressão que desata as palavras emudecidas no interior daquele homem; expressão que desbloqueia a voz e os ouvidos, ou seja, restaura nele a capacidade da comunicação, de escutar e responder. Por isso, esse imperativo não está dirigido somente aos ouvidos do surdo mas ao seu coração. 

Jesus, com sua presença terapêutica, destrava interioridades. Ele assumiu uma estratégia terapêutica de “inclusão”. Ao curar fisicamente uma pessoa, Jesus busca fazer emergir um ser humano mais sadio e inteiro, a partir de suas raízes, a partir de seu coração, centro e fonte das decisões. 

Jesus se compromete com a saúde radical e integral do ser humano, e devolve às pessoas a saúde de seu corpo, de suas emoções, projetos, relações e abertura ao outro. 

Poderia dizer que Jesus ativa no surdo-mudo a dom de “empalavrar”, ou seja, “pôr em palavras” tudo o que estava oculto em seu interior. Sei que a palavra abarca todas as expressividades humanas; mas ela não se reduz à oralidade: a gestualidade, a linguagem corporal, a expressão dos sentimentos, as atitudes éticas... tudo isso também faz parte da palavra humana. As palavras são, ao mesmo tempo, pensamento, sentimento, ação... São humanizadoras, por excelência.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A cura do surdo-mudo me convida a deixar que Jesus continue realizando em mim o seu gesto criador, como fez Deus na primeira manhã da criação, modelando com suas mãos e insuflando seu alento, curando minha surdez e gaguejamento.

A mesma palavra dirigida ao surdo-mudo “Abre-te”, pode ressoar hoje em meus ouvidos e em meu coração, convidando-me a destravar dimensões importantes de minha vida, para assim poder continuar realizando pequenos gestos criadores e oferecendo sinais de vida, também entre aqueles que não compartilham a mesma fé.

Clarice Lispector disse um dia: "Mas você sabe que a pessoa pode encalhar numa palavra e perder anos de vida?".

De fato, na cena do evangelho de hoje, Jesus desencalha palavras e mobiliza o homem para ir desfrutando palavras novas, inspiradoras, que rompem a sua solidão e expandem a sua vida em direção aos outros e em direção ao grande Outro. 

“Em algumas narrativas, certos vocábulos abrem grutas, cofres e corações. Sim, algumas palavras ajudam o barco a flutuar: “esperança”, “amanhã”, “utopia”. Pode-se também passar uma estação com algumas delas, como se pode passar uma temporada num determinado lugar, num certo corpo, num certo amor. Certas palavras são como hotéis: nelas fazemos pernoite, mas outras demandam moradia maior, são grutas ou catedrais que exigem contemplação” (Affonso Romano de Santana).



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, as palavras são feitas à minha medida e adquirem vida quando a pronuncio, convertendo-se assim em um prolongamento de mim mesma, de meus sentimentos e de meus valores. As palavras são o reflexo de meu viver e sentir, de minhas misérias e grandezas; são a “alma” de quem as pronuncia ou as escreve. Com elas não estou sozinha; com elas posso transcender minha pobre realidade. 

As palavras se desgastam quando me  afasto do contato originário com a realidade, quando me distancio dos acontecimentos que me alcança, quando renuncio a sentir e saborear as coisas internamente e a dor infinita de meu próximo.

Preciso  progredir no caminho do silêncio, cavar palavras inspiradoras e portadoras de vida junto àqueles que me são mais próximos... educar-me na escuta autêntica do meu coração, que é a única capaz de fazer emergir palavras carregadas de vida e de sentido.



5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
É preciso novamente dar oportunidade às palavras, pois viver é a arte de saber lidar com as palavras.

Cada palavra tem seu impacto interior, algumas evocam e fazem presentes não só as ressonâncias imediatas, senão que me  conduzem às profundas e estremecedoras experiências. 

Tenho a nobre tarefa de aproximar a palavra à experiência, para resgatá-la da insignificância, do anonimato, fazê-la inédita, consciente e poder assim confrontá-la  com a Palavra que, feito carne, entrou em minha experiência histórica.

Como  Jesus não está entre os pagãos com uma atitude “apóstólica”, não o vejo preocupado em catequizá-los, nem fazer proselitismo religioso: não procura  converter ninguém à sua religião, à fé israelita no Deus de Abraão. E tampouco faz discursos religiosos, nem o vejo proclamando uma doutrina, ensinando e divulgando as santas máximas de sua mensagem.

Simplesmente “cura”. Em outras palavras: “faz o bem”, não fala sobre o bem; realiza atos, não ditos.



Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Mc 7,31-37
             Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
             Desenho: Osmar Koxne       


Leitura Orante –  22° domingo do tempo comum, 30 de agosto de 2015

Os riscos de uma religião desumanizadora

“De nada adianta o culto que me prestam, 
pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos”


Texto Bíblico:  Mc 7,1-8.14-15.21-23


1 – O que diz o texto?
A atuação de Jesus é perigosa, pois Ele ensina a viver com aquela liberdade surpreendente.. Convém corrigi-la.

Os fariseus e doutores da lei vigiavam rigorosamente o cumprimento das normas rituais: lavar as mãos antes de comer, a maneira certa de lavar os copos, jarras e vasilhas de cobre...



2 – O que o texto diz para mim?
Provavelmente, tais normas surgiram como uma medida de prevenção higiênica. O erro acontece quando se atribui um valor absoluto e se acaba declarando “impuras” (religiosamente) às pessoas que não as cumprem. Desse modo, o que poderia ser uma prescrição saudável terminou se convertendo em uma arma de poder e em um pretexto gravemente discriminatório.

Jesus foi um “transgressor” porque sua missão estava centrada em “destravar” a vida das pessoas pelo peso das tradições e ritos religiosos. Suas palavras, tomadas de Isaías, apontam diretamente para o coração: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. De nada adianta o culto que me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos”.

O  culto que agrada a Deus nasce do coração, da adesão interior, desse  centro íntimo de onde nascem minhas decisões e projetos.

Em toda religião há tradições que são “humanas”: normas, costumes, ritos, devoções... que nasceram para ajudar a viver a experiência religiosa em uma determinada cultura. Podem fazer bem; mas podem causar muito dano quando me dispersam e me afastam da Palavra de Deus. Elas nunca devem ter a primazia.

Não posso esquecer nunca do que é essencial.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Conta-se que em um mosteiro se respeitava escrupulosamente o silêncio. Mas cada dia, justamente às seis horas da tarde, quando os monges iniciavam a oração das Vésperas, aparecia um gato pela porta da igreja, miando fortemente.

Diante da insistência e intensidade dos miados, o abade tomou uma decisão: pediu a um irmão que, das seis às sete da tarde, amarrasse o gato em uma pilastra que havia na entrada do mosteiro, longe da capela onde eles rezavam. E assim fazia o irmão, todas as tardes.

O tempo passou. O abade faleceu e veio substituir-lhe um monge de outro convento distante, que logo percebeu o que cada tarde se fazia com o gato. E pediu para continuar a repetir o mesmo rito.

Meses depois faleceu o gato. Imediatamente, o novo abade chamou o irmão e lhe disse: “Compre outro gato o quanto antes para amarrá-lo, cada tarde, das seis às sete horas, na coluna da entrada da igreja”.

Este antigo conto mostra uma tendência bastante habitual no comportamento do ser  humano. Começo  fazendo algo que me parece útil, o passo seguinte; começo absolutizar essa ação, convertendo-a em um rito ao qual atribuo valor por si mesmo, à margem de sua utilidade. Quando isso acontece, dá a impressão que o único motivo que me leva a manter uma ação ou um comportamento é que “sempre se fez assim”.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o que Jesus deixou claro, com sua forma de viver e com seus ensinamentos, é que o centro da religião não está nem no templo, nem nos rituais, nem no sagrado, nem na submissão às normas religiosas, nem nos dogmas e suas teologias, mas que está na práxis, numa ética, num projeto de vida, numa forma de viver, que se centra e se concentra na bondade para com todos de maneira igual, no amor sem limitações nem condicionamentos, no serviço gratuito e generoso. Isso se traduz e se realiza no respeito à vida humana, na defesa da vida, da dignidade e dos direitos de todos.



5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
Jesus deslocou a religião, tirando-a do templo, dos sacerdotes e seus hierarcas,  separando-a dos ritos, antepondo-a ao sagrado. E a colocou no centro da vida. Mais ainda, a ampliou e a estendeu à vida inteira, não reduzindo-a a determinados momentos da vida, a espaços separados, a gestos privilegiados, a objetos e personagens com quem é preciso manter uma relação de abaixamento e submissão. É assim como Jesus revela e expressa a “humanização de Deus”.

O decisivo é o “lugar” onde vivo a experiência de encontro com Deus

Seu modo livre de ser e viver me revela “a humanidade de Deus”



Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Mc 7,1-8.14-15.21-23
            Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne      





Leitura Orante –  21° domingo do tempo comum, 23 de agosto de 2015

Palavras que queimam

“Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” (Jo 6,60)



Texto Bíblico: Jo 6, 60-69


1 – O que diz o texto?
Pela primeira vez Jesus experimenta que suas palavras não tem a força desejada. No entanto, não as retira senão que reafirma mais ainda: "As palavras que vos falei são espírito e vida. Mas entre vós há alguns que não creem” (Jo 6,63). Suas palavras parecem duras mas transmitem vida, fazem viver pois contém Espírito de Deus.

Jesus não perde a paz; o fracasso não lhe inquieta. Dirigindo-se aos Doze, lhes faz a pergunta decisiva: “Vós também vos quereis ir embora?”. Não os quer reter pela força; deixa-lhes a liberdade de decidir. Seus discípulos não devem ser servos mas amigos. Se quiserem, podem voltar às suas casas.


2 – O que o texto diz para mim?
As palavras tem um peso no anúncio e na atividade missionária de Jesus; não são neutras. Como um raio x que passa além, as palavras proferidas por Ele iluminam os recantos mais profundos do ser humano; como um refletor em noite escura, ela reacende a esperança onde tudo já perdeu o sentido; como a chuva em terra seca, ela desperta novidades na vida, sacode as consciências adormecidas, põe em questão as atitudes de indiferença e de fechamento...

No encontro com a realidade dos pobres e excluídos, Jesus extrai palavras provocativas, previamente cinzeladas e incorporadas no seu interior, onde elas revelam dinamismo, sentido e alteridade; sua palavra brota de uma vida interior fecunda e conduz a uma vida comprometida.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O mundo está repleto de “papos” vazios, confissões fáceis, palavras ocas, cumprimentos sem sentido, louvores desbotados e confidências tediosas, palavras enfeitadas e vazias, sem alma, nem paixão e poesia. Vivo cercada de “palavras vãs”, condenada a uma civilização que teme o silêncio.  Fala-se muito para dizer bem pouco. Às vezes tenho a sensação de que as palavras me saturam: nas aulas, na televisão, nos jornais, nas liturgias, na Internet... há demasiado palavrório.

“Pai, dê-me uma palavra!” Invocação desconcertante e de grande simplicidade que parecia romper o austero silêncio dos desertos do Egito, Palestina, Síria, Pérsia, nos inícios do séc. IV da era cristã.

Visitantes ocasionais ou irmãos inexperientes na fé, movidos não por uma simples curiosidade, mas desejosos de dar nova orientação às suas vidas, costumavam dirigir-se a um “ancião do deserto” para pedir-lhe um ensinamento que, nascido de sua experiência de vida no Espírito, pudesse se tornar de valiosa ajuda na senda das pegadas do Senhor; uma palavra para a vida que, exigida pela experiência cotidiana, pudesse dotá-la de um sentido; uma palavra proveniente do exterior mas meditada e acolhida no coração, para que pudesse se tornar semente de uma vida reconstruída e expansiva; uma “palavra de vida” capaz de ecoar até nas camadas mais profundas do próprio ser, mobilizando o ouvinte a uma existência mais identificada com o seguimento de Jesus Cristo.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, que eu possa apagar  todas as palavras de meu vocabulário, exceto três que é preciso escolher para poder  expressar e andar pela vida. Tem que ser palavras essenciais para cada um, e que é preciso elegê-las com calma, sem forçar nada, experimentando uma depois de outra até encontrar aquelas que melhor expressarão a minha experiência pessoal, de fé, de relação...

Observar como me sinto ao pronunciá-las diante das pessoas com as quais vou me encontrando e imaginar o que lhe diria Jesus se eu as dissesse a Ele.

Preciso cavar palavras nas minas do meu silêncio, e deixar que o Espírito diga a “palavra” misteriosa, diferente, reveladora de minha verdadeira identidade. Somente o silêncio poderá gerar “palavras de vida”.


5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
A palavra de Jesus desencadeia em mim uma crise: tenho que decidir porque com a palavra de Jesus se dá uma divisão entre luz e trevas, vida e morte... Jesus pronunciou uma palavra que tinha peso e que colocava em crise a situação social, religiosa, política e humana da época. A crise que Jesus provoca em seus seguidores com o discurso do “Pão da vida”, arranca-os de seu horizonte limitado e estreito para elevá-los a um horizonte amplo, próprio de Deus.

Suas palavras jamais deixam as coisas como estão. Elas não se limitam a transmitir uma mensagem; elas tem uma força operativa, desencadeiam um movimento, provocam uma mudança...

Vivo em tempos de “fratura da palavra” e, portanto, “fratura de sentido”. E a raiz disso tudo está na carência de uma interioridade, lugar da gestão das palavras de sabedoria que inspiram a minha vida.

As palavras perdem força e criatividade quando não nascem do silêncio. Preciso articular  silêncio e  palavra que é um verdadeiro artífice da vida.


Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Jo 6, 60-69
             Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
             Desenho: Osmar Koxne      



Leitura Orante – domingo, 16 de agosto de 2015

ASSUNÇÃO: uma mulher, uma esperança, uma missão...

“Maria levantou-se e dirigiu-se apressadamente...”


Texto Bíblico: Lc 1,39-56


1 – O que diz o texto?
Com a expressão “apressadamente” Lucas quer sublinhar a atitude interior de fé e de prontidão de Maria.

Sua “pressa” não nasce da ansiedade que não encontra repouso nem pode descansar no presente, mas é a expressão de mobilidade e de um amor serviçal que busca ser eficaz.

Sua “pressa” está dinamizada pelo fervor interior, pela alegria e, sobretudo, pela fé.

Quem foi “agraciada” por Deus não fica só contemplando as maravilhas que Deus realizou nela, mas sai para proclamá-las. Quem tem consigo o Salvador não o pode guardar só para si.

Quando Deus entra e atua na história das pessoas, move-as para irem “apressadamente” ao encontro dos outros, para serví-los nas suas necessidades, para comunicar a alegria pela salvação recebida, e para alegrar-se com os outros pelas graças que elas receberam.



2 – O que o texto diz para mim?
A  Assunção não é um privilégio excepcional de Maria, mas a imagem do meu próprio destino.

Crer na Assunção alimenta a esperança; por isso Maria é o ícone da esperança.

Como disse Pio XII ao proclamar o dogma da Assunção: “o essencial da mensagem é reavivar a esperança na própria ressurreição”.  A festa da Assunção, fala de uma fidelidade duradoura, de um além que se faz sempre mais próximo e presente, de uma vida ainda a caminho da plenitude.

Maria foi “assunta ao céu” porque “levantou-se apressadamente” em direção ao serviço; ela foi “assunta” porque assumiu tudo o que é humano, porque “desceu” e se comprometeu com a história dos pequenos e marginalizados. Por isso, Deus a engrandeceu plenamente.

Em Maria resplandece o projeto divino sobre a criatura humana: a dignidade do ser humano aparece plenamente iluminada neste destino supremo já realizado na Virgem Maria. Ela deixou-se envolver pelo Espírito  assumida e transformada  no seio da Trindade Vida.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Quem ocupa o centro da cena, do começo ao fim, é a figura de Maria. Nela devem concentrar-se, portanto, o meu “olhar, escutar, observar”.

Nenhum outro texto me revela de maneira tão densa e tão profunda a vida interior de Maria, os pensamentos e os sentimentos que invadem sua alma, a consciência de sua missão, sua fé e sua esperança, sua experiência de Deus.

Contra uma concepção cada vez mais “econômica” do mundo, contra o triunfo do possuir, do ter, da escravidão das coisas, o Magnificat exalta a alegria do partilhar, do perder para encontrar, do acolher, do admirar, da felicidade da gratuidade, da contemplação, da doação.

O ser humano, e todo o seu ser, transforma-se então em louvor de Deus.

O Magnificat, é o canto das escolhas caprichosas de Deus, que tem um “fraco” pelos pobres, por todos os infelizes e os oprimidos; poder e riqueza não gozam de nenhum prestígio aos seus olhos.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Realiza-se em Maria a situação final prometida a toda humanidade: “ser um dia de Deus e para Deus”

O cântico de Maria é um resumo de todas as esperanças de Israel e, ao mesmo tempo, uma expressão condensada da fé, da esperança e do amor da Igreja, o novo Povo de Deus.

Maria canta agora a realização das esperas e das esperanças, cantadas nas horas de júbilo e nas horas de pranto, pelo povo de Israel. A esperança se realiza no encontro, que impele a sair, a caminhar,  a ir ao encontro, narrar aos outros o fogo que se acendeu por dentro.

As promessas do Magnificat não são uma utopia nebulosa.

Elas estão fundamentadas na esperança certeza da fidelidade amorosa de Deus.

A esperança é caminho e meta, posse e dom, destino e encontro, antecipação e cumprimento, expectativa e busca, risco e certeza, ousadia e liberdade. A esperança é brasa, é pés; o ser humano esperança é o peregrino que caminha, é o artífice que tece o seu próprio existir.

“O coração do cristão é inquieto, está sempre em busca, em espera: esta é a esperança... porque a esperança é aquela que faz caminhar, faz abrir estradas...” (Massimo Cacciari)

A esperança é o canto que desperta coragem frente os corredores escuros da história.

Senhor, obrigada pelas “marcas salvíficas” de sua presença na minha história pessoal. Não posso esquecer o que fez ao longo da história da salvação e o que fez e faz particularmente por mim na história de minha vida.



5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
A esperança mora onde a deixo entrar: onde luto, onde convivo com o outro diferente de mim, onde a fragilidade e a transição podem desorientar, onde as trevas parecem mais fortes que a luz, onde a vida parece ser ameaçada pela morte, onde a violência pensa levar vantagem, onde o caminho é íngreme, onde a espera se confunde com a angústia...

Mas não basta ter esperança. É preciso ser esperança. O ser humano vive de esperança, acredita na esperança, mas, sobretudo é esperança. A esperança leva a querer algo mais. É “antecipação criadora”; ela tem “rosto novo”. É madrugada e não crepúsculo. Jamais “envelhece”. É o futuro que ainda pode ser convertido em história nova.

É  Assunção: vida plena antecipada.

Celebrar o mistério da Assunção de Maria é também um convite a viver nessa dinâmica do compromisso e não da resignação, da esperança solidária e não da “espera passiva”.

Este mistério celebrado por toda a Igreja é um mistério profundamente enraizado no coração do ser humano, que quer viver sempre, permanecer, ser imortal. Por isso sou convidada a continuar nesse “deslocamento” contínuo a serviço da vida. Assunção é missão



Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Lc 1,39-56
            Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne       





Leitura Orante – 19° domingo do tempo comum,  09 de agosto de 2015

Com Jesus, descer à própria humanidade

“Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente”  (Jo 6,51)


Texto Bíblico: Jo 6,41-51


1 – O que diz o texto?
Com estas duas palavras, “descer” e “subir”, o Evangelho de João  descreve o mistério da Redenção realizada por Jesus Cristo. Se com Jesus quisermos subir ao Pai, temos primeiro que descer com Ele à terra, afundar os pés na nossa própria condição humana. 

Todo aquele que pensa que para aproximar-se de Deus tem que se afastar do humano, deforma a própria imagem de Deus, que em Jesus “desce”, faz-se pão para alimentar e humanizar a todos. O caminho para aproximar-se de Deus é o caminho que Deus fez para aproximar-se do ser humano: “humanizar-se”. Não há outro caminho. Esse caminho nos dá medo, porque nossos instintos de “eudeusamento” são mais fortes que a simplicidade própria do humano. E a humanidade de Jesus nos assusta porque desvela tudo o que há de mais desumano em nós e nas nossas relações.

Com esta afirmação lapidar, Jesus está se manifestando como o Enviado de Deus; mas não usa como sinal o legado poderoso, os atributos régios, os resplendores, as armas, os tronos, as vestes nobres: usa como sinal o pão, ou seja, vida que se desfaz em favor dos outros. Vida expansiva para que outros vivam.

Jesus compreendeu-se a si mesmo no pão, compreendeu-se no vinho, ou seja, ser para os outros alimento e alegria. Grãos e espigas moídos para alimentar; uvas pisadas para expelir o saboroso vinho. 

Jesus é reconhecido no pão que “desce” e desaparece nos outros, dissolvendo-se no mais íntimo de cada um, despertando alento, dando calor, força e sentido a partir de dentro.

Jesus Cristo, ao fazer-se pão, acolheu tudo quanto é humano e desta maneira tudo redimiu.

Em sua humanidade, Ele alimentou e saciou nossas carências mais profundas; ao mesmo tempo, ativou e despertou outras grandes “fomes”: comunhão, compaixão, solidariedade...



2 – O que o texto diz para mim?
“Descer” e “subir”, portanto, são imagens para descrever o processo de transformação realizado por Jesus no interior de cada um de nós. Não posso “subir” se não estiver  disposta a “descer” com Ele ao meu “húmus”, às minhas sombras, à condição terrena, ao inconsciente, à fraqueza humana.

Jesus curava e ensinava, alimentava (partilhava os pães) e anunciava a chegada do Reino (paz plena, vida partilhada), fazendo-se “alimento” para os outros.

Esta é a verdade, a revelação emocionante, a grande novidade deste evangelho de João, que recolhe o que há de mais profundo da mensagem e da vida de Jesus: para dar alimento é preciso fazer-se alimento.

Jesus não só ensina e dá o alimento, mas Ele mesmo “desce” e se converte em alimento. Esta é a sua novidade “teológica”, sua novidade humana, a verdade mais profunda da Eucaristia: compartilhando o pão de Jesus (em memoria de sua vida e de sua morte), seus discípulos descobrem que Jesus mesmo é alimento e que eles devem se fazer alimento uns para os outros.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Ser pão em Cristo.  A “farinha” de minha existência: ingredientes de minha massa.

Ao “amassar” a minha vida para querer ser pão... 

A farinha é o que dá consistência e firmeza ao pão, brindando-o com diferentes formas e estruturas.

Minha farinha é aquilo sobre a qual me sustento. É essa voz, no mais íntimo de mim mesmo, que me confirma: “sou eu”. É tudo aquilo sobre a qual posso deter-me sabendo que se trata de terra firme onde colocar-me de pé e levantar-me. É minha palavra, aquela que me pronuncia. É feita de meus valores, minhas crenças, minhas certezas; é o que creio sobre Deus, sobre o mundo, sobre minha identidade; é aquilo que assumo como bandeira de minha existência, aquilo que me faz seguro, confiável, sólido; é aquilo que permanece, atravessando a passagem do tempo e o embate de diferentes tormentas em minha vida.

A farinha é também aquilo que creio sobre mim mesmo, minhas firmezas, minhas convicções: é a imagem que tenho de mim, através de minhas circunstâncias ricas e frágeis, e que constitui minha verdadeira identidade.

Nesse contexto é preciso dizer que o verdadeiro alimento é a vida mesma do ser humano: Jesus se fez alimento para os outros, saciou a fome de justiça e amor. Ele é o alimento que gera vida nova no mundo, vida oferecida e compartilhada. Um alimento “subversivo” porque subverte a tradicional “ordem” das coisas. “Eu sou o pão da vida”. Antes de partir o pão, Jesus parte-se a si mesmo, faz-se alimento. Toda sua vida foi entrega. Sua vida inteira dá significado ao partir, compartilhar e repartir o pão da vida. 



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, sou pão quando alimento o outro na esperança, no perdão, na acolhida, na compaixão, no compromisso... Sim, posso multiplicar o pão da festa, da alegria, o pão da justiça, o pão da ajuda fraterna... Quanto pão para ser dividido! “Tornar-me pão” significa “descer” em minha própria condição humana para expandi-la em atitudes de serviço, partilha, solidariedade...

Porque Jesus é “pão descido do céu” e porque compartilho sua vida, também eu posso e devo “descer” e ser comunhão de vida. Neste sentido, todos somos pão de Eucaristia.

Cada ser humano é “pão vivo, descido do céu” para outro ser humano; cada homem, cada mulher é revelação de Deus, pão de vida eterna para os outros. Por viver neste nível, por entregar-se e compartilhar a vida neste plano, os homens e mulheres “não morrem”, tem vida eterna.

E é isso que, no nível mais profundo, somos todos. Todos somos Vida, todos somos “pão de vida”.



5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
O coração, a quem não é estranho nada do que é “humano”, alarga-se, enche-se do amor de Deus, que transforma todo o humano. O caminho da humildade é o caminho da transformação.

Ao fazer, junto com Jesus Cristo, o caminho da “descida”, o ser humano vai ao encontro de sua realidade e coloca-se diante de Deus para que Ele transforme em amor tudo quanto existe nele, para que ele seja totalmente perpassado pelo Espírito de Deus.

Ser “pão para a vida” é confessar que ser seguidor de Jesus é ser para os demais, é comprometer-se a ser fermento de unidade, de amor, de paz, é consumir-se para que outros vivam. Se minha participação no “pão da mesa” não colocar em questão os meus egoísmos, preconceitos, rivalidades, complexos de superioridade..., não tem nada a ver com o que Jesus quis expressar com o “discurso do Pão da Vida”.

Aproximar do Pão da Vida para ser “pão de vida” constitui-se como o momento mais “subversivo” que posso imaginar: fazer memória do que Jesus foi durante sua vida (pão para os outros) e me comprometer a viver como Ele viveu (“fazer-se pão para os outros”). 

Ao comer o pão e beber o vinho “fazendo memória”, estou prolongando um “estilo de vida”, fundamentado no modo de viver de Jesus. O que quer dizer é que faço minha Sua vida e comprometo a me identificar com o que foi e fez Jesus. Tomar o pão e o vinho da Eucaristia é fazer memória de uma presença  que me compromete.

Nós “subimos” a Deus quando “descemos” à nossa humanidade. Este é o caminho da liberdade, este é o caminho do amor e da humildade, da mansidão e da misericórdia; é o caminho de Jesus também para nós.

Jesus Homem se faz “pão”, humanidade convertida em alimento para os outros. A Vida Eterna não se revela num gesto de pura interioridade, mas no encontro e comunhão de uns com outros... Quem crê nos demais, quem compartilha com eles a vida (fazendo-se eucaristia) tem a vida eterna, porque Deus é Comunhão de Vida e porque Jesus é a revelação mais alta desse Deus entre nós.



Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Jo 6,41-51
            Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne       




Leitura Orante – 18° domingo do tempo comum,  02 de agosto de 2015

Fomes que nos habitam

“Esforçai-vos não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna e que o Filho do homem vos dará” (Jo 6,27)

Texto Bíblico: Jo 6,24-35

1 – O que diz o texto?
Depois da multiplicação dos pães, o povo foi atrás de Jesus; tinha visto o milagre, comeu com fartura e queria mais! Procurou o milagroso e não buscou o sinal e o apelo de Deus que nele se escondia.. Quando o povo encontrou Jesus em Cafarnaum, teve com ele uma longa conversa, chamada Discurso do Pão da Vida, um conjunto de sete pequenos diálogos que explicam o significado da multiplicação dos pães como símbolo do novo Êxodo e da Ceia Eucarística.

O povo viu o que aconteceu, mas não chegou a entendê-lo como um sinal de algo mais alto ou mais profundo. Buscou pão e vida mas parou na superfície: a fartura de comida. No entender do povo, Jesus fez o que Moisés tinha feito no passado: deu alimento farto para todos no deserto.

Indo atrás de Jesus, eles queriam que o passado se repetisse. Mas Jesus pede que o povo dê um passo adiante. Além do trabalho pelo pão que perece, deve trabalhar também pelo alimento não perecível. Este novo alimento será dado pelo Filho do Homem; Ele traz a vida que dura para sempre. Ele abre para todos um novo horizonte sobre o sentido da vida e sobre Deus.



2 – O que o texto diz para mim?
Com frequência, a existência humana parece uma corrida em busca daquilo que me sacia de um modo definitivo. Nesta corrida, entram elementos que me são familiares: necessidade, ansiedade, vazio, busca, insatisfação... Todos eles, à primeira vista, remetem à percepção de mim mesma como ser carente. Seria, pois, essa carência aquela que desencadearia todo o processo de busca.

De fato, o ser humano é um ser insaciável, insatisfeito... vive eternamente buscando, muitas vezes sem saber o quê. Em contato com o seu interior, sente a necessidade de preenchê-lo a qualquer preço; na maioria das vezes, preenche-o com “coisas”: busca de poder, posses, prestígio, pão que se perde... e sente-se frustrado, porque nada  lhe satisfaz. Só o Pão vivo pode preencher seu interior.

- “Mas a fome de Deus que eu levo comigo não conhece descanso: ela é exigente! Então eu sigo...

Ela é tremenda e persistente! Então eu sigo... cada vez mais para frente!

Ela é constante e forte! Então eu sigo... Até à morte” (C. de M. Doherty).

Ele é chamado a superar medos, a escolher rumo construtivo, a definir sua identidade pessoal e a optar por causas humanas que o fazem transcender.

O ser humano pode transcender-se, ir além de si mesmo... E  transcender não significa fugir da própria realidade, mas mergulhar na própria condição humana; “transcender é humanizar-se”.

O impulso de “ir além” é talvez o desafio mais secreto e escondido no ser humano. Ele se recusa a aceitar a realidade na qual está mergulhado porque se sente maior do que tudo o que o cerca.

Com seu pensamento, desejo e sonho, ele habita as estrelas e rompe todos os espaços.

Numa palavra, o ser humano é um projeto infinito; tem sentido de transcendência, projeta-se em muitas direções. Ele tem fome e sede de amplos horizontes.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A conversa de Jesus com o povo, com os judeus e com os discípulos é um diálogo bonito, mas exigente. Jesus procura abrir os olhos das pessoas para que aprendam a ler os acontecimentos e descubram neles o rumo que deve tomar na vida. Pois não basta ir atrás de sinais milagrosos que multiplicam o pão para saciar uma carência corporal. Não só de pão vive o ser humano.

O empenho em favor da vida sem uma mística não alcança a raiz.

Enquanto vai conversando com Jesus, as pessoas vão ficando cada vez mais contrariadas com as palavras dele. Mas Jesus não cede, nem muda as exigências. O discurso parece um funil. Na medida em que a conversa avança, é cada vez menos gente que sobra para ficar com Jesus. No fim só sobram os doze, e nem assim Jesus pode confiar em todos eles!

É quase sempre assim: quando o evangelho começa a exigir compromisso, muita gente se afasta.

Jesus, com sua presença e seus ensinamentos, desperta outras “fomes”: transcendência, novas relações,  horizontes abertos, mundo da partilha...

O discurso do Pão da Vida desvela esta realidade: o ser humano é surpreendente, inesperado, imprevisível... é pulsação original, é interpelação inquietante; é existência peregrina, é uma mina de significados e riquezas. Ele é seduzido pela liberdade que lhe escancara horizontes novos e lhe abre mares desafiantes. Ele é “espaço à vida aberta”. Há nele algo maior que o leva a ser mais verdadeiro, mais justo, mais criativo, mais arrojado, mais responsável.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, “entrar”  no caminho de Cristo é viver em “terra de andanças”.

O discurso de Jesus toca naquilo que é mais humano em mim: mundo dos desejos, dos sonhos, as grandes intuições... Tal apelo vem ao encontro deste dinamismo humano para potencializá-lo e abrir uma nova perspectiva: aquela centrada na pessoa e no projeto de Jesus Cristo.

Desejo, com intensidade, com fome, com paixão, com alegria e júbilo... Sou capaz de desejar com a urgência das crianças, com a impertinência dos adolescentes, com a intensidade dos jovens, com a perspectiva dos adultos e com a sabedoria dos anciãos. Desejo porque estou viva e porque sou capaz de imaginar e sonhar: mundos melhores, vidas melhores, relações melhores...



5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
O desejo é também um dos pilares nos quais se sustenta a fé. Crer é desejar.

O desejo me ajuda a elevar o olhar para além do imediato; posso sair do cotidiano, do mais prosaico, e lançar a vista e o coração ao que é possível mas que ainda não está presente. Se eu caminhar com olhar fixo somente no imediato, no hoje, no aqui e agora, então me faltará perspectiva para conduzir meus passos para algum lugar que valha a pena.

Os homens e as mulheres de todos os tempos e lugares trazem, como que enraizados nas fendas mais profundas de sua alma, sonhos de rara beleza. São desejos de convivência, de superação da dor e da solidão, sonhos de fraternidade e harmonia... Era certamente nessa direção que Jesus apontava ao falar do Pão da Vida,  como o mundo das esperanças e possibilidades. “Um outro mundo é possível”.

É preciso forte dose de ousadia e coragem para transcender-se, ir além de si mesmo...

Todo ser humano é aventureiro por essência; com ardor, ele anseia por uma causa última pela qual viver, um valor supremo que unifique a multiplicidade caótica de suas vivências e experiências, um projeto que mereça sua entrega radical. Para dar sentido à sua vida e realizar-se como pessoa, o ser humano necessita da auto - transcendência, isto é, viver para além de si mesmo, de seus impulsos, caprichos, desejos...

Carrega dentro de si a fome do infinito, a criatividade, a capacidade de romper fronteiras, sonhos,  luz.

Portador de uma força que o arrasta para algo maior que ele... não se limita ao próprio mundo; traz uma aspiração profunda de ser pleno, de realização, de busca do “mais”...

O ser humano, é desafiado a deixar a superfície banal e navegar águas profundas da sua própria existência.


Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Jo 6,24-35
             Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
             Desenho: Osmar Koxne      




Leitura Orante – 17° domingo do tempo comum,  26 de julho de 2015

Deslocamento para os  ‘Santos lugares’ dos pobres

 “Jesus foi para o outro lado do mar da Galiléia, também chamado de Tiberíades” (Jo 6,1)



Texto Bíblico: Jo 6,1-15


1 – O que diz o texto?
Jesus, no Evangelho de hoje, convida os seus discípulos a saírem de seus lugares para ver as coisas a partir de um novo ângulo: o ângulo dos marginalizados. A mudança de perspectiva possibilita um novo olhar e abre caminho para perceber outros aspectos que a “visão acostumada” não capta.

A “outra margem” é a novidade do presente, a descoberta incessante, a amplitude sem limites. Mas só podemos começar a cruzá-la se estivermos dispostos a deixar nossos rotineiros pontos de vista e nossos caminhos trilhados, e nos entregar com docilidade à Vida – outro nome de nosso “mestre interior” -, para que ative em nós a coragem e a ousadia de abrir-nos ao diferente.



2 – O que o texto diz para mim?
O Evangelho de hoje me traz esta revelação: não posso resolver as coisas a partir desta margem, se não ver as coisas também a partir da outra, sem arriscar-me a fazer a travessia em direção a terras novas, ao encontro de outros povos e culturas, para aprender e compartilhar com eles a missão em favor da vida.

Frente àqueles que queriam fechar-se no interior da comunidade, João insiste que o evangelho devia expandir-se numa marcha arriscada de entrega criadora, descobrindo comunidades e formas de vida novas, para recrear, a partir delas, o Evangelho.

