quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Leitura Orante – 6º Domingo TC, 16 de Fevereiro 2020


Leitura Orante – 6º Domingo TC, 16 de Fevereiro 2020

JUSTIÇA DO REINO: “a mais sublime bondade”

“Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus...” (Mt 5,20)


Texto Bíblico: Mateus 5,17-37


1 – O que diz o texto?
Na Bíblia, a justiça é um dos conceitos centrais, com uma diversidade de sentidos e, por isso mesmo, difícil de ser definido. Em todo caso, trata-se de um conceito que inclui “relação”.

Nas “antíteses” – “ouvistes o que foi dito..., eu, porém, vos digo” – do Sermão da Montanha, somos colocados diante de cinco casos concretos que tem a ver com a vida relacional e comunitária: a reconciliação, o olhar puro que não se apossa de outra pessoa, a veracidade e transparência no falar, a não violência (ou mansidão bíblica) e o amor gratuito que inclui o “inimigo”.

Em todos eles, podemos crescer sempre mais, graças à compreensão de quem somos no nível mais profundo; o “eu, porém, vos digo” de Jesus nos inspira a descer até às raízes de nosso ser, esvaziando-nos progressivamente de nosso ego e ativando todos os recursos humanizadores aí presentes.

Na perspectiva bíblica, “justo” é aquele que, perante Deus e os homens, se “ajusta” ao modo de agir do mesmo Deus, vivendo e agindo com a marca da bondade.

Visto que justiça designa o comportamento do ser humano em conformidade com a Vontade de Deus, pode-se falar de “praticar a justiça”; ou de “cumprir toda a justiça”.

Portanto, a expressão “justiça de Deus” não tem nenhuma relação com o julgamento de Deus; ela é, antes de tudo, misericórdia e fidelidade a uma vontade de salvação. O conceito descreve uma maneira de ser ou de agir de Deus. Deus é justo porque é bondade e misericórdia. Por isso, também do lado humano a justiça deve significar uma maneira de prolongar o ser e o agir de Deus.

O problema da relação entre misericórdia e justiça está em considerar como rivais ou como incompatíveis esses dois atributos de Deus. É preciso afirmar os dois ao mesmo tempo e procurar compreender como ambos estão em Deus, sem que um anule o outro, mas reforçando-se mutuamente. Poderíamos formular assim: Deus é justo em sua misericórdia e misericordioso em sua justiça. Segundo o Papa Francisco, “a misericórdia não exclui a justiça e a verdade, mas, antes de tudo, temos que dizer que a misericórdia é a plenitude da justiça e a manifestação mais luminosa da verdade de Deus”.

Já no Primeiro Testamento encontramos afirmações deste tipo: a justiça de Deus é sua misericórdia. A justiça de Deus coincide com sua misericórdia, sua bondade, sua santidade. São Paulo, em sua carta aos romanos, afirma que a justiça de Deus se manifesta na justificação do pecador, de modo que o Deus justo é justificador. Podemos concluir, pois, que Deus é justo porque quer que todos se salvem. É de esperar, portanto, que esta vontade de Deus se cumpra. É claro que, diante do dom da salvação intervém a liberdade humana, porque salvação é acolhida do Deus que é Amor, e não há amor sem recíproca acolhida.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus veio expandir o horizonte do comportamento humano; veio me libertar dos perigos do moralismo e do legalismo. À luz da justiça de Deus (“força que salva”), Jesus me apresenta um modo de proceder mais radical, relendo os mandamentos.

A justiça de Deus não é poder que se impõe, mas amor aberto e libertador, a partir dos últimos e dos excluídos da humanidade. A liberdade criadora de Deus, que é amor aos pobres, se torna princípio de justiça, pois o evangelho chama “justos” precisamente aqueles que acolhem os exilados, visitam os encarcerados, dá pão a quem tem fome..., ou seja, àqueles que colocam suas vidas a serviço dos excluídos e vítimas das instituições sociais e econômicas injustas.

O único fundamento de qualquer justiça é Cristo. N’Ele eu me torno justiça de Deus (2Cor 5,21).

