terça-feira, 23 de julho de 2019

Leitura Orante – 17º DOMINGO TEMPO COMUM, 28 de JULHO de 2019


Leitura Orante – 17º DOMINGO TEMPO COMUM, 28 de JULHO de 2019.

JESUS ORANTE NOS ENSINA A ORAR

“Jesus se encontrava orando em certo lugar” (Lc 11,1)

Texto Bíblico: Lucas 11,1-13


1 – O que diz o texto?
Nos Evangelhos encontramos várias passagens nas quais Jesus é apresentado orando no silêncio da noite, em profunda e prolongada comunhão com o Pai. Em geral, a oração solitária de Jesus precede ou segue a algum acontecimento muito importante.

A sua solidão não é vazia; está habitada pela intimidade com o Pai, pelo sonho do Reino, pelos rostos dos prediletos do Reino: os pecadores, os pobres, os doentes, os oprimidos...

Quando Jesus parece estar mais afastado deles é quando na realidade está em mais profunda comunhão com eles; quando aparentemente está mais solitário é quando Ele se revela mais solidário.

Por isso, toda forma de oração, toda forma de relacionamento com Deus que não leva ao serviço concreto do Projeto do Pai, não é a oração do discípulo de Jesus, é uma oração alienada.

Uma oração que não se traduz em compromisso com a justiça do Reino, que não se traduz em serviço aos mais necessitados, não é de fato dirigida ao Deus de Jesus.

Para Jesus, a oração não só fazia parte da vida: ela era a sua vida. Em cada instante, vivia em profunda sintonia na presença de Deus, seu Pai. Jesus não esconde nada ao Pai. As suas alegrias e dores, as suas esperanças e as suas noites foram sempre partilhadas com o Pai.

Na experiência de Jesus, Deus é “Aquele que está aí como um Pai” que cuida de seus filhos e filhas, que tem um coração sensível aos nossos sofrimentos, que seu olhar repousa sobre nossos problemas e seu ouvido é atento aos nossos clamores.

Jesus, o artista da madeira, soube “tornear” hábeis palavras para expressar essa profunda intimidade entre o ser humano e Deus. É isso que encontramos na oração do “Pai-Nosso”, que o evangelho deste domingo nos apresenta na versão de Lucas.


2 – O que o texto diz para mim?
O novo está justamente no modo como as pessoas devem se relacionar com Deus: “Quando orardes, dizei: Pai!” É uma relação nova e inédita. Os(as) seguidores(as) de Jesus não são somente amigos(as), são filhos(as) de Deus, que é Pai.

A principal oração cristã não se reduz a um conjunto de pedidos, mas é a expressão de uma relação confiante e filial. Essa é a originalidade de Jesus. O apelo direto ao Pai não é comum na tradição judaica. 

Jamais palavras simples tiveram tanta profundidade. Jamais um texto tão pequeno foi tão revolucionário.

Com efeito, a oração do Pai-Nosso é a mais clara e mais expressiva síntese que tenho da mensagem de Jesus. Ela não é uma fórmula a ser decorada, mas um projeto de vida cujas atitudes levam a uma assimilação progressiva da filiação e da fraternidade.

Com o discípulo Filipe, eu também posso dizer: “Senhor, mostra-me o Pai, isso me basta” (Jo 14,8).

É significativo que, no espaço de uma prece tão sóbria como é o Pai-Nosso, Jesus deseja reconduzir o coração orante à sua essência: o próprio Pai. O ser humano é alvo do amor carinhoso de Deus-Pai, cujo nome ele conhece e guarda no coração. Posso dizer que o objetivo da oração é colocar-me no Pai, inscrever-me no seu coração: “eu sou no Pai, existo no Pai”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A oração cristã é aquela que se desenvolve seguindo os passos de Jesus e, aí, orar é viver, com todas as minhas forças, com todo o meu afeto e com toda a minha realidade, na presença de Deus. Nesse sentido, a oração não pode ser um compartimento do dia, um pequeno nicho que preencho com pensamentos e fórmulas piedosas.

Clamar “Abba, Pai” significa ser e estar diante d’Aquele que me convida a um diálogo sem censuras, de sentir-me envolvida por inteira e continuamente por uma presença providente, com uma atenção vigilante. Não se trata de oferecer a Deus alguns pensamentos, mas colocar em suas mãos toda a minha vida, tudo o que sou e experimento.

Tal oração pede uma conversão de atitude, porque a verdadeira oração cristã descentra-me de mim mesma e orienta-me para Deus, de modo que tudo o que passo a desejar é a vontade de Deus, o dom do seu amor compassivo.

