terça-feira, 25 de agosto de 2020

Leitura Orante – 22º DOMINGO TEMPO COMUM, 30 de Agosto de 2020

 

Leitura Orante – 22º DOMINGO TEMPO COMUM, 30 de Agosto de 2020


NA VIDA DE JESUS, A CRUZ REVELA SEU SENTIDO


“Que aproveitará o homem ganhar o mundo inteiro 

se arruinar sua vida?” (Mt 16,26)



Texto Bíblico: Mateus 16,21-27



1 – O que diz o texto?

O evangelho deste domingo é continuação daquele do domingo passado; também hoje, Jesus e seus discípulos se encontram em Cesaréia de Filipe, fora do território da Palestina. O que Mateus relata da boca de Jesus, nem sequer é aceitável para os seus seguidores. Jesus tinha acabado de felicitar a Pedro por expressar pensamentos divinos. Agora o critica duramente por pensar como os homens. A diferença é enorme e só umas linhas de distância, no mesmo evangelho. 


Como Pedro, também nós, seguidores de Jesus, ficamos escandalizados com a cruz. Nenhum de nós teria escolhido para Jesus esse caminho. Onde fica a imagem do Messias vitorioso, Senhor ou Filho de Deus?


Apesar das palavras de Pedro, no domingo passado, sua atitude diante do anúncio da paixão e morte de Jesus demonstra que, nem ele e nem os outros discípulos, entenderam o que significava a pessoa e a missão do Mestre de Nazaré. Queriam segui-lo, mas sem as consequências do seguimento. 


Para compreender Jesus, é preciso deixar de pensar como os homens e começar a pensar como Deus; é deixar de ajustar-nos a este mundo e entrar em sintonia com o modo original de ser e de viver do próprio Jesus; é transformar-nos pela renovação da mente e abertura do coração. 


Para aceitar a mensagem de Jesus, temos de mudar radicalmente nossa imagem de Deus.


Quê significado tem para nós, hoje, a morte de Jesus na Cruz? Não é fácil entrar na dinâmica da Cruz. Mas, por outra parte, é impossível compreender a mensagem de Jesus sem compreender a Cruz. Ela é expressão de uma vida doada; por isso se converteu no “sinal chave de nosso seguimento”.


A vida é constantemente chamada a ser Páscoa. Porque, só na vitória da vida entregue, ela ganha sentido, avança, como uma torrente que rega terras secas, ávidas de água, como um fogo que, na noite mais escura, traz uma luz que permite vislumbrar a vida oculta.


A vida é movimento e, portanto, energia expansiva. Podemos consumi-la em benefício do ego (falso eu) e então vem o fracasso. Podemos reorientá-la em benefício dos outros e da causa do Reino; e então, consumá-la, dando-lhe plenitude. Pois, só uma vida consumada faz fecunda a morte. 


Alguém já teve a ousadia de afirmar que a morte é mais universal que a vida; todos morrem, mas nem todos sabem viver, porque incapazes de reinventar a vida no seu cotidiano. Por isso, viver é uma arte; é necessário recriar a vida no dia-a-dia, carregá-la de sentido.


A morte do falso eu é a condição para que a verdadeira vida se libere. 


O “depois da vida” é um grande encontro onde seremos perguntados: “o quanto você viveu sua vida?”



2 – O que o texto diz para mim?

De fato, aqueles que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança do conhecido e se dedicam apaixonadamente à missão de comunicar vida aos outros. Ter apego à própria vida é destruir-se; entregar a vida por amor não é frustrá-la, mas levá-la à sua completude. Aqui há uma inversão na lógica natural das coisas; se ganha quando perde, vive-se quando morre, multiplica-se quando divide.


Estranhas atitudes estas que Jesus propõe, tão contrárias em uma cultura como a minha que me apresenta a apropriação e a acumulação como meta da existência. Ele, imperturbável, apresenta sua alternativa: perder, vender, dar, deixar, não armazenar, não reter avidamente, desapropriar-se, esvaziar-se, partilhar...


Perder-ganhar, morrer-viver, entregar-reter, doar-receber..., parecem dimensões ou realidades contraditórias, mas captar a profundidade da verdade contida nesta “contradição aparente” é descobrir o Evangelho.


