terça-feira, 26 de maio de 2020

Leitura Orante – PENTECOSTES, 31 de Maio de 2020

Leitura Orante – PENTECOSTES, 31 de Maio de 2020

PENTECOSTES: “somos terras do Espírito”

...soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22)


Texto Bíblico: João 20,19-23


1 – O que diz o texto?
A festa de Pentecostes é a culminância de todo o tempo pascal. As primeiras comunidades cristãs tinham claro que tudo o que estava se passando nelas era obra do Espírito, e tudo o que o Espírito tinha realizado em Jesus, agora estava realizando em cada um deles. 

Também para cada um de nós, celebrar a Páscoa significa descobrir a presença do Deus-Espírito em nosso interior e na realidade que nos envolve, ora como brisa mansa, ora como vento impetuoso.

Tanto a “ruah” hebraico como o “pneuma” grego significam ar, vento, sopro. É neutro em grego, masculino em latim (“spiritus”), feminino em hebraico, pois transcende, acolhe e abençoa todas as identidades de gênero. É alento vital profundo. Brisa suave no sufoco, vento forte na apatia. “O vento sopra onde quer”, vem de tudo e de sempre, nos leva onde não sabemos.

A raiz da palavra “ruah”, nas línguas semíticas, é “rwh”, que significa o espaço existente entre o céu e a terra, que pode estar em calma ou em movimento. Seria o ambiente no qual os seres vivos bebem a vida. A terra mesma era concebida como um ser vivo, o vento era sua respiração.

Nestas culturas, o sinal de vida era a respiração. “Ruah” veio a significar “sopro vital”. Quando Deus modela o homem de barro, sopra em seu nariz o hálito de vida. 

No Evangelho deste domingo, prolongando o sexto dia da criação, Jesus sopra sobre os apóstolos para comunicar seu Espírito. 

Pentecostes vem nos recordar que o Espírito faz parte de nós mesmos, constitui nossa verdadeira identidade e não tem que vir de nenhum lugar. Somos habitados por Ele, está em nós, antes mesmo que nós começássemos a existir. É o fundamento de nosso ser e a causa de todas as nossas possibilidades de crescer em todas as dimensões da vida. Nada podemos fazer sem ele, como também não podemos estar privados de sua presença em nenhum momento. Todas as orações, encaminhadas a pedir a vinda do Espírito, só tem sentido quando nos levam a tomar consciência de sua presença e ação em nós; tais orações ativam em nós o impulso para nos deixar conduzir por essa presença inspiradora e criativa.

Assim é o Espírito que vibra na entranha do infinitamente grande e do infinitamente pequeno, nesta nossa Terra e no universo sem medida. O Espírito sopra onde quer que é como dizer “em tudo”, pois ama tudo e anima tudo. É a “alma” de tudo quanto vive e respira. É a esperança invencível, a aspiração irresistível de todos os seres, sem exceção. É a energia que toma forma na matéria e a faz matriz inesgotável de novas expressões de vida, sem fim.

Nesse sentido, nós somos a terra propícia onde atua o Espírito. Onde há mais carência, vulnerabilidade, pobreza... há mais e maiores possibilidades criativas. Nenhuma situação pode afastar-nos de Sua visita. Toda terra baldia é boa para o Espírito. Ele é o buscador incansável e com um “sim” ousado e forte recria de novo nossa história, estabelecendo o “cosmos” (harmonia e beleza”) em nosso “caos” existencial. 


2 – O que o texto diz para mim?
As “terras do Espírito” albergam milhares de nomes: chama-se esperança para aqueles que sonham outro mundo possível; chama-se amada paz para aqueles que vivem em meio à barbárie dos conflitos; chama-se liberdade para aqueles que foram privados dos seus direitos fundamentais; chama-se justiça para aqueles que vivem continuamente sendo espoliados e explorados; chama-se beleza, porque tudo o que foi criado é bom e precioso; chama-se humanidade porque é neste “húmus-chão” onde a presença da “Ruah” transforma a existência.

