quarta-feira, 8 de julho de 2020

Leitura Orante – 15º DOMINGO TEMPO COMUM, 12 de Julho de 2020

Leitura Orante – 15º DOMINGO TEMPO COMUM, 12 de Julho de 2020

O SER HUMANO ESTÁ “FAMINTO DE RAÍZES”

“Mas, quando surgiu o sol, os brotos foram abrasados e, 
por falta de raiz, secaram.“ Mt 13,6)


Texto Bíblico: Mateus 13,1-23


1 – O que diz o texto?
As parábolas são um relato provocativo e aberto, que envolvem o ouvinte ou o leitor; elas não exigem explicações, mas uma resposta pessoal, vital; move a assumir uma atitude frente à alternativa de vida que propõem. Se não toma uma decisão, é sinal que a pessoa já definiu sua postura: continuar com a própria maneira de ver e viver a realidade.

O objetivo das parábolas é substituir uma maneira de ver o mundo, míope e limitado, por outra, aberta a uma nova realidade, cheia de sentido e de esperança.

As imagens de sementes, árvores, terreno..., dão o que pensar; questionam nossa maneira de ser, nos convidam a descer ao nosso chão existencial, a olhar o mais profundo de nós mesmos e da realidade que nos cerca, e descobrir ali ricas possibilidades.

Cada planta procura seu chão. Não se desenvolve em qualquer lugar. Exige nossa atenção: é preciso conhecer o chão onde ela é plantada, observá-la, cuidá-la...

Cada chão tem uma palavra a nos dizer; o novo vem das raízes, vem de baixo, da base, do chão.

Na experiência espiritual, somos motivados a mergulhar no terreno da interioridade, como as raízes na obscuridade da terra, na presença do silêncio. 

Aqui o caminho para Deus é “descer” ao nosso próprio chão e viver a comunhão universal. Subimos rumo ao Transcendente quando descemos ao nosso chão da vida. O movimento de enterrar profundamente as raízes possibilita alcançar a seiva, o pulsar da vida e o equilíbrio.  

Faz-se necessário, portanto, lançar raízes no mais profundo de nós mesmos e despertar todas as energias criativas, todas as grandes motivações adormecidas, toda bondade aí presente, toda decisão de assumir como cooperadores e artífices de um novo tempo. 


2 – O que o texto diz para mim?
Tenho uma identidade que funda minhas raízes na família, no povo, na cultura de origem. Outra, que provém das opções de minha liberdade, de minhas decisões.  E um terceiro nível de identidade que me vem da fé quando, progressivamente, como uma árvore, vou “subindo” em direção a um novo sentido para minha própria existência, deixando-me conduzir pela força do Espírito presente no chão de meu eu profundo. Desse enraizamento é que surgem os frutos surpreendentes, “à base de cem, de sessenta e de trinta por semente”.

Sou, portanto, ser de enraizamento e de abertura. “O ser humano é criado para...”, afirma Santo Inácio. A raiz que me limita é minha encarnação na realidade. A abertura que me faz romper barreiras e ultrapassar os limites, impulsionando-me à busca permanente por novos mundos, é minha transcendência. Ninguém segura os pensamentos, ninguém amarra as emoções, ninguém detém os sonhos... O desafio consiste, então, em manter juntos o enraizamento e a abertura. Encarnados, mas abertos à transcendência.

Nesse sentido, transcender não significa fugir da própria realidade, mas mergulhar na própria condição humana; “transcender é humanizar-se”.

A tradição judeu-cristã fala em “trans-descendência”. Sou convidada não apenas a superar e a voar para cima, mas, fundamentalmente, a descer e a buscar o chão. É a experiência da Encarnação: o Deus que envolve toda a realidade emergiu do chão da realidade e da história. É o Amor que desce.

Ao entrar no “fluxo da descida” de Deus, sou desafiada a deixar a superfície banal e descer às dimensões profundas da minha existência humana. Nessas águas, não me afogo; respiro fundo e me revitalizo. Por isso, sou chamada a superar ambiguidades, a escolher rumo construtivo, a definir minha identidade pessoal e a optar por causas humanas que me fazem transcender.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Sou impulsionada a mergulhar na própria existência humana “misteriosa”, e contar com a inteligência criadora, com a liberdade fecunda, com o coração ardente e com mãos mobilizadas para o serviço.