“Morrer”, “perder”, “entregar”, “renunciar”... é este instante de ruptura, onde toda uma vida incubada, trabalhada no silêncio e no sofrimento, marcada de alegrias e tristezas, vitórias e fracassos, desponta luminosa para a vida eterna. Pois vida é um contínuo despedir-se e partir; ela me desaloja de meus “lugares estreitos” e me faz caminhar em direção a novos horizontes. 


A vida aumenta quando compartilha e se atrofia quando permanece no isolamento e na comodidade.


A morte do falso eu é a condição para que a verdadeira Vida se liberte. É preciso passar pela morte do que é terreno, caduco, transitório (aderências afetivas, apegos desordenados...) para deixar emergir a vida interior, a vida divina, a vida de Deus em mim. 


O essencial não é encontrar um caminho para alcançar a imortalidade, mas aprender a “morrer em Cristo”. 



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?

Como Jesus encarou a Cruz? Ele não buscou a cruz pela cruz. Buscou a fidelidade à sua missão que consistia em evitar a proliferação de cruzes, para si mesmo e para os outros. Pregou e viveu o amor e revelou as condições necessárias para que esse amor se tornasse realidade nas relações entre as pessoas. 


Jesus anunciou a boa nova da Vida e do Amor e se entregou por ela. Quem ama e serve não cria cruzes para os outros; é o egocentrismo e a maldade que geram cruzes. 


A realidade, dividida e conflituosa, se fechou à proposta de Vida apresentada por Jesus, impondo-lhe cruzes em seu caminho e finalmente O levantou no madeiro da Cruz.


Nela mesma, a cruz é aquilo que limita a vida (as cruzes da vida), que nos faz sofrer e dificulta nosso caminhar, por causa da má vontade humana (carregar a cruz de cada dia); ela é a corporificação do ódio, da violência e da exclusão humana. Mas Jesus continuou amando, apesar do ódio; continuou investindo sua vida a serviço da vida, apesar da cultura de morte na qual se encontrava. Assumiu a cruz em sinal de fidelidade para com o Pai e para com os seres humanos. Por isso, na vida de Jesus a Cruz é salvífica.


Nesse sentido, a cruz de Jesus não é um “peso morto”; ela tem sentido porque é consequência de uma opção radical em favor do Reino. A Cruz não significa passividade e resignação; ela nasce de sua vida plena e transbordante; ela resume, concentra, radicaliza, condensa o significado de uma vida vivida por Jesus na fidelidade ao Pai que quer que todos vivam intensamente. 



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?

Senhor, “renunciar a si mesmo” e “carregar a própria cruz”, é entrar em sintonia e comunhão com Jesus, assumindo, com seu mesmo espírito, os sofrimentos que se seguem a uma adesão concreta e responsável à sua pessoa e à sua causa. É este seguimento fiel que me introduz na cruz genuína d’Aquele que foi fiel até o fim.


A partir desta atitude de seguimento preciso entender esse “renunciar a si mesmo” que Jesus pede ao discípulo. “Renunciar a si mesmo” não significa mortificar-se, castigar-se a si mesmo e, menos ainda, anular-se ou autodestruir-se. Nunca se deve confundir a cruz com atuações masoquistas, nunca alimentadas por Jesus. “Renunciar a si mesmo” é descentrar-se, sair de seus próprios interesses, para fixar a existência na pessoa de Jesus, a quem deseja seguir. É libertar-se de si mesmo para aderir radicalmente a Ele.


A mortificação tem um lugar importante na vida de quem segue a Jesus. Não qualquer mortificação, mas aquela que vai libertando a pessoa de seu egocentrismo, de sua comodidade ou de sua covardia para seguir mais fielmente a Ele. Buscar sofrimento para “agradar a Deus” não tem sentido; é tortura inútil, que alimenta meu “ego” e me afunda numa espiritualidade doentia.


A cruz tem sentido quando é consequência de uma opção autêntica de vida em favor da vida: por exemplo, quando sofro por levar adiante uma causa justa, por defender as pessoas que são vítimas das estruturas sociais, políticas e econômicas injustas, por assumir a radicalidade na vivência do amor, lutando contra toda expressão de ódio, preconceito, intolerância..., por evitar o mal e denunciar uma injustiça, etc.


A cruz salva quando aponta para a vida.



5 – O que a Palavra me leva a viver?

“Fazer memória” de tantas mulheres e homens que se associaram à Cruz de Jesus, na solidariedade com os pobres, na fidelidade à vida evangélica, na descida aos porões das contradições sociais e políticas, às realidades inóspitas, aos terrenos contaminados e difíceis, às periferias insalubres, onde os excluídos deste mundo lutam por sobreviver. Ali se encontraram com o Crucificado, o “Justo e Santo”, identificado com os crucificados da história.