No silencioso sussurro da voz do Espírito, toda minha realidade interior fica abençoada: os sentimentos contraditórios, os dinamismos opostos, os pensamentos divergentes..., se harmonizam. Ele “desce” para me encontrar e despertar minha vida atrofiada. Com seu toque, uma identidade nova ressurge: não sou mais estrangeira, nem inimiga de mim mesma. Sua presença dá calor e sabor à minha existência.

São tantas as pessoas que fazem experiência de vida no Espírito, que bebem d’Ele, vivem d’Ele, muitas vezes sem saber disso; elas têm uma visão aberta e são motivo de alegria e de cuidado para aqueles que delas se aproximam; homens e mulheres que levam alívio ao tecido da existência humana, pois, com suas presenças, dão um toque de cor e calor à realidade; como brisa leve, situam-se junto àqueles que atravessam momentos de desânimo, de tristeza e de fracasso...

O Espírito é o artífice secreto de todas as cores e texturas da vida, da beleza, que conheço e daquela que ainda me aguarda. Ele é a “alma do mundo” e disso só posso fazer aproximações, vislumbres... 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Reconheço o Espírito pelos efeitos que provoca: sem saber de onde vem nem para onde irá, me golpeia e clama no sofrimento dos inocentes, grita em todos os ambientes que maltratam a vida, ali onde não se respeita a dignidade e o valor das criaturas. Ele me alcança na expressão terna de um rosto, na tonalidade de uma voz, na carícia da natureza...

Ali onde meu ego se esvazia, o Espírito toma o lugar que lhe pertence, desde o princípio e para sempre.

Esse lugar não é um espaço físico nem está situado no tempo, senão que esse lugar está dentro vai comigo lá aonde vou. São “terras do Espírito”, e habitá-la é minha promessa.

A humanidade sempre sonhou e buscou a “terra prometida”; no entanto, esta não se reduz a um lugar geográfico ou um espaço paradisíaco. São as “terras do Espírito”, terras prometidas a todos que vivem a partir de sua própria interioridade.  É preciso descalçar-se para entrar nessas terras, fazer-se cada vez mais leves mais humildes, peregrinos... Quem se deixa conduzir pelo Espírito, nenhuma terra lhe é estranha; ao contrário, tudo lhe é familiar. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, eis que me encontro agora no tempo do “distanciamento social”, para não me contaminar. Imperceptíveis partículas me ameaçam onde menos espero. E procuram minar e destruir meu sistema vital.

Mas não devo esquecer que há outro tipo de “bendito contágio”, que procura ter acesso à minha interioridade mais profunda: é o contágio do Espírito, que me envolve e me pede que tire todas as máscaras com as me defendo d’Ele. É o Espírito que alenta (suspira) na beleza, na arte, nas relações de amor incondicional, no cuidado compassivo, na presença solidária, nas pessoas que ajudam desinteressadamente, na hospitalidade da vida... 

Jesus Ressuscitado, no encontro com os discípulos me entregou definitivamente este Espírito, sua santa Ruah que o habitava e o levou a entregar sua vida em favor da vida. 

É a “Ruah” que produz o contágio espiritual e que foi derramada sobre toda a humanidade.

A Santa Ruah é a memória permanente do “sim” do Abbá e de Jesus para todos os seres humanos. Não sou abandonada do Amor, nem da Misericórdia de meu Deus. Onde menos penso, ali surgem sinais de um grande e apaixonado amor pela humanidade. Tanto amou Deus o mundo, tanto amou Jesus à humanidade, tanto me amou que me entregou o Espírito Santo, essa bendita contaminação que me envolve por todos os lados, para que “eu tenha vida em abundância”.

Santa Ruah! Bendito contágio!


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Sou humana, quando deixo que, dentro de mim, o Espírito de Deus encontre espaço livre para mover-se, sussurrar e suscitar inquietações. Ao habitar-me, o Espírito não me invade, nem se impõe. 

- Abrir espaço à sua presença, para brotar uma sadia convivência que potencia o melhor de mim mesma, para meu coração e abrir os sentidos para que fiquem mais alertas e sintonizados com as surpresas que brotam da vida.

