quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Leitura Orante – 3º Domingo TC, 26 de Janeiro 2020


Leitura Orante – 3º Domingo TC, 26 de Janeiro 2020

JESUS: “COM AS PERIFERIAS NO CORAÇÃO”

“Jesus deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, 
cidade litorânea, nos confins entre Zabulon e Neftali.” (Mt 4,13)


Texto Bíblico: Mateus 4,12-23


1 – O que diz o texto?
Galiléia foi a primeira decisão importante que Jesus tomou no início de sua vida pública. Ele começa sua atividade longe da Judéia, de Jerusalém, do templo, das autoridades religiosas.

Jesus, na Galiléia, encontrou o seu lugar: junto ao mar, nas estradas poeirentas, nas margens... Um “lugar sagrado” que nasceu do seu coração, carregado de afeto, de inspiração, de vitalidade...

Ali, Ele teve suas preferências e elegeu o seu “lugar” entre os mais pobres e excluídos, vítimas daqueles que se faziam donos dos lugares; ali revelou a presença d’Aquele que se faz presente e santifica todos os lugares: o Pai.

Jesus se fez presente nos lugares onde se encontravam aqueles que não tinham “lugar”, os “deslocados”, os socialmente rejeitados e que eram a razão de seu amor e do seu cuidado; fez-se solidário com os “sem lugares” e os convidou a caminhar para um novo lugar: lugar de vida, de comunhão...

Sua missão foi a de reconstruir a identidade das pessoas, devolvendo a elas o seu “lugar”.

Seu ensinamento, cheio de “autoridade”, introduziu uma perspectiva nunca ouvida antes; apresentou uma alternativa que as pessoas mais simples do povo entendiam como revelação do Pai aos pequeninos.

A partir das periferias do mundo, surgiu um canto de vida nova, a sabedoria oculta a muitos sábios e expertos; uma sabedoria que vinha de Deus, desconcertando a sabedoria exibida a partir do centro.

Jesus desconcertou a “sabedoria” do centro a partir da “loucura” da periferia.

Podemos, então, afirmar que Jesus descentralizou o mundo a partir da periferia.

O fato surpreendente é que, em Jesus, Deus não só se fez homem, mas também se fez “margem”.

O próprio Jesus foi “margem”. Belém e Calvário são os dois extremos periféricos – início e fim – de toda uma vida, despojada e pobre.

Todos tinham os olhos voltados para o centro. No templo de Jerusalém era elaborado o saber que ia se expandindo até chegar à menor das sinagogas. No entanto, em Jesus, o Reino de Deus anunciado movimentou-se em direção contrária: subiu a partir da mais baixa periferia, para o centro. Ele começou a falar a partir da margem geográfica, cultural, religiosa e econômica.

Nesse sentido, a vida de Jesus foi “excêntrica”, porque não combinava nem se ajustava com a construção social de todos aqueles que controlavam o mundo a partir do centro.

No entanto, Jesus fez o “centro” da história. Nele, o Pai “nos escolheu antes da criação do mundo”.

Isto quer dizer que o “centro” da história teve seu aparecimento na “periferia”.

Portanto, Jesus descentralizou a história para sempre e situou o surgimento da salvação nas terras excluídas. A ação de Jesus provocou um deslocamento geográfico-social-religioso. 

O centro da história já não se encontra mais em Roma, nem em Jerusalém, e sim na “margem”. Todo aquele que, a partir de então, pretende encontrar-se com Jesus terá de voltar à cabeça e peregrinar em direção às margens, onde estão os prediletos do Pai.


2 – O que o texto diz para mim?
Tendo Jesus se encarnado para sempre nas “periferias” do mundo, porque desejou assumir toda a história a partir daí, também eu, seguidora, tenho de dirigir constantemente o olhar para as “novas periferias”, a partir de onde Ele continua me questionando.

“Êxodo para as periferias”: terra privilegiada, de onde posso contemplar a história e a própria humanidade. A razão mais importante de todo este caminho é a união ao movimento de encarnação de Jesus, decidido pelo Pai como caminho privilegiado para a realização de seu Projeto.

Cada passo na direção das periferias do mundo também é um passo contemplativo em busca do encontro com o Senhor da História, que me chama de “baixo” e de “fora”.

“O discípulo-missionário é um descentrado: o centro é Jesus Cristo que convoca e envia. O discípulo é enviado para as periferias existenciais. A posição do discípulo-missionário não é a de centro, mas de periferias: vive em tensão para as periferias” (Papa Francisco)

Quê significa “fronteiras geográficas e existenciais”? É preciso sair dos limites conhecidos; sair de minhas seguranças para adentrar-me no terreno do incerto; sair dos espaços onde me sinto forte para me arriscar a transitar por lugares onde sou frágil; sair do inquestionável para assumir o novo...