Afinal, Jesus desencadeou um “movimento” e o Evangelho não é para os que estão “sentados”, acomodados, como quem maneja o televisor com o comando à distância; não é o Evangelho para os que “esperam” a que outros “venham”, mas Evangelho para “fazer estrada”, viver em atitude de “saída” para buscar, sair ao “encontro”... É o Evangelho para velejadores ousados e que se sentem inspirados a “fazer a travessia”. Para proclamar o Evangelho é preciso sair dos lugares conhecidos, estreitos e rotineiros... e abrir-se às surpresas dos “lugares novos”.

Ao ler o Evangelho com um pouco mais de atenção posso ver que Jesus está continuamente “passando para a outra margem” e convidando os seus seguidores a fazerem o mesmo.

Isto me move a pensar que esta travessia não é apenas geográfica, não se trata de voltar ao lugar de onde saiu. Tem que haver algo mais profundo, ao menos um impulso à não instalação.

Nenhuma margem pode converter-se em lugar de parada, todas são lugares de passagem.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Passar para a outra margem”: expressão chave que me mobiliza e dá sentido ao meu seguimento de Jesus. São muitos os que querem que a Igreja continue fechada em seu legalismo - moralismo - ritualismo, apesar do movimento ativado pelo Vaticano II e apesar dos insistentes apelos do Papa Francisco. Muitos querem que o cofre do Evangelho se conserve onde sempre esteve, sob sete chaves... Mas Jesus me diz de novo e com veemência: “ide para a outra margem”. Ele me convida e me anima a ir “mais além” do conhecido e do trilhado, para o “outro lado”.

Na realidade, quando tudo na vida se torna fácil, é mais provável que me instale em minhas seguranças. Somente quando minha vida é sacudida e colocada em crise é que conecto com outro anseio mais profundo. Tal anseio posso considerá-lo também como a voz de meu “mestre interior” que me dá paz, mas que não me deixa em paz.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, como todo ser humano tendo a me instalar, acomodando-me naquilo que consigo. Facilmente me acostumo ao conhecido e me deixo embalar pela rotina que evita sobressaltos e me confere uma certa sensação de segurança e conforto.

E isto ocorre também com minhas ideias, crenças, atitudes, visões...  Acostumada a ver a realidade a partir de uma determinada perspectiva, me custa estar aberta a outros ângulos novos ou desconhecidos.

Prefiro, quase sem me dar conta, permanecer instalada “na margem” conhecida, habitual, costumeira. É a preferida de minha mente e de minha sensibilidade, pela simples razão de ser familiar e me trazer tranquilidade.

Trata-se de uma atitude em princípio compreensível, mas comporta um risco importante: ficar reduzida a uma visão estreita e afogada em uma vida “normótica”, uma vez que me fecho a qualquer possível saída..., sobretudo quando atinjo um “bem-estar” que se prolonga.



5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
Com Jesus estou continuamente passando para outra margem, fazendo contínuas travessias em direção ao outro, não permanecendo fechada em mim mesma; passar em direção ao outro como passagem necessária para passar em direção a Deus. Aquele que se instala, se perde. Tenho de buscar sempre novos horizontes. Qualquer conquista obtida graças a Jesus é só um prelúdio, o vislumbre de uma conquista que não perece, e que só se consegue quando me desapego das conquistas parciais.

Dizem que, ao pintar uma paisagem, os artistas a olham dobrando-se e pondo a cabeça entre as pernas abertas, por mais incômodo que seja a postura, porque assim se libertam da visão “oficial” do conjunto que todos veem quando estão de pé, e descobrem novos ângulos, perspectivas não usuais e a surpresa do novo no molde antigo.

Isto acaba sendo a maneira de ver as coisas por outra perspectiva. É o segredo da arte, da vida e das decisões bem tomadas. Um enfoque novo sempre proporciona um ponto de referência melhor para uma avaliação independente, seja de linhas e cores, seja de opções e atitudes de vida.

Um ponto de vista novo, limpo e original é uma grande ajuda para uma sadia vivência do Evangelho.



Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Jo 6,1-15
            Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne      




Leitura Orante – 16° domingo do tempo comum,  19 de julho de 2015

Compaixão: Ter um coração nos olhos

“Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, 
porque eram como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34)


Texto Bíblico: Mc 6,30-34

1 – O que diz o texto?
Mais uma vez, Jesus e seus discípulos fazem a “travessia” pelo mar, em direção à “outra margem”; a multidão sai caminhando ansiosamente por terra e os alcança. Jesus é ponto de confluência de todas as fomes, carências e desesperos. É o povo pobre das pequenas aldeias que está sofrendo grandes injustiças e muita violência. Não é gente das cidades importantes. Diz o texto de Marcos que saíram “de todos os povoados” e foram “correndo”, com pressa, com expectativa e esperança, ansiosos por encontrar-se com Jesus. A cena acontece em um “lugar despovoado”, afastado da vida cotidiana organizada segundo o pensamento da sinagoga e a lógica dominadora do império romano.



2 – O que o texto diz para mim?
Expressão de fraternidade e vivida como serviço, a compaixão é a capacidade de situar-se no lugar do outro, de sentir e sofrer com ele. Comporta um “estremecimento” frente o sofrimento alheio e se traduz numa ajuda eficaz. 

Ao ver a multidão, Jesus se comove até as entranhas, porque “eram como ovelhas sem pastor”.

Como em outras passagens do Evangelho, Jesus muda o plano de descanso desse dia para acolher a dor que surge de repente em seu caminho. Contempla as pessoas, e em sua maneira de se aproximar do povo está já encarnado em gestos, palavras e olhares, o Reino que anuncia.

Movido por sua compaixão, Jesus “começou a ensinar-lhes muitas coisas”. Sem pressa, se dedica pacientemente a ensinar-lhes a Boa Notícia de Deus e o projeto humanizador do Reino. Não o faz por obrigação; não pensa em si mesmo; comunica-lhes a Palavra de Deus, comovido pela necessidade que as pessoas tem de um pastor.
Jesus não vive olhando para o céu, mas tem os olhos bem fixos na terra, na humanidade sofredora. Por isso, nada lhe escapa, observa tudo. Seu olhar não é neutro: deixa-se afetar por tudo e por todos. E a realidade sofrida tem forte impacto em seu interior, comovendo-o.

Os discípulos precisam aprender de Jesus como devem tratar as pessoas; nas comunidades cristãs é preciso recordar como era Jesus com essas pessoas perdidas no anonimato, das quais ninguém se preocupa.

O olhar de Jesus ativa a identidade das pessoas. Olha de uma forma única e singular a cada uma, e nesse olhar desvela quem ela é e ilumina o sentido de sua existência. O olhar de Jesus lança para frente, desperta a confiança, descarrega o peso da culpabilidade e “dá asas” à vida.  Por essa razão seu olhar eleva e dignifica o outro, nunca o deixa no mesmo lugar, não só o coloca de pé, mas sempre o leva para mais além...

O olhar de Jesus é reflexo e prolongamento do olhar do Pai; Ele se fixa sobretudo nas pessoas concretas, mas com particular atenção aos mais pobres e necessitados, os quais eram invisíveis para a sociedade de seu tempo: os enfermos, as viúvas, as crianças, o estrangeiro...

A compaixão é provavelmente o máximo grau de maturidade humana. Trata-se de uma das atitudes mais genuinamente humanas; não é casual que ocupe o lugar mais destacado nas grandes tradições espirituais.

No budismo, especialmente, afirma-se que, enquanto alguém não seja capaz de pôr-se no lugar dos outros, não poderá alcançar a iluminação.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A primeira coisa que o evangelista Marcos destaca é o olhar de Jesus. Não se irrita porque interromperam seus planos; olha a multidão tranquilamente e se comove. As pessoas nunca lhe molestam. Seu coração intui a desorientação e o abandono em que se encontram, como camponeses daquelas aldeias.

“A fé não só olha a Jesus, senão que olha a humanidade a partir do ponto de vista de Jesus, ou seja, com seus olhos: é uma participação em seu modo de olhar” (Lumen Fidei, n. 18).

Jesus me convida, no Evangelho de hoje, a fazer um exercício especial da visão. Destravar meu olhar focado em mim mesma, em meus interesses e apegos, para expandi-lo em direção aos outros.

Todos os Evangelhos estão perpassados, de ponta a ponta, por um olhar. O olhar de Jesus que chama, conhece, cativa, derrama ternura e misericórdia, que vela, que se antecipa, que revela, que denuncia, que confirma e, também, que restaura. Olhar que o move a um compromisso libertador.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Olhar a partir de Jesus, olhar como Jesus, olhar a partir dos olhos daqueles que sofrem... É um convite a iluminar o meu olhar, às vezes muito apagado pela mediocridade de minha vida; outras vezes opaco pela falta de esperança em minha capacidade de levar adiante a missão que Jesus me confia.

O olhar de Jesus atinge o mais profundo de meu ser e transforma o meu coração; e esse olhar cristificado me leva mais além de meus pré juízos,  me conduz a um mundo novo de possibilidades inéditas, descobre e revela o que há de melhor em mim.

Jesus insiste: quem não está alerta, quem não abre bem os olhos, quem não afina a vista, o mistério divino lhe ficará oculto. No descobrir, no “olhar” as pessoas às quais costumo excluir do meu campo visual cotidiano, começa o vislumbre, a visibilidade de Deus em mim... É aí onde encontro suas pegadas.

A mística cristã é uma mística de olhos dolorosamente abertos. Preciso  aguçar a visão para ser capaz de contemplar a Vida de Jesus entrelaçada com a história do sofrimento das pessoas.

Senhor, faça que meus olhos sejam claros e simples,
Que meu olhar reflita teu olhar.
Que meu olhar transmita alegria, paz, confiança...
Que eu olhe a vida com assombro e descubra a beleza escondida.
Que eu olhe delicadamente o mistério de cada ser humano.
Que eu me deixe afetar pelo olhar de dor, de busca, de esperança de cada irmão.
Que Tu olhes, Senhor, com meus olhos, os meus irmãos mais necessitados.
Olha-me, Senhor, em silêncio, e faz com que teu olhar percorra toda minha vida.
Que eu volte à vida com o sorriso de Deus em meus olhos. Amém!



5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
Na Igreja preciso aprender a olhar as pessoas como Jesus as olhava: captando o sofrimento, a solidão, o desconcerto ou o abandono que muitos sofrem. Somente este olhar solidário é que ativará a compaixão.

Esta não brota da atenção às normas, à doutrina ou a atenção às obrigações. Ela se desperta  quando olho atentamente aqueles que sofrem e são excluídos.

O sentimento de compaixão se vê favorecido pela experiência da minha própria necessidade, fragilidade ou vulnerabilidade. Sem dúvida, ao apalpar a minha própria limitação, me “reconcilio” com a minha humanidade, me faz mais “humana”. E, a partir daí, pode crescer a capacidade de ativar a empatia para com o outro, particularmente quando se encontra em situação de necessidade e precariedade.

Neste sentido, pode-se dizer que a experiência e a acolhida da própria fragilidade me humaniza, me “suaviza” e me sensibiliza diante da dor alheia. A partir daí, a compaixão pode abrir caminho.

Além disso, o encontro com a compaixão de Jesus desperta a compaixão presente em meu interior, mas abafada pelas preocupações e interesses do meu ego.

A compaixão requer uma sensibilidade limpa e um afeto livre. Para poder “vibrar” com o outro, é necessário que minha sensibilidade não esteja congelada nem petrificada; de outro modo, o sofrimento alheio chocaria contra a minha couraça, e eu seria incapaz de senti-la.

Por outro lado, é necessário também que eu tenha a coragem de liberar a capacidade de amar: o bloqueio da mesma me manteria fechada, impedindo-me “sair” positivamente em direção à pessoa que sofre.



Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Mc 6,30-34
             Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
             Desenho: Osmar Koxne      


Leitura Orante – 15° domingo do tempo comum,  12 de julho de 2015

O Templo é a Vida

“Expulsavam muitos demônios e curavam numerosos doentes, 
ungindo-os com óleo” (Mc 6,13)


Texto Bíblico: Mc 6,7-13


1 – O que diz o texto?
O Evangelho de Marcos relata o encargo missionário que Jesus comunicou aos seus discípulos, diz que Ele lhes deu “autoridade para expulsar demônios e para curar toda sorte de males e enfermidades”.

É importante salientar que não se trata de uma “autoridade doutrinal”, para afirmar verdades e condenar erros, senão que se trata de uma “autoridade terapêutica”, para curar doenças e aliviar o sofrimento humano. Jesus, submergindo-se no mar da dor, assume o infortúnio dos inocentes, dos perdedores, das vítimas; Ele experimenta que o amor é paixão.

Tudo se resume em dar vida, erradicar as dores, devolver a dignidade aos que a perderam.

Ao acessar o Evangelho de hoje, reconhecemos essa intuição original. O horizonte do envio dos discípulos não é outro que o de favorecer a vida. A “autoridade sobre os espíritos imundos”  significa o compromisso em favor da vida e das pessoas, frente àquelas forças que tendem a travar e danificar a mesma vida.

A partir desta perspectiva, a “missão” pode reencontrar seu verdadeiro sentido. Enviados em favor da Vida, os discípulos sabem muito bem qual é o encargo que Jesus lhes confia. Nunca O viram governando a ninguém; sempre O conheceram curando feridas, aliviando o sofrimento, regenerando vidas, destravando os medos, contagiando confiança em Deus.

A novidade de Jesus consiste justamente em afirmar que existe um caminho para encontrar a Deus que não passa pelo Templo. Desse modo, reconhece-se a vida como lugar privilegiado da Sua Presença.

Para Jesus o mais urgente era remediar o sofrimento daqueles que careciam de uma vida digna e plena.

Porque o Deus que Ele nos revelou não é o Deus que nos complica a vida com normas e leis, senão o Deus que se humanizou para humanizar nossa vida. E assim nos indicou que só quando nos fazemos mais humanos, nos fazemos mais semelhantes a Ele que, para aliviar o sofrimento humano, se comprometeu e se identificou com os que mais sofrem.



2 – O que o texto diz para mim?
A experiência de saúde está profundamente unida ao anúncio e inauguração do Reinado de Deus. A vida saudável pede não só saúde física, mas saúde emocional, espiritual, integração social...

Jesus, em sua pregação e realização do Reino, assumiu uma estratégia terapêutica que buscava fazer emergir o ser humano sadio. Com sua presença, despertava e ativava tudo o que era sadio em cada pessoa; esta era sua prioridade e não permitia que ela fosse solapada por outros interesses. Ele se interessava pela saúde como processo de crescimento da pessoa e onde há saúde o Reino faz-se presente
“Curar” e “libertar” eram atividades prioritárias na atuação de Jesus.

As verdadeiras curas e milagres de Jesus eram, antes de tudo, gestos de humanização evangélica, que mostravam que o dinamismo final do Reino implicava a destruição da enfermidade e da dor. As curas eram sinais libertadores, sinais da presença e proximidade do Reino.

Jesus não pregou saúde, mas gerou saúde, transformando a vulnerabilidade em possibilidade e provocando mudanças de atitudes e formas diferentes de viver.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus, presença visível da misericórdia e com a força da torrente que jorra para a vida eterna, “me chama em particular” para que a minha vida esteja exposta ao seu amor curador e a prioridade do seu Reino relativize todo o resto.  Ele quer fazer de mim uma discípula, apaixonada por Ele e pelo seu Reino.

Ele se aproxima e cura as minhas feridas, me convida a ir com Ele aos lugares onde a vida está mais em perigo e a confiar na força secreta da compaixão e da esperança teimosa.

Ele que no grão enterrado debaixo da terra já contempla a espiga, revela-me as possibilidades de vida que se escondem onde parece que a morte tenha dito a última palavra. Ele é o que dá a água viva, o samaritano que cura as feridas, o vencedor da morte, o oleiro da nova Criação.

Só Ele que, ao revelar seu rosto no rosto de tantos excluídos e sofredores, é capaz de despertar o “samaritano” que  carrego e que permanece “adormecido” em meu interior.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, Jesus, o “terapeuta do Pai”, continua passando diante de minha vida, parando e fazendo um chamado que desperta comoção e compaixão. Sua presença provocativa e seu chamado exigente colocam em questão o costume de se refugiar no mundo asséptico das doutrinas, na tranquilidade de uma vida ordenada, satisfatória e entorpecida, na segurança de horários imutáveis e de muros de proteção, longe do rumor e das lágrimas da vida, dos gritos daqueles que sofrem e morrem nas periferias deste mundo.

Escutar e seguir Seu chamado implica abandonar a estreiteza desses caminhos e deixar o meu coração bater no ritmo dos doentes e marginalizados, vítimas da desumanização dessa sociedade.

O importante não é pôr em marcha novas atividades e estratégias, senão desprender-me de costumes, estruturas e dependências que me estão impedindo ser livre para contagiar o essencial do Evangelho, com verdade e simplicidade.



5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
Evitar que a aventura, na qual um dia me embarquei, nascida de uma paixão pelo Senhor e pelo seu Reino, transforme-se num tedioso cumprimento de normas e costumes.

Estou, talvez, experimentando a frustração de não ter acertado na rota da busca da vida plena e transbordante na qual eu quis investir as minhas melhores energias: sinto-me cansada de palavras sem significado e sentindo fome de proximidade, de presença, de compromisso.

Como Igreja, tenho perdido esse estilo itinerante que Jesus propõe. Seu caminhar é lento e pesado; não acertamos o passo para acompanhar a humanidade; não temos agilidade para deslocar-nos em direção à margem sofredora; agarramos ao poder e às estruturas que tiram a mobilidade; enredamos nos interesses que não coincidem com o Reinado de Deus. É preciso uma profunda conversão e voltar à essência do Evangelho: compromisso com a vida.


 “Abandonai o vosso mundo de realidades virtuais, sacudi a poeira das vossas sandálias; apagai os computadores nos quais conservais cuidadosamente organogramas, hábitos rotineiros, regulamentos, ativismos, visões distorcidas da realidade... e saí pelas estradas e encruzilhadas para escutar o rumor das pessoas reais e para alargar a vossa vida no contato com elas. Não eviteis as estradas perigosas, porque a novidade aparece sempre fora dos lugares seguros, protegidos e convencionais.
A vida que abraçastes é uma paixão, uma aventura, um risco, um itinerário que deve ser percorrido com os olhos e com os ouvidos abertos e no qual a única bússola que guia para a meta é a da misericórdia e a da ternura.
Deixai que o imperativo: “Vai e fazes tu a mesma coisa” vos abale. Diante de vós estão abertos os grandes caminhos da adoração e da compaixão, que desembocam na “vida eterna”.
Felizes vós que escolhestes percorrê-los!”.  (cf. Dolores Aleixandre – Buscadores de poços e caminhos).


Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Mc 6,7-13
             Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
             Desenho: Osmar Koxne       



Leitura Orante – 14° domingo do tempo comum,  05 de julho de 2015

Quando “cortamos as asas” dos outros...

“Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares” (Mc 6,4)


Texto Bíblico: Mc 6,1-6


1 – O que diz o texto?
O relato de hoje está falando da humanidade plena de Jesus, que aparece como um entre tantos, filho de uma mulher chamada Maria, de uma família conhecida, simples carpinteiro, sem títulos e sem privilégios. Por isso é tão difícil aceitá-lo como profeta enviado de Deus.

No entanto, todo o cristianismo posterior vai depender, de algum modo, desse “curriculum” de Jesus.

No texto do Evangelho de hoje, os conterrâneos de Jesus, em lugar de abrir-se à novidade que se revela diante de seus olhos, optam por recorrer a etiquetas com as quais desqualificá-lo. Desse modo, colocam em seus olhos uma espécie de filtro que os impede ver em profundidade.

Jesus “admirou-se com a falta de fé deles”, ou seja, de sua incapacidade para ver mais além, de sua resistência em conectar-se com o Novo que se faz visível, da ignorância na qual decidiam permanecer instalados.



2 – O que o texto diz para mim?
Algo parecido experimentou Jesus com as pessoas de seu povoado. As perguntas levantadas – “como conseguiu tanta sabedoria”; “Ele não é o carpinteiro, filho de Maria...?”; “Suas irmãs não moram conosco?”... – manifestam a simplicidade e a veracidade do processo de maturação de Jesus. Seu caminho humano é tão humano que custa acreditar. É mais um entre tantos, como as pessoas comuns entre as quais convivia, sem apresentar-se nada de especial, crescendo pouco a pouco.

E Jesus não pode fazer nada em Nazaré, pois ali lhe “cortaram as asas”. Ele era muito conhecido para eles, muito comum, muito igual... O problema de fundo está em que quando uma pessoa não se ajusta àquilo que a sociedade e seus parentes e amigos esperam dela, essa pessoa cai em desgraça. A “conduta desviada” de Jesus tem um custo muito alto e acarreta enorme rejeição e sofrimento.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Ao longo de minha vida encontro pessoas que me “dão asas”, me incitam a desbloquear o melhor de mim mesma e me faz sentir melhor em sua presença. É como se diante de seus olhos eu pudesse recriar continuamente minha vida, pois me mostram horizontes próprios que não posso nem imaginar. É um imenso presente receber isto e poder também ativá-lo nos outros.

Também sei que pode acontecer o contrário. Acostumei a fazer uma imagem dos outros, as classifico e coloco etiquetas: inteligentes ou incompetentes, profundos ou superficiais, simpáticos ou cansativos... e as enquadro dentro de uma aparência que me custa muito modificar, atrofiando meus olhos para perceber a novidade surpreendente que pode brotar no outro.

Como seguidora  de Jesus e com sua presença humanizadora, devo ser promotora de habilidades para a vida; com sua presença inspiradora, “dando asas” e despertando nas pessoas as potencialidades do humano que habitam em cada uma delas, levando-as a experimentar condições ousadas de crescimento e realização; na convivência cotidiana, interagir com as pessoas para que consigam extrair delas o melhor, fomentar o papel ativo delas, incentivar a desenvolver sua autonomia e dar asas à sua imaginação.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, hoje Jesus continua inspirando caminhos mais humanos numa sociedade que busca somente bem-estar, afogando o espírito e matando a compaixão. Ele pode despertar o gosto por uma vida mais humana em pessoas vazias de interioridade, pobres de amor e necessitadas de esperança.

Diante de Jesus “destravador de asas”, sou também chamada a ser presença “ativadora de asas” para aqueles com os quais convivo e me encontro  cotidianamente, renovando a confiança nas pessoas, apostando no melhor que cada um conserva em seu coração.  

Às vezes é difícil viver tal atitude com aqueles que me cercam, pois me encanta o grande, o importante, o notável, o solene, o que impressiona e chama a atenção, o que se impõe e causa admiração...

Mas, o que é simplesmente humano, o que é comum com todos os humanos..., precisamente isso é o que tantas vezes menos valorizo, e é isso o que mais necessito, pois é o que mais humaniza a vida, a convivência, a sociedade.

Sou “educada” para ser importante, mas não para ser simplesmente humana.

Quero a todo custo, ser importante, destacar, ser notável... Tais sentimentos me rompem por dentro e destroçam minha própria humanidade.

E quando isso acontece, o milagre – a novidade – é impossível; só fica a rotina do sempre visto e conhecido. 



5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
O ser humano “abre suas asas” quando matura suas potencialidades, multiplica suas capacidades, extrai riqueza e criatividade das profundezas de seu ser...

Sei que toda pessoa se transforma a partir de seu interior. Mas é através da ação e da presença instigante do outro que ela se sente motivada a transpor obstáculos no seu cotidiano e revelar-se  criativa, que sonha e faz o futuro, que apaixona-se pelo que aprende, pelo que cria e realiza.

O vínculo entre as pessoas e o sentimento de pertencer e de ser respeitado em suas potencialidades, limites e necessidades levam as pessoas a reencontrar a essência de sua condição de vida.

Só serei eu mesma quando alguém me descobre, me acolhe, me aceita... respeita minha verdadeira identidade. O outro é a realidade que me permite tomar consciência de mim mesma e de minha nobreza.

A mediação do outro é muito importante para que eu possa me conhecer melhor e sentir que não estou sozinha nos reveses da vida.


Fonte:   Bíblia na linguagem de hoje – Mc  6,1-6
             Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
             Desenho: Osmar Koxne       




Leitura Orante – 13° domingo do tempo comum,  28 de junho de 2015

As provocativas perguntas de Jesus

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15)



Texto Bíblico: Mt 16,13-19

1 – O que diz o texto?
Jesus propõe a pergunta fundamental, “e vós, quem dizeis que eu sou?”; uma pergunta exigindo que os discípulos se examinem a sério, que tomem consciência do que pretendem, que explicitem as reais motivações que os levam a segui-lo. Responder à pergunta “Quem sou eu para vocês?” é fazê-los comprometer com um novo estilo de vida, é assumir o novo caminho com Ele, é arriscar-se numa aventura.

A força criativa de suas perguntas, põe em movimento grandes dinamismos de vida do ser humano; debaixo do modo  paralisado e petrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova nunca posta em movimento. Jesus, ao destravar a interioridade de cada um, reconstrói “pessoas quebradas” e presas ao passado. As perguntas que Ele faz consistem em libertar o ser humano de sua inatividade e dar-lhe capacidade de ação. Isso implica em abandonar a estreiteza da vida e deixar o coração bater no ritmo do seu coração compassivo.


2 – O que o texto diz para mim?
A Pedagogia de Jesus é a da pergunta que “desvela”,  que me coloca diante do mistério de minha vida, de minhas opções, de minha fé...; pergunta que me move a entrar no mais profundo de mim mesma e me encontrar com a fonte que mana e corre. É através das perguntas que Jesus me abre acesso às minhas reservas interiores de criatividade e imaginação.

São as perguntas que, com frequência, me despertam. Se deixo de me perguntar, o fogo vai se apagando. As perguntas são como a lenha que adiciono ao fogo.

As grandes perguntas permanecem dentro de mim, como uma brasa ardendo. Quando me faço perguntas, algo se inquieta dentro de mim, o fogo se aviva, brota um impulso que me desinstala e me move a buscar o novo.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Há perguntas inofensivas, fáceis de responder e que não me compromete. O problema está quando me faço perguntas nas quais me sinto implicada.

Há perguntas que parecem ser de pesquisas; e há perguntas que me desvelam por dentro. 

Há perguntas secundárias sobre as quais posso dizer qualquer coisa. E há perguntas essenciais que me move a falar de mim mesma. E essas perguntas doem porque são perguntas que desnudam o fundo de meu coração. São perguntas que me implicam naquilo que sou realmente.

O perguntar é ousado, instigante; perguntar contém desafio, provocação; leva dose de irreverência.

“Perguntar é mergulhar no abismo” (Exupèry). As perguntas tem uma força que muitas vezes não encontro respostas. Somente enquanto pergunto por Alguém, palpita em mim um impulso, um interesse que não se apaga enquanto não sacia minha curiosidade.

A pergunta é movimento; e só quando pergunta é que emerge a novidade, pois a pergunta ativa a buscar por uma resposta criativa. Mais ainda, perguntar põe em crise certas convicções, idéias fechadas, modos arcaicos de viver...e me mantém em busca permanente.      



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor Deus, Jesus não perguntou aos seus discípulos sobre o que pensavam a respeito do Sermão da Montanha ou sobre sua atuação curativa juntos aos doentes da Galiléia. Para seguir Jesus, o decisivo era a adesão à sua Pessoa. Por isso quis saber o que eles pensavam e sentiam, depois de um tempo de convivência com Ele.

E para mim nesse momento essa pergunta é desafiadora, e não simples curiosidade e inquietação, e se dirige diretamente a mim. Tenho que dar uma resposta. Ela exige uma tomada de posição, um ato de fé.

Fé essa que implica ideias e doutrinas. Mas a fé não é crer em doutrinas; é crer em “Alguém”; e crer em Alguém que seja o centro de minha vida, em Alguém que inspira a  minha vida, em Alguém que dê sentido ao que faço e como faço.

É importante para Jesus saber o que as pessoas  pensam d’Ele. Mas é possível que isso fosse apenas uma introdução para a segunda pergunta. De modo particular, a Jesus lhe interessava não tanto saber o que sabiam ou pensavam, mas “quê significava Ele para eles?”

É a pergunta que eu sempre deveria me fazer: não o quanto sei ou estudei sobre Jesus, nem quê doutrinas ou teorias sobre Ele sigo, nem qual é a teologia sobre Ele. Para Jesus lhe interessa mais “o significado, o sentido de Sua Vida em minha vida, em  nossas vidas”.

É preciso “mais evangelho e menos doutrina” diz o Papa Francisco.



5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
Hoje, talvez num gesto de ousadia e atrevimento, posso inverter as perguntas. No Evangelho, é Jesus quem pergunta e eu respondo; agora sou eu que faço as perguntas a Jesus. Se Ele está interessado em saber o que os outros pensam dele, também eu estou interessada em saber o que Ele pensa de mim: “Senhor, quê dizes, quê pensas de mim?”

Talvez, de início, posso sentir um pouco de medo da verdade que Ele me dirá. Mas, pensando bem, posso concluir que Jesus pensa melhor sobre mim que eu sobre Ele. E se me dá vergonha responder às suas perguntas, certamente que Jesus não sentirá vergonha alguma em responder às minhas.

Estou mais acostumada a perguntar a Deus que me deixar  perguntar por Ele. Em tudo o que me acontece, minha reação imediata costuma ser sempre: “Por quê, Senhor?”; “por quê aconteceu comigo?”; “por quê não me escutas?”... A agenda de Deus está cheia de minhas perguntas...

Começo a ser cristã quando me deixo impactar pela pessoa de Jesus e decido seguir seus passos e viver como Ele viveu. Posso saber muita teologia sobre Jesus e ter uma vivência d’Ele muito pobre. O que importa é o “Jesus vida e na vida”.


Fonte: Bíblia na linguagem de hoje – Mt 16,13-19
            Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne       




Leitura Orante – 12° domingo do tempo comum,  21 de junho de 2015

“Deus está logo ali, depois da nossa zona de conforto”

“Passemos para a outra margem” (Mc. 4,35)


Texto Bíblico: Mc 4,35-41


1 – O que diz o texto?
O Evangelho de hoje começa com um forte apelo de Jesus dirigido aos seus discípulos, convidando-os  a sair da sua rotina, a abrir-se para o novo, para o diferente, ultrapassando os próprios interesses e preconceitos. “Passar para a outra margem” exige mudança de atitude, pôr-se a caminho, êxodo, sair de si. 

Jesus se encontra no lado de cá, na margem ocidental do lago de Genesaré, na Galiléia É a margem da vida regrada do judeu piedoso: a margem da Lei, da sinagoga, do Sábado..., tudo o que dá segurança aos judeus. No lado de lá do lago, encontram-se a Traconítide, a Decápole, terras não familiares aos judeus. É a margem dos pagãos, dos excluídos, do afastamento de Javé. Para surpresa e até escândalo, Jesus convida os seus discípulos a passar para a outra margem, para o “outro lado da humanidade”.


2 – O que o texto diz para mim?
Caminhar para a outra margem é sair do centro, da segurança, da acomodação... e ir em busca das surpresas, das novas descobertas; implica arriscar, ter ousadia, não ter medo de caminhar para os “confins da terra”, para regiões desconhecidas em meu próprio interior...

Os poetas, artistas, místicos... são aqueles que fazem a experiência da “outra margem”, vislumbram o outro lado, tocam as raízes mais profundas do próprio ser.

O primeiro desejo de chegar à outra margem nasce de dentro, do coração, que sabe estar longe de seu centro e entende sua missão de busca e peregrinação interior, de colocar-se em movimento...

Sair da margem conhecida, “velha”, rotineira... para encontrar a nova margem: lugar de relação, de questionamento, de criatividade, de encontro com o novo e diferente…

A outra margem: lugar provocador, incitador, desperta curiosidade; aqui brotam as grandes experiências religiosas, as intuições, projetos, ideais vitais...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A travessia me aproxima do peregrinar do dia a dia, a cada instante, da meta ainda escondida, mas certa. Ao voltar-me para trás, dou-me conta de que o itinerário foi realmente maravilhoso, que a experiência me transformou e me transforma, que estou mais “pura”, mais “livre”, mais “autêntica”. Deus, fez e faz essa travessia comigo.

Jesus também me convida a sair da minha própria margem, para ir à margem do Outro e dos outros. 

Ser santo ou santa é sair desse espaço e entrar no espaço de Deus. Cada um à sua maneira.

Em todo momento histórico, quando a Igreja e a sociedade são sacudidas por grandes mudanças, surgem homens e mulheres que rompem com esquemas e seguranças envelhecidas e se deixam conduzir pelo Espírito ao deserto, às margens, às fronteiras... fugindo de um ambiente e de uma ordem asfixiantes.

Viver o seguimento de Jesus é iniciar uma travessia, sem saber exatamente as tempestades ou calmarias que irei encontrar, porque “o vento sopra onde quer”, como o Espírito.  Isto supõe coragem para enfrentar o  risco do diferente, disponibilidade, abertura ao novo.             


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?  
Senhor Deus, percebo que você não “cabe” nas minhas “margens” conhecidas;  está sempre além da minha “zona de conforto”, instigando-me a fazer contínuas e ousadas “travessias”.

Você me quer bem fora e longe de todo o meu espaço de conforto para poder me abraçar e confiar a  missão tão original reservada a mim.

Não devo me conformar com a espiritualidade que vivo, devo buscar como aprofundar nela, em cada palavra, em cada lugar, em cada gesto, em cada pessoa.

Todos os santos e santas foram pessoas que saíram de seu espaço de conforto, “transgrediram” o conhecido e rotineiro, fizeram a travessia... nova visão, nova missão…


5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
Em toda travessia há o despojamento, a pobreza, por vezes a fome e a sede, os caprichos das estações, a incerteza dos dias de amanhã. Há a liberdade do espírito, horizontes infinitos, sem limites nem constrangimentos; há o imprevisto, o acontecimento inesperado, favorável ou adverso, que é o melhor e mais seguro dos sinais de Deus, que comanda o ritmo da marcha, as paradas, as estadias, as partidas, as mudanças de rumo ou itinerário. Há o encontro com os companheiros que se mantém fiéis, amigos que ajudam, inimigos que espreitam, pobres que compartilham o mesmo pão.

Neste Caminho Espiritual, seguir as pegadas irrepetíveis do Cristo Jesus, me leva a viver uma  vida sempre nova e surpreendente. 

Uma vez passada a zona de conforto, situar-me na outra margem passo a  colaborar  com Deus presente e ativo em toda situação humana. Isso gera uma maneira nova de viver, um estilo de vida, um compromisso diferente, uma ação carregada de ousadia...

Seguir a Jesus, sem saber o que há do outro lado.

Essa fronteira,  passa a ser terra privilegiada onde nasce o “novo” por obra do Espírito.


Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Mc 4,35-41
            Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne  




Leitura Orante – 11° domingo do tempo comum,  14 de junho de 2015

PRESSA: vida sem sentido e sem sabor

“...e a semente vai germinando e crescendo, mas o agricultor não sabe como isso acontece” Mc 4,27



Texto Bíblico: Mc 4,26-34


1 – O que diz o texto?
Nas duas parábolas de hoje, Jesus revela que a única coisa que a semente precisa é de um ambiente adequado para destravar sua vitalidade. Ela foge da eficácia e dos resultados instantâneos. Não tem pressa.

As duas parábolas nos falam mais de aposta no futuro, de calma, de paciência, de realidade sujeita a inclemências de todo tipo, que de certezas ou finais previamente escritos. Igualmente elas nos desvelam que o resultado futuro não vem de fora, mas que vai se forjando por dentro. 

