quinta-feira, 30 de julho de 2020

Leitura Orante – 18º DOMINGO TEMPO COMUM, 02 de Agosto de 2020

Leitura Orante – 18º DOMINGO TEMPO COMUM, 02 de Agosto de 2020

SOMOS AS MÃOS DE DEUS

“Os discípulos distribuíram os pães às multidões” (Mt 14,19)


Texto Bíblico: Mateus 14,13-21


1 – O que diz o texto?
Poderíamos dizer que o relato do Evangelho deste domingo é uma parábola em ação. 

A cena acontece em um “lugar despovoado”, afastado da vida cotidiana organizada segundo o pensamento da sinagoga e a lógica dominadora do império. Sair do centro, ou ser deslocado do centro, pode ser uma vantagem à hora de perceber o que Deus realiza em nossas situações concretas.

Quando Jesus e seus discípulos vão pelo mar, a multidão sai caminhando ansiosamente por terra e os alcança. Jesus é ponto de confluência de todas aquelas fomes, dispersões e diferenças. É o povo pobre das pequenas aldeias que está sofrendo grandes injustiças e muita pobreza. 

De alguma maneira, este “fora” evoca a saída do povo judeu do Egito ao deserto, onde se encontrou com Deus numa experiência que o fará passar de multidão dispersa de escravos a um povo unido e livre.

O povo tomou distância com relação ao seu mundo rotineiro e agora se encontra com Jesus, que encarna a novidade de Deus ao alcance da mão. Também pode ser o “fora” de todos os excluídos da história que se encontra com Jesus, tornando realidade o sonho do Reino: o mundo da igualdade e da comunhão.

Jesus nos diz o relato, primeiro sente compaixão das multidões, e depois convida a partilhar. 

Em contraste com atitude compassiva do Mestre, os discípulos, percebendo a hora avançada, pedem que as multidões sejam despedidas para que comprem pão e se alimentem. Esta é a lógica desumanizadora: devolver as pessoas às suas próprias possibilidades limitadas, à escassez e à privação que a sociedade as relegou. Os discípulos são sensíveis à fome do povo empobrecido, mas o deixam à mercê de seus próprios recursos. Não conhecem outra solução.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus abre outra lógica: a da partilha, frente à lógica do mercado, da apropriação e da acumulação.

Os produtos da terra estão situados na lógica do amor, que é a única força transformadora da história. Esta é a utopia do Reino: um povo reunido harmoniosamente pela mesma busca faminto e pela mesma saciedade, onde os alimentos da terra, produzidos com esforço, são compartilhados com todos, sem que ninguém negocie ou acumule. 

Tudo aparece reconciliado: o cosmos, com a natureza verde e em paz; os produtos do trabalho humano, da generosidade do mar e da terra; e as pessoas, em uma relação entre elas mesmas e com Deus sem exclusões, competições nem privilégios. Isto é possível porque todos se deixaram afetar pelo dom do mesmo Reino que cresce já no coração de todos.

Só será efetiva a nova comunidade quando pães e peixes entrarem na lógica do Reino. Sem oferecer o próprio pão, os próprios recursos, a própria pessoa, não há possibilidade de construção do Reino de Deus.

Jesus não pediu a Deus que solucionasse o problema da fome, e sim, mobilizou os seus discípulos para que encontrassem uma saída diante daquela penúria. E a saída está na capacidade de partilha de todos.

Também aqui é preciso “ouvidos” e “olhos” bem abertos para encontrar a chave de compreensão da cena. Há um risco de permanecer na superfície do relato, assombrando com o prodígio da “multiplicação dos pães”. Na realidade, não foram os pães que “se multiplicaram”, mas a generosidade da partilha do alimento.

O certo é que, tudo o que as pessoas tinham, foi colocado à disposição de todos. Esta atitude desencadeia o prodígio: a generosidade se contagia e realiza o “milagre”. Quando se deixa de monopolizar os bens, eles chegam a todos. Quando os bens imprescindíveis para a vida são monopolizados, provoca-se a miséria, a fome, e a morte. Na intenção do evangelista, Jesus demonstra deste modo, que o problema não é a carência de recursos, mas a falta de solidariedade. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Realmente foi um verdadeiro “milagre” que um grupo tão numeroso de pessoas compartilhasse tudo o que tinham até conseguir que ninguém ficasse com fome. Porque o texto não fala de “multiplicar” o alimento, mas de “dividi-lo”: quando ele é partilhado, costuma sobrar.

Que acontece com os pães e os peixes nas mãos de Jesus? Não os “multiplica”. Primeiro, bendiz a Deus e lhe dá graças: aqueles alimentos vêm das mãos de Deus: são para todos. 

A dinâmica normal da vida me diz que o “pão”, indispensável para a vida, deve ser adquirido com dinheiro, porque alguém o monopoliza e não o deixa chegar ao seu destino, a não ser cumprindo algumas condições que, aquele que monopolizou, impõe: o “preço”. 

O que Jesus faz é livrar o pão desse monopólio injusto. O olhar voltado para o céu e a benção é o reconhecimento de que Deus é o único dono do pão e que a Ele é preciso agradecer este dom. Liberado do monopólio, o pão, imprescindível para a vida, chega a todos sem ter que pagar um preço por ele.

