quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Leitura Orante – 19º DOMINGO TEMPO COMUM, 11 de AGOSTO de 2019


Leitura Orante – 19º DOMINGO TEMPO COMUM, 11 de AGOSTO de 2019

ESPERAS CONSTRUTIVAS

“Sede como homens que estão esperando seu senhor 
voltar de uma festa de casamento...” (Lc 12,36)


Texto Bíblico: Lucas 12,32-48


1 – O que diz o texto?
O texto do evangelho deste domingo faz parte de um amplo contexto, que começou no domingo passado com a petição de alguém a Jesus: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”. A partir daí, Lucas revela uma longa conversação de Jesus com os discípulos e toca diversos temas de difícil harmonização. Naturalmente se trata de pensamentos dispersos que o evangelista organiza à sua maneira para ir aclarando as exigências de Jesus, na formação do seu discipulado.

No domingo passado, Jesus nos pedia para não colocar nossa confiança nas riquezas; hoje, Ele nos diz em quem devemos confiar para que nossa vida seja autêntica. 

Confiadamente, é preciso ativar todos os recursos de nosso ser, conscientes que Deus atua em nosso interior, e que só através da sintonia com essa presença interna nossa vida avança, amadurece e se plenifica. Nosso Deus não é o “Deus todo-poderoso” distante, mas o fundamento de nossa vida: afinal, somos morada do Deus sempre surpreendente.

A condição humana pode ser definida em termos de “espera radical”.

O nosso coração está habitado por “esperas” de todo gênero. São tantas as esperas na vida humana!

Está todo mundo esperando. É através das esperas que nos fazemos humanos.

Somos feitos disso: desejo, súplica, anseio, abertura, busca, esperança...

A espera está ligada ao verbo “esperançar”: espera ativa, aberta ao futuro imprevisível, ao novo plenificante...; ela cria o espaço vital que permite a realização do possível.

Quem espera faz-se disponível, acolhedor, abre espaço para o mistério do outro que lhe vem ao encontro; quem espera, acolhe o diferente. Os intolerantes e preconceituosos não esperam nada: amargam a vida no fechamento, no dogmatismo e no moralismo.

Esperar é passar do “tempo fechado” ao “tempo aberto”, da fugacidade do “ter” à plenitude do “ser”, do “lugar estreito” ao “lugar amplo”, do “medo paralisante” à “coragem criativa”...

Durante a espera, a imaginação trabalha e cria mil momentos insuperavelmente felizes.

E quando acontece o encontro entre o desejo e a realização, entre a espera e o esperado, entre o vazio e aquilo que plenifica, explode uma alegria incontida. Uma mistura de festa com ternura e boas emoções   solidificam esta certeza: valeu a pena esperar!



2 – O que o texto diz para mim?
A vida que é feita de tantas esperas, também é “esperada”. Sou continuamente tentada a pensar que somente eu espero e esquecer que também Deus me espera. A espera divina é paciente, compreensiva e compassiva.

Em minhas esperas, sou ansiosa e impaciente; faço da espera um tempo “em branco”, vivendo como se nada estivesse para acontecer, mergulhada no tempo rotineiro, sem abertura à surpresa. 

Não seis esperar: basta ir às salas de esperas dos hospitais e consultórios para comprovar como as pessoas se desesperam porque não lhe atendem à hora marcada. 

Perco a paciência porque pretendo que tudo seja imediato e a meu gosto. Não suporto uma contradição.

O evangelho deste domingo pode ser uma boa oportunidade para recordar isto. Exercitar-se na arte de esperar com paciência. Desejar, dar asas à imaginação sobre aquele que vai chegar, sem que esteja em minha mão adiantar ou controlar sua chegada.

Deus, pelo contrário, me espera incansavelmente. Por isso se “humanizou”. Não me esperou com prepotência, tampouco com soberba. Esperou na humildade, no húmus da vida, afundando os pés na minha existência.

