terça-feira, 24 de março de 2020

Leitura Orante – 5º Domingo da QUARESMA, 29 de Março 2020

Leitura Orante – 5º Domingo da QUARESMA, 29 de Março 2020

“E A VIDA SEMPRE TEM RAZÃO...”

“Eu sou a ressurreição e a vida”.
“Quem crê em mim, ainda que morra, viverá.” (Jo 11,25)


Texto Bíblico: João 11,1-45


1 – O que diz o texto?
O quinto domingo da Quaresma é como uma espécie de Monte da visão, de onde podemos contemplar as primeiras luzes da Páscoa e da Vida. Ela ainda não é realidade, mas já podemos ver seus primeiros sinais. O importante é nos perguntar se, de verdade, estamos nos aproximando deste Monte da visão ou, simplesmente, ficamos no caminho, cansados, fatigados ou indiferentes. 

A Páscoa é a nossa verdadeira meta? É o nosso verdadeiro horizonte?

É preciso tomar consciência de onde saímos: lugares estreitos, visões atrofiadas, atitudes conservadoras, ideias enfaixadas, sentimentos carregados de ego, coração petrificado... Ou será que vamos chegar à Páscoa tão escravos como quando partíamos, no início da Quaresma?

Quantas liberdades têm hoje que não tínhamos no começo? 

A CF deste ano nos apresenta como tema: “Vida: dom e missão”.

Sabemos que este caminho em favor da vida é belo, instigante, mas muito arriscado. Aqueles que trabalham em favor da vida, aqueles que tiram homens e mulheres de seus túmulos, são frequentemente perseguidos, porque há interesses em jogo e muitos preferem que as coisas continuem do mesmo modo. Assim diz o Evangelho: “Que morra um (Jesus) para que o “bom” sistema prossiga...” Que morram muitos, milhões, para que o sistema neoliberal continue sobrevivendo. 

É perigoso optar pela vida e testemunhar a ressurreição neste mundo de morte. Há muitos (pessoas e instituições) que preferem manter as coisas assim, traficando com a morte (vendedores de armas, promotores de uma economia que mata etc). O evangelho revela que os primeiros traficantes da morte (“que Lázaro apodreça!”) são os dirigentes religiosos e políticos que controlam o poder a partir da mesma morte.

A única verdade é a que abre espaço de vida para todos, em justiça e paz. O único valor é a vida, cada vida, acima da “santa nação” à qual apelava Caifás, compactuando com o Sacro Império de Roma.


2 – O que o texto diz para mim?
No processo do seguimento de Jesus, ao longo da Quaresma, sou tomada por uma “moção à vida” que me impulsiona a uma “missão em defesa da vida”. Da moção à missão:  este é o dinamismo original deste tempo litúrgico.

Alguém já teve a ousadia de afirmar que a morte é mais universal que a vida; todos morrem, mas nem todos “vivem”, porque incapazes de reinventar a vida no seu dia-a-dia; marcados pelo medo permanecem atados, debaixo de uma fria lápide, sem nunca poder entrar em contato com a vida que flui dentro de si e ao seu redor. Na maioria dos casos, as pessoas passam sobre a vida como sobre brasas: de uma maneira superficial, fugindo do grande sentido da própria existência. Diante do impulso por viver em plenitude, contentam-se em mal viver ou sobreviver. Trata-se de pessoas mortas diante do sentido da vida, ou seja, pessoas alienadas, desconectadas de si mesmas, sem experiência pessoal profunda e sem ter dentro de si a fonte da confiança e do entusiasmo. Criam sepulturas e se enterram.

Quem não sabe por que vive e para quê vive, não pode eleger o como quer viver.

O apelo de Jesus – “Lázaro, vem para fora!” - é um princípio de esperança, mas também de compromisso em favor da justiça neste mundo.

“Lázaro, vem para fora!” Hoje, com muito mais intensidade, é preciso deixar ressoar este grito. Venha para fora, de maneira que não viva mais de mortes, que não viva mais na indiferença e na letargia, envolvida em sudários e vendas, compactuando com a violência e com a injustiça, dando cobertura aos que matam!

