CARTAS PAULINAS



Cartas de São Paulo
(Organização e tradução: Irmã Noemi Dariva, fsp)

ANÁLISE DA CARTA A FILÊMON                                   

A Carta a Filêmon é a mais breve e pessoal entre todas as cartas de Paulo. Ele encontra-se na prisão, provavelmente em Éfeso. O fato de Onésimo voltar com Tiquico (cf. Cl 4,7-9), faz supor que esta carta foi escrita na mesma data que a carta aos Colossenses. Filêmon parece ser membro importante da igreja de Colossas, talvez o líder do grupo que se reúne em sua casa. 

Trata-se de uma carta de recomendação em favor de Onésimo, um escravo que fugira de seu patrão, Filêmon, provavelmente após ter cometido algum roubo. Onésimo procura o apoio de Paulo, que está na prisão, e acaba convertendo-se ao cristianismo. Paulo manda-o de volta para Filêmon, pedindo a este que o trate como irmão. 

Certamente Paulo não pensava em fazer uma crítica à escravidão, comum em seu tempo, provocando assim uma revolução social. Os cristãos ainda não tinham força para exigir transformações estruturais na sociedade. Mas o apóstolo implicitamente declara que a estrutura vigente não é legítima. De fato, mostrando que as relações dentro da comunidade cristã devem ser fraternas, Paulo esvazia completamente o Estatuto da escravidão e a desigualdade entre as classes. Em Cristo todos são irmãos, com os mesmos direitos e deveres. E só Cristo é o Senhor. Não se trata, portanto, de um tratado teórico sobre a escravidão em geral, mas de resposta prática no tocante a um escravo particular. O próprio Paulo acha-se preso, mas, mesmo assim, consegue escrever a seu convertido, Filêmon, sobre Onésimo. Nesta carta mostra-se absolutamente importante o princípio cristão, pressuposto por Paulo, que o leva a pedir, e até mesmo, exigir a liberdade do escravo.

Onésimo seria um mero fugitivo, buscando liberdade, ou um mendigo pedindo asilo?  Se fosse escravo fugitivo, sem intenção de voltar, seria terrivelmente castigado, quando encontrado – chicotadas ou marcas de fogo, trabalhos forçados em minas ou em porões de navios –, a arena ou a cruz.  Se tivesse sido fugitivo, seria um suicídio viajar para perto das autoridades oficiais romanas e, pior ainda, procurar um prisioneiro romano como Paulo. Esse ato poria em perigo tanto ele como o apóstolo. É mais provável que fosse um mendigo, procurando asilo temporário. Havia duas opções aceitáveis nessa história, e em ambos os casos, as intenções do escravo eram decisivas sob a lei romana: 

A primeira opção seria fugir para o templo de algum deus. Segundo Sêneca, “Os escravos tinham o direito de se refugiar sob a estátua de algum deus.”

Outra opção seria fugir para junto de um amigo do proprietário. Foi o que fez Onésimo, ao fugir para junto do homem que convertera seu senhor a Cristo. Segundo o jurista Próclo, do início do primeiro século  d.C., não é fugitivo o escravo que, temendo castigo físico de seu senhor, procura um amigo a quem suplica que interceda em seu favor.

Filêmon,  o pobre proprietário do escravo não tem chances. Paulo emprega toda a sua  capacidade retórica para persuadi-lo  sobre o futuro de Onésimo. Como poderia recusar os apelos de Paulo? Paulo acentua sua condição de prisioneiro aguilhoado ao Evangelho por 

Jesus Cristo. É também velho (v. 9). Poderia, diz a Filêmon, “te ordenar o que convém”, mas prefere “pedir por amor” (vv. 8-9). Pede não por si mesmo mas por “meu filho Onésimo” ... “Meu próprio coração”... convertido a Cristo por Paulo, na prisão (vv.10-12). 

Avisa que logo irá visitar Filêmon. “Prepara-me também um alojamento” (v. 22). Sugere que a fuga de Onésimo bem poderia ter acontecido “a fim de que o recuperasse para sempre, não mais como escravo, mas bem melhor do que como escravo, como um irmão amado, muitíssimo para mim e tanto mais para ti, segundo a carne e segundo o Senhor” (vv. 15-16). Oferece-se para indenizar Filêmon por qualquer prejuízo causado por Onésimo (v. 9). E diz francamente: “Para não dizer que tu és também devedor de ti mesmo a mim!” (v. 19). 

Finalmente tudo isso é conduzido publicamente, não em caráter privado. No começo da carta, Paulo escreve não apenas a Filêmon, “nosso muito amado colaborador, à nossa irmã Ápia, ao nosso companheiro de armas, Arquipo, e à igreja que se reúne em tua casa (vv. 1-
2). No final, envia saudações não apenas de sua parte mas também de Epafras, meu companheiro de prisão em Cristo Jesus, de Marcos, Aristarco, Demos e Lucas, meus colaboradores (vv. 23-24). Todos estão vendo o que tu fazes, Filêmon.

Paulo nesta carta nada diz sobre a obediência devida por Onésimo, como escravo, a Filêmon, seu senhor, mas fornece inúmeras indicações  sobre a obediência que Onésimo lhe deve como um convertido por ele. Filêmon deveria libertar Onésimo voluntariamente. Eles são irmãos no Senhor. Teriam de ser irmãos também na carne. 

Paulo se refere aqui a apenas um caso, mas o princípio que o guia estende-se a todos os níveis do cristianismo. Sob Deus em Cristo, o primogênito do Pai, todos os cristãos são iguais como filhos da família divina.


Bibliografia 
CROSSAN, John Dominic e REED. L. Jonathan. Em busca de Paulo. São Paulo. Paulinas. 2007.
Bíblia Sagrada – Edição Pastoral. São Paulo. 1999.
Páginas de internet.


FÉ E LIBERDADE NA CARTA A FILÊMON
José Comblin

O tema da escravidão constitui o eixo central de toda a revelação bíblica. O êxodo, a escravidão na Babilônia, a permanência da escravidão nos impérios que dominaram o povo de Israel são os fatos que iluminam a Palavra de Deus.

O Novo Testamento é uma resposta à afirmação das autoridades judaicas: “Nós somos descendentes de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém” (Jo 8,33). As autoridades judaicas invocam a lei: a lei os salvou da escravidão. Aquele que se submete à lei, já não é escravo de ninguém.

Está claro que a discussão de Paulo com o judaísmo se refere a esta pretensão do setor que, naquele tempo, se proclama representativo do povo de Israel. Para Paulo, quem liberta da escravidão é a fé em Cristo e não a lei de Moisés.       

Sem dúvida, Paulo aprofunda a experiência da escravidão. Revela uma escravidão básica que é a escravidão dentro do próprio ser humano (Rm 6,7). Se a pessoa humana não se liberta de sua escravidão interna, que Paulo designa com a palavra pecado, tudo o mais é inútil. Nunca será realmente livre.

Esta escravidão interna da pessoa, que a impede de ser ela mesma e de fazer o que ela realmente quer, não se pode separar da forma social de escravidão. Paulo usa as mesmas palavras escravidão-liberdade para a escravidão interna e a escravidão social porque em seu modo de entender, são duas expressões de uma mesma realidade. A escravidão resulta da situação de pecado na qual vive a humanidade. A libertação da escravidão social não deixa a pessoa livre se esta não estiver livre em sua intimidade pessoal.    

A escravidão não está fora da perspectiva de Paulo, Ele a experimentava todos os dias e a cada momento pois, o mundo estava cheio de escravos. Paulo está muito consciente de que seu Evangelho de libertação se dirige em primeiro lugar aos escravos. É um Evangelho para os escravos. A libertação de Cristo muda radicalmente a condição de escravos.

Por isso a carta a Filêmon, tão pequena, não é somente uma resposta a um caso que aconteceu na vida de Paulo. É uma parte essencial de sua mensagem. O fato específico de Onésimo com Filêmon lhe deu a oportunidade de explicar melhor o alcance de seu Evangelho.

O Evangelho cristão não é uma “doutrina” que propõe a adesão intelectual. O que Paulo pede não é que  estejamos  de acordo com ele em sua doutrina mas que sua mensagem se torne vida. Disso compreendemos a importância da prática. Aqui Paulo teria a possibilidade de mostrar, na prática, o que significa o Evangelho.   

Todos os cristãos sabem que a fé não é sensivelmente o ato de aceitação intelectual de uma doutrina.  Também não é um ato global  de entrega de si a Cristo, seja de um modo abstrato ou como se fosse um movimento afetivo de adesão à pessoa de Cristo.  A fé é ato vivido na vida de cada dia, no encontro com o outro. É uma troca de atitudes, uma relação nova com o outro.  A fé consiste em deixar que Cristo viva em mim 

Por isso, a fé não consiste em fazer um discurso sobre a libertação dos escravos – isto as sociedades atuais fazem! -, mas em atuar de modo novo no encontro com o escravo, de um determinado escravo, por exemplo, Onésimo.

Por este motivo, a carta a Filêmon não é uma simples consulta moral; ela se dirige à “fé” de Filêmon (vv. 5 e 6). Diante de Onésimo, Filêmon  terá que fazer um ato de fé. Onésimo representa para Filêmon a chegada de Cristo e, portanto, um convite à fé.