- No ritmo da silenciosa respiração, sentir a “Santa Ruah” tendo acesso às profundezas de meu ser, pacificando, integrando..., despertando novas energias e impulsos criativos e rompendo o medo, a apatia, a falta de sentido...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 20,19-23
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: O sopro
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Canções que a vida escreveu
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:29

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Leitura Orante – ASCENSÃO DO SENHOR, 24 de Maio de 2020

Leitura Orante – ASCENSÃO DO SENHOR, 24 de Maio de 2020

ASCENSÃO: proximidade radical

“Eu estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos.” (Mt 28,20)


Texto Bíblico: Mateus 28,16-20  


1 – O que diz o texto?
O Mistério Pascal é uma realidade única: nem a ressurreição, nem a ascensão, nem o sentar-se à direita do Pai, nem a glorificação, nem a vinda do Espírito, são fatos separados. 

As diferentes “expressões” do Mistério Pascal, pertencem ao hoje como ao ontem, são tão nossas como foram para Pedro, João ou Madalena. Não aconteceram só no passado, mas também estão acontecendo neste instante. São realidades que estão afetando nossa própria vida. Podemos e devemos vivê-las como os discípulos de Jesus as viveram. 

Para nós seguidores de Jesus, Ascensão é abertura para o cotidiano, para a realidade do serviço. É preciso partir e viver o chamado do Mestre para prolongar, neste mundo, seu modo de ser e de viver.

A Ascensão de Jesus não significa evasão aos céus - “Homens da Galiléia, por que ficai aqui, parados, olhando para o céu?” (At. 1,11) – mas imersão na vida. Aquele que Vive não escapou do mundo; sua Ascensão significa expansão e presença no universo inteiro, plenificando tudo em todos; Ele agora assume todos os rostos, identifica-se com toda a humanidade e continua a caminhar pelas Galiléias dos excluídos, das periferias, dos pobres, acampa junto aqueles que vivem às margens...

Ao celebrarmos a entrada de Jesus na glória, não celebramos uma despedida ou um distanciamento, mas um novo modo de presença; celebramos a proximidade radical d’Aquele que é, realmente, o Emanuel, o Deus conosco para sempre.

Ao “subir aos céus”, Jesus se faz mais radicalmente próximo de todos, ultrapassando tempo e espaço. Ascensão não é afastamento, mas uma maneira nova de fazer-se presente a todos e em todos os lugares.

O único que Jesus faz é restabelecer e assegurar a proximidade e comunicação com toda a humanidade. Isto deve nos dar uma grande alegria, pois Ele permanece aqui na terra, junto a nós. Assim, a Ascensão de Jesus nos desafia a romper a estreiteza de nossa vida para expandi-la a horizontes mais inspiradores.


2 – O que o texto diz para mim?
Na festa da Ascensão deste ano, a liturgia me propõe a cena final do evangelho de Mateus; embora não fale expressamente da “elevação” de Jesus ao céu, nele se condensa todo o caminho anterior, e se abre ao mundo inteiro, como presença e promessa de vida.

Mateus termina seu evangelho narrando um breve encontro entre Jesus Ressuscitado e o grupo dos onze que havia regressado à Galiléia, depois de receber a mensagem das mulheres que tinham ido ao sepulcro. Este encontro acontece longe de Jerusalém, afastado do lugar onde eles tinham vivido a experiência traumática da paixão de Jesus. Esta distância física é também existencial. Depois da crise, do medo, do desespero que os havia paralisado, o Mestre os convida a voltar à Galiléia, às origens, para percorrer de novo os caminhos, para “fazer memória” das experiências junto d’Ele e que agora hão de reler de forma diferente.

A Ascensão é a festa por excelência da nova proximidade de Jesus. No entanto, devido à situação pandêmica, celebro fisicamente distanciada uns dos outros; mas, a Ascensão pode ser um momento oportuno para ativar outras maneiras de me fazer próxima, inspirada na proximidade do Ressuscitado.