Esta expressão – “vem para fora!”- é para todos; tenho de sair de um mundo em que, de um modo ou de outro, me acostuma com as mortes, defendendo mediações e estruturas que atrofiam a vida.

Sair do túmulo significa viver para a vida, na justiça e na solidariedade; que eu possa viver para a acolhida e a concórdia, condenando a violência de um modo radical.

O caminho da vida começa ali onde tomo consciência que não se pode matar ninguém para “manter a própria segurança”; que ninguém se aproveite da injustiça para justificar algum tipo de ação opressora.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Jesus era muito de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro”, e é nessa corrente de vida e amor onde aprendo a força sanadora que as relações têm. Os três irmãos representam a nova comunidade dos seguidores de Jesus; e Jesus está totalmente integrado no grupo por seu amor a cada um. Cada membro da comunidade se preocupa pela saúde do outro. 

A morte de Lázaro se converteu em uma benção para suas irmãs e seus amigos. Depois de atravessarem juntos a experiência dos limites, de reconhecerem-se feridos e de abraçarem a dor, fortaleceram-se os vínculos entre eles, e a amizade pode se expandir.

O amor e a amizade devolveram a vida a Lázaro, recriando esse “tecido de relações” que Jesus estabeleceu com esta família de amigos, em Betânia. 

Vivo também eu um tempo de decomposição social e de relações superficiais. 

Talvez, quem sabe, muitos acontecimentos que me custam viver escondem também uma benção.

As perdas, a dor, a doença..., me aproximam dos outros, me fazem mais solidária. 

Humaniza-me também a ternura, a bondade, o tratar mutuamente com cordialidade... 

O sofrimento e a perda podem me despertar para a dimensão de profundidade da realidade e de mim mesma. Mas preciso passar por um processo de transformação para que o sofrimento e a dor me abram ao Mistério e não me afundem no desespero. 

Jesus vai ajudar Marta e Maria a passar por este processo.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, em chave da interioridade, no relato evangélico deste domingo, “Lázaro” pode significar também aquilo que rejeito em mim mesma, aquilo que deixo enterrado sob uma lápide porque não me agrada; o que ocorre é que tudo o que enterro e reprimo começam a exalar mau cheiro. 

Para começar a viver, é preciso, antes de qualquer coisa, reconhecer o que já está morto em mim (falta de sentido, ego inflado, preconceito, frieza nas relações); reconhecer meu Lázaro interior naquilo que há de positivo e que ainda não foi ativado, porque preferi me fechar em mecanismos egocêntricos; reconhecer meu Lázaro naquilo que me pesa e que é reprimido, ameaçando-me continuamente como uma sombra.

Mas não é suficiente reconhecê-lo. Exige-se também crer na força da vida e no dinamismo do próprio ser habitado por Deus, que me cria constantemente. A partir daí, posso escutar a palavra de Jesus que chama à vida e ressuscita o Lázaro que ainda vive em mim. O que mais preciso é reagir à apatia e à acomodação, a partir da confiança na vida e na palavra de Jesus.

O “ego” é meu principal sepulcro: tudo o que significa culto ao “eu”, todo tipo de egoísmo, narcisismo e individualismo. É a incapacidade para a relação aberta e generosa; é o coração solitário; é aquele que se fecha em si mesmo, se asfixia, morre. No fundo, é o sepulcro do não amor. 

Sei disso: “todo aquele que não ama está morto”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Contemplar o coração de Jesus comovido, sacudido, diante da dor e da morte; assim é o meu coração: feito com as fibras da fortaleza e da coragem, entrelaçadas com as fibras da compaixão e da ternura.

Captar a presença de Deus em minha vida, ficar atenta, desperta, não perdida em tantas coisas que me levem a viver afastada de mim mesma.

Deus é presença calada e respeitosa. No silêncio e no olhar profundo poderei captar os vestígios de sua presença. No amor aos outros, me abrir à densidade de Seu amor.

No assombro diante da vida, sentida em meu interior, perceber em estar mergulhada no Mistério.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 11,1-45
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Jesus só tu és o Mestre
Autor: Maria Luiza Ricciardi, fsp
Intérprete: Emmanuel
CD: Sejamos Comunicação 
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:53




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