terça-feira, 17 de setembro de 2019

Leitura Orante – 25º DOMINGO TEMPO COMUM, 22 de SETEMBRO de 2019


Leitura Orante – 25º DOMINGO TEMPO COMUM, 22 de SETEMBRO de 2019

A LÓGICA PERVERSA DO DINHEIRO

“Vós não podeis servir a Deus e à riqueza” (Lc 16,13)


Texto Bíblico: Lucas 16,1-13


1 – O que diz o texto?
O evangelho deste domingo dá margem a toda uma série de questionamentos. Será que somos tão espertos nas “coisas” de Deus como somos com as nossas coisas? Somos tão astutos no serviço ao Reino como somos para com nossos interesses? Somos criativos no anúncio do evangelho como somos no empenho por manter nosso prestígio, vaidade e poder?...

A parábola narrada por Lucas é tremendamente provocativa: é como se Jesus estivesse nos colocando frente a um autêntico dilema de nossa vida; ou, é como se Ele estivesse nos despertando para tomar consciência de quem controla nossa vida; ou, é como se Ele nos sacudisse para cair na conta de quem somos em seu projeto e em seu sonho; ou, ainda, é como se Jesus estivesse nos animando a viver o dia-a-dia com sagacidade e sabedoria em vez de nos acomodar em uma ou outra margem de nossa vida.

Todos têm consciência que, em cada um de nós, convivem a luz e as trevas, e a experiência nos diz que, quando nosso ego está em jogo, ativamos meios, recursos, táticas, argúcias, estratégias e decisões..., com o objetivo de sairmos vencedores e assegurarmos a sobrevivência – a segurança, o dinheiro, o prestígio...

Embora, no Sermão das Bem-aventuranças, Jesus tenha declarado que o Reino dos céus é dos humildes e simples, no entanto, este Reino não pode ser construído com ingenuidade, pois “os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz”.

Mas, o que acontece quando está em jogo a luz que somos? Que fazemos com o melhor que há em nós mesmos? Onde está nossa sagacidade para investir a vida em favor da vida? Onde está nossa sabedoria para que o Reino atraia, seduza, mobilize...?

Se colocássemos tanto empenho, tantos meios, astúcia e sabedoria para que nossa verdadeira identidade – a luz que somos e carregamos – se manifestasse, nosso mundo seria bem diferente e a mensagem da Boa Nova teria ressonância em todos os lugares e em todos os corações.

Devemos nos examinar se não é tempo de colocar a serviço da luz toda a capacidade e inteligência que colocamos a serviço de nossos interesses… Devemos nos perguntar se não é tempo de sermos tão criativos e ambiciosos, no bom sentido da palavra, quando se trata de questões do Reino como quando se trata de questões de negócios. Talvez, é chegado o momento de tomarmos consciência daquilo que Deus nos pede: que não sejamos perfeitos e imaculados, refugiando-nos em nosso metro quadrado de luz, mas que sejamos espertos e busquemos maneiras de gerar luz para todos, mesmo que isso implique enfrentar as nossas próprias sombras.


2 – O que o texto diz para mim?
Hoje, a sagacidade e a esperteza se disparam quando se trata do “deus” dinheiro. Naturalmente que não vou a um banco para rezar ao deus dinheiro, nem fazer novena aos banqueiros. Mas, no fundo, posso estar alimentando a idolatria do dinheiro. 

Não se pode servir a dois senhores com pretensões e atitudes radicalmente opostas. É impossível sentir-se bem com os dois. E isso é o que acontece entre Deus e o dinheiro.

Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. O texto grego usa a expressão “mamwna”. “Mammon” era um deus cananeu, o deus dinheiro. Não se trata, pois, da oposição entre Deus e um objeto material, mas da incompatibilidade entre dois deuses. Servir ao dinheiro significa que toda minha existência está orientada à acumulação de bens materiais; é buscar, como objetivo de vida, a segurança que as riquezas proporcionam; significa que coloco no centro de minha vida o ego e o impulso para potenciá-lo o máximo possível.

Posso, então, afirmar que o “dinheiro” é imagem do ego e de uma vida egocentrada, que se apoia no ter e no benefício próprio. Servir ao “dinheiro” significa deixar-se conduzir pelas necessidades e pelos medos do ego, numa existência vazia e insatisfeita. 

