quarta-feira, 20 de maio de 2020

Leitura Orante – ASCENSÃO DO SENHOR, 24 de Maio de 2020

Leitura Orante – ASCENSÃO DO SENHOR, 24 de Maio de 2020

ASCENSÃO: proximidade radical

“Eu estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos.” (Mt 28,20)


Texto Bíblico: Mateus 28,16-20  


1 – O que diz o texto?
O Mistério Pascal é uma realidade única: nem a ressurreição, nem a ascensão, nem o sentar-se à direita do Pai, nem a glorificação, nem a vinda do Espírito, são fatos separados. 

As diferentes “expressões” do Mistério Pascal, pertencem ao hoje como ao ontem, são tão nossas como foram para Pedro, João ou Madalena. Não aconteceram só no passado, mas também estão acontecendo neste instante. São realidades que estão afetando nossa própria vida. Podemos e devemos vivê-las como os discípulos de Jesus as viveram. 

Para nós seguidores de Jesus, Ascensão é abertura para o cotidiano, para a realidade do serviço. É preciso partir e viver o chamado do Mestre para prolongar, neste mundo, seu modo de ser e de viver.

A Ascensão de Jesus não significa evasão aos céus - “Homens da Galiléia, por que ficai aqui, parados, olhando para o céu?” (At. 1,11) – mas imersão na vida. Aquele que Vive não escapou do mundo; sua Ascensão significa expansão e presença no universo inteiro, plenificando tudo em todos; Ele agora assume todos os rostos, identifica-se com toda a humanidade e continua a caminhar pelas Galiléias dos excluídos, das periferias, dos pobres, acampa junto aqueles que vivem às margens...

Ao celebrarmos a entrada de Jesus na glória, não celebramos uma despedida ou um distanciamento, mas um novo modo de presença; celebramos a proximidade radical d’Aquele que é, realmente, o Emanuel, o Deus conosco para sempre.

Ao “subir aos céus”, Jesus se faz mais radicalmente próximo de todos, ultrapassando tempo e espaço. Ascensão não é afastamento, mas uma maneira nova de fazer-se presente a todos e em todos os lugares.

O único que Jesus faz é restabelecer e assegurar a proximidade e comunicação com toda a humanidade. Isto deve nos dar uma grande alegria, pois Ele permanece aqui na terra, junto a nós. Assim, a Ascensão de Jesus nos desafia a romper a estreiteza de nossa vida para expandi-la a horizontes mais inspiradores.


2 – O que o texto diz para mim?
Na festa da Ascensão deste ano, a liturgia me propõe a cena final do evangelho de Mateus; embora não fale expressamente da “elevação” de Jesus ao céu, nele se condensa todo o caminho anterior, e se abre ao mundo inteiro, como presença e promessa de vida.

Mateus termina seu evangelho narrando um breve encontro entre Jesus Ressuscitado e o grupo dos onze que havia regressado à Galiléia, depois de receber a mensagem das mulheres que tinham ido ao sepulcro. Este encontro acontece longe de Jerusalém, afastado do lugar onde eles tinham vivido a experiência traumática da paixão de Jesus. Esta distância física é também existencial. Depois da crise, do medo, do desespero que os havia paralisado, o Mestre os convida a voltar à Galiléia, às origens, para percorrer de novo os caminhos, para “fazer memória” das experiências junto d’Ele e que agora hão de reler de forma diferente.

A Ascensão é a festa por excelência da nova proximidade de Jesus. No entanto, devido à situação pandêmica, celebro fisicamente distanciada uns dos outros; mas, a Ascensão pode ser um momento oportuno para ativar outras maneiras de me fazer próxima, inspirada na proximidade do Ressuscitado.

