terça-feira, 12 de maio de 2020

Leitura Orante – 6º Domingo da PÁSCOA, 17 de Maio de 2020


Leitura Orante – 6º Domingo da PÁSCOA, 17 de Maio de 2020

A ARTE DE CINZELAR PALAVRAS DE VIDA ATRAVÉS DA CONVERSA

“O Espírito da Verdade, vós o conheceis porque permanece conosco 
e estará em vós” (Jo 15,17)


Texto Bíblico: João 14,15-21


1 – O que diz o texto?
O Evangelho deste domingo faz parte de uma longa conversa de Jesus com os seus amigos, durante a Última Ceia, e que João recolhe nos capítulos 13 a 17. 

Era uma conversa amiga, que ficou na memória do discípulo amado. Jesus, assim parece, queria prolongar ao máximo esse último encontro, momento de muita intimidade. Para João, a conversa de Jesus tem uma conotação de profundidade e trato, de certa familiaridade e ternura. 

Nesta interação Jesus discípulos, tanto os conteúdos expressos como os aspectos relacionais ganham uma grande importância: as palavras, os gestos, o olhar, a maneira de falar, o tom da voz, os silêncios, o contexto onde acontece a conversação...; tudo isso forma parte da diversidade e riqueza da revelação de Jesus aos seus mais íntimos.

Jesus extrai palavras significativas, previamente cinzeladas e incorporadas no seu interior, onde elas revelam dinamismo, sentido e alteridade; sua conversa brota de uma vida interior fecunda e conduz a uma vida comprometida. Trata-se de um verdadeiro “testamento espiritual”

A conversação constitui, portanto, o núcleo diferencial de qualidade de trato próximo e fraterno daqueles que, além de viverem juntos, compartilham a vida com um projeto comum.

No entanto, há conversa e conversa. Há conversa superficial que gasta palavras à toa e revela o vazio das pessoas. E há conversa que toca fundo no coração e fica na memória. Todos nós, de vez em quando, temos esses momentos de convivência amiga, que dilatam o coração e vão ser força na hora das dificuldades. Ajudam a ter confiança e a vencer o medo. 


2 – O que o texto diz para mim?
Conversar constitui uma das experiências humanas mais antigas e configuradoras de meu ser. Ela não se reduz a um mero intercâmbio de palavras; é um processo essencialmente ativo, inerente à minha natureza relacional, cuja finalidade última é viver a experiência do encontro. 

Conversar é uma das aprendizagens vitais que não tem data de vencimento.

A arte da conversação é um caminho pedagógico, um processo gradual que requer uma capacidade de escuta, de acolher e deixar-se afetar pelo que o outro é, não só pelo que diz; uma capacidade de olhar com profundidade para reconhecer uma história santa, um caminho de salvação. É reconhecer no outro o que há de verdadeiro, bom e belo e descobrir como o dinamismo de Deus atua no coração dele. É ajudá-lo a descobrir, na trama de sua vida, as motivações profundas que o levam a ser e a agir de uma maneira muito pessoal.

A conversação é uma experiência profundamente humana de proximidade, de conhecimento, de intercâmbio, de ternura..., um encontro entre pessoas que vão compartilhando histórias de vida, esperanças e frustrações, vontade de construir e sonhar... Na conversação, o que importa é a pessoa do outro e não os problemas que apresenta...; ela é o lugar privilegiado de encontro e descoberta misteriosa do Outro (Deus). 

“Conversar” e “converter”, etimologicamente, vêm da mesma raiz. Em seu sentido mais radical e profundo “conversar” é “converter-se” ao mistério do outro, é converter-se à alteridade. A conversação reforça os laços, criando a comunidade de “amigos no Senhor”.