A divinização do dinheiro não é outra coisa senão expressão da divinização do próprio ego.

Falo do dinheiro como “deus”: todas as funções religiosas que antes eram dirigidas a Deus, agora são desviadas para o “deus” dinheiro. 

A religião centrada no “dinheiro” também se apresenta como uma “experiência da totalidade”. Contudo é uma religião apenas de culto: sem dogmas nem moral. Esse culto é realizado mediante o consumo.

Também é uma religião de culto contínuo, no qual todos os dias são “de preceito”; religião que se sustenta na culpa, pois viver com uma dívida equivale a viver com uma culpa contínua. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O deus dinheiro dá segurança e garante o futuro; dá segurança porque é o todo-poderoso e onipresente: não se pode conseguir nada sem ele. Além disso, o dinheiro é fecundo: no capitalismo financeiro o dinheiro já não é usado como meio para criar riqueza, mas ele mesmo produz mais dinheiro: “especular se torna então mais lucrativo que investir”.

E, a tudo isso poderia acrescentar: o dinheiro também é invisível, como Deus, apesar de seu poder e onipresença. Se ele é o último ponto de referência, também se pode falar dele como “o ser necessário”.

Para a pessoa que tem “afeição desordenada” ao dinheiro, Deus não pode ter lugar em seu coração, pois sua religião é o mercado: tudo se compra tudo se vende. 

Tudo isso se configura como uma forma mundana de consagração a um ídolo, algo para o qual a pessoa está disposta a oferecer a própria vida, sacrificando para isso a própria liberdade e dignidade. 

Segundo Lutero, o dinheiro é “o ídolo mais comum na terra”.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, de fato, o culto ao “deus dinheiro” alimenta uma lógica perversa de desumanização, rompendo laços de comunhão, alimentando poder e competição, gerando divisões e conflitos...

Eis que encontro todos diante desta realidade que me afeta: um mundo rompido e cruel, um planeta massacrado, inabitável. Nesse mundo vivo. 

Como seguidora de Jesus, minha presença nesse mundo faz diferença? Qual deveria ser minha esperteza e minha astúcia?

Na parábola de hoje, Jesus não justifica a injustiça do mau administrador; justifica a astúcia que tinha para buscar uma saída ao ser despedido da administração.

Ser astuto, esperto, não é mau. Tudo depende para que coisas sejam mais astutos. Ser astuto é ser criativo. O astuto busca soluções, justas ou injustas, mas busca saídas.

Na realidade, com esta parábola, Jesus me faz uma série de advertências: ser sua seguidora não significa ser uma ingênua, uma inocente, uma alienada que se deixa enganar facilmente, que é “levada” pelas circunstâncias, que não sabe buscar caminhos, que se revela um passivo sem criatividade.

O seguidor de Jesus revela esperteza para as coisas do Reino; ele precisa estar desperto e ser ousado para ser presença visível dos valores do Evangelho hoje; precisa ser mais arguto para mudar as coisas.

Jesus quer seguidores atentos, quer gente criativa, pensante, capaz de arriscar-se.

Na criação da “nova comunidade” dos seguidores de Jesus, a partilha substitui a acumulação e a abertura aos outros se apresenta como alternativa às relações interpessoais regidas pelo deus dinheiro; aqui está configurada uma das propostas mestras na proclamação do Reino de Deus.

Na partilha, a primitiva tendência egoísta e agressiva dá lugar a uma atitude aberta, acolhedora e benevolente frente ao outro. Além disso, onde há partilha, sempre há superabundância.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O verdadeiro sentido de minha existência está em investir numa única fortuna: a do amor, do favorecimento da vida, a do descentramento de mim mesma, a da santidade solidária em favor dos mais pobres.

Meu compromisso com o Reino, afeta meu “bolso”?

Olhar no mais íntimo de mim mesma e perguntar: há um coração que deseja coisas grandes ou um coração atrofiado pelas “afeições desordenadas”? Meu coração conservou a inquietude da busca ou eu tenho me deixado sufocar pelas “coisas”, que acabam atrofiando minha existência?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 16,1-13
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Deus presente – Fx 05
Autor: Pe. Ezequiel Dal Pozzo
Intérpretes: Pe. Ezequiel Dal Pozzo
CD: Quando te encontrei 
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:49



terça-feira, 10 de setembro de 2019

Leitura Orante – 24º DOMINGO TEMPO COMUM, 15 de SETEMBRO de 2019




Leitura Orante – 24º DOMINGO TEMPO COMUM, 15 de SETEMBRO de 2019

O QUE ESTÁ PERDIDO EM MEU INTERIOR?