O Evangelho de Paulo proclama: “Já não há nem grego, nem escravo, nem homem, nem mulher” (Gl 3,28). Não basta publicar isso em uma “Declaração dos Direitos Humanos”; também os criminosos assinam esta declaração. Trata-se de vivê-la na vida de cada dia, nos casos particulares da vida.

No passado, muitas vezes se interpretou o Evangelho de Paulo num sentido espiritualista. Dizia-se que aquilo que Paulo anunciava era simplesmente uma mudança puramente interior de atitude, uma fé puramente espiritual. Desta maneira, atribuía-se a Paulo uma teologia burguesa. O fato de pertencer à tradição judaica impedia que Paulo pensasse assim.

Nem os judeus, nem os primeiros cristãos separam alma e corpo como fizeram os filósofos gregos depois de Platão. Todo corpo é corporal e todo o corpo é espiritual. Portanto, o que acontece com a vinda de Cristo é uma mudança na atitude corporal: praticamente, na relação corporal, entre senhor e escravo, como entre homem e mulher ou judeu e grego.

Neste momento, chegamos ao grande paradoxo cristão: Anuncia-se o Reino de Deus, porém só existe, em forma de semente, no meio de um mundo injusto. O Reino da justiça só chegará no fim dos tempos. Como ser justo em um mundo injusto? Como ser justo no meio de estruturas injustas? Como dar liberdade a um escravo em um mundo baseado na escravidão? Este é o desafio permanente no qual vivem todos os cristãos, desde o começo, e viverão até a consumação dos séculos.

Que não se diga! Temos um mundo justo! Troquemos as estruturas para poder atuar em um mundo estruturalmente justo! Neste caso já não há nenhuma necessidade de conversão para praticar a justiça. A justiça seria espontânea. Todos praticariam a justiça  unanimemente.

A Escatologia cristã é tal que não proclama a chegada imediata de um mundo justo. Desmente previamente todo o anúncio de uma era do Aquário, todo messianismo celeste e histórico.

Os modernos acreditarão que, pelo triunfo da razão, poderiam estabelecer  neste mundo, o reino da justiça. De fato a colocaram em suas constituições, em suas proclamações, suas declarações, suas ideologias. Porém, não saiu dali. Permaneceu no papel.

O desafio é: Como viver em um mundo injusto ou pecador, tal  e como, nos disse Paulo? 

E não se trata de dar uma resposta abstrata, geral, que não é possível de aplicar na prática. Se poderia pensar: por que Paulo não proclamou a supressão da escravidão? Porém, diante de tal chamado, ninguém havia se sentido interpelado. Os nãocristãos, que eram cerca de 99%, não tinham ouvido nada. Os cristãos não sabiam o que fazer. Todos podiam dizer: aquele que está perto de mim não faz; por que eu teria que fazer? Então esta proclamação teria sido inútil. Ou melhor, teria dado a Paulo boa consciência. O que buscam tantos revolucionários de palavras: querem tranquilizar sua consciência e acreditam que as declarações solucionam este problema. Isto é uma fuga perante a realidade. 
Paulo propõe uma solução aplicável e que penetra no essencial. Pede a Filêmon que receba Onésimo como um irmão e não como um escravo. A relação humana vivida todos os dias teria mudado. 

Dar a liberdade ao escravo pode ser bom ou não, dependendo do que irá acontecer depois. Havia senhores que davam liberdade a seus escravos idosos, para não ter que lhes dar alimento, e a liberdade os permitia morrer de fome numa vida de mendigos. Havia em Roma milhares de mendigos que tinham sido libertados ou escravos que haviam fugido e viviam escondidos pedindo pão para não morrerem de fome.

Os escravos vinham de diferentes países, muito distantes. Regressar a seu País? Como saber se alguém os receberia?  O que teriam em seu País para poderem se manter? Será que sua família os reconheceria? O que mais faz falta a um escravo é sua família. Nunca haviam conhecido a liberdade em seu País de origem. Viviam na dependência de uma família e seu clã, e esta dependência lhes dava segurança e tranquilidade. O mais importante seria encontrar novamente uma  família. É o que Paulo sugere. Mais importante que uma liberdade formal, que se transforma numa pobreza total, é uma família acolhedora. 

Paulo propõe o possível, que é também o essencial: tratar o próximo como irmão. Dessa maneira desaparece  a realidade da escravidão. Paulo sabe que isto pode ser imitado pelos cristãos. Não propõe uma regra geral mas como algo que pode ser assumido por muitos. 

Seguindo esta sugestão de Paulo, Filêmon daria amostra  de que é possível praticar a justiça  em uma sociedade injusta. Não era possível mudar a sociedade, mas se poderia mudar o conteúdo humano, mudar as relações humanas concretas: viver como irmãos em uma sociedade de lobos. Este é o paradoxo da vida cristã. No fim as estruturas acabarão mudando. Mas não acabam por decreto, se as pessoas humanas não o fizerem.

O Evangelho  cristão é realista porque é popular. Não fogem até dos conceitos e dos discursos, como o fazem os grandes para ocultar sua prática na vida diária. É exigente porque muda as condições concretas da vida. Tratar Onésimo como irmão é deixar de lhe dar ordens, é dialogar com ele sobre a vida de sua família, estar com ele todo o tempo e levar em conta suas opiniões, assim como se faz entre irmãos. Não se trata de uma declaração teórica  de irmandade. Chama-nos a atenção que Paulo não ordena. (v. 9 e 10). Paulo anuncia o fim da lei. Não pode inventar leis novas. Se Filêmon o faz por obediência, não será obra de fé, será uma nova forma de escravidão. Paulo “tornaria” Filêmon seu escravo. Mais adiante diz que ninguém  deve impor  sua vontade a outro. Nem o Apóstolo se atreve  impor  a todos uma lei nova. A fé de Filêmon  se manifestará  no acolhimento espontâneo de Onésimo como irmão.  Se Onésimo soubesse  que Filêmon  o faz por obediência, não se sentiria acolhido como irmão.

A solução proposta por Paulo vale em outras circunstâncias?  Ele mesmo não sabe. Não quer fazer de sua carta uma lei.  Não quer dar uma norma para todos em todos os tempos.  Seria o contrário de seu evangelho. A mesma prudência literária  que usa, mostra claramente que não quer criar uma norma. Sabe que seu prestígio é tal que haverá uma tendência espontânea por fazer  de suas palavras leis novas. E isso é exatamente o que ele quer evitar.

O QUE ESTA CARTA NOS ENSINA É JUSTAMENTE ISSO: NÃO CRIAR LEIS. BUSCAR A MELHOR EXPRESSÃO DA FÉ EM CADA SITUAÇÃO HUMANA. Ao mesmo tempo, assumir os desafios da vida. Não deixar passar a oportunidade de anunciar o Evangelho em seu aspecto prático. Deu-nos uma extraordinária lição de evangelização!

COMUNIDADE E AUTORIDADE EM FILÊMON
Uwe Wagner

Resumo
O artigo parte da constatação de que Paulo, como apóstolo, possui uma forte autoridade em relação aos fiéis (v.8). Em Filêmon, contudo, ele abdica desta autoridade e prefere solicitar a liberdade de Onésimo “em nome do amor” (v. 8). O artigo entende que essa opção de Paulo não é mero discurso tático para condicionar melhor Filêmon à obediência (v. 21), mas sim que tem relação com a natureza  própria do amor gerado na fé: a fraternidade cristã é contrária às relações construídas na superioridade ou na submissão entre as pessoas. Caracterizar as relações de autoridade na carta a Filêmon é tarefa que necessita se fazer com um certo grau de insegurança, sobretudo, porque conhecemos exatamente as condições vigentes dentro da “igreja”, existente na casa de Filêmon (v. 2). Trata-se certamente de uma “igreja doméstica”. Algumas de suas características, se pode deduzir a partir de outras comunidades paulinas. Apesar disso, não é possível apresentar um perfil mais exato desta comunidade na casa de Filêmon, simplesmente por falta de dados mais concretos.


1. A autoridade apostólica que Paulo possuía
Na carta, Paulo não emprega o título “apóstolo”. Contudo, encontra-se nela evidências de que Paulo atuava como apóstolo, isto é, como alguém vocacionado pessoalmente (Gl 1,1.11-12; 1 Cor 1,1; 2Cor 1,1) e enviado pelo Senhor (Rm 1,5; 2Cor 5,20), Paulo tinha uma certa autoridade que exercia em relação às comunidades e que também podia exercer em relação a Filêmon. 

Disso temos prova sobretudo no v. 8 e, indiretamente, também na introdução no v. 1.
No v. 8, Paulo afirma que possui plena liberdade em Cristo para ordenar  a Filêmon aquilo que convém. O tipo de autoridade contida neste verbo ordenar (em grego: epitásso) fica claro quando  consideramos o verbo que lhe corresponde no versículo imediatamente  posterior, ou seja, solicitar: “prefiro, contudo, solicitar  em nome do amor... em favor de meu filho Onésimo” (v. 9-10). Uma solicitação procura levar em conta a liberdade da pessoa a quem solicita algo; a ordem apostólica, ao contrário, parece estar totalmente comprometida com a pessoa em nome de quem se ordena ou solicita, a saber, o Senhor da Igreja, Jesus. 