- Recordar as cruzes que apareceram na minha vida por causa da fidelidade ao Evangelho.



Fonte: 

Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 16,21-27

Pe. Adroaldo Palaoro, sj 



Sugestão: 

Música: O amor é agora – fx 07

Autor: Padre Fábio de Melo

Intérprete: Padre Fábio de Melo

CD: Saudades do céu

Gravadora: Paulinas Comep

Duração: 04:14







terça-feira, 18 de agosto de 2020

Leitura Orante – 21º DOMINGO TEMPO COMUM, 23 de Agosto de 2020


    Leitura Orante – 21º DOMINGO TEMPO COMUM, 23 de Agosto de 2020


A SOLIDEZ EM NOSSA VIDA


“Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (Mt 16,13)



Texto Bíblico: Mateus 16,13-20



1 – O que diz o texto?

Outra vez Jesus se retira com seus discípulos, agora para a região de Cesareia de Filipe. Vão tratar assuntos que ultrapassam à problemática estritamente judaica; por isso, Mateus situa a cena em outro território, fora do espaço onde prevalece uma concepção do Messias estritamente nacionalista, para dar a entender que Jesus está aberto a outros povos. 


De fato, Jesus entrou em conflito com a religião judaica e suas instituições (sinagoga, templo de Jerusalém). 


Ele não foi sacerdote, nem funcionário do Templo, nem ostentou cargo algum relacionado com a religião; não foi um mestre da Lei; Jesus foi um leigo. Fugiu de todo poder, e se preocupou especialmente em cuidar das pessoas mais pobres e marginalizadas. Não se preocupou em fundar estritamente uma religião. 


Cercou-se de pessoas, mulheres e homens, dispostos a continuar seu caminho, anunciando a mensagem do Reino de Deus, proclamando as bem-aventuranças como projeto humanizador, denunciando as opressões e injustiças e tornando realidade a salvação do Deus Pai e Mãe. 


Este grupo de homens e mulheres acompanha Jesus em todas as partes, fazendo com Ele vida itinerante; mas também encontramos um grupo mais amplo de pessoas que, vivendo em suas casas e continuando em suas tarefas, são, no entanto, discípulos de Jesus, apoiando-o, recebendo-o, seguindo-o. Todos eles formam o “movimento de Jesus”.


No evangelho deste domingo é a primeira vez que encontramos o termo “Igreja” para determinar a nova comunidade dos seguidores de Jesus. Mateus utiliza a palavra que na tradução dos setenta se emprega para designar a assembleia (“eklesia”). 


Evidentemente, Jesus não “instituiu” nenhuma “estrutura eclesial” propriamente dita: uma doutrina, uma liturgia, um governo... Jesus pôs em marcha um movimento de vida, que, através de muitas circunstâncias e vicissitude históricas, desembocará em comunidades organizadas e, muito mais tarde, em uma Igreja centralizada.


Jesus começou atuando sozinho, mas logo reuniu um grupo de discípulos em torno a si. Assim fizeram os grandes mestres na história da humanidade: Buda, Confúcio, Sócrates...


Professar nossa adesão à pessoa de Jesus de Nazaré é entrar no movimento de vida iniciado por Ele, em torno à sua pessoa e à sua mensagem que cura e liberta de toda escravidão e dominação. 


Também nós nos sentimos e queremos ser discípulos de Jesus. É o Reino de Deus que nos congrega que reforça vínculos e nos faz comunidade. 


Seu movimento nos impulsiona e queremos impulsioná-lo. Move-nos a alegria, muitas vezes oculta, da mesma boa notícia e a esperança difícil do Reino de Deus. 


Somos Igreja de Jesus. Mas, como é a “Igreja” que Jesus quis? É, antes de tudo, comunidade de pessoas, homens e mulheres que vão amadurecendo no seguimento d’Ele. E é comunidade totalmente aberta ao mundo, casa onde todos encontram lugar de acolhida e comunhão; uma “igreja em saída”. 


O que é radicalmente contrário ao Evangelho da fraternidade é o sectarismo, o fanatismo, o fechamento diante da realidade desafiante e a discriminação de toda e qualquer pessoa.



2 – O que o texto diz para mim?

