terça-feira, 23 de junho de 2020

SÃO PEDRO e SÃO PAULO, 28 de Junho de 2020

SÃO PEDRO e SÃO PAULO, 28 de Junho de 2020

PEDRO E PAULO: 
duas referências inspiradoras no seguimento de Jesus

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15) “Quem és tu, Senhor?” (At 9,5)

Texto Bíblico: Mateus 16,13-19

1 – O que diz o texto?
Os acontecimentos e, sobretudo, as pessoas que encontramos ao longo da existência, são os que vão nos fazendo passar por contínuas transformações. Por isso, quando narramos nossa história de vida, quase sempre mencionamos alguém em particular que nos marcou profundamente. Já não somos mais os mesmos depois de ter conhecido certas pessoas que se tornaram especiais. Nosso olhar e nossa memória retornam a elas frequentemente, por sua constante inspiração e companhia. 

Por isso, a pergunta que Jesus dirige aos discípulos não é superficial – “E vós, quem dizeis que eu sou?” Esta é a questão, a grande pergunta de Jesus que continua ressoando em todos nós, seus seguidores. Dependendo da resposta que damos, isso terá implicações profundas em nossa existência: a centralidade do modo de ser e de agir de Jesus em nossos compromissos, a ressonância de suas palavras em nossa vida, a sintonia com suas grandes opções, a sensibilidade diante dos mais pobres e excluídos, a nova relação com o Pai... Em outras palavras, o encontro com a identidade de Jesus desvela nossa verdadeira identidade e, por isso mesmo, nosso modo de ser e de agir serão cristificados.

Segundo o evangelho deste domingo, só reconhecendo a identidade de Jesus estaremos capacitados para escutar o que Ele tem a nos dizer. Por isso, quando Pedro declarou quem era de verdade Aquele a quem tinham seguido, o Senhor mudou seu nome – “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja”. Só Jesus conhece bem quem somos e o que podemos realizar.

O ser humano é um ser chamado. Chegamos a ser nós mesmos graças ao chamado, ao olhar, à palavra de outro. E na palavra e no chamado que nos vem de Jesus, vamos percebendo que o mistério de Deus, totalmente outro e absolutamente íntimo, nos envolve e nos fundamenta.

Não podemos definir Jesus com dogmas e doutrinas, mas também não podemos deixar de nos fazer a pergunta: “quem é este homem Jesus”? Toda tentativa de responder com fórmulas fechadas não solucionará o problema. A resposta deve ser vivencial, não teórica: “quê dizes tua vida de mim?”, pergunta Jesus.

Nossa vida, enquanto seguidores é a que deve dizer quem é Jesus para nós. Do esforço dos primeiros cristãos por compreender a Jesus devemos fazer nossas as perguntas que foram feitas, não as respostas que deram. Por mais informações que recebamos sobre Ele, por mais normas morais e ritos que aprendamos e pratiquemos, se ninguém nos convida, com sua vida, a prolongar o estilo de vida de Jesus, tudo permanecerá superficial e em nada nos enriquece.


2 – O que o texto diz para mim?
Dar por definitivas as respostas dos primeiros concílios acaba me afundando na rotina da repetição de fórmulas. O decisivo é descobrir a qualidade humana de Jesus e deixar que Ele desvele o que há de mais humano em mim. Afinal, o centro da missão do Mestre de Nazaré está em me ajudar a ser um pouco mais humana, sobretudo nas relações com os outros e com o Pai.

Se eu creio que o importante é a resposta, que já está dada permanecerei em paz e acomodada; isso é grave. Hoje sei que o importante é que eu continue fazendo a pergunta; a resposta me paralisa; a pergunta me mantém acesa e criativa, pois esta tem impacto no modo cristificado de viver.

Uma fé, vivida sem perguntas, acaba se esvaziando daquele mesmo impulso vital de Jesus. Sou seguidora de uma Pessoa (Jesus Cristo) e não de respostas teológicas.

Minha fé cristã hoje é a mesma de Pedro e de Paulo: seguir Jesus Cristo e, em minha maneira de viver, oferecer o Evangelho a todos. Assim se compreende que a Igreja celebre Pedro e Paulo numa única festa. E, por isso, não devo me escandalizar se, com frequência, na Igreja aflore o “Simão”, ao invés de Pedro: as ânsias de triunfalismo, busca de poder, medos na hora da perseguição... Também não posso me escandalizar se, com frequência, aflore o “Saulo”, ao invés de Paulo: fechamento nas próprias ideias e convicções, desembocando na intolerância, no dogmatismo e na violência, inclusive física.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Estes dois grandes personagens (Simão e Saulo) passaram por uma profunda transformação, a partir do encontro com a pessoa de Jesus Cristo; foi um processo lento, sendo lapidados pela graça de Deus até redescobrirem uma nova identidade escondida debaixo das cinzas do auto-centramento e da prepotência; identidade que agora se expressa em novos nomes: Pedro e Paulo.