Em cada uma das duas parábolas Jesus quer destacar um aspecto dessa realidade potencial dentro da semente. Na primeira, sua vitalidade, ou seja, a força, o impulso que tem para desenvolver-se por si mesma. Na segunda, nos é revelada a desproporção entre a pequenez da semente, quase imperceptível, e a enorme planta que dela surge, onde, inclusive as aves podem fazer seus ninhos.



2 – O que o texto diz para mim?
Estas imagens me fazem pensar que as coisas de Deus são de outra maneira e de outro ritmo. 

Ao mesmo tempo, elas me questionam: vivo hoje muito rápido...  Tudo tem que ser pra já; perdi a paciência, o sossego, a paz. Fiz do verbo “esperar” uma relíquia do passado. Tudo parece imprescindível. Tudo urge. Parece que muitas vezes sou eu quem  agenda e que controla  a própria vida. E corro o risco de esvaziar-me e me frustro porque quero correr muito esperando já os frutos quando tenho apenas plantado a semente. 

Mas é necessário a paciência do camponês para respeitar processos e colher os frutos no devido tempo.

Jesus foi um grande artista na construção de parábolas tiradas do cotidiano. Através delas, Ele me ajuda a “ver” no centro da realidade “o que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração humano não percebeu”, ou seja, a realidade impensável do Reino de Deus no meu cotidiano, emergindo como dom.

As parábolas nos Evangelhos não são contos com uma finalidade moral, nem representam uma doutrinação; seu núcleo original busca, antes de tudo, interrogar, provocar, chamar a atenção sobre a realidade presente. Posso afirmar que Jesus tem a pretensão, através desta linguagem, de provocar a quem o escuta e motivá-lo a uma tomada de posição frente à realidade. Não existe, na parábola, a intenção de pintar um quadro mais bonito da realidade, mas de utilizar o potencial do relato para que as pessoas se aproximem de uma dimensão sempre nova da existência.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Conta-se que o notável pintor francês Renoir, já sexagenário e bastante afamado pela vitalidade que deu ao impressionismo, foi procurado por um jovem admirador interessado em aprender as artes do desenho.

Porém, alegando um tempo escasso para tal empreitada, o apressado discípulo desejava saber quanto tempo duraria o aprendizado, pois ficara assombrado ao ver que o grande mestre fora capaz de fazer uma bela pintura com delicadas pinceladas, mas com uma rapidez espantosa.

Diz Renoir: “Fiz este desenho em cinco minutos, mas demorei 60 anos para consegui-lo”.

Esta é a resposta de alguém que é um sábio consistente e que ultrapassa o senso comum e o óbvio, gerando o novo (em vez de produzir mera novidade). 

É a revelação da sabedoria daquele que consegue maturar, sem pressa, a experiência de vida.

Esse é o problema do mundo moderno:  a agitação, a pressa e a preocupação se tornam um estilo de vida e acabam controlando o ritmo do meu cotidiano, tornando-se fonte inesgotável de ansiedade.

Nesse padrão cultural, sou pressionada a mostrar o tempo todo que estou ocupada e “produzindo” alguma coisa. Vivo perdida numa floresta de compromissos e atividades, incapazes de perceber alguma trilha estreita para poder andar e respirar. Mesmo com tudo que foi inventado para facilitar a vida – celular, internet, e-mail, mensagens instantâneas – parece que não tenho tempo para nada.

Há muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Acuada pelo relógio, pelo ativismo, pela agenda, pela opinião alheia, disparo sem rumo feito hâmsteres que se alimentam de sua própria agitação.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?  
Senhor, a pressa constante é mais um dos muitos transtornos que compromete  a qualidade de minha vida.

A necessidade compulsiva de cumprir tarefas durante 24 horas por dia e, se por algum instante, me encontro sem nada para fazer, me sinto culpada.

Além disso, a pressa, me torna superficial, me impede de perceber o verdadeiro valor e originalidade do meu trabalho e dos outros. Quanto vale o trabalho de um artesão, uma cozinheira, um mecânico, uma professora, um palestrante, um médico, uma cientista, um místico...?

Obrigada Senhor, por me dizer:

“Não apresses a chuva, ela tem seu tempo de cair e saciar a sede da terra; não apresses o pôr do sol, ele tem seu tempo de anunciar o anoitecer até seu último raio de luz; não apresses tua alegria, ela tem seu tempo para aprender com a tua tristeza; não apresses teu silêncio, ele tem seu tempo de paz após o barulho cessar; não apresses teu amor, ele tem seu tempo de semear, mesmo nos solos mais áridos do teu coração; não apresses tua raiva, ela tem seu tempo para diluir-se nas águas mansas da tua consciência; não apresses o outro, pois ele tem seu tempo para florescer aos olhos do Criador; não apresses a ti mesmo, pois precisas de tempo para sentir tua própria evolução”. Espere o momento.



5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
O escritor alemão Lothar J. Seiwert, autor do best-seller “Se tiver pressa, ande devagar”, afirma:

“Se você negligencia suas próprias necessidades e trabalha até cair de cansaço, desprezando férias e lazer, se torna uma pessoa de difícil trato e uma ameaça para aqueles com quem convive, desperdiça o tempo por falta de atenção e cria um clima de tensão permanente”.

Esta “dica” pode me ajudar a superar a ansiedade e a pressa, harmonizando-me com o “tempo” e fazendo as pazes com o relógio. Igualmente isso vale para viver e saborear, de uma maneira mais tranquila, as atividades cotidianas mais simples.

Normalmente, vivo ações “insensatas”, ou seja, sem sentido, sem direção.

Fazer uma faxina em meus compromissos e deveres, com certeza, boa parte desapareceria rápido no ralo do bom senso. Examinar  o baú de minhas  prioridades, certamente a arrumação interior seria outra.

Vivo uma quantidade de experiências rápidas, amontoadas, sem possibilidade de avaliação... O cotidiano torna-se convencional e, não raro, carregado de desencanto, pesado, estressante...

Aliviar a vida, o coração e o pensamento... eis o desafio; não para inventar de acumular ali mais alguns compromissos estéreis e sem sentido.

Aproveitar os dias, plantar a semente de algo bom, ativando, pouco a pouco, minhas capacidades no serviço aos outros; celebrar a vida, preocupar-me com coisas que verdadeiramente valem a pena e fugir de minhas manias, pressas e ansiedades. Deixar as pressas de lado, pois o Amor e a Vida, isso sim, é o mais seguro.


Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Mc 4,26-34
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne       



Leitura Orante – 10° domingo do tempo comum,  07 de junho de 2015

Evangelizar nossa interioridade para sermos mais humanos.

“Se uma família se divide contra si mesma, ela não poderá manter-se” (Mc 3,25)



Texto Bíblico: Mc 3,20-35


1 – O que diz o texto?
Fala sobre a gravidade do “pecado contra o Espírito Santo” .

Só há um pecado contra o Espírito Santo. Se o Pai é Vida, se o Filho é Verdade, o Espírito Santo é Amor. E o pecado contra o Espírito Santo é o pecado contra o amor. 

As acusações contundentes levantadas contra Jesus manifestam um fechamento à ação do Espírito. 

Aqueles que o acusavam de louco ao verem as multidões acorrerem a Ele, e a interpretação dos mestres da Lei que viam  nele o poder de Belzebu, chocava-se com a realidade da ação divina em Jesus. Isso significava negar que o Espírito Santo agia através de Jesus e atribuía ao demônio o que pertencia ao Espírito de Deus. Eis uma autêntica blasfêmia! 

Assim como Jesus agia pela força do Espírito, do mesmo modo só quem se deixa iluminar pelo Espírito pode agir como Jesus. Quem se fecha ao Espírito, tornava-se incapaz de discernir a manifestação da misericórdia de Deus, em Jesus. Fechar-se para Jesus, portanto, significa fechar-se para Deus e, por conseguinte, tornar-se indigno de perdão.



2 – O que o texto diz para mim?
Segundo a tradição bíblica, o que mais desumaniza é viver com um “coração fechado” e endurecido, um “coração de pedra”, incapaz de amar e de crer. Se me “fecho em mim mesma”, não posso acolher o Espírito de Deus, não posso deixar-me guiar pelo Espírito de Jesus. 

Um coração “dividido” é desfalcado, despojado de todo conteúdo humano, espoliado da densidade interior, assaltado por dentro. Essa “divisão”  corrói a interioridade  e dissolve aquilo que há de mais nobre no coração. Longe de uma humanidade dinâmica, operante, ousada... o que me deixa transparecer é uma humanidade neutra, apática, estagnada; é humanidade lenta, demorada, afogada na “normose”, estacionada na repetição dos gestos e dos passos. Ela gira em torno de si mesma e não consegue fazer um salto libertador.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Num coração petrificado e dividido o Espírito não tem liberdade de atuar; dessa resistência à ação do Espírito brotam as doentias divisões internas. São os dinamismos “diabólicos” (aquilo que divide) que se instalam em meu interior, atrofiam as forças criativas e me distanciam da comunhão com tudo e com todos. Com isso me fecho, tornando me rígida, petrificada em  posições, crenças, valores... e não me deixo impactar pelo novo, pelo diferente.

Viver humanamente consiste, em deixar o Espírito circular livremente por todos os cômodos de minha morada interior, arejando-os, ventilando-os, religando-os, dando-lhes vida, reorientando-os.

Preciso me abrir para uma verdade maior quanto à minha humanidade, todos os recantos do meu ser  merecem serem visitados, olhados, ouvidos e abraçados; cada aspecto de minha vida contém uma dádiva maior do que posso enxergar e cada sentimento merece uma expressão saudável. 

O Espírito me faz forte em minha fragilidade e me faz amadurecer quanto mais me humanizo. O modo de proteger-me é abrindo-me; o modo de defender-me é desarmando-me.

Um dos aspectos mais empolgantes do ser humano é o fato de ter reservas inspiradoras, úteis e poderosas que estão adormecidas, ansiando para sair da sombra e ser integradas ao todo da pessoa. Há uma imensa variedade de sentimentos maravilhosos esperando por uma oportunidade de se deslocarem no corpo, trazendo novas sensações, novos níveis de felicidade, alegria e prazer. Preciso aceitar os desafios de todas as facetas de minha humanidade; do contrário, os personagens que foram expulsos do palco, agora reprimidos, se tornarão os orquestradores silenciosos de minha vida secreta.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?   
Senhor, eu preciso superar a “divisão diabólica” do meu coração, para recuperar a densidade humana interna. Para isso, eu preciso me “reordenar”, repensar a minha interioridade perdida, reconquistar a minha autodeterminação. 

Para viver esse processo de humanização no mais profundo, preciso me despertar, ser uma pessoa pacificadora, reencontrar a minha  própria história, pontos de referência fundamentais que vão me situar  corretamente, na condição de filha de Deus.

É no mais íntimo que rezo ao Senhor. É no mais profundo de minha  interioridade que lhe escuto.  Seja a minha luz, vida e proteção.



5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
É indispensável  “unificar-me” por dentro e descobrir que, sob a ação do Espírito, posso me inventar a cada dia, conduzir conscientemente a vida em direção à plenitude e não arrastá-la pelo chão.

Ser dócil aos impulsos do Espírito, por onde muitas vezes não entendo e não sei. Como o meu Mestre interior, me ensina a deixar-me conduzir para a bondade, para a doação, para a reconciliação e a alegria.

Sua discreta presença me move a acolher o potencial de ternura, de cuidado e de resistência diante de todas aquelas situações e forças que desintegram a vida e me divide por dentro. 

O problema não está em Deus, Ele ama a todos. O problema está em mim,  se eu não acredito em seu amor, nunca me sentirei amada.

O perdão, por sua vez, é crer no amor; o perdão é expressão de amor. 

Amar, hoje e sempre.


Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Mc 3,20-35
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne       



Leitura Orante – Corpus Christi  - quinta-feira, 04 de junho de 2015

Cristo se faz corpo

“Isto é o meu corpo” (Mc  14,22)


Texto Bíblico: Mc 14,12-16.22-26


1 – O que diz o texto?
“Isto é o meu corpo”, diz Jesus. Ele poderia ter dito: “Esta é minha vida, esta é minha história, eu mesmo...”. Mas diz: “Isto é meu corpo”; e, contido nele, sua maneira de estar na vida e de situar-se nela, seu modo de olhar, de sentir, de estar presente... 

O único recurso de que Jesus dispõe é seu próprio corpo. Não tem outra riqueza nem outro dom que oferecer. Esse corpo era sua vida, feita doação.

Corpus Christi,  “Corpo de Cristo”, uma das celebrações mais ricas que me faz pensar em seu conteúdo e simbolismo... 

Corpo de Cristo são todos os homens e as mulheres, a humanidade inteira, pois nela se encarnou o Filho de Deus. Essa é a verdade cristã: que todos comam e bebam em amor solidário e real o pão de cada dia, o vinho da festa da vida.

Tenho muito o que pensar e rezar diante dos corpos, tanto diante do Corpo de Cristo, como diante dos corpos que passam fome, que são explorados, que sofrem... 


2 – O que o texto diz para mim?
A celebração de “Corpus Christi”  me revela como será o futuro: uma humanidade reconciliada e fraterna; uma mesa para todos, na qual circularão o Pão e a Palavra; uma comunidade reunida em torno do Corpo Ressuscitado e participando de sua vida. 

Ao me aproximar d’Ele, a partir da experiência dolorosa de um mundo dividido e rompido, minha  esperança  se refaz ao celebrar antecipadamente a realização do sonho de Deus sobre o mundo:  ser pão compartilhado e presença real do amor de Deus para com os últimos.

Jesus Cristo me  fascina por ter a coragem de ser diferente em sua época, por ser Ele mesmo e estar profundamente integrado com seu corpo, colocando-o a serviço e crescimento do outro... do outro corpo.

Comungar o Corpo de Cristo e não comungar com o outro, é comungar a própria condenação. Não se pode comungar com o Corpo e o Sangue do Senhor sem entrar em solidariedade com corpos violentados, feridos, famintos... “Se em alguma parte do mundo há fome, nossa celebração da Eucaristia fica de algum modo incompleta em todas as partes do mundo” (Pe. Arrupe).

“Na Eucaristia recebemos a Cristo faminto no mundo. Não vem a nós sozinho, mas com os pobres, os oprimidos, os que morrem de fome na terra. Por meio d’Ele vem a nós esses homens e essas mulheres em busca de ajuda, de justiça, de amor expresso em obras. Não podemos, por conseguinte, receber dignamente o Pão da Vida, se ao mesmo tempo não damos pão para que vivam aqueles que dele necessitam, sejam quais forem eles e onde quer que estejam” (Pe. Arrupe).


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Senhor, seu Corpo mesmo se apresenta como amor compartilhado. O Evangelho me conduz assim ao princípio de todo amor, que consiste em doar o corpo, a fim de que outro viva. Corpo não é aqui o oposto a alma, exterioridade do ser humano, mas pessoa e vida inteira; é comunicação e crescimento, exigência de alimento e possibilidade de morte, fragilidade e grandeza daquele que enfrenta a violência destruidora e doa sua vida em amor, criando a comunhão com todos.

Jesus, na vivência de sua corporalidade, destrava e dignifica os corpos dos outros: diante dos corpos doentes... cura;  diante do corpo pecador... ama, perdoa, abençoa, encoraja; diante dos corpos esfomeados: alimenta, multiplica os pães; diante do corpo sem vida: “ jovem, levanta-te!” vida nova; diante dos corpos que exploram, roubam: protesta, recusa, não façam da casa  de meu Pai um covil de ladrões; ai de vós, fariseus hipócritas, que se preocupam demais com as aparências dos “corpos”... e não vêm o interior.
Mas, como celebrar este “Corpo de Cristo” no meio de tantos outros corpos?


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?   
A Encarnação  foi o caminho que a Trindade escolheu para se aproximar da humanidade e fazer história com cada ser humano. Meu corpo feito de barro – vaso frágil e quebradiço – tornou-se o lugar privilegiado da chegada e da revelação do amor trinitário.
“Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós?” (1Cor, 6,19)

O meu corpo é o “templo” santo e santificado, onde Deus Trino faz sua morada.

Cuidar desse corpo para recuperar a saúde, combater o stres, harmonizar mente e corpo, razão e emoção, isto é benéfico. A deturpação desumanizante do corpo aparece quando ele é visto como fim em si mesmo.

São muitas as ofertas para o corpo: ginásticas, academias, cosméticos, bioenergéticas, yoga, dança, expressão corporal, cirurgias plásticas, implantes, massagem...

Cuidar sim, idolatrar não; é preciso caminhar para a superação do medo do corpo, mas sem idolatrá-lo.

Senhor, me ajude a olhar, valorizar, respeitar, amar, cuidar dos corpos dos meus irmãos e irmãs mais necessitados com o mesmo amor e zelo que tenho pelo Corpo de Cristo!... quem fizer isso a um menor dos meus irmãos, é a mim que o fizestes...
Cristo Eucaristia... perceber e amar a presença real de Cristo no corpo... do outro.


5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
Jesus se revela, como autoridade de amor, porque ofereceu seu “corpo”, isto é, sua vida, para que outros pudessem viver. Na multiplicação dos pães, nas refeições com pecadores e sobretudo na Última Ceia, Ele oferece aquilo que não pode ser comprado nem vendido: o pão do próprio corpo carregado de humanidade, o vinho de sua vida portador das energias alegres e criativas.

Comungar o pão e o vinho não é só aderir a Jesus, à sua pessoa e à sua mensagem; não é só experimentar sua intimidade, deixando-se transformar por Ele. Implica estar disposta a comungar com todos, porque Jesus nunca vem só: “traz” com ele toda a realidade. “Não nos devemos envergonhar, não devemos ter medo, não devemos sentir repugnância de tocar a carne de Cristo” (papa Francisco).


Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Mc 14,12-16.22-26
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne       



Leitura Orante – Trindade, domingo  31 de maio de 2015

A Trindade Misericordiosa
Toda a atenção de Deus está centrada sobre o ser humano.

Texto Bíblico: Mt 28,16-20
Jesus aparece aos onze discípulos
16Os onze discípulos foram para a Galiléia e chegaram ao monte que Jesus tinha indicado. 17E, quando viram Jesus, o adoraram; mas alguns tiveram suas dúvidas. 18Então Jesus chegou perto deles e disse:
— Deus me deu todo o poder no céu e na terra. 19Portanto, vão a todos os povos do mundo e façam com que sejam meus seguidores, batizando esses seguidores em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo 20e ensinando-os a obedecer a tudo o que tenho ordenado a vocês. E lembrem disto: eu estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos.


1 – O que diz o texto?
O conhecimento de Deus só é possível através da revelação, só é possível se Deus se mostra.

O que Deus é, me deu a conhecer ao longo de toda a história vivida como o lugar da manifestação do seu plano de salvação.

Cada um dos evangelhos, cada qual a seu modo, apresenta a dificuldade dos discípulos de entrar no mistério de Deus revelado em Jesus Cristo. Jesus é o caminho para conhecer o Pai. Essa peregrinação de Deus na história da humanidade foi revelando pouco a pouco o seu rosto.


2 – O que o texto diz para mim?
O texto da liturgia me convida, neste domingo, celebrar e viver o Mistério da Trindade.  Me coloca diante da grandeza do amor divino. Deus se faz três pessoas unidas por uma profunda e contagiante comunhão. A humanidade, escolhida para testemunhar a grandeza da Trindade Santa, é convocada pelo próprio Deus para irradiar a paz e promover a vida plena de todos os povos. Aqui não se trata somente de uma verdade para crer, mas estou diante do fundamento e do núcleo da experiência cristã.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Quem é o Pai Criador, quem é o Filho Redentor, quem é o Espírito Santificador?

Para facilitar a experiência da presença e ação da Trindade em minha vida, vou contemplar a escultura da Irmã Caritas Müller (veja foto) que está numa casa de oração na Alemanha; toda obra de arte fala mais que muitas palavras. Todo artista capta detalhes do Mistério e oferece ricas possibilidades de acesso que a razão nem sempre consegue explicar.

O interessante é que, ao observar a escultura, vejo que o ser humano está no centro

Trata-se da pessoa na sua total fragilidade e miséria, caída e sem forças... Essa pessoa está circuncidada pela misericórdia da Trindade.

Em Deus o ser humano está no centro, para que o ser humano coloque Deus no centro da sua vida. 

Percebo na escultura quatro círculos. O círculo expressa o caráter único de cada pessoa, tanto divina como humana. As Três Pessoas divinas e a pessoa humana encontram-se dentro de círculos. O círculo da pessoa humana está no centro da Trindade, e os círculos das Três Pessoas da Trindade encontram-se abertos em direção a este círculo central. 

Pela sua Encarnação, Morte e Ressurreição, o Filho é o mediador que introduz o ser humano no coração da Trindade.

Noto que os círculos não são fechados, pois as pessoas podem entrar no círculo das outras na medida em que seu amor é atuante e expansivo. O círculo central recolhe uma pessoa humana, que pode até ser eu. Não dá para saber se é homem ou mulher, pobre ou rica, jovem ou anciã e assim por diante. Parece sim se tratar de uma pessoa ferida nos caminhos da vida. 

O círculo, como símbolo de realização, significa que o ser humano, em sua fragilidade e em sua miséria, é chamado à plenitude de vida e de realização.

Logo me vem a lembrança do Bom Samaritano. As três pessoas divinas estão debruçadas, com reverência, sobre a pessoa machucada. É patente que o Deus uno e trino comunga no mesmo sentimento de amor e compaixão. 

Tudo converge para esta revelação: o ser humano desfigurado e acolhido pela iniciativa amorosa da Trindade. O ser humano desfigurado é transfigurado pelo Amor.
A Trindade Misericordiosa envolve a criatura humana por todos os lados. Toda a atenção de Deus está centrada sobre o ser humano.


O Pai (à direita), está carinhosamente inclinado, com um dos joelhos em terra, esforçando-se com cuidado para levantar a pessoa ferida. O sentimento do Pai é de ternura e cuidado, seu rosto se aproxima e beija o rosto inerte da pessoa ferida. Ele revela seu amor misericordioso no calor do abraço, que acolhe e regenera o ser humano. Morre o mal que foi feito e celebra-se a festa da vida nova.

Assim fez o pai que, no regresso do filho pródigo, o abraça, o cobre de beijos e o cumula de seu perdão.

Levantar, rodear de ternura, abraçar, acolhê-lo em seu seio de ternura, tal é o gesto de Deus Pai para com o ser humano. Gesto de libertação que o coloca de pé, devolvendo sua dignidade.

Jesus, o Filho de Deus (à esquerda), ajoelha e se inclina profundamente. Ele se rebaixa à mesma condição do ser humano. Ele segura e sustenta com suas mãos os pés da pessoa ferida, lava-os, cura as feridas com carinho e beija seus pés. Beijo, gesto de intimidade e de ternura, que convida a pessoa a deixar-se amar. O amor liberta, põe o homem e a mulher de pé.

Jesus me revela o maior serviço do amor, ao mesmo tempo que realiza o mais humilde serviço. “Eu vim para servir e não para ser servido”. O Filho revela o Deus Amor serviço, que se põe aos pés da humanidade decaída para restaurá-la, e revela o caminho do serviço como caminha para a vida.

Em Jesus Deus se abaixa para estar mais perto da miséria do ser humano. Não o olha a partir de cima, abaixa-se. Não vem ao meu encontro em minhas perfeições, mas em minhas misérias.

É o que Jesus me revelou durante toda sua vida e de maneira especial no gesto do lava pés. Ele põe o centro de sua ação nos seres mais pobres e mais fracos, aqueles que não contam para nada, os descartados, os que sofrem e os pecadores. O ser humano é tão importante aos olhos de Deus que Ele o coloca no centro de suas preocupações.

O Espírito Santo, figura que desce do alto e se aproxima do ferido, tanto pode ser a figura de uma pomba, de chamas ou de mãos que trazem vida. O bico da pomba, como o Pai e o Filho, beija a pessoa e lhe transmite o Sopro de vida. Deus quer ter o ser humano, um ser vivente, como interlocutor, um ser capaz de responder seu chamado à vida. Deseja um ser vivente, capaz de amar e de assemelhar-se a Ele.

A Pomba de fogo, voa sobre o ser humano caído e o aquece. A relação entre a Pomba de fogo e o ser humano do centro recorda Pentecostes. Cheios do Espírito Santo, os Apóstolos, antes marcados pelo medo, se transformam em testemunhas audazes de Jesus e do amor de Deus.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?   
Em toda a história Deus se revelou a seu povo. Na plenitude dos tempos Deus armou sua tenda no meio de nós.

Quero te escutar, ó Deus Trindade. Pai, Filho e Espírito Santo. Nas estradas da vida caminhar sempre ao teu lado.  Ler, estudar, conhecer, meditar, saborear e viver às tuas Palavras. Em Teus caminhos, sonhos e projetos Deus Trindade, quero sempre trilhar. Amém.


5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
Ao experimentar esta acolhida restauradora, sou chamada a ser também presença da Trindade Amiga para os meus irmãos, construindo a comunhão Trinitária no mundo em que vivo. Só corações solidários adoram um Deus Trinitário. “E lembrem disto: eu estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos.”

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Mt 28,16-20
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne       




Leitura Orante – Pentecostes, domingo  24 de maio de 2015

Inflar nossas velas com os ventos da ‘RUAH’

 “Soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo” (João 20,22)


Texto Bíblico: João 20,19-23

Jesus aparece aos discípulos 

19Naquele mesmo domingo, à tarde, os discípulos de Jesus estavam reunidos de portas trancadas, com medo dos líderes judeus. Então Jesus chegou, ficou no meio deles e disse: 
— Que a paz esteja com vocês! 
20Em seguida lhes mostrou as suas mãos e o seu lado. E eles ficaram muito alegres ao verem o Senhor. 21Então Jesus disse de novo: 
— Que a paz esteja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês. 
22Depois soprou sobre eles e disse: 
— Recebam o Espírito Santo. 23Se vocês perdoarem os pecados de alguém, esses pecados são perdoados; mas, se não perdoarem, eles não são perdoados.


1 – O que diz o texto?
O Espírito insuflou e insufla vida em todas as etapas do universo, na evolução dinâmica para o novo. Ele suscitou ao longo da história, palavras desafiantes, caminhos ainda não percorridos, imagens novas.

Por seu sentido etimológico, “espírito” – “ruah” – na bíblia hebraica, se refere ao vento, ao ar que impulsiona, e ao alento ou a respiração que mantém a vitalidade dinâmica do ser humano. A “ruah” (porque “espírito” é feminino em hebraico) é um modo de descrever a Deus como impulso, alento, força... presença que perpassa tudo, e não se pode retê-la nem dominá-la.

A santa Ruah é a energia que cria solidariedade, reconciliação, que constrói e mantém a Grande Aliança.


2 – O que o texto diz para mim?
Deixando-me conduzir pelo Sopro do Espírito Santo, posso realizar em meu interior uma boa “ecologia do espírito”, ou seja, recuperar a utopia frente ao desencanto, promover o espírito de comunidade frente ao individualismo, cultivar a abertura ao outro frente ao preconceito cruel, impulsionar o compromisso frente à mera tolerância, apoiar a justiça frente ao puro assistencialismo, incentivar a criatividade frente ao mimetismo, fomentar a solidariedade frente ao auto-centramento, promover o espírito de verdade frente à mentira, inspirar a fé frente a um horizonte sem sentido...

Sinto soprar no mundo, no amor das mães, no trabalho sacrificado dos pais, na bondade, na ajuda, na ciência, na inteligência, na compaixão...

Sinto a presença do Vento de Deus, que infla a vela da minha pobre barca e a leva para outros horizontes. E, mais intimamente, o Vento de Deus é Alento, aquele que faz respirar, que tira o desalento, o que anima, me faz viver com ânimo. 

Em Jesus de Nazaré vejo soprar o Vento de Deus como em nenhum outro.


3 – O que a Palavra me leva  a  experimentar?
As angústias mais radicais do ser humano são reunidas e transformadas pelo sopro do Espírito: um sopro vital que possibilita a vitória da esperança contra o desespero, da comunhão contra a solidão, da vida contra a morte. A voz sopra onde quer, a Palavra vem do alto, o Espírito chega impetuoso rompendo o silêncio da morte. O Vento traz a vida, mas não se sabe de onde vem e nem para onde vai.

Quando experimento a desorientação, a fragilidade, a falta de sentido, dou-me conta que preciso de um novo Sopro que me fará sonhar e me deslocar para além de toda estreiteza da vida.

O Espírito age de modo silencioso, mas com extraordinária eficácia: a sua força se mostra irrefreável. O seu sopro,  me recoloca de pé e me faz, finalmente, ressurgir.

Há muitos ventos e ruídos ao meu redor: o ruído alucinante das máquinas e das músicas metálicas; o ruído de tanta violência, gritos, maus tratos, mentiras; o ruído da intransigência, intolerância, fanatismo, condenações, ameaças... Em meio à tempestade levantam-se ondas de dor e sem sentido, de medos paralisantes e dúvidas angustiantes, de mortes violentas e prematuras que fazem naufragar barcas cheias de sonhos. O planeta terra grita de um modo ensurdecedor: os últimos terremotos, os incêndios, os furacões, as inundações... me falam cotidianamente desse grito do Planeta que não quero escutar.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a barca de minha vida naufragará na estreita calma de mares mortos se eu não for capaz de desatar os antigos nós de marinheiros que impedem içar as velas para receber os novos ventos da história. “Velas que ao içar-se, se inflariam com o vento dos sinais dos tempos” (Pepe Laguna).

Ancorada na fidelidade a Jesus e a seu Reino, posso consentir que os Ventos do Espírito levem todos os meus  velhos padrões mentais, ideias fixas e atitudes petrificadas, preconceitos e tudo o que já está caduco e que não me impulsionam para a outra margem...

Este é o melhor legado que posso oferecer aos meus contemporâneos, sacudidos por tormentas que os afundam sem poderem vislumbrar um novo horizonte.

No entanto, em meio à tempestade urge não perder a serenidade, não permitir que o ruído dos ventos e as ondas me vençam, que os relâmpagos me ceguem. 

Além disso, sopram outros ventos tempestuosos que me ameaçam, arrastando tantas seguranças que me sustentaram, tantos barcos nos quais subi, tantos salva-vidas aos quais me agarrei...

As tempestades e as tormentas me assustam, tem o perigo de me converter em pessoa medrosa, buscadora de segurança própria, fugitiva caminhante para os lugares de calma.


5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
Nas tempestades também é necessário “soltar amarras e içar velas”, ou seja, atrever-se a “viver no Vento”. Soltar as amarras e âncoras dos apegos, do consumismo, da prepotência, afã de domínio, exclusivismos, fundamentalismos, patriarcalismo, machismo.... Preciso perder o medo dos novos ventos e içar as velas da inculturação, da riqueza da pluralidade de culturas, religiões, raças, deixar-me mover pelo vento dos movimentos de libertação (povos em desenvolvimento, negros, indígenas, os sem terra, os movimentos ecologistas, pacifistas, feministas...), acolher o vento que me impulsiona em direção ao novo e diferente...

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – João 20,19-23
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne        



Leitura Orante - Ascensão do Senhor, domingo  17 de maio de 2015

ASCENSÃO: “para uma Igreja em saída”

“Os discípulos então saíram e pregaram por toda parte” (Mc 16,20)


Texto Bíblico: Mc 16,15-20

Jesus vai para o céu 

15Então ele disse: 
— Vão pelo mundo inteiro e anunciem o evangelho a todas as pessoas. 16Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. 17Aos que crerem será dado o poder de fazer estes milagres: expulsar demônios pelo poder do meu nome e falar novas línguas; 18se pegarem em cobras ou beberem algum veneno, não sofrerão nenhum mal; e, quando puserem as mãos sobre os doentes, estes ficarão curados. 
19Depois de falar com eles, o Senhor Jesus foi levado para o céu e sentou-se do lado direito de Deus. 20Os discípulos foram anunciar o evangelho por toda parte. E o Senhor os ajudava e, por meio de milagres, provava que a mensagem deles era verdadeira.


1 – O que diz o texto?
Esta cena final do Evangelho de Marcos está em íntima sintonia com todo o seu evangelho. 

De fato, os versículos hoje propostos à nossa oração falam do mandato de Jesus aos discípulos: “ide pelo mundo inteiro”. Em outras palavras, não há ruptura entre a missão de Jesus e a dos discípulos. O ministério de Jesus se prolonga no testemunho dos seus seguidores. E é importante não esquecer que Jesus continua caminhando nas estradas da humanidade, nos passos e ensinamentos dos seus discípulos. Isso nos leva a afirmar que a Ascensão de Jesus não nos priva de sua presença; pelo contrário, oferece-nos novos modos de senti-Lo e de encontrá-Lo. Começa, assim, definitivamente o tempo da comunidade cristã.

Os discípulos, portanto, darão sequência ao que Jesus fez, ampliando o campo de ação: Jesus anuncia o evangelho na Galiléia; os discípulos, por sua vez, deverão fazê-lo pelo mundo inteiro e a toda criatura.


2 – O que o texto diz para mim?
O evangelho de hoje conclui que os discípulos saíram e anunciaram por toda parte o que o Mestre anunciou: a boa notícia do mundo novo inaugurado com Ele. Este anúncio será acompanhado de “sinais”:

Os dois primeiros sinais (expulsar demônios em nome de Jesus e falar novas línguas) mostram que a ação dos discípulos é libertadora e comunicadora do mundo novo, eliminando tudo o que despersonaliza, oprime e marginaliza as pessoas, e libertando as pessoas de todo tipo de alienação.

O terceiro e quarto sinais (pegar serpentes ou beber veneno mortal) falam dos confrontos e conflitos que aparecerão no caminho daqueles que, a partir da fé no Ressuscitado, vivem o compromisso com a vida: quem anuncia e realiza o projeto de Deus sofre oposições imprevistas e veladas (serpentes) ou evidentes e abertas (tentativa de matar os discípulos por envenenamento). 

O quinto sinal (impor as mãos sobre os doentes, curando-os); os discípulos, em estreita comunhão com a ação de Jesus, prolongam Suas mãos, curando, abençoando, levantando os caídos, sustentando os fracos.


3 – O que a Palavra me leva  a  experimentar?
O seguidor de Jesus é impelido continuamente a uma vivência “fronteiriça”: arrancar-se, desinstalar-se, abrir-se a situações novas, assumir novos riscos, renovar-se sem cessar, adaptar-se às condições de tempo e lugar, tenacidade com uma boa dose de paixão… 

A fronteira é espaço tenso e conflitivo; ali o Evangelho se faz mais transparente, o seguimento de Jesus se faz mais radical, a vivência cristã deixa de ser neutra e começa a ser conflitante.

Dizer “fronteira” é como dizer novidade; fronteira significa lugares novos, experiências novas, desafios novos.  Comporta emoção e descoberta, com sabor do risco, do perigo, da ousadia...

Na história da Igreja muitos homens e mulheres viveram em atitude de permanente êxodo e disponibilidade, numa espécie de itinerância interior e exterior que os converteu em vanguardas da história.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, os grandes desafios atuais exigem 'uma Igreja missionária toda em saída', reafirmou o Papa Francisco.

 “A Igreja ‘em saída’ é a comunidade de discípulos missionários que ‘primeireiam’, que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam. A comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor e, por isso, ela sabe ir à frente, tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos. Vive um desejo inesgotável de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força difusiva (...) Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo”. (Evangelli Gaudium).


