quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Leitura Orante – 26º DOMINGO TEMPO COMUM, 29 de SETEMBRO de 2019


Leitura Orante – 26º DOMINGO TEMPO COMUM, 29 de SETEMBRO de 2019

A INDIFERENÇA CRIA ABISMOS

“E, além disso, entre nós e vós foi estabelecido um grande abismo”. (Lc 16,26)


Texto Bíblico: Lucas 16,19-31


1 – O que diz o texto?
O Evangelho deste domingo volta a tratar do tema das riquezas com a parábola do rico Epulón e o pobre Lázaro. Uma parábola desconcertante e inquietante porque nos situa frente a uma cena que sacode o coração, pois concentra, em uma só imagem, a realidade presente em nosso mundo: o abismo entre ricos e pobres. Existe a injustiça, existe a humilhação e a indiferença para com os menos favorecidos; existe o esbanjamento de uns frente à miséria de outros. E isto acontece também entre nós, comunidades e famílias cristãs.

Há muitos aspectos da riqueza que podem ser injustos e nocivos; mas nesta parábola Jesus critica a indiferença do rico diante do sofrimento do pobre que está próximo, à porta. Jesus nos previne contra essa tendência a evitar que os problemas alheios perturbem nossa “zona de conforto”.

O pobre necessitado não é alguém que possamos escolher; ele aparece junto à porta de nossas vidas...

Assim, pois, estamos diante de um texto duplamente perturbador: ele nos deixa inquieta ante a humilhante situação inicial do pobre, coberto de chagas e com vontade de saciar-se das migalhas que caiam da mesa do rico; e diante do destino último do rico, que gritava para que Lázaro lhe refrescasse a língua porque as chamas o torturavam.

Se tivéssemos que escolher uma palavra que fosse a chave de leitura da parábola deste domingo, essa palavra seria “abismo”. E se pudéssemos nomear a atitude denunciada na mesma parábola, essa seria “indiferença”.

Experimentamos um grande pecado de raiz, que a todos nos envenena: a cultura da indiferença. Questões gerais, comuns a grande número de pessoas, não nos provocam e nem nos movem para além de nossos umbigos. Também os problemas dos outros não nos dizem respeito. E se há fome e sofrimento ao nosso redor, isso não nos inquieta. A maldade, a violência, as mortes, as perseguições e escravidões não nos afetam mais. E vivemos como se nada disso tivesse relação conosco. Não choramos mais as dores do mundo que construímos e ao qual pertencemos. E o caos que enfrentamos em nossa sociedade nos deixa sem horizontes e perspectivas de futuro. Sentindo que tudo vai muito mal, anestesiamos nossa sensibilidade e entramos num estado de apatia e indiferença para com o mundo, as coisas e as pessoas.


2 – O que o texto diz para mim?
A indiferença é cruel. Ela edifica uma barreira intransponível entre grupos, classes sociais, ideologias, religiões... Torna-me uma ilha sem vida e triste, nego a condição criatural de viver ao lado dos diferentes, meus semelhantes. Em mim, a indiferença é sintoma de desumanização. E essa desumanização é tanto prejudicial a mim quanto às outras pessoas. Todo mundo perde. Aos poucos, recolho em meus medos, em minhas inseguranças e começo a acreditar que os diferentes são meus inimigos. Da indiferença passo aos discursos fascistas, às práticas fundamentalistas, à segregação...

“Os cristãos devem ser ilhas de compaixão num mar de indiferença”.

O grau de humanidade (ou de indiferença) de meu mundo se mede pelo grau de sensibilidade diante da dor humana. E é a compaixão a melhor expressão dessa sensibilidade e humanidade: deixar-me afetar pelo que acontece – ou seja, ter uma sensibilidade limpa, desbloqueada e vibrante.

Definitivamente, a compaixão é central para ser humano. O sofrimento das vítimas me “descentra” e me faz “descer com paixão” aos seus pés e me situar ao lado (a favor) delas. Sempre posso fazer a “travessia para o outro lado”. Ali é onde se abrem espaços à compaixão.