Na “parábola do semeador”, Jesus compara meu interior com um campo dotado de diferentes “espécies” de terra, mas habitado por uma semente de vida. A semente é poderosa e eficaz. Mas estão em jogo minha acolhida e minha receptividade: posso permanecer no nível da superfície; posso me deixar prender por outros interesses ou prioridades sensíveis; ou posso me abrir às dimensões mais profundas de mim mesma à minha “terra boa”, ao meu “bom lugar”. Lida dessa perspectiva, a parábola não me deixa indiferente; motiva a me questionar sobre a partir de onde eu estou vivendo e, para chegar à resposta adequada, convida a me fixar nos frutos que saem de mim.

A experiência espiritual cristã implica, portanto, “mergulhar os pés no chão da vida”.

É na obscuridade da terra que a planta vai buscar a força que a manterá viva, que lhe dará condição de expandir sua copa em direção à imensidão do céu. As raízes mergulham na terra de modo profundo, silencioso e lento. Expressões do meu cotidiano como “pôr os pés no chão”, “estar com os pés na terra”, significam enraizar-me e comprometer-me com a realidade que me afeta.

No “chão”, à primeira vista, estão todas as sujeiras, os detritos e as coisas em decomposição. Mas, para as raízes, tudo isso significa o alimento da vida.

Um “chão” é sempre mais do que um simples chão: cada “chão” revela lembranças, referências, ansiedades, medos, saudades...; cada “chão” guarda histórias, presenças e tem força de memória. Há vidas, pessoas, caminhos, acontecimentos, experiências... 

Chão amplo é convite a sonhar alto, a pensar grande, a aventurar-se...; ousar ir além, lançar por terra o modo arcaico de proceder, romper com os espaços rotineiros e cansativos.

“Chão humano e humanizante”, porque carregado da presença divina.

É o ser humano mesmo o verdadeiro chão a partir do qual Deus se deixa encontrar e se dá a conhecer; cada pessoa é o autêntico chão da eterna presença de Deus.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, geralmente eu caio na armadilha de acreditar que dar fruto é fazer obras grandes. A tarefa fundamental do ser humano não é fazer coisas, mas “fazer-se”. “Dar fruto” seria dar sentido à minha existência de modo que, ao final dela, a criação inteira possa estar um pouco mais perto da meta, graças à minha presença nela. Não se trata simplesmente de ativismo, mas de engendrar, de gestar algo novo, viver o Evangelho como novidade. Uma coisa é ter êxito e outra é ser fecundo, gerar vida.

Este é o desafio: gerar o novo a partir de dentro de mim mesma, como se eu o sugasse da terra com minhas raízes, para que minhas palavras e minhas ações sejam originais e criativas, e revelem uma força transformadora, com impacto na realidade onde me encontro.

Na fecundidade há espaço para o “mistério”. A fecundidade tem lugar no oculto, nas entranhas da terra. A fecundidade supõe confiança e abandono, uma atitude aberta e serena, sem ansiedade nem tensão, sem deixar-se desanimar pela insignificância dos primeiros resultados.

Viver em chave de fecundidade supõe aceitar ritmos, tempos longos como se dão na natureza. As plantas necessitam tempo para florescer e meses para crescer. Isto supõe excluir toda impaciência.

A fecundidade perdura e aumenta com os anos, embora as forças físicas se debilitem. 


5 – O que a Palavra me leva a viver?
“Penso e sinto a partir do lugar onde meus pés estão plantados”. Onde meus pés estão plantados? O meu “terreno cotidiano” tem facilitado ou dificultado o surgimento de novos frutos?

- Vivo em um contexto marcado pela cultura da superficialidade, da aparência... Onde está enraizada minha vida? Ela tem se revelado como “terra boa”, verdadeira e fecunda, de onde brotam novidades surpreendentes?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 13,1-23
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Terra tombada – fx 13
Autor: José Fortuna e João Dorácio
Intérprete: Pe. Fábio de Melo
CD: Enredos do meu povo simples
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:53




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