5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
Como o pe. Vitor Codina sj, também posso, sonhar e permitir que a festa da Ascenção desate em mim um profundo dinamismo pascal e eclesial:

Uma Igreja pobre, simples, próxima, acolhedora, sincera, realista, que promove a cultura do encontro e da ternura. 

Uma Igreja que vai ao essencial, que se centra em Jesus Cristo contemplado e seguido, que difunde o bom odor do Evangelho e convida a que todos coloquem Jesus Cristo no centro de suas vidas.

Uma Igreja da misericórdia de Deus, da ternura, da compaixão, com entranhas maternais, que reflete a misericórdia do Pai, uma Igreja sobretudo hospital de campanha que cura feridas, que cuida da criação, na qual os sacramentos são para todos, não só para os perfeitos.

Uma Igreja dos pobres, preocupada sobretudo com a dor e o sofrimento humano, a guerra, a fome, o desemprego juvenil, os anciãos, onde os últimos sejam os primeiros, onde não se possa servir a Deus e ao dinheiro; uma Igreja profética, livre em relação aos poderes deste mundo.

Uma Igreja que sai às ruas, que vai às margens sociais e existenciais, às fronteiras, aos que estão longe, mesmo sob o risco de sofrer acidentes; uma Igreja que seja semente e fermento, que abra caminhos novos, que vá sem medo para servir, uma Igreja ao ar livre, que sai às sarjetas do mundo, uma Igreja em estado de missão.

Uma Igreja que respeita os que seguem sua própria consciência, as outras religiões, os ateus, dialoga com não crentes... uma Igreja de portas abertas, atenta aos novos sinais dos tempos.

Uma Igreja que considera que o Vaticano II é irreversível, que é preciso implantar suas intuições sobre a colegialidade, desclericalizar-se, evitar o centralismo e o autoritarismo no governo, caminhar em meio às diferenças, confiar maiores responsabilidades aos leigos, dar maior protagonismo à mulher...

Uma Igreja com pastores que “cheiram a ovelha”, que caminham na frente, atrás e no meio do povo.

Uma Igreja jovem e alegre, fermento na sociedade, com a alegria e a liberdade do Espírito, com luz e transparência, sem nada a ocultar...

Uma Igreja Casa e Povo de Deus, que respeita a diversidade, onde os leigos, as mulheres, as famílias jogam um papel relevante. É a Igreja de Aparecida, de discípulos e missionários para que os nossos povos em Cristo tenham vida, uma casa eclesial onde reina a alegria.

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Mc 16,15-20
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne        



Leitura Orante  - Sexto domingo da Páscoa,  10 de maio de 2015

Somos alegria

”Eu vos digo isto para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena”


Texto Bíblico: Jo 15,9-17

9Assim como o meu Pai me ama, eu amo vocês; portanto, continuem unidos comigo por meio do meu amor por vocês. 10Se obedecerem aos meus mandamentos, eu continuarei amando vocês, assim como eu obedeço aos mandamentos do meu Pai e ele continua a me amar. 
11— Eu estou dizendo isso para que a minha alegria esteja em vocês, e a alegria de vocês seja completa. 12O meu mandamento é este: amem uns aos outros como eu amo vocês. 13Ninguém tem mais amor pelos seus amigos do que aquele que dá a sua vida por eles. 14Vocês são meus amigos se fazem o que eu mando. 15Eu não chamo mais vocês de empregados, pois o empregado não sabe o que o seu patrão faz; mas chamo vocês de amigos, pois tenho dito a vocês tudo o que ouvi do meu Pai. 16Não foram vocês que me escolheram; pelo contrário, fui eu que os escolhi para que vão e deem fruto e que esse fruto não se perca. Isso a fim de que o Pai lhes dê tudo o que pedirem em meu nome. 17O que eu mando a vocês é isto: amem uns aos outros. 



1 – O que diz o texto?
É profundamente sábia a afirmação acima, feita por Jesus no contexto da Última Ceia. E é profundamente significativo que Ele pronuncie estas palavras no contexto de seu “único mandamento”. Alegria e Amor são dois nomes da Realidade que somos. E não podem andar separados. Não se trata de nenhuma crença, nem tampouco de uma exigência moral. A Vida é Alegria e Amor.

O evangelho de hoje parece nos indicar que a alegria, junto com o amor, é um dos sentimentos mais terapêuticos: nos centra e nos descentra, nos resitua, nos abre a dimensões de infinito, tirando-nos de mecanismos egocêntricos, que nos fazem girar sobre nós mesmos de um modo doentio.



2 – O que o texto diz para mim?
Diz que quando me sinto conectada à alegria, o amor flui na mesma medida.

Por isso, caminho na direção adequada na medida em que permaneço conscientemente conectada a ambas realidades. E não por uma exigência moral, mas porque descubro que se trata de minha verdadeira identidade.

Como dom do Espírito, a alegria brota do interior da pessoa e se expande; nesse sentido, a alegria é mais que um estado de ânimo; é o estado da pessoa inteira. Por isso, a alegria não é algo que acontece na pessoa: é a pessoa mesma acontecendo. A alegria é gerúndio: é a pessoa alegrando-se.

A alegria se dá na mesma medida que a vitalidade; de fato, ela é seu primeiro sinal. 

Quando não há nada que “deprima” a vida da pessoa, automaticamente experimenta a alegria de viver. Só quando a vida se vê bloqueada – geralmente por falta de amor – a alegria se apaga, até o ponto de se crer que ela desapareceu.



3 – O que a Palavra me leva  a  experimentar?
Minha alegria é Cristo ressuscitado. Ele é a causa de minha alegria. Ele me dá vida em plenitude.

Esta alegria não está livre da presença de dificuldades, problemas, conflitos... Tudo isto faz parte de minha condição e da porção da existência. Mas a Alegria de que fala Jesus é aquela que abraça os “bons” e “maus” momentos, do mesmo modo que a calma profunda do oceano permanece estável, haja serenidade ou tormentas em sua superfície. Trata-se de uma alegria unificadora que experimento quando estou em contato com a minha verdadeira identidade.

“A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Com Jesus Cristo sempre nasce e renasce a alegria” (Ev. Gaudium).

Jesus era um homem vital e alegre. Não era um moralista que buscava algum tipo de comportamento específico, nem era um legalista que controlava a vida das pessoas. Só lhe interessava que as pessoas pudessem viver intensamente e experimentar a Alegria profunda.

Os Evangelhos revelam que Jesus vivia sereno, feliz, alegre. As bem-aventuranças são o fiel reflexo de sua vida; seu íntimo trato com o Pai, sua paixão pelo Reino, suas relações pessoais, suas amizades, seu estilo de vida, sua vivência sob a ação do Espírito... são vividos na paz e na alegria.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, sou alegria. E traços característicos desta Alegria Cristificada é quando a experimento essa transformação em minha vida; ela é o estado de espírito onde seguramente meu Senhor Deus habita. É o melhor presente: produz contágio e atração; é sintoma evidente de uma vida sadia; é a que ativa a confiança e segurança a tudo o que está ao redor. Ela é opção para que os outros respirem, descansem. Requisito imprescindível é que alargue horizontes, que seja compartilhada com outros. Acompanha toda pessoa aberta que assume o futuro com ombros largos onde cabem outros. É o termômetro do tempo doado, de uma cruz assumida e que pode libertar a muitos.



5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
A Igreja, por vocação e missão, deve ser alegre. Toda ela é profecia de alegria e esperança.

Na Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho”, do papa Francisco, aflora um sentimento vivo da alegria do evangelho que enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus, em contraste com o risco da tristeza individualista, busca de prazeres superficiais e o isolamento do mundo atual. O Evangelho é fonte de alegria e de vida, um contentamento que brota do encontro com o Cristo ressuscitado. É genial que a primeira experiência do Ressuscitado tenha ficado associada ao regozijo extremo, ao júbilo irrefreável e à animação incontrolável. Alegria com sabor de reencontro, satisfação por uma vitória (nada menos que frente à morte), glória bendita. 

Esta alegria é a que impulsiona os cristãos a evangelizar, a anunciar a boa e sempre nova notícia da salvação e do amor de Cristo. Por isso, os cristãos não devem ter cara de funeral, nem de quaresma sem Páscoa, mas irradiar ao mundo a alegria de Cristo.

Páscoa é passar de uma Igreja envelhecida, triste, com rosto amargo a uma Igreja jovem e alegre, fermento na sociedade, com a alegria e a liberdade do Espírito.


Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Jo 15,9-17
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne        







Leitura Orante  - Quinto  domingo da Páscoa,  03 de maio de 2015

Permanecer no Jesus podado: centro de nosso seguimento

“...e todo ramo que dá fruto, Ele o poda, para que dê mais fruto ainda” 


Texto Bíblico: João 15,1-8
Jesus, a videira 

1Jesus disse: 
— Eu sou a videira verdadeira, e o meu Pai é o lavrador. 2Todos os ramos que não dão uvas ele corta, embora eles estejam em mim. Mas os ramos que dão uvas ele poda a fim de que fiquem limpos e deem mais uvas ainda. 3Vocês já estão limpos por meio dos ensinamentos que eu lhes tenho dado. 4Continuem unidos comigo, e eu continuarei unido com vocês. Pois, assim como o ramo só dá uvas quando está unido com a planta, assim também vocês só podem dar fruto se ficarem unidos comigo. 
5— Eu sou a videira, e vocês são os ramos. Quem está unido comigo e eu com ele, esse dá muito fruto porque sem mim vocês não podem fazer nada. 6Quem não ficar unido comigo será jogado fora e secará; será como os ramos secos que são juntados e jogados no fogo, onde são queimados. 7Se vocês ficarem unidos comigo, e as minhas palavras continuarem em vocês, vocês receberão tudo o que pedirem. 8E a natureza gloriosa do meu Pai se revela quando vocês produzem muitos frutos e assim mostram que são meus discípulos.


1 – O que diz o texto?
A imagem que João apresenta no Evangelho de hoje é deveras instigante. Quando se poda a videira, ela é despojada de todos os ramos, os sarmentos. Só fica um tronco áspero e escuro, sem uma mínima folha verde. Qualquer um que não entenda de podas dirá que a videira está absolutamente morta em meio ao inverno. Só ficam presos ao tronco alguns centímetros de ramos que deram fruto em outro tempo e que agora parecem cotocos sem futuro.


2 – O que o texto diz para mim?
Partindo da imagem da videira, é possível extrair dela algumas conclusões (cf. Benjamin Buelta):
- Quando se poda um ramo, podem continuar saindo pelos cortes pequenas gotas de seiva como se a videira chorasse a perda. O importante é acolher a poda, fazer o luto, despedir-se do perdido, e não petrificar-se numa queixa obsessiva que gira sobre si mesma paralisando o futuro. Se não se vive o luto e não se assume a perda, as feridas se prolongam no tempo e deixam um rastro de dor que nunca cicatriza.
- Durante semanas, na videira podada não acontece nada por fora, mas por dentro, no escondimento da interioridade, célula a célula, ela vai sendo novamente gestada através de processos pequenos e invisíveis. O ritmo é lento e não responde às impaciências do agricultor nem a hostilidade do clima que abate sobre ela. Todo o trabalho é interior e silencioso.
- Quando chega a primavera, a casca ressecada e endurecida da videira começa a abrir-se a partir de dentro pela força da vida que cresceu em seu interior. O rigor do frio vai se afastando de seu entorno. Aparecem os brotos, os ramos, as folhas e cachos de uvas. 
É tempo de surpresa, uma vitalidade assombrosa em sua pequenez e vulnerabilidade, que já não é possível  esconder e deter debaixo da casca. As uvas maduras deixam transparecer o dinamismo da seiva vital.


3 – O que a Palavra me leva  a  experimentar?
A “poda” faz parte essencial de todo o processo de crescimento. Essa poda  significa morrer ao que não sou (falsas imagens de mim mesma, vaidade, prestígio...) para que possa brotar, a partir de minha interioridade, o que realmente sou. Trata-se da poda do ego (fechado, petrificado, sem vida...) para que possa destravar-se a Vida que carrego por dentro e que é a minha verdadeira identidade.
A seiva de meu ser essencial constitui a minha autêntica vida. Descobri-la, abrir-me a ela, fazer-me transparente a ela e vivê-la cada dia constitui a plenitude de minha realização. 
É seiva divina, presente no eu mais profundo, que me arranca de meu fechamento e me faz ir para além de mim mesma; ela me abre  a uma Realidade maior que me transcende; é ela que me faz perceber que tenho no coração um espaço que está feito à medida de Deus.  
A presença da seiva é um reforço, um suporte, um energético do eu, uma ativadora das capacidades do eu; ela não constrange, não violenta, mas ajuda, esclarece, mobiliza as energias presentes em mim. É nesse conjunto de recursos e dinamismos vitais que a Graça (seiva) de Deus trabalha; Ela pode ser considerada como uma presença dinâmica, um estimulante das energias latentes do eu.
Por isso, preciso viver mais nas raízes de meu ser; preciso aprender a viver de uma maneira mais profunda e autêntica, a partir do núcleo mais íntimo de meu ser, a partir de meu ser essencial. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, assim como Jesus, eu também hoje vivo, de maneira diferente, tempos de poda, tanto na vida eclesial e social como na vida pessoal. Busco discernir por onde brota e cresce hoje a novidade de Deus nos ramos podados. Não existe nenhuma situação pessoal ou social onde Deus não esteja trabalhando e onde não possa ser encontrado para criar com Ele sua novidade na história. 
A poda pode ser ocasião para me perguntar como enfrentar de maneira criativa os grandes desafios do serviço ao Reino numa cultura que globaliza a sedução, a superficialidade e o consumismo; e, ao mesmo tempo, como deixar-me conduzir pelo Espírito que trabalha escondido nesta mesma cultura como a seiva na videira. Sem poda, não há criatividade, nem futuro.
Sinto-me impulsionada pela seiva do Espírito que alimenta as energias do universo e a minha própria energia vital e espiritual. Conectar-se com a videira possibilita alcançar a seiva, o pulsar da vida e o equilíbrio nas relações; viver em profunda fusão com a videira desperta as energias criativas, todas as grandes motivações adormecidas, toda bondade aí presente. 
Sem a seiva divina que me atravessa nunca poderei dar o verdadeiro fruto.


5 – O que a Palavra me leva  a  viver?
Nas podas o importante é permanecer unida ao tronco de onde me chega a vida, embora tudo parece morte. Nesse sentido, “permanecer” é a palavra chave no Evangelho de hoje: permanecer nos compromissos assumidos, nos passos que buscam abrir caminhos novos; permanecer nas lutas por defender os direitos dos mais fracos e pobres, na incansável denúncia daquilo que atenta contra toda vida  por mais insignificante que pareça; permanecer na misericórdia entranhável, no serviço escondido...
Permanecer ancorada na fidelidade a Jesus e a seu Reino e consentir que as podas me libertam de todos os meus velhos padrões mentais, ideias fixas e atitudes petrificadas, preconceitos e tudo o que já está caduco e que não me conduz a uma vida expansiva...; permanecer conectada somente na pessoa de Jesus e no sonho do Reino como o melhor legado que pode oferecer aos meus contemporâneos, sacudidos por tormentas que os afundam sem poderem vislumbrar um novo horizonte.

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – João 15,1-8
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne        



Leitura Orante  - Quarto  domingo da Páscoa,  26 de abril de 2015

“Configurados com o coração do Bom Pastor”

“Eu dou minha vida pelas ovelhas” (Jo 10,15)


Texto Bíblico: João 10,11-18

Jesus, o bom pastor 
11— Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a vida pelas ovelhas. 12Um empregado trabalha somente por dinheiro; ele não é pastor, e as ovelhas não são dele. Por isso, quando vê um lobo chegando, ele abandona as ovelhas e foge. Então o lobo ataca e espalha as ovelhas. 13O empregado foge porque trabalha somente por dinheiro e não se importa com as ovelhas. 14-15Eu sou o bom pastor. Assim como o Pai me conhece, e eu conheço o Pai, assim também conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem. E estou pronto para morrer por elas. 16Tenho outras ovelhas que não estão neste curral. Eu preciso trazer essas também, e elas ouvirão a minha voz. Então elas se tornarão um só rebanho com um só pastor. 
17— O Pai me ama porque eu dou a minha vida para recebê-la outra vez. 18Ninguém tira a minha vida de mim, mas eu a dou por minha própria vontade. Tenho o direito de dá-la e de tornar a recebê-la, pois foi isso o que o meu Pai me mandou fazer. 


1 – O que diz o texto?
Para fazer-se presente neste mundo, Deus não veio impor-nos uma nova doutrina  e uma nova lei, mas apresentou-se a nós na vida de um Homem que nasceu pobre, que viveu entre os pobres e que “morreu de tanto viver”.

Embora o Evangelho de hoje já não fale mais de Aparições do Ressuscitado, na realidade não nos afastamos do tema pascal, pois Jesus afirma expressamente: “O bom Pastor dá a sua vida por suas ovelhas”. 

A Vida é o verdadeiro tema da Páscoa. E “a vida sempre tem razão” (Rilke).

Para o evangelista João, a “vida” é, antes de tudo, totalidade, vastidão, amplidão ilimitada e que se expressa em infinidades de formas, todas elas habitadas pela mesma e única Vida. Falamos da vida presente, a vida atual, uma vida carregada de tal plenitude e de tal densidade que, com toda razão, podemos chamá-la de “vida eterna”, e que nem mesmo a morte poderá com ela.

Por isso, o sinal decisivo de que alguém crê no Deus de Jesus está na vida que leva; em outras palavras, está em viver como viveu Jesus de Nazaré. Isso quer dizer que o sinal de que uma pessoa encontrou o Deus de verdade é que ela se relaciona com os outros como Jesus se relacionou, que sente o que Jesus sentiu, que ama o que Jesus amou. Quem não encontra a Deus “nesta” vida, não o encontrará jamais.


2 – O que o texto diz para mim?
Me diz  que o Deus que Jesus  revela,  se fundiu com a vida, essa vida que me entra pelos sentidos. Encontro Deus, antes de tudo, pelo que vejo e sinto pelo que apalpo com as minhas próprias mãos, por tudo aquilo que, ao senti-Lo, se faz vida em mim. 
Deus entra pelos sentidos.

Se me deixo invadir pelo humano, se me humanizo de verdade à dor do mundo, é sinal que Deus entrou pelos meus  sentidos. E então justamente é quando, de verdade, me  encontro com o “Deus desconcertante”, o Deus que Jesus de Nazaré me revelou.

Por isso, na vida humana, é tão determinante a sensibilidade, o afeto, a ternura, a bondade, a compaixão, o cuidado, tudo o que gera amor, carinho e doação de uns para com outros.


3 – O que a Palavra me leva  a experimentar?
O decisivo é “escutar a voz do Pastor” em toda sua limpidez e originalidade. Ele é a voz da Vida. Não confundi-la e nem me deixar distrair ou enganar por outras vozes estranhas, que, mesmo escutadas no interior da Igreja, não comunicam sua Boa notícia. 

 “Conheço a voz” da Vida. Por isso, cada vez que vejo, ouço ou leio algo carregado de vida, produz  uma ressonância em meu interior. É uma voz que “ressoa” em mim, embora tenha estado apagada durante muito tempo.

No contexto em que vivo há muitas vozes e de todo o tipo. São tantas que corro o risco de ficar confusa. Algumas delas podem apresentar-se especialmente atrativas porque parecem encaixar perfeitamente com o que são as necessidades do ego. Há vozes que prometem, vozes que compensam, vozes que entretém, vozes que distraem, vozes que seduzem, vozes que inflam, vozes que assustam, vozes que ameaçam, vozes que me dá a razão, vozes que me rejeitam...  Tantas vozes... e não é estranho que, em algum momento, as sigo. No entanto, se não são a genuína voz da Vida, não me  alimentarão; seu encanto se revelará passageiro e, com frequência, frustrante. 

Jesus fala a partir da Vida, ou melhor ainda, como a Vida. Só pode falar a partir da Vida quem se reconhece nela, que descobriu que a Vida é sua verdadeira identidade. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, essa é a experiência pascal da vida: experiência da intimidade, da presença, da proximidade, da comunhão, da aliança, da glória de Deus, em minha própria vida. Vivo embriagada de vida, sinto-me  como um peixe no oceano de Deus, dizendo um profundo “sim” às ondas, ao vento, ao sol, à existência... Como ressuscitada, sinto e sei: se Deus não pode ser encontrado no próprio coração e no coração da vida, não será encontrado em lugar nenhum.

Seguir o Bom Pastor e ouvir a sua voz é deixar-me “configurar” por Ele, é movimento pelo qual vou sendo modelada à imagem d’Ele.

Ao seguir o  Bom Pastor eu sinto cativada, envolvida, amada, entusiasmada, sintonizada, habitada por Ele de tal maneira que meus olhos, gestos,  atitudes, palavras, meu coração, minha  existência transbordam Deus.


5 – O que a Palavra me leva  a viver?
O olhar transparente e livre do Bom Pastor ressuscita o meu olhar tímido e estreito e me capacita a olhar amplos horizontes: seu povo, seu mundo dividido e excluído... Seu olhar me predispõe a encontrar motivações saudáveis e maduras que me permitam olhar e viver no contexto atual com amor, com entusiasmo e criatividade.

O encontro com o Bom Pastor ativa em mim o “pastor escondido” para que eu possa ser a voz de vida que faz a diferença e indique a todos a porta de liberdade ; ser esse  pastor que ajude  as pessoas a  encontrar o caminho e o sentido para suas existências...

Queremos ser “bons pastores” que se ajudem mutuamente a sair do aprisco onde estamos fechados (moralismo, legalismo, ritualismo, religião sem vida...), para assim busca e celebrar a liberdade, com o Bom Pastor e com todos os homens e mulheres de boa vontade.

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – João 10,11-18
            Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne        



 Leitura Orante  - Terceiro domingo da Páscoa,  19 de abril de 2015

Testemunhas das “mãos e pés” do Ressuscitado

“Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!”



Texto Bíblico: Lucas 24,35-48
Jesus aparece aos discípulos 

35Então os dois contaram o que havia acontecido na estrada e como tinham reconhecido o Senhor quando ele havia partido o pão. 

36Enquanto estavam contando isso, Jesus apareceu de repente no meio deles e disse: 
— Que a paz esteja com vocês! 

37Eles ficaram assustados e com muito medo e pensaram que estavam vendo um fantasma. 38Mas ele disse: 
— Por que vocês estão assustados? Por que há tantas dúvidas na cabeça de vocês? 

39Olhem para as minhas mãos e para os meus pés e vejam que sou eu mesmo. Toquem em mim e vocês vão crer, pois um fantasma não tem carne nem ossos, como vocês estão vendo que eu tenho. 

40Jesus disse isso e mostrou as suas mãos e os seus pés. 41Eles ainda não acreditavam, pois estavam muito alegres e admirados. Então ele perguntou: 
— Vocês têm aqui alguma coisa para comer? 

42Eles lhe deram um pedaço de peixe assado, 43que ele pegou e comeu diante deles. 44Depois disse: 
— Enquanto ainda estava com vocês, eu disse que tinha de acontecer tudo o que estava escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos livros dos Profetas e nos Salmos. 

45Então Jesus abriu a mente deles para que eles entendessem as Escrituras Sagradas 46e disse: 
— O que está escrito é que o Messias tinha de sofrer e no terceiro dia ressuscitar. 47E que, em nome dele, a mensagem sobre o arrependimento e o perdão dos pecados seria anunciada a todas as nações, começando em Jerusalém. 48Vocês são testemunhas dessas coisas. 49E eu lhes mandarei o que o meu Pai prometeu. Mas esperem aqui em Jerusalém, até que o poder de cima venha sobre vocês. 



1 – O que diz o texto?
Ao longo de toda a cena do Evangelho de hoje, os discípulos permanecem calados, em silêncio total. O narrador só descreve seu mundo interior: estão cheios de medo; só sentem perturbação e incredulidade; tudo aquilo lhes parece muito bonito para ser verdade.

É Jesus quem vai regenerar a fé em seus corações. Apesar de vê-los cheios de medo e de dúvidas, Jesus confia em seus discípulos. O mais importante é que não se sintam sozinhos. Hão de senti-Lo cheio de vida no meio deles. Estas são as primeiras palavras que escutam do Ressuscitado: “A paz esteja convosco!” “... por quê tendes dúvidas em vosso coração?” Ele mesmo lhes enviará o Espírito que os sustentará. Por isso lhes recomenda que prolonguem sua presença no mundo.

Eles não ensinarão doutrinas sublimes, não vão pregar grandes teorias sobre Cristo, mas irradiar seu Espírito, disponibilizando suas mãos e pés a serviço do Reino.



2 – O que o texto diz para mim?
Lucas descreve o encontro do Ressuscitado com seus discípulos como uma experiência fundante. 

O desejo de Jesus é claro. Sua missão não terminou na Cruz. Ressuscitado por Deus depois da execução, entra em contato com os seus para pôr em marcha um movimento de “testemunhas” capazes de contagiar a todos os povos com sua Boa Notícia: “Vós sereis testemunhas de tudo isso”. 

Não é fácil converter em testemunhas aqueles homens afundados no desconcerto e no medo. 

“Vede minhas mãos e meus pés”: para despertar e ativar a fé dos seus discípulos, Jesus não lhes pede que olhem Seu rosto, mas suas mãos e pés. Quer que vejam suas feridas de crucificado, que tenham sempre diante de seus olhos seu amor serviço entregue até a morte. Não é um fantasma: “Sou eu mesmo!”, o mesmo que conheceram e amaram pelos caminhos da Galiléia. Jesus é o mesmo, é o crucificado.

O ser humano se define pelas mãos e pés, e não pelo rosto; não adianta ter um rosto se as mãos e os pés estão petrificados. As mãos e os pés expressam aquilo que vem do coração: se o coração está cheio de medo, dúvidas, perturbações, ressentimentos, mágoas... as mãos e os pés revelam-se atrofiados; se o coração está cheio de compaixão, de acolhida, de espírito solidário... as mãos e os pés se expressarão como serviço, colocando a pessoa em movimento em direção aos outros. 

É o coração transformado que dirige as mãos santificadas, delicadas, que move os pés solidários. É o coração agradecido que transforma as mãos e pés em instrumentos de graça.

Por isso, Ressurreição é movimento e ação: é movimento, porque é saída de si; é ação porque é construção, compromisso em favor da vida, serviço expansivo e criativo.



3 – O que a Palavra me leva  a experimentar?
A verdadeira identidade do seguidor de Jesus está nas mãos e pés que se fazem vida, que se humaniza e humanizam os outros. Mãos e pés que destravam as mãos e pés petrificados e atrofiados dos outros.

Sou chamada a ser testemunha das mãos e pés do Ressuscitado.

As mãos e os pés são os membros que me alargam, me ampliam para o encontro; eles me tiram de minha estreiteza de atitudes, de ideias , me arranca de meus preconceitos e de meus medos...... Mãos e pés ressuscitados que me fazem sair de meus lugares fechados , e me  move em direção a largos horizontes. Por isso são membros que mais me “humaniza”, ou seja, me  faz “descer” ao “húmus” de minha existência, ao chão da vida, abrindo me aos outros.

Minhas mãos e pés... sacramento de Deus. Fazem presente as mãos e os pés do Ressuscitado.

Sou a Sua mão amiga e carinhosa, forte e libertadora, criadora de vida, que protege e cuida a vida.

Serei os Seus pés desgastados para pisar os solos sagrados da humanidade.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?   
Senhor, a experiência do encontro com o Ressuscitado destrava as mãos e pés dos discípulos, arrancando-os do lugar fechado e lançando-os para os outros. Minhas mãos e pés serão o prolongamento das mãos e pés de Jesus Ressuscitado. Mãos e pés marcados com as feridas da doação, da entrega. Mãos e pés carregados de vida: pés que facilitam fazer-se presentes juntos às vidas feridas, excluídas...; mãos que se fazem vida ao sustentar a vida fragilizada.

Para encontrar com o Ressuscitado hoje, tenho de percorrer o relato dos Evangelhos: redescobrir essas mãos que abençoavam os enfermos e acariciavam as crianças, esses pés cansados de caminhar ao encontro dos mais esquecidos; redescobrir suas feridas e sua paixão. Esse é Jesus ressuscitado pelo Pai e que agora vive.



5 – O que a Palavra me leva  a viver?
Olhando as mãos de Jesus, os discípulos faziam “memória”  das mãos que curavam os doentes, cuidavam dos frágeis, elevavam os caídos, abençoavam e acariciavam as crianças, acolhiam os pecadores e pobres...

Olhando os pés de Jesus, os discípulos faziam “memória” dos pés peregrinos, que rompiam distâncias, que faziam a travessia em direção à “margem”, que O aproximavam dos excluídos, que ultrapassavam fronteiras religiosas e culturais... Com suas mãos e pés Jesus tecia seu dizer e seu fazer.

Contemplando as mãos e pés de Jesus, os discípulos tomam consciência que eles estavam com as mãos atrofiadas e os pés paralisados pelo medo e pela dúvida.

As chagas, sinal de seu amor extremo, evidenciam que é o mesmo que morreu na cruz. A permanência dos sinais de sua morte indica a permanência do amor; elas são as cicatrizes de um compromisso com a vida. Além disso, elas garantem a identificação do Ressuscitado com o Jesus Crucificado.

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Lucas 24,35-48
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne      



Leitura Orante  - Segundo domingo da Páscoa, 12 de abril de 2015

Ressuscitar os sentidos

”Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado”  (Jo 20,27)


Texto Bíblico: João 20,19-31

Jesus aparece aos discípulos

19Naquele mesmo domingo, à tarde, os discípulos de Jesus estavam reunidos de portas trancadas, com medo dos líderes judeus. Então Jesus chegou, ficou no meio deles e disse: 
— Que a paz esteja com vocês! 

20Em seguida lhes mostrou as suas mãos e o seu lado. E eles ficaram muito alegres ao verem o Senhor. 21Então Jesus disse de novo: 

— Que a paz esteja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês. 
22Depois soprou sobre eles e disse:  

— Recebam o Espírito Santo. 23Se vocês perdoarem os pecados de alguém, esses pecados são perdoados; mas, se não perdoarem, eles não são perdoados. 

24Acontece que Tomé, um dos discípulos, que era chamado de “o Gêmeo”, não estava com eles quando Jesus chegou. 25Então os outros discípulos disseram a Tomé: 

— Nós vimos o Senhor! 

Ele respondeu: 

— Se eu não vir o sinal dos pregos nas mãos dele, e não tocar ali com o meu dedo, e também se não puser a minha mão no lado dele, não vou crer! 

26Uma semana depois, os discípulos de Jesus estavam outra vez reunidos ali com as portas trancadas, e Tomé estava com eles. Jesus chegou, ficou no meio deles e disse: 
— Que a paz esteja com vocês! 

27Em seguida disse a Tomé: 

— Veja as minhas mãos e ponha o seu dedo nelas. Estenda a mão e ponha no meu lado. Pare de duvidar e creia! 

28Então Tomé exclamou: 

— Meu Senhor e meu Deus! 

29— Você creu porque me viu? — disse Jesus. — Felizes são os que não viram, mas assim mesmo creram! 

30Jesus fez diante dos discípulos muitos outros milagres que não estão escritos neste livro. 

31Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, crendo, tenham vida por meio dele.


1 – O que diz o texto?
Segundo o relato do evangelho de hoje, para fazer o encontro com o Ressuscitado  não posso colocar entre parênteses o uso de meus sentidos; pelo contrário, trata-se de introduzir “pneuma”, sopro em cada um deles, para que se tornem órgãos contemplativos e facilitadores da experiência de Deus. 

Quando se fala de “sentidos espirituais” se faz referência aos sentidos espiritualizados, habitados, animados pelo Espírito de Deus. Os sentidos não são destruídos, mas transfigurados; eles se tornam “sentidos divinos”, pois tornam o ser humano cada vez mais “capaz de Deus”. 

“Ressuscitar os sentidos” significa harmonizá-los com a presença do Espírito, torná-los silenciosos, despojados diante d’Aquele que é.


2 – O que o texto diz para mim?
Nasci com olhos, mas não com o olhar; tenho sim, ouvidos, mas não sei escutar; posso cheirar e gostar das coisas, mas nem sempre sou capaz de desfrutar e saborear a vida. 
Estou vivendo uma cultura profundamente desconectada do sensitivo. Os sentidos estão ficando atrofiados e me lança desesperadamente em busca de compensações virtuais. Meus medos estão impossibilitando os sentidos ocuparem o lugar que lhes corresponde em meu comportamento  e atitude.

Uma opção de seguimento evangélico que não conte com a “ressurreição dos sentidos” está destinada ao fracasso, pois, sem uma identificação com a sensibilidade de Jesus meus sentidos passeiam vazios e sem bússola pelo mundo, como que afundados na noite.


3 – O que a Palavra me leva  a experimentar?
“...mostrou-lhes as mãos e o lado”: suas mãos chagadas e seu lado aberto – credenciais de sua entrega e expressão de seu amor radical. Chagas para serem contempladas, sentidas, tocadas..., lembrando que eu não amo de verdade enquanto não mostro minhas chagas no serviço aos outros.

A experiência de Tomé, que é também a minha, tem um valor importante em minha vida, seguidora do Ressuscitado.

Através dos meus  sentidos, o mundo de Jesus entra imaginativamente em minha intimidade, e por meio deles respondo também à realidade de um modo novo. Buscando e desejando a identificação com Jesus, meus sentidos aprendem d’Ele a ter ternura, visão, escuta, sabor...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, eu preciso “ressuscitar os sentidos” para que eu possa encontrar o meu lugar insubstituível na experiência de fé. E só posso descobrir o “lugar e o sentido” dos sentidos através do confronto com a “sensibilidade de Jesus”. Educar minha sensibilidade “ao estilo de Jesus”  implica mergulhar em sua forma de ser e de sentir, de vibrar com tudo aquilo que lhe fazia vibrar, de rejeitar tudo aquilo que Ele rejeitava, e assim reagir frente à realidade e às pessoas do mesmo modo que Ele reagia.

As contemplações dos relatos das Aparições me apresentam como “uma aprendizagem, um aprofundamento e um discernimento deste sentir de Jesus” (Melloni). Na realidade, trata-se de querer ter sempre – na expressão de S. Paulo – os “mesmos sentimentos de Cristo Jesus”, a quem o cristão deseja seguir mais de perto.


5 – O que a Palavra me leva  a viver?
“O pedido de Tomé de querer colocar os dedos nas chagas das mãos e dos pés de Jesus e suas mãos na chaga do seu lado, é uma afirmação muito importante para a minha fé: o Jesus ressuscitado ainda traz as marcas e as chagas da sua paixão. A ressurreição de Jesus não o fez retroagir ao passado, como se sua morte nunca tivesse acontecido. Pelo contrário, venceu a morte e ainda traz as marcas da crucificação. A ressurreição de Jesus muda o meu olhar sobre o ser humano. As chagas de Jesus dizem que o ressuscitado carrega em si todas as chagas de todos os humilhados do mundo. Elas dizem também que nenhuma chaga, por mais injusta e humilhante que seja, pode me impedir de me tornar pessoa  de cabeça erguida no coração do mundo. De agora em diante, nenhuma de minhas chagas pode me impedir de ser livre: Jesus ressuscitado é, em primeiro lugar, aquele que carrega as chagas da nossa condição humana. De maneira clara, não espero me livrar dos meus males para viver de cabeça erguida. Jesus ressuscitou e é hoje que, mesmo com as nossas chagas, podemos nascer para a liberdade". (Jean Debruynne)

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – João 20, 19-31
             Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
             Desenho: Osmar Koxne        


Leitura Orante  - Primeiro domingo: Ressurreição,  05 de abril de 2015

Ressurreição: conectados à Vida  

Texto Bíblico: João 20,1-9

O túmulo vazio 

1Domingo bem cedo, quando ainda estava escuro, Maria Madalena foi até o túmulo e viu que a pedra que tapava a entrada tinha sido tirada. 2Então foi correndo até o lugar onde estavam Simão Pedro e outro discípulo, aquele que Jesus amava, e disse: 

— Tiraram o Senhor Jesus do túmulo, e não sabemos onde o puseram! 