Também hoje, Jesus se dirige a mim com a mesma pergunta que um dia fez aos seus discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Ele não me pergunta para saber a minha  resposta teológica sobre a identidade d’Ele, mas para que revejo minha relação com Ele. Que posso lhe responder a partir de minhas comunidades? Sou seguidora da pessoa de Jesus ou só seguidora de uma determinada religião, doutrinas, normas, leis? Conheço cada vez melhor a Jesus, ou O fecho em meus velhos esquemas doutrinários de sempre? Sou comunidade viva, interessada em colocar Jesus no centro de minha vida e de minhas atividades, ou vivo estancada na rotina e na mediocridade?


Diante da pergunta de Jesus – “E vós, quem dizeis que eu sou?” – o Evangelho deste domingo realça a resposta de Pedro e a missão que Jesus lhe confere. Pedro é instigado a entrar no fluxo do amor-serviço do Mestre; e isso não pode ser confundido com “transferência de poder”. Pior ainda é quando confundo o “poder das chaves” com a “chave do poder”. Quem tem a chave tem o poder.


Nenhum exercício do poder é evangélico; muito menos o “poder religioso”. Não há nada mais contrário à mensagem de Jesus que o poder. Jesus não transfere “poder” a Pedro; reforça nele a liderança para o cuidado e o serviço aos outros. Nenhum ser humano é mais que outro, nem está acima do outro. “Não chameis a ninguém de pai, não chameis a ninguém chefe, não chameis a ninguém senhor, porque todos vós sois irmãos”. A única autoridade que Jesus admite é o serviço.


Jesus não exerceu poder porque o poder nunca é mediação para a libertação do ser humano (seja poder político, religioso, ou qualquer outra expressão de poder).


Jesus despoja-se do poder; Ele tem autoridade: “ensinava-lhes com autoridade e não como os escribas”. Sua autoridade é caminho para o serviço e a promoção da vida.


Por isso a autoridade de Jesus não tem nada a ver com o poder que domina ou a liderança que se impõe.


Jesus tem “autoridade” porque o “centro” está no outro; Ele veio para servir. Jesus tem autoridade porque ativa a autoria e a autonomia no outro; sua autoridade desperta o melhor que há em cada pessoa; ela não cria dependência e nem tira do outro a capacidade de dar direção à sua própria vida.


Quem tem “poder”, ao contrário, o centro está em si mesmo; por isso é que toda expressão de poder é violenta, exclui, impõe-se ao outro, decide por ele... O poder alimenta dependência e submissão.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?

O olhar profundo de Jesus levará Pedro também a se conectar com seu ser mais profundo (aquilo que é mais sólido), com sua realidade mais verdadeira, com os desejos de seu coração ainda não configurados pelo amor. Quando Jesus fixa o olhar em Simão, seus olhos descobrem no interior deste homem um nome escondido (Pedro), e ao pronunciá-lo, possibilita-lhe despertar essa vocação já inscrita no mais profundo de seu ser. Aqui começa para Pedro uma nova história, que já não será narrada por ele sozinha, mas em comunhão com Jesus, entre idas e vindas, fragilidades e fortalezas, tentativas no amor e fracassos...


Nas itinerância de Jesus, Pedro foi convidado a “fazer caminho com Ele”, começando pelo próprio interior; impactado pela ternura cuidadosa de Jesus em sua vida, Pedro irá sendo conduzido a descobrir-se, a ser cada vez mais consciente de si mesmo e adentrar-se por rotas novas de liberdade, de vida, de entrega...



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?

Mateus faz um sugestivo jogo de palavras entre dois nomes gregos comuns: “petros” (pedra) e “petra” (rocha). “Petros” tem o significado de pedra comum, pedregulho, sem consistência; “petra”, por sua vez, significa rocha, pedra sólida sobre a qual se assenta um edifício. “Tu és petros e sobre esta petra...”


Aparece, então, a comparação-oposição entre a fragilidade e a pequenez da pedra frente à segurança e robustez da rocha. Pedro é “pedra” em sua fragilidade humana, mas é “rocha” em sua manifestação de fé. A rocha não é a pessoa de Pedro, mas a fé de Pedro. Sobre essa rocha-fé de Pedro Jesus deseja edificar sua comunidade de seguidores.


Nesse sentido, o Evangelho de hoje também me ajuda a ler minha vida. Ali se afirma também a minha identidade; e a minha identidade se revela por aquilo que é sólido, consistente... no meu interior, que não se desfaz com as adversidades do mundo no qual vivo (crises, fracassos...).