A ordem apostólica se orienta, portanto, mais por sua origem, e menos pelo seu destinatário. Daí seu caráter fortemente imperativo e parcialmente impositivo. É curioso que Paulo não usa  este verbo em nenhuma outra parte de seus escritos. Também o substantivo correspondente, ordem (em grego = epitage) só é usado por Paulo em relação a Jesus, não com ele mesmo (1Cor 7,6.25; 2Cor 8,81). Disto se deduz que Paulo entende sua autoridade para ordenar  como se fosse, na verdade,  a autoridade de Cristo, de quem é embaixador (2Cor 5,20).

Passagens como 2Cor 10,8 e 13,10 mostram que esse tipo de autoridade  apostólica está intimamente  relacionada com a tarefa da edificação das comunidades, contraposto à sua destruição. Em função desta edificação do corpo de Cristo nas várias células eclesiais, Paulo tem autoridade para exigir a obediência dos fiéis. É justamente neste sentido, neste que devemos entender seu propósito de” levar aos gentios a obediência da fé” (Rm 1,5; 6,16-17; 15, 18  cf. 16,19-26, como de “levar cativo o pensamento à obediência de Cristo”  (2Cor 10,5). Paulo  podia e sabia ser bastante áspero    quando o evangelho da fé e do amor de Cristo, pregado por ele, corria  perigo de ser adulterado ou desconsiderado nas comunidades.: cf. 1Cor 16,22; 2Cor 10,10-12; 13,10; Gl 1,8-9; 4,20 etc. Essa aspereza fez com que muitos de seus intérpretes  o caracterizassem como fortemente “autoritário” ou com sérias tendências à “intransigência”. 
É necessário se dar conta, por exemplo, que quando o apóstolo intervém em situações comunitárias, com firmeza, vigor e rigor cf. 2Cor 10,10-12; 13,10), ele, na verdade, não está defendendo sua autoridade pessoal, mas a validade do evangelho de Cristo. O evangelho era, na perspectiva de Paulo, algo demasiado precioso para que se menosprezasse ou adulterasse. Esse matiz da autoridade apostólica preservou o evangelho de Jesus  de ser simplesmente  diluído como um vaso entre outros mais ou menos iguais do mercado religioso de sua época. O exercício da autoridade apostólica, nesses casos, nos parece muito semelhante ao exercício da autoridade dos profetas do Antigo Testamento. Para ambos, a riqueza da fé e do amor é demasiado sagrada para cair à mercê da indiferença ou da falta de respeito. Não se dão as coisas santas aos cães, nem se joga as pérolas aos porcos, dizia Jesus (Mt 7,6). O aspecto impositivo da autoridade apostólica nos parece que quer preservar justamente o caráter sagrado do amor, da fé e da verdade em um mundo de indiferença, desamor, mentira e corrupção. Isto explica também suas palavras empregadas em relação a Filêmon no v. 21: “te escrevi, já que estou convencido de tua obediência”. Neste versículo,  a obediência de Filêmon não se refere primariamente àquela que ele deve ao próprio Paulo, senão àquela que ele deve à sua fé em Cristo Jesus e ao amor que resulta disso (cf. v. 5-7).

A segunda evidência de que Paulo escreve como “apóstolo” de Jesus, é a forma de sua apresentação no v. 1, que todavia, reaparece no v.9: Paulo se define como prisioneiro de Cristo Jesus. Este título quer indicar que se encontra na prisão por causa de sua pregação do evangelho de Cristo. O texto lhe dá uma autoridade apostólica na qualidade de uma pessoa fraca. Ele mesmo se explica em 2Cor 12,10: “pelo que sinto prazer, nas fraquezas, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco, então sou forte”. Paulo não se apresenta casualmente com o título de “prisioneiro de Cristo Jesus”. Recorda suas debilidades (cf. Cl 4,18) para dar maior autoridade à sua petição, uma vez que se identifica como um enviado fiel e comprometido com o evangelho. 

2. A autoridade apostólica que Paulo tem, mas a renuncia
Depois que sublinhou que, como apóstolo, teria a autoridade para dar ordens a Filêmon em relação a Onésimo (v. 8), Paulo afirma que antes seria seu desejo e agrado pedir ou solicitar (em grego, o verbo é: parakalo) (v. 9). Paulo, aparentemente, é de opinião de que não convém “dar ordens” a Filêmon. Talvez seja esta a razão de ter omitido o título “apóstolo” na introdução à carta, diferente do que fez em Rm 1,1 ou Gl 1,1, por exemplo. A pergunta que se nos apresenta é: por que o apóstolo, neste caso, prefere solicitar, ao invés de dar ordem?

Uma primeira resposta seria no sentido de supor que a “solicitação” do apóstolo é somente um recurso tático.  Com uma   “solicitação” ele valoriza mais Filêmon e o predispõe melhor para que  aceite o que Paulo deseja. Na verdade, embora, para ele, a solicitação não desejaria que fosse uma ordem, o que se comprova pelo recurso à obediência de Filêmon no v. 21 ( “te escrevi, porque estou certo de tua obediência”). Esta hipótese depende muito de como se interpreta o termo “obediência” do v. 21. Se se pressupõe a obediência ao apóstolo, realmente a solicitação a Filêmon poderia ser mero recurso tático. Porém, como já indicamos acima, pode-se entender também a obediência do v. 21, como foi referida a “obediência de fé” e ligá-la, diretamente, ao amor a Cristo (cf. Rm 1,5; 16,19; 2Cor 7,15; 9,13; 10,5, etc).

A probabilidade maior está em uma segunda hipótese. E esta parte da relação existente entre Paulo e Filêmon. Paulo caracteriza a Filêmon como um “irmão!” (v. 7. 20), uma pessoa “amada” (v. 1), um “cooperador” (v. 1), e “companheiro” (v. 17) na difusão do evangelho. Além disso, nos vv. 5-7, Paulo dá um testemunho muito claro sobre a utilidade que representa o amor e a fé de Filêmon para todos os fiéis da comunidade. Tudo isso indica: a relação fraterna e amorosa entre o apóstolo e Filêmon é o principal fator que inibe um tipo de exercício da autoridade impositiva entre ambos. Paulo não exige, mas solicita, porque esta é a forma de se tratar e se relacionar que convém a pessoas que se dizem e se consideram  irmãs umas das outras e que, por este fato, vivem em um regime de amor. Por isso, ele pede exatamente em nome do amor (v. 9). A autoridade impositiva é contrária às relações solidárias. Não se pode amar  “por obrigação” (v. 14).  A imposição da solidariedade consegue gerar mais justiça, mas não  conseguirá evitar  um aumento cruel  da frieza e da apatia  entre as pessoas.

Atuando da maneira como tem feito, Paulo oferece, a cada pessoa que acredita, um espaço de liberdade em sua atuação ética. Esta liberdade para uma decisão autônoma faz parte da natureza da fé. O apóstolo não pode ser o senhor sobre a fé das pessoas (2Cor 1,24), mas unicamente o Espírito. E, como “onde está o Espírito, existe liberdade” (2Cor 3,17), não faz sentido que o apóstolo decida por Filêmon! A propósito, Paulo dá testemunho,  praticamente, em todas as suas cartas a esse respeito pela liberdade a um juízo ético autônomo dos cristãos (cf. Rm 12,2; 14,21-23; 1Cor 11,28-29; 2Cor 13,5; Gl 6,4; Flp 1,9-10; 1Ts 5,21-22). 

3. Relações de autoridade entre Filêmon e Onésimo
Em Gl 3,28, Paulo havia declarado que em Jesus são abolidas as barreiras socioeconômicas entre senhores e escravos: “Já não há mais diferença entre.escravos e homens livres...”A justificação que se dá é que, pela fé, todos somos justificados em Jesus e aceitos por um mesmo Pai, o que nos faz todos irmãos e irmãs (Gl 3,26). A fraternidade destrói o regime da escravidão.

Em Filêmon se nota que Paulo está interessado em deixar claro que as velhas relações autoritárias, existentes entre Filêmon e seu antigo escravo Onésimo, mudaram radicalmente, uma vez assumida a fé cristã. As indicações apresentadas na carta nesta direção são as seguintes:

a) Assim como Paulo não usa, em Filêmon, o título de “apóstolo”,  para si, também não emprega  nenhuma vez o título de “senhor”, em relação a Filêmon.  Dentro da lógica da época, Filêmon era o “senhor” de seu escravo Onésimo. Na lógica da carta há somente um “Senhor de todos”,e este é Jesus (vv. 3.5.16.20.25).

b) A antiga autoridade de senhor sobre um escravo que Filêmon possuía sobre Onésimo, elimina-se pela fraternidade gerada através da fé. Paulo havia convertido Onésimo para o cristianismo na prisão (v. 10) e se considerava como seu pai/mãe na fé. Uma vez convertido à fé em Cristo, Onésimo se transformava em irmão de todos os cristãos, inclusive de Paulo e do próprio Filêmon (v. 16). Para o apóstolo isto significava que Onésimo já não poderia  regressar como ele mesmo  para a casa de seu antigo senhor. Na qualidade de cristão, ele não poderia regressar como escravo, e sim, “muito acima de escravo, como irmão queridíssimo, especialmente por mim,  e com maior razão, por ti...” (v.16). Cristo adapta as desigualdades; a fraternidade elimina as relações de autoritarismo entre as pessoas. 

c) A radicalidade da transforrmação  nas relações entre Filêmon e seu antigo escravo, aparece no fim do versículo 16. Neste, o apóstolo espera que Filêmon possa receber Onésimo como irmão, “no Senhor e na carne”. Recebê-lo como irmão no Senhor implica que, dentro da esfera eclesial, as relações passem de superioridade (Filêmon) e inferioridade (Onésimo) para a igualdade fraterna. Paulo deseja que Onésimo seja recebido também como “irmão na carne”, ele é mais pretensioso. Espera que esta igualdade na fé possa tornar-se realidade também na vida social e pública, ou seja, espera que Onésimo seja libertado de sua condição jurídica de escravo.

