terça-feira, 23 de julho de 2019

Leitura Orante – 17º DOMINGO TEMPO COMUM, 28 de JULHO de 2019


Leitura Orante – 17º DOMINGO TEMPO COMUM, 28 de JULHO de 2019.

JESUS ORANTE NOS ENSINA A ORAR

“Jesus se encontrava orando em certo lugar” (Lc 11,1)

Texto Bíblico: Lucas 11,1-13


1 – O que diz o texto?
Nos Evangelhos encontramos várias passagens nas quais Jesus é apresentado orando no silêncio da noite, em profunda e prolongada comunhão com o Pai. Em geral, a oração solitária de Jesus precede ou segue a algum acontecimento muito importante.

A sua solidão não é vazia; está habitada pela intimidade com o Pai, pelo sonho do Reino, pelos rostos dos prediletos do Reino: os pecadores, os pobres, os doentes, os oprimidos...

Quando Jesus parece estar mais afastado deles é quando na realidade está em mais profunda comunhão com eles; quando aparentemente está mais solitário é quando Ele se revela mais solidário.

Por isso, toda forma de oração, toda forma de relacionamento com Deus que não leva ao serviço concreto do Projeto do Pai, não é a oração do discípulo de Jesus, é uma oração alienada.

Uma oração que não se traduz em compromisso com a justiça do Reino, que não se traduz em serviço aos mais necessitados, não é de fato dirigida ao Deus de Jesus.

Para Jesus, a oração não só fazia parte da vida: ela era a sua vida. Em cada instante, vivia em profunda sintonia na presença de Deus, seu Pai. Jesus não esconde nada ao Pai. As suas alegrias e dores, as suas esperanças e as suas noites foram sempre partilhadas com o Pai.

Na experiência de Jesus, Deus é “Aquele que está aí como um Pai” que cuida de seus filhos e filhas, que tem um coração sensível aos nossos sofrimentos, que seu olhar repousa sobre nossos problemas e seu ouvido é atento aos nossos clamores.

Jesus, o artista da madeira, soube “tornear” hábeis palavras para expressar essa profunda intimidade entre o ser humano e Deus. É isso que encontramos na oração do “Pai-Nosso”, que o evangelho deste domingo nos apresenta na versão de Lucas.


2 – O que o texto diz para mim?
O novo está justamente no modo como as pessoas devem se relacionar com Deus: “Quando orardes, dizei: Pai!” É uma relação nova e inédita. Os(as) seguidores(as) de Jesus não são somente amigos(as), são filhos(as) de Deus, que é Pai.

A principal oração cristã não se reduz a um conjunto de pedidos, mas é a expressão de uma relação confiante e filial. Essa é a originalidade de Jesus. O apelo direto ao Pai não é comum na tradição judaica. 

Jamais palavras simples tiveram tanta profundidade. Jamais um texto tão pequeno foi tão revolucionário.

Com efeito, a oração do Pai-Nosso é a mais clara e mais expressiva síntese que tenho da mensagem de Jesus. Ela não é uma fórmula a ser decorada, mas um projeto de vida cujas atitudes levam a uma assimilação progressiva da filiação e da fraternidade.

Com o discípulo Filipe, eu também posso dizer: “Senhor, mostra-me o Pai, isso me basta” (Jo 14,8).

É significativo que, no espaço de uma prece tão sóbria como é o Pai-Nosso, Jesus deseja reconduzir o coração orante à sua essência: o próprio Pai. O ser humano é alvo do amor carinhoso de Deus-Pai, cujo nome ele conhece e guarda no coração. Posso dizer que o objetivo da oração é colocar-me no Pai, inscrever-me no seu coração: “eu sou no Pai, existo no Pai”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A oração cristã é aquela que se desenvolve seguindo os passos de Jesus e, aí, orar é viver, com todas as minhas forças, com todo o meu afeto e com toda a minha realidade, na presença de Deus. Nesse sentido, a oração não pode ser um compartimento do dia, um pequeno nicho que preencho com pensamentos e fórmulas piedosas.

