sexta-feira, 10 de abril de 2020

Leitura Orante – Sábado SANTO, 11 de abril 2020

Leitura Orante – Sábado SANTO, 11 de abril 2020

UM LONGO E ESPERANÇOSO SÁBADO SANTO

“Tomaram o corpo de Jesus e o envolveram em panos de linho, com os bálsamos, como é o costume de sepultar os judeus...” (Jo 19,40)


Texto Bíblico: Marcos 15,42-47 / João 19,38-42


1 – O que diz o texto?
Sábado Santo é o dia da “solidão dos vivos”: Jesus ausente; os discípulos escondidos e cheios de medo; a dor de Maria e das mulheres discípulas...

Domina na comunidade cristã um ambiente carregado de morte, um dia esvaziado de toda esperança.

No caminho do seguimento de Jesus também há sábados santos, tanto no nível pessoal como comunitário. Noites escuros silêncios carregados de tristeza, incapacidade para orar e falta de esperança.

Mas este dia também nos ajuda a resignificar o sentido da solidão. Há solidão vazia, que deprime..., mas há solidão que nos faz ter acesso a dimensões desconhecidas de nossa vida.

É preciso, com Jesus, descer ao túmulo de nossa interioridade, transitar por espaços e dimensões não integradas e nem pacificadas. Só quem mergulha nas profundezas de sua existência é capaz de morrer às exigências do “ego” e vislumbrar as potencialidades de vida que ainda não foram ativadas. “Se o grão de trigo que cai na terra, não morre, fica só” (Jo 12,24).

Este espaço de silêncio não é de morte, mas de vida germinal, é noite que aponta à aurora, são as noites escuras da vida que desembocam na alegria da alvorada; é tempo de fé e de esperança, é momento de semear, mesmo que não vejamos os resultados, é tempo de crer que o Espírito do Senhor, criador e doador de vida, está fecundando a história e a terra para seu amadurecimento pascal e escatológico, para a terra nova e o céu novo. 

Todos querem fugir da solidão: queremos escapar de nós mesmos, ocultar nossa fragilidade e impotência, distanciar de nossa responsabilidade. Com isso, nos refugiamos no ativismo, nas distrações da superficialidade, na conexão descompromissada... E assim desembocamos numa solidão egoísta, sem espírito e nem vida, sem amor aos outros, sem verdadeira companhia.


2 – O que o texto diz para mim?
Um dos maiores problemas do mundo ocidental é a falta de solidão verdadeira: tenho medo de enfrentar a realidade, de viver em profundidade, de doar minha vida em transparência. Tenho medo de estar sozinha. Por isso me cerco do espetáculo da vida impessoal, dos meios de comunicação, de notícias sem fim. Dessa forma invento solidões sem comunicação, comunicações sem solidão e sem encontro pessoal. E enquanto isso há milhões de pessoas condenadas à solidão da doença, da fome, da exclusão, morrendo, como Jesus, em uma Cruz. 

Sábado Santo vem me dizer que só aquele que se conhece e se aceita na solidão, pode sair de si mesmo para viver o encontro. Só um verdadeiro solitário no amor pode ser solidário, só um coração desprendido pode atrair e congregar no amor os outros, formando com eles uma “rede” de vida. Dessa forma, a intimidade do solitário, que é senhor de si mesmo, se transforma em comunhão de vida que enriquece. Esta é a solidão para o encontro, uma intimidade para a companhia.

Na paciente espera pelo Deus Amor descobrirá o quanto Ele já preenche minha vida. Minha relação com Ele fica mais profunda e mais madura através da experiência purificadora da sua ausência (assim como duas pessoas que se amam, redescobrem-se depois de longos períodos de ausência).

Dando ouvidos aos meus anseios, ouço Deus como Criador.

Tocando o centro de minha solidão, sinto que fui tocada por mão misericordiosa.

Sentindo meu infinito desejo de amor, compreendo que só posso amar por ter sido amada antes e que posso oferecer minha intimidade apenas porque venho da intimidade de Deus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Sábado Santo, portanto, é o dia do lamento e da espera paciente, carregada de esperança. Acompanho Maria e os discípulos neste silêncio denso, nesta espera confiante. 