Ao rezar o Pai-Nosso, vou percebendo que Jesus transforma todas as minhas questões em desejos e meus desejos em oração. Tudo está dito aí, mas tudo resta a viver. É agora que começa o movimento da vida, não apenas a prece, mas a encarnação da prece; não apenas o desejo, mas a realização dos grandes desejos. E realizar todos os desejos que o Pai-Nosso exprime é me tornar aquilo que sou chamada a ser, é me tornar realmente humana e realmente divino.

O “Abba” de Jesus não é um Deus insensível e impassível, mas um Pai solidário, que quebra distâncias e se faz íntimo dos seus filhos e filhas. Não é um Deus que imprime culpa e controla comportamentos, mas um pai apaixonado que deseja ardentemente ser conhecido e criar vínculos de amor.

Aos cuidados deste Deus-Pai o ser humano pode confiar, sentir-se filho. “Abba” significa, portanto, “Deus-está-em-nosso-meio”, encontra-se junto aos seus, com misericórdia, bondade, ternura.

Nessa oração, nenhum miserável foi excluído, nenhum errante foi rejeitado, nem sacrifício foi pedido, nenhum dogma proclamado, nenhuma lei estabelecida. Ela é pura visibilização do Amor. E basta!


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Ao dizer “Abba”, Jesus dirigia-se a Deus como uma criança a seu pai, com a mesma simplicidade íntima, o mesmo abandono confiante. Esta expressão revela, ao mesmo tempo, o segredo da relação íntima de Jesus com o Pai e a manifestação perfeita do mistério de sua missão.

A expressão “Abba” é a prece da criancinha que balbucia tentando dizer a palavra “pai”, a prece não articulada que ainda pertence ao silêncio, ao Inefável.

É a primeira expressão do desejo do outro, quando o outro é chamado através do seu balbuciar.

É a primeira expressão de confiança do bebê em relação ao seu pai ou à sua mãe.

O “Pai-Nosso” é este balbuciar interior, que se volta para o Infinito, para o Absoluto, e que nenhuma palavra pode expressar. É uma palavra anterior à palavra “pai” e à palavra “mãe”. 

É o desejo que vem da criança e que se reconhece no olhar do pai ou da mãe como um ser amado, porque uma relação particular foi estabelecida.

Na expressão “Abba” há simplicidade demais, espontaneidade demais e muita inocência. Estas qualidades de coração e de inocência são necessárias que eu a encontre quando recito o Pai-Nosso.

O mais importante é estar à escuta desse desejo profundo e silencioso da “criança divina” que habita dentro de mim. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Na oração: deter-me na contemplação desta dupla dimensão do ministério de Jesus, que revela o mais profundo da sua vida: a oração e a ação, a solidão e a solidariedade, a intimidade mais profunda com o Pai e o engajamento mais radical no serviço aos necessitados. Em Jesus, estas duas dimensões são vividas não só como complementares, mas como necessariamente referidas uma à outra. 

Pedir a Jesus que Ele me ensine a orar ao Pai como Ele orava; penetrar um pouco na intimidade da oração d’Ele. Na minha oração posso me apropriar de algumas orações ou palavras de Jesus que aflorarem espontaneamente à minha memória e convertê-las em minha própria oração, fazendo com que elas saiam do meu coração.

Posso também rezar a partir do coração de Jesus a oração que Ele me ensinou, e que Ele mesmo rezou melhor que ninguém: “Abba, Pai!”.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 11,1-13
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Pai Nosso
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
Coro: Sonia Mara, Beto, Betinho
CD: Cantiga de pão e vinho
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:09


quarta-feira, 17 de julho de 2019

Leitura Orante – 16º DOMINGO TEMPO COMUM, 21 de JULHO de 2019.


Leitura Orante – 16º DOMINGO TEMPO COMUM, 21 de JULHO de 2019.

TRABALHO CONTEMPLATIVO

“Maria, que,  sentada aos pés do Senhor, ouvia sua  palavra” (Lc 10,39)


Texto Bíblico: Lucas 10,38-42


1 – O que diz o texto?
Neste domingo, a liturgia nos desloca até Betânia, a viver Betânia, a ser Betânia, lugar de acolhida e hospitalidade; ali somos convidados a entrar em casa de Marta e Maria, junto com Jesus, para deixar-nos impactar por tudo o que acontece nesse ambiente tão familiar e humano.  

Betania, “casa do pão”, simboliza um lugar de nutrientes, de alimento em sentido amplo: afeto, distensão, sensibilidade, cuidados, atenção, presença e ternura.

Para Jesus, Betânia é um lugar de intimidade e de descobertas; busca acolhida na casa das duas irmãs, nesse anseio tão humano de companhia, hospitalidade e contato. É frente às suas amigas de Betânia que Jesus deixa transparecer, de um modo mais explícito, a dimensão feminina de sua vida.