Toda pessoa possui dentro de si uma profundidade que é seu mistério íntimo e pessoal. Sobre essa “rocha” construir minha maneira de seguir a Jesus.



5 – O que a Palavra me leva a viver?

Devo aprender a olhar a vida e as pessoas como Jesus as olhava, ou seja, um olhar capaz de vislumbrar o mais humano e mais divino em cada um, um olhar que faz emergir a rocha consistente, sobre a qual construir um estilo de vida, à maneira de Jesus.

- Ao me sentir olhada por Jesus, como Pedro, eu sou capaz de vislumbrar outros dons, recursos, capacidades... do meu próprio interior e que darão a solidez à minha própria vida? O que é “petra” no meu interior?



Fonte: 

Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 16,13-20

Pe. Adroaldo Palaoro, sj 



Sugestão: 

Música: Dizem que sou missionário – fx 05

Autor: Pe. Zezinho, scj

Intérprete: Ricardo Moreno

CD: Discípulos e missionários

Gravadora: Paulinas Comep

Duração: 02:08




quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Leitura Orante – ASSUNÇÃO DE MARIA, 16 de Agosto de 2020

 

Leitura Orante – ASSUNÇÃO DE MARIA, 16 de Agosto de 2020

ASSUNÇÃO DE MARIA: plenitude do seu “ser visitante”

“Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa”  (Lc 1,56)


Texto Bíblico: Lucas 1,39-56


1 – O que diz o texto?

Descobrimos o sentido da Assunção de Maria não tanto contemplando o céu, mas a terra. Na terra não veneramos a tumba de Maria, nem celebramos funerais por ela, ou em sua memória. Embora possam parecer estranho, os santuários onde se venera a memória de Maria são, para nós, não lugares funerários, mas fontes de vida, espaços onde a sentimos vivente, mãe, mulher do serviço, cuidadora nossa.


Ascenção, Assunção são dois nomes que damos a esta experiência de presença transformadora. Em Jesus, e a partir de Jesus, Maria também “é assunta” e se faz presente junto a seus filhos e filhas. Sua bendita presença nos abençoa e nos enche de graça. 


Maria “foi assumida por Deus” porque “desceu” ao mais profundo da vida, comprometendo-se e sendo presença solidária. Ela viveu a “assunção” em todos os momentos de sua vida, de maneira especial, quando se deslocou em direção aos outros.


Por isso, o Evangelho, indicado para a festa de hoje, nos fala da “presença visitante” de Maria.


Maria fecha a porta de sua pequena casa em Nazaré e inicia apressado, o caminho para a montanha, onde vivia Isabel. O impulso do seu coração movia velozmente seus pés. Este relato nos mostra o que é “visitar”.


Maria “saiu em visita” porque, antes, foi “visitada” pela presença surpreendente de Deus. Ela entrou no fluxo do “Deus visitador”, prolongando e visibilizando as visitas divinas. Ela foi “assunta” porque, nas suas “visitas”, ela “subiu e desceu” em direção aos outros, numa atitude de serviço gratuito. 


Maria foi visitar; podia não ter ido. Isabel, com mais idade e grávida, seguramente estava bem atendida. Mas, Maria foi... para estar, escutar, partilhar, ajudar...


2 – O que o texto diz para mim?

Visitar implica mover-se, para perto ou para longe, sair, pôr-se em marcha; abandonar o espaço de conforto adentrar-se na realidade do(a) outro(a), na expectativa de que este(a) outro(a) abra a porta de seu espaço e de sua vida, entrando em profunda sintonia com quem o(a) visita. 


É uma ação pessoal, uma atitude aberta, um estar atentos aos detalhes da vida próxima, do entorno. Visitar não conta nas estatísticas. É uma ação muito silenciosa que não requer estruturas organizativas, nem contratuais. Visitar exige irremediavelmente investir tempo, gratuitamente; quem tem tempo hoje para presenteá-lo desinteressadamente?


A pessoa visitada tem também sua vida “expandida”, pois, receber o(a) outro(a) implica mudar a rotina do seu cotidiano, acolher a nova presença que vem, dedicar atenção e escuta...


