quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Leitura Orante – 1º Domingo da QUARESMA, 01 de Março 2020

 

Leitura Orante – 1º Domingo da QUARESMA, 01 de Março 2020

DESERTO, LUGAR DO DISCERNIMENTO

“O Espírito conduziu Jesus ao deserto...” (Mt 4,1)


Texto Bíblico: Mateus 4,1-11


1 – O que diz o texto?
Na experiência do batismo, Jesus escutou a voz do Pai. Trata-se do principal momento teofânico de sua vida, juntamente com a transfiguração. Mateus se serve deles para proclamar que a identidade de Jesus consiste em ser o Filho amado do Pai. Essa é sua identidade e nela se revela que seu “código genético” consiste em ser o Filho, o Amado, o Predileto..., sobre quem se visibiliza a complacência do Pai. 

Agora podemos compreender sua ida ao deserto, movido pelo Espírito, como uma necessidade imperiosa de “processar”, no silêncio e na solidão, essa revelação, de alargar espaço, em sua interioridade, para o deslumbramento e o assombro. 

O significado do deserto não é prioritariamente o penitencial. “Levá-lo-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração”, tinha dito Oséias (2,16), convertendo o deserto em um lugar privilegiado de encontro pessoal e de escuta da Palavra. Jesus é conduzido ao deserto para acolher a Palavra escutada em seu coração no momento de seu batismo. Ele precisava de tempo para assentar no mais profundo de seu ser uma Palavra que o descentrasse para sempre de si mesmo e o situasse à sombra da ternura incondicional de Alguém maior.

O evangelista Mateus apresenta a estadia de Jesus no deserto como um tempo de lucidez, fazendo-nos perceber que a relação filial da qual Ele tinha tomado consciência, iluminou de tal maneira sua visão, que se tornara impossível confundir a Deus com os falsos ídolos que o tentador lhe apresenta: um deus em busca de um mágico e não de um Filho; um “deus” contaminado das vazias pretensões do pior da condição humana: ter, brilhar, ostentar poder, exercer domínio...

O que parece claro é que Jesus buscou o deserto para um tempo de discernimento, em oração e em solidão, diante do Pai que o proclamou seu Filho; Ele teve de refletir e discernir sobre o modo como assumiria sua missão em sua vida pública. 

Ora, essa missão comportava, de fato, não só um fim que havia de realizar (a salvação e a libertação total da humanidade) senão, também, um meio, ou seja, um caminho e uma maneira de proceder, tendo em vista alcançar aquele fim. E esse meio ou esse procedimento era, essencialmente, a solidariedade com todos os pecadores e excluídos da terra, a ponto de morrer com eles e por eles.

Como viver sua missão e a partir de quê lugar? Buscando seu próprio interesse ou escutando fielmente a Palavra do Pai? Como deverá atuar? Dominando os outros ou pondo-se a seu serviço? Buscando sua própria glória ou a vontade de Deus? Centrando sua vida na busca de poder e riqueza ou assumindo uma vida pobre, como expressão de solidariedade com os mais excluídos?


2 – O que o texto diz para mim?
Não posso esquecer que o tentador não propõe a Jesus que se afastasse de seu fim, ou seja, de seu projeto messiânico de salvação (“Se és o Filho de Deus...”), senão que, na realidade, o que ele faz é oferecer a Jesus alguns meios determinados para realizar a implantação do Reino do Pai.

Na cena das tentações, vejo Jesus reagindo do mesmo modo como fez ao longo de toda sua vida: centrado e em sintonia afetiva com tudo aquilo que Ele vai descobrindo como o querer de seu Pai: a vida abundante daqueles que veio buscar e salvar. Ele não veio para preocupar-se de seu próprio pão, mas de preparar uma mesa na quais todos pudessem se sentar para comer; Ele não veio para que os anjos o carregassem sobre as asas, para angariar fama e “ter um nome”, mas para dar a conhecer o nome do Pai e carregar sobre seus ombros todos os perdidos, como um pastor carrega a ovelha extraviada. Não veio para possuir, dominar ou ser o centro, mas para servir e dar a vida.

O que livra Jesus de cair nos enganos do tentador é sua excentricidade, sua referência ao Pai e à sua Palavra, e, a partir desse Centro, receberá o impulso para abandonar o deserto e se deixar conduzir pela corrente de Vida, alimentada pelo Espírito. A partir desse momento, o verei caminhando pela Galiléia, entrando em relação com o mundo dos pobres e excluídos, anunciando o Reino, criando uma nova comunidade de vida, buscando colaboradores, aproximando-se das pessoas, entrando nas casas, acolhendo, curando, ensinando, abrindo um horizonte de sentido para a vida das pessoas...

