quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Leitura Orante – 21º DOMINGO TEMPO COMUM, 25 de AGOSTO de 2019.


Leitura Orante – 21º DOMINGO TEMPO COMUM, 25 de AGOSTO de 2019.

A PORTA QUE DÁ ACESSO À VIDA

“Esforçai-vos por entrar pela porta estreita” (Lc 13,24)


Texto Bíblico: Lucas 13,22-30


1 – O que diz o texto?
Segundo o relato de Lucas, um desconhecido interrompe o caminho de Jesus e lhe faz uma pergunta, tão frequente naquela sociedade religiosa: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” 

Tal pergunta, no fundo, é uma ofensa ao amor de Deus e, por detrás dela, já percebemos uma falsa imagem d’Ele, como se Deus fosse aquele que põe travas à salvação e não quer que este dom chegue a todos. 

Por isso, Jesus não responde diretamente à pergunta. O importante não é saber quantos se salvarão; não lhe interessa especular sobre este tipo de questões estéreis, mas vai diretamente ao essencial e decisivo: viver com atitude lúcida e responsável para acolher a salvação do Deus que é suma bondade e quer que todos se salvem. Quem está disperso e distraído não está em sintonia com o dom da salvação, perde a oportunidade de acolhê-la e deixar-se inspirar por ela. Por isso, Jesus insiste: “Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita”.

Para entender corretamente o apelo a “entrar pela porta estreita”, é preciso recordar as palavras de Jesus encontradas no evangelho de João: “Eu sou a porta; quem entrar por mim será salvo” (10,9). Entrar pela “porta estreita” é fazer caminho com Jesus, aprender a viver como Ele, revestir-se do modo de ser e de viver d’Ele... O que Jesus pede não é rigorismo legalista, mas amor radical a Deus e aos outros. 

Por isso, seu chamado é fonte de exigência e não de angústia. Jesus é uma porta sempre aberta, para que, ao passar por ela, vivamos em plenitude. Ninguém pode fechá-la; só não conseguimos atravessá-la quando nos fechamos em nosso legalismo e moralismo.


2 – O que o texto diz para mim?
Ao longo da história da espiritualidade cristã esta frase – “esforçai-vos por entrar pela porta estreita” - foi entendida como “sacrifício”, “mortificação”, “renúncia”... Uma leitura mais serena destas palavras, no entanto, me faz ver que não se pode confundir “porta estreita” com “conquista de méritos e recompensas”, inflando um “ego religioso e perfeccionista”.

Não conheço nenhum mestre espiritual que tenha dito que a porta que conduz à Vida seja cômoda ou ampla. Espaçosa e plena é a própria Vida, mas a porta é estreita. A rigor, é tão estreita, que só pode ultrapassá-la quem está disposto a esvaziar sua pequena identidade egóica.

Sei que, um “ego inflado”, compulsivo, cheio de si, obeso... não tem como passar pela “porta estreita”. Para entrar por ela é preciso despojar-se de tudo aquilo que foi sendo acumulado ao longo da vida: posses, honras, consumismo, vaidades, poder, prestígio... “Entrar pela porta estreita” é desapropriação do ego, é desinflar-se, deixar transparecer a verdadeira identidade do próprio ser.

Para fazer o caminho com Jesus não se pode ter excesso de gorduras nas ideias, no coração, nas atitudes... Ser peregrino com Ele supõe leveza, flexibilidade, mobilidade...

As portas do Reino estão sempre abertas; e estão abertas para todos. Mas, muitos “egos” vivem cheios de si mesmos e ocupam todo o espaço da entrada da porta. Eles não entram, porque estão bloqueando a porta, mas também não deixam entrar aqueles que querem passar por ela.

Os “egos inflados” acreditam estar dentro, quando na realidade estão fora; acreditam serem donos da porta; não se atrevem a entrar por medo à verdade e preferem ter um pé dentro e outro fora.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Numa perspectiva psicológica, conheço a imagem da porta nos meus sonhos. Quando sonho com uma porta trancada, isso significa que perdi o contato com meu interior, com meu coração, com minha essência e vivo apenas na exterioridade. 