A festa da Ascensão pode também ser uma ocasião para desvelar (tirar a máscara) o farisaísmo que está latente em mim: a vivência camuflada de um distanciamento humano. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O isolamento sanitário pôs às claras esta dura realidade: já levei anos praticando o distanciamento político, a polarização religiosa, o enfrentamento de extremos, a separação ideológica, a distância como meio para me fechar em minhas posições fanáticas, preconceituosas e intolerantes. Uma voz surda sempre esteve presente: devo me separar dos outros, daqueles que pensam diferentes, sentem diferente, vivem diferente, assumem posições e opções diferentes... 

Não posso deixar que a atual crise sanitária acentue mais ainda os diferentes distanciamentos que estavam escondidos, mas que agora vieram à tona com mais força.

Esta é a dura contradição que estou vivendo: se, estar separada fisicamente de meus seres queridos e vizinhos é o mais eficaz para combater a pandemia, preciso, então, buscar outras expressões de proximidade para que essa distância não se converta em ecossistema e modo de vida. A distância sanitária não pode servir de cortina de fumaça para reforçar outras distâncias que se abrem diante de mim, no campo social-político-religioso-cultural...

Não posso deixar que o sonho do Reino, o projeto universal de Jesus, se dilua em meio às distâncias artificiais que desumanizam. Hoje, mais do que nunca, devo celebrar e recordar que juntos, unidos, orientados para um horizonte comum, poderei enfrentar qualquer crise que me venha. Talvez, esta pandemia me oferece uma ótima oportunidade para crer nisso, de verdade: de transformar declarações ocas em atos sólidos, de resumir tudo o que é a humanidade numa só palavra: proximidade. Proximidade com aqueles que sofrem, com aqueles que buscam um mundo melhor, com aqueles que menos têm, com aqueles que se sentem excluídos... Em meio a um mundo onde a distância e a suspeita crescem e se enraízam a Ascensão é a alternativa de proximidade e colaboração que eu preciso. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor não me sobra muitas outras oportunidades de transformar este sonho em realidade. Vivo na distância, necessária no momento, mas não faço dela meu estilo de vida; não devo convertê-la em meio que determine o que sou. Sou chamada a ser algo mais que compartimentos estanques e seguros, isolados. Posso ser “praça comum” de encontro e diálogo, de mãos estendidas, ouvidos atentos para dar forma a isso que tanto precisamos: sentir-me próxima uns dos outros.

À luz da Ascensão posso afirmar: fisicamente distanciada é quando me sinto mais próxima.

Posso recordar o constante convite de Jesus a provocar encontros que ajudem a integrar, a reunir, a religar, a articular o tecido comunitário. Há tantas vidas esparramadas, isoladas, rejeitadas, esperando por sinergia. Na verdade, Ele provocou as pessoas a saírem de seu isolamento e padrões alienados de relacionamento para expandir-se em direção a uma nova forma relacional com tudo o que existe; tal relação é a concretização do sonho do “Reino de Deus”.

Como ser humano, trago esta força interior que me faz “sair de mim mesma”  e criar laços, fortalecer a comunhão, romper distâncias...

O ser humano não é feito para viver só; ele necessita conviver, viver com os outros; ele é um ser constitutivamente aberto, essencialmente em referência a outras pessoas: estabelece com os outros uma interação, entrelaça-se com eles, e forma um nós: a comunidade.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Jesus vive sua proximidade radical através dos seus seguidores que se fazem próximos. A “opção de vida” em favor do próximo é o indicador de uma vida aberta e comprometida na construção de uma convivência social na qual predomine a ternura e não a dureza de coração, o respeito à vida e o amor e não a violência e a exclusão.

