quarta-feira, 6 de maio de 2020

Leitura Orante – 5º Domingo da PÁSCOA, 10 de Maio de 2020

Leitura Orante – 5º Domingo da PÁSCOA, 10 de Maio de 2020

TEMOS MORADA NO CORAÇÃO DE DEUS

“Na casa de meu Pai, há muitas moradas.” Jo 14,2)


Texto Bíblico: João 14,1-12


1 – O que diz o texto?
Sabemos que o Evangelho deste domingo antecede à Paixão e Morte de Jesus. Então, por que colocá-lo no contexto de Ressurreição? E a razão está centrada na atuação mesma de Jesus. Ele antecipou, na sua vida pública, que o destino definitivo do ser humano é o coração de Deus. Somos de Deus; em Deus, já “somos seres ressuscitados”. 

O grupo mais próximo de Jesus está vivendo um momento de máxima tensão e medo. O ambiente está carregado: a traição de Judas, o anúncio da negação de Pedro, a revelação da Sua partida. Apesar do temor e da inquietação pairando no ar, Jesus diz coisas que nunca dissera antes: palavras condensadas, luminosas, mobilizadoras, procurando quebrar o clima pesado e convidando os seus amigos à calma, à confiança e revelando que na casa do Pai há muitas moradas. Todos estão (estamos) envolvidos por este amor providente e cuidadoso do Deus Pai e Mãe; no seu coração cabem todos.

O contexto tenso vivido pelos discípulos nos revela que o medo e a angústia estão presentes no ser humano desde as origens. Todo ser humano atravessa certos momentos da vida marcado pela experiência do medo e, em algumas ocasiões, de angústia.

O medo é uma vivência forte e intensa que sentimos diante da presença de um perigo, mais ou menos imediato e concreto.

A angústia, que no seu sentido original latino (“angustus”) significa estreito, apertado, sem espaço, é um estado afetivo doentio que aparece como reação diante de um perigo desconhecido, difuso, mas que afeta e trava todo o nosso ser, até seu último neurônio. 

O medo e a angústia podem impregnar nossa vida e pode provir das causas mais diversas: medo diante da enfermidade, do fracasso, dos problemas afetivos e econômicos, da pandemia... Seja como for, o medo e a angústia podem fazer-se presentes em nós e bloqueiam nossas vidas, paralisando toda iniciativa e criatividade.

Quando estamos atravessando uma crise grave, como aquela vivida por Jesus e seus discípulos na véspera da Paixão, é reconfortante entrar na profundidade de nosso ser e deixar ressoar estas palavras: “não se perturbe o vosso coração; tende fé em Deus, tende fé em mim também”.


2 – O que o texto diz para mim?
É a experiência do encontro com o Ressuscitado que me pacifica mesmo em situações de crises, fracassos, horizontes sem saída..., quando o medo e a angústia se manifestam com mais força.

A serenidade é uma vivência profunda, íntima, salutar... De repente, alcanço uma paz inspiradora, uma paz que ninguém pode me comunicar; uma alegria serena que pacifica meu interior. Basta permanecer nessa paz, na minha morada interior.

Por isso, Jesus fala de lugares, de moradas..., espaços que pacificam e me livram das angústias e medos. E o coração de Deus é a morada pacificadora por excelência. O “lugar” do ser humano é Deus; vim de Deus e retornarei a Ele. “Só Deus basta” (S. Teresa).

É de minha condição humana buscar um espaço, um lugar hospitaleiro e acolhedor, o lugar onde me situo no mundo e onde posso ser encontrada. Como é bom experimentar que tenho lugar, espaço! Deus mesmo se faz espaço amoroso para mim, me concede um lugar inspirador. 

Sei que os seres humanos não teriam como sobreviverem sem um lugar, sem um espaço. Assim como sou ser de inteligência, sensibilidade, relação, etc., também sou um ser de lugares (“homo locus”); não qualquer lugar, mas aquele onde posso me descobrir capaz de amar e ser amada, de acompanhar e ser acompanhada, de contribuir e ser criativa, de realizar e sentir-me realizada.