Algo pulsa em meu eu profundo, rebelando-se contra toda apatia e me recordando a faísca de esperança ali presente. Escuto meu interior, em meio ao silêncio!

Contemplo a espera angustiada de mundo, dos povos, das pessoas. Contemplo o mundo e a humanidade em seu sábado santo, em seu dia de silêncio, em seu isolamento social.

Esse parece ser o estado da humanidade neste momento; um estado de paralisação e de espera que parece não ter saída. Envolve-me a obscuridade; estou no túnel e não vejo a saída. O corpo da humanidade encontra-se ferido, desvitalizado. Não é a morte, mas tampouco é a vida.

Como os discípulos de Emaús, sou fustigada pela incredulidade, pelo desencanto. Ainda não há razões fortes para esperar. Experimento o Deus na noite escura, o Deus ausente. Parece que guarda silêncio e que não lhe importa que “desço aos infernos”.

Meu mundo carrega as feridas da doença e da morte; geme em dores de parto. “Sei que toda a Criação, até o presente, está gemendo como que em dores de parto, e não só ela, mas também eu, que temo as primícias do Espírito, que geme em meu íntimo, esperando a condição filial, a redenção de meu corpo” (Rom 8,22-23).

Só há uma pequena luz que permanece acesa da casa do discípulo amado, na casa daquele a quem Jesus confiou sua Mãe, no momento de sua morte. A Mãe é o símbolo da esperança no Sábado Santo. É o dia “mariano” por excelência. Nunca, como neste dia, ela se sentiu tão só, tão sem corpo. Mas, com certeza, o Abbá de Jesus tinha para ela um segredo, um advento inesperado: o momento de exclamar: “tu és o meu Filho, eu hoje te gerei” (Heb 1,5).

As mães geram a vida; por isso, custa-lhes crer na morte. Maria continua crendo na vida; ela é mãe demais para esquecer. Seu filho é muito Filho para morrer.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor envolve-me a noite de uma crise global que afeta a todos de maneira igual; mas, a “noite sabática” reacende a paixão pela vida, desafio mais urgente de meu tempo; paixão por toda expressão de vida, especialmente pelas vidas mais ameaçadas. 

Dar vida foi à paixão de Jesus, expresso nestas palavras: “Eu vim para que todos tenham vida e vida abundante” (Jo 10,10). Dar vida protegê-la, curá-la, cuidá-la, defender sua dignidade, denunciar tudo o que a ameaça e lutar contra isso foi o que levou Jesus a perder sua própria vida. Tal é a disposição que hoje preciso cultivar para iluminar a noite de meu tempo.

Lentamente, o olhar se faz penetrante, o ouvido se faz sensível, o tato se faz delicado e o imperceptível se faz concreto; o longínquo torna-se próximo, o desconhecido torna-se familiar, o extravio torna-se direção, a solidão torna-se companhia, o ignorado torna-se revelação.

A noite é o tempo do mistério e da promessa, é o lugar da espera e da realização, o espaço do desejo e do encontro, da invocação e da revelação, do sofrimento e da paixão, do silêncio e da oração, da vida e da morte... Na noite o que conta, o que vale não se diz, não se vê, não se sabe: deseja-se, espera-se, recebe-se, realiza-se. Não é um simples eco aquela voz que anuncia no escuro o início do cumprimento de uma promessa que vem de longe e traz luz, festa, alegria, canto...

A fidelidade da promessa ouvida na noite é uma semente. Existe, mas tem necessidade de permanecer escondida. Realiza-se, mas exige habitar espaços de penumbra.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A espera paciente e expectante é o fundamento da vida espiritual” (Simone Weil).

A humanidade inteira, frente à pandemia do Coronavírus, vive uma espera angustiante, muitas vezes impaciente vazia, sem sentido...

- Sábado Santo é tempo não só de espera, mas de esperança, é deixar que o grão de trigo morto começasse a germinar, é tempo de imaginar, de criar, de abrir-se a algo novo e inesperado, de sonhar um mundo melhor e uma humanidade mais samaritana. 

- É preciso envolver este “sábado santo da vida” com os perfumes da compaixão, solidariedade, comunhão...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 15,42-47 / João 19,38-42
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: No amor eu te gerei – fx 13
Autor: José Acácio Santana
Intérprete: Coral Acorde Coração
CD: Pai Eterno
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:01

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