Quão implosivo, segundo Paulo, é  o regime de solidariedade, provocado pela fé contra as estruturas de autoridades seculares, transcende também do vers. 21b, no qual o apóstolo manifesta sua segurança de que Filêmon, como irmão de Paulo e, sobretudo,  de Onésimo, fará, contudo, mais do que ele está lhe solicitando. O apóstolo se mostra audaz em nome do amor. Mas não sem razão. Pois somente a liberdade jurídica  de um escravo, quando não era acompanhado de uma oferta, com condições para sobreviver  como livre, poderia facilmente colocá-lo em situação pior do que a anterior. Isto equivale a dar terra aos agricultores que não a possuíam, porém, sem oferecer-lhes simultaneamente uma estrutura de estradas para o transporte  e a venda dos produtos, dos subsídios agrícolas para a plantação, recolhidos  e  armazenados.  Expressando sua confiança de que Filêmon realize mais o que pediu, Paulo apela para que sua solidariedade seja criativa dentro da nova relação de igualdade, gerada a partir da fé.

Num sentido semelhante acreditamos poder interpretar também a preocupação de Paulo em quitar a dívida que Onésimo tem com Filêmon  (v. 18-19). Paulo intui muito bem que a lógica da dívida é a lógica da dependência e que esta última é o caminho mais usado pelo autoritarismo. O endividamento cerceia a liberdade seja de pessoas, seja de povos ou continentes. Uma relação igualitária entre Filêmon e Onésimo pressupõe que se quite a dívida de Onésimo. Sem quitar a dívida, a relação de autoridade não será recíproca entre irmãos (cf. Rm 1,11-12).
4. Comunidade e autoridade
O assunto da carta é um assunto pessoal. O interesse no assunto, todavia, é comunitário. Paulo, pelo menos, o entende assim. É por isso que ele não dirige sua carta unicamente a Filêmon, e sim também a Ápia, Arquipo e a toda a Igreja que se reúne na casa de Filêmon. Procedendo assim, Paulo consegue envolver a coletividade na questão particular entre Onésimo e seu senhor  Filêmon; ele dá ao assunto, por assim dizer, uma dimensão  de publicidade. Desta forma, convida-se a comunidade para julgar junto a Filêmon a proposta e solicitação do apóstolo. Este fato dá à comunidade uma maturidade e autoridade  que, algumas vezes, obstina-se em restringir a indivíduos  e a pessoas isoladas. Este fato é tão importante, quanto mais se percebe  que Filêmon, como pessoa, seguramente provocava muito respeito  nos fiéis  da comunidade de sua casa, sobretudo, em função do grande amor e serviço prestado aos santos do lugar (v. 5-7). Sua autoridade vinha de sua fidelidade e  abnegação. É possível que, como dono da casa anfitreã, exercesse também parcialmente uma liderança natural sobre os demais cristãos. Na qualidade de “cooperador” de Paulo e Timóteo e de “companheiro” de Paulo (v. 1.17) podemos pressupor que Filêmon  tinha, inclusive,  tarefas de evangelização em sua localidade ou em sua região. Apesar de tudo isso, Paulo não restringe sua carta a essa pessoa, mas a destina  à coletividade eclesial. A comunidade não é ignorante para o apóstolo! Por estar animada pelo Espírito Santo (Cor 2,6-16), ela tem, em princípio, o mesmo poder de julgar e de avaliar – ou seja, a mesma autoridade – que Filêmon.

Merece destacar a referência à irmã Ápia na introdução  desta carta. Em outras cartas suas, o apóstolo se refere às mulheres na metade ou no final do que escreve. A citação  do nome de uma mulher no prefácio e saudação inicial de uma carta, é algo inédito em Paulo. Ele dificilmente se explica; talvez porque Apia eventualmente fosse a esposa de Filêmon, o que de qualquer forma não é seguro. A menção de Apia se deve provavelmente ao fato de  que ela, como mulher, desempenha, ao lado de Filêmon e de Arquipo, um papel destacado na comunidade. Bortolini constata a grande mudança que se estabeleceu  na participação das mulheres  com  a deslocação das celebrações, das sinagogas para as igrejas domésticas: “nas sinagogas, elas não possuíam  nenhuma força  ou liderança. De fato, para constituir uma comunidade sinagogal, era necessário um determinado número de homens. As mulheres, por mais numerosas que fossem, não chegavam a representar um homem. Nas casas, as coisas eram diferentes: as mulheres assumiam um papel decisivo  na liderança da comunidade”. De forma semelhante, se manifesta Cañaveral: “Apia é aqui o símbolo da igualdade e a presença das mulheres nas  assembleias cristãs, como irmã e companheira; com nome e identidade próprias. Ela está presente no mesmo lugar dos grandes missionários e testemunhas de Cristo Jesus.”
                                             
5. Autoridade partilhada: Paulo e seus cooperadores/as no Evangelho
Um último aspecto sobre o qual gostaríamos de chamar a atenção, refere-se ao grande número de cooperadores citados em Filêmon. Paulo não é o autor exclusivo da carta. Timóteo é seu  segundo autor. Da mesma forma, o apóstolo não é o único que envia suas saudações no final da carta. Menciona como seus cooperadores Epafras, Marcos, Aristarco, Demas e Lucas.

A menção deste grande número de cooperadores/as no evangelho mostra que o apóstolo não tem nenhum interesse em centralizar  o poder e a autoridade que Jesus lhe conferiu como ministro e embaixador de seu evangelho. O poder do evangelho quer ser, no seu entender, um poder compartilhado e dividido entre vários irmãos e irmãs. Isto vem de sua segurança de que, apesar de que muitos possam plantar e regar, o crescimento vem unicamente de Deus (1Cor 3,6-7). A respeito disso, escreve Bortolini: “Como se pode ver, Paulo é um agente de pastoral  que sabe trabalhar em equipe. Isto se comprova pelo fato de que  Paulo quer comprometer  imediatamente Onésimo com o grupo de ação pastoral, e pelos nomes dos colaboradores que mandam e recebem saudações em suas cartas. Além disso, os nomes de seus colaboradores revelam que sua equipe  não tem fronteiras: alguns são judeus, outros são pagãos. Uma equipe internacional, porém fraterna e solidária.

Bibliografia     
BORTOLINI, José. A carta a Filêmon. Em Cristo todos são irmãos. São Paulo, Paulus, 1955.
BRANIK, Vincent. A Igreja doméstica nos escritos de Paulo. São Paulo, Paulus, 1994.
CASTILLO, José Maria. O discernimento cristão. Em busca de uma consciência crítica. São Paulo, Paulinas, 1989.    
CAÑAVERAL, Anibal. Carta a Filêmon. Bogotá, CEDEBI, 1995.
COMBLIN, José. Epístola aos Colossenses e Epístola a Filêmon. Petrópolis/São Bernardo do Campo/São Leopoldo,Vozes/Metodista/Sinodal, 1986.      
HAINZ, Josef. Ekklesia. Strukturen paulinisher Gemeinde-Theologie und Gemeinde-Ordnung. Regensburg, Friedrich Pustet, 1972.     
HARNISCH, wolfgang. “Toleranz im Denken des Paulus?”. In: Evangelische Theologie, Gütersloh,1996, p. 64-82.
MARTIN, Ralph. Colossenses e Filêmon. São Paulo, Vida Nova, 1984.
PETERSEN, Norman R. Rediscovering Paul. Philemon and the Sociology of Paul’s narrative Word. Philadelphia, Fortress, 1985.
STUHLMACHER, Peter. Der Brief an Philemon. Neukirchen, Neukirchener Verlag, 1975.
PAULO, FILÊMON, ÁPIA E ONÉSIMO – LUTA POR UMA CASA (OIKOS) NO CAMPO
Anibal Cañaveral Orozco

A leitura campesina da Carta de são Paulo a Filêmon, tem como finalidade, com todo o respeito e fidelidade às recomendações dos irmãos e das Irmãs biblistas e, ao mesmo texto, ser uma aproximação da carta a partir do rosto excluído, desfigurado, escravizado, desprezado, desaparecido, massacrado e assassinado do camponês colombiano e latino-americano; mas também, a partir do rosto vivo, resistente, lutador e cheio de sonhos e esperanças deste mesmo campesinado. Tal aproximação se propõe a partir da casa e da cozinha, tendo em conta outras maneiras próximas e profundas ao modo de ser dos camponeses, ao horizonte de sua cosmovisão, ao profundo de suas culturas, à experiência simbólica de Deus em sua vida, ao sentir e sonhar a esperança e a utopia que brota como a planta depois que o camponês e a camponesa abriram a terra e colocaram ali a semente. Então emerge terna, pequena e bela a vida, como um amanhecer campestre. Assim é o despertar bíblico que está acontecendo em nossos campos, quando como campesinos(as) nos aproximamos para ler com o coração esta carta de São Paulo a Filêmon. 