Em seguida, Jesus, com suas mãos solidárias, vai partindo os dons e entregando-os aos discípulos. Estes, por sua vez, prolongam as mãos de Jesus, e vão distribuindo os pães e peixes à multidão; estes alimentos vão passando de mãos e mãos, de uns aos outros. Assim, todos puderam saciar sua fome.

A multidão dispersa, transformada pelo encontro com Jesus, já é capaz de sentar-se em grupos ordenados sobre a relva, iguais, sem divisão em hierarquias, que costuma criar fissuras na comunhão. Jesus pede que todos se assentarem sobre a relva para celebrar uma grande refeição. Rapidamente, tudo muda. Aqueles que estavam a ponto de se separar para saciar sua fome em sua própria aldeia se assentam juntos em torno a Jesus, para partilhar o pouco que tem. 

Os que tinham algo para comer também foram repartindo com os outros. Na realidade, o verdadeiro milagre foi o da partilha, onde as pessoas famintas não se lançam vorazmente sobre os pães numa luta para conseguir os alimentos escassos. Compartilhar gratuitamente com os outros, com desconhecidos, e não acumular o que sobra, isso sim é milagre.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, em cada migalha de pão, em cada pedaço de peixe, há uma história de amores e trabalhos que vão passando de mão em mão, sem cobiça devoradora. Os bens deste mundo, carregando dentro uma vocação fraterna e universal, são dons para todos.

Nesta refeição de todo o povo sobre o campo verde não se discrimina ninguém, não se pergunta a ninguém pelo seu passado, sua profissão ou sua situação moral. Todos são acolhidos como expressão das entranhas compassivas de Deus, que chama todos a compartilhar na Sua Grande Mesa festiva. Todos se sentem pessoas dignas e amadas. É a grande refeição da inclusão de todos.

Algo inaudito está começando nesse povo com a chegada de Jesus. No Reino de Deus só há uma Mesa, à qual todos são convidados, sem discriminação sem exclusão de nenhum tipo.

É assim que Jesus quer ver a nova comunidade humana.

Tenho nas mãos e no coração a opção de viver “em chave desumanizadora” (“despede as multidões!”) ou “em chave de benção” (“os discípulos distribuíram os pães às multidões”), descobrindo na vida, para além de sua fragilidade, a presença que fazia Jesus estremecer-se de compaixão quando sentia a dura situação dos prediletos do Pai.

Assim quis Deus que minhas mãos fossem a presença e o sinal de Suas mãos criadoras, que acolhem e cuidam da mãe Terra e da vida das pessoas. Sou as mãos de Deus, não só para alimentar, mas para acariciar e curar, para cuidar do planeta terra, minha casa, para “multiplicar vida”...


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Quais são as duras situações das pessoas do mundo atual que fazem emergir novamente o apelo de Jesus: “Dai-lhes vós mesmos de comer”.

Deus torna visíveis suas mãos através de minhas mãos abertas e que compartilham. Onde eu percebo que pode ser a mão bendita de Deus que atua em favor da vida?

Quando ouço em minha eucaristia o grito de Jesus: “Dai-lhes vós mesmos de comer”?

Eu, depois de anos seguindo a Jesus, o quê sou capaz de partilhar?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 14,13-21
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Terra, pão e lar – fx 04
Autor: Padre João Carlos
Intérprete: Padre João Carlos
CD: Grãos de areia
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:15



quarta-feira, 22 de julho de 2020

Leitura Orante – 17º DOMINGO TEMPO COMUM, 26 de Julho de 2020

Leitura Orante – 17º DOMINGO TEMPO COMUM, 26 de Julho de 2020

Quando o tesouro e a pérola nos encontram

“Em sua alegria, vai e vende tudo o que possui 
e compra aquele campo” (Mt 13,44)


Texto Bíblico: Mateus 13,44-52   


1 – O que diz o texto?
As parábolas são uma expressão de surpresa diante da vida, que nos ultrapassa sempre, fazendo-nos capazes de pensar de um modo diferente, captar o outro lado da realidade concreta e abrir-nos à dimensão da transcendência. Dessa forma, elas recolhem e desvelam a vida real dos homens e mulheres de cada tempo, movendo-os a assumir uma atitude mais aberta e mais comprometida com a situação onde estão envolvidos. Isso significa acolher o dom e a missão do Reino.

Em geral, as parábolas evocam experiências desconcertantes e em quase todas elas se revela um dinamismo que rompe os esquemas “normais” da vida, conduzindo o ouvinte (ou leitor) a outro patamar, mais inspirador e desafiante. Elas removem a vida, arrancando-a da “normose” (normalidade doentia) e despertando outros recursos internos, que não foram ainda mobilizados. Assim, esta mesma vida, começa a adquirir outro sabor e outro sentido.

O Evangelho deste domingo recolhe duas pequenas parábolas fulgurantes de Jesus: uma do tesouro e outra da pérola. São relatos de uma enorme eficácia. Elas nos situam frente a uma experiência desencadeante de vida, frente à surpresa de Deus, e assim expõem e põem em marcha o caminho do Reino. Elas também nos situam diante da máxima riqueza e exigem, ao mesmo tempo, o maior desprendimento.

São imagens que pedem radicalidade, ou seja, “vender tudo” para adquirir o tesouro ou a pérola. 

Mas, quase não percebemos que há um passo prévio: a descoberta, a iluminação interior, o ver claramente. Tanto o caminhante pelos campos como o comerciante de pérolas, vendem tudo porque se convenceram de que o investimento valia a pena.