O espaço faz parte do ar que respiro em nível fisiológico e biológico, como faz parte das minhas experiências interiores.

A minha sociedade parece estar indo à deriva justamente porque não sabe mais reconhecer “espaços diferentes e vitais”, porque tudo se torna igual e os lugares não falam mais, pois carecem de sentido e se revelam como lugares vazios. Os espaços são violados, os “lugares sagrados” são profanados, os “ambientes” carregados de sentido e de história já não revelam mais nada...

Esse é o primeiro sintoma de uma visão humana desastrosa e desastrada. Na insignificância e no achatamento dos espaços está o primeiro e mais grave esmagamento do pensamento e da consciência, a ruptura das relações sociais, a frieza ecológica e o definhamento das experiências religiosas.

Neste mundo disperso, carente de espaços humanizadores, o evangelho de hoje me dá referências e amparo. E a primeira referência que me pacifica é a “casa”. “Na casa de meu Pai há muitas moradas”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Caminho para a “casa” de Deus, sendo “casa” do mesmo Deus. Posso, então, afirmar que quem realmente habita “minha casa” não é o “eu”, mas Deus. “Em mim, Deus está em sua casa” (Mestre Eckhart). Esta morada interior é o espaço de transcendência, de oração, de admiração, de mistério, de silêncio; morada aberta e acolhedora, ambiente da comunhão, da comunicação, da intimidade; é a partir desta morada carregada de presenças que se vai ao Pai (Grande Morada).

Nesse sentido, a casa é mais do que uma realidade física, feita de quatro paredes, portas, janelas e telhado. Casa é uma experiência existencial primitiva, ligada ao que há de mais precioso na vida humana, que é a relação afetiva entre aqueles que a habitam e com aqueles que nela são acolhidos.

Casa, espaço do mundo para eu escolher e preparar, organizar, adornar e fazer a moradia a partir da qual contemplar a Terra e o Céu. Por isso ela é reveladora de minha identidade. “Dize-me como é tua casa e te direi quem és”. Ela é o espelho mais honesto dos meus hábitos, o abrigo dos meus medos, a minha fotografia. É por este motivo, talvez, que muitos fogem da própria casa: não querem enxergar a si mesmos.

A casa me ajuda a fincar raiz neste mundo e em mim mesma; ela é lugar de referência e me fornece orientação; ela anima minha espera e alimenta o encontro; conserva minha história, acolhe e guarda na memória as minhas alegrias e as minhas tristezas, as minhas conquistas e os meus fracassos...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, estar em casa é estar no seu espaço, na sua intimidade, no lugar de plena liberdade e espontaneidade. Ela é o cenário principal do enredo e dos episódios de minha vida; é o lugar seguro que me possibilita repouso e revigoramento afetivo, bem estar e proteção... Casa representa segurança e refúgio das ameaças que vêm de fora; ela me oferece um espaço estabilizador e nutridor, suscitando vigor e saúde integral. Sem ela facilmente perderei a calma e o equilíbrio, tornando-me presa fácil da agitação, da perturbação, do medo e da angústia.

O lugar cotidiano da casa se converte na epifania do divino, no lugar concreto do encontro com Aquele que faz de minha casa, Sua morada. 

Minha morada provisória me revela que sou peregrina em busca da morada definitiva; meu coração anseia pelas moradas eternas: o coração do Pai, onde cabem todos.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A casa é também a instância configuradora de minha experiência de fé. 

Diante de tantos ruídos e imagens que me violentam, a casa torna-se o lugar da escuta, do silêncio, da interioridade e da comunhão com o Transcendente, através de mediações simples como uma escuta musical atenta uma boa leitura ou o exercício diário da oração.

Entrar em minha casa e deixar que o Espírito transite livremente por ela, afastando todo temor, tristeza e angústia... 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – João 14,1-12
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Nada te perturbe – fx15
Autor: Kaer e Pe.Joãozinho,scj
Intérprete: Maria do Rosário 
CD: Louvemos o Senhor
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:48

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