Introdução:
Mesmo tendo vivido a experiência  investigativa da menor carta de São Paulo, La Carta a Filêmon, cujo fruto foi o comentário bíblico intitulado “Carta a Filêmon”. Uma resposta aos anseios de liberdade, deixaram ardendo em  meu coração muitas interrogações e desafios em razão de como chegar ao  universo campesino, à interpretação das cartas de São Paulo, marcadas por uma experiência predominantemente urbana. É evidente, que é muito difícil fazer uma hermenêutica campesina própria, a partir de nosso ser e sentir de pessoas campesinas, num encontro e diálogo afetivos com um Paulo da cidade, urbano em suas caminhadas, e também outras vezes viajante e caminhante pelas estradas do Império Romano. Porém, é tremendamente certo que sacerdotes, pastores(as) e biblistas, se fizeram a interpretação das cartas de São Paulo ao campesinado daqui ou de lá, a maioria das vezes sem ser campesinos ou campesinas. Desde pequeno lembro-me que na paróquia católica de meu povo, foram muitos os sacerdotes que nos liam e interpretavam São Paulo. Mas depois nos levaram para uma “Hermenêutica bíblica” que não era campesina. E hoje nos perguntamos: Que contribuições nos deixaram todas essas interpretações em favor da vida campesina?

Ao mesmo tempo chegava a época do império do Neoliberalismo, da globalização da economia, da abertura das fronteiras e leis de mercado, da tecnologia e da informática, das telecomunicações planetárias, da exclusão mais selvagem e brutal do capitalismo, da morte decretada e desaparecimento do campesinado, além e no centro da América Latina. Lá na minha cidade natal, e em muitas outras, realizavam a leitura e a interpretação das cartas de São Paulo, cada oito dias (aos domingos), na Eucaristia.

1995 foi como que um ano de graça para reler campesinamente a carta de São Paulo a Filêmon com motivo do III Encontro Continental de Animação bíblica, realizado em Medellin, Colômbia, do dia 14 ao dia 22 de julho.

O presente trabalho tem a finalidade de recolher, a partir de uma perspectiva campesina (colombiana), respeitando muitas outras, a interpretação campesina da carta de São Paulo a Filêmon que floresceu no Encontro e nos posteriores frutos que estamos colhendo.

1.A escravidão neoliberal de hoje
1.1.Campesinos e campesinas sem terra
Partindo do fato de que as pessoas campesinas (nós) mostramos pouco interesse pelas estatísticas, omito colocar cifras neste brutal despojo da terra, para dedicar-me melhor às notícias, comentários e sinais evidentes que se escuta e vê quando percorre muitas zonas rurais da Colômbia.

Assim como Paulo recebia as notícias na prisão do que ocorria na casa (oikos) de Filêmon, as pessoas campesinas ouviam dizer pelas pessoas vizinhas que as ruas estavam ficando vazias, que as famílias estavam indo para o povoado ou para a cidade, que a cada semana havia mais casas desocupadas. A gente percebe isto quando vai pelos caminhos campesinos: muitas casas desabitadas, muitas oikos campesinas vazias. As pessoas têm saudades e tristeza da ausência e a separação daqueles que tiveram que partir. As razões são muitas. Ali, onde todavia não há conflito das forças armadas, algumas talvez (desemprego, miséria, pobreza, dívidas, ausência de serviço, deterioração da terra, baixo preço dos produtos, carestia de outros, sonho da sociedade de consumo, perda das colheitas, violência familiar etc.)  Tem acontecido também que eles não têm terra porque os grandes donos de terra e os narcotraficantes se apropriaram delas, porque são diaristas que vão de região em região à procura de trabalho); pois a pouca terra que possuem não lhes dá para viver e preferem vendê-la; porque o sistema educativo força seus filhos e filhas a decidir abandonar o campo e mudar-se para a cidade; estas entre outras muitas razões.

Mas onde estiver o conflito armado (exército, guerrilhas, narcotráfico, paramilitares e as “convivir” (1)) as razões serão outras. A situação é pior. São povos, casas e campos desocupados violentamente, arrasados pelos bombardeios do exército, massacrados por algumas forças ou por outras (oficiais e privadas). As notícias são as dos meios de comunicação, muitas vezes manipuladas, distorcidas e manipuladas pelos organismos de segurança. Entre os vizinhos predomina o silêncio, lógica de sobrevivência em um meio onde não se pode pronunciar uma palavra. O medo, o temor e o terror fazem com que a população do campo mude apavorada e sem nada para qualquer lugar. Um milhão de deslocados pela violência e pela guerra foi uma informação dada pela Anistia Intenacional. 
As “convivir” são a nova expressão do Evangelho da morte nos campos colombianos. 

As “CONVIVIR”, definido na Colômbia como Cooperativas de Vigilância e Segurança Privada para autodefesa da terra,  foram uma resposta oficial para fornecer um novo quadro jurídico para a defesa dos proprietários, e a fim de vencer a criminalidade no campo e na cidade, mas depois  se converteram em forças violadoras dos direitos humanos. Foram regulamentados por Ernesto Samper. Havia quase 700 associações na Colômbia.
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1.2.Morte da casa de campo e desintegração da família
O chamado “progresso” ou “desenvolvimento” desta sociedade neoliberal vem tentando contra a “casa” como símbolo da vida cotidiana e da união familiar. A casa transformou-se física e simbolicamente. Ela deixou de ser o lugar de encontro dos avós/avôs, padres, mães e pais, filhos e filhas, irmãos e irmãs, tios e tias, primos e primas... para converter-se em lugar de desencontro, em lugar de indivíduos e de estranhos.
A casa campesina, outrora convertida em casa de vida, edificada com os materiais e produtos próprios da região, passou a ser construída com materiais das grandes empresas transnacionais. Seus cimentos religiosos, sociais, políticos, econômicos e antropológicos, modificaram profundamente suas antigas referências e acolheram as desta sociedade neoliberal.

A dispensa econômica, anos atrás, cheia de milho, banana, mandioca, feijão e frutas, foi trocada por carnes congeladas, produtos industrializados, refrescos químicos e muito mais produtos importados. Passamos da dispensa  orgânica, natural e própria, para a dispensa transnacional e química, que não valoriza aquilo que é próprio, que nos faz sentir vergonha de nossos produtos caseiros, que os assassina de mil maneiras.

A casa foi bombardeada pelos meios de comunicação, a propaganda e a distração que promovem o sistema matou o lugar mais vital e mais querido: a cozinha, onde se partilha a vida desde a pessoa mais anciã até a criancinha. Ao calor do fogão se acrescentava o calor humano e familiar, a acolhida do forasteiro e do visitante, a solidariedade com o mais necessitado, a saúde do enfermo e a memória dos antepassados falecidos. A casa era o lugar do “ágape familiar” por excelência, de onde se participava da comida que Deus abençoava e providenciava cada dia mediante o esforço e do trabalho material e familiar.

Era o compartilhamento pleno da vida, onde cabiam todas as dimensões da vida. A cozinha era símbolo da simplicidade, da espontaneidade e da gratuidade da vida. Assentos, pedras e troncos de madeira ou até o próprio piso (chão normalmente de terra), estavam dispostos de maneira que a família se sentasse para comer e dialogar. Os avós contavam as  histórias, mitos e lendas do campo (dimensão cronológica e cultural). As mães ensinavam as orações e falavam de Deus aos pequenos (dimensão religiosa). Os homens contavam as experiências que haviam tido no mercado do povo (dimensão econômica). Os compadres e as comadres dialogavam sobre os assuntos políticos do povo e de seus organizadores (dimensão política). A família expressava e vivia muitos sentimentos (dimensão afetiva). A cozinha era o pilar dos moradores do campo, isto é, aquela expressão ou maneira de viver a família em comunhão consigo mesma e com os vizinhos próximos do entorno geográfico. Era mais do que o lugar onde se cozinhava os alimentos. Era o lugar de convocação à vida de toda a família. 

A família se desintegrou e a casa no seu sentido mais humano também. Alguém dizia: “É muito difícil encontrar uma família completa no campo”. Houve pais de família que foram assassinados pelo exército, a guerrilha ou os paramilitares, deixando a esposa, seus filhos e filhas na orfandade. Houve filhos que o exército forçou a combater os próprios irmãos campesinos e que morreram defendendo uma causa alheia. Houve jovens campesinos que fugiram com as guerrilhas, às vezes forçados pelo desemprego ou a ausência de um futuro claro. Houve mulheres que, maltratadas e grávidas tiveram que sair e lutar pela vida, pela causa de um sistema machista. Houve jovens que foram para o colégio do povoado e jamais retornaram ao campo. Houve famílias ameaçadas que tiveram que escapar da noite para o dia... Poderíamos continuar falando deste esvaziamento do campo rural colombiano e Latino- americano.