É decisivo estar disposta a abrir espaços em minha história a novas pessoas e situações, novos encontros, novas experiências... Porque sempre há algo diferente e inesperado que pode me enriquecer...

A vida está cheia de possibilidades e surpresas; inumeráveis caminhos que posso percorrer; pessoas instigantes que aparecem em minha vida; desafios, encontros, aprendizagens, motivos para celebrar, lições que aprenderei me fará um pouco mais lúcida, mais humana e mais simples...

A periferia passa a ser terra privilegiada onde nasce o “novo”, por obra do Espírito. Ali aparece o broto original do “nunca visto”, que em sua pequenez de fermento profético torna-se um desafio ao imobilismo petrificado e um questionamento à ordem estabelecida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus começou sua vida pública com um novo ensinamento, rompendo esquemas e modos de viver ditados pelo Templo. Diariamente ouço, leio e me deparo com esta palavra que está tão em moda: inovação; expressão presente em todas as instâncias humanas: empresarial, educativo, social...

Partindo do evangelho deste domingo, posso também fazer esta pergunta: qual é a “inovação do Evangelho”? Que há de inovador, na vida de Jesus, que pode me inspirar?

Com certeza, há uma inovação acima de todas: a paixão de Jesus pela vida, pelo Reino, pelas pessoas, de maneira especial pelas mais excluídas e feridas. Por isso, Jesus inicia sua missão fora dos “espaços sagrados” do Templo; é nas “margens” que Ele, com sua presença inspiradora, ativa um movimento inovador e, ao mesmo tempo, humanizador.

Essa paixão de Jesus se revela em cada passagem do Evangelho, em cada palavra que sai de sua boca, em cada gesto que faz tremer todas as instituições, em cada ação que visa levantar, curar e devolver a dignidade a todo ser humano com quem se encontra. Não há um indício sequer de dogma, de doutrina, de regras, de leis..., a não ser isso: tudo o que faço, vivo e desejo, seja em prol das pessoas, para seu bem e sua felicidade.

A inovação de Jesus está em eliminar da vida todo o peso do legalismo, do moralismo, da culpa..., para fazer emergir o que há de mais humano e divino presente em cada pessoa. A expressão “pescador do humano” deixa transparecer essa inovação mobilizada por Jesus, a partir do mais profundo de cada um.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, seguindo Jesus e deixando-me impactar por sua inovação em favor da vida, estarei, também eu, inovando, quando deixar transparecer uma paixão pelas pessoas, que se manifesta em minha acolhida, em meus gestos, no meu olhar contemplativo, nas minhas palavras mobilizadoras...; trata-se de investir a vida em favor da vida e fazendo os outros se sentirem mais irmãos e mais filhos de um mesmo Pai.

Nesse sentido, Mateus também situa, no início da vida pública de Jesus, o chamado dos quatro primeiros discípulos. Detrás disso, há uma intencionalidade teológica, que busca mostrar Jesus e seus discípulos compartilhando a mesma missão: aliviar o sofrimento humano, com a certeza de que o Reino de Deus tinha chegado. Assim, inicia-se um grande “movimento humanizador”, a partir de baixo, das margens...

Nesse entorno da Galiléia está o futuro do Evangelho; Galiléia é a terra do chamado e, a partir desse lugar, inicia-se também novo caminho do seguimento.

Por isso, os discípulos devem entrar em sintonia com o modo original de ser e de viver de Jesus na Galiléia. É ali que se devem encontrar todos os seus seguidores, para também ali prolongar o movimento iniciado pelo Mestre de Nazaré.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Aquele Desconhecido se aproxima, ainda hoje, do meu mar da Galiléia, que representa os lugares, os afetos, os segredos, os costumes da minha vida cotidiana... ; Ele fixa seu olhar em mim e, com sua Palavra inspiradora, me desafia a transgredir os meus lugares estreitos e entrar em outro mar.

O Evangelho deste domingo faz emergir algumas perguntas que são significativas para a vida cristã:

Eu vivo em processo de mudanças ou continuo sempre igual? 

Meu modo de viver o seguimento de Jesus é sempre criativo ou continua “normótico” (normalidade doentia, sem inspiração, sem afeto...)?

Sou peregrina ou estou ancorada no de sempre? 

Estou me convertendo constantemente para uma vida nova e melhor, ou me contento com uma mera repetição?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 4,12-23
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Quem nos chamou – fx 01
Autor: Pe. José Carlos Sala
Intérpretes: Ana Clara, Ana Paula Ramalho, Fátima Souza, Hemerson Jean , Luiz Felipe, Marcelo Mattos
CD: Há sempre uma luz
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:26

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