Clamar “Abba, Pai” significa ser e estar diante d’Aquele que me convida a um diálogo sem censuras, de sentir-me envolvida por inteira e continuamente por uma presença providente, com uma atenção vigilante. Não se trata de oferecer a Deus alguns pensamentos, mas colocar em suas mãos toda a minha vida, tudo o que sou e experimento.

Tal oração pede uma conversão de atitude, porque a verdadeira oração cristã descentra-me de mim mesma e orienta-me para Deus, de modo que tudo o que passo a desejar é a vontade de Deus, o dom do seu amor compassivo.

Ao rezar o Pai-Nosso, vou percebendo que Jesus transforma todas as minhas questões em desejos e meus desejos em oração. Tudo está dito aí, mas tudo resta a viver. É agora que começa o movimento da vida, não apenas a prece, mas a encarnação da prece; não apenas o desejo, mas a realização dos grandes desejos. E realizar todos os desejos que o Pai-Nosso exprime é me tornar aquilo que sou chamada a ser, é me tornar realmente humana e realmente divino.

O “Abba” de Jesus não é um Deus insensível e impassível, mas um Pai solidário, que quebra distâncias e se faz íntimo dos seus filhos e filhas. Não é um Deus que imprime culpa e controla comportamentos, mas um pai apaixonado que deseja ardentemente ser conhecido e criar vínculos de amor.

Aos cuidados deste Deus-Pai o ser humano pode confiar, sentir-se filho. “Abba” significa, portanto, “Deus-está-em-nosso-meio”, encontra-se junto aos seus, com misericórdia, bondade, ternura.

Nessa oração, nenhum miserável foi excluído, nenhum errante foi rejeitado, nem sacrifício foi pedido, nenhum dogma proclamado, nenhuma lei estabelecida. Ela é pura visibilização do Amor. E basta!


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Ao dizer “Abba”, Jesus dirigia-se a Deus como uma criança a seu pai, com a mesma simplicidade íntima, o mesmo abandono confiante. Esta expressão revela, ao mesmo tempo, o segredo da relação íntima de Jesus com o Pai e a manifestação perfeita do mistério de sua missão.

A expressão “Abba” é a prece da criancinha que balbucia tentando dizer a palavra “pai”, a prece não articulada que ainda pertence ao silêncio, ao Inefável.

É a primeira expressão do desejo do outro, quando o outro é chamado através do seu balbuciar.

É a primeira expressão de confiança do bebê em relação ao seu pai ou à sua mãe.

O “Pai-Nosso” é este balbuciar interior, que se volta para o Infinito, para o Absoluto, e que nenhuma palavra pode expressar. É uma palavra anterior à palavra “pai” e à palavra “mãe”. 

É o desejo que vem da criança e que se reconhece no olhar do pai ou da mãe como um ser amado, porque uma relação particular foi estabelecida.

Na expressão “Abba” há simplicidade demais, espontaneidade demais e muita inocência. Estas qualidades de coração e de inocência são necessárias que eu a encontre quando recito o Pai-Nosso.

O mais importante é estar à escuta desse desejo profundo e silencioso da “criança divina” que habita dentro de mim. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Na oração: deter-me na contemplação desta dupla dimensão do ministério de Jesus, que revela o mais profundo da sua vida: a oração e a ação, a solidão e a solidariedade, a intimidade mais profunda com o Pai e o engajamento mais radical no serviço aos necessitados. Em Jesus, estas duas dimensões são vividas não só como complementares, mas como necessariamente referidas uma à outra. 

Pedir a Jesus que Ele me ensine a orar ao Pai como Ele orava; penetrar um pouco na intimidade da oração d’Ele. Na minha oração posso me apropriar de algumas orações ou palavras de Jesus que aflorarem espontaneamente à minha memória e convertê-las em minha própria oração, fazendo com que elas saiam do meu coração.

Posso também rezar a partir do coração de Jesus a oração que Ele me ensinou, e que Ele mesmo rezou melhor que ninguém: “Abba, Pai!”.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 11,1-13
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Pai Nosso
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
Coro: Sonia Mara, Beto, Betinho
CD: Cantiga de pão e vinho
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:09


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