segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Leitura Orante – 3º DOMINGO DO ADVENTO, 15 de dezembro de 2019


Leitura Orante – 3º DOMINGO DO ADVENTO, 15 de dezembro de 2019

ADVENTO: cristificar os sentidos

“Ide informar a João o que vedes e ouvis” (Mt 11,4)


Texto Bíblico: Mateus 11,2-11


1 – O que diz o texto?
O evangelho de Mateus nos apresenta a chamada “prova messiânica”. João Batista, a partir do cárcere, envia emissários para perguntar a Jesus se é Ele o esperado ou se devem esperar outro. Jesus não responde com alguns argumentos teológicos, nem com citações bíblicas, ou com alguns dogmas e doutrinas, mas remete os discípulos de João aos puros fatos, que podem ser “vistos e ouvidos”: “os cegos veem, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados”.

Estas “obras”, estas boas notícias, são a prova de identidade do Messias; e deverão ser a prova de identidade dos seus seguidores. Só quando nossa vida prolongar e atualizar estas mesmas obras, só quando formos “boa notícia para os pobres” é que estaremos sendo seguidores (as) daquele Messias. 

Por que Jesus fala de cegos, surdos, coxos, inválidos, leprosos..., e muitos outros coletivos que continuam sendo marginalizados? O texto quer dizer que a chegada do Reino terá ressonâncias vitais para todos, mas, sobretudo para os mais desfavorecidos, que tinham perdido a esperança; quer dizer que aquele que acolhe o Reino, sairá da dinâmica da morte e entrará na dinâmica da vida. 

É interessante que, entre os sinais da presença do Messias não há referência a um só sinal “religioso”: nem culto, nem orações, nem sacrifícios, nem doutrinas. Isto nos deve fazer pensar. Nós cristãos, com frequência, nos esquecemos de que, para Jesus, o primeiro é o ser humano, a prioridade é a vida.

As “obras” que Jesus realizava, desconcertaram o Batista porque este, em sua pregação junto ao Jordão, o que na realidade anunciava era a chegada de um Messias ameaçante e justiceiro. João Batista, portanto, falava à multidão da “perdição eterna”, na linha do juízo mais severo. Por isso, o Messias viria a este mundo para remediar o problema do “pecado”. 

Ainda hoje na Igreja, em muitos ambientes mais fechados e conservadores, prevalecem à figura de João Batista, com julgamentos, medos e ameaça do juízo final. Com isso, a religião e suas observâncias deixam de ser fonte de esperança e nos distanciam do compromisso com os “últimos e excluídos”.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus corrige João. Ele não veio para impor medo e anunciar ameaças aos pecadores e às pessoas “perdidas”. Ele veio a este mundo para aliviar o “sofrimento humano”, para incluir quem estava excluído, para ativar a dignidade dos mais carentes, para abrir um horizonte de esperança a todos...

Dito isto, com facilidade se compreende onde, em quê e como encontrar e viver o centro mesmo do Evangelho. O decisivo e determinante, na Igreja e na vida cristã, não é a doutrina, nem as práticas religiosas que alimentam a culpa doentia, nem o legalismo estéril, nem o ritualismo que afasta da vida... Há algo que é mais simples mais claro e que está ao alcance de todos, a saber: o central e determinante da vida cristã é o compromisso contra todo tipo de sofrimento e contra tudo aquilo que exclui e gera desumanização.

Dito de outra maneira: seguir Jesus é contagiar vida plena e felicidade aos outros. Tanto mais, quanto mais limitadas e desamparadas são as pessoas com as quais convivo. Somente o “projeto com vida”, que Jesus traçou em seu Evangelho, é a luz e a esperança que tanto aspiro.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O Advento me revela que a mística cristã é uma mística de olhos e ouvidos compassivamente abertos. Tenho de aguçar a vista e afinar os ouvidos para ser capaz de contemplar as obras de Deus em favor da vida, que se visibilizam na história da humanidade, sobretudo entre os mais pobres e excluídos.

Este tempo em que vivo e este lugar no qual estou imersa, requer de mim novos olhos e novos ouvidos para facilitar a convivência, a transformação social e aceitar a nova visão da existência humana.