A festa da Ascensão pode também ser uma ocasião para desvelar (tirar a máscara) o farisaísmo que está latente em mim: a vivência camuflada de um distanciamento humano. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O isolamento sanitário pôs às claras esta dura realidade: já levei anos praticando o distanciamento político, a polarização religiosa, o enfrentamento de extremos, a separação ideológica, a distância como meio para me fechar em minhas posições fanáticas, preconceituosas e intolerantes. Uma voz surda sempre esteve presente: devo me separar dos outros, daqueles que pensam diferentes, sentem diferente, vivem diferente, assumem posições e opções diferentes... 

Não posso deixar que a atual crise sanitária acentue mais ainda os diferentes distanciamentos que estavam escondidos, mas que agora vieram à tona com mais força.

Esta é a dura contradição que estou vivendo: se, estar separada fisicamente de meus seres queridos e vizinhos é o mais eficaz para combater a pandemia, preciso, então, buscar outras expressões de proximidade para que essa distância não se converta em ecossistema e modo de vida. A distância sanitária não pode servir de cortina de fumaça para reforçar outras distâncias que se abrem diante de mim, no campo social-político-religioso-cultural...

Não posso deixar que o sonho do Reino, o projeto universal de Jesus, se dilua em meio às distâncias artificiais que desumanizam. Hoje, mais do que nunca, devo celebrar e recordar que juntos, unidos, orientados para um horizonte comum, poderei enfrentar qualquer crise que me venha. Talvez, esta pandemia me oferece uma ótima oportunidade para crer nisso, de verdade: de transformar declarações ocas em atos sólidos, de resumir tudo o que é a humanidade numa só palavra: proximidade. Proximidade com aqueles que sofrem, com aqueles que buscam um mundo melhor, com aqueles que menos têm, com aqueles que se sentem excluídos... Em meio a um mundo onde a distância e a suspeita crescem e se enraízam a Ascensão é a alternativa de proximidade e colaboração que eu preciso. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor não me sobra muitas outras oportunidades de transformar este sonho em realidade. Vivo na distância, necessária no momento, mas não faço dela meu estilo de vida; não devo convertê-la em meio que determine o que sou. Sou chamada a ser algo mais que compartimentos estanques e seguros, isolados. Posso ser “praça comum” de encontro e diálogo, de mãos estendidas, ouvidos atentos para dar forma a isso que tanto precisamos: sentir-me próxima uns dos outros.

À luz da Ascensão posso afirmar: fisicamente distanciada é quando me sinto mais próxima.

Posso recordar o constante convite de Jesus a provocar encontros que ajudem a integrar, a reunir, a religar, a articular o tecido comunitário. Há tantas vidas esparramadas, isoladas, rejeitadas, esperando por sinergia. Na verdade, Ele provocou as pessoas a saírem de seu isolamento e padrões alienados de relacionamento para expandir-se em direção a uma nova forma relacional com tudo o que existe; tal relação é a concretização do sonho do “Reino de Deus”.

Como ser humano, trago esta força interior que me faz “sair de mim mesma”  e criar laços, fortalecer a comunhão, romper distâncias...

O ser humano não é feito para viver só; ele necessita conviver, viver com os outros; ele é um ser constitutivamente aberto, essencialmente em referência a outras pessoas: estabelece com os outros uma interação, entrelaça-se com eles, e forma um nós: a comunidade.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Jesus vive sua proximidade radical através dos seus seguidores que se fazem próximos. A “opção de vida” em favor do próximo é o indicador de uma vida aberta e comprometida na construção de uma convivência social na qual predomine a ternura e não a dureza de coração, o respeito à vida e o amor e não a violência e a exclusão.

De quem eu sou próximo, ou, como me faço próximo, nestes tempos de isolamento social?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 28,16-20  
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Louvação: Ascensão – fx 15
Autor: Geraldo Leite Bastos
Intérprete: Geraldo Leite Bastos
Coro: Emmanuel - Paulinho Campos - Rita Kfouri - Maria Diniz
CD: Ação de graças no dia do Senhor – Cantos Celebrativos
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:22



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