Se eu reler com atenção o relato de Lucas, encontrarei Isabel, a prima de Maria, como protótipo de uma vida “visitada”, de uma existência que poderia fechar-se na pequena felicidade de sua fecundidade surpreendente; no entanto, ela abriu passagem a uma voz que vinha mais além dela mesma. Isabel escutou aquela voz e soube reconhecer Maria como a nova Arca da Aliança que carregava a salvação dentro dela. E Lucas realça o detalhe de que “a criança pulou de alegria no ventre de Isabel”.


Vou me deixar conduzir por Maria e vou com ela “de visita” à casa de Isabel, para recuperar o sentido do “visitar” e “ser visitado” no meu contexto atual.


Deus visita a mim e visita através de mim, assim como Ele me visita por meio dos outros. Há uma infinidade de anjos mensageiros, cruzando meus espaços cotidianos, inspirando-me, ajudando-me, movendo minha vida a saírem de seus lugares fechados, a romper muros, a ultrapassar fronteiras... A intolerância, o medo do diferente, a suspeita, o preconceito... são a morte de toda possibilidade de viver a “cultura da visita”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?

Uma característica de minha sociedade é o individualismo, o fechamento narcisista que me centra e me concentra em meu “ego” como lugar preferencial de atenção, dedicação, cuidado e investimento de quase todas as minhas energias disponíveis. Neste contexto social em que vivo cada vez mais fragmentado e individualizado, as relações vão se tornando líquidas, restando às manifestações muito superficiais, reduzidas, talvez, a um mero contato tecnológico através das redes sociais.


Tenho a sensação de que, a partir de fora, tudo me convida a viver auto-referenciado e surda às vozes que me vem do mais além de mim mesma. Muitas forças externas a mim me pressionam a reduzir minha vida ao tamanho de um “bonsai”, a atrofiar os desejos até reduzi-los aos pequenos bens acessíveis e a conformar-me com pequenas doses de prazer egoísta.


Mesmo numa vida fechada, também aí irrompem as “visitações”; Maria, a “visitante” e Isabel, a “visitada”, podem me ensinar a reconhecer Aquele que me visita e vem a mim escondido no humilde e insignificante. 


Aquelas duas mulheres grávidas, Maria e Isabel, cheias e fé e grandes expectativas, envolvidas no silêncio da promessa de Deus, se encontram e no mesmo instante do abraço, a palavra se faz presente com a intensidade da compreensão, da acolhida, da alegria e da intimidade partilhada.


A visita começa a dar fruto desde o primeiro instante se há uma boa predisposição. A atitude de quem vai ao encontro e quem acolhe é elemento primordial.


Elas estavam felizes. Isabel gritou de júbilo e “a criança saltou de alegria em seu ventre”. E Maria proclamou exultante, a oração de louvor e agradecimento ao Deus da Vida. “O Magnificat recolhe a prece da orante que se descobre, desde a humildade, fecundada por seu Senhor dentro da História da Salvação” (Mari Paz Lopes).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?

Senhor, o Magnificat é o grande resumo da experiência de Maria; Magnificat não é um parêntese: supõe tudo o que Maria viveu. É impossível conhecê-la sem saborear demoradamente estas palavras, que são a tradução dos seus sentimentos íntimos diante da nobre missão de ser a mãe do Salvador.


No Magnificat, Maria canta a sua própria história. E isso me desafia a fazer o mesmo. Ninguém vive uma vida espiritual fecunda enquanto não for capaz de construir a relação com Deus como um diálogo vivo entre um “eu” e um “Tu”. A oração de Maria não é feita de fórmulas. Ela expõe a sua vida naquilo que diz.


Através do Magnificat Maria vai ter a oportunidade de prolongar o seu “sim”, revelando que conhece bem as suas implicações profundas. No Magnificat, Maria sai de seu silêncio e explica o que significa o seu consentimento a Deus. E faz isso da forma mais simples e verdadeira, interpretando primeiro a sua própria experiência de fé e ancorando-se, depois, naquilo que a História da Salvação lhe ensina sobre a ação de Deus e sobre a missão do Povo de Deus neste mundo.


Maria permaneceu em casa de Isabel “três meses e voltou para sua casa”. Moveu-se, investiu seu tempo e posso imaginar quê maravilhosos três meses passaram juntas, vendo como a vida crescia dentro delas, cuidando-se, rindo, partilhando.... Deixar-me inspirar por este “ícone da Visitação”.


5 – O que a Palavra me leva a viver?

Depois de empapar-se do evangelho deste dia é preciso perguntar-se: “o que me inspira o ‘movimento’ de Maria visitando Isabel”? E se realmente, o fato de visitar, tem um significado em minha vida.