1.3.Relações opostas e conflitantes
A sociedade colombiana e latino-americana  se rege por um código de relações  opostas e conflitantes, as quais vão destruindo e modificando as relações campesinas já faz tempo e implantando de maneira sistemática a destruição total das relações de vida, como consequência da política de globalização neoliberal, que hoje impede que pensemos e construamos os laços culturais que marcaram, por muito tempo, a vida campesina.
Vejamos algumas características não muito distantes e semelhantes àquelas que identificaram o império romano, e aparecem claramente ao situarmos contextualmente hoje a carta de São Paulo a Filêmon; e que foram o resultado da releitura que as comunidades campesinas fizeram desta carta.

1.3.1.Relação homem-mulher
A figura, a presença de Ápia como a irmã na carta a Filêmon ajudou-nos a aprofundar as relações homem-mulher que se dão no campo. 

Tão histórico como atual, a base desta relação está num poderoso sistema machista que margina, oprime, exclui e escraviza as mulheres campesinas. Muitas de nossas culturas campesinas vivem cotidianamente esta relação, vista, às vezes, como necessária e normal por muitos homens e mulheres também. A mulher campesina é obrigada a uma difícil e apertada situação no fogão, a casa e a família. Tantas mulheres têm que enfrentar em suas vidas  os papéis de homem e mulher ao mesmo tempo. São aquelas que conseguem, além da subsistência econômica delas e de seus filhos, também a educação dos mesmos.

Trata-se de uma situação conflitante que põe em condição de superioridade ao homem e de inferioridade a mulher. O sistema que desde séculos e séculos encarnou-se no mais profundo das culturas, encobre e ajuda os homens a camuflar suas ações machistas, impedindo serem visualizadas claramente pela sociedade. Então as instituições sociais, econômicas, e religiosas se contagiam de um refinado machismo, sutil ao extremo, que fala em favor da promoção de algumas figuras femininas nos altos setores da sociedade, tão machistas, exploradoras e dominadoras como os próprios homens.
Embora a nota predominante no campo continue sendo este sistema machista, existe esforços e frutos esperançosos de muitas mulheres e alguns homens sensíveis, que buscam superar aquele sistema de morte e mostrar novas relações de igualdade, respeito, amor e fraternidade.

Gostaria de transcrever para uma perspectiva das “Ápias” campesinas de hoje, um parágrafo a respeito de sua contribuição no processo das Comunidades Campesinas Cristãs (CCC): “mujeridad” é a constatação histórica mais integradora e inclusiva da “muchedumbre” (multitud) de mulheres campesinas (meninas, jovens, solteiras, em união livre, mães de família, religiosas e avós) que caminharam na frente no processo de CCC e da Igreja dos Pobres, e que continuam sendo o mulherio das Comunidades Campesinas Cristãs, a vida e a esperança deste projeto de Igrejas e nova sociedade, nos campos e nas cidades.”

1.3.2.Relação diarista-patrão
Os vínculos de Onésimo com Filêmon na carta a Filêmon nos ajudou a aprofundar as relações diarista-patrão que se dão no campo. 

Os campos sofreram uma transformação ao longo da história. Ali existiram as relações diarista-patrão, cujas implicações abarcam muitas dimensões da vida da pessoa jornaleira. Jornaleiro, em termos sociológicos, podemos dizer que é aquele que não tem terra, ou tem somente uma pequena terra, que, para sobreviver, tem que vender sua capacidade de trabalho produtivo (jornal) a outro que se enriquece quase sempre, pois é quem assume a plusvalia do trabalho, enquanto a pessoa diarista se empobrece cada vez mais. A história do latifúndio está muito ligada à exploração diarista, pois os donos das terras submeteram e espremeram a vida de muitos campesinos diaristas. Tal submissão chegou a extremos como, por exemplo, ver estes patrões como bons, justos, bondosos e salvadores. Houve tal grau de alienação da consciência campesina, a ponto de o patrão ser considerado como meu deusinho, é o padrinho do menino ou da menina do diarista, é o chefe e faz calar a todos, é o bom patrão porque dá presentes e festas, é homem justo porque dá esmola e contribui para a Igreja.

Hoje Onésimo é um símbolo coletivo em tantos diaristas campesinos, vítimas dos donos das terras e patrões que a sociedade e a Igreja muitas vezes  confundem, identificam e santificam como filemons bondosos, caritativos e justos, porque dão esmola aos campesinos pobres. Filemons deste tipo não estão no caminho de Jesus, nem na prática que Paulo exigiu delicadamente de Filêmon que possuía Onésimo como escravo. Aquele caminho estava cimentado no amor, na conversão, na igualdade, na justiça, na solidariedade e na caridade.

Os amos, como o foi primeiramente Filêmon, avarentos e exploradores de hoje são grupos econômicos fortes que chupam até a última gota de sangue dos campesinos. São as grandes internacionais que pertencem ao campo com seus grandes megaprojetos de hidroelétricas, canais interoceânicos, caminhões etc. e tiram violentamente milhares de famílias de suas terras, submetendo-as a condições de vida sub-humanas. São as grandes gremiações econômicas dos países latino-americanos que cada ano celebram os milhares e milhões de ganâncias que produzem suas empresas e negócios, fruto do saque dos recursos naturais, a exploração de seus trabalhadores, a modernização tecnológica de suas companhias nacionais e internacionais, a usura e a circulação mundial de seus capitais. Os filêmons avarentos são também os que contratam ou manejam em pequena mão de obra jornaleira, convertidos em pequenos patrões, aproveitadores da força de seus trabalhadores. Filêmons deste estilo são os que têm mentalidade capitalista, que sonham e comungam com o sonho neoliberal.

1.3.3.Relação bancos-campesinos
Em meu comentário à carta a Filêmon, falava-se da questão da dívida na carta de São Paulo a Filêmon. Embora se trate de uma realidade apresentada em dois versículos (18 e 19), tem um grande significado para a “hermenêutica campesina”, pois o campesinado arca com uma pesada dívida que lhe impuseram os bancos (carga agrária e BANCAFÉ, no caso colombiano). Os créditos ou empréstimos aos campesinos pioraram a situação, obrigando-os a trabalhar para pagar os interessados, ou no pior caso, ver arrematadas suas propriedades e porções delas pelas entidades credoras.

2.Eixos hermenêuticos para uma leitura campesina da carta de São Paulo a Filêmon 
A partir de minha experiência de campesino que lavrei e revolvi a terra, creio que existem outras maneiras de sentir, contemplar, experimentar, imaginar, sonhar, ler e estudar o texto bíblico. O saber e o pensar campesinos passam por canais muito inesperados pela razão ocidental, a qual fica limitada como mediação para o encontro afetivo do campesino com a Palavra de Deus. Para a lógica racional que nos vem do ocidente, certamente lhe devemos muito e isto com certeza temos que valorizar, mas não podemos cair no convencimento da ausência de outras lógicas e outros caminhos, nem tampouco acreditar que o único que merece confiança, legítimo e acertado é o método científico racional.

2.1.Eixo do coração e da afetividade
Para o campesinado é mais vital encontrar-se com este texto bíblico, pelo caminho dos sentimentos, da afetividade, do coração, do que pela via da razão. O texto está carregado de sentimentos. Alegria, emoção, saudações, acolhimento, recebimento, hospitalidade, amor, consolo, animação e encontro perpassam, do princípio ao fim, esta carta. Um campesino pode vibrar profundamente e mergulhar seu ser neste texto pelas veredas dos sentimentos.

Francisco Reyes escreve: 
“O campesino quando revolve a terra, entra em um diálogo de profundo respeito por ela; e através de suas mãos, o campesino transmite (entrar) seus sentimentos, seus sonhos, seus pensamentos, suas preocupações; com a ilusão de poder pegar os frutos necessários para alimentar-se. Assim mesmo, pela via dos sentimentos, o texto entra no coração do campesino e sai transformado afetivamente.

2.2.Eixo do simbolo campesino 
O símbolo representa um dos principais pilares da Hermenêutica Campesina, pois é portador das mais ricas e profundas experiências de vida (humanas e religiosas) de nosso mundo campesino. Desde o amanhecer nossa vida é como uma sinfonia simbólica no campo. Estamos rodeados de símbolos desde o nascimento até a velhice. Sendo as pessoas também símbolos entre os símbolos.

Na carta a Filêmon é símbolo o nome. Em todo o campo tem nomes até o menorzinho (pessoas, plantas, animais, lugares, ferramentas, utensílios, rios, montanhas, estradas etc.). 

O símbolo a mulher, porque é reconhecida em termos de igualdade diante das estruturas patriarcais missionárias da época, onde os homens não as consideravam dignas de ser lembradas nos cabeçalhos das cartas, como protagonistas da revolução eclesial feminina e feminista no coração das igrejas. A irmã Ápia, deste texto bíblico, é símbolo das incontáveis Apias campesinas que transcendem aquela condição social de ser esposas encerradas em sua cozinha, submetidas por seus companheiros machistas a trabalhos domésticos, de ser filhas e irmãs de pais e irmãos que lhes negam a possibilidade e o direito de ser elas mesmas, de realizar-se como pessoas comprometidas com causas maiores.