“Encontrei a minha ovelha que estava perdida”; “encontrei a moeda que tinha perdido”; “este teu irmão estava perdido, e foi encontrado” 


Texto Bíblico: Lucas 15


1 – O que diz o texto?
As três parábolas deste domingo, relatadas por Lucas, condensam toda a história de nossa salvação. 

Elas contêm a quinta-essência do Evangelho do Reino do Pai, proclamado por Jesus, ou seja, a história do amor de Deus para com a humanidade.

Justamente por ser o Evangelho condensado, as parábolas contadas por Jesus devem ser incessantemente escutadas e contempladas por todos nós. E, depois de contempladas e experimentadas, devemos contá-las, proclamá-las e testemunhá-las, sempre de novo, a todos os homens e mulheres que Deus ama.

Elas são as parábolas da nossa vida, da nossa história, de cada um dos nossos caminhos.

Elas são as parábolas da nossa origem e do nosso destino.

As três parábolas da misericórdia são, na verdade, as “parábolas dos perdidos”.

O que Jesus quis proclamar, ao contá-las, foi revelar a nova imagem do Deus Pai - Mãe que, movido pelo seu amor, misericórdia, perdão, sai ao encontro dos que estão “perdidos”.

As três parábolas expressam, com uma força insuperável, dois temas particularmente caros a Lucas e vinculados entre si: o tema da misericórdia e do perdão oferecidos por Deus aos pecadores, a todos os “perdidos”, e o tema da alegria do mesmo Deus quando os perdidos são encontrados.

A trama das três parábolas é a expressão de que vivemos permanentemente banhados pela misericórdia reconstrutora de Deus, e que se expressa no perdão contínuo. Jesus, nestas parábolas, nos revela que Deus vai aonde nunca antes ninguém se atrevera ir, acompanhando-nos com sua presença, aproximando-se de nós e nos convidando à festa do seu perdão, com uma misericórdia sem fim.

As três parábolas também revelam o caráter de defesa, feita pelo próprio Jesus, do seu modo de vida, do seu comportamento, particularmente do seu relacionamento com os extraviados e excluídos. O Evangelho que Jesus proclama com palavras e ações é a Boa Nova da salvação para os perdidos; e é, ao mesmo tempo, apelo à conversão dirigido aos que se consideravam “justos”, mas se fechavam ao amor e ao perdão.

O que escandalizava os destinatários das três parábolas, que se consideravam justos e cumpridores exemplares da lei de Deus, não era propriamente a conduta dos pecadores, mas a conduta do próprio Jesus com relação a eles: permitia que os pecadores se aproximassem dele, recebia-os de coração aberto, tomava a iniciativa de ir ao encontro deles e sentava-se com eles à mesma mesa.


2 – O que o texto diz para mim?
O comportamento de Jesus é uma “parábola viva” do comportamento de Deus com os pecadores.

Os escribas e fariseus não podiam suportar que Jesus proclamasse o Deus que acolhe e perdoa incondicionalmente a todos, que tem um carinho especial e um amor de predileção pelos perdidos; um Deus que sai ao encontro dos perdidos e que transborda de alegria quando os encontra.

Esse Deus “novo” anunciado por Jesus era um Deus “desconcertante”, “escandaloso”, totalmente incompatível com o “deus legalista” dos escribas e fariseus. Por isso, a pregação e o comportamento de Jesus eram intoleráveis para eles.

As três parábolas me revelam os sentimentos e as ações do “Abba de Jesus” com relação aos filhos perdidos. Revelam-me um Deus cheio de ternura e de misericórdia que vai ao encontro dos perdidos, libertando-os da exclusão e do isolamento; um Deus que exulta de alegria quando os reencontra e que convida a todos para a festa da comunhão e da alegria pelo seu retorno.