- Diante da situação pandêmica, quê outras formas de visita poderiam ser ativadas? 


São tantas as pessoas que estão esperando uma visita, mesmo virtualmente. Há muitas carências de abraços e de afeto.


- Recordar aqui as obras de misericórdia: duas delas se referem ao fato de “visitar” – “enfermos e presos”.


Fonte: 

Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 1,39-56

Pe. Adroaldo Palaoro, sj 



Sugestão: 

Música: Odogitria Pan Haghia – fx 12 

Autor: Padre Zezinho, scj

Intérprete: Padre Zezinho, scj

CD: Quando Deus se calou

Gravadora: Paulinas Comep

Duração: 03:35






quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Leitura Orante – 19º DOMINGO TEMPO COMUM, 09 de Agosto de 2020

Leitura Orante – 19º DOMINGO TEMPO COMUM, 09 de Agosto de 2020

A ARTE DE ENFRENTAR TEMPESTADES

“A barca, já estava longe da costa, sacudida pelas ondas, 
pois o vento era contrário.” (Mt 14,24)


Texto Bíblico: Mateus 14,22-33


1 – O que diz o texto?
Poderíamos dizer que o relato da “travessia tormentosa” é uma síntese da história de nossas vidas.

Seguramente as primeiras comunidades cristãs, como todos nós hoje, se identificaram facilmente com esse grupo de discípulos em meio a uma tormenta que sacode com força a barca em que estavam. Viver com Jesus ausente requer confiança absoluta, esperança firme e capacidade para descobri-Lo presente em sua aparente ausência. No envio que recebemos d’Ele para ir à outra margem é possível que nossa barca seja também sacudida pelos movimentos das ondas dos medos que nos fazem ver fantasmas, impedindo-nos reconhecer o Ressuscitado, caminhando ao nosso lado.

Todos compartilham, para além do tempo e do espaço no qual nos encontramos, a mesma bela e frágil natureza humana. Por isso, embora as circunstâncias que nos envolvem sejam diferentes, e certamente estas podem favorecer ou dificultar nosso seguimento de Jesus, reconhecemos que os verdadeiros obstáculos, para viver centrados n’Ele e comprometidos com seu Reino, não nos vem de fora, mas brotam de nosso próprio interior. E o maior deles é o medo.

Os medos acompanham nossa vida cotidiana. Quem se pergunta honestamente – o que eu temo? – reconhecerá sem dúvida, uma pequena ou grande lista de medos que o habitam, travando o fluir de sua vida. 

Quando o ser humano quebrou sua aliança com Deus no Paraíso, o medo foi sua reação imediata. “Ouvi teus passos no jardim; fiquei com medo, porque estava nu, e me escondi” (Gen. 3,10).

O medo se instalou em seu coração. E o ser humano continua a temer através dos desertos e cidades, de dia e de noite, no coração e na sociedade..., onde quer que esteja; ele vive sob um medo constante, sentido com maior ou menor intensidade, mas sempre presente.

Medo dos passos de Deus e de seus próprios passos; medo de estranhos e de amigos; medo do futuro; medo do diferente; medo de seu corpo e da sua afetividade; medo de decidir; medo de se comprometer; medo de romper as amarras do passado; medo do novo; medo de viver e de morrer, medo de si mesmo. Uma longa cadeia de medos, da primeira à última respiração, nesta terra de sombras.

Todos os medos estão inter-relacionados e, qualquer que seja seu objeto imediato, todos têm em comum o sentimento sombrio do perigo ameaçador.


2 – O que o texto diz para mim?
Sei que o medo deixa as pessoas vulneráveis à manipulação. Não existe depósito de munição mais potencialmente explosivo do que os estoques de medo nas escuras profundezas de suas vidas.

As pessoas ficam tensas e projetam estas tensões na realidade circundante. Encaram os outros como inimigos, e as oportunidades como ameaças. O trabalho é competição, e a vida, um campo de batalha.

O medo quebra o ritmo biológico e ataca os tecidos do corpo; ele nasce na mente, mas sua influência é sentida nos nervos, no pulso, nos músculos e na respiração.

As pessoas temem os perigos que conhecem e mais ainda os que não conhecem, mas os vislumbram presentes em cada esquina. Um medo que pode ser nomeado perde o terror e a capacidade de ferir; no entanto, um medo sem nome, um fantasma sem rosto, escuro como uma sombra e rápido como uma tempestade aumenta o pavor e paralisa a ação. Medo sem nome que assombra e queima as energias que poderiam ser canalizadas para algo criativo. 