A passagem evangélica das tentações também me inspira a encontrar com o mesmo Deus a quem Jesus conheceu no deserto: um Deus que não exige de mim proezas nem gestos espetaculares, mas somente alimentar minha confiança n’Ele e meu agradecimento; um Deus que me dirige sua Palavra, não para me impor obrigações ou para apontar minhas fragilidades, mas para me alimentar e me fazer crescer; um Deus que não é encontrado nos lugares carregados de prepotência, de poder, de vaidade e consumismo, mas nos lugares do despojamento e da simplicidade de vida, nos lugares dos “descartados” e excluídos. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Muitas vezes penso que Deus é um “estraga-prazeres”, ou um Deus triste que não quer que eu viva prazerosamente. E, então, tenho a sensação que as tentações são essas coisas fascinantes que me seduzem, mas que tenho de renunciá-las em nome de uma suposta “perfeição”. Porém, Deus não é Aquele que complica minha vida com leis, sacrifícios, renúncias... Ele quer que eu viva e, de maneira intensa.

Para cruzar os desertos da vida é preciso ativar uma atitude de esvaziamento de tudo aquilo que é “peso morto” para chegar ao mais profundo e verdadeiro de meu ser. O deserto me revela de onde vim e para onde vou; ele me remete inteiramente ao Doador da vida e desperta outros recursos vitais, aninhados em meu interior.

Tudo o mais é pouco para a sede do coração. “Só Deus basta”, me sussurra o deserto.

Desde sempre, a humanidade inteira e eu, estou exposta à tentação. Faz parte de minha condição humana. Trata-se de um conflito permanente que pode travar minha existência por dentro.

Por um lado, sinto o apelo e o impulso para o bem, para a liberdade, para o compromisso e a fraternidade. Mas por outro, sinto também a sedução e a tendência para o egocentrismo, o prestígio e os instintos de poder e posse. Sinto-me simultaneamente santa e pecadora, oprimida e libertada. 

As tentações sempre estão diante de mim, como pedras que se convertem em pães, como aplauso buscado a partir dos critérios do mundo, ou como joelhos que se dobram frente às promessas de um ídolo com pés de barro.  São dinamismos que bloqueiam o fluxo da vida, impedindo-a de se expandir e de se colocar a serviço de outras vidas.

Ser tentado é próprio do humano, mas o que é divino pode também ser encontrado em meu interior.

Quem é conduzido pelo Espírito, é capaz de acessar à própria interioridade e não se deixa enredar pelos estímulos externos nem pelos impulsos egoicos.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor diante das tentações do poder, do ter e do prestígio, o seguidor de Jesus responde com a partilha, o serviço, a comunhão, a solidariedade... O tempo quaresmal vem ativar esse dinamismo expansivo. E a Campanha da Fraternidade me motiva a fazer da vida um grande dom e um profundo compromisso.

Só quem se deixa conduzir pelo Espírito, como Jesus, consegue romper com tudo aquilo que atrofia a vida; só assim consegue fazer o salto libertador.

Trata-se de ser dócil para deixar-se conduzir pelos impulsos do Espírito, por onde muitas vezes não entende e não sabe. É Ele quem ativa a que há de melhor em mim mesma, expandindo minha vida em direção aos valores do Reino: desapego, serviço, esvaziamento do ego...

Na realidade, só existe uma “grande tentação” para os cristãos: a tentação radical da infidelidade a Cristo e a seu Reino. É a tentação de traçar para si mesmo um caminho, isto é, de projetar uma vida para si, dando uma direção diferente daquela que lhe deu o próprio Deus. Esta é a maneira de trair o melhor de si mesmo, de renunciar ao que há de melhor em si mesmo. Tentação essa que significa o fracasso da própria vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Diante de “Jesus tentado”, recordar as experiências pessoais de tentação: quais são aquelas que mais me afetam e me seduzem? 

Como proceder para não me deixar conduzir e nem me determinar por elas?

Recordar dimensões da vida que precisam ser ampliadas a partir da experiência do deserto.  


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 4,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 

Sugestão: 
Música: Sem perder a ternura 
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: A profecia e a coragem em canção
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:07






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