2 – O que o texto diz para mim?
Nestas duas pequenas parábolas, são apresentadas duas opções para que cada qual possa identificar-se: ou é aquele que encontra inesperadamente o tesouro e compra o campo, ou é aquele que tem a vocação de comerciante e percorre o mundo procurando pérolas preciosas.

Alguns irão passear, deixando-se surpreender pela vida e pelos acontecimentos, sem perder a capacidade de assombro, de entusiasmo, de admiração. A pessoa dessa parábola, ao ser encontrado pelo tesouro, “sai” de si para vender quanto tem, procura o proprietário e compra aquele campo. Mas também percebo que faz tudo isso a partir de dentro, como se houvesse conectado com algo pessoal e íntimo, que lhe permite “sair” do mais profundo de si mesmo. E esse duplo movimento é carregado de uma plenificante alegria.

Outros serão de mentalidade “comercial”: encanta-lhes a aventura, a busca, a estratégia. Não nasceram para estar quietos, nem para se conformar com boas e bonitas pérolas. O específico seu é continuar viajando e buscando sempre a pérola maior até encontrá-la. E quando a encontram, compram-na, e continuam buscando sempre. Porque isso é próprio de um comerciante: apostar, comprar, vender, às vezes ganhar, outras vezes perder... A pérola também sai ao encontro daquele que busca.

A decisão e o risco que assumiram tanto o comerciante de pérolas quanto o caminhante pelos campos, mudaram suas vidas. O tesouro e a pérola continuarão sendo valiosos, quer eles vivam com fidelidade e paixão ou não. O que os transforma não é o tesouro ou a pérola em si, mas a atitude e a decisão que tomam atraídos por eles. É um tesouro e uma pérola que exigem uma transformação do antigo e conhecido passado para um novo e desconhecido futuro.

Quando a pessoa se fecha às surpresas da vida, ou quando deixa de esperar algo bom e precioso, ela se invalida para ser descobridora de tesouros ou buscadora de pérolas.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Para deixar-me encontrar pelo tesouro e pela pérola é preciso deslumbrar-me, fascinar-me, encantar-me, apaixonar-me. Parece simples, mas é muito aberto e evocador. “Aquilo pelo qual me encanta mobiliza minha imaginação e acaba por deixar minha marca em tudo”, dizia Pe. Pedro Arrupe.

E como encantar-me? Não é só questão de vontade, mas de viver com os olhos abertos, atento à realidade, externa e interna, ser poroso para que me deixe encontrar pela pérola preciosa e pelo tesouro escondido; diante desta surpresa, não poderei deixar de ficar fascinada.

E então, sim, estarei disposta a queimar barcos, vender tudo, dar o salto. Talvez meu maior problema é que, na realidade, o que me interessa são minhas posses, poder, objetos, apegos à autoimagem e não descobrir ainda o tesouro escondido e a pérola fina, que não estão distantes de mim; pelo contrário, encontram-se no mais profundo de mim mesma.

“Descer” ao chão de minha interioridade é a oportunidade para descobrir regiões novas e novos horizontes, para conhecer o reino interior, para encontrar a riqueza interior e assim experimentar a transformação.

O caminho para uma nova qualidade de vida passa pela “descida” aos campos de meu coração.

Isso requer coragem para passar por todas as regiões, mesmo as sombrias, e chegar ao mais profundo. Mas essa descida me possibilita descobrir um mundo diferente que não conhecia, ou que havia perdido. Lá no fundo, encontra-se um bem precioso que posso levar comigo, que me ajuda em meu caminho e que me faz totalmente original e criativa.

É preciso “descer” até o fundo para descobrir uma nova riqueza para a minha vida; é “descendo” que poderei revitalizar a vida que se tornara vazia e ressequida.

Trata-se de despertar, de escavar, de avançar em direção ao “veio de ouro” e de saber que este não é minha propriedade; ele me é oferecido como dom. Não basta falar de “pedra preciosa”, é também necessário “escavar” meu “chão interior”, alargar meu coração, garimpar em direção às riquezas que estão no eu mais profundo, assim como o “fio de ouro” no meio dos cascalhos.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, eu possuo uma fonte inesgotável de qualidades-habilidades; posso dizer: “sou um presente”, um valor para os outros. A vida sempre está oculta nas profundezas. A pessoa superficial é aquela que se confundem com suas ideias, coisas... A pessoa do “eu profundo” é aquela que vive a partir da raiz, da fonte mesma da vida, e deixa vir à tona todas as suas riquezas, dons, capacidades...

É no coração que existem, em abundância, os aspectos positivos de minha personalidade, os talentos naturais e as boas tendências. Aí se aninham imensas riquezas que se exprimem de maneira diferente, dando a cada um, uma fisionomia própria, um caráter único.

Esta região profunda coincide com o mundo das certezas, dos valores, das ideias-força... que formam o eixo da minha existência, o melhor de mim, o lugar de minha recuperação e de minha realização, o positivo que me solicita continuamente a me tornar o que devo ser.

A força da transformação, portanto, eu não a encontro na superfície ou distante de mim, mas sim, nas profundezas. Para ter acesso à riqueza no interior de mim mesma, posso imitar, simbolicamente, os hábitos dos pescadores de certo atol do Pacífico. Eles vivem pauperrimamente sobre uma terra desprovida de vegetação e açoitada pelos ventos; mas o fundo do seu mar é muito rico em pérolas.