É preciso sair dos sentidos estreitos, autorreferentes e centrada em mim mesma..., para os sentidos contemplativos, oblativos, capazes de me deixar impactar pela realidade e entrar em sintonia com ela, vibrando e me alegrando com as surpresas que daí brota.

O tempo do Advento chega ao mais profundo, transforma meu coração e meus sentidos, e me leva a um mundo novo de possibilidades inéditas, descobre e revela o melhor em mim. Quem se unifica e se dilata em seus sentidos, encontra seu verdadeiro rosto, porque a beleza do rosto é “epifania da pessoa”. O verdadeiro rosto deixa transparecer o coração quando este é carregado de compaixão.

O olhar de Jesus é reflexo do olhar do Pai, pois Ele se fixa, sobretudo nas pessoas concretas e, com particular atenção, nos mais pobres e necessitados, aqueles que eram “invisíveis” para a sociedade de seu tempo: os enfermos, as viúvas, as crianças, o estrangeiro...

Estou vivendo um tempo litúrgico privilegiado onde o trato íntimo com o Senhor me transforma me inspira a assumir suas atitudes profundas e a “cristificar meus sentidos”, para segui-Lo em sua encarnação no meu dia a dia.

4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, através dos meus sentidos, o modo de ser e de agir de Jesus entra em minha intimidade e, por meio deles respondo também à realidade de um modo novo. 

A contemplação do mundo da dor e das sombras de minha realidade implica uma compreensão responsável que olha, escuta, sente, se encarna e se encarrega das realidades de sofrimento. É uma contemplação que me enraíza na realidade da exclusão para descobrir como o rosto ferido e maltratado de meu Deus se transforma em narrações de resistência e esperança para seu povo.

O tempo do Advento também deixa transparecer um grande obstáculo, que acaba reforçando o impulso possessivo dos meus sentidos: vivo numa cultura de imagens artificiais, não escolhidas, arremessadas contra mim, com fins mercantilistas. Meus olhos e ouvidos estão saturados, minhas retinas estão fatigadas, meus tímpanos perderam sua vibração. Estar submetida a tal impacto, visual e sonoro, me faz perder a inocência, ou seja, a capacidade de estar simplesmente numa atitude receptiva e de acolhida; também esvazia a contemplação desinteressada e distendida, aquela que me dispõe para sentir e captar a presença divina na realidade e nas pessoas.

Meus sentidos estão se tornando filhos da necessidade ou do interesse, esvaziando-se de toda gratuidade e atitude receptiva. Sentidos petrificados e possessivos acabam por bloquear também o meu interior. Dos sentidos petrificados brotam atitudes de julgamento, de intolerância, de violência, de preconceito..., me distanciando daqueles que são “os preferidos de Deus”.

Minha civilização, que já ultrapassou a era do trabalho escravo, ainda está na era dos “sentidos escravos”.

Estão comercializando com minhas pupilas e meus tímpanos; nas publicidades comerciais, tenho os olhos e ouvidos vendidos e não levo nenhuma “comissãozinha”.

Só os sentidos contemplativos deixam de ser possessivos e devorador para se tornarem oblativos e abertos; e, quando são oblativos, eles me unificam por dentro e me movem a viver em profunda sintonia com a realidade, carregada de presenças.

O Advento é oportunidade única para recuperar a capacidade do assombro e da admiração, e assim, viver os sentidos de maneira agradecida, gerando comunhão. E a conversão começa pelos sentidos.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Alcançarei através dos “sentidos cristificados” uma forma de olhar, escutar, sentir, apalpar, saborear que me abrem à percepção da Presença divina e à revelação do sacramento do irmão.

- Quê novos sinais e vozes estão captando no meu interior e na minha realidade cotidiana, manifestação da surpreendente ação de Deus em favor da vida?

- De quê maneira eu estou prolongando as “obras” de Jesus no meu ambiente?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 11,2-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Abre os olhos e comtempla – fx01
Autor: Luiza Ricciardi, fsp
Intérprete: Ir. Ana Paula Ramalho, fsp
CD: Cantando o Evangelho da criação
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:07







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