É símbolo a casa (oikos) campesina como expressão de vida da família e da comunidade, de todas as formas de vida, de ecologia, dizemos hoje, ante a brutal e louca destruição ecológica que vivemos nos campos e cidades latino-americanas.

É símbolo a comunidade de irmãos e irmãs, em reunião ecumênica pela graça de Deus e do Senhor Jesus Cristo.

São símbolos os corpos dos encarcerados, das mulheres, dos lutadores, dos escravos, dos anciãos, das crianças, dos endividados, dos despojados hoje...

É símbolo a cama, o alojamento, a hospedaria, a comida, e a acolhida no campo, quando chegam pessoas de longe ou forasteiras.

É símbolo a oração, a contemplação de Deus que abençoa e derrama sua graça na terra, na família, na comunidade.

2.3.Eixo do valor do pequeno e da contemplação
Tanto a exegese como a hermenêutica campesina precisam ser abordadas a partir desta perspectiva. Valorizar o pequeno supõe uma atitude de vida, de muita contemplação de Deus na criação. Assim, a carta de São Paulo a Filêmon, é sentida como a menor das cartas, mas de um conteúdo e uma síntese surpreendentemente viva e cheia de esperança.

2.4.Eixo da relacionalidade
A partir das cosmovisões campesinas, a carta mencionada, aponta uns tecidos (teias de aranhas) de relações, constelações de símbolos e linguagens, como quando eu contemplava os conjuntos de estrelas no firmamento quando eu era pequeno. O campo todo está relacionado entre si. Também a carta aponta para uma relacionalidade (transversalidade) das diversas hermenêuticas.

2.5.Eixo dos valores campesinos
Sem dúvida alguma, aqui temos uma chave fabulosa de leitura para que, como campesinos, possamos interpretar esta carta. Nossos valores campesinos precisam ser fortalecidos, recuperados e alimentados pela mensagem de vida e esperança que encontramos na carta de São Paulo a Filêmon. Como Comunidades Campesinas Cristãs e Organizações campesinas, cabe a nós, a partir de dentro, fortalecer o nosso, o próprio, o cultural que temos.

2.6.Eixo teológico campesino
Estamos vivendo neste fim de século e às portas do Terceiro Milênio, uma crise radical no campo rural latino-americano. “A encruzilhada da humanidade”, dizia-nos recentemente um economista do campo, porque o capitalismo está passando por uma etapa de superprodução de tudo. A mercadoria corre e chega até o último rincão do mundo. Existe a fome e é contraditório que haja abundância, porém a produção se perde e apodrece nos armazéns do sistema. Então este sistema neoliberal transporta seu Deus e sua religião em toda a parte. E ambos penetram na consciência do povo até os tutanos, fazendo-os sonhar e suspirar por um modelo de sociedade consumista e destruidora da vida.

Então nos perguntamos: Onde está Deus? Onde está o Deus de Jesus? Onde está o Deus que experimentava Paulo e a comunidade que se reunia na casa de Filêmon? A partir da perspectiva campesina, a carta nos revela um Deus  Pai e Mãe, comunitário, familiar, feminino, vivo, companheiro, solidário, alegre, campesino, hospitaleiro, ecumênico consolador, denunciador das dívidas e afetivo. “Na carta, todas as coisas falam de Deus e, em última instância, se referem a Ele.” De igual maneira, tudo nos fala de Deus no campo e o sentimos presente em toda a Criação, na oikos Campesina, tão ameaçada e destruída.
Deus está em nossos pequenos esforços em resistir, em nos organizarmos, para formar comunidades cristãs, em gerar alternativas econômicas, em desenvolver práticas agro-ecológicas, em opor-nos à contaminação e ao envenenamento de nossa mãe terra, com produtos químicos, em construir vidas a partir de nossos trabalhos, em procurar novas relações de fraternidade. Sentimos que Deus nos acompanha e nos fortalece nesta construção de nossa Casa Campesina.

BIBLIOGRAFIA
Anibal Cañaveral. Carta a Filêmon – Una respuesta a lãs ânsias de libertad:  CEDEBI, 1995.
Memoria III Encuentro Continental de Animación Bíblica: Programa Común de Biblia de La REDLA, Julio de 1995.
Anibal Cañaveral, op. Cit., p.89.
Anibal Cañaveral. “Los sentidos teológicos em La historia de las Comunidades Campesinas Cristianas”. En: Prática, n. 17 (Sueños de vida y esperanza; cosecha desde el caminar y sentir de las Comunidades Campesinas Cristianas)   (jul. 1997). Bogotá: Dimensión Educativa, p. 159.
Anibal Cañaveral. Op. Cit. p. 32,34,35,37,41,49,67,77,89,90.
Francisco Reyes. Hagamos vida La Palabra, aportes para una lectura comunitaria de La Biblia. Bogotá: CEDEBI, 1997, p. 25.


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Introdução às Cartas de Paulo
O conjunto das Cartas Paulinas compreende um total de treze Cartas que reivindicam a paternidade do Apóstolo Paulo. A ordem em que se encontram no cânon bíblico não reflete a data em que foram escritas, mas foram organizadas segundo a sua extensão.

Alguns procuram agrupar as Cartas do seguinte modo:
a) Cartas maiores: Romanos,1-2 Coríntios, Gálatas e 1-2 Tessalonicenses.
b) Cartas da prisão: Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemon.
c) Cartas pastorais: 1-2 Timóteo e Tito

Outra classificação pode ser feita a partir da possível autoria das mesmas:
a) Cartas Proto-Paulinas: que seguramente são autênticas, isto é, que são de autoria do Apóstolo Paulo, e que são aceitas por todos os estudiosos: Romanos, 1-2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filemon.
b) Cartas Deutero-Paulinas: são aquelas cuja autenticidade não é segura ou é negada por certo número de estudiosos: Efésios, Colossenses e 2 Tessalonicenses.
c) Cartas Trito-Paulinas: 1-2 Timóteo e Tito. Essas dificilmente seriam do Apóstolo Paulo, pois usam uma linguagem diversa e tratam de problemas que existiam nas comunidades no final do I século.

É certo que algumas Cartas de Paulo foram perdidas. Em 1Cor 5,9 já se fala de uma Primeira Carta aos Coríntios. Em Cl 4,16, Paulo se refere a uma Carta escrita aos cristãos de Laodicéia. E temos ainda a famosa “Cartas em lágrimas” aos Coríntios (2Cor 2,4). Alguns estudiosos afirmam também que a Carta aos Filipenses é um conjunto de vários bilhetes. E também que a 2Cor é um ajuntamento de várias cartas, enviadas em datas diferentes.
Outro aspecto interessante é o de que as cartas não foram escritas do próprio punho do Apóstolo. Ele as ditava (cf. Rm 16,22) e às vezes assinava (cf. Gl 6,11). Talvez a carta a Filemon tenha sido o único escrito com sua própria mão.
Uma constante nas cartas de Paulo é a afirmação que ele faz da sua vocação. Por várias vezes lembra que o seu ser apóstolo de Jesus Cristo é sinal primordial da intervenção divina na sua vida. À missão de evangelizar os gentios ele se dedica por inteiro e busca formas novas, através das cartas, de se fazer presente junto às comunidades fundadas por ele como missionário itinerante. Escrever era a forma de manter viva a fé das comunidades, porque Paulo não podia estar em todas elas ao mesmo tempo. Isso tudo para que o evangelho seja anunciado.
O núcleo da mensagem de Paulo em todas as suas cartas é o Kerigma cristão, ou seja, o anúncio da morte e ressurreição de Jesus. Toda a teologia paulina é gerada a partir do evento da cruz, sinal de escândalo, portanto, de fraqueza, transformado em princípio de salvação e ressurreição. Portanto, para compreender Paulo é importantíssimo considerarmos a crucificação de Jesus, sua morte e ressurreição.
Paulo é um escritor que anuncia o Evangelho, ou melhor, é um missionário que escreve. Ele é poeta e culto, mas para fazer-se compreender usa palavras simples e profundas. Todas as suas cartas são portanto, como que geradas do seu coração. E assim Paulo deixa transparecer em cada palavra que escreve sua paixão por Jesus e pelo seu povo.  
Capítulo V
Breve comentário das Cartas Paulinas