De quem eu sou próximo, ou, como me faço próximo, nestes tempos de isolamento social?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 28,16-20  
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Louvação: Ascensão – fx 15
Autor: Geraldo Leite Bastos
Intérprete: Geraldo Leite Bastos
Coro: Emmanuel - Paulinho Campos - Rita Kfouri - Maria Diniz
CD: Ação de graças no dia do Senhor – Cantos Celebrativos
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:22



terça-feira, 12 de maio de 2020

Leitura Orante – 6º Domingo da PÁSCOA, 17 de Maio de 2020


Leitura Orante – 6º Domingo da PÁSCOA, 17 de Maio de 2020

A ARTE DE CINZELAR PALAVRAS DE VIDA ATRAVÉS DA CONVERSA

“O Espírito da Verdade, vós o conheceis porque permanece conosco 
e estará em vós” (Jo 15,17)


Texto Bíblico: João 14,15-21


1 – O que diz o texto?
O Evangelho deste domingo faz parte de uma longa conversa de Jesus com os seus amigos, durante a Última Ceia, e que João recolhe nos capítulos 13 a 17. 

Era uma conversa amiga, que ficou na memória do discípulo amado. Jesus, assim parece, queria prolongar ao máximo esse último encontro, momento de muita intimidade. Para João, a conversa de Jesus tem uma conotação de profundidade e trato, de certa familiaridade e ternura. 

Nesta interação Jesus discípulos, tanto os conteúdos expressos como os aspectos relacionais ganham uma grande importância: as palavras, os gestos, o olhar, a maneira de falar, o tom da voz, os silêncios, o contexto onde acontece a conversação...; tudo isso forma parte da diversidade e riqueza da revelação de Jesus aos seus mais íntimos.

Jesus extrai palavras significativas, previamente cinzeladas e incorporadas no seu interior, onde elas revelam dinamismo, sentido e alteridade; sua conversa brota de uma vida interior fecunda e conduz a uma vida comprometida. Trata-se de um verdadeiro “testamento espiritual”

A conversação constitui, portanto, o núcleo diferencial de qualidade de trato próximo e fraterno daqueles que, além de viverem juntos, compartilham a vida com um projeto comum.

No entanto, há conversa e conversa. Há conversa superficial que gasta palavras à toa e revela o vazio das pessoas. E há conversa que toca fundo no coração e fica na memória. Todos nós, de vez em quando, temos esses momentos de convivência amiga, que dilatam o coração e vão ser força na hora das dificuldades. Ajudam a ter confiança e a vencer o medo. 


2 – O que o texto diz para mim?
Conversar constitui uma das experiências humanas mais antigas e configuradoras de meu ser. Ela não se reduz a um mero intercâmbio de palavras; é um processo essencialmente ativo, inerente à minha natureza relacional, cuja finalidade última é viver a experiência do encontro. 

Conversar é uma das aprendizagens vitais que não tem data de vencimento.

A arte da conversação é um caminho pedagógico, um processo gradual que requer uma capacidade de escuta, de acolher e deixar-se afetar pelo que o outro é, não só pelo que diz; uma capacidade de olhar com profundidade para reconhecer uma história santa, um caminho de salvação. É reconhecer no outro o que há de verdadeiro, bom e belo e descobrir como o dinamismo de Deus atua no coração dele. É ajudá-lo a descobrir, na trama de sua vida, as motivações profundas que o levam a ser e a agir de uma maneira muito pessoal.

A conversação é uma experiência profundamente humana de proximidade, de conhecimento, de intercâmbio, de ternura..., um encontro entre pessoas que vão compartilhando histórias de vida, esperanças e frustrações, vontade de construir e sonhar... Na conversação, o que importa é a pessoa do outro e não os problemas que apresenta...; ela é o lugar privilegiado de encontro e descoberta misteriosa do Outro (Deus). 

“Conversar” e “converter”, etimologicamente, vêm da mesma raiz. Em seu sentido mais radical e profundo “conversar” é “converter-se” ao mistério do outro, é converter-se à alteridade. A conversação reforça os laços, criando a comunidade de “amigos no Senhor”.