No evangelho deste domingo, as pessoas que o dono da casa afirma não conhecer, vivem apenas na superfície de si mesmas. Elas não têm uma vida ruim, mas tudo o que fazem acontece apenas no mundo exterior e não tem nenhuma relação com seu coração. Até mesmo sua fé é meramente exterior. Elas vão à Igreja, são rígidas com as leis morais e cumprem com os deveres religiosos. Mas ao fazer isso não entram em contato com seu coração. Elas até se lembram de que seguem Jesus, dizem ter comido e bebido com ele e ter ouvido seu ensinamento. Mas seu coração está fechado. A proposta de vida plena, apresentada por Jesus, não desperta ressonância no “eu profundo” delas.

O dono da casa ao dizer -“não sabe quem é” - simplesmente está afirmando que tais pessoas não se parecem em nada com Ele. 

A dureza destas palavras ressoa como um chamado realista a me despertar para reconhecer-me na Vida. Quem não entra em contato com sua dimensão mais profunda, não participa da vida, aquela revelada pelo “Reino do Pai”. (Afinal, “o Reino de Deus está dentro de vós” Lc 17,21)

Portanto, a parábola deste domingo me convida a fazer a travessia do exterior para o interior, restabelecendo o contato com meu coração. Na verdade, a porta estreita conduz a um horizonte mais amplo; atravessá-la significa alcançar a harmonia comigo mesma e fazer emergir o que é mais nobre em mim: recursos, dons, criatividade... Se me contento em seguir o modo de viver dos outros, não viverei a verdade de mim mesma. Meu processo de humanização só poderá se ampliar se eu encontrar minha porta pessoal e passar por ela.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, indubitavelmente, passar pela “porta estreita” significa uma experiência de “morte” àquilo que não sou para que eu possa viver o que sou. Só assim minha vida, ao atravessar a porta, se expandirá. 

E essa morte não acontece sem dor: ao ego lhe dói morrer a seus apegos, suas gratificações, suas necessidades, suas expectativas; ao ego lhe dói fazer uma “lipoaspiração” de suas gorduras; ao ego lhe dói deixar o que lhe dá uma sensação de segurança. Por isso, quando ele se sente frustrado, começam a aparecer sensações degradáveis e uma série de mecanismos de defesa entra em ação.

Com sua mensagem forte, Jesus me convida a procurar e encontrar a chave para abrir a porta da casa do meu “eu verdadeiro”, a entrar em contato com meu coração, o lugar onde habitam os aspectos benéficos da minha personalidade, as boas tendências, as qualidades positivas, os dons naturais, as riquezas do ser, as beatitudes originais, as aspirações de grande fôlego, as ideias força, os dinamismos da vida... O “tesouro do ser”, ainda que pareça esquecido, permanece armazenado e pode tornar-se a força que orienta toda a vida, um lugar de fecundidade, de criatividade, fonte de renovação...

O símbolo da “porta” não se define em si como um espaço, não é um lugar, mas é o “limite” entre um lugar e outro, é o interstício entre dois espaços, é o que divide dois modos de ser e viver. 

“Passar a porta” significa ir ao encontro do novo, do futuro, do diferente, do “fora do normal”...

O “outro lado” é um espaço não conhecido, é um lugar ainda não explorado. 

Sou “ser de travessia”; é próprio do ser humano ousar, romper, ir além... Para isso é preciso arriscar para viver uma experiência transformadora, aproximando-se do diferente: abrir portas de mundos que desconheço; viver situações às quais não estava acostumada; sentir coisas que nunca havia sentido; conhecer segredos que tornarão mais autêntica minha vida...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A porta estreita que atravesso representa a minha porta pessoal, que precisa encontrar e atravessar, para deixar o rastro da minha própria vida neste mundo. 

A porta espaçosa representa a que todos usam; a porta estreita é a passagem original que Deus preparou para cada ser humano: ela aponta para minha identidade única e é por ela que Deus acessa ao meu interior. 

É nas fendas de meus limites e fragilidades que Deus encontra mais facilidade para entrar em meu coração e não pela porta da perfeição.

A “porta” de a minha vida dar acesso ao novo e diferente.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 13,22-30
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: A lâmpada que ilumina – fx 12
Autor: M. Luiza Ricciardi, Mario Celli, M. Pacífica Greiner
Intérprete: Paulinho Campos, Rita Kfouri 
Coro: Paulinho Campos, Emmanuel, Maria Diniz, Rita Kfouri
CD: O Fascínio das Parábolas do Reino
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:27



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