Desenvolveram aí aptidões excepcionais para o mergulho; descem sem qualquer aparelho, ao fundo do mar, localizam as pérolas, arrancam-nas, trazem-nas para a superfície, atiram-nas no barco, para depois mergulharem de novo.

Este é o caminho da verdadeira espiritualidade: “descer” até o fundo, mergulhar no oceano interior onde estão escondidas as pérolas que dão significado e sentido à minha vida.

Encantada com a descoberta trazê-las à tona e colocá-las a serviço dos outros, multiplicando-as.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Para realizar e desenvolver toda a minha potencialidade, buscar, na oração, cavar mais profundamente, até atingir as raízes de meu ser, o núcleo original de minha personalidade. 

- Olhar no profundo de meu coração, olhar no íntimo de mim mesmo, e perguntar: “tenho um coração que deseja o maior (“magis”) ou um coração adormecido pelas coisas? Meu coração conserva a inquietude da busca ou deixa-se sufocar pelos apegos, que acabam por atrofiar-me?”


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 13,44-52   
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: O tesouro – fx 03
Autor: Benedikt Enderlene Nalerio Cipri
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Diante de ti
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:09


terça-feira, 14 de julho de 2020

Leitura Orante – 16º DOMINGO TEMPO COMUM, 19 de Julho de 2020

Leitura Orante – 16º DOMINGO TEMPO COMUM, 19 de Julho de 2020

ACEITAR O JOIO NOS HUMANIZA  

“Deixai-os crescer juntos até a colheita!” (Mt 13,30)


Texto Bíblico: Mateus 13,24-43


1 – O que diz o texto?
Jesus costumava contar parábolas com frequência e as pessoas gostavam de ouvi-lo; suas parábolas brotavam do chão da vida, estavam carregadas de vida e comprometiam as pessoas a viverem de um modo diferente, deixando-se inspirar por Aquele que é Fonte da Vida. Como relatos instigantes, as parábolas faziam emergir uma nova imagem de Deus e uma nova imagem do ser humano.

Sabemos que as imagens, que cada um guarda em seu interior, tem um peso e marcam a vida: elas podem fazer adoecer ou ativar uma vida sadia, podem alimentar medos ou despertar coragem, podem estreitar a vida ou expandi-la.... Todos têm experiências das funestas consequências das falsas imagens de Deus, que acabam alimentando, em cada um, uma autoimagem atrofiada e paralisante. Jesus, com suas parábolas provocativas, desejava quebrar tais imagens nocivas e substituí-las por outras saudáveis. 

Para isso, Ele usa uma pedagogia para nos provocar e dirigir nossa atenção para algo específico, que nos inquieta: quando nos sentimos incomodados com Suas imagens, isso significa que estamos sendo confrontados com imagens falsas de Deus e de nós mesmos, petrificadas em nosso interior. Algum aspecto nosso, que até então havia permanecido na sombra, é iluminado; agora somos capazes de nos ver de modo diferente. Essa transformação interior, de nossa visão e de nossos sentimentos, não pode ser alcançada por meio de meras palavras de ensinamento. Para isso, precisamos da arte das parábolas, pois elas desvelam, põem às claras, situações e modos fechados de viver, visões distorcidas, falsas verdades, ideias atrofiadas, crenças vazias..., que nos dão uma sensação de segurança e temos resistências em abrir mão de tudo isso.

Como muitas outras parábolas, também a do “joio e do trigo” é um relato provocativo. Não só porque parece ir contra o “senso comum”, que aconselha arrancar o joio que impede o crescimento do trigo, mas porque é também uma resposta às críticas que o próprio Jesus recebia por sua atitude com relação àqueles que a religião tinha excluído. Não em vão Ele foi acusado de ser “amigo de publicanos e pecadores”.

Por outro lado, a parábola pode deixar transparecer as inquietações da comunidade de Mateus, preocupada por separar com clareza os “bons discípulos” daqueles que não eram. Como tantos grupos humanos, a tentação é marcar uma linha divisória, entre o “trigo” e o “joio”. Essa separação, no interior da comunidade cristã, acaba se projetando nas relações sociais, políticas, econômicas, culturais..., criando “muros” e “fronteiras” que esvaziam o processo de humanização.

Pois bem, seja porque se refira à vida histórica de Jesus, seja porque se tenha adaptado para responder a alguma polêmica comunitária posterior, o certo é que a mensagem da parábola não deixa lugar a dúvidas: “deixai crescer um e outro até a colheita!”.


2 – O que o texto diz para mim?
A atitude sábia de deixar o “trigo e o joio crescerem juntos”, me remete precisamente ao que tenho de fazer com o meu próprio “joio”: aceitá-lo, acolhê-lo, integrá-lo, reconhecê-lo como meu, sem reduzir-me a ele e sem me deixar determinar por ele. Tal atitude implica um crescimento em integração e em humildade. Por mais estranho que pareça, a aceitação do “joio” me humaniza, pois me faz descer de meu pedestal egoico feito de exigência, perfeccionismo e de complexo de superioridade – e aproximar-me de meu ser verdadeiro.

Quanto mais eu me conheço e conheço o Sol que me habita (Deus), mais me integro e mais me humanizo.

Humanizar-se, não no sentido de ser mais virtuoso, brilhante, bem-sucedido, perfeccionista... Humanizar-se é também a capacidade de acolher-se frágil, vulnerável e, ao mesmo tempo, ativar a vigor, ser criativo, resistir, poder traçar caminhos... Fazer a síntese entre ternura e vigor.