As três parábolas de Lucas me permitem também fazer uma leitura em “chave de interioridade”, ou seja, “o quê está perdido, rejeitado, escondido... dentro de mim”? 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Os entendidos em restauração de obras de arte sabem que não se trata de voltar a pintar de novo a obra em questão. Nem sequer refazê-la, com outras cores, o que parece que está perdido. Um bom restaurador procura limpar com delicadeza e paciência cada detalhe do quadro, com a única pretensão de trazer de novo à luz o mais original da obra. Isto é o que Deus faz em mim, através de sua misericórdia. Me limpa com delicadeza em cada esquina e dobra de meu coração. A misericórdia de Deus atua para que venha à luz o mais original que há em mim. Sou filha de um Deus que é toda bondade e amor. Sou obra de arte restaurada pelo amor ativo de Deus.

Viver a experiência da misericórdia é deixar-me reconstruir por um amor que me oferece a possibilidade de sentir novamente como filha de Deus.

Preciso, como Deus, tomar iniciativa, aprender a me aproximar daquilo que está perdido e desgarrado em mim, sem julgamentos e sem moralismos. Aproximar-me, acolher, abraçar, colocar nos ombros, tudo o que foi rejeitado e excluído, para pacificar minha interioridade. 

Tudo aquilo que considero “perdido” (fragilidades, feridas, traumas, fracassos, crises...) tem algo a me revelar. Nada pode ser rejeitado, tudo deve ser acolhido, pois tudo compõe a minha história de vida. Preciso fazer as pazes com o que foi reprimido e afastado e que continua gerando um mal-estar interior. 

O diálogo com as ovelhas desgarradas, as moedas perdidas e o filho pródigo, significa dirigir a atenção para as áreas reprimidas de minha condição humana e que foram excluídas porque centrar forças em alimentar minhas imagens aureoladas e ideais exagerados, dominados pelo desejo de ser perfeita e infalível (fariseu e mestre da lei). 

Acolher e integrar tudo o que é humano (também o que está afastado dentro de mim) é a condição para a verdadeira experiência de Deus.

O encontro com o que está perdido em meu interior é oportunidade para me lançar por inteira nos braços misericordiosos de Deus. Pois Ele vem ao meu encontro em minhas carências e fraquezas; Ele me procura através de meus fracassos, de minhas feridas, de minhas limitações... Deus serve-se do que está perdido em mim para abraçar-me carinhosamente.

Portanto, o caminho para a integração e alegria interior passa pelo encontro e acolhida de tudo aquilo que foi rejeitado, reprimido e excluído dentro de mim, consumindo muita energia. 

A espiritualidade das parábolas de Lucas me mostra que é exatamente em minhas feridas onde Deus encontra mais facilidade para entrar em minha vida e reconstruir minha identidade verdadeira: filha amada com um “amor em excesso”.

“Lá onde nós fomos feridos, onde nos quebramos, aí nós também nos abrimos para Deus” (H. Nouwen)


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor o que é que Deus deseja me revelar por meio daquilo que está “perdido” em mim? Procurar e buscar o que está “perdido” em minha casa interior significam “buscar e encontrar a Deus” exatamente em minhas paixões, em meus traumas, em minhas feridas, em meus instintos, em minha impotência e fragilidade... 

Viver uma nova espiritualidade significa, então, não buscar “ideais de perfeição”, mas dialogar com a “vida perdida” e que deseja retornar ao lar, espaço do amor misericordioso.

A partir da experiência da misericórdia posso reunir em meu redil, em minha casa, tudo o que se afastou e se perdeu. Daqui poderá brotar nova possibilidade de vida, mais leve e mais humana.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Qual é a ovelha desgarrada do meu interior que é preciso ir atrás dela, acolhê-la e integrá-la ao redil? 

Qual é a moeda que ali se perdeu?

Apresentar a Deus minhas ovelhas e moedas perdidas, para que, na luz da sua misericórdia, tudo adquira novo brilho e nova vida.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 15
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Eterna é a sua misericórdia  (salmo 136) – fx 06
Autor: Frei Luiz Turra
Intérpretes: Edicleia Tonete, Ana Paula Ramalho e Jonas Rodriques
CD: Felizes os misericordiosos
Gravadora: Paulinas Comep



terça-feira, 3 de setembro de 2019

Leitura Orante – 23º DOMINGO TEMPO COMUM, 08 de SETEMBRO de 2019


Leitura Orante – 23º DOMINGO TEMPO COMUM, 08 de SETEMBRO de 2019

DECISÕES VITAIS

“Qualquer um de vós que não renunciar a todas as suas posses 
não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33)


Texto Bíblico: Lucas 14,25-33


1 – O que diz o texto?
O verbo que marca o início do relato evangélico deste domingo não indica seguimento, mas acompanhamento. Seu significado: “viajar com”, “caminhar junto a”, está longe de manifestar adesão ao projeto ou identificação com a pessoa com quem se compartilha a caminhada.