O medo distorce a percepção da realidade; ele gera muitos fantasmas e prejuízos que, como consequência, maximizam os fatores objetivos causantes do perigo.

Sendo uma emoção primária, o medo, com frequência, impede o discernimento e a busca da solução mais inteligente para os problemas; longe de resolvê-los, pode agravá-los a médio e longo prazo.

Quando o medo e a sensação de impotência impregnam minha vida cotidiana, se aviva em mim a consciência permanente de “vulnerabilidade”. Não estou preparada para acolher minha fragilidade, minha condição humana.

Enfim, o medo obscurece o sentido e a direção da vida, tira o brilho tão próprio do amor; ele me acovarda e me enterra na acomodação mesquinha.

É bom lembrar que o ser humano amadurece através do confronto entre desejo e medo. Não há medo sem um desejo escondido e não há desejo que não traga consigo um medo. O desejo e o medo estão ligados. Tenho medo do que desejo e desejo o que me faz medo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
DESEJO e MEDO: existe, na natureza humana, a tendência natural de ultrapassar o imediato, de caminhar para a “outra margem”... para arriscar novos horizontes; necessidade de afrontar o perigo, de tentar, de se aventurar...

Mas existe também a tendência oposta de se poupar e de se acautelar, a necessidade inata de evitar o perigo, de se afastar dos obstáculos, de fugir das tempestades... O ser humano que confia é também o ser humano que teme; o ato de coragem carrega, também, o medo.

No meu crescimento humano e espiritual, o medo não superado, ou desejo bloqueado, vão gerar tempestades. Ou, pelo contrário, o medo superado, o desejo desatado, vão permitir a maturação. E minha vida evolui assim, através do meu desejo de plenitude e o meu medo de destruição (impulso de vida x impulso de morte).

Todos, no nível pessoal ou coletivo, vivem experiências de tempestades; algumas como um “tsunami”, como este que vivo no atual momento.  Estou diante de uma “onda nova” de risco e de vida, na madrugada de um dia que pode e deve ser de salvação: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”

Uma coisa é sentir medo; outra é permanecer paralisado com medo de arriscar e não aventurar por novas terras, na descoberta infindável que é a vida.

É preciso não ter medo do medo, e fazer dele uma mediação para o próprio crescimento, descobrindo o desejo de viver que se esconde atrás de cada medo. E que vai permitir ir mais longe.

As batalhas mais profundas do espírito (a quebra de limites da mente e do costume, o avanço sobre novos ideais e sonhos...) se conquistam com o atrevimento da coragem, com a força da fé, com a imaginação solta, com a criatividade livre e desimpedida.

Desafiando os medos aprende-se a ter coragem. Aceitar os medos é o caminho para tornar-se destemido. O conhecimento da própria fraqueza é a maior força.

Cada medo não resolvido é um peso na vida. É preciso descobri-los, identificá-los, nomeá-los e tomá-los como são até que se possa dissolvê-los em consciência e coragem.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, também a Igreja se mostra, muitas vezes, presa ao medo, matando seu espírito profético. Uma Igreja medrosa torna-se conivente com a cultura da violência e da morte. Enquanto mais teme, mais se fecha e se entrincheira atrás de normas, doutrinas, ritos...; e quanto mais se entrincheira, mais frágil se torna. 

A grande comunidade dos seguidores de Jesus é chamada por Ele a viverem contínuas travessias, a sair dos seus espaços estreitos e “normótico” (normalidade doentia), a ser “provada” pelas tormentas e ventos contrários, a esvaziar sua barca de tantos pesos para poder fluir com mais leveza, levantando suas velas e aproveitando da força dos mesmos ventos.

É o mesmo Espírito de Jesus que sopra as velas da grande barca, conduzindo-a para a “outra margem”, a margem do compromisso em favor da vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Entrar na barca de minha vida, em companhia do Senhor; deixar que a presença d’Ele desmascare os medos que atrofiam minha identidade e originalidade.

- Dar nomes aos meus medos; nomeá-los, já é dar o primeiro passo para não se deixar determinar por eles.

- O que eu faria se não tivesse medo?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 14,22-33
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 



Sugestão: 
Música: Jesus amigo – fx 10
Autor: Antonio Cardoso
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Pede um amor às estrelas
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:51