Mas Deus não precisa vir de nenhuma parte. Ele está chamando sempre, mas a partir de dentro de cada ser humano; é a partir de dentro que Ele se faz visível em minhas relações com os outros.

Sou eu que projeto Deus fora e distante de mim, que me ameaça com prêmios e castigos, que aparece de surpresa para me pegar em flagra. O medo de Deus brota quando o imagino fora de mim. “Deus de fora” é o Deus idealizado, que alimenta medo, ameaça com inferno, que castiga.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
No evangelho deste domingo, Jesus revela “Deus em saída” até o ser humano e desvela o ser humano em saída até Deus. E o encontro entre ambos é o que o Evangelho propõe. O encontro de pessoas que se esperavam: como nos aeroportos, rodoviárias, desejando a chegada do(a) amigo(a); ou nas salas de urgências dos hospitais desejando saber a situação do enfermo familiar.

Essas são esperas autênticas: desejantes, emocionantes, inocentes... porque esperam uma pessoa.

Essa deve ser a disposição de uma “Igreja em saída” e que não aguarda em uma sala de espera.

O decisivo é entrar em sintonia com o Deus presente em mim; “esperar” significa estar desperto para conectar-me com essa presença, sempre nova e sempre cheia de surpresa. Deus, ao mesmo tempo, está sempre presente e sempre chegando de maneira surpreendente. Ele é dom e pura gratuidade. Aqui não há mais lugar para o medo, a culpa, a angústia. Quem entra em sintonia com Ele e se deixa conduzir por Ele não atua por mérito, mas por pura gratuidade.

O evangelho de hoje, através de parábolas, me apresenta alguém que não vive a relação com Deus internamente. O que acontece com ele? As consequências são funestas, provocadas não por Deus, mas pela pessoa mesma: irresponsabilidade no serviço, violência com os outros, auto-agressão, partindo-se ao meio... Uma experiência infernal.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, um cristão é uma pessoa que vive em “estado de espera”.

O importante é isto, o “estado”, o processo, a continuidade, o estar sempre a tempo, sempre alerta, sempre preparado. A vida inteira se converte numa contínua espera: o equilíbrio, o contato, a liberdade, a generosidade, cada nervo sintonizado, cada músculo em forma. E assim entro na vida e enfrento mil situações.

Cada pequeno encontro é uma satisfação em si mesma e uma preparação para a seguinte. Sempre avante. Avanço que pode ser mudado de direção a cada instante. 

“Não morras na sala de espera” (Hervey Cox). As “salas de espera do espírito” estão cheias de pessoas que simplesmente estão ali, ali moram e permanecem, ali vivem e morrem. O fato de já estar na “sala de espera” lhes dá a impressão de que já fizeram alguma coisa, já começaram a viagem.

As esperas têm rosto de criatividade, de itinerância, de abertura ao diferente. Elas põem em ação meus melhores recursos internos; elas alimentam uma contínua atitude de busca.

Só assim o coração estará mais preparado para a chegada do Momento cume, quando deixarei “Deus ser Deus” na minha morada interior. 



5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Sou um impaciente? Não suporta esperar a fila no cinema? Fico nervosa quando o ônibus atrasa mais de cinco minutos? Espero que me respondam as mensagens de Whatsapp em questão de segundos? Ou quando alguém chega um pouco atrasado no encontro marcado?... 

E, no entanto, eu sei que o importante requer seu tempo, que os bons pratos são cozidos a fogo lento. 

A paciência não é uma palavra da moda hoje em dia. E talvez por isso é das mais necessárias. A paciência supõe esperar e respeitar os tempos. Supõe desejar a chegada do outro e não ter mais que fazer a não ser esperar. Desejar e esperar.

Viver bem as minhas “esperas cotidianas


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 12,32-48
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: O tesouro e a pérola – Fx 03
Autor: Frei Luiz Turra
Intérprete: Maria Diniz
CD: O Fascínio das Parábolas
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:02


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