3Então Pedro e o outro discípulo foram até o túmulo. 4Os dois saíram correndo juntos, mas o outro correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro. 5Ele se abaixou para olhar lá dentro e viu os lençóis de linho; porém não entrou no túmulo. 6Mas Pedro, que chegou logo depois, entrou. Ele também viu os lençóis colocados ali 7e a faixa que tinham posto em volta da cabeça de Jesus. A faixa não estava junto com os lençóis, mas estava enrolada ali ao lado. 8Aí o outro discípulo, que havia chegado primeiro, também entrou no túmulo. Ele viu e creu. 9(Eles ainda não tinham entendido as Escrituras Sagradas, que dizem que era preciso que Jesus ressuscitasse.) 10E os dois voltaram para casa. 


1 – O que diz o texto?
Há, neste texto, um progressivo caminho de fé. Começa com Maria Madalena: ela busca, sai de seu esconderijo vai ao encontro de um corpo. Ainda está presa à morte e ao passado, mas é levada pela coragem a buscar um sentido para sua dor e tristeza. Trata-se de um primeiro passo, embora incipiente: colocar-se em movimento, sair, romper com seu lugar estreito...

A atitude de Pedro é um pouco mais profunda: depara-se com os sinais de Ressurreição e busca entender o que tinha acontecido. Certamente ficara confuso diante do sudário dobrado, colocado à parte: “como é possível, alguém, no momento glorioso de sua vida, encontrar tempo para dobrar um sudário!”.

A razão ainda não é suficiente para mergulhar no mistério da fé.
Somente João é capaz de dar o salto da fé: mergulha no mistério. Deixa-se afetar pelos sinais, não buscando razões que expliquem o que tinha acontecido. Assume a atitude de acolhida do mistério. Seu olhar é um olhar contemplativo: vai além dos sinais.

Os três viram os mesmos sinais; João, com um olhar contemplativo, vai além das aparências; é preciso ter os olhos destravados para “ler” os sinais da Ressurreição. João fica assombrado diante de tantos sinais; ele “entra” no túmulo de maneira diferente; não faz de maneira apressada, como Pedro. Ele para, dá um tempo, tem paciência... Tem uma atitude de acolhida e não de investigação.


2 – O que o texto diz para mim?
Esse texto que é indicado para este domingo não tem como protagonista nem a Deus, nem a Cristo, nem confessa sua ressurreição. Os três protagonistas que menciona são puramente humanos: Maria Madalena, Simão Pedro e o discípulo amado. Nem sequer há um anjo. O relato de João se centra nas atitudes muitos diferentes destes três personagens.

Maria Madalena reage de forma precipitada: ao ver que a pedra tinha sido retirada da entrada do túmulo logo conclui que alguém tinha levado o corpo de Jesus; a ressurreição nem sequer passa pela sua cabeça.

Simão Pedro atua como um inspetor de polícia diligente: corre ao sepulcro e não se limita, como Maria, a ver a pedra removida; entra, observa as faixas de linho no chão e o sudário enrolado, num lugar à parte. Algo muito estranho. Mas não tira nenhuma conclusão.

O discípulo amado também corre, inclusive mais que Simão Pedro; mas quando chega ao sepulcro, espera pacientemente. E vê a mesma coisa que Pedro, mas conclui que Jesus ressuscitou.

“Agora” é a Vida, “agora” é a Ressurreição, embora eu tenha dificuldade para descobri-la, como os três personagens da cena de hoje. O ego corre, como os discípulos, pensando que no futuro se sentirá melhor. Com frequência, corre tão depressa que não repara em nenhuma outra coisa que não seja sua própria expectativa. Em algumas ocasiões, parece receber a graça de poder ver as “faixas de linho” e de ver através delas. Na realidade, para quem está atento, tudo são “faixas”, sinais, aberturas, ranhuras, gretas... por onde a Vida se infiltra. Tudo pode ser oportunidade para me despertar para quem realmente sou e reconhecer me conectada à Vida. Isso é viver ressuscitada.

Mas, para poder ver o significado que as “faixas” contém, requer-se atenção. Uma atenção que me faz estar no momento presente é calar o falatório mental. Nesse Silêncio, poderá desvelar-se diante de meus olhos a Presença que me chama pelo nome.


3 – O que a Palavra me leva  a experimentar?
A Páscoa deixa tudo igual enquanto o coração humano não faz a experiência de que Jesus está vivo. 

Tudo é Vida, que pode expressar-se como vibração, energia... A Vida não é algo que tenho, mas o que sou; o que tenho, posso perder;  o que sou, permanece. Desse modo,  
experimento conectada à Fonte de tudo o que é e à Vida que sou. Nisto consiste a sabedoria e a libertação: na conexão consciente ao Mistério da Vida, a Deus, sem nenhum tipo de separação, nem distância, sem costuras.

Maria Madalena madruga para encontrar-se com a morte na sepultura; e Deus madruga mais ainda para recuperar a vida. Madalena madruga para a morte e Deus madruga para a vida.

Enquanto estou a caminho da morte, Deus está a caminho da vida; enquanto continuo presa no passado, Deus já está no presente novo; eu visito sepulcros e Deus visita corações que vivem e tem garra de viver; eu me empenho em encher os sepulcros, e Deus se encarrega de esvaziá-los. 
Os sepulcros não são lugares de encontro com Ele; a Ele o encontramos na comunidade reunida no amor.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a Luz da Ressurreição desperta em mim a nostalgia de outra luz, de outra beleza... 

A tensão de luz e sombra também está viva em meu  interior, no espaço interior de cada um de nós. Somos filhos da luz e do dia, pertencemos ao dia e à luz. Mas ninguém pode apagar esta luz nova que busca expressar-se no cotidiano de nossa vida. 
Nessa tensão de luz e obscuridade... procuro  contemplar o Ressuscitado.


5 – O que a Palavra me leva  a viver?
A verdadeira Páscoa não acontece ao lado do sepulcro; ela acontece quando os corações começam a pulsar de novo com um novo ritmo de vida e de esperança.  

É Páscoa não só quando Deus ressuscita Jesus de entre os mortos mas quando Deus se faz acontecimento de vida em mim. Deus celebra a Páscoa não junto à pedra do sepulcro mas na vida das pessoas.

É de madrugada, e eu ainda continuo com os olhos vendados do passado. Mas Deus já faz resplandecer a luz da madrugada, esperando iluminar as mentes e despertar os corações para acolher a Vida.

Uma Santa e Inspirada Páscoa.

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – João 20,1-9
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne        



Leitura Orante  - Sábado Santo,  04 de abril de 2015

SÁBADO-SANTO da espera e da esperança - reivindica uma intensa experiência

Texto Bíblico: João 19, 38-4
O sepultamento de Jesus 

38Depois disso, José, da cidade de Arimatéia, pediu licença a Pilatos para levar o corpo de Jesus. (José era seguidor de Jesus, mas em segredo porque tinha medo dos líderes judeus.) Pilatos deu licença, e José foi e retirou o corpo de Jesus. 39Nicodemos, aquele que tinha ido falar com Jesus à noite, foi com José, levando uns trinta e cinco quilos de uma mistura de aloés e mirra. 40Os dois homens pegaram o corpo de Jesus e o enrolaram em lençóis nos quais haviam espalhado essa mistura. Era assim que os judeus preparavam os corpos dos mortos para serem sepultados.

41No lugar onde Jesus tinha sido crucificado havia um jardim com um túmulo novo onde ninguém ainda tinha sido colocado. 42Puseram ali o corpo de Jesus porque o túmulo ficava perto e também porque o sábado dos judeus ia começar logo. 


1 – O que diz o texto?
Posso começar este dia recordando outra experiência muito humana:  o regresso do enterro de uma pessoa querida, depois de uma longa temporada de lutas e temores, com um tratamento pesado, com momentos de otimismo, momentos de frustração, etc..., até o instante último em que disse ao meu interior: “descansou”. Quem não regressou alguma vez do cemitério com esta sensação?

Partindo desta experiência, contemplo um momento como descem do Gólgota Maria, o discípulo amado e algumas mulheres que estavam junto à Cruz, com a horrível sensação de que tudo acabara.

Me identifico com aquele pequeno grupo que volta triste para casa; nossa vida cristã se situa neste tempo intermédio entre a morte de Jesus e sua posterior ressurreição. Por isso, o teólogo Uns Von Balthasar nos diz que a vida cristã precisa de uma boa teologia do Sábado Santo: uma reflexão profunda sobre essa situação que nos constitui: o Senhor se foi e ainda não temos o Ressuscitado...

É preciso aceitar essa ausência, depois de examiná-la em muitos momentos de nossa vida. Mas, ao mesmo tempo é preciso reconstruir a esperança porque sabemos que a Páscoa de amanhã ilumina a Cruz, embora não a elimina. E essa esperança é dupla: é a esperança de uma vitória sobre o mal e a injustiça; é também uma vitória sobre a morte.


2 – O que o texto diz para mim?
Sábado Santo, portanto, é tempo não só de espera mas de esperança, é deixar que o grão de trigo morto comece a dar fruto, é tempo de um inverno que tornará possível as flores da primavera, é tempo de imaginar, de criar, de abrir-se a algo novo e inesperado, de sonhar um mundo melhor e uma Igreja nazarena. O Sábado Santo é ao mesmo tempo sepulcro e mãe, como diziam os Pais da Igreja, ao falar do batismo.

É o sábado para acompanhar Maria meditando em seu coração à espera da Páscoa. É o sábado no qual a Mãe não espera junto ao sepulcro mas em seu coração. Sábado da ausência; é um dia vazio, sinto que falta algo no mundo; a liturgia guarda silêncio; as igrejas estão fechadas...

Sábado do silêncio; cala a palavra mas fala o coração; cala a palavra mas o coração sente a voz daquele que já está no silêncio do sepulcro. É o silêncio do coração que espera o momento, que escuta o mistério por dentro; é o silêncio do coração que medita e guarda dentro o mistério, que espera a nova palavra pascal. É o sábado das esperanças que começam a verdejar.


3 – O que a Palavra me leva  a experimentar?
Este espaço de silêncio não é de morte senão de vida germinal, é noite que aponta à aurora, são as noites escuras da vida cristã que desembocam na alegria da alvorada; é tempo de fé e de esperança, é momento de semear ainda que não vejo os resultados, é tempo de crer que o Espírito do Senhor, criador e doador de vida, está fecundando a história e a terra para seu amadurecimento pascal e escatológico, para a terra nova e o céu novo. O Espírito também não abandona os seguidores do Crucificado, dá-lhes vida, porque é o mesmo Espírito que ressuscitou Jesus no meio dos mortos e que se derramou em Pentecostes sobre a Igreja nascente e sobre toda a humanidade.

Abre-se aqui um horizonte de esperança, de justiça, de paz, de cuidado da criação. Por isso se diz com forte convicção que “outro mundo é possível”.

Nós cristãos temos muito que dizer e compartilhar com nossos contemporâneos a respeito da esperança.

O cristianismo é esperança, olhar e orientar-se para frente; e é também, por isso mesmo, abertura e transformação do presente. Nossa fé no Deus da história se transforma em esperança:  “a fé que mais amo é a esperança” (Charles Péguy). Esta é a herança que temos recebido: o Evangelho da esperança.

A esperança é uma virtude teologal, ou seja, é como uma “patía” (paixão) que se apodera de mim  e me  determina. É uma “teopatia” (paixão por Deus) que me faz participar do amor fiel e dinâmico do Deus da Aliança.

Esta teopatia me dá a certeza de que Deus cumprirá todas as suas promessas e que o Reino de Deus se realizará. O causante desta teopatia da esperança e o Espírito Santo, derramado em meu  coração, que geme pela manifestação da Glória de Deus, em mim e na criação inteira.

Esta teopatia, dom que é preciso acolher e cultivar, modifica minhas atitudes vitais, eleva minha  tensão, ativa todo meu ser, elimina meus medos e me envolve no compromisso; ela me faz criativa, inovadora, impaciente, antecipadora daquilo que espero.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a esperança inclui também uma tremenda dose de sofrimento: foi assim que Jesus experimentou a esperança na sexta-feira santa. É a esperança que grita a Deus e que se atreve a exclamar: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste”. 

O Sábado Santo, ao fazer memória de Jesus no sepulcro, torna-se “memória da esperança”. Por ela, tantos outros a atravessaram anteriormente; nela, experimentaram a distância de Deus e seu maior sofrimento foi, precisamente, essa distancia. 

Esta é a esperança que brota da dor do Sábado; esta é a esperança que o Espírito concede àquele que é pobre, que chora, que é perseguido por causa da justiça, que tem limpo o coração, que responde com ternura à violência. É a esperança das bem-aventuranças de Jesus. É a esperança daqueles que sofrem com os outros e pelos outros.


5 – O que a Palavra me leva  a viver?
A virtude teologal da esperança tem, portanto, uma face luminosa e outra face escura: é paixão criadora e é paixão-sofrimento. É tensão criativa para o futuro e resistência dolorida diante das contradições do presente. Na vida cristã também experimento as duas faces da esperança: sua noite e sua luz. 

A esperança – como luz e noite – rejuvenesce a vida cristã. A esperança suscita perguntas, novas perspectivas, lança para frente, abre futuro.

A teopatia da esperança me leva ao Sábado Santo. O sábado santo foi o dia do silêncio de Deus Pai e o dia da descida de Jesus, morto e sepultado, “aos infernos”. Foi o dia do Espírito Santo que não tinha “onde repousar” e fica como sem alento.

Normalmente o Sábado Santo não merece maior reflexão de nossa parte; acabada a Sexta-feira Santa já pensamos no Domingo da Ressurreição. No entanto, o Sábado Santo reivindica uma intensa experiência.

O Sábado Santo é um dia de penumbra: entre a sombra da Sexta-feira e a luz do Domingo. É o dia da ambigüidade, do luto e da possível boa notícia, da espera e da esperança.


Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – João 19, 31-37
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne        


Leitura Orante  - Sexta-feira Santa,  03 de abril de 2015
SEXTA-FEIRA SANTA:  O mistério da Cruz nos desvela (tira o véu)


Texto Bíblico: João 19, 31-37 

Um soldado fura o lado de Jesus 

31Então os líderes judeus pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas dos que tinham sido crucificados e mandasse tirá-los das cruzes. Pediram isso porque era sexta-feira e não queriam que, no sábado, os corpos ainda estivessem nas cruzes. E aquele sábado era especialmente santo. 32Os soldados foram e quebraram as pernas do primeiro homem que tinha sido crucificado com Jesus e depois quebraram as pernas do outro. 33Mas, quando chegaram perto de Jesus, viram que ele já estava morto e não quebraram as suas pernas. 34Porém um dos soldados furou o lado de Jesus com uma lança. No mesmo instante saiu sangue e água. 

35Quem viu isso contou o que aconteceu para que vocês também creiam. O que ele disse é verdade, e ele sabe que fala a verdade. 36Isso aconteceu para que se cumprisse o que as Escrituras Sagradas dizem: “Nenhum dos seus ossos será quebrado.” 37E em outro lugar as Escrituras Sagradas dizem: “Eles olharão para aquele a quem atravessaram com a lança.”


1 – O que diz o texto?
A crucifixão não foi um ato isolado, mas o cume de uma vida comprometida. Não agrada ao Pai a Cruz pelo que tem de sofrimento, mas porque supõe uma vida que se entrega até esse extremo.

Contemplar a paixão e morte de Jesus em toda sua crueza, me leva a mergulhar na condição humana, a descobrir dimensões de minha  própria humanidade que, nesta cultura mentirosa, são mutiladas e reprimidas de tal maneira que me torna incapaz de ser portadora de Boa Notícia.

Junto à Cruz sou levada a crer que aliviar o sofrimento neste mundo não é uma questão puramente  analgésica, quando, na realidade, o que se trata é da implicação compassiva nesse território tão humano e tão divino no qual as razões, doutrinas e morais fracassam: a “loucura” de um Deus Comunidade implicado no sofrimento de suas criaturas.



2 – O que o texto diz para mim?
O teólogo e mártir Bonheoeffer  afirma: “Em Jesus crucificado se rompem todas as ideias sobre Deus que as pessoas construíram através da história. Nele aparece a debilidade e o sofrimento de Deus. Só um Deus que sofre pode ajudar-nos”. É a partir da Cruz onde Deus me diz que o mais divino que há em mim é a luta solidária por fazer um mundo mais justo e mais humano. Minha missão será a de fazer descer da Cruz os crucificados da história, me unir aos milhões de pessoas indignadas que se manifestam a favor de uma sociedade mais justa e menos desigual.

A Cruz não é um adorno, nem um objeto de culto, nem um amuleto. É um sinal; e, como todo sinal, indica algo: até onde pode chegar a brutalidade humana, quando os interesses, as ideias políticas ou religiosas, as leis... são colocados acima do ser humano. 

E indica algo mais: até onde chega o amor e a generosidade de Jesus, que não duvidou em sua entrega; até onde chega o amor do Pai que em Jesus se fez visível.



3 – O que a Palavra me leva  a experimentar?
Em Getsêmani, quando todos o abandonaram e fugiram, o Compassivo permanece em radical solidão, ninguém se interessa mais por Ele; esta solidão vital lhe provoca uma angústia de morte, o sacode e o aflige, levando-o à prostração. No Gólgota, Jesus experimenta, junto ao abandono, o fracasso, tudo se dilui, o mundo lhe cai em cima.

Adentrar-me  em meu próprio Getsêmani e Gólgota é abordar minha radical solidão. Mesmo que produza vertigem e me enche de angústia, é preciso olhar o túnel de frente e entrar nele. 

Então, invoco Àquele que me  pode sustentar e sair do túnel com uma solidão habitada, com o sentimento de uma presença, com a vida enraizada no único que é fonte de vida e liberdade. Começo a ver tudo com olhos novos, o sofrimento e a angústia transformam-se em Vida.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor  Deus, sei “ler” este sinal, quando escuto Jesus que me  diz: “Ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida por seus amigos”. Não posso tirar nenhum espinho da coroa de Jesus, nem diminuir as  chicotadas nas suas costas, a humilhação e a dor de sua tortura. O que posso hoje fazer é tomar posição solidária ao lado dos excluídos, humilhados e desgraçados desse mundo, como Ele fez; minha  primeira responsabilidade é aliviar o sofrimento do outro, lutar contra o sofrimento provocado pela injustiça sobre os mais pobres e excluídos. 


5 – O que a Palavra me leva  a viver?
O mistério da Cruz me desvela (tira o véu) e revela que toda entrega generosa, que a prepotência esmaga com a morte, não acaba em morte, mas em vida, e em vida que não termina. Posso, então, fazer dois tipos de Via Sacra: uma, fixando-me  em Jesus, porque assim me aproximo da fonte do Evangelho; outra, fixando-me nas brutalidades, violências, sofrimentos do nosso povo para ativar em mim uma generosidade ainda tímida. E, então, é quando começo a compreender o Evangelho.

Com os olhos fixos no Crucificado vou aceitando com maior cordialidade e gratuidade que sou “faíscas da criação”, que me cabe redimir a parcela da criação que me foi encomendada e que a compaixão solidária é tecida com muita humildade, sem prepotência; ao mesmo tempo vou descobrindo que a vida começa a emergir ali onde o mundo só vê fracasso e morte, e que orar a partir de minhas fragilidades me põe no caminho para experimentar o dom da Páscoa.

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – João 19, 31-37
           Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
           Desenho: Osmar Koxne        


Leitura Orante  - Quinta-feira Santa,  02 de abril de 2015

LAVA-PÉS: passagem de “ser servido” para “ser servidor” 

“Se eu, o Senhor e mestre, vos lavei os pés, 
também deveis lavar-vos os pés uns dos outros” 

Texto Bíblico: João 13,1-15 

Jesus lava os pés dos discípulos 

1Faltava somente um dia para a Festa da Páscoa. Jesus sabia que tinha chegado a hora de deixar este mundo e ir para o Pai. Ele sempre havia amado os seus que estavam neste mundo e os amou até o fim. 

2Jesus e os seus discípulos estavam jantando. O Diabo já havia posto na cabeça de Judas, filho de Simão Iscariotes, a idéia de trair Jesus. 3Jesus sabia que o Pai lhe tinha dado todo o poder. E sabia também que tinha vindo de Deus e ia para Deus. 4Então se levantou, tirou a sua capa, pegou uma toalha e amarrou na cintura. 5Em seguida pôs água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha. 6Quando chegou perto de Simão Pedro, este lhe perguntou: 

— Vai lavar os meus pés, Senhor? 

7Jesus respondeu: 

— Agora você não entende o que estou fazendo, porém mais tarde vai entender! 

8— O senhor nunca lavará os meus pés! — disse Pedro. 

— Se eu não lavar, você não será mais meu discípulo! — respondeu Jesus. 

9— Então, Senhor, não lave somente os meus pés; lave também as minhas mãos e a minha cabeça! — pediu Simão Pedro. 

10Aí Jesus disse: 

— Quem já tomou banho está completamente limpo e precisa lavar somente os pés. Vocês todos estão limpos, isto é, todos menos um. 

11Jesus sabia quem era o traidor. Foi por isso que disse: “Todos menos um.” 

12Depois de lavar os pés dos seus discípulos, Jesus vestiu de novo a capa, sentou-se outra vez à mesa e perguntou: 

— Vocês entenderam o que eu fiz? 13Vocês me chamam de “Mestre” e de “Senhor” e têm razão, pois eu sou mesmo.


1 – O que diz o texto?
O texto joanino me diz que Jesus realizou o “lava-pés” durante a ceia. Todas as refeições tinham o “lava-mãos”. Algumas ceias especiais tinham o “lava-pés” no início como sinal de acolhida e de hospitalidade.

Jesus “levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a à cintura”.

“Levantou-se da mesa”: este gesto de Jesus assume um significado especial. Revela-me  que não se pode servir permanecendo em meu  comodismo. O gesto de levantar denota que há algo por ser feito. 

“Ficar de pé”  é posição que expressa prontidão para servir; para isso é preciso deslocar-se do próprio “lugar” e descer  até o “lugar” do outro. É desinstalar-se do próprio bem estar, é dinamismo.

Jesus não faz um gesto teatral; Ele revela aos apóstolos um “novo ângulo”  ou um novo modo de ver as coisas: não a partir do lugar dos comensais, mas a partir da perspectiva de quem não está sentado à mesa.

O gesto de Jesus me convida a deslocar me, ou seja, ocupar o lugar da pessoa que não participa da mesa. 

“Estar à mesa” é sempre sinal de fraternidade, de comunhão, mas é necessário saber levantar-se na hora certa para poder servir com amor.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus sente que sua “hora” se aproxima, reúne os seus discípulos e manifesta-lhes o último desejo com um gesto que marcará para sempre a história da humanidade: o “lava-pés”.

“Tirou o manto”: Ele mesmo se despoja. Abrir mão do manto é uma iniciativa livre e soberana, que nasce de seu próprio interior. O manto impede a liberdade de movimentos, não permite fazer o serviço com facilidade. Há “mantos” que são sinais de poder.

O Senhor assume, em tudo, a condição de servo, para servir. Troca o manto pela toalha-avental.

As autoridades religiosas vestiam-se do distintivo  de autoridade-poder, para servir o povo. Jesus despe se dele, para servir. Ele serve verdadeiramente como servo. Os outros serviam como senhores.

É necessário arrancar “todos os mantos do poder” para poder redescobrir a verdadeira dignidade humana desnuda e despojada de todas as aparências. Não há serviço sem se despir de todas as aparências de poder, de força, de prestígio. Não é possível amar colocando-se longe do outro.


3 – O que a Palavra me leva  a experimentar?
“Coloca água numa bacia e começa a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido”. Normalmente os preparativos ficam por conta de outros; é o servo que prepara a bacia com água para que o senhor lave os pés de outro. Aqui Jesus assume os preparativos, não faz trabalho pela metade. A água derramada não é feita com violência, nem com força, mas com extrema delicadeza, com atenção e amor. Amar é tocar de perto, ajudar, caminhar juntos...; nesse gesto de elevação Jesus revela um amor “físico”, de contato corporal e de serviço, de ajuda humana e de dignidade. Ele não quis só ensinar, dar comida, mas aproximar-se, ajoelhar-se, lavar...

O gesto que Jesus faz expressa o que Ele é. Ele é inteiramente servo. Todo o seu ser está a serviço. Ele se dá naquilo que faz, e faz o que propõe aos discípulos.

Lava os pés dos discípulos. Inclina-se aos pés deles, até o chão. Com reverência, o mestre lava os pés dos discípulos: essa é a dinâmica que revela a novidade do Reino de Deus. “Lavar os pés” dos discípulos é cuidar dos que servem os servos.

Jesus sabia que seus discípulos tinham pés frágeis, pés de argila. E se os pés são, na mentalidade judaica, símbolo de infância e prazer, seus pés precisariam, sem dúvida, ser lavados de todas as suas memórias negativas. Cada discípulo era uma criança doente, e era preciso, em primeiro lugar, curar essa criança antes que ela se colocasse a caminho para anunciar o Evangelho, a Boa-Nova.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, todos os gestos do lava-pés possuem uma sacralidade própria, uma reverência, uma paz e calma especial. Não há pressa, não há agressividade, não há nada que possa dar a mínima aparência de algo que fosse obrigado. No corre-corre da vida é urgente reassumir a linguagem dos gestos que se perdem na pressa, na mania de fazer muitas coisas porque outras nos atropelam e nos distraem do essencial.


5 – O que a Palavra me leva  a viver?
“Depois que lhes lavou os pés, retomou o manto, voltou à mesa e lhes disse: ‘compreendeis o que vos fiz?’” Jesus volta ao lugar em que estava antes, mas volta diferente. 

Ele repõe o manto, mas não depõe a toalha-avental. Ele assume e visibiliza uma nova realidade que caracteriza o novo modo de ser, que é próprio dos cristãos. O amor serviço tem como primeiro símbolo o avental. O avental é o selo de autenticidade que orienta, credita e dignifica a autoridade que se faz serviço. A autoridade cristã nasce do serviço, se sustenta nele, só persevera servindo.

Jesus pede que a dinâmica iniciada por Ele tenha continuidade, seja progressiva e circular, partindo do meio para a periferia em forma de círculo a fim de atingir a todos.

O novo modo de exercer a autoridade é praticado primeiro entre todos os que participam da ceia, mas deve ser exercido sem limite de tempo ou de espaço, isto é, deve atingir toda criatura em todos os tempos até a plenitude.

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – João 13,1-15
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne        

   
 

Leitura Orante  - domingo de Ramos,  29 de março de 2015

Ramos: é possível humanizar nossas cidades?

“...encontrareis amarrado um jumentinho que nunca foi montado; 
desamarrai-o e trazei-o aqui”


Texto: Marcos 11,1-10 

Jesus entra em Jerusalém 

Quando Jesus e os discípulos estavam chegando a Jerusalém, foram até o monte das Oliveiras, que fica perto dos povoados de Betfagé e Betânia. Então Jesus enviou dois discípulos na frente, com a seguinte ordem: 

Vão até o povoado que fica ali adiante. Logo que vocês entrarem lá, encontrarão preso um jumentinho que ainda não foi montado. Desamarrem o animal e o tragam aqui. Se alguém perguntar por que vocês estão fazendo isso, digam que o Mestre precisa dele, mas o devolverá logo. 

Eles foram e acharam o jumentinho na rua, amarrado perto da porta de uma casa. Quando estavam desamarrando o animal, algumas pessoas que estavam ali perguntaram: 

— O que é que vocês estão fazendo? Por que estão desamarrando o jumentinho? 

Eles responderam como Jesus havia mandado, e então aquelas pessoas deixaram que os dois discípulos levassem o animal. Eles levaram o jumentinho a Jesus e puseram as suas capas sobre o animal. Em seguida, Jesus o montou. Muitas pessoas estenderam as suas capas no caminho, e outras espalharam no caminho ramos que tinham cortado nos campos. 

Tanto os que iam na frente como os que vinham atrás começaram a gritar: 

— Hosana a Deus! 

Que Deus abençoe aquele que vem em nome do Senhor! 

Que Deus abençoe o Reino de Davi, o nosso pai, o Reino que está vindo! 
Hosana a Deus nas alturas do céu! 

Jesus entrou em Jerusalém, foi até o Templo e olhou tudo em redor. Mas, como já era tarde, foi para o povoado de Betânia com os doze discípulos.


1 – O que diz o texto?
A  primeira coisa que o texto  me  diz é que Jesus foi um buscador de alternativas.

Ele não foi conivente e nem compactuou com a estrutura social – política - religiosa de seu tempo, que era profundamente desumanizadora. Sonhou novas possibilidades de vida e novas relações entre as pessoas. Por isso, ao anunciar o Reino, transgrediu a situação vigente e, a partir das periferias, foi despertando uma alentadora esperança nos corações dos mais pobres e excluídos, vítimas de um mundo fechado. 

Com sua entrada em Jerusalém, Jesus quis recuperar a cidade como lugar do encontro e da comunhão, como espaço da paz e da solidariedade... desalojando aqueles que se fechavam a qualquer tentativa de mudança. Por isso, seu gesto provocativo e escandaloso de entrar na cidade montado num jumentinho, símbolo da simplicidade e do despojamento de qualquer pretensão de poder e força, causou violenta reação naqueles que se beneficiavam da estrutura política e religiosa da cidade.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus participava do sonho de todo o povo de Israel que via em Jerusalém a cidade da promessa de paz e plenitude futura, lugar onde deviam vir em procissão todos os povos da terra. A tradição profética havia anunciado uma “subida” dos povos, que viriam a Jerusalém para iniciar um caminho de comunhão e justiça e adorar a Deus no Templo, que estaria aberto para todos. Toda a cidade se converteria num grande Templo, lugar onde se cumpre a esperança dos povos.

Jesus sobe a Jerusalém anunciando a chegada do Reino de Deus que deveria manifestar-se ali, mas de uma forma diferente: com um Templo sem culto sacrifical, aberto para todas as gentes, com uma nova estrutura humana aberta ao senhorio de Deus. 

Jesus, Filho de Davi, tinha que subir à cidade de seu antepassado Davi, não para conquistá-la militarmente e reinar, a partir dela, sobre o mundo, mas para instaurar ali outro Reinado, fundado precisamente nos pobres e expulsos dos reinos da terra. Para Jesus, Jerusalém deveria ser entendida como centro da nova humanidade messiânica, capital do Reino dos excluídos da velha história humana.


3 – O que a Palavra me leva  a experimentar?
A entrada de Jesus em Jerusalém me  revela que Ele foi transgressor e rebelde frente ao poder estabelecido, sobretudo o poder religioso que impõe suas normas de verdade e de pureza acima da vida. Jesus sabia que com isso arriscava a vida. Mas, ao pressentir seu final violento, não arredou pé, senão que fez frente ao Templo e ao Palácio. O que estava em jogo era mais que sua vida, era a Vida: era a antiga promessa de todos os profetas, era a libertação universal esperada, era a igualdade de homens e mulheres  ainda sem construir, era a erradicação de toda violência e poder, era a instauração do Reinado da justiça e da paz. Tudo isso estava em jogo, e a fé de Jesus, mansa e rebelde, foi maior que seu medo. Montou sobre um humilde jumentinho e desafiou o Império e o Templo, com suas cortes e legiões e todas as suas inumanas ordens sagradas.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor Deus, Jesus entra em Jerusalém rodeado do povo, das pessoas simples. Este povo escravo e oprimido o aclama porque vêem  n’Ele uma luz de esperança, de vida, de libertação. Escutaram suas palavras e viram seus feitos durante alguns anos. Escutaram palavras de vida, de justiça, de amor, de misericórdia, de paz...

Viram seus gestos de cura dos enfermos, de defesa dos fracos, de dar alimento aos famintos, de reabilitar os desprezados, de acolher os marginalizados, de enfrentamento dos opressores... 

Jesus quer continuar anunciando e realizando na cidade de Jerusalém aquilo que fizera na região excluída da Galiléia; quer também humanizar esta cidade para que ela seja sol de justiça e paz para todos os povos.

Eu sou convidada a continuar a percorrer o caminho que Jesus abriu, preciso ser também buscadora de alternativas. Vivo  em uma sociedade na qual parece que já não é possível outra economia nem outra política, que temos de nos resignar com o que é imposto, que não há alternativas, que só são possíveis pequenos retoques no sistema sócio-econômico que nos rodeia.

Obrigada Deus por ter enviado o seu Filho que tanto me ensina com sua simplicidade e despojamento.


5 – O que a Palavra me leva  a viver?
Como discípula, missionária e seguidora  do Nazareno, creio  firmemente que é possível um mundo diferente, uma cidade diferente, uma sociedade diferente onde a fraternidade, a igualdade e a verdadeira democracia se façam realidade. Um mundo, em definitiva, em que se respeitem os direitos de todas as pessoas e os direitos da mãe Terra, onde o compartilhar seja o mais normal e natural.

“A fé nos ensina que Deus vive na cidade, em meio a suas alegrias, desejos e esperanças, como também em meio a suas dores e sofrimentos. As sombras que marcam o cotidiano das cidades, como exemplo a violência, pobreza, individualismo e exclusão, não nos podem impedir que busquemos e contemplemos o Deus da vida também nos ambientes urbanos. As cidades são lugares de liberdade e oportunidade. Nas cidades é possível experimentar vínculos de fraternidade, solidariedade e universalidade. Nelas, o ser humano é constantemente chamado a caminhar sempre mais ao encontro do outro, conviver com o diferente, aceitá-lo e ser aceito por ele” (Doc. Aparecida, n.514).

Fonte: Bíblia na linguagem de hoje – Marcos
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne        


Leitura Orante  - Quinto domingo da quaresma,  22 de março de 2015

Perdas e ganhos: da vida menor à Vida maior

“Se o grão de trigo que cai na terra não morre, permanecerá só; mas, se morre, produz muito fruto”.


Texto: Jo 12,20-33

Havia alguns gregos entre os que tinham subido a Jerusalém para adorar durante a festa. Eles se aproximaram de Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e disseram: “Senhor, queremos ver Jesus”. Filipe conversou com André, e os dois foram falar com Jesus. Jesus respondeu-lhes: “Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado. Em verdade, em verdade, vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas, se morre, produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem não faz conta de sua vida neste mundo, há de guardá-la para a vida eterna. Se alguém quer me servir, siga-me, e onde eu estiver, estará também aquele que me serve. Se alguém me serve, meu Pai o honrará. Sinto agora grande angústia. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora’? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, glorifica o teu nome!”. Veio, então, uma voz do céu: “Eu já o glorifiquei, e o glorificarei de novo”. A multidão que ali estava e ouviu, dizia que tinha sido um trovão. Outros afirmavam: “Foi um anjo que falou com ele”. Jesus respondeu: “Esta voz que ouvistes não foi por causa de mim, mas por vossa causa. É agora o julgamento deste mundo. Agora o chefe deste mundo vai ser expulso, e quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim”. Ele falava assim para indicar de que morte iria morrer.


1 – O que diz o texto?