Como distinguir, na Igreja, “Simão” de “Pedro”? Como distinguir “Saulo” de “Paulo”? Onde estão as fronteiras, se, ao mesmo tempo, Simão é Pedro e Pedro é Simão? Onde estão os limites, se, ao mesmo tempo, Saulo é Paulo e Paulo é Saulo? 

Estes dois personagens me fazem ter acesso à minha condição humana: sou barro, frágil, inconstante... mas carrego um tesouro que me dignifica. Nas profundezas de meu ser, há um “pedro” e um “paulo” escondidos, esperando uma oportunidade para se manifestar. Exteriormente, talvez eu tenha sido muito mais “simão” e “saulo”, mas, o que decide minha vida, é a minha interioridade, morada do “Pedro” e do “Paulo”. É ali que a Graça de Deus trabalha em mim, fazendo emergir, junto a estes dois personagens, o que é mais nobre e mais divino em mim. Deus, na sua eterna paciência, espera momentos especiais para dar o seu “toque” em meu eu profundo, e assim despertar o “pedro” e “paulo” que ainda dormem. 

Diante de mim está Jesus Cristo para me dar a “chave” como a deu a Pedro; ela me facilitará o acesso ao mistério insondável da Vida. Na perspectiva bíblica “céus” significa vida em profundidade, vida expansiva, vida que nunca se acaba. Como dinamismo humanizador, a chave da interioridade é mola mestra que movimenta grandes intuições e sonhos, me retira do individualismo, cultiva a solidariedade, corrige rotas de vida, excita a imaginação, realça o poder criativo...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, eu tenho em minhas mãos as chaves da vida. O que faço com elas? Posso abrir ou fechar, ligar ou desligar, atar ou desatar... “Ter a chave da vida”: abrir ou fechar as portas do futuro, das relações, dos sonhos, da missão... Dar direção à vida. Atar e desatar os nós que bloqueiam o fluir da vida... Aqui está o grande desafio: abrir  ou fechar; me abrir à vida, ao novo, ao outro, ao desafiante ou diferente... ou me fechar no medo, no conhecido, no rotineiro...

Deus confiou e colocou em minhas mãos a “chave da vida”. Ele não impõe, não obriga. Corre o risco de me criar livre. Aqui está minha grandeza, enquanto ser humano: optar por uma vida aberta ou fechada, ser nó ou desatar, ligar ou desligar, expandir ou retrair...

Sempre há o perigo de construir, dentro de mim, um condomínio onde portas se fecham, chaves se perdem, segredos são esquecidos... e, com isso, mergulho na mais profunda solidão.

Minha própria interioridade é a rocha consistente e firme (“tu és Pedro”), bem talhada e preciosa que tenho em mim, para encontrar segurança e caminhar na vida superando os desafios e as inevitáveis resistências na vivência do seguimento de Jesus. 

É no “eu mais profundo”  que as forças vitais se acham disponíveis para me ajudar  a crescer dia-a-dia, tornando-me aquilo para o qual fui chamada a ser. Trata-se da dimensão mais verdadeira de mim mesma, a sede das decisões vitais, o lugar das riquezas pessoais, onde vivo o melhor de mim mesma, onde se encontram os dinamismos do meu crescimento, de onde partem as minhas aspirações e desejos fundamentais, onde percebo as dimensões do Absoluto e do Infinito da minha vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
A oração me torna transparente; ela deixa transparecer o “simão” e o “pedro” de minha interioridade; ela desvela o “saulo” e o “paulo”  que atuam em mim.

A interioridade é espaço aberto, onde, a intimidade com Deus não anula minha personalidade, mas me capacita a fazer uma contínua passagem do “simão para o Pedro”, do “saulo para o Paulo”.

- O que tem predominado em minha vida: “simão ou Pedro”? “saulo ou Paulo”?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 16,13-19
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Paulo de Tarso – fx 04
Autor: Antonio Cardoso
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Cristo vive em mim
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:04

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