terça-feira, 3 de setembro de 2019

Leitura Orante – 23º DOMINGO TEMPO COMUM, 08 de SETEMBRO de 2019


Leitura Orante – 23º DOMINGO TEMPO COMUM, 08 de SETEMBRO de 2019

DECISÕES VITAIS

“Qualquer um de vós que não renunciar a todas as suas posses 
não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33)


Texto Bíblico: Lucas 14,25-33


1 – O que diz o texto?
O verbo que marca o início do relato evangélico deste domingo não indica seguimento, mas acompanhamento. Seu significado: “viajar com”, “caminhar junto a”, está longe de manifestar adesão ao projeto ou identificação com a pessoa com quem se compartilha a caminhada.

As grandes multidões, às quais o relato de Lucas faz referência, vão se somando, pelo caminho, à marcha dos seguidores de Jesus. Agregam-se ao passo do Galileu, mas não se comprometem com Ele e com a causa do Reino. Por isso, Jesus provoca uma brusca parada e se dirige à multidão.

Suas palavras interpelam cada um dos seus integrantes e pretendem fixar as linhas que distinguem acompanhantes de seguidores. Não basta simplesmente acompanhar Jesus; isso não leva a lugar nenhum.

Chegou o momento de tomar decisões. Segui-lo, aderindo-se a seu projeto, exige dar-lhe completa prioridade. Jesus é bem claro e não fica na superfície; não quer entusiasmos que sejam fogos artificiais.

Ninguém deve sentir-se enganado. Ficam claras as condições que marcam a fronteira entre “ser massa” e formar parte do grupo daqueles (as) que se identificam com Jesus. As três condições expostas (vv. 26-27; v. 23) não deixam lugar a dúvidas e terminam do mesmo modo: “não pode ser meu discípulo”. 

Só no contexto do seguimento de Jesus, podemos entender as exigências que propõe aos que o seguem (preferir-lhe à família, carregar a cruz, renúncia de tudo).

Frente à multidão que “só acompanha”, Jesus apresenta dois casos em forma de duas pequenas parábolas. Embora muito diferentes, apontam para uma mesma direção. Os protagonistas de ambos os exemplos se encontram frente uma ação a realizar. Precisam tomar uma decisão. No primeiro caso, trata-se de construir uma torre; qualquer um dos integrantes da multidão pode ser o ator principal: “qual de vós querendo construir uma torre...” É preciso refletir sobre si mesmo e fazer cálculos das possibilidades que se tem em mãos. No segundo caso, fala-se de uma terceira pessoa, um rei que vai enfrentar uma batalha: “qual é o rei que ao sair para guerrear com outro”...? Trata-se, nesse caso, de atuar com prudência, prevendo acontecimentos hostis que possam surgir a partir de fora. 


2 – O que o texto diz para mim?
No primeiro, ressalta-se a atividade construtiva e pacífica; no segundo, aparece um risco: o movimento destrutivo motivado por uma guerra que surge repentinamente. Ambas as situações parecem concordar com as duas condições antes expostas. Uma, exige dar um passo adiante, seguindo o que fora projetado. Outra pede uma parada estratégica para medir a possibilidade de enfrentar o risco que pressiona. Trata-se de pensar; pensar antes de fazer; e fazer requer discernimento.

Tenho a impressão que o tema central do evangelho deste domingo é tão forte que se torna quase impossível abordá-lo de frente. Por isso, o melhor é pôr em prática o conselho que recebo dele: “sentar-nos para pensar”. Tenho a sensação de que o seguimento de Jesus implica sempre o dinamismo de mover-me, deslocar-me e caminhar; mas, às vezes, o mais aconselhável seja isso: parar um pouco e sentar-me.

A advertência de Jesus revela grande atualidade nestes momentos críticos e decisões que ajudam a dar uma feição original ao seu seguimento. Jesus chama, antes de qualquer coisa, a um discernimento maduro: os dois protagonistas das parábolas “se sentam” para refletir, discernir... Seria uma grave irresponsabilidade viver hoje como discípulos (as) de Jesus que não sabem o que querem, nem para onde pretender ir, nem com que meios poderão contar.

Não se pode dar o passo sem medir as consequências. Requer-se “sentar e pensar” com calma. Porque a condição para formar parte do reinado de Deus implica a ruptura com os impulsos do ego: auto-centramento, apegos, busca dos próprios interesses, busca de projeção e poder...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Os apelos de Jesus são absolutos e constantes. Se estiver apegada ao que tenho, jamais serei capaz de “fazer estrada com Ele” e participar da preciosa vida que Ele me oferece.