Sair dos corredores do próprio claustro interior e de seus mecanismos de defesa para converter-se em um servidor do outro, com a mediação mais humana, mais sutil, mais imediata e universal, mais iluminadora e mais reveladora da própria maturidade: a palavra.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Mesmo “isolados socialmente” devido à pandemia, a conversação me liberta da solidão e do fechamento, fazendo-me crescer na transparência. As inúmeras possibilidades de conversar são encontros que me reconciliam com a vida, me move a crescer e a sair de meu isolamento. Ela me permite sentir que faço parte da vida de outros e me ajuda a levantar-me quando as perdas, os fracassos, as enfermidades... tornam difícil meu caminhar.

Para chegar a conversações mais profundas e íntimas preciso percorrer o caminho que se inicia no cotidiano e no aparentemente superficial. Encontrar-me com os outros é uma experiência que requer seu tempo, seu espaço, seu ritmo. Minha natureza relacional continuamente me oferece oportunidades para conversar; depende de eu fazê-las banais ou convertê-las em experiência de vida.

Segundo Jesus, o protagonista principal da conversação é o Espírito, que gera em meu interior palavras de vida e criatividade. Numa conversação profunda deixo transparecer minha verdadeira identidade, minha verdade original. Mas é o Espírito, que me habita, Aquele que cava em mim palavras de vida. 

Quando Ele encontra liberdade para atuar em mim, faz brotar das entranhas das palavras sua riqueza escondida. Por isso, Ele é o “Espírito da Verdade”: não a verdade racional, dogmática, doutrinária...

Refere-se à “verdade profunda” que me diz que fui criada para uma Vida plena e para contribuir a que cada ser humano participe de tal Vida. Ele é a “verdade íntima” que me diz que, no mais profundo de mim mesma, não só pulsa um coração, mas também um Deus que inspira a minha maneira original de ser mais humana. Ele é a “verdade autêntica”: sou filha, irmã e sou chamada a viver como tal.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o “Espírito da verdade” me convida a viver na “verdade” de Jesus em meio a uma sociedade onde a mentira é considerada estratégia, a manipulação é vista como bom negócio, a irresponsabilidade é confundida com a tolerância, a injustiça é identificada com a ordem estabelecida, a arbitrariedade é propagada como ato de liberdade, a falta de respeito e a violência verbal como expressões de sinceridade...

Para além das imagens e símbolos, é decisivo redescobrir a presença do Espírito de Deus que, dentro de mim, provoca movimentos, ativa as brasas escondidas no coração, me faz forte, alegre, valente, apaixonada, audaz e sábia. Devo acolhê-lo com coração simples e confiado, abrindo espaço para que Ele atue com liberdade, inspirando-me e fazendo-me mais criativa. É Ele que dá sabor e sentido à minha existência e me enraíza no modo de ser e de viver de Jesus. 

Conduzida pelo Espírito de Jesus, mergulho em meu mundo com os olhos abertos, com os ouvidos atentos, com o coração sensível para ter acesso à verdade profunda de toda a realidade. Tudo é perpassado por essa presença alentadora, que “faz novas todas as coisas”.

Este Espírito de Vida subsiste em tudo e em todos, embora muitas vezes me tornasse traidora  do Seu sopro com meus exclusivismos, condenações e rejeição do pluralismo fomentado pelo mesmo Espírito.

Nenhuma espiritualidade e nenhuma igreja tem o monopólio do Espírito de Cristo, que sopra onde quer, como e quando quer, sem que o controlemos; para o Sopro, não há barreiras e nem fronteiras.

Todos e todas estamos em caminho, envolvidos no dinamismo contínuo desse Espírito Pascal.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Pela conversa a pessoa manifesta quem ela é.  “Onde está  sua conversa, aí está seu coração”.

- Quais são minhas conversas? Elas animam os outros, eleva-os, “aquecem seus corações”?...