Romanos
Quando Paulo esteve em Roma?
Provavelmente entre 61 e 62, prisioneiro e deportado para o tribunal do imperador, onde foi martirizado por volta do ano 67.
Onde foi escrita?
Em Corinto (inverno de 55\56).
Como era a comunidade?
Formada de cristãos vindos da Palestina e da Síria, provavelmente expulsos pelo imperador Cláudio, no ano 49.
Qual a finalidade da carta?
Corrigir certas interpretações a respeito da pregação de Paulo entre os pagãos, provavelmente levadas a Roma por judeus e por cristãos judaizantes. O apóstolo expõe de maneira serena e organizada o que já havia exposto em Gl – A gratuidade da salvação vem pela fé – ele opõe o Cristo Justiça de Deus ao Cristo da justiça que os homens pretendiam merecer por seus próprios esforços. Paulo diz que a morte e ressurreição de Jesus operaram a destruição da humanidade antiga, viciada pelo pecado de Adão e a recriação de uma humanidade nova, da qual Jesus Cristo é o protótipo.
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1 Coríntios
Quando Paulo esteve em Corinto?
Paulo chega à Corinto em abril de 50, após ter passado por Atenas e lá volta outras vezes.
Onde foi a carta foi escrita?
Provavelmente na Páscoa de 54
Como era a comunidade?
A comunidade situava-se em Corinto, que era uma cidade portuária e grande centro comercial, com população pluralista e composta de cidadãos romanos e escravos. Tinha tendências e religiões romanas, egípcias e gregas. A comunidade foi fundada na casa de Priscila e Áquila, artesãos de couro, com os quais Paulo deve ter trabalhado. Na comunidade havia várias classes sociais, a maioria era gente pobre, sobretudo escravos. Por isso, a comunidade era predisposta para a divisão, sobretudo pela diversidade cultural e econômica, o que causava muita competição.
Qual a finalidade da carta?
Trata de problemas vividos pela comunidade, informações e decisões cruciais para o cristianismo primitivo, tanto em sua vida interior – pureza dos costumes, matrimônio e virgindade, ordem das assembléias e celebração eucarística, uso dos carismas – como também o relacionamento como o mundo pagão – apelo aos tribunais, carnes oferecidas aos ídolos etc. Lembra em que consiste a verdadeira liberdade da vida cristã, a santificação do corpo, a diversidade dos carismas, o primado da caridade, que é o sustentáculo da comunidade, a união a Cristo.
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2 Coríntios
Onde a carta foi escrita?
Em Éfeso, por volta de 55.
Qual a finalidade da carta?
Paulo defende o seu apostolado, diante daqueles que queriam afastar a comunidade de Paulo, alegando que ele não era apóstolo e portanto, que sua mensagem não merecia a consideração dos coríntios. Por essa razão, Paulo descreve a grandeza do ministério apostólico e também discorre sobre o tema concreto da coleta para a Igreja de Jerusalém, inspirado pelo ideal de união entre as igrejas.
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Gálatas
Quando Paulo esteve na Galácia?
Paulo esteve na Galácia em sua primeira viagem missionária (por volta dos anos 46 a 48), na segunda viagem, na primavera de 52 e talvez outras duas vezes.
Onde a carta foi escrita?
Em Éfeso ou na Macedônia entre 54 e 55.
Como era a comunidade?
A Galácia é uma região da Ásia Menor, e a comunidade lá auxiliou Paulo quando estava enfermo. Por isso, Paulo tinha pelos Gálatas um grande afeto, se sentido pai e mãe daquela comunidade. Mas, correntes judaizantes quiseram ridicularizar e se posicionar contra a pregação de Paulo também na comunidade da Galácia.

Qual a finalidade da carta?
Gálatas representa um grito que parte do coração de Paulo, no qual a apologia pessoal se justapõe à argumentação doutrinal e às advertências que ela faz à comunidade. Paulo demonstra indignação e defende seu apostolado. É uma argumentação vibrante em prol da liberdade cristã e universalidade da Igreja. A carta aos Gálatas é muitas vezes citada na carta aos Romanos.
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Filipenses
Quando Paulo esteve em Filipos?
Paulo chega a Filipos durante sua segunda viagem, entre 48 e 49 e lá retorna duas vezes na terceira viagem. Ao chegar à cidade, ele não vai à sinagoga, como era o seu costume, mas fala às mulheres que estavam nas margens do Rio rezando.
Onde a carta foi escrita?
Quando Paulo estava preso em Éfeso (anos 55\57) ou em Roma (anos 61\62).
Como era a comunidade?
Filipos era um importante centro comercial entre o Oriente e o Ocidente, até ser conquistada por Roma em 42 a.C. Uma cidade onde viviam muitos oficiais romanos, de religiões derivadas dos cultos gregos (como a deusa Ísis) e dos cultos romanos (deuses Júpiter, Mercúrio, Minerva e Diana). A comunidade é fundada na casa de Lídia, que ao escutar a pregação de Paulo convida-o e a seus companheiros a se hospedarem na casa dela, se eles a considerassem digna da mensagem que acabaram de anunciar.
Qual a finalidade da carta?
A comunidade de Filipos é considerada a comunidade amada por Paulo, é a única comunidade da qual Paulo aceita receber algum auxílio também material. Por isso, ele escreve para agradecer a ajuda enviada pela comunidade enquanto ele estava preso. Aproveita para advertir contra algumas situações de competição existentes na comunidade e previne contra os pregadores judaizantes ao relembrar que a autenticidade do Evangelho vivido e anunciado pelos cristãos está na cruz de Cristo.
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1 Tessalonicenses
Quando Paulo esteve em Tessalônica?
A Tessalônica foi evangelizada na segunda viagem de Paulo, do outono de 49 à primavera de 50. De lá, Paulo saiu fugido para Atenas e Corinto. O apóstolo deve também ter retornado a essa comunidade no verão de 54 e na primavera de 55, após os dissabores de Corinto e Éfeso.
Onde a carta foi escrita?
Em Corinto, durante o verão de 51.
Como era a comunidade?
Tessalônica era um importantíssimo ponto comercial, pois além de estar na rota da via Inácia (Ignatia), tinha um ótimo porto aberto para o mar Egeu. Supõe-se que os membros da comunidade fossem todos provenientes de escravos e da classe de pequenos comerciantes, que mal tinham com o que viver. O próprio ambiente de trabalho freqüentado por Paulo pode ter sido tão pobre quanto o do trabalho escravo. Do ponto de vista da religião havia as divindades romanas e locais.
Qual a finalidade da carta?
Dar instruções sobre a Parusia (acreditavam que haveria uma segunda vinda de Cristo) e enviar boas notícias aos tessalonicenses. É considerada uma carta escatológica, onde Paulo adverte à comunidade a ter calma em ralação à Parusia e ao mesmo tempo ser vigilante. Nesta etapa primitiva do seu apostolado, Paulo encontra-se todo concentrado na Ressurreição de Cristo e na sua vinda na glória, que trará a Salvação aos que tiverem acreditado nele.
A primeira carta deixa entrever que era uma igreja jovem e fervorosa, firme no meio dos sofrimentos. Ela nos diz algo sobre as crenças dos cristãos uns vinte anos depois da ascensão: a Trindade, Deus como Pai, a missão de Jesus Messias, sua morte, ressurreição e futuro retorno, as três virtudes, fé, esperança e caridade.
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Filemon
É uma carta à um Cristão de Colossas (Filemon) que era um cristão de boa posição e que tinha um escravo fugido: Onésimo.
Onde a carta foi escrita?
Na prisão de Roma entre 61 e 63
Qual a finalidade da carta?
Expressa o dilema entre o Evangelho levado às últimas conseqüências, de não se tornar somente uma lei, nem insensível aos dilemas humanos. Paulo acredita que o Evangelho pode mudar as relações entre as pessoas, por isso, escreve à Filemon (provavelmente convertido pelo apóstolo) para aceitar novamente Onésimo, que ele havia encontrado na prisão e que, provavelmente havia pedido a intervenção de Paulo e fosse perdoado pelo patrão. Paulo então, pede a Filêmon que aceite Onésimo não mais como escravo, mas como irmão.
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Deutero paulinas – Os erros combatidos são posteriores a Paulo e pertencem mais à idéias gnósticas do século II.
Colossenses
Quando Paulo esteve em Colossas?
Fundada por volta do ano 53, por um nativo que Paulo havia batizado e evangelizado em Éfeso.
Onde foi escrita?
Na prisão de Roma (61 a 63)
Como era a comunidade?
Composta da miscigenação de cultos mistérios com ritos e veneração a divindades gregas. A comunidade durou apenas 7 anos, pois no ano 60, antes da morte de Paulo, foi atingida por um terremoto e desapareceu.

Qual a finalidade da carta?
Carta cristológica. O principal problema da comunidade foi um erro de interpretação causado pelo sincretismo religioso. Procuravam experiências exóticas e fortes e a presença de vários mestres. O autor desenvolve a centralidade de Jesus Cristo, cabeça da Igreja. Ele incorpora pessoas à sua morte e ressurreição.
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Efésios

Quando Paulo esteve em Éfeso?
Depois de passar pelas comunidades da Galácia, chegou a Éfeso em 52. Foi preso no verão de 54 e retornou em 55.
Onde a carta foi escrita?
Na prisão de Roma (61 a 63)
Como era a comunidade?
A comunidade situava-se numa cidade portuária, com muitos edifícios, entre os quais se destacava o templo dedicado à deusa Artemis. A comunidade de Éfeso já existia antes da chegada de Paulo. Uma florescente comunidade cristã, de pagãos convertidos.
Qual a finalidade da carta?
Carta eclesiólógica. Deus revela seu plano por Jesus Cristo, desenvolvido na Igreja, que é povo de Deus e esposa do Messias e já não espera a Parusia, mas se empenha no constante crescimento.
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Tardias
2 Tessalonicenses
1 Timóteo e 2 Timóteo
Tito