Quando Jesus passa e se permite o encontro, as pessoas são transformadas. Ao hospedar-se na casa de Marta e Maria surge a novidade: uma mulher senta-se aos pés do mestre em horário dos trabalhos domésticos. As palavras de Jesus embelezam o coração mediante os ouvidos atentos de Maria. Ela bebe do poço profundo do “novo” ensinamento. A Jesus também não lhe interessa outra coisa que não seja formar mais uma discípula.

Se quisermos compreender mais profundamente o verdadeiro sentido do texto deste domingo, não devemos esquecer o contexto do evangelho de Lucas. Situado dentro da viagem a Jerusalém, este relato procura revelar o perfil daqueles(as) que querem seguir Jesus. Durante essa subida, Ele vai formando os(as) seus(suas) discípulos(as).

Lucas é o único que relata este episódio em Betânia e não é casualidade que, uma vez mais, se sinta interessado em destacar a importância das mulheres na vida pública de Jesus. 

Não tem nenhum sentido extrair deste relato uma distinção ou uma oposição entre a vida contemplativa e a vida ativa; tampouco deixa transparecer a pretendida superioridade de uma sobre outra.

Não é correto interpretar este evangelho como proclamação de dois tipos de cristãos: uns que se dedicam à vida ativa e outros à contemplativa.


2 – O que o texto diz para mim?
À luz deste relato, abre-se uma nova perspectiva para a mulher. Maria, é acolhida por Jesus como interlocutora privilegiada. Talvez seja o relato mais subversivo do evangelho. “Sentada aos pés de Jesus, escutava sua palavra”. Maria está ali como discípula. A parte essencial, que não lhe será tirada, é a marca dessa experiência aos pés de Jesus. 

Isto desloca toda uma concepção machista da época que não permitia às mulheres serem discípulas de um mestre. Mas, para Jesus, a mulher também precisa desenvolver sua interioridade, precisa ativar seus recursos internos para o seu enriquecimento como pessoa humana. Quando se elimina a gratuidade do encontro e da acolhida, a vida pode perder seu sabor e seu sentido.

Na atitude de Maria, Jesus convida todas as mulheres a desenvolver seus valores espirituais; Maria, por sua vez, oferece a ocasião para Jesus desvelar tudo isso.

Poderia dizer que esta imagem caseira do encontro amistoso entre Jesus e as irmãs revela uma atitude sensata na vida, de acordo com a tradição sapiencial: “Tudo tem seu momento, e cada coisa seu tempo” (Ecle 3,1). Jesus não censura Marta por trabalhar; o que Ele censura é a sua inquietação, a sua preocupação, o fato de andar agitada no seu “tarefismo”, “com um olhar atravessado” para sua irmã, a quem se queixa e clama uma intervenção de Jesus.

Jesus chamará Marta por duas vezes, como Moisés foi chamado por Deus diante da sarça ardente, porque o lugar que ela pisa, sua própria casa, é sagrado e há nela um fogo que não se consome. Ele a chama para que não se identifique com sua função, nem com seus afazeres, mas que vá progredindo em direção ao seu “eu profundo”, que saia da dinâmica das comparações e se atreva a ser “Marta completa”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O que Jesus censura em Marta é, sobretudo, o seu estrabismo. Dois olhos que olham, cada um para uma direção diferente. No entanto, “uma única coisa é necessária”. Com efeito, Marta tenta olhar, ao mesmo tempo, para Jesus e para a irmã; dessa forma, não consegue enxergar o único Bem-Amado. 

Compara-se com a irmã, está possuída pelo que os antigos chamavam o “demônio da comparação”.

Trata-se de uma tendência, presente em todos nós, de nos comparar, nos avaliar, viver incessantemente equiparando-nos aos outros. Esse “demônio” é sempre atual e acaba por envenenar múltiplas relações.

Quando comparo, passo ao largo do único necessário. A comparação faz com que eu não perceba “a única coisa necessária”. A “melhor parte” não é somente a contemplação, é não ver Jesus. A melhor parte é olhar em direção a Ele, é ter o desejo orientado para o Senhor.

E se meu desejo é orientado para o Senhor, eu posso ter momentos de contemplação e momentos de ação.  Não são momentos opostos. A não dualidade entre ação e contemplação, trabalho e repouso, encontra-se nessa unificação ou nesse despertar do olhar em direção ao Único.