Não pretendo, pois, arrancar o joio; demonstrar com minha vida que, ser trigo, é mais humano.

Minha vida está repleta da graça divina. Vivo mergulhada na Graça que me santifica.

Ser santa é viver em plenitude minha humanidade. É aprender a descobrir e a redescobrir a “presença de Deus em tudo e tudo em Deus” (S. Inácio).


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Já foi dito que o ser humano nunca é tão grande como quando sabe reconhecer e aceitar sua fragilidade, sua limitação...  Reconhecer e aceitar sua própria “humanidade”, diante de Deus e dos outros, significa percorrer um caminho em direção a uma visão positiva, madura e profunda de si mesmo.

Com isso, já não desperdiço as minhas energias para tentar, inutilmente, afastar de mim algo que faz parte de minha vida e que devo aprender a integrar, a preencher de sentido, a transformar...

Às vezes, no mal que quero extirpar, há um bem que não sei descobrir.

Com efeito, tenho sempre a tentação de querer extirpar logo e totalmente o “joio” do meu coração, arriscando-me a arrancar com ele, pela raiz, os germes do bem que estão crescendo com dificuldade e que exigem uma atitude muito diferente, isto é, paciência e delicadeza, capacidade de intuição e clarividência, disponibilidade para alimentar uma sadia tolerância para comigo.

Todo este processo de integração interior se faz visível na integração com os outros com quem convivo.

Parece claro que, o ser humano, fica incomodado com o “diferente”, com aquele que sente, pensa e crê de outra maneira. Se a isso agrega a necessidade de “ter razão”, característica do ego, poderia explicar a origem de tantas intolerâncias, fanatismos, juízos, processos inquisitoriais e condenações... Tanto as religiões, como os grupos sociais, insistem em ter tudo bem clarificado e estabelecido, para evitar sobressaltos. Detrás de tudo isso, o que se busca é assegurar a sobrevivência e defender-se da ameaça da insegurança ou da necessidade de mudanças. Sair das próprias posições e convicções, no campo religioso, social, político, cultural... é, para muitos, um processo doloroso.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a parábola do (joio e trigo) é um chamado à tolerância e à paciência. A virtude da tolerância não é sinônima de “bonzinho amorfo”, nem constitui um relativismo suicida. Tolerância é respeito e valorização da pessoa, acima das diferenças, acima das atitudes contrárias e inclusive, segundo Jesus, frente às agressões recebidas: “Amai vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem”.

A personalidade fanática tende a ver a realidade dividida completamente em duas: tudo é branco ou preto, verdadeiro ou falso, bom ou mau, “trigo e joio”; para ela, não existem outras tonalidades. Por isso, ela se converte em juiz implacável que “salva” ou “condena”, assume atitudes fascistas ou nazistas, com a ilusão da raça pura, da ideologia pura, da religião pura...

Niels Bohr, um dos grandes iniciadores da física quântica, afirmou que “o oposto de uma verdade profunda pode ser também outra verdade profunda”. E para ele não se tratava de uma crença ou de uma opinião pessoal, mas de uma constatação, fruto de seus experimentos com partículas subatômicas.

Há um fato inegável: ninguém é igual a outro, todos tem algo que se diferencia. Por isso existe a biodiversidade, milhões de formas de vida. O mesmo e mais profundamente vale para o nível humano. Aqui as diferenças mostram a riqueza da única e mesma humanidade. Posso ser humana de muitas formas e devo ser tolerante, como toda a realidade é tolerante. A intolerância será sempre um desvio e uma patologia e assim deve ser considerada. 


5 – O que a Palavra me leva a viver?
O rigorismo não faz parte do caminho da Graça; o caminho da graça se chama compreensão e tolerância. A melhor resposta é dar a oportunidade para que o trigo amadureça; a melhor solução é abrir possibilidade para que o joio seja transformado. É questão de saber esperar. E disso, o amor é especialista.

- Frente ao “joio” presente em meu interior, que atitudes assumo: auto-julgamento? moralismo? intransigência?

- E frente ao “outro”, que “pensa, sente e ama de maneira diferente”, como eu me  situo?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 13,24-43
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Joio e trigo – fx 07
Autor: Ir. Lucia Silva, imc
Intérprete: Ir. Magnólia C. e Silva
CD: Partilha
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:43



quarta-feira, 8 de julho de 2020

Leitura Orante – 15º DOMINGO TEMPO COMUM, 12 de Julho de 2020

Leitura Orante – 15º DOMINGO TEMPO COMUM, 12 de Julho de 2020

O SER HUMANO ESTÁ “FAMINTO DE RAÍZES”

“Mas, quando surgiu o sol, os brotos foram abrasados e, 
por falta de raiz, secaram.“ Mt 13,6)


Texto Bíblico: Mateus 13,1-23


1 – O que diz o texto?
As parábolas são um relato provocativo e aberto, que envolvem o ouvinte ou o leitor; elas não exigem explicações, mas uma resposta pessoal, vital; move a assumir uma atitude frente à alternativa de vida que propõem. Se não toma uma decisão, é sinal que a pessoa já definiu sua postura: continuar com a própria maneira de ver e viver a realidade.

O objetivo das parábolas é substituir uma maneira de ver o mundo, míope e limitado, por outra, aberta a uma nova realidade, cheia de sentido e de esperança.