As grandes multidões, às quais o relato de Lucas faz referência, vão se somando, pelo caminho, à marcha dos seguidores de Jesus. Agregam-se ao passo do Galileu, mas não se comprometem com Ele e com a causa do Reino. Por isso, Jesus provoca uma brusca parada e se dirige à multidão.

Suas palavras interpelam cada um dos seus integrantes e pretendem fixar as linhas que distinguem acompanhantes de seguidores. Não basta simplesmente acompanhar Jesus; isso não leva a lugar nenhum.

Chegou o momento de tomar decisões. Segui-lo, aderindo-se a seu projeto, exige dar-lhe completa prioridade. Jesus é bem claro e não fica na superfície; não quer entusiasmos que sejam fogos artificiais.

Ninguém deve sentir-se enganado. Ficam claras as condições que marcam a fronteira entre “ser massa” e formar parte do grupo daqueles (as) que se identificam com Jesus. As três condições expostas (vv. 26-27; v. 23) não deixam lugar a dúvidas e terminam do mesmo modo: “não pode ser meu discípulo”. 

Só no contexto do seguimento de Jesus, podemos entender as exigências que propõe aos que o seguem (preferir-lhe à família, carregar a cruz, renúncia de tudo).

Frente à multidão que “só acompanha”, Jesus apresenta dois casos em forma de duas pequenas parábolas. Embora muito diferentes, apontam para uma mesma direção. Os protagonistas de ambos os exemplos se encontram frente uma ação a realizar. Precisam tomar uma decisão. No primeiro caso, trata-se de construir uma torre; qualquer um dos integrantes da multidão pode ser o ator principal: “qual de vós querendo construir uma torre...” É preciso refletir sobre si mesmo e fazer cálculos das possibilidades que se tem em mãos. No segundo caso, fala-se de uma terceira pessoa, um rei que vai enfrentar uma batalha: “qual é o rei que ao sair para guerrear com outro”...? Trata-se, nesse caso, de atuar com prudência, prevendo acontecimentos hostis que possam surgir a partir de fora. 


2 – O que o texto diz para mim?
No primeiro, ressalta-se a atividade construtiva e pacífica; no segundo, aparece um risco: o movimento destrutivo motivado por uma guerra que surge repentinamente. Ambas as situações parecem concordar com as duas condições antes expostas. Uma, exige dar um passo adiante, seguindo o que fora projetado. Outra pede uma parada estratégica para medir a possibilidade de enfrentar o risco que pressiona. Trata-se de pensar; pensar antes de fazer; e fazer requer discernimento.

Tenho a impressão que o tema central do evangelho deste domingo é tão forte que se torna quase impossível abordá-lo de frente. Por isso, o melhor é pôr em prática o conselho que recebo dele: “sentar-nos para pensar”. Tenho a sensação de que o seguimento de Jesus implica sempre o dinamismo de mover-me, deslocar-me e caminhar; mas, às vezes, o mais aconselhável seja isso: parar um pouco e sentar-me.

A advertência de Jesus revela grande atualidade nestes momentos críticos e decisões que ajudam a dar uma feição original ao seu seguimento. Jesus chama, antes de qualquer coisa, a um discernimento maduro: os dois protagonistas das parábolas “se sentam” para refletir, discernir... Seria uma grave irresponsabilidade viver hoje como discípulos (as) de Jesus que não sabem o que querem, nem para onde pretender ir, nem com que meios poderão contar.

Não se pode dar o passo sem medir as consequências. Requer-se “sentar e pensar” com calma. Porque a condição para formar parte do reinado de Deus implica a ruptura com os impulsos do ego: auto-centramento, apegos, busca dos próprios interesses, busca de projeção e poder...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Os apelos de Jesus são absolutos e constantes. Se estiver apegada ao que tenho, jamais serei capaz de “fazer estrada com Ele” e participar da preciosa vida que Ele me oferece.