Para seguir a Jesus, devo esvaziar-me; para entrar na posse “do todo” tenho de renunciar ao “meu todo”. Os “apegos” imobilizam-me, congelam-me..., impedem-me de crescer.

“Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo”.

Trata-se de uma atitude, uma postura, uma entrega.

E a palavra é “tudo”. Um discípulo, com um “pé atrás”,  não pode ser discípulo. Não servem as entregas pela metade. Jesus não pode se contentar com “amor a prestações”, com retalhos de vida.

A entrega parcial não é entrega. O “apego” a algo ou alguém, que esvazia o seguimento, anula o resto da entrega e torna impossível que minha relação com Jesus cresça, se desenvolva e plenifique minha vida. 

Tenho a experiência de que viver é estar continuamente tomando decisões. Desde o momento em que levanto até à hora de deitar, estou decidindo, algumas vezes sobre questões simples, outras vezes, sobre assuntos de maior envergadura. Sei que minhas decisões vão modelando minha vida e orientando, de uma maneira ou outra, para um fim. Qual é esse fim? 

Como seguidora de Jesus, sou ser em contínuo discernimento: como “cristificar” (prolongar o modo de ser e agir de Jesus) minhas opções, ações, valores, compromissos...?


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor eu sei que é no decidir que a pessoa torna-se pessoa, que o indivíduo torna-se sujeito.

São “significativas” as decisões que imprimem uma direção à sua vida, que a constroem dia após dia; decisões carregadas de vida, abertas à vida, comprometidas com a vida...

São as decisões que fazem a pessoa; formam sua personalidade, definem seu caráter e integram sua vida. A base da pessoa são suas decisões, suas determinações, fazendo com que sua vida tenha a marca da criatividade e da ousadia: construir o caminho de vida, rejeitar alternativas que a atrofiam e avançar na rota, em direção a um fim pleno de sentido.

Decidir é viver, decidir é definir-se; por isso, ao entender e refinar suas próprias maneiras de decidir, a pessoa está entendendo melhor e refinando mais sua vida.

Em outras palavras: “sou o que são as minhas decisões”; e a decisão pelo seguimento de Jesus é aquela que mais me humaniza e potencializa todo meu ser; afinal, sou chamada para “seguir uma Pessoa”, aquela que foi “humana por excelência”.  Por isso, preciso conhecer detalhadamente quais são e como as tomo; quero saber se minhas decisões são realmente minhas ou se são imitação daquilo que os outros fazem, ou submissão ao que os outros me dizem para fazer.

A coragem de decidir com firmeza e clareza é o que distingue o(a) seguidor(a) de Jesus como tal, e lhe dá sua dignidade e personalidade. Não há melhor escola humanizadora do que saber decidir.

Essa é a grande contribuição que a tomada de decisões dá à minha vida: ativar ao máximo meus recursos, fazer valer tudo o que trago dentro de mim, dar vida a todo o meu ser, que é feito para conhecer, querer e decidir. Se evito decisões ou fujo de responsabilidades, condeno-me a viver num canto, encolhida e prostrada. Para desenvolver ao máximo minhas potencialidades, tenho de  enfrentar dilemas, encruzilhadas, perplexidades e responsabilidades. Isto me faz ter acesso à vida plena, mobilizar minhas forças, encontrar a mim mesma, encontrando-me com Aquele que me inspira.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
No encontro com Deus deixar aflorar aquilo que é a base, o sólido, o fundamento, que dá sentido à minha vida.

Construir valores, critérios, opções em minha vida.

A Bíblia fala do equilíbrio entre o olho, ouvido, coração e mão, quando se refere à decisão:

- olho: atenção (ler os sinais, interiores e exteriores);

- ouvido: escutar-auscultar: captar vozes do coração;

- coração: é a decisão com afeto;

- mão: é a ação (realizar na prática, a decisão).

 Fazer memória das minhas decisões diárias: elas são “cristificadas” ou tem a marca do “ego inflado”?

Elas são oblativas, abertas, descentradas..., ou centradas no próprio interesse?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 14,25-33
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Descer no profundo – fx 13
Autor: Pe. Jorge Trevisol
Intérprete: Pe. Jorge Trevisol
CD: Mistério, amor e sentido
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:21

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