As imagens de sementes, árvores, terreno..., dão o que pensar; questionam nossa maneira de ser, nos convidam a descer ao nosso chão existencial, a olhar o mais profundo de nós mesmos e da realidade que nos cerca, e descobrir ali ricas possibilidades.

Cada planta procura seu chão. Não se desenvolve em qualquer lugar. Exige nossa atenção: é preciso conhecer o chão onde ela é plantada, observá-la, cuidá-la...

Cada chão tem uma palavra a nos dizer; o novo vem das raízes, vem de baixo, da base, do chão.

Na experiência espiritual, somos motivados a mergulhar no terreno da interioridade, como as raízes na obscuridade da terra, na presença do silêncio. 

Aqui o caminho para Deus é “descer” ao nosso próprio chão e viver a comunhão universal. Subimos rumo ao Transcendente quando descemos ao nosso chão da vida. O movimento de enterrar profundamente as raízes possibilita alcançar a seiva, o pulsar da vida e o equilíbrio.  

Faz-se necessário, portanto, lançar raízes no mais profundo de nós mesmos e despertar todas as energias criativas, todas as grandes motivações adormecidas, toda bondade aí presente, toda decisão de assumir como cooperadores e artífices de um novo tempo. 


2 – O que o texto diz para mim?
Tenho uma identidade que funda minhas raízes na família, no povo, na cultura de origem. Outra, que provém das opções de minha liberdade, de minhas decisões.  E um terceiro nível de identidade que me vem da fé quando, progressivamente, como uma árvore, vou “subindo” em direção a um novo sentido para minha própria existência, deixando-me conduzir pela força do Espírito presente no chão de meu eu profundo. Desse enraizamento é que surgem os frutos surpreendentes, “à base de cem, de sessenta e de trinta por semente”.

Sou, portanto, ser de enraizamento e de abertura. “O ser humano é criado para...”, afirma Santo Inácio. A raiz que me limita é minha encarnação na realidade. A abertura que me faz romper barreiras e ultrapassar os limites, impulsionando-me à busca permanente por novos mundos, é minha transcendência. Ninguém segura os pensamentos, ninguém amarra as emoções, ninguém detém os sonhos... O desafio consiste, então, em manter juntos o enraizamento e a abertura. Encarnados, mas abertos à transcendência.

Nesse sentido, transcender não significa fugir da própria realidade, mas mergulhar na própria condição humana; “transcender é humanizar-se”.

A tradição judeu-cristã fala em “trans-descendência”. Sou convidada não apenas a superar e a voar para cima, mas, fundamentalmente, a descer e a buscar o chão. É a experiência da Encarnação: o Deus que envolve toda a realidade emergiu do chão da realidade e da história. É o Amor que desce.

Ao entrar no “fluxo da descida” de Deus, sou desafiada a deixar a superfície banal e descer às dimensões profundas da minha existência humana. Nessas águas, não me afogo; respiro fundo e me revitalizo. Por isso, sou chamada a superar ambiguidades, a escolher rumo construtivo, a definir minha identidade pessoal e a optar por causas humanas que me fazem transcender.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Sou impulsionada a mergulhar na própria existência humana “misteriosa”, e contar com a inteligência criadora, com a liberdade fecunda, com o coração ardente e com mãos mobilizadas para o serviço.

Na “parábola do semeador”, Jesus compara meu interior com um campo dotado de diferentes “espécies” de terra, mas habitado por uma semente de vida. A semente é poderosa e eficaz. Mas estão em jogo minha acolhida e minha receptividade: posso permanecer no nível da superfície; posso me deixar prender por outros interesses ou prioridades sensíveis; ou posso me abrir às dimensões mais profundas de mim mesma à minha “terra boa”, ao meu “bom lugar”. Lida dessa perspectiva, a parábola não me deixa indiferente; motiva a me questionar sobre a partir de onde eu estou vivendo e, para chegar à resposta adequada, convida a me fixar nos frutos que saem de mim.

A experiência espiritual cristã implica, portanto, “mergulhar os pés no chão da vida”.

É na obscuridade da terra que a planta vai buscar a força que a manterá viva, que lhe dará condição de expandir sua copa em direção à imensidão do céu. As raízes mergulham na terra de modo profundo, silencioso e lento. Expressões do meu cotidiano como “pôr os pés no chão”, “estar com os pés na terra”, significam enraizar-me e comprometer-me com a realidade que me afeta.

No “chão”, à primeira vista, estão todas as sujeiras, os detritos e as coisas em decomposição. Mas, para as raízes, tudo isso significa o alimento da vida.

Um “chão” é sempre mais do que um simples chão: cada “chão” revela lembranças, referências, ansiedades, medos, saudades...; cada “chão” guarda histórias, presenças e tem força de memória. Há vidas, pessoas, caminhos, acontecimentos, experiências... 

Chão amplo é convite a sonhar alto, a pensar grande, a aventurar-se...; ousar ir além, lançar por terra o modo arcaico de proceder, romper com os espaços rotineiros e cansativos.

“Chão humano e humanizante”, porque carregado da presença divina.

É o ser humano mesmo o verdadeiro chão a partir do qual Deus se deixa encontrar e se dá a conhecer; cada pessoa é o autêntico chão da eterna presença de Deus.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, geralmente eu caio na armadilha de acreditar que dar fruto é fazer obras grandes. A tarefa fundamental do ser humano não é fazer coisas, mas “fazer-se”. “Dar fruto” seria dar sentido à minha existência de modo que, ao final dela, a criação inteira possa estar um pouco mais perto da meta, graças à minha presença nela. Não se trata simplesmente de ativismo, mas de engendrar, de gestar algo novo, viver o Evangelho como novidade. Uma coisa é ter êxito e outra é ser fecundo, gerar vida.