Esta ideia de “morrer para produzir fruto” é original em João. Sei que o grão de trigo morre no acidental  e revela o essencial: na semente há vida, mas está latente, esperando a oportunidade de expandir-se.

Comunicar Vida foi a missão de Jesus;  por isso, sua mensagem  não implica um desprezo à vida, mas pelo contrário, só quando me  atrevo a viver intensamente, dando pleno sentido à vida, alcançarei a plenitude à qual sou chamada.

A vida não se perde quando se converte em alimento da verdadeira Vida.

A vida humana chega à sua plenitude quando transcende o puramente natural. O biológico não fica anulado pelo espiritual, mas potenciado e “plenificado”.

O grande segredo revelado no Evangelho, é que o ser humano, partindo da vida biológica aspira outra realidade que chamamos Vida. Esta é a verdadeira meta do ser humano.

O sentido dessa Vida com maiúscula está em destravar todas as ricas possibilidades de plenitude que pulsam por expressar-se e que se encontram no mais profundo de minha interioridade.

Se eu investir todas as minhas energias na vida minúscula (apegos, medos, resistências...) jamais descobrirei a Vida maior. Aquele que se empenha a todo custo em salvar a sua  vida menor, terminará perdendo-a. Mas dará pleno sentido a esta vida se descobre e ativa outro nível mais profundo,  encontrar a verdadeira Vida.

Estamos aqui para pôr Vida onde só há vida.


2 – O que o texto diz para mim?

Diz que as  perdas e mortes  trazem mudanças para a vida em suas raízes: o que antes era o centro de minha vida (uma pessoa, uma posição, um trabalho, um estilo de vida...) já não existe;  minha  vida já não voltará a ser a mesma, pois o que antes me dava identidade, sentido e direção, conforto e apoio, desaparece.

A função das perdas e das mortes é libertar-me para avançar para o futuro, não me deixar determinar pelo  passado. Então elas, uma vez aceitas e acolhidas, se convertem em um dom precioso. Já não sou a mesma de antes, mas posso me converter em uma pessoa completamente nova. Estou na disposição de aprender precisamente quando não tenho nada, quando parece que não me sobra mais nada. Existe  no mais profundo de mim mesma algo que ninguém pode tirar e que é impossível perder: dons em abundância nunca descobertos nem tocados antes, um desejo que está esperando que lhe abro a porta, uma inspiração pronta a se tornar realidade...


3 – O que a Palavra me leva  a experimentar?

Se quero dar fruto, ou seja, dar sentido à minha existência, tenho que me desgastar, consumindo-me. A vela só adquire sentido quando está acesa; mas se está acesa, ela se consome. A rosa, ao espalhar sua fragrância, entrega algo de si mesma; e assim está manifestando seu verdadeiro ser.

A vida é movimento e, portanto, energia expansiva. Posso consumi-la em benefício do ego (falso eu) e então vem o fracasso. Posso consumi-la em benefício dos outros e da causa do Reino, e então, consumá-la, dando-lhe plenitude. Ter apego à própria vida é destruir-se, é desprezar a própria vida. Entregar a vida por amor não é frustrá-la, mas levá-la a seu completo êxito.

Aqui há uma inversão na lógica natural das coisas; se ganha quando se perde, vive-se quando se morre, multiplica-se quando se divide.

“Morrer” e “perder” é este instante de ruptura, onde toda uma vida incubada, trabalhada no silêncio e no sofrimento, marcada de alegrias e tristezas, vitórias e fracassos, desponta luminosa para a vida eterna.

Uma vida pensada sem “mortes” e sem “perdas” acaba-se, no final, na total irresponsabilidade. E viver significa esvaziar-se do ego para deixar transparecer o que há de divino em seu interior. O grão de trigo que não morre, apodrece, e não multiplica as mil possibilidades latentes em seu interior.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?   
      
“A tragédia não é quando um ser humano morre; a tragédia é aquilo que morre dentro da pessoa enquanto ela ainda está viva” (Albert Schweiter).

Senhor, a vida é um contínuo despedir-se e partir; ela me desaloja de meus  “lugares estreitos” e me faz caminhar em direção a novos horizontes.

Alguém já afirmou que a morte é a realidade mais universal, pois todos morrem, mas nem todos sabem viver. Por isso, viver é uma arte; é necessário reinventar a vida no dia-a-dia, carregá-la de sentido.

A maior perda da vida é aquilo que “resseca” dentro de mim enquanto vivo: sonhos, criatividade, intuição. A vida é fecunda, é um turbilhão energético, é explosão de criatividade, é potencialidade.

Obrigada Senhor pelo dom da vida.


5 – O que a Palavra me leva  a viver?

Tudo  aquilo que fui desenvolvendo no centro de mim mesma (valores, a esperança, a busca, a absoluta confiança em Deus, os sonhos...) está agora em mim como o ouro escondido em uma mina, para ser extraído, contemplado e admirado e para brilhar como nova vida. Tenho em mim o material da vida ainda bruto para ser lapidado.

Com frequência, só a perda permite valorizar toda essa riqueza acumulada. Privada da segurança do passado, livres dos “afetos desordenados”, estarei livre para encontrar em minha  interioridade a força espiritual que me permite viver de um modo expansivo. A perda é, ironicamente, a ocasião da novidade, a porta aberta para outras dimensões da interioridade que ainda permanecem em estado letárgico em mim, mas nelas está pulsando a vida.

Nesse sentido, a vida tem a dimensão do milagre e até na morte e na perda anuncia o início de algo novo; ela carrega no seu interior o destino da ressurreição.

A Vida é fruto do amor, mas o egoísmo é a casca que impede germinar essa vida, mesmo que esteja aí  dentro de mim. Amar é romper a casca e doar se totalmente, desfazendo-me, consumindo-me.

A morte do falso eu é a condição para que a verdadeira Vida se liberte. É preciso passar pela morte do que é terreno, caduco, transitório (paixões, apegos desordenados...) para deixar emergir a vida interior, a vida divina, a vida de Deus em mim.

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – João
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne        


Leitura Orante  - Quarto domingo da quaresma,  15 de março de 2015

Quaresma: “contemplar novos e estranhos mundos”

“...porque Deus amou tanto o mundo...” (Jo 3,16)

Jo 3,14-21

1 – O que diz o texto?

 “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também será levantado o Filho do Homem, a fim de que todo o que nele crer tenha vida eterna”. De fato, Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem crê nele não será condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus. Ora, o julgamento consiste nisto: a luz veio ao mundo, mas as pessoas amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Pois todo o que pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas. Mas quem pratica a verdade se aproxima da luz, para que suas ações sejam manifestadas, já que são praticadas em Deus.


2 – O que o texto diz para mim?

Esta afirmação faz parte do núcleo essencial da fé cristã. Deus ama o mundo, e o ama tal como é: inacabado e imperfeito, cheio de conflitos e contradições, capaz do melhor e do pior... Este mundo não percorre seu caminho sozinho, perdido e desamparado. Deus o envolve com seu amor de ternura. 

Isto tem consequências de máxima importância. O mundo inteiro transforma-se em objeto do meu interesse e da minha preocupação.

Se há um “hábito do coração” que poderia ser ativado nesta Quaresma é este: a “leitura orante da realidade do mundo”. Este “hábito do coração” tem suas raízes no relato evangélico de hoje, onde Jesus me convoca a olhar o mundo como Deus olha: com amor e compaixão.

Assim como a Salvação do mundo foi determinada a partir de um “olhar” que saiu do coração de Deus, que pousou sobre o mundo e que voltou ao seu coração, estremecendo-O de compaixão e movendo-O à ação, assim também a minha  presença no mundo tem de ter sua origem num olhar misericordioso e compassivo, amoroso e esperançoso...


3 – O que a Palavra me leva  a experimentar?

Inspirada na afirmação de Jesus, contemplar  com o olhar do Deus compassivo esse mundo fragmentado, cheio de conflitos que geram sofrimento, exclusão, morte... E esses espaços e fronteiras são cada vez mais extensos e problemáticos; mas, nas profundezas de todos esses “mundos que me são estranhos” se revela a presença amorosa do Pai. Pois tudo foi alcançado e redimido pelo amor expansivo de Deus.

A Quaresma me  conduz à contemplação da realidade na qual vivo e à qual sou enviada apostolicamente; tal exercício me possibilita ter presente, como uma visão de conjunto, as grandes questões sociais e eclesiais que desafiam hoje os cristãos, enquanto seguidores de Jesus e comprometidos com a fé e a justiça, em diálogo com a cultura e com as tradições religiosas.

Esta contemplação da realidade (“ver o mundo”) me ajuda aproximar e a conhecer mais profundamente o mundo no qual estou imersa. Nesse sentido, contemplar o mundo a partir de Deus é  um convite desafiador.

As grandes fronteiras do mundo (globalização, diferentes culturas, ciência e tecnologia, ecologia, bioética, migrações...) vão adquirindo cada dia proporções novas e surpreendentes; elas constituem os grandes desafios que pedem de mim, seguidora  de Jesus, uma presença inspiradora e samaritana.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?

Esta é a atitude contemplativa: ver Deus no mundo e o mundo em Deus.
Senhor, neste momento em que tudo parece confuso, incerto e desalentador, nada me impede introduzir um pouco de amor, de compaixão, de sensibilidade e justiça, no mundo. É o que fez Jesus. Sua presença nas periferias da pobreza e exclusão deixou transparecer o rosto humano e compassivo do Pai.

O mistério Pascal me convida a “olhar” essa terra cotidiana, essa humanidade, fragilidade, paixões, sentimentos, fracassos, imperfeições... Senhor, acredito que se encontra misturado com tal realidade, salvando-a.

Nesta contemplação vai se purificando minha imaginação e o  mundo afetivo para poder seguir a Jesus em um serviço como o seu, no lugar mesmo onde Ele se fez presente para fazer Redenção.

A espiritualidade quaresmal me convida à missão apostólica, desvelando os aspectos criativos e esperançosos da realidade, denunciando as forças que desagregam ou excluem, propondo novos modos de viver o compromisso eclesial e social..., enfim, impulsionando a ser agente de transformação e atuante no âmbito público.

Isso demanda lucidez, conhecimento rigoroso e sapiencial da realidade; para isso é preciso deixar-me  afetar pela realidade (compaixão), incorporar uma leitura compassiva e entrar no fluxo da graça expansiva de Deus, que tudo redime.


5 – O que a Palavra me leva  a viver?

Ter uma atitude de compaixão: não de confrontação ou enfrentamento, mas movidos pelo desejo de compreender as entranhas do mundo no qual vivo. Não se trata de fazer um juízo moral sobre ele, nem para aprová-lo nem para condená-lo. Assumir uma atitude crítica valorizando o que nele há de potencialidades abertas e emergentes, bem como detectando suas limitações, desvios... Ao mesmo tempo querer me deixar interpelar por ele, fazendo com que ressoem em mim suas perguntas e suas inquietações, suas luzes e suas sombras, suas riquezas, seus paradoxos e suas contradições. 

Olhar o mundo como “sacramento de Deus”. Um olhar capaz de descobrir os sinais de esperança que existem no mundo; um olhar afetivo, marcado pela ternura, pela compaixão e por isso gerador de misericórdia; um olhar que compromete solidariamente.

Esse tempo quaresmal me  sensibiliza e me  capacita para me  aproximar desse  mundo com uma visão mais contemplativa. O “subir” até Deus passa pelo “descer” até às profundezas da humanidade.

Fonte: Bíblia na linguagem de hoje – João
           Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
           Desenho: Osmar Koxne
             

Leitura Orante  - Terceiro domingo da quaresma,  08 de março de 2015

Jesus foi um buscador de alternativas

“Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do templo” (Jo 2,15)

Jo 2,13-25

1 – O que diz o texto?

Estava próxima a Páscoa dos judeus; Jesus, então, subiu a Jerusalém. No templo, encontrou os que vendiam bois, ovelhas e pombas, e os cambistas nas suas bancas. Então fez um chicote com cordas e a todos expulsou do templo, juntamente com os bois e as ovelhas; jogou no chão o dinheiro dos cambistas e derrubou suas bancas, e aos vendedores de pombas disse: “Tirai daqui essas coisas. Não façais da casa de meu Pai um mercado!”. Os discípulos se recordaram do que está na Escritura: “O zelo por tua casa me há de devorar.” Então os judeus perguntaram a Jesus: “Que sinal nos mostras para agires assim?”. Jesus respondeu: “Destruí este templo, e em três dias eu o reerguerei”. Os judeus, então, disseram: “Trabalharam durante quarenta e seis anos para erguer este templo, e tu serias capaz de erguê-lo em três dias?”. Ora, ele falava isso a respeito do templo que é seu corpo. Depois que Jesus fora reerguido dos mortos, os discípulos se recordaram de que ele tinha dito isso, e creram na Escritura e na palavra que Jesus falou. Estando em Jerusalém, na festa da Páscoa, muitos creram no seu nome, vendo os sinais que realizava. Jesus, no entanto, não lhes dava crédito, porque conhecia a todos e não precisava de ser informado a respeito do ser humano. Ele bem sabia o que havia dentro do homem.

2 – O que o texto diz para mim?

Segundo o relato do evangelho de João, na sua primeira subida ao Templo, Jesus, com seu gesto ousado, rompe esse mundo religioso fechado, introduzindo uma novidade; com uma audácia desconhecida surpreende a todos, abrindo um novo caminho entre nós para humanizar a religião. O mundo querido por Deus vai mais além da tirania do Império e mais além do estabelecido pela religião do Templo.
Atacar o Templo era atacar o coração do povo judeu: o centro de sua vida religiosa, social e econômica. O templo era intocável. Ali habitava o Deus de Israel. Jesus, no entanto, se sente um estranho naquele lugar:  aquele templo não é a casa de seu Pai nem é o espaço da acolhida dos marginalizados, mas um mercado.
O Pai dos pobres não pode reinar a partir deste templo. Com seu gesto profético, Jesus está denunciando, na raiz, um sistema religioso, político e econômico que se esquece dos últimos, os preferidos de Deus.

3 – O que a Palavra me leva  a experimentar?

Jesus era visto como um forasteiro perigoso e um subversivo que entrou em conflito com a religião oficial (Templo e Lei). Viveu e pregou na Galiléia: era o melhor lugar para anunciar sua mensagem e seu projeto, região de pobres, ignorantes e impuros. Com eles Jesus assumiu uma “conduta desviada”.
Seu conflito com o Templo o levou à ação mais violenta. Com seu gesto Jesus reprova os profissionais da religião que se servem do Templo para justificar as maiores violências. Mas Jesus não fez isso para “purificar” ou “restaurar” uma religião muito primitiva e substituí-la por um culto mais digno e ritos menos sangrentos; seu gesto transgressor tem um conteúdo mais radical: a destruição de tudo o que o Templo significa, pois Deus não pode ser conivente com uma religião tecida de interesses e egoísmos. Jesus não pode ver ali a “nova família de Deus” que começou a formar com seus seguidores.

4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?

Senhor, sou seguidora de Jesus. Jesus transgrediu a norma da “boa sociedade”, mergulhou no submundo da exclusão, da miséria... Jesus, o transgressor messiânico, superou e quebrou as barreiras anteriores não para criar outras, senão para abrir um espaço e caminho de vida que pode ser universal. 
Ele quis que os seus seguidores assumissem e deslanchassem um caminho de autonomia criadora sobre o mundo. Dê-me forças Senhor, para abraçar esse seu projeto de vida.
Jesus se encontrava com o senhor não no espaço sagrado do Templo, nem no tempo sagrado do culto     religioso, mas no espaço “profano” da convivência com as pessoas. A partir de sua religiosidade Jesus foi descobrindo um Deus não distante nem cruel, mas próximo, misericordioso, a quem chamava “Abba”. E começou a anunciar que Deus queria para os seus filhos e filhas uma dignidade, uma felicidade, uma humanidade e relações de amor que as levariam a uma sociedade igualitária, fraterna, justa...

5 – O que a Palavra me leva  a viver?

O projeto de Jesus é radicalmente diferente do projeto da religião. Na realidade, Jesus não estava preocupado em fundar uma nova religião. Nem os primeiros cristãos consideravam o seguimento de Jesus como uma religião, mas como um “caminho” (eram conhecidos como seguidores do “caminho”), um projeto de vida, um modo de viver. Para uns eram considerados uma “seita”, para outros, como “ateus”.

Literalmente falando, podemos dizer que Jesus não “fundou” uma religião, mas Ele é o fundamento da religião cristã. O que, com certeza, se pode afirmar é que deslocou a religião: tirou-a do “espaço sagrado” e a colocou “na vida”, nas relações amorosas de uns para com os outros, no espírito de serviço compassivo para com os mais sofredores.  Por isso, a única vez que o NT utiliza a palavra “religião” é para dizer que ela consiste em “cuidar dos órfãos e viúvas em suas necessidades e em não se deixar contaminar pelo mundo” (Tg. 1,27).

O NT exorta os cristãos a pôr em prática o ato central da religião, o      “sacrifício”, afirma que os sacrifícios que “agradam a Deus” são a “solidariedade e fazer o bem” (Heb13,16). O NT desloca a religião, do “sagrado” ao “cotidiano”, dos ritos às relações entre as pessoas.
Jesus nasceu e viveu numa sociedade religiosa. Seguramente foi educado na religião de seu contexto. Mas em seu processo pessoal foi questionando uma religião que oprimia as pessoas e não as fazia felizes, e que, além disso, justificava a opressão de umas classes sociais (sacerdotes, grupos próximos ao Templo, ricos, fazendeiros, poderosos politicamente...) sobre outras (pobres, mendigos, camponeses empobrecidos, excluídos sociais, enfermos, viúvas, escravos...).

A religião daqueles que seguem a Jesus deve estar sempre a serviço do Reino de Deus e sua justiça.

Fonte: Bíblia na linguagem de hoje – João
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne
             



Leitura Orante  - Segundo domingo da quaresma,  01 de março de 2015

Transfigurar a capacidade de escutar

“E uma voz, que saiu da nuvem, disse: ‘Este é o meu Filho amado; escutai o que Ele diz’” (Mc 9,7)

Mc  9,2-10

1 – O que diz o texto?

Seis dias depois, Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João e os fez subir a um lugar retirado,
no alto de uma montanha, a sós. Lá, ele foi transfigurado diante deles. Sua roupa ficou muito brilhante, tão branca como nenhuma lavadeira na terra conseguiria torná-la assim.

Apareceram-lhes Elias e Moisés, conversando com Jesus. Pedro então tomou a palavra e disse a Jesus: “Rabi, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Na realidade, não sabia o que devia falar, pois eles estavam tomados de medo. Desceu, então, uma nuvem, cobrindo-os com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o!”. E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém: só Jesus estava com eles. Ao descerem da montanha, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem ressuscitasse dos mortos. Eles ficaram pensando nesta palavra e discutiam entre si o que significaria esse “ressuscitar dos mortos”.


2 – O que o texto diz para mim?

“Deus é a Palavra suprema e o Silêncio infinito”.

O centro do relato da “transfiguração de Jesus” é ocupado pela Voz que vem de uma estranha nuvem, símbolo que a Bíblia usa para me falar da presença sempre misteriosa de Deus que se manifesta  e, ao mesmo tempo, se oculta. A Voz diz estas palavras: “Este é o meu Filho amado; escutai-o”.

A escuta estabelece a verdadeira relação entre os seguidores e Jesus.

O apelo à escuta me interpela com força; é um apelo que brota da minha  própria vida, como abertura à profundidade de uma existência com sentido e horizonte; trata-se de um chamado a escutar uma palavra nova e original e que me abre a uma dimensão transcendente, sempre apaixonante, de uma relação pessoal com o Criador e com os outros.
Tudo é palavra e silêncio. Tudo no universo vibra, emite, transmite, fala, vive.

E ao mesmo tempo tudo é escuta e percepção.
  
  
3 – O que a Palavra me leva  a experimentar?

Subindo ao Tabor interior, também eu sou transfigurada. Através desta experiência os meus olhos e ouvidos do coração se abrem, e posso aí  contemplar a realidade tal como Deus a contempla.

Esta experiência igualmente me capacita para alcançar também uma percepção diferente das outras pessoas; não julgar mais as pessoas pelas suas aparências externas, mas ver com mais profundidade, no coração, como se eu estivesse aprendendo a “ver” com os olhos de Deus; da mesma forma, estarei mais sensibilizada para escutar os outros com mais atenção, deixando ressoar em meu interior as vozes que me chegam das margens. 

Continuar descobrindo que olhar para o mundo e escutar seus clamores é e será sempre um desafio e uma tarefa contínua que vai mais além de uma experiência isolada de encontro divino-humano sobre o alto da montanha.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?

Senhor, desde o meu  nascimento, começo a viver uma relação com o meio ambiente que implica uma escuta e uma resposta. E assim minha personalidade humana e espiritual vai se definindo.

No contexto atual, a atitude de escuta me é um grande desafio. A inimiga número um da escuta é a pressa e a ansiedade que ela costuma trazer consigo. O ritmo da vida não me permite “lê-la” com claridade, com a entonação que ela exige e merece. Creio ter uma riqueza interior que quer proclamar, mas prefere escutar, e ao falar não articula bem a mensagem, desconhece que a riqueza interior se desperta primordialmente na escuta.

Preciso destravar minha capacidade de escuta interior, para acolher e discernir as diferentes vozes que ali se fazem presentes. Sem interioridade e sem escuta do próprio coração,  é impossível ser humana.

A Transfiguração me fala da verdade que carrego dentro de mim, mas também de novos olhos e ouvidos abertos para entrar em sintonia com esta realidade interior.

Sem escuta profunda a vida se desumaniza e o ser humano se automatiza egoísticamente.
A escuta é o caminho da originalidade, é a condição para não se viver na inércia.

A verdadeira sabedoria nasce não do que está acumulado na memória, mas de uma transparente escuta no momento presente, essa simples acolhida que torna sábios os pobres, sensíveis ao sopro de Deus, este Deus sempre livre, sempre presente, desconcertante.


5 – O que a Palavra me leva  a viver?

Ser uma educadora na escuta interior, estar  sensibilizada para a escuta da realidade. Permitir que cada realidade me fale a sua própria linguagem. Isso é ter ouvidos para a escuta.

Aqui não se trata de ser puramente receptiva a algumas idéias, escutar determinadas palavras, senão de escutar com o ouvido do coração, de procurar captar a vida que pulsa no coração do outro. E isto exige uma profundidade que talvez esteja faltando, quando estou me movendo na superficialidade da vida.

Além disso, saber escutar o outro é uma simples, mas profunda acolhida humana. Saber escutar é acolher o outro. Há muita carência dessa capacidade na sociedade globalizada, individualizada e, sobretudo informatizada ou tecnologizada. Estou rodeada  de aparelhos e não de pessoas; tudo são ruídos e voz e rio crônico. Todo o mundo quer falar, expressar-se. Mas falta o interlocutor que escuta sabiamente.

O Evangelho quer me colocar no caminho de uma verdadeira humanização; daí a insistência em ter uma atitude aberta e acolhedora de escuta.

Fonte: Bíblia na linguagem de hoje – Marcos
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho

            Desenho: Osmar Koxne
             

Leitura Orante  - Primeiro domingo da quaresma,  22 de fevereiro de 2015

Quaresma: integração dos “animais” e “anjos” inferiores

“Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam” (Mc 1,13)

Mc  1,12-15

1 – O que diz o texto?
Logo depois, o Espírito o fez sair para o deserto. Lá, durante quarenta dias, foi posto à prova por Satanás. E ele convivia com as feras, e os anjos o serviam. Depois que João foi preso, Jesus veio para a Galiléia, proclamando a Boa-Nova de Deus: “Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede na Boa-Nova”.
                    
2 – O que o texto diz para mim?
A afirmação ousada do Evangelho de hoje, onde Jesus no deserto “vivia entre animais selvagens e os anjos o serviam”, pode servir de ocasião para me  ajudar a “desvelar” (tirar o véu) da minha  interioridade e deixar emergir os “animais” e os “anjos” que aí  habitam.
Jesus, radicalmente humano, tem consciência dos diferentes animais e anjos presentes em seu interior.

Sabe conviver com eles e integrá-los ao seu processo humanizador. As tentações não significam uma “luta desgastante” que atrofia seu interior. Ele se deixa conduzir pelo Espírito, e os anjos o alimentam.

Sei que tudo o que  é reprimido fará falta à minha vida. Os “animais selvagens” tem muita força. Quando os prendo, gera um desgaste muito grande e fica me faltando a sua força, de que tenho necessidade no  caminhar  para Deus, para mim  mesma  e para os outros. Sou obrigada a fugir de mim mesma, fico com medo de olhar para dentro de mim, pois poderia correr o risco de me deparar com eles. Quanto mais os amarro, tanto mais perigosos eles se tornam; eles me atacam por dentro, tirando a disposição, o ânimo de viver.

O crescimento espiritual implica abraçar toda a minha  verdade, os “animais selvagens” e os “anjos”.  

3 – O que a Palavra me leva  a experimentar?
Meu interior é morada de animais selvagens e de anjos. Todos eles tem sua importância na minha vida.

Segundo o relato da Criação, o ser humano vem da argila, do húmus... Por isso ele carrega em si os mesmos elementos físico químicos da natureza: minerais, plantas, animais...

O ser humano não está acima ou abaixo das outras criaturas; ele é “um” com elas e é chamado a cuidar delas. Sua vocação primeira é a de ser jardineiro.

Cada ser humano carrega latente em seu íntimo toda a sabedoria do universo. O poeta americano Walt Whitman nos legou uma frase maravilhosa e emblemática sobre este tema: "Eu sou contraditório, eu sou imenso. Há multidões dentro de mim".

Há multidões dentro de mim, não só de animais irracionais como também de homens e mulheres de todas as etnias, os jardineiros da criação divina. E, embora nesta grande diversidade, sou unidade na capacidade de pacificar e de fazer conviver todas as criaturas. Sou como a “arca de Noé”, no grande Oceano da vida, carregando em seu interior todos os animais, com seus instintos selvagens e primitivos, numa harmonia e convivência, onde cada um deles tem sua importância, seu papel sagrado e revelador da identidade humana. 

A aliança de Deus com Noé implica uma aliança com todos os animais, domésticos e selvagens. E o maior desafio é, justamente, a convivência com todos os animais que carrego em meu  próprio interior. São eles que me facilitarão o acesso às minhas riquezas interiores.

4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, quando todas as energias animais são ordenadas, elas colaboram para o conhecimento pessoal, o refinamento da identidade e a busca da autenticidade, elas são fonte interior de sabedoria  e de desfrute espiritual. Então eles irão me  conduzir ao mais profundo e me  mostrar onde o tesouro está escondido.

Os “anjos” que  habitam e me  servem são os  “consolos”  que aparecem em meu  caminho, em forma de paz, de luz, de fortaleza, de amor...

As “tentações” de Jesus me  inspiram a avançar em direção à minha verdade profunda, tirando me de minha superficialidade, ou talvez da minha “zona de conforto” na qual estou  instalada, conformando me com um viver estreito e sem sentido. A integração dos “animais” e “anjos” me  fará criativa  e ousada  na missão à qual sou chamada a realizar.

5 – O que a Palavra me leva  a viver?
Como Noé, posso nomear e salvar em minha arca interior - todos os “animais” e “anjos”.
A oração visa também atingir uma relação terapêutica com a minha animalidade, num novo ambiente, numa ecologia espiritual paradisíaca e harmônica para bem viver a maravilha da vida plena e em abundância.

Diante do Deus criador, trazer os meus animais interiores e anjos à luz, deixá-los apresentar-se, serem reconhecidos e ocupar o seu lugar na ecologia espiritual. Trata-se de fazer uma aliança de Vida, entre viventes.

Os cantos e pios, urros e berros, zumbidos e silvos dos animais interiores despertam minha atenção para dimensões  esquecidas, reprimidas de minha  existência. O sussurro dos anjos me apontam para as dimensões ricas de minha  vida que ainda não foram destravadas. Basta escutar e sentir.

Pacificar os animais interiores. Trata-se de conhecê-los, aprender a linguagem deles, fazer amizade com eles para que eles não me destruam por dentro.

Resgatar os meus animais interiores do dilúvio do inconsciente, é aceitar as diferenças e aprender a viver na diversidade. É fazer despertar a consciência dos meus limites físicos, emocionais, espirituais com a certeza de que caminho em direção à plenitude da Criação, para um dia vibrar com todas as criaturas do universo no espírito do amor. Com isso, a luz e a fortaleza angelical se expandirão em meu interior e me impulsionará a uma presença harmoniosa e acolhedora nessa  realidade interior tão desafiadora.

Fonte: Bíblia na linguagem de hoje – Marcos
           Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
           Desenho: Osmar Koxne

 Leitura Orante  - Quarta-feira de Cinzas,  18 de fevereiro de 2015

Cinzas: Páscoa no horizonte


Mc  6,1-6.16-18

1 – O que diz o texto?
Cuidado! não pratiqueis vossa justiça na frente dos outros, só para serdes notados. De outra forma, não recebereis recompensa do vosso Pai que está nos céus. Por isso [...], quando deres esmola, não saiba tua mão esquerda o que faz a direita, de modo que tua esmola fique escondida. [...] Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai que está no escondido. [...] Quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os outros não vejam que estás jejuando, mas somente teu Pai, que está no escondido.
E o teu Pai, que vê no escondido, te dará a recompensa.


2 – O que o texto diz para mim?
Quaresma é tempo propício para ter Jesus orante diante dos olhos, como referente e inspirador. 

A oração de Jesus o fazia mergulhar de cheio nas dores, nas exclusões e nas injustiças cotidianas, e o provocava a revisar suas práticas concretas, para cultivar vínculos mais semelhantes aos que Ele descobria como o sonho do Pai. Na oração, Jesus exalta os pequenos e excluídos; nas experiências compartilhadas de oração vai delineando sua missão e ampliando seus próprios limites, abre-se aos “pagãos”, reconhece e aceita o novo que brota das margens.

Em atitude orante, Jesus abre os olhos e ouvidos dos cegos e surdos, põe de pé os paralíticos, anima os desfalecidos a recomeçar, cura os doentes... A solidão no monte o impulsiona a compreender com mais profundidade o sentido daquilo que vive e a comprometer suas mãos com maior decisão nas vidas daqueles com quem se encontra...

3 – O que a Palavra me leva  a experimentar?
Das cinzas surgirá a maturação; as folhas caídas darão lugar ao novo broto e isto implica atrever me  a viver com mais intensidade e criatividade, fazendo a dura travessia em direção ao novo que me humaniza.

As cinzas, também, apresentam a textura e a leveza para deixar-se espalhar pelo vento, para que o “sopro do Espírito” as leve para onde quer que seja, as lance em terras novas, conferindo-lhes novas fertilidades. 

Marcada pelas cinzas, deixo me conduzir pelo Vento do Espírito para lugares onde seja necessário  a  presença,  o  testemunho, a  profecia. Quaresma  é tempo para confiar nas cinzas e no vento, para sair e criar o novo, preparar o novo mundo e fecundar a nova terra.

Algo disto também é vivido através da prática da “esmola”, que não se reduz a renunciar algo próprio, o que sobra. Implica fazer da vida uma contínua “oferta”, ou seja, uma atitude de vida atenta à realidade do outro, deixando me  sensibilizar pela sua pobreza, sofrimento e exclusão. Trata-se de viver o espírito de partilha, colocar “pitadas” de misericórdia nos gestos de proximidade; ter um olhar contemplativo que sabe ler entre linhas, estar atenta à sede de compaixão daqueles que são próximo a mim; revelar uma forma de se relacionar com as pessoas de outra maneira, mais gratuita e desinteressada; não é tirar da bolsa, mas do coração; compartilhar o que se é e o que se tem, em suma, que seja expressão de amor.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor,  para que essa prática quaresmal me faça crescer na identificação com Jesus e a viver na perspectiva do outro, ter essa atitude orante, uma vida de profunda e sincera oração e “jejuar alegremente”;  jejuar...

Jejuar de julgar os outros e festejar a nobreza escondida em cada um.

Jejuar de preconceitos que me afastam e fazer festa por aquilo que me une na vida. 

Jejuar das tristezas e celebrar a alegria. 

Jejuar de pensamentos e palavras doentias e alegrar  me com palavras carinhosas e edificantes.

Jejuar de lamentar fracassos e festejar a gratidão. 

Jejuar de ódio e festejar a paciência santificadora. 

Jejuar de pessimismos e viver a vida com otimismo como uma festa contínua. 

Jejuar de preocupações, queixas e lamentações, e festejar a esperança e o cuidado providente de Deus. 

Jejuar de pressas e ativismos e saber festejar o repouso reparador...

Obrigada Senhor pela importância do silêncio na oração; ele é a chave a raiz da palavra carregada de vida; o silêncio é o território da palavra ousada e criativa; a palavra mais significativa brota de uma longa espera, de um prolongado silêncio; do silêncio brota a palavra que torna nossa vida mais intensa, abrindo-nos a Deus e aos outros; na oração aprendemos a distinguir e dar nome àquilo que vem de Deus; vamos aprendendo a escolher as cores que nos ajudam a preencher nossa vida, por dentro e por fora, com as tonalidades que melhor nos harmonizem com a paisagem que Deus quer pintar no mundo.


5 – O que a Palavra me leva  a viver?
De acordo com este tempo litúrgico, o caminho para a transformação começa simbolicamente com a “Quarta-feira de Cinzas”. Com a imposição das cinzas, reconheço a necessidade de dar outro rumo à vida, com todo o meu ser. Mudar meu coração de pedra por um coração de carne, misericordioso, com entranhas, humana. A liturgia na Igreja expressa isso mediante uma fórmula ritual: ao traçar a cruz com cinzas a fronte de cada um, proclama: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Ou seja, mude de caminho, com renovada decisão, e assuma a causa de Jesus de Nazaré: seu Reinado de justiça e de paz.

Fazer a “travessia” de uma vida estreita e limitada a uma vida expansiva, aberta e comprometida, a liturgia quaresmal me convida a viver as chamadas “práticas quaresmais” ou seja, o jejum, a esmola, a oração como atitudes que me permite  abrir e ampliar espaços em meu coração, para Deus e para os outros. São também práticas que me faz crescer na identificação e no seguimento de Jesus Cristo, pois a Quaresma implica “ter os olhos fixos n´Ele”, para deixar me  impregnar pelo seu “modo de ser e viver”, alargando cada vez mais as quatro dimensões básicas da vida: relação consigo, com os outros, com a criação e com Deus.


Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Marcos
              Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
              Desenho: Osmar Koxne

 
Leitura Orante  - domingo, 15 de fevereiro de 2015

Compaixão, ter um coração nas mãos
“Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele...” (Mc 1,41)

Mc  1,40-45


1 – O que diz o texto?
Um leproso aproximou-se de Jesus e, de joelhos, suplicava-lhe: “Se queres, tens o poder de purificar-me!”. Jesus encheu-se de compaixão, e estendendo a mão sobre ele, o tocou, dizendo: “Eu quero, fica purificado”. Imediatamente a lepra desapareceu, e ele ficou purificado. Jesus, com severidade, despediu-o e recomendou-lhe: “Não contes nada a ninguém! Mas vai mostrar-te ao sacerdote e apresenta, por tua purificação, a oferenda prescrita por Moisés. Isso lhes servirá de testemunho”. Ele, porém, assim que partiu, começou a proclamar e a divulgar muito este acontecimento, de modo que Jesus já não podia entrar, publicamente, na cidade. Ele ficava fora, em lugares desertos, mas de toda parte vinham a ele.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus está atravessando uma região solitária. Subitamente um leproso se aproxima dele. Não vem acompanhado por ninguém; vive na solidão. Carrega em sua pele a marca de sua exclusão. As leis o condenam a viver afastado de todos. É um ser impuro.