- Aguçar meus sentidos, abrir o coração; há tantos que não podem mais esperar, pois ansiosos aguardam uma presença que acolha e uma palavra que os anime. 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – João 14,15-21
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 

Sugestão: 
Música: É de Deus que eu vim falar – fx 02
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérpretes: Ana Paula e Betinho
CD: De volta para meu interior 
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:57



quarta-feira, 6 de maio de 2020

Leitura Orante – 5º Domingo da PÁSCOA, 10 de Maio de 2020

Leitura Orante – 5º Domingo da PÁSCOA, 10 de Maio de 2020

TEMOS MORADA NO CORAÇÃO DE DEUS

“Na casa de meu Pai, há muitas moradas.” Jo 14,2)


Texto Bíblico: João 14,1-12


1 – O que diz o texto?
Sabemos que o Evangelho deste domingo antecede à Paixão e Morte de Jesus. Então, por que colocá-lo no contexto de Ressurreição? E a razão está centrada na atuação mesma de Jesus. Ele antecipou, na sua vida pública, que o destino definitivo do ser humano é o coração de Deus. Somos de Deus; em Deus, já “somos seres ressuscitados”. 

O grupo mais próximo de Jesus está vivendo um momento de máxima tensão e medo. O ambiente está carregado: a traição de Judas, o anúncio da negação de Pedro, a revelação da Sua partida. Apesar do temor e da inquietação pairando no ar, Jesus diz coisas que nunca dissera antes: palavras condensadas, luminosas, mobilizadoras, procurando quebrar o clima pesado e convidando os seus amigos à calma, à confiança e revelando que na casa do Pai há muitas moradas. Todos estão (estamos) envolvidos por este amor providente e cuidadoso do Deus Pai e Mãe; no seu coração cabem todos.

O contexto tenso vivido pelos discípulos nos revela que o medo e a angústia estão presentes no ser humano desde as origens. Todo ser humano atravessa certos momentos da vida marcado pela experiência do medo e, em algumas ocasiões, de angústia.

O medo é uma vivência forte e intensa que sentimos diante da presença de um perigo, mais ou menos imediato e concreto.

A angústia, que no seu sentido original latino (“angustus”) significa estreito, apertado, sem espaço, é um estado afetivo doentio que aparece como reação diante de um perigo desconhecido, difuso, mas que afeta e trava todo o nosso ser, até seu último neurônio. 

O medo e a angústia podem impregnar nossa vida e pode provir das causas mais diversas: medo diante da enfermidade, do fracasso, dos problemas afetivos e econômicos, da pandemia... Seja como for, o medo e a angústia podem fazer-se presentes em nós e bloqueiam nossas vidas, paralisando toda iniciativa e criatividade.

Quando estamos atravessando uma crise grave, como aquela vivida por Jesus e seus discípulos na véspera da Paixão, é reconfortante entrar na profundidade de nosso ser e deixar ressoar estas palavras: “não se perturbe o vosso coração; tende fé em Deus, tende fé em mim também”.


2 – O que o texto diz para mim?
É a experiência do encontro com o Ressuscitado que me pacifica mesmo em situações de crises, fracassos, horizontes sem saída..., quando o medo e a angústia se manifestam com mais força.

A serenidade é uma vivência profunda, íntima, salutar... De repente, alcanço uma paz inspiradora, uma paz que ninguém pode me comunicar; uma alegria serena que pacifica meu interior. Basta permanecer nessa paz, na minha morada interior.

Por isso, Jesus fala de lugares, de moradas..., espaços que pacificam e me livram das angústias e medos. E o coração de Deus é a morada pacificadora por excelência. O “lugar” do ser humano é Deus; vim de Deus e retornarei a Ele. “Só Deus basta” (S. Teresa).

É de minha condição humana buscar um espaço, um lugar hospitaleiro e acolhedor, o lugar onde me situo no mundo e onde posso ser encontrada. Como é bom experimentar que tenho lugar, espaço! Deus mesmo se faz espaço amoroso para mim, me concede um lugar inspirador. 

Sei que os seres humanos não teriam como sobreviverem sem um lugar, sem um espaço. Assim como sou ser de inteligência, sensibilidade, relação, etc., também sou um ser de lugares (“homo locus”); não qualquer lugar, mas aquele onde posso me descobrir capaz de amar e ser amada, de acompanhar e ser acompanhada, de contribuir e ser criativa, de realizar e sentir-me realizada.