Sair dos corredores do próprio claustro interior e de seus mecanismos de defesa para converter-se em um servidor do outro, com a mediação mais humana, mais sutil, mais imediata e universal, mais iluminadora e mais reveladora da própria maturidade: a palavra.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Mesmo “isolados socialmente” devido à pandemia, a conversação me liberta da solidão e do fechamento, fazendo-me crescer na transparência. As inúmeras possibilidades de conversar são encontros que me reconciliam com a vida, me move a crescer e a sair de meu isolamento. Ela me permite sentir que faço parte da vida de outros e me ajuda a levantar-me quando as perdas, os fracassos, as enfermidades... tornam difícil meu caminhar.

Para chegar a conversações mais profundas e íntimas preciso percorrer o caminho que se inicia no cotidiano e no aparentemente superficial. Encontrar-me com os outros é uma experiência que requer seu tempo, seu espaço, seu ritmo. Minha natureza relacional continuamente me oferece oportunidades para conversar; depende de eu fazê-las banais ou convertê-las em experiência de vida.

Segundo Jesus, o protagonista principal da conversação é o Espírito, que gera em meu interior palavras de vida e criatividade. Numa conversação profunda deixo transparecer minha verdadeira identidade, minha verdade original. Mas é o Espírito, que me habita, Aquele que cava em mim palavras de vida. 

Quando Ele encontra liberdade para atuar em mim, faz brotar das entranhas das palavras sua riqueza escondida. Por isso, Ele é o “Espírito da Verdade”: não a verdade racional, dogmática, doutrinária...

Refere-se à “verdade profunda” que me diz que fui criada para uma Vida plena e para contribuir a que cada ser humano participe de tal Vida. Ele é a “verdade íntima” que me diz que, no mais profundo de mim mesma, não só pulsa um coração, mas também um Deus que inspira a minha maneira original de ser mais humana. Ele é a “verdade autêntica”: sou filha, irmã e sou chamada a viver como tal.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o “Espírito da verdade” me convida a viver na “verdade” de Jesus em meio a uma sociedade onde a mentira é considerada estratégia, a manipulação é vista como bom negócio, a irresponsabilidade é confundida com a tolerância, a injustiça é identificada com a ordem estabelecida, a arbitrariedade é propagada como ato de liberdade, a falta de respeito e a violência verbal como expressões de sinceridade...

Para além das imagens e símbolos, é decisivo redescobrir a presença do Espírito de Deus que, dentro de mim, provoca movimentos, ativa as brasas escondidas no coração, me faz forte, alegre, valente, apaixonada, audaz e sábia. Devo acolhê-lo com coração simples e confiado, abrindo espaço para que Ele atue com liberdade, inspirando-me e fazendo-me mais criativa. É Ele que dá sabor e sentido à minha existência e me enraíza no modo de ser e de viver de Jesus. 

Conduzida pelo Espírito de Jesus, mergulho em meu mundo com os olhos abertos, com os ouvidos atentos, com o coração sensível para ter acesso à verdade profunda de toda a realidade. Tudo é perpassado por essa presença alentadora, que “faz novas todas as coisas”.

Este Espírito de Vida subsiste em tudo e em todos, embora muitas vezes me tornasse traidora  do Seu sopro com meus exclusivismos, condenações e rejeição do pluralismo fomentado pelo mesmo Espírito.

Nenhuma espiritualidade e nenhuma igreja tem o monopólio do Espírito de Cristo, que sopra onde quer, como e quando quer, sem que o controlemos; para o Sopro, não há barreiras e nem fronteiras.

Todos e todas estamos em caminho, envolvidos no dinamismo contínuo desse Espírito Pascal.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Pela conversa a pessoa manifesta quem ela é.  “Onde está  sua conversa, aí está seu coração”.

- Quais são minhas conversas? Elas animam os outros, eleva-os, “aquecem seus corações”?...

- Aguçar meus sentidos, abrir o coração; há tantos que não podem mais esperar, pois ansiosos aguardam uma presença que acolha e uma palavra que os anime. 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – João 14,15-21
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 

Sugestão: 
Música: É de Deus que eu vim falar – fx 02
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérpretes: Ana Paula e Betinho
CD: De volta para meu interior 
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:57



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