De joelhos, o leproso faz a Jesus uma súplica humilde. Sente-se sujo; não lhe fala de sua enfermidade e nem lhe pede que o limpe. Sua oração não trata de forçar a vontade de Jesus; resigna-se aceitar e acolher o que for da vontade d’Ele. Sabe que está transgredindo a lei ajoelhando-se diante de Jesus, quando devia estar longe.  Só quer ver-se limpo de todo estigma. 

Jesus sente compaixão ao ver a seus pés aquele ser humano desfigurado pela enfermidade e pelo abandono de todos. Aquele homem representa a solidão e o desespero de tantos estigmatizados. Jesus “estende sua mão” buscando o contato com sua pele, o toca e o cura. Jesus também transgride a lei tocando um leproso; mas para Ele a religião não pode ser um estorvo para curar o ser humano.


3 – O que a Palavra me leva  a experimentar?
Tocar e deixar-se tocar. Este é, talvez, um dos gestos mais característicos de Jesus e também um dos mais desafiantes e reveladores. Não é ousadia poder afirmar isso: a “pele de Deus”, a pele do Filho, está feita para tocar e deixar-se tocar, com tudo o que isso implica.

Num tempo e numa cultura onde um leve e inocente contato corporal era motivo de impureza e de afastamento do sagrado, Jesus, com sua pele, quebra esta união maléfica entre pureza-impureza, santidade-pecado, que se manifesta no epidérmico. O escândalo do toque é assumido por Jesus plena e conscientemente. Não como um capricho de simplesmente transgredir o que foi estabelecido, mas como uma proximidade, uma imersão na realidade do pecado-enfermidade que excluía tantas pessoas de qualquer interação social.

É o caso do leproso do evangelho deste domingo; tocando o pecado-impureza Jesus se faz, Ele mesmo, pecado-impureza aos olhos dos justos. Jesus é consciente de que diante da lei, também ele fica impuro e leproso. E prefere ficar legalmente leproso quando se trata de salvar a dignidade de um homem; quando se trata de recuperar a liberdade do ser humano, Jesus não se importa ser excluído pela lei.

A partir da experiência de fé posso recuperar a dimensão do tato como possibilidade de viver de forma mais humanizadora e plena. Os sentidos, e de maneira especial o tato, me faz mais humana, me  ajuda na descoberta dos outros, faz palpável o amor fraterno, me ajuda a reavivar a beleza do transcendente. A fé requer ser vivida e compartilhada de forma criativa.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, tocar ou me sentir tocada é, em determinadas circunstâncias, a linguagem mais inteligível do amor.

Descobri que tocar é algo mais que uma simples experiência física e psicológica. Tocar é sentir que uma corrente de vida passa de um para o outro.

Quando estendo os braços e toco o outro, espontaneamente descubro a compaixão e a riqueza que aí existe.  A união humana origina-se quando tocamos e somos tocados. 
Obrigada Senhor,  por me mostrar toda a força e  mistério que existe  em minhas mãos.


5 – O que a Palavra me leva  a viver?
Jesus demonstrou seu amor... “tocando”.  Ele não amava à distância, mas, a cada passo aproximava-se das pessoas, gostava de sentir-se estar entre elas.

Sou um ser que precisa ser tocada e  tocar: o aperto de mão, o abraço, as carícias..., transmitem “vida”. É a maneira de se fazer presente ao próximo, não a partir da distância, mas a partir da proximidade corporal. Quem abraça se identifica com o outro, quem o toma pela mão lhe transmite a mensagem de que não está à margem, na solidão...

Jesus conhecia a vida marginalizada dessas pessoas, e como ninguém queria ter contato com elas, Ele as tocava para curá-las e fazê-las sentir que estavam vivas. E assumia a consequência de tornar-se, também Ele, “impuro”. “Se soubésseis como a pele é profunda” (Paul Valéry).


Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Marcos
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho

            Desenho: Osmar Koxne



  

Leitura Orante  - domingo, 08 de fevereiro de 2015

Uma presença que eleva quem está prostrado
“Ele se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se”. (Mc 1,31)

Mc  1,29-39

1 – O que diz o texto?

Logo que saíram da sinagoga, foram com Tiago e João para a casa de Simão e André.  
A sogra de Simão estava de cama, com febre, e logo falaram dela a Jesus. Ele aproximou-se e, tomando-a pela mão, levantou-a; a febre a deixou, e ela se pôs a servi-los.  Ao anoitecer, depois do pôr do sol, levava a Jesus todos os doentes e os que tinham demônios. A cidade
inteira se ajuntou à porta da casa. Ele curou muitos que sofriam de diversas enfermidades;
expulsou também muitos demônios, e não lhes permitia falar, porque sabiam quem ele era. De madrugada, quando ainda estava bem escuro, Jesus se levantou e saiu rumo a um lugar deserto. Lá, ele orava. Simão e os que estavam com ele se puseram a procurá-lo. E quando o encontraram, disseram-lhe:  “Todos te procuram”. Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, nas aldeias da redondeza, a fim de que, lá também, eu proclame a Boa-Nova. Pois foi para isso que eu saí”. E foi proclamando nas sinagogas por toda a Galiléia, e expulsava os demônios.


2 – O que o texto diz para mim?

A cena da cura da sogra de Pedro faz parte da chamada “jornada de Cafarnaum” (Mc 1,21-38), como se fosse o relato de um dia típico na vida pública de Jesus: na manhã do sábado dirige-se à sinagoga onde cura um endemoniado; ao meio dia entra em casa de Pedro e cura sua sogra; ao entardecer, muitos enfermos são conduzidos até Ele; de madrugada retira-se para orar.

O texto me diz que Jesus desloca-se da sinagoga, lugar oficial da religião judaica, à casa, onde se vive a vida cotidiana, junto aos seres mais queridos. Nessa casa vai sendo gestada a nova família de Jesus. É bom recordar que as comunidades cristãs não são um lugar religioso onde se vive da Lei, mas um lar onde se aprende a viver de maneira nova em torno a Jesus.

3 – O que a Palavra me leva  a experimentar?

Este relato me dá a conhecer a nova ordem das relações que devem caracterizar o Reino no qual a vinculação fundamental é a da fraternidade no serviço mútuo.
Sua maneira de se relacionar com as pessoas prostradas e marginalizadas põe em marcha um movimento de inclusão, devolvendo a todos a dignidade perdida.

Graças a muitas pessoas que se deixaram “tomar pela mão” por Jesus, “levantar-se” e “servir”, o cristianismo primitivo foi se constituindo em pequenas comunidades domésticas, reunidas em suas casas, onde muitas mulheres assumiram funções eclesiais tanto como missionárias itinerantes como responsáveis pelas igrejas domésticas, onde presidiam a oração e a fração do pão.

Para Jesus, as mãos são para levantar o outro, ajudar o outro a colocar-se de pé, devolver ao outro a capacidade de dar direção à própria vida.

4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?

O Evangelho utiliza, com muita frequência, o verbo “levantar” para designar a intervenção de Jesus em favor daqueles que estão caídos, estendidos, prostrados no chão. É a postura da humilhação, opressão e aniquilamento, enquanto que “levantar-se”, pôr-se de pé, é símbolo da dignidade humana. O homem e a mulher vivos e postos de pé experimentam a liberdade e a partir desta posição podem agir, falar, cantar... É a postura da dignidade, autoridade, transcendência e altura luminosa.

Toda a ação de Jesus poderia resumir-se no gesto simbólico de levantar, 
endireitar e pôr de pé.

Senhor, quantas distâncias se encurtam quando se toma alguém pela mão!

Quantas suspeitas se dissipam quando se toma alguém pela mão!

Quantos medos são superados quando se toma alguém pela mão!

Obrigada Senhor, por me  convidar a deslocar e aproximar dos lugares onde estão os prostrados da vida, tomá-los pela mão e ajudá-los a levantar-se. Servir, tecer o manto da solidariedade social e eclesial a partir da cotidianidade; ser assim uma testemunha mobilizadora numa sociedade cansada de palavras e necessitada de mãos que não se cansam de fazer o bem.

5 – O que a Palavra me leva  a viver?

“Jesus se aproximou”.

É o primeiro gesto que Ele sempre faz: quebra distâncias, faz-se próximo daquela que sofre, olha de perto seu rosto e compartilha seu sofrimento. A dor vista de longe não dói em ninguém; a dor vista de longe não chega ao coração. É preciso olhar o sofrimento de perto. Aproximar-se já é começar a identificar-se com quem sofre. E quem sofre, começa a ficar curado quando sente a proximidade solidária dos ou

“Segurou-a pela mão”.

É um gesto próprio de Jesus; toca a enferma, não teme as regras de pureza que o proibem; quer que a mulher sinta sua força terapêutica. Tomar alguém pela mão é gesto cheio de ternura, sinal de carinho e proximidade, sinal de amizade e confiança; sinal de solidariedade; sinal de querer ativar o ânimo em quem sofre. É um gesto simples e cotidiano com o qual Jesus não só curou a mulher da febre senão que está nos indicando um novo modo de fazer comunidade, de ir pela vida estendendo a mão para ajudar a levantar a quem, caído no caminho da vida, espera que alguém lhe dê uma mão para pôr-se também de pé.

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Marcos
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho

            Desenho: Osmar Koxne

Leitura Orante  - domingo, 01 de fevereiro de 2015

A “autoridade” do grande Mestre
 “Ele as ensinava como quem tem autoridade, não como os escribas” (Mc 1,22)



Mc 1,21-28

1 – O que diz o texto?

Entraram em Cafarnaum. No sábado, Jesus foi à sinagoga e pôs-se a ensinar. Todos ficaram admirados com seu ensinamento, pois ele os ensinava como quem tem autoridade, não como os escribas. Entre eles na sinagoga estava um homem com um espírito impuro; ele gritava:

“Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: o Santo de Deus!”. Jesus o repreendeu: “Cala-te, sai dele!”. O espírito impuro sacudiu o homem com violência, deu um forte grito e saiu. Todos ficaram admirados e perguntavam uns aos outros: “Que é isto? Um ensinamento novo, e com autoridade: ele dá ordens até aos espíritos impuros, e eles lhe obedecem!”. E sua fama se espalhou rapidamente por toda a região da Galiléia.

2 – O que o texto diz para mim?

“Ele as ensinava como quem tem autoridade, não como os escribas”. Esta frase me remete a imaginar a forma, o jeito, a maneira como Jesus falava das coisas, como se posicionava diante dos fatos da realidade, como era a sua atitude diante da sociedade e da religião de seu tempo. Suas palavras despertavam a confiança nas pessoas, ativando esperanças e fazendo desaparecer os medos. Suas parábolas atraiam para o amor a Deus, não para a submissão cega à lei. Sua presença fazia crescer a liberdade, não a servidão; suscitava o amor à vida, não o ressentimento. 

3 – O que a Palavra me leva a experimentar?

O Mestre da Galiléia fala do que viu e experimentou. Por isso, se atreve a falar em primeira pessoa. Passou por um processo no qual foi aprendendo a “pôr nome” àquilo que ia vivendo.

Nesse percurso, foi levado a profundezas que lhe permitiam conectar com as vivências mais profundas das pessoas que, por sua vez, se sentem reconhecidas e “lidas” em seu interior.

A multidão que o  escuta  fica “assombrada” porque se sente “tocada” por aquilo que o Mestre diz: este sabe “pôr palavras” naquilo que as pessoas sentem ou intuem, embora sem ter consciência disso.
 
4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?

Graças à interiorização da mensagem de Jesus, posso, também eu, levar algo de luz e de calor a tanta gente que busca, porque se sentirá “alcançada” em seu coração. Isto requer que, seguindo o “mestre interior”, passo pela experiência, percorrendo meu próprio caminho espiritual: “falar com autoridade” implica uma desapropriação e um esvaziamento do próprio ego. Esse caminho me conduz mais e mais ao “centro”, esse centro que compartilho com todos os seres. Não sou eu quem falo, é Cristo quem fala em mim.

No fundo, estou conectada; sou como pequena ilha separada na superfície, mas compartilho a mesma terra comum no nível subterrâneo; sou como o poço que vejo igualmente separado, mas sou  portadora da mesma água que, no manancial subterrâneo, me “une” a todos.

Senhor, talvez este seja um dos desafios mais fortes no mundo contemporâneo: cristãos que falem com “autoridade”, pessoas de uma rica profundidade, capazes de apontar caminhos para que outros também “encontrem” a vida verdadeira, plena e abundante, à qual todos somos chamados. 

5 – O que a Palavra me leva  a viver?

Um mundo melhor, um mundo solidário, fraterno, amigo que deve existir, antes de tudo, dentro de mim. Ou seja, se dentro de mim existe ódio não dá para proclamar a paz; se dentro de mim existe desamor, não dá para anunciar o amor; se dentro de mim existe cobiça, não dá para anunciar o desapego; se dentro de mim existe a ambição, não dá para anunciar a humildade. 

Disciplina ao ligar Tv e acessar as redes sociais,  parar, ter tempo para si, recompor-se, fazer silêncio, interiorizar-se, contemplar, perceber a alegria da vida, das pessoas, da família, das crianças, dos animais, da simplicidade... cuidar de plantas, cultivar jardins, ler um bom livro, ouvir músicas de qualidade, meditar, orar, agradecer... estas com certeza “falarão com autoridade”; ou seja, serão farol para conduzir e apontar caminhos.

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Marcos
             Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
             Desenho: Osmar Koxne
            
  
  Leitura Orante  - domingo 25 de Janeiro de 2015

Uma voz que move
“E, passando à beira do mar da Galiléia, Jesus viu Simão, André... 
e lhes disse: ‘segui-me’... (Mc 1,16)

Mc 1,14-20

1 – O que diz o texto?
Depois que João foi preso, Jesus veio para a Galileia, proclamando a Boa-Nova de Deus:
“Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede na Boa-Nova”.
Caminhando à beira do mar da Galileia, Jesus viu Simão e o irmão deste, André, lançando as redes ao  mar, pois eram pescadores. Então disse-lhes: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. E eles, imediatamente, deixaram as redes e o seguiram. Prosseguindo um pouco adiante, viu também Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão, João, consertando as redes no barco.
Imediatamente, Jesus os chamou. E eles, deixando o pai Zebedeu no barco com os empregados, puseram-se a seguir Jesus.


2 – O que o texto diz para mim?
Ao contemplar essa cena do evangelho de hoje observo que no começo Jesus está só, enquanto que, no final, está em companhia de quatro seguidores. Jesus propõe, àqueles que chama, a entrar numa relação privilegiada com Ele. A expressão “segui-me” os convida a ficar “associados” à sua maneira de ser, de falar e de compartilhar com Ele em uma missão comum.

Agora começa o tempo do “caminho”; agora começa o tempo do “chamado”; agora começa o tempo do “seguimento”. E tudo começa pelo anúncio do grande acontecimento: posso mudar minha mente e meu modo de pensar; posso mudar meu coração e aventurar-me em uma nova vida.

Um forte apelo tem ressonância universal: “convertei-vos e crede no Evangelho”.

E tudo começa junto a um lago; tudo começa junto a umas barcas envelhecidas pela tarefa de pescar; tudo começa junto a umas redes gastas e que precisam ser remendadas a cada dia. E ali estão quatro trabalhadores: Simão, André, Tiago e João... Uma grande causa os espera: “o Reino de Deus está próximo”.

Deixai de pescar no lago estreito; a humanidade os espera; as pessoas esperam algo novo.
E tudo começa por um apelo muito simples, cujas consequências são imprevisíveis: “imediatamente deixaram as redes e o seguiram”.

A voz divina escutada no batismo – “este é meu filho amado” – invadiu a interioridade de Jesus e agora é o mesmo Espírito quem o impulsiona para a relação e a proximidade humana. Jesus se deixa levar por essa corrente de proximidade e começa a falar às pessoas, se aproxima, faz contatos, cria comunidade e busca colaboradores para que lhe ajudem a compartilhar o melhor que tem: a boa notícia do amor incondicional do Pai.

Todos teremos nossas barcas e nossas velas abertas ao vento do Espírito. Muitos, com medo, permanecerão na praia, contemplando aqueles que, com coragem, darão início à grande travessia.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Onde me situo?
Jesus é, precisamente, a presença de Deus em minha vida. Um homem entre os homens vem e me chama pelo nome;  sua presença e sua voz me arranca desse meu ambiente, dessa minha rotina... e me lança para novos desafios.

Começa a primeira aventura humana da fé; começa a primeira aventura de sonhar e construir um mundo melhor. Um novo movimento é desencadeado e algo novo surge na história.

Não sou a primeira a ser convidada; mas sou a convidada de hoje. Haverá ventos favoráveis e ventos contrários nesse meu navegar...

Tudo começa com um encontro. Jesus entra no cotidiano de 4 homens, no meio daqueles movimentos difíceis e repetitivos, próprios de pescadores. Não estão no templo, nem num dia sagrado, mas junto do mar, depois da fadiga de um dia de trabalho.

Jesus caminha e, ao passar ao longo do mar, entra no espaço vital daqueles homens, que estavam retornando da pesca. Exatamente ali, naquela vida tão normal, acontece algo novo.

O chamado individualiza e personaliza  de um modo irrepetível  e inconfundível, dá um sentido completamente novo à própria vida. Jesus toma em suas mãos o futuro daqueles que o acompanham: e junto a Ele vão adquirindo uma nova personalidade definida pela referência a outros.

O “mistério de Deus” me supera. Parece que Ele se faz mais acessível pelos caminhos cotidianos da vida. É na vida pessoal  ou coletiva onde Deus se revela presente e manifesta sua voz. 

Esta foi a experiência do povo de Israel (Dt. 26,6-10) e a experiência dos primeiros discípulos de Jesus.

Hoje, a barca de minha vida  recebe a ordem de zarpar.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, para onde  quer me  levar?
A sua voz, abre os meus olhos, a minha mente e o meu coração assim como abriu daqueles pescadores do lago.

Os quatro homens são atraídos pela sua voz, mais do que pelas palavras ou pela promessa do Desconhecido que passa, vê, chama, conhece também o nome de seus pais, e sabe bem quantas e quais são as barcas e as redes que lhes davam segurança.

Sei que o objetivo da promessa não se refere somente a algo que haverá de acontecer, mas a Alguém que já está presente. A promessa que os atrai é, justamente, Aquele desconhecido, que, das margens, os chama pelo nome.

Depois de tê-los despojado de suas seguranças e levado a intuir que a vida não é questão de certezas, mas de busca e de desafios, Jesus chama aqueles pescadores para ficarem com Ele e entre eles,  construir uma comunidade.

Senhor, a mim também  faz esse convite e sinto que posso mudar minha mente e meu modo de pensar; posso mudar meu coração e aventurar-me em uma nova vida. Aqui estou.


5 – O que a Palavra me leva  a viver?
Aquele Desconhecido se aproxima, ainda hoje, do meu mar da Galiléia, que representa os lugares, os afetos, os segredos, os costumes da minha vida cotidiana... me faz a proposta para entrar em outro mar.

Seguir o Desconhecido do lago significa aceitar toda a vida como sacramento, como símbolo d’Aquele que passa, vê, conhece, ama, chama pelo nome...

Não posso permanecer indiferente. Preciso ter coragem de me fazer esta pergunta:  “Quem me chama?” e “a quê me chama?”; pedir ajuda para conseguir entender, reconhecer, descobrir esse chamado...

Deus está presente em meu caminho, mesmo quando este se encontra na rotina do trabalho cansativo, no silêncio, na incapacidade de entender e, até mesmo, de responder.

Deus me convida a entrar no “fluxo da vida”, e cuida para que nenhuma de suas palavras, do seu chamado, venha a cair no vazio.

São muitos os chamados que, à margem do mar, se perdem no vazio. O nosso ser é o lugar do  encontro.  Navegar, agitar esse  lenço da fé,  ter a coragem de despedir-se  daqueles que não se atrevem a deixar suas velhas barcas e suas redes remendadas.

Essa dinâmica da relação com Deus passa através da minha história, das minhas alegrias, dos meus sofrimentos, e das minhas perguntas: “Quem sou eu?”, “O que queres de mim?”.

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Marcos
             Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho 
             Desenho: Osmar Koxne
             


Leitura Orante  - domingo 18 de Janeiro de 2015

Que andamos buscando?
Quê buscais?” (Jo 1,38)

Jo  1,35-42

1 – O que diz o texto?
Os primeiros discípulos de Jesus
35No dia seguinte, João estava outra vez ali com dois dos seus discípulos. 36Quando viu Jesus passar, disse:
— Aí está o Cordeiro de Deus!
37Quando os dois discípulos de João ouviram isso, saíram seguindo Jesus. 38Então Jesus olhou para trás, viu que eles o seguiam e perguntou:
— O que é que vocês estão procurando?
Eles perguntaram:
— Rabi, onde é que o senhor mora? (“Rabi” quer dizer “mestre”.)
39— Venham ver! — disse Jesus.
Então eles foram, viram onde Jesus estava morando e ficaram com ele o resto daquele dia. Isso aconteceu mais ou menos às quatro horas da tarde.
40André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois homens que tinham ouvido João falar a respeito de Jesus e por isso o haviam seguido. 41A primeira coisa que André fez foi procurar o seu irmão Simão e dizer a ele:
— Achamos o Messias. (“Messias” quer dizer “Cristo”.)
42Então André levou o seu irmão a Jesus. Jesus olhou para Simão e disse:
— Você é Simão, filho de João, mas de agora em diante o seu nome será Cefas. (“Cefas” é o mesmo que “Pedro” e quer dizer “pedra”.)


2 – O que o texto diz para mim?
O Evangelho de hoje marca o início da atividade pública de Jesus: um relato de busca e de seguimento. Dois discípulos, que escutaram o Batista, começam a seguir o Mestre de Nazaré, sem dizer palavra alguma. Há algo n’Ele que os atrai, embora ainda não sabem quem Ele é nem para onde os leva. No entanto, para seguir a Jesus não basta escutar o que os outros dizem dele. É necessária uma experiência pessoal.

Por isso, Jesus se volta e lhes faz uma pergunta muito instigante: “quê buscais?”. Estas são as primeiras palavras de Jesus àqueles que o seguem. Não se pode caminhar atrás de seus passos de qualquer maneira.

Aqueles homens não sabem aonde os pode levar a aventura de seguir a Jesus, mas intuem que pode ensinar-lhes algo que ainda não conhecem; por isso, sua resposta é outra pergunta sábia: “Mestre, onde moras?”


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus me dirige uma pergunta que me remete ao centro de meu coração, àquilo que me move: “quê estais buscando? ”Sua pedagogia é a da pergunta que desvela, pois me move a entrar dentro de mim mesma para encontrar com a fonte que mana e corre.

Com seu modo original de perguntar, Jesus me abre um horizonte novo de vida... Pouco a pouco, Ele me liberta  de enganos, medos e dúvidas que me atrofiam  e bloqueiam minha vida.

“O Evangelho é um itinerário para abrir com profundidade a interioridade humana” (Rovira Belloso), e nele vejo como Jesus promove o retorno ao interior;


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a sua pergunta me retira da cotidianidade e da mediocridade e me põe no movimento de busca do novo.

Sou filha(o) da pergunta provocada pelo mistério da vida, das coisas de Deus, de si mesmo...

Essa pergunta ressoa em mim, e aí descubro minha mais autêntica forma de ser, minha originalidade, minha identidade...  essa pergunta me  provoca as mudanças e a transformação torna-se possível.

A pergunta que você me faz Senhor,  me  arranca da surdez e me faz escutar aquilo que o barulho cotidiano abafa e esconde,  ela me desperta e me faz sair da ilusão de que não há mais nada de novo para aprender e ser, nem há mais o que perguntar.


5 – O que a Palavra me leva  a viver?
A prestar mais atenção ao que acontece em meu território interior. São grandes os riscos de aí viver em horizontes tão estreitos. Tal estreiteza me aprisiona a solidariedade e dá margem à indiferença, à insensibilidade social, à falta de compromisso  com as mudanças que se fazem urgentes. O meu próprio território se torna uma couraça e o sentido do serviço some no horizonte inspirador de tudo o que é feito.

A busca deve orientar-me para o interior: a Fonte que saciará minha sede brota no mais profundo de meu ser. Por isso, é necessário que eu aprenda a escutar meu “mestre interior”. Na realidade, o que ando buscando é o meu “eu verdadeiro” , o “eu profundo”, a “identidade original”. Nesse sentido, só o que me faz mais humana, e na medida em que me faz mais humana, plenificará minha existência.

Ampliar esses espaços do coração implica agilidade, flexibilidade, criatividade, solidariedade e abertura às mudanças e às novas descobertas. Algumas fortalezas e seguranças pessoais caem quando os “espaços interiores”, abrasados e iluminados pela força do Espírito, começam a romper as paredes e se encarnam em “lugares exteriores”, marcados pela beleza e encantamento.

Ampliar os espaços interiores é um convite a sonhar alto, a pensar grande, a aventurar-se... ousar ir além, lançar por terra esse meu modo arcaico de proceder, romper com os espaços rotineiros e cansativos.

A expressão de Pascal de que “o ser humano supera infinitamente o ser humano” resume bem esta vivência da busca que me habita, me move e me faz transbordar nessa mesma intimidade.

Posso entrar dentro de mim mesma porque em mim está a dimensão de eternidade, a dimensão “divina” que me situa acima do vai e vem das coisas, acima do tempo e da contingência...

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – João

             Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho

             Desenho: Osmar Koxne


Leitura Orante  - domingo 11 de Janeiro de 2015

Batizados: Submergidos na vida
“...ao sair da água, viu o céu se abrindo e o Espírito, como pomba, descer sobre ele” (Mc 1,10)

Marcos 1,7-11

1 – O que diz o texto?
O batismo de Jesus
7João dizia ao povo:
— Depois de mim vem alguém que é mais importante do que eu, e eu não mereço a honra de me abaixar e desamarrar as correias das sandálias dele. 8Eu batizo vocês com água, mas ele os batizará com o Espírito Santo.
9Nessa ocasião Jesus veio de Nazaré, uma pequena cidade da região da Galiléia, e foi batizado por João Batista no rio Jordão. 10No momento em que estava saindo da água, Jesus viu o céu se abrir e o Espírito de Deus descer como uma pomba sobre ele. 11E do céu veio uma voz, que disse:
— Tu és o meu Filho querido e me dás muita alegria.

2 – O que o texto diz para mim?
O texto me diz que sobre a terra começa a caminhar um homem cheio do Espírito de Deus. Esse Espírito que desce sobre Ele é o alento de Deus que cria a vida, a força que renova e cura os viventes, o amor que transforma tudo. Por isso Jesus se dedica a libertar a vida, a curá-la e torná-la mais humana.
Conduzido pelo Espírito, Jesus “desce” e mergulha nas águas turvas da humanidade, onde se encontra com a vida ferida, violentada e excluída. Sob a ação do Espírito, Jesus vai destravando as vidas bloqueadas, oferecendo-lhes um horizonte de sentido, alimentando uma ousada esperança e abrindo novos caminhos de comunhão e solidariedade.

3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
É decisivo deixar o Espírito destravar a minha  rica “possibilidade de ser” presente em meu interior;  se ativo somente minha possibilidade biológica e psicológica, desenvolvo  apenas uma parte de meu ser. Sou também espírito e se quero alcançar minha plenitude humana, preciso criar espaço em mim à ação do Espírito. Essa descoberta marcará um antes e um depois em minha vida.
Aqui não se trata mais de um rito, mas de uma realidade: a mesma vida de Deus em mim. Essa é a Vida que palpita e flui em toda a realidade, a que me  constitui no núcleo do que sou.

4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
“Batizar-me no Espírito Santo” é descer ao meu “jordão interior”, mergulhar em minha própria humanidade, para dali sair recriada e impulsionada a um compromisso de vida. Não se trata só de que tenho  “recebido” a Vida divina, senão que sou essa mesma Vida, expressando-a  em mil formas diferentes; mas todas elas são expressão da única Vida e do mesmo Ser.
O Espírito atua sempre da mesma maneira, silenciosamente, a partir de dentro, sem ruídos, sem ventanias, sem violentar a natureza porque atua sempre de acordo com ela.
Em nome de todos os  batizados,  agradeço-lhe Senhor por sermos  filhos(as) do Vento; porque estamos nascendo permanentemente da Fonte da Vida, que é nossa mesma vida. Somos seres criados, habitados, sustentados, amados pelo Sopro originante e amoroso de tudo o que é, ao qual as religiões chamaram, chamam e chamarão “Deus”.

5 – O que a Palavra me leva a viver?
O Espírito é brisa, é vida, é movimento... A vida é vivida quando sopra a força do Espírito, que impulsiona a abrir, a avançar, progredir... Sempre foi e sempre será uma aventura apaixonante “deixar-se conduzir pelo Espírito”.  Quem abre espaço para que o “Espírito desça sobre ele” não foge de si mesmo senão que se submerge em seu espaço interior, e, a partir dali, desemboca numa atitude contemplativa no mundo que o cerca; em sintonia com o ritmo da criação e da beleza, abre-se à relação com o outro, entrando em um verdadeiro dinamismo de vida.

Porque a vida autêntica é a vida movida, iluminada, impulsionada pelo dinamismo do amor, que se expressa numa relação cordial, aberta e receptiva à originalidade do outro.
Preciso de outro ritmo em minha vida, porque a melodia espiritual está presente no mundo. Preciso de um outro olhar contemplativo sobre mim, sobre a sociedade, e não fugir de mim mesma, senão acolher a vida com outra sabedoria.

Em suma, a palavra “Espírito” significa vento, hálito, sopro de vida, força interior que me transforma  a partir de dentro. Para a mentalidade cristã, o seguimento de Jesus é considerado como uma vida segundo o Espírito, uma vida que tem como fundamento e inspiração o modo de ser e atuar de Jesus de Nazaré.  Hoje, preciso desta força do Espírito em mim,  nas pessoas, nos povos, nas instituições e na história.

Fonte: Bíblia na linguagem de hoje – Marcos
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho

            Desenho: Osmar Koxne


Leitura Orante  - domingo 04 de Janeiro de 2015

Epifania do Senhor
“E eis que a estrela que tinham vista no Oriente ia à frente deles 
até que parou sobre o lugar onde se encontrava o menino” (Mt 2,9)

Mateus 2, 1-12

1 – O que diz o texto?
Os visitantes do Oriente
1Jesus nasceu na cidade de Belém, na região da Judéia, quando Herodes era rei da terra de Israel. Nesse tempo alguns homens que estudavam as estrelas vieram do Oriente e chegaram a Jerusalém. 2Eles perguntaram:
— Onde está o menino que nasceu para ser o rei dos judeus? Nós vimos a estrela dele no Oriente e viemos adorá-lo.
3Quando o rei Herodes soube disso, ficou muito preocupado, e todo o povo de Jerusalém também ficou. 4Então Herodes reuniu os chefes dos sacerdotes e os mestres da Lei e perguntou onde devia nascer o Messias. 5Eles responderam:
— Na cidade de Belém, na região da Judéia, pois o profeta escreveu o seguinte:

6“Você, Belém, da terra de Judá, de modo nenhum é a menor entre as principais cidades de Judá, pois de você sairá o líder que guiará o meu povo de Israel.”

7Então Herodes chamou os visitantes do Oriente para uma reunião secreta e perguntou qual o tempo exato em que a estrela havia aparecido; e eles disseram. 8Depois os mandou a Belém com a seguinte ordem:
— Vão e procurem informações bem certas sobre o menino. E, quando o encontrarem, me avisem, para eu também ir adorá-lo.
9Depois de receberem a ordem do rei, os visitantes foram embora. No caminho viram a estrela, a mesma que tinham visto no Oriente. Ela foi adiante deles e parou acima do lugar onde o menino estava. 10Quando viram a estrela, eles ficaram muito alegres e felizes. 11Entraram na casa e encontraram o menino com Maria, a sua mãe. Então se ajoelharam diante dele e o adoraram. Depois abriram os seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra.
12E num sonho Deus os avisou que não voltassem para falar com Herodes. Por isso voltaram para a sua terra por outro caminho.

2 – O que o texto diz para mim?
Diz que guiados pela estrela no céu e pela estrela de uma grande esperança no coração, os Magos começam a caminhar. Na sua busca, examinam o céu e auscultam o próprio coração. Porque buscam, empreendem o caminho. Põem-se a caminho porque tem perguntas e inquietações no coração.
Caminharam juntos, em comunidade. Só ajudando-se e animando-se mutuamente, carregando o peso uns dos outros, durante o calor do dia e durante a escuridão da noite, é possível chegar à meta.
O símbolo dominante no caminho é a Luz, a estrela que guia minha busca contínua sempre apontando para mais verdade, mais entrega, mais justiça, mais comunhão.
A luz, de fato, está fora de mim, é exterior, impalpável, intocável; mas também está em mim e sobre mim, me ilumina, individualiza, é vida e calor.

3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O simbolismo da luz conduz-me a uma outra imagem dominante na narração dos Magos, a espacial.
O quadro geográfico-espacial que decorre da narrativa de Mateus é denso: Oriente, Jerusalém, Belém, Judéia, Egito, Ramá, Galiléia, Nazaré. Mas não se trata apenas de um mapa topográfico. O espaço bíblico é dinâmico, é percorrido por um formigueiro de vida, de movimento... É a história de uma viagem arriscada, de um itinerário “abraâmico”,  que partiu, “mas sem saber para onde ía”. (Heb. ll,8).
Aqui se unem a história de Abraão e dos Magos, que deixam a pátria por uma terra desconhecida.
O que os olhos dos Magos vêem ao entrar na gruta é a fragilidade e a impotência de um recém-nascido. Mas o que esses mesmos olhos – acostumados a auscultar os céus e treinados no discernimento do que o coração sente – reconhecem, depois de guiados pela estrela e ilustrados pelas Escrituras, é o Esperado de todos os povos e de toda a Criação. O longo itinerário da busca de Deus só pode terminar na adoração e na entrega.
Os Magos visitam e se vão; retomam a itinerância na fidelidade a uma estrela; isto significa novamente fazer a experiência da busca, da esperança...
Toda viagem que culmina na manjedoura, é ponto de partida para novos caminhos.

4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor,  tenho fome de estrada. Nasci  com essa inquietude. Minha vida é uma longa jornada. “Quando descanso meus pés, minha mente também para de funcionar”. (J.G.Hamann)
É preciso fazer estradas. Caminhar consciente. No caminho nada está definido. Há rumos diversos e ritmos diferentes de andar. É bonito de ver que em cada ser humano brilha uma luz que aponta para uma fonte e conduz a uma meta que o faz peregrinar.

5 – O que a Palavra me leva a viver?
Para chegar ao encontro com Deus é necessário atravessar, desertos escaldantes e noites escuras, desinstalar-se e romper com o convencional, vencer novos obstáculos e refutar  velhos argumentos. Para encontrar  Deus, não posso  ficar preso ao passado.
Preciso partir sempre de novo, com o coração cada vez mais leve, porque mais livre; mudando, cada manhã, o lugar, o modo de pensar, a maneira de esperar e a forma de viver.
A viagem exige desapego, coragem, procura, esperança.
Para chegar ao encontro com Jesus é necessário deixar-se comover pelos sinais percebidos e discernidos, é necessário deixar-se mover e guiar por eles ao longo de toda a caminhada.