Esta compaixão não é meramente um sentimento privativo, mas reação “apaixonada” diante das injustiças sangrentas de meu mundo. Nos sofredores há algo que atrai e convoca que me faz sair de dentro de mim mesma e me tornar próxima deles; aí reside a origem da solidariedade que suscita uma ação eficaz e um compromisso de vida a favor de quem é vítima de situações injustas. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Não resta dúvida que o sentimento nuclear do evangelho, o eixo ao redor do qual tudo gira, é a compaixão. Na sua missão, Jesus sempre se mostrou um homem compassivo, que revelou um Deus Compaixão e que, como consequência, me convida a viver essa mesma atitude: “Sede compassivos como vosso Pai é compassivo” (Lc 6,36).

Expressão de fraternidade e vivida como serviço, à compaixão é a capacidade de situar-se no lugar do outro, sentir e sofrer com ele. É provavelmente o máximo sinal de maturidade humana e todas as tradições espirituais reconhecem isso. No budismo, especialmente, se afirma que, enquanto alguém não for capaz de colocar-se no lugar do outro, não poderá alcançar a iluminação.

Se a compaixão constitui a coluna central do evangelho, não causa estranheza que as denúncias mais fortes de Jesus são dirigidas contra a atitude de indiferença. É o que Ele revela na parábola deste domingo, onde a indiferença é retratada na atitude do rico epulón, que não causa dano ao pobre Lázaro, mas é incapaz de abrir a porta de sua casa e deixar-se afetar pela situação miserável dele.

Aqui, a chave de compreensão da parábola é encontrada na expressão “um grande abismo”. 

Um abismo que, não só se faz intransponível depois da morte, mas que foi alimentado exclusivamente pela indiferença do rico. Não tinha feito mal ao pobre; simplesmente, não tinha visto aquela pessoa necessitada de suas migalhas para saciar sua fome. É esse “não ver” que cria um abismo profundo nas relações pessoais, nos países e em meu mundo.

Há uma “massa sobrante” que se torna “invisível” porque minha sensibilidade está bloqueada ou petrificada, fechando-me em um caracol egocêntrico e instalando-me na indiferença, que está na origem das injustiças e violências que diariamente ferem o meu mundo.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor eu vivo em tempos de “globalização da indiferença”, ou seja, a indiferença está se convertendo em um fenômeno mundial. É uma mancha de óleo que invadiu todos os ambientes, é um som desagradável que molesta todos os ouvidos, é um comportamento nefasto que se espalhou como pólvora, é um péssimo modo de proceder que se converteu em denominador comum de toda a humanidade.

O seguidor de Jesus precisa vigiar se não quiser cair na tentação da indiferença. Costumeiramente, tendo ao conformismo. A cultura da indiferença é fortalecida toda vez que deixo de acreditar que a realidade pode e deve ser diferente. Não posso me dar por vencida acreditando que estou no fim, que minhas forças já se esgotaram, que não há mais sentido para lutar.

O primeiro convite que me faz a parábola deste domingo é o de abrir a porta do meu coração ao outro, porque cada pessoa é um dom, seja ele o meu vizinho ou o pobre desconhecido. Sempre é tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo. Cada um encontra seu próprio caminho. Cada vida que se cruza é um dom e merece aceitação, cuidado, amor.

Nesse sentido, “amar é abrir a porta”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
É possível superar os tempos sombrios que estou vivendo.

Não me deixar dominar pela indiferença.

Alimentar a capacidade de me indignar.

Compadecer e afetar pela situação do outro. 

Que a dor, a injustiça, a morte, a fome, a mentira, o futuro não me seja indiferente.

Quê lugar ocupa a “compaixão” em minha vida interior, em meu compromisso diário, no horizonte de minha vida, nos encontros cotidianos?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 16,19-31
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Um país rico de um povo pobre
Autor: Hemerson Jean
Intérprete: Hemerson Jean
CD: No rumo da paz
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:07


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