Para seguir a Jesus, devo esvaziar-me; para entrar na posse “do todo” tenho de renunciar ao “meu todo”. Os “apegos” imobilizam-me, congelam-me..., impedem-me de crescer.

“Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo”.

Trata-se de uma atitude, uma postura, uma entrega.

E a palavra é “tudo”. Um discípulo, com um “pé atrás”,  não pode ser discípulo. Não servem as entregas pela metade. Jesus não pode se contentar com “amor a prestações”, com retalhos de vida.

A entrega parcial não é entrega. O “apego” a algo ou alguém, que esvazia o seguimento, anula o resto da entrega e torna impossível que minha relação com Jesus cresça, se desenvolva e plenifique minha vida. 

Tenho a experiência de que viver é estar continuamente tomando decisões. Desde o momento em que levanto até à hora de deitar, estou decidindo, algumas vezes sobre questões simples, outras vezes, sobre assuntos de maior envergadura. Sei que minhas decisões vão modelando minha vida e orientando, de uma maneira ou outra, para um fim. Qual é esse fim? 

Como seguidora de Jesus, sou ser em contínuo discernimento: como “cristificar” (prolongar o modo de ser e agir de Jesus) minhas opções, ações, valores, compromissos...?


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor eu sei que é no decidir que a pessoa torna-se pessoa, que o indivíduo torna-se sujeito.

São “significativas” as decisões que imprimem uma direção à sua vida, que a constroem dia após dia; decisões carregadas de vida, abertas à vida, comprometidas com a vida...

São as decisões que fazem a pessoa; formam sua personalidade, definem seu caráter e integram sua vida. A base da pessoa são suas decisões, suas determinações, fazendo com que sua vida tenha a marca da criatividade e da ousadia: construir o caminho de vida, rejeitar alternativas que a atrofiam e avançar na rota, em direção a um fim pleno de sentido.

Decidir é viver, decidir é definir-se; por isso, ao entender e refinar suas próprias maneiras de decidir, a pessoa está entendendo melhor e refinando mais sua vida.

Em outras palavras: “sou o que são as minhas decisões”; e a decisão pelo seguimento de Jesus é aquela que mais me humaniza e potencializa todo meu ser; afinal, sou chamada para “seguir uma Pessoa”, aquela que foi “humana por excelência”.  Por isso, preciso conhecer detalhadamente quais são e como as tomo; quero saber se minhas decisões são realmente minhas ou se são imitação daquilo que os outros fazem, ou submissão ao que os outros me dizem para fazer.

A coragem de decidir com firmeza e clareza é o que distingue o(a) seguidor(a) de Jesus como tal, e lhe dá sua dignidade e personalidade. Não há melhor escola humanizadora do que saber decidir.

Essa é a grande contribuição que a tomada de decisões dá à minha vida: ativar ao máximo meus recursos, fazer valer tudo o que trago dentro de mim, dar vida a todo o meu ser, que é feito para conhecer, querer e decidir. Se evito decisões ou fujo de responsabilidades, condeno-me a viver num canto, encolhida e prostrada. Para desenvolver ao máximo minhas potencialidades, tenho de  enfrentar dilemas, encruzilhadas, perplexidades e responsabilidades. Isto me faz ter acesso à vida plena, mobilizar minhas forças, encontrar a mim mesma, encontrando-me com Aquele que me inspira.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
No encontro com Deus deixar aflorar aquilo que é a base, o sólido, o fundamento, que dá sentido à minha vida.

Construir valores, critérios, opções em minha vida.

A Bíblia fala do equilíbrio entre o olho, ouvido, coração e mão, quando se refere à decisão:

- olho: atenção (ler os sinais, interiores e exteriores);

- ouvido: escutar-auscultar: captar vozes do coração;

- coração: é a decisão com afeto;

- mão: é a ação (realizar na prática, a decisão).

 Fazer memória das minhas decisões diárias: elas são “cristificadas” ou tem a marca do “ego inflado”?

Elas são oblativas, abertas, descentradas..., ou centradas no próprio interesse?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 14,25-33
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Descer no profundo – fx 13
Autor: Pe. Jorge Trevisol
Intérprete: Pe. Jorge Trevisol
CD: Mistério, amor e sentido
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:21