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Lucas
             Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho

             Desenho: Osmar Koxne


Leitura Orante  - Ano Novo, 01 de Janeiro de 2015

Olhar esperançador, desbravador de futuros

“Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido” (Lc 2,20)

Lucas 2, 16-21   


1 – O que diz o texto?
16Eles foram depressa, e encontraram Maria e José, e viram o menino deitado na manjedoura. 17Então contaram o que os anjos tinham dito a respeito dele. 18Todos os que ouviram o que os pastores disseram ficaram muito admirados. 19Maria guardava todas essas coisas no seu coração e pensava muito nelas. 20Então os pastores voltaram para os campos, cantando hinos de louvor a Deus pelo que tinham ouvido e visto.
E tudo tinha acontecido como o anjo havia falado.
21Uma semana depois, quando chegou o dia de circuncidar o menino, puseram nele o nome de Jesus. Pois o anjo tinha dado esse nome ao menino antes de ele nascer.

2 – O que o texto diz para mim?
Sou um ser de “travessia...”
Ano Novo me situa no clima das grandes esperanças da humanidade; neste dezembro mágico meu coração caminha mais rápido, rompe o tempo, já está lá na frente, pronto para acolher a surpresa.
Tudo aponta para o Eterno que me escapa e me encontra. Aqui a imaginação trabalha e cria momentos felizes. Com essa esperança, posso dar sabor à minha vida  modesta e simples.
A esperança tem raízes na eternidade, mas ela se alimenta de pequenas coisas. Nos despojados gestos ela floresce e aponta para um sentido novo. É preciso um coração contemplativo para captar o “mistério” que me envolve. É preciso um “coração de pastor” para ver numa criança a presença do Inefável.

3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Mesmo diante dos profundos dilemas sociais, é possível ser e viver de outro modo, inventar e reinventar opções, criar novas saídas... e sem cessar, sonhar com o “mais” e o “melhor”.
Ainda que sofro ventos contrários e as nuvens se adensem no horizonte, sei e confesso com o profeta Jeremias: “Há uma esperança para o teu futuro” (31,17).
Precisamente por viver tempos difíceis, preciso mais do que nunca da pequena e teimosa esperança. Pois “a esperança é uma filhinha que todas as manhãs acorda, lava-se e faz a sua oração com um rosto novo” (Péguy).
Nesse sentido é que compreendo a esperança como produtora e gestora do futuro; ela se revela como espera criativa e me prepara para acolher as surpresas da vida.
A esperança é algo constitutivo de minha humanidade, ao mesmo tempo que me humaniza; ela carrega uma força misteriosa, um sopro criador que me leva a olhar tudo com fé e otimismo.
O meu interior está habitado por esperanças de todo gênero. O que faz a diferença é a qualidade, a consistência e o realismo de minha esperança.

4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
A esperança, hoje como sempre, não é virtude de um instante. É a atitude fundamental e o estilo de vida daqueles que enfrentam a existência “enraizados e edificados em Jesus Cristo” (Col 2,6)
Ela não é a virtude própria dos momentos fáceis. Ao contrário, a esperança cristã cresce, se purifica e se enriquece em meio aos conflitos.
Santo Agostinho dizia que a esperança tem dois filhos: a indignação e a coragem.
Indignação ao ver como as coisas estão e coragem para não permitir que continuem assim.
Aquele que vive com esperança se sente impulsionado a fazer o que espera.
Desejar algo é antecipar o futuro e procurar uma maneira de torná-lo presente.

Obrigada  Senhor por esta  coragem em atrever-me a escutar o meu próprio coração.

5 – O que a Palavra me leva  a viver?
Preciso voltar a ter um futuro onde ancorar; um futuro que valha a pena imaginar e que impulsiona as ações do meu presente; uma esperança que me dilate. Sem silêncio, sem profundidade, sem a sabedoria que sabe decantar, nunca serei arrojada e audaciosa frente ao futuro.
O futuro que espera se converte em projeto de ação e compromisso, alimenta a solidariedade, desperta a ternura, a acolhida compassiva...
E este compromisso é precisamente o que gera esperança no mundo.
No final, seremos todos acolhidos por Aquele que nos quer “eternos”. Porque Ele é “terno”, deitado numa manjedoura, Esperança despojada que dá sentido às nossas perdidas “esperanças”.

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Lucas

             Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho

             Desenho: Osmar Koxne
             

Leitura Orante  - domingo, 28 de dezembro de 2014

Viva em sua família a grandeza de ser plenamente humano

“O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele” (Lc 2)

Lucas 2, 22-40   

1 – O que diz o texto?

Jesus é apresentado no Templo  e a volta  para casa, cidade de Nazaré.

22Chegou o dia de Maria e José cumprirem a cerimônia da purificação, conforme manda a Lei de Moisés. Então eles levaram a criança para Jerusalém a fim de apresentá-la ao Senhor. 23Pois está escrito na Lei do Senhor: “Todo primeiro filho será separado e dedicado ao Senhor.” 24Eles foram lá também para oferecer em sacrifício duas rolinhas ou dois pombinhos, como a Lei do Senhor manda.

25Em Jerusalém morava um homem chamado Simeão. Ele era bom e piedoso e esperava a salvação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele, 26e o próprio Espírito lhe tinha prometido que, antes de morrer, ele iria ver o Messias enviado pelo Senhor. 27Guiado pelo Espírito, Simeão foi ao Templo. Quando os pais levaram o menino Jesus ao Templo para fazer o que a Lei manda, 28Simeão pegou o menino no colo e louvou a Deus. Ele disse:

29— Agora, Senhor, cumpriste a promessa que fizeste e já podes deixar este teu servo partir em paz. 30Pois eu já vi com os meus próprios olhos a tua salvação,
31que preparaste na presença de todos os povos: 32uma luz para mostrar o teu caminho a todos os que não são judeus e para dar glória ao teu povo de Israel.
33O pai e a mãe do menino ficaram admirados com o que Simeão disse a respeito dele. 34Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus:

— Este menino foi escolhido por Deus tanto para a destruição como para a salvação de muita gente em Israel. Ele vai ser um sinal de Deus; muitas pessoas falarão contra ele, 35e assim os pensamentos secretos delas serão conhecidos. E a tristeza, como uma espada afiada, cortará o seu coração, Maria.

36Havia ali também uma profetisa chamada Ana, que era viúva e muito idosa. Ela era filha de Fanuel, da tribo de Aser. Sete anos depois que ela havia casado, o seu marido morreu. 37Agora ela estava com oitenta e quatro anos de idade. Nunca saía do pátio do Templo e adorava a Deus dia e noite, jejuando e fazendo orações. 38Naquele momento ela chegou e começou a louvar a Deus e a falar a respeito do menino para todos os que esperavam a libertação de Jerusalém.

39Quando terminaram de fazer tudo o que a Lei do Senhor manda, José e Maria voltaram para a Galiléia, para a casa deles na cidade de Nazaré.
40O menino crescia e ficava forte; tinha muita sabedoria e era abençoado por Deus.


2 – O que o texto diz para mim?
Novamente, o relato de Lucas é desconcertante. Quando os pais se aproximam do Templo com o menino, não são os sumos sacerdotes nem os demais dirigentes religiosos que saem ao seu encontro. Também não é recebido pelos mestres da Lei que pregam suas “tradições humanas” nos átrios do Templo. Jesus não encontra acolhida nessa religião fechada em si mesma e distante do sofrimento dos mais pobres; não encontra amparo em doutrinas e tradições religiosas que não ajudam a viver uma vida mais digna e mais humana.

Somente os olhos apagados de dois idosos (Simeão e Ana) conseguem ver o Salvador; somente os braços cansados desse casal ancião conseguem abraçar o Salvador; somente eles conseguem estreitar em seus corações Aquele que é a Esperança dos povos.

Uma vida cheia de promessas e esperanças; agora, marcados pela gratidão, cantam de alegria e louvam o privilégio de acolher a Quem tinham esperado durante toda uma vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A família continua sendo o espaço que humaniza e privilegia o desenvolvimento de cada pessoa, não só durante os anos da infância e da juventude, mas durante todas as etapas de sua vida.

O ser humano só pode crescer em humanidade através de suas relações sadias com os outros.

A família é a atmosfera insubstituível e o lugar de referência para que essas relações profundamente humanas sejam amadurecidas. Seja como casal, como filho, como irmão, como pai ou mãe, como avós..., em cada uma dessas situações a qualidade da relação os fará aproximar da plenitude humana, quando todo encontro com o outro é vivido para destravar e ativar suas ricas possibilidades e sua capacidade de amar. O espaço familiar dês-vela o humano que em todos habita.

A experiência e vivência familiar, portanto, vem responder a uma demanda própria deste momento pós-moderno e se revela capaz de restituir ao ser humano de hoje a espessura de humanidade e os valores que lhe são próprios.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
A espiritualidade familiar, centralizada em cada um de seus membros, visa mobilizá-los em todas as suas dimensões, promove distensão, paz e alegria, propõe um caminho de plena humanização,  forma para a abertura aos outros e para a doação por amor, impele, em suma, a criar as condições para que todos atinjam a maturidade e se realizem.

Esse itinerário existencial constitui-se como o impulso para aventurar-me na busca da verdade e do sentido primeiro e último das coisas, o estímulo de crescimento e descoberta de mim mesma, até fazer das minhas capacidades pessoais um meio para transformar o mundo, agindo nas estruturas sociais e dando à humanidade uma contribuição que tenha o sabor do Reino de Deus.

Senhor,  obrigado  por despertar em mim  e em todos nós a tarefa  humanizadora , capaz de tocar as fibras mais sensíveis do ser humano e convidá-lo para a valentia  do serviço, da solidariedade  e da liberdade.


5 – O que a Palavra me leva  a viver?
A mística familiar situa-se, com toda a densidade, no contexto da experiência de humanidade e de fé do ser humano, de modo que cada um possa caminhar, dentro de si e diante de si, na direção daquela verdade, daquele bem e daquela beleza que constituem a positividade do mundo e a força da humanidade, fundamentados em Deus e garantidos por Ele.

Por isso, a família pode ser considerada como uma tarefa humanizadora, capaz de tocar as fibras mais sensíveis do ser humano e convidá-lo para a valentia do serviço, da solidariedade e da liberdade.

O espaço familiar visa, portanto, à reorganização da vida de cada um  segundo coração do Pai e, por conseguinte, um ótimo desenvolvimento dos talentos e dos carismas recebidos.
O objetivo primeiro da família é ajudar o ser humano a tomar nas mãos, diante de Deus, a própria vida, ajudá-lo a tornar-se verdadeiramente ser humano. Seu verdadeiro desafio é exatamente o crescimento do ser humano enquanto descoberta de um projeto, escolha e determinação de empenhar-se pelos outros.

Cada um é diferente, único, com saberes, expectativas, medos, ansiedades e desejos, pontos fortes e fraquezas, com seu ritmo e modo próprios de viver.

Assim, a pedagogia familiar evoca a verdade do ser humano, comporta uma provocação, uma proposta que pede o máximo dele mesmo e, por isso mesmo, revela o que ele é capaz... Uma autêntica experiência familiar tem efeitos explosivos: é novidade que surpreende e às vezes assusta, cria novas expectativas e solicitações, traz tensão e também insatisfação, pede a mudança dos costumes e velhos estilos de vida, leva adiante o equilíbrio da pessoa em direção a horizontes imprevisíveis, abre uma nova fase de vida...

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Lucas

             Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho

             Desenho: Osmar Koxne
             



Leitura Orante  - noite de Natal, 24 de dezembro de 2014

Eterna infância de Deus

“Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixase deitado numa manjedoura”  (Lc 2,12)


Lucas 2, 1-14   
  
1 – O que diz o texto?
Nascimento de Jesus e visita dos pastores.
1Naquele tempo o imperador Augusto mandou uma ordem para todos os povos do Império. Todas as pessoas deviam se registrar a fim de ser feita uma contagem da população. 2Quando foi  feito esse primeiro recenseamento, Cirênio era governador da Síria. 3Então todos foram se registrar, cada um na sua própria cidade.

4Por isso José foi de Nazaré, na Galiléia, para a região da Judéia, a uma cidade chamada Belém, onde tinha nascido o rei Davi. José foi registrar-se lá porque era descendente de Davi. 5Levou consigo Maria, com quem tinha casamento contratado. Ela estava grávida, 6e aconteceu que, enquanto se achavam em Belém, chegou o tempo de a criança nascer. 7Então Maria deu à luz o seu primeiro filho. Enrolou o menino em panos e o deitou numa manjedoura, pois não havia lugar para eles na pensão.

8Naquela região havia pastores que estavam passando a noite nos campos, tomando conta dos rebanhos de ovelhas. 9Então um anjo do Senhor apareceu, e a luz gloriosa do Senhor brilhou por cima dos pastores. Eles ficaram com muito medo, 10mas o anjo disse:
— Não tenham medo! Estou aqui a fim de trazer uma boa notícia para vocês, e ela será motivo de grande alegria também para todo o povo! 11Hoje mesmo, na cidade de Davi, nasceu o Salvador de vocês — o Messias, o Senhor! 12Esta será a prova: vocês encontrarão uma criancinha enrolada em panos e deitada numa manjedoura.

13No mesmo instante apareceu junto com o anjo uma multidão de outros anjos, como se fosse um exército celestial. Eles cantavam hinos de louvor a Deus, dizendo:

14— Glória a Deus nas maiores alturas do céu!
E paz na terra para as pessoas a quem ele quer bem!


2 – O que o texto diz para mim?
Diz que o que há de verdade nos evangelhos da infância é que o “divino” (ou seja, Deus) se deu a conhecer, se fez presente e se manifestou no “humano”. E precisamente no mais humano: uma criança, sem “títulos”, de condição humilde e em circunstancias de pobreza, desamparo e perseguição.

O “divino” não se fez presente no portentoso, no milagroso, no assustador, como aconteceu com Moisés na sarça ardente ou no monte Sinai. O “divino” se fez presente em um recém-nascido, em um estábulo, entre palhas e animais. E foi anunciado aos pastores, um dos ofícios marginalizados daquele tempo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A “mensagem religiosa” dos evangelhos da infância é teimosamente clara e provocadora. É a mensagem que me diz isto:  o “divino” se revela e se des-vela no humano”, no mais humano, ou seja, no fraco, no marginalizado, no excluído e no perseguido. Essa humanidade de Deus me assusta, porque no fundo,  tenho medo de minha própria humanidade. Em Jesus, interagem, harmoniosamente, o humilde e o sublime, o divino e o humano; n’Ele o humano é entrada para o divino, o celeste se manifesta no terrestre, um contendo, reconhecendo e beneficiando o outro. Sua maneira de assumir e viver a condição humana me revela Deus e valoriza a humanidade com toda a Criação.
O Evangelho tem algo muito forte, muito duro, que não cabe em minha cabeça. O Evangelho é a afirmação mais sublime do humano. A partir do primeiro Natal que houve na história, devo dirigir meu olhar para as “margens” e contemplar a presença de Deus que não se encontra no grandioso e notável, mas naquele que é marcado pela simplicidade e despojamento.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
A festa de Natal me conecta com a essência de minha própria humanidade. O que se celebra é um Deus-menino, que está chorando entre animais, e que não mete medo nem julga ninguém.
Eterna infância de Deus. Aquele que não cabe no universo,  cabe no seio de uma jovem mãe. O Criador é cuidado no colo de uma mulher. O Amor eterno necessita ser mimado e abraçado como uma criança. Ele se faz necessitado para que eu aprenda a me deixar ajudar  e assim a ajudar os outros. Ele está desamparado, para que eu tenha um lar, pátria, calor. Repousa em um presépio, para que eu e todas as criaturas possamos sentar-se junto à grande mesa de toda a Terra.
Obrigado meu Deus por toda a solidariedade e ternura que abrem passagem frente ao individualismo, ao egoísmo e ao consumismo.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Ter o “eterno menino” diante dos meus olhos desperta em mim a  renovação de vida, inocência, novas possibilidades de vida que me impulsiona em direção ao novo futuro.
- Eterna infância de Deus “outro Natal possível”, mais próximo do Menino Jesus nascido humildemente em um presépio, onde em lugar de “dar presentes”, me “faço presente” junto aos famintos, necessitados e excluídos, abrir meu coração e portas à chegada Salvadora do Menino Deus. A solidariedade e a ternura abrirão passagem frente ao individualismo, ao egoísmo e ao consumismo.
- Eterna infância de Deus em um Natal onde aproveito para fazer uma viagem ao interior de meu espírito, ali onde habita o Deus da Vida que dá fundamento à minha verdadeira identidade.
- Eterna infância de Deus em um Natal simples, solidário, alegre... sem luxos, onde faço presente  em meu  coração a todos as pessoas que sofrem e que são as preferidas de Deus Pai e Mãe.

Fonte:  Bíblia na linguagem de hoje – Lucas

             Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho

             Desenho: Osmar Koxne
           

Leitura Orante  - Domingo, 21 de dezembro de 2014

Advento:
“O futuro tem um coração de tenda” (Ermes Ronchi)

“O Espírito Santo virá sobre ti, 
e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sobra” (Lc 1,35)

Lucas 1,26-38    

1 – O que diz o texto?
O nascimento de Jesus é anunciado.
26Quando Isabel estava no sexto mês de gravidez, Deus enviou o anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré. 27O anjo levava uma mensagem para uma virgem que tinha casamento contratado com um homem chamado José, descendente do rei Davi. Ela se chamava Maria. 28O anjo veio e disse:
— Que a paz esteja com você, Maria! Você é muito abençoada. O Senhor está com você.
29Porém Maria, quando ouviu o que o anjo disse, ficou sem saber o que pensar. E, admirada, ficou pensando no que ele queria dizer. 30Então o anjo continuou:
— Não tenha medo, Maria! Deus está contente com você. 31Você ficará grávida, dará à luz um filho e porá nele o nome de Jesus. 32Ele será um grande homem e será chamado de Filho do Deus Altíssimo. Deus, o Senhor, vai fazê-lo rei, como foi o antepassado dele, o rei Davi. 33Ele será para sempre rei dos descendentes de Jacó, e o Reino dele nunca se acabará.
34Então Maria disse para o anjo:
— Isso não é possível, pois eu sou virgem!
35O anjo respondeu:
— O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Deus Altíssimo a envolverá com a sua sombra. Por isso o menino será chamado de santo e Filho de Deus. 36Fique sabendo que a sua parenta Isabel está grávida, mesmo sendo tão idosa. Diziam que ela não podia ter filhos, no entanto agora ela já está no sexto mês de gravidez. 37Porque para Deus nada é impossível.
38Maria respondeu:
— Eu sou uma serva de Deus; que aconteça comigo o que o senhor acabou de me dizer! E o anjo foi embora.

2 – O que o texto diz para mim?
Maria diz “sim”, faz-se peregrina e o futuro se escancara diante dela. Não busca explicações.  “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor é contigo”. Abre-se um horizonte de um futuro repleto de sentido. O futuro que se faz presente em forma de projeto e de promessa. “Faça-se em mim segundo tua Palavra”.

3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A palavra me leva a experimentar que a caminhada deste tempo do Advento é uma boa ocasião para fazer memória do futuro: do futuro que virá e do futuro que podemos antecipar. Porque o futuro não é o que ainda não existe; ele pode se fazer presente em forma de projeto e de promessa. Nós o antecipamos quando vivemos fraternalmente, quando lutamos em favor da paz, da justiça e da solidariedade.
Ao antecipá-lo, o Senhor se faz humilde e silenciosamente presente. Porque se faz presente, podemos esperá-Lo. Se não o fazemos presente, a esperança se converte em uma ilusão sem futuro.
A essência de nosso ser encontra-se à nossa frente, um secreto desejo de escapar da pequenez do já realizado. A terra está prometida aos que se põem em marcha para alcançá-la.
Ter saudades do futuro. Pressentir. Entrever. Suspirar. Manter o coração velando, mesmo quando dorme. Esse é o dinamismo do Advento.

4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Santa Maria, tenda humilde do Verbo, movida somente pelo vento do Espírito.
Como Maria, podemos nos converter em pessoas de esperança, abertas à novidade do Espírito, que espreita oculto nas dobras de nossa história. Podemos chegar a ser sentinelas da manhã, espreitando no horizonte sinais de esperança e de vida.
“Alarga o espaço de tua Tenda, estende tuas lonas sem temor, alonga tuas cordas, reforça as estacas! ”(Isaías 54,2)
Obrigado meu Deus por todas as tendas de fé, amor e acolhimento.

5 – O que a Palavra me leva a viver?
Ser uma TENDA sempre aberta: “entrada franca”.
Nada de “ameaças” que atemorizem o visitante: seu caráter, seu orgulho, seu egoísmo, sua inveja, sua ironia, sua rudeza, seu autoritarismo...  Que o outro não se retire, suspirando: “Não tive coragem... tive medo que ele me mandasse embora, que risse de mim, que não me compreendesse...”
Nada de longas esperas que desanimam: esteja sempre atento, nem que seja para um cumprimento, um sorriso, um aperto de mãos, caso você não tenha tempo para uma conversa.
Uns instantes de intensa atenção basta para acolher o outro.
Nada de móveis que impeçam a circulação; mantenha sua tenda vazia, disponível. Não imponha seus gostos, suas idéias, seus pontos de vista. Nada de retribuições que custam caro: se você oferece alguma coisa, faça-o gratuitamente e nada espere em troca. Nada de contrato oneroso: “entra-se” e “sai-se” à vontade, com naturalidade, sem formalidades...

Fonte: Bíblia na linguagem de Deus – Mateus
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenhos: Osmar Koxe


Leitura Orante  - Domingo, 14 de dezembro de 2014

Advento: 
Uma Voz em nossa voz

“Eu sou a voz que grita no deserto” (Jo 1,23)

Jo 1,6-8.19-28

1 – O que diz o texto?
Este texto nos fala de um homem chamado João, que foi enviado por Deus para falar a respeito da luz. Ele veio para que por meio dele todos pudessem ouvir a mensagem e crer nela. João não era a luz, mas veio para falar a respeito da luz, a luz verdadeira que veio ao mundo e ilumina todas as pessoas.

João é a voz que grita. A verdade é o que está já aí e ninguém a reconhece. João é aquele que tem consciência de sua identidade e de sua missão; ele tem a honestidade de reconhecer sua verdade e a sinceridade de não ser considerado como Messias; ele não se faz o centro das atenções mas indica sempre o “outro”; ele não atrai os olhares sobre si mesmo mas convida a olhar o “outro”. Sua voz anuncia um Outro.
A identidade de João é revelada pela sua relação com Jesus. Sua voz está a serviço de Jesus. Não é a voz que louva a si mesmo.

Este texto me diz: João é a voz que grita. A verdade é o que está já aí e ninguém a reconhece. João é aquele que tem consciência de sua identidade e de sua missão; ele tem a honestidade de reconhecer sua verdade e a sinceridade de não ser considerado como Messias; ele não se faz o centro das atenções mas indica sempre o “outro”; ele não atrai os olhares sobre si mesmo mas convida a olhar o “outro”. Sua voz anuncia um Outro.
A identidade de João é revelada pela sua relação com Jesus. Sua voz está a serviço de Jesus. Não é a voz que louva a si mesmo.

3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A Palavra me leva a experimentar a caminhada deste tempo de Advento, onde  somos convidados a descer em direção à nossa interioridade, para deixar aflorar o que é mais original em nós, nossa verdadeira identidade. Desconhecemos a nós mesmos, a nossa originalidade. Somos únicos, sagrados, com uma voz única. Nossa identidade se expressa também através da voz.
Nossa voz é desvelamento de nossa interioridade; a voz revela aquilo que está cheio nosso interior. 
Voz descentrada ou voz centrada em si mesmo? 
Voz que fala de si mesmo ou voz aberta à realidade? 
Nossa voz está a serviço de quê? 
De quem? 
É voz que eleva e salva o outro, ou voz que critica, afunda? 
É voz que aponta para um sentido? 
Somos “voz de quem não tem voz”?

4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
São muitas as vozes que nos tocam e nos constituem. Às vezes, elas ressoam em nós como brisa suave, às vezes como punhais, mas sempre nos deixando marcas profundas de estímulos ou de desânimo: sentimentos de alegria ou tristeza, de paz ou guerra, de tranquilidade ou inquietação, de fé ou descrença... de amor ou ódio.
Obrigado meu Deus pelas vozes que pregam a paz, a verdade, o amor...

5 – O que a Palavra me leva a viver?
Na Igreja todos somos chamados a ser microfones de Deus. Como João Batista, o cristão é chamado a ser voz que anuncia e denuncia; ele se reconhece como a “voz que grita no deserto”; ele se define como “a voz dos que sofrem”, a “voz dos que não tem voz”, a “voz dos oprimidos que buscam a liberdade”, a “voz daqueles que ninguém os ouve”, a “voz que anuncia a presença de Deus na história”... O cristão é sempre a “voz do Outro”; o cristão é sempre a voz de Deus hoje. Voz de Deus nem sempre escutada; voz de Deus que hoje parece estar em silêncio.

Fonte: Bíblia na linguagem de Deus – Mateus
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne


Leitura Orante  - Domingo, 07 de dezembro de 2014

Advento: 
Fome e sede de estradas

"Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!” (Mc 1,3)

Mc 1,1-8
Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Está escrito no profeta Isaías: "Eis que envio à tua frente o meu mensageiro, e ele preparará teu caminho. Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, tornai planas as suas estradas". Assim veio João, batizando no deserto e pregando um batismo de conversão, para o perdão dos pecados. A Judéia inteira e todos os habitantes de Jerusalém saíam ao seu encontro, e eram batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados. João vestia roupa feita de pêlos de camelo, usava um cinto de couro à cintura e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Ele anunciava: "Depois de mim vem àquele que é mais forte do que eu. Eu nem sou digno de abaixar-me para desamarrar as suas sandálias. Eu vos batizei com água. Ele vos batizará com Espírito Santo".

1 – O que o texto diz?
Neste texto aparece um personagem sumamente interessante e provocador: seu nome é João. Um nome universal; um nome que revela a identidade de um homem que rompe os esquemas estabelecidos; sua missão profética se dá no deserto, longe dos templos e da religião oficial.
A partir da margem ele grita e este grito é o que melhor revela o espírito de Advento. Ele denuncia que nossos caminhos estão bloqueados e que as veredas da humanidade estão torcidas, impedindo que venha e se manifeste o Deus da justiça.
“Preparai” significa estar atentos, abrir um espaço de esperança frente a um mundo que gira em torno a si mesmo. Se estamos apegados ao que temos e somos, jamais seremos capazes de “fazer estrada com Deus” e participar da preciosa vida que Ele nos oferece.

2 - O que o texto diz para mim?
Este texto me diz que caminhar é sair do centro e ir em busca das surpresas, das novas descobertas; implica arriscar, ter ousadia, não ter medo de fazer a travessia para o outro lado. Somos passageiros, um Caminho aberto à vida de Deus que permanece, caminho que anuncia e prepara a Vida. Por isso precisamos, mais do que nunca, da figura do profeta; autênticos profetas que, sem medo e partindo de sua experiência de Deus, nos ajudem a encontrar o verdadeiro caminho; pessoas que por sua dedicação e experiência pessoal possam lançar alguma luz nesse emaranhado de caminhos que se entrecruzam e que a imensa maioria são sendas perdidas que não levam a lugar nenhum.

3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Senhor, mostra-nos teus caminhos!”
Nos leva a fazer a experiência do povo que peregrina no deserto, como João Batista. Para um coração que peregrina no deserto da vida, é essencial conhecer os caminhos do Espírito e os ventos da Graça.
De Deus viemos. Dele somos. Nele vivemos. Para Ele vamos. Peregrinos espertos em discernir rumos e encruzilhadas. Somos caravana que avança em êxodo continuado. Vida nômade, provisória.
Peregrinar sem morada permanente. Tenda ambulante, não casa sólida de pedra. Somos Pessoas de muitas tendas, de muitos acampamentos. Nada definitivo. Estado de itinerância evangélica, traço característico de Jesus e de todo seu seguidor. O mundo, nossa casa sem paredes. Caminhar em direção a Quem é sempre maior, rumo ao destino prometido.
Esta Palavra nos elva a fazer um caminho solidário: no caminho de cada pessoa estão presentes milhões e milhões de experiências de caminhos vividos e percorridos por incontáveis gerações. A missão de cada um é prolongar este caminho e vivê-lo tão intensamente que aprofunde o caminho recebido, endireite o caminho retorcido e ofereça aos futuros caminhantes um caminho enriquecido com suas pisadas.
Caminhamos juntos, acompanhados por Aquele que é o Caminho: “Emanuel, Deus conosco”.

4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, diante de João Batista, aquele que te precedeu, ofereço-lhe a minha “bagagem” bastante pesada, cheia de coisas que fui colhendo... Ofereço-lhe as experiências de vida vividas no amor, na alegria, na partilha, na solidariedade... ofereço- lhe também a dureza de coração, a insensibilize com o meu próximo. Senhor transforme a minha vida, ela é sua! Amém!

5 -  O que a Palavra me leva a viver?
A viver melhor, a fazer memória das maravilhas que o Senhor realizou na estrada da minha vida. Quero viver a gratidão, expressa através da alegria.

Fonte: Bíblia na linguagem de Deus – Mateus
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne


Leitura Orante  - Domingo 30 de dezembro de 2014

Advento:
Novo Despertar

Advento, não é somente um tempo litúrgico, mas toda uma atitude vital que atravessa toda nossa existência. Deus se aproxima de cada um de nós com um novo olhar e um novo apelo. Ele quer suscitar vibrações novas em nossa vida e sua presença instigante desperta em nós o grande desejo de entrar em sintonia com o seu coração.
Novo tempo, que pede de nós amplitude de visão e sensibilidade. 

Mc  13,33-37
“Cuidado! Ficai atentos, pois não sabeis quando chegará o momento. É como um homem que, ao viajar, deixou sua casa e confiou a responsabilidade a seus servos, a cada um sua tarefa, mandando que o porteiro ficasse vigiando. Vigiai, portanto, pois não sabeis quando o senhor da casa volta: à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer. Não aconteça que, vindo de repente, vos encontre dormindo. O que vos digo, digo a todos: vigiai!”

1 – O que este texto diz?
O texto nos pede para: “Ficai despertos!” “Vigiai!” “Tende os olhos abertos!”: são apelos para o início deste Advento.
A chave do relato do Evangelho está na atitude dos servos. Para provocar essa atitude, Jesus nos fala da chegada inesperada do dono da casa. Deus é Aquele que sempre está vindo. Ele é “o que vem”.
Se passarmos a vida adormecidos, nada acontece. Isto é o que deveria nos dar medo: poder transcorrer nossa existência sem ativar as possibilidades de plenitude que nos foram dadas.
Mas não basta ter os olhos abertos; é preciso ampliar a visão para além de nossos pequenos interesses e preocupações; precisamos também de mais luz.
Este texto chama atenção para o “Vigiai!” É o alerta de Jesus: “ficai preparados, portanto vigiai!” Há um grito que se repete na mensagem evangélica e se condensa numa única palavra: “Vigiai!” É um chamado a viver de maneira lúcida, um convite a manter desperta nossa resistência e rebeldia: a fazer a diferença, a olhar a realidade com olhos novos. No coração das pessoas existe muita bondade e ternura. Aprender a viver com o coração. Alegra-se com os que se alegram chorar com os que choram.

2 – O que o texto diz para mim?
Este texto nos diz que despertar é simplesmente abrir nossos olhos, cada dia, à luz que provém de Deus e confiar que tal luz transforme nossa maneira de ver; é preciso deixar que esta luz ilumine nossas sombras interiores, desvelando e trazendo à tona nossas aspirações e esperanças mais duradouras. Abrir os olhos à luz de Deus e escutar atônitos, fascinados, a voz divina que cada dia ressoa em nosso interior. Trata-se de estar despertos para assumir a vida com uma consciência lúcida. O amor, a inspiração, a vida, nos movem por dentro. Tudo o que esperamos já temos dentro de nós. Um dinamismo misterioso nos abre e nos atrai, nos impulsiona a ser, a viver. Basta “destravar” este impulso e nos deixemos levar. Advento é tempo que nos convida a abrir os corações, escutar o Espírito e pôr-se a caminho, enquanto “a luz da vida” nos ilumina.

3 – O que o texto me leva a experimentar?
A despertar e ativar um fogo novo em nosso interior; há algo importante, essencial na vida humana que ainda está adormecido; há uma dimensão existencial profunda onde é cada vez mais difícil a inteligência e a vontade terem acesso.
A despertar a experiência de um desejo interior com uma forte nostalgia de vida, de paz, de plenitude. O coração humano precisa escutar este desejo, não só como sede de terra seca, mas como uma palavra de vida, como o rumor de uma fonte de água viva. A colocar um novo ritmo em sua existência, que lhe permita estar atento e à escuta das surpresas que a vida desvela.
A vivenciar um tempo de espera, de paciência, de confiança em Deus que não só se revela na história, mas também na temporalidade. Deus é o que marca o ritmo do tempo, é Aquele que tem a iniciativa. A estar atento aos movimentos do Espírito e dos acontecimentos.
Acolher os momentos de Deus é estar preparado para o mais “inesperado”. A dinâmica da espera inclui a surpresa. Esta certeza forma parte central da experiência da fé.
A espera na gratuidade, sem pressas, sem ansiedade, porque sabe que tudo é dom e graça. Esperar é uma forma de viver. Esperar é ser fiel ao dinamismo profundo da vida, deixar-se levar simplesmente pelo Espírito que nos habita, o Espírito que tudo une e liberta, que tudo move e atrai. A espera, quando é carregada de amor e presença, faz crescer e conhecer regiões do coração até então desconhecidas e inexploradas.
“Despertar” também nos abre a uma sintonia, a uma relação profunda, com o universo que nos envolve, com os outros com quem convivemos, com o Criador que tudo sustenta. Poderíamos nos perguntar: o quê nos pede Deus em cada acontecimento e em cada situação da vida.
Esta é a maneira de entender e viver uma espiritualidade aberta a um “Deus sempre surpreendente”, sempre novo. Um Deus de quem tudo procede que habita nas criaturas, que trabalha por nós, que desce às nossas vidas e aos nossos tempos. Isto é contemplação, e que faz toda a diferença: talvez não transforme de imediato as dificuldades, os desafios, uma situação dura, mas, pode sim mudar a textura de nossos corações, a qualidade de nossas respostas, a profundidade de nossos sentimentos e pensamentos.

4 – O que o texto me leva a falar com Deus?
A agradecer a Deus pelo Advento que indica e ativa a “nova vida” que quer se fazer visível.
Agradecer pelo dia esperado que já está começando. Estamos apenas na aurora, mas os primeiros raios trazem a suavidade que enche o nosso coração.
Agradecer a esperança; com ela, damo-nos as mãos, colocamo-nos a caminho.
Agradecer a Maria, tenda humilde do Verbo, a nos converter em pessoas de esperança, abertas à novidade do Espírito, chegar a ser sentinelas do amanhã.
Vinde Senhor Jesus!

5 – O que o texto me leva a viver?
A viver o tempo do Advento que nos oferece uma oportunidade única de aprender a esperar e fazer da esperança nossa condição existencial. Somos, na medida que esperamos. Somos aquilo que esperamos ser. Por isso, o Advento pede vincular esperança e responsabilidade, justamente para dar mais consistência humana e maior sentido a esse futuro que está aberto à nossa frente, carregado de motivações e inspirações.

Fonte: Bíblia na linguagem de Deus – Mateus
            Pe. Adroaldo – reflexão do Evangelho
            Desenho: Osmar Koxne



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