Este é o desafio: gerar o novo a partir de dentro de mim mesma, como se eu o sugasse da terra com minhas raízes, para que minhas palavras e minhas ações sejam originais e criativas, e revelem uma força transformadora, com impacto na realidade onde me encontro.

Na fecundidade há espaço para o “mistério”. A fecundidade tem lugar no oculto, nas entranhas da terra. A fecundidade supõe confiança e abandono, uma atitude aberta e serena, sem ansiedade nem tensão, sem deixar-se desanimar pela insignificância dos primeiros resultados.

Viver em chave de fecundidade supõe aceitar ritmos, tempos longos como se dão na natureza. As plantas necessitam tempo para florescer e meses para crescer. Isto supõe excluir toda impaciência.

A fecundidade perdura e aumenta com os anos, embora as forças físicas se debilitem. 


5 – O que a Palavra me leva a viver?
“Penso e sinto a partir do lugar onde meus pés estão plantados”. Onde meus pés estão plantados? O meu “terreno cotidiano” tem facilitado ou dificultado o surgimento de novos frutos?

- Vivo em um contexto marcado pela cultura da superficialidade, da aparência... Onde está enraizada minha vida? Ela tem se revelado como “terra boa”, verdadeira e fecunda, de onde brotam novidades surpreendentes?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 13,1-23
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Terra tombada – fx 13
Autor: José Fortuna e João Dorácio
Intérprete: Pe. Fábio de Melo
CD: Enredos do meu povo simples
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:53




quarta-feira, 1 de julho de 2020

Leitura Orante – 14º DOMINGO TEMPO COMUM, 05 de Julho de 2020

Leitura Orante – 14º DOMINGO TEMPO COMUM, 05 de Julho de 2020

UM CORAÇÃO SEM DISTÂNCIA

“...que sou tolerante e humilde de coração, 
e encontrareis repouso para vossas vidas” (Mt 11,29)


Texto Bíblico: Mateus 11,25-30


1 – O que diz o texto?
Inútil discutir e dar voltas: o distanciamento social veio e começou a fazer parte do nosso ritmo cotidiano; não nos resta outro remédio a não ser tomar medidas para aprender a manejá-lo e a incorporá-lo em nossa vida da maneira menos danosa possível.

De fato, seus perigos são evidentes: o distanciamento físico (“que só se aproximem até um metro”), pode gerar o distanciamento social (“que não me venham com mais problemas, porque já tenho os meus”) e desembocar no distanciamento emocional (“olho ao meu redor e sinto as pessoas como uma ameaça”).

O evangelho deste domingo pode nos oferecer uma inspiração neste momento dramático que vivemos.

Jesus nos revela que toda manifestação de distanciamento (sanitário, físico, social, religioso, cultural, político...) pode ser quebrado a partir do coração. Toda proximidade com o outro começa pelo coração. Nesse sentido, encontramos uma pérola de grande valor naquilo que o evangelista Mateus nos desvela: “Aprendei de mim, que sou tolerante e humilde de coração”.

Ao se apresentar como referência para os seus discípulos - “aprendam de mim!”, Jesus frisou duas atitudes pelas quais pautava a sua vida: a mansidão, tolerância e a humildade. Elas são o reflexo das bem-aventuranças que Ele sempre deixou transparecer no encontro com os outros.

É do coração que brotam a mansidão, a tolerância e a humildade, únicos remédios que substituem a expressão do afeto e a cordialidade manifestada por via táctil (dar as mãos, abraçar...). Mesmo quando a situação impede que mãos e braços se encontrem, os corações se abraçam.

Este “tempo de confinamento” está nos fazendo tomar consciência de nossas debilidades, quebrando toda pretensão de auto-suficiência e de soberba; ao mesmo tempo, está nos fazendo experimentar que não somos donos de nossos estados de ânimo e que precisamos dedicar tempos ao descanso e à gratuidade. 

Vivemos em meio à cultura da produtividade, da competição, da eficiência, e isso nos deixa cansado, raivosos, angustiados e tristes, sem um motivo aparente e sem poder encontrar uma solução para isso.  Constatamos que nossa fragilidade carrega em si a necessidade de sair, de passar tempos distendidos, de reaprender a estar com os outros, de oxigenar nossa vida em meio a tantos venenos que nos asfixiam...


2 – O que o texto diz para mim?
A humildade e a mansidão, tolerância do coração me trazem para o chão da vida e me possibilita viver com mais humanidade. E estas virtudes estão disponíveis, em abundância, no meu interior. Basta abrir espaços para elas e o meu cotidiano adquirirá novo sabor e calor.

É suave a condição humana quando, em vez de ocultar minha debilidade, descobrir com assombro que é ela que me conduz pela mão a me aproximar calorosamente dos demais. Quando vivo a debilidade de forma agradecida, é mais fácil perdoar que condenar, compreender que murmurar, aceitar que julgar.

A debilidade humana descansa nas mãos de Deus. Talvez seja esta a aprendizagem principal de minha vida, pois a tenho saboreado internamente. Só assim poderei oferecer, também a mim, um lugar acessível de repouso para os cansaços e fragilidades dos outros.