O espaço faz parte do ar que respiro em nível fisiológico e biológico, como faz parte das minhas experiências interiores.

A minha sociedade parece estar indo à deriva justamente porque não sabe mais reconhecer “espaços diferentes e vitais”, porque tudo se torna igual e os lugares não falam mais, pois carecem de sentido e se revelam como lugares vazios. Os espaços são violados, os “lugares sagrados” são profanados, os “ambientes” carregados de sentido e de história já não revelam mais nada...

Esse é o primeiro sintoma de uma visão humana desastrosa e desastrada. Na insignificância e no achatamento dos espaços está o primeiro e mais grave esmagamento do pensamento e da consciência, a ruptura das relações sociais, a frieza ecológica e o definhamento das experiências religiosas.

Neste mundo disperso, carente de espaços humanizadores, o evangelho de hoje me dá referências e amparo. E a primeira referência que me pacifica é a “casa”. “Na casa de meu Pai há muitas moradas”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Caminho para a “casa” de Deus, sendo “casa” do mesmo Deus. Posso, então, afirmar que quem realmente habita “minha casa” não é o “eu”, mas Deus. “Em mim, Deus está em sua casa” (Mestre Eckhart). Esta morada interior é o espaço de transcendência, de oração, de admiração, de mistério, de silêncio; morada aberta e acolhedora, ambiente da comunhão, da comunicação, da intimidade; é a partir desta morada carregada de presenças que se vai ao Pai (Grande Morada).

Nesse sentido, a casa é mais do que uma realidade física, feita de quatro paredes, portas, janelas e telhado. Casa é uma experiência existencial primitiva, ligada ao que há de mais precioso na vida humana, que é a relação afetiva entre aqueles que a habitam e com aqueles que nela são acolhidos.

Casa, espaço do mundo para eu escolher e preparar, organizar, adornar e fazer a moradia a partir da qual contemplar a Terra e o Céu. Por isso ela é reveladora de minha identidade. “Dize-me como é tua casa e te direi quem és”. Ela é o espelho mais honesto dos meus hábitos, o abrigo dos meus medos, a minha fotografia. É por este motivo, talvez, que muitos fogem da própria casa: não querem enxergar a si mesmos.

A casa me ajuda a fincar raiz neste mundo e em mim mesma; ela é lugar de referência e me fornece orientação; ela anima minha espera e alimenta o encontro; conserva minha história, acolhe e guarda na memória as minhas alegrias e as minhas tristezas, as minhas conquistas e os meus fracassos...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, estar em casa é estar no seu espaço, na sua intimidade, no lugar de plena liberdade e espontaneidade. Ela é o cenário principal do enredo e dos episódios de minha vida; é o lugar seguro que me possibilita repouso e revigoramento afetivo, bem estar e proteção... Casa representa segurança e refúgio das ameaças que vêm de fora; ela me oferece um espaço estabilizador e nutridor, suscitando vigor e saúde integral. Sem ela facilmente perderei a calma e o equilíbrio, tornando-me presa fácil da agitação, da perturbação, do medo e da angústia.

O lugar cotidiano da casa se converte na epifania do divino, no lugar concreto do encontro com Aquele que faz de minha casa, Sua morada. 

Minha morada provisória me revela que sou peregrina em busca da morada definitiva; meu coração anseia pelas moradas eternas: o coração do Pai, onde cabem todos.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A casa é também a instância configuradora de minha experiência de fé. 

Diante de tantos ruídos e imagens que me violentam, a casa torna-se o lugar da escuta, do silêncio, da interioridade e da comunhão com o Transcendente, através de mediações simples como uma escuta musical atenta uma boa leitura ou o exercício diário da oração.

Entrar em minha casa e deixar que o Espírito transite livremente por ela, afastando todo temor, tristeza e angústia... 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – João 14,1-12
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Nada te perturbe – fx15
Autor: Kaer e Pe.Joãozinho,scj
Intérprete: Maria do Rosário 
CD: Louvemos o Senhor
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:48