A qualidade da ação e da contemplação depende da orientação do coração e da inteligência em direção Àquele que mantém unidas todas as coisas.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a cena de Betânia me está dizendo: que eu sou, ao mesmo tempo, Marta e Maria. Sentindo-me, com frequência, ansiosa, angustiada, dispersa e tentada a fazer da eficácia minha principal preocupação. Mas, vivo também a experiência do sossego e da unificação, que me faz ordenar minhas prioridades e viver centrada no essencial. E, uma vez mais, sou convidada a saborear a Palavra que, no mais profundo de mim mesma, se converte em uma fonte de assombro e de prazer e me reenvia a um serviço mais generoso e mais livre.

Marta representa um lado meu que calcula, que mede e que compara. É preciso reencontrar Marta em união com Maria. Não é nada fácil manter o equilíbrio, integrando-as. Marta e Maria são como os dois olhos de um olhar, ou as duas faces do mesmo rosto. Os dois olhando em direção ao Único. Significa unir em mim, Marta e Maria, a contemplação e a ação, o silêncio e a palavra.

A “melhor parte” está por todo lado: é o Senhor que deve ser acolhido em minha ação e em minha contemplação, no trabalho e no descanso.

Ser humano é ser capaz de ação e ser capaz de contemplação. Mas o único necessário nesta ação ou nesta contemplação, no trabalho ou no repouso, é amar o Senhor.

Em cada momento devo buscar alcançar meu “eu profundo” – exatamente onde jorra a vida – e formar uma só coisa com essa Vida que atua incessantemente no meu interior. Estar centrada na Fonte: eis a melhor parte.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Entrar em minha “Betânia interior”: verificar se ela é lugar de integração, unidade e pacificação. 

“Betânia interior” se projeta na “Betânia exterior”: pedir a Deus a graça de poder transformar a minha casa em nova Betânia: casa da acolhida, da amizade, da partilha solidária, da convivência sadia...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 10,38-42
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Ele está em você – fx 09
Autor: Padre Ezequiel Dal Pozzo
Intérprete: Padre Ezequiel Dal Pozzo
CD: Quando encontrei – Padre Ezequiel Dal Pozzo
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:28



segunda-feira, 8 de julho de 2019

Leitura Orante – 15º DOMINGO TEMPO COMUM, 14 de JULHO de 2019


Leitura Orante – 15º DOMINGO TEMPO COMUM, 14 de JULHO de 2019.

SOLIDARIEDADE: o amor como êxodo compassivo

“Na tua opinião, 
qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes” (Lc 10,36)


Texto Bíblico: Lucas 10,25-37


1 – O que diz o texto?
Em todo ser humano sempre há reservas e redutos de bondade e compaixão, adormecidas muitas vezes, mas que podem ser ativadas diante do sofrimento dos outros. Nas pessoas sofredoras, nos crucificados da história, nos excluídos da dignidade, há algo que atrai e convoca, que nos inquieta, que nos pode fazer sair de nós mesmos; aí está a origem da solidariedade. Junto ao sentimento ético de fazer algo, aparece o mais profundo e decisivo: o sentimento de proximidade com as vítimas deste mundo.

A parábola do Bom Samaritano é uma parábola sem palavras e com muita vida: há silêncios que dão significado aos gestos oferecidos ou negados, à decisão de acudir ou fechar os olhos frente ao homem ferido. Os gestos falam da força do amor que vai mais além de todos os credos e culturas, transformando o outro estranho em próximo.

No evangelho deste domingo, diante da pergunta do especialista em leis - “quem é o meu próximo?” -, Jesus responde, invertendo e reformulando a pergunta: “quem se torna próximo?”.

Contudo, dentro da pergunta do “quem se torna próximo?”, Jesus responde à pergunta de “quem é o meu próximo?”: uma pessoa “qualquer”, sem nome, que passa ao nosso lado e que, independentemente de qualquer ligação de afinidade ou de pertença, cai em desgraça e clama por auxílio.

A “proximidade” se define pela “travessia” em direção à margem do sofrimento e da exclusão.


2 – O que o texto diz para mim?
Todo ser humano, dotado de “valor” e de “riquezas pessoais”, é também, em sua essência, um ser fraco e necessitado que, como criança recém-nascida, é carente de proteção e ternura.

O infeliz da parábola lucana é o paradigma do ser humano que, em sua realidade constitutiva e mais profunda, é ser de necessidade que grita e espera auxílio. Ele é o representante da alteridade nua e radical, onde o outro se ergue diante do eu não mais como “corpo em forma” mas “ferido” que, em sua carência, questiona o meu eu, impelindo-me para o êxodo da responsabilidade.

A parábola do samaritano revela um sentido ainda mais profundo: do silêncio do corpo daquele infeliz  de quem não se sabe o nome, não se vê o seu rosto e nem sequer se diz que pediu ajuda - levanta-se uma “voz” que, em sua dramaticidade, interrompe o caminho dos passantes e os convoca à responsabilidade urgente; responder positivamente àquele grito, assumindo-