“Descansar” não é a outra face da ação de trabalhar; é participar, ter parte, na vida mesma de Deus, onde ação e repouso coincidem numa única pulsação, num único movimento de segurança e de felicidade, de consentimento e de abandono, nessa Presença Humilde que flui dentro de mim, me atrai e me conduz com suavidade. O decisivo é ir ao seu encontro e deixar-me aliviar, para aprender d’Ele a ser mais humana.

Se eu viver só em chave de mandamentos, de doutrinas, de normas..., comerei pão de fadigas e sentimentos de culpa; se eu viver em chave de bem-aventuranças, certamente poderei caminhar aliviada, porque o peso e a fecundidade da vida estão apoiados em Outro e não dependem só de mim.

Nesse sentido, as bem-aventuranças da humildade e a mansidão, tolerância são o terreno sólido sobre o qual posso assentar minha vida e ativar todas as potencialidades humanas que me habitam.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Humildade” vem de húmus, chão, barro. Ela está vinculada ao amor à verdade e a ele se submete.  Ser humilde é amar a verdade mais que a si mesmo. Humildade é andar na verdade” (S. Teresa).

“Onde está a humildade, está também à caridade” (S. Agostinho). É que a humildade leva ao amor, e todo amor verdadeiro a supõe; sem a humildade, o ego ocupa o espaço disponível, e só vê o outro como objeto ou como inimigo. A humildade me conduz à pura gratuidade do amor desinteressado.

Por outro lado, aqueles que vivem sob o impulso da mansidão, não rejeitam nada, não exigem nada. Estão abertos às surpresas da vida, vão interiorizando as contrariedades de cada dia e ampliando um espaço no próprio interior, onde acolher a realidade e reafirmá-la; revelam um coração que cria e alimenta proximidades com todos, porque pulsa no ritmo do coração do outro, fisicamente presente ou distante.

A mansidão, tolerância se assemelha a um sentimento de não violência ativa, a “essa capacidade passiva de recepção que se encontra no fundo da estrutura da pessoa” (Edith Stein).

Mansidão, tolerância não é debilidade, mas força suavizada; ela não é a atitude medíocre daqueles que se sentem anulados pela presença violenta do outro. É força que não provém da violência externa, mas de uma transformação interna. Por isso, o manso, o tolerante pode realizar ações impossíveis a quem é violento e sentir-se bem-aventurado e feliz, uma vez que tem esperança de conquistar o coração dos outros e se encontra entre os que herdarão a “terra prometida” do coração de Deus.

A mansidão, tolerância cristã, reflexo daquela de Jesus, é plena de força. Suavidade e força que recorda o modo “suave-forte” divino de agir. Trata-se daquela harmonia conquistada pelo ser humano que alcançou seu centro mais profundo e ali encontra o dom da liberdade. A mansidão, tolerância é o estado interior a ser alcançado pelos corações dos homens e mulheres livres.

Nessa ótica, de fato, quando perco a mansidão, a tolerância vejo minha liberdade diminuída. Entro na lógica do revide e a emoção indomada preside minhas ações.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, vivo em um mundo onde imperam a prepotência, a agressividade, a vingança, o ataque e o desafio preventivo, o amedrontamento, a extorsão e a imposição violenta como meios habituais para conseguir os fins que se pretendem. Esta mesma estratégia de morte é utilizada em diferentes ambientes, tanto civis como religiosos, políticos como econômicos, entre pessoas e entre grupos ou nações.

Com isso, a vida e as relações se convertem num campo de batalha contínua, como se fosse uma manada de lobos disputando o cordeiro.

Como seguidora d’Aquele que é o humilde artífice da paz, testemunho e profetizo que a mansidão, tolerância é o verdadeiro rosto da Igreja.

Não é por acaso que muitas pessoas que lutaram em favor da justiça, pagando com a própria vida, tenham essa característica comum: a mansidão, a tolerância (Gandhi, Luther King, Dom Romero...). São descritos como indivíduos mansos, tolerantes e humildes, amáveis e de agir discreto, abertos ao diálogo e à acolhida do outro, pacientes e simples. E, exatamente por isso, dotados de uma força diferente e, sobretudo, muito eficaz.

Bem-aventurados os humildes os mansos, os tolerantes! Graças a eles o mal, na terra, pode se transformar em bem!


5 – O que a Palavra me leva a viver?
De onde brotam a mansidão, a tolerância e a humildade? Como ativá-las e fazê-las crescer? Ninguém pode improvisá-las. A raiz última da mansidão, tolerância, humildade é contemplativa. Nasce em um clima de oração, numa proximidade íntima que faz o meu coração pulsar no mesmo movimento do Coração compassivo de Deus. Desse encontro, de coração a Coração, emergem das profundezas de meu ser estes dinamismos mais humanos e mais divinos. A partir da fonte original, a mansidão, tolerância e a humildade vão se expandindo na direção dos outros, alimentando novas relações, acolhendo o diferente, vibrando com o bem presente no outro...

- No ritmo de minha vida, o que mais se faz visível: mansidão, tolerância e humildade? Ego inflado e soberbo? Agradecimento assombrado ou ingratidão venenosa? Suavidade divina ou prepotência que petrifica?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 11,25-30
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Vem comigo – fx 05
Autor: Jorge Trevisol
Intérprete: Jorge Trevisol
CD: Mística, amor e sentido
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04.24