A partir desta perspectiva, posso entender o que Jesus fez em seu tempo com a Lei de Moisés. Disse que não vinha abolir a lei, mas plenificá-la, porque foi acusado pelas autoridades religiosas de ser um transgressor das leis. Jesus não foi contra a Lei, senão que foi mais além da Lei. Quis dizer que toda lei é sempre limitada, que sempre posso ir mais além da letra da lei, da pura formulação, até descobrir o espírito que a inspira. A vontade de Deus está mais além de qualquer formulação, por isso, não posso me limitar ao que está escrito, mas preciso sempre dar um passo a mais. Na vivência do amor, que emana do meu eu mais profundo, devo ser sempre mais radical, não cedendo diante da mínima manifestação do meu auto-centramento. Na realidade, quem ama, não precisa de leis. Segundo São Paulo, “quem ama, cumpre toda lei”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus passou de um cumprimento externo de leis a uma descoberta das exigências de seu próprio ser. Esta revolução que Ele iniciou, ainda está por ser realizada. Avanço muito pouco nessa direção. Todas as indicações do evangelho no sentido de viver no espírito e não na letra, parece que estão sendo ignoradas. Caio facilmente no legalismo, no farisaísmo que se perde em meio a um emaranhado de leis, desviando-se do essencial, que é a vivência do amor oblativo, gratuito, expansivo...

“Ouvistes o que foi dito: não matarás, não cometerás adultério, não jurarás falso; eu, porém, vos digo...” Não fica abolido o mandamento antigo, mas elevado a níveis incrivelmente mais profundos. Jesus me revela que uma atitude interna negativa é já uma falha contra meu próprio ser, ainda que não se manifeste numa ação concreta contra o outro.

Por isso, segundo Jesus, não basta cumprir a Lei, que ordena “não matarás”. É necessário, além disso, arrancar de minha vida a agressividade, o desprezo ao outro, os insultos ou as vinganças. Aquele que não mata cumpre a Lei, mas, se em seu coração há resquícios de violências, ali não reina o Deus que busca construir nesse mundo uma vida mais humana.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor eu estou percebendo que está se estendendo cada vez mais, na sociedade atual, uma linguagem que reflete o crescimento da agressividade, do preconceito, da intolerância, do fechamento diante de quem pensa e sente de maneira diferente... Cada vez são mais frequentes os insultos ofensivos, proferidos só para humilhar, desprezar e ferir. Palavras nascida da rejeição, do ressentimento, do ódio ou da vingança...

Por outra parte, as conversações (sobretudo nas redes sociais) estão tecidas de palavras injustas que espalham condenações e semeiam suspeitas (fake-news). Palavras ditas sem amor e sem respeito que envenenam a convivência causam danos e rompem as relações entre as pessoas.

Portanto, os mandamentos continuam tendo sentido. É um mapa de rota, uma proposta, um chamado para entender a vida. A chave é compreendê-los e vivê-los, não a partir do medo ao fracasso e ao castigo, mas a partir da disposição de crescer humanamente na relação com os outros. 

Quês me ensinam eles sobre o ser humano, sobre as relações sociais e sobre eu mesma? 

Quê caminho me propõe para a vida? 

Quê horizonte me mostra?

É necessário dirigir meu olhar a Jesus para que, na comunidade cristã, a instituição não seja mais importante que o Evangelho, nem que a Lei seja mais importante que a misericórdia. O Plano de Deus e a fé cristã são muito mais que uma adesão doutrinal, é humanizar-se para amar. “O cristianismo não é uma ética de mínimos de justiça, mas uma religião de máximos de felicidade. Os mínimos de justiça lhe parecem irrenunciáveis, mas tais mínimos não esgotam o conteúdo da religião cristã. Suas propostas não competem com a ética cívica, senão que a complementam. Enquanto que a universalidade dos mínimos de justiça é uma universalidade exigível, a dos máximos de felicidade é uma universalidade ofertável” (Adélia Cortina). 

#Justiça do Evangelho, centrado no amor #Justiça humana, centrada na lei.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O empenho em favor da justiça não terá fim. Numa releitura da 4ª bem-aventurança posso afirmar:

“Felizes os famintos de justiça, que nunca serão saciados”.

- Frente às pessoas que pensam e sentem de maneira diferente, o que prevalece em mim, o peso da lei ou a força da misericórdia?

- Como eu vivo o quinto mandamento -“não matar” - no uso das redes sociais?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 5,17-37
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Amor nunca morre
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérpretes: Pe. Zezinho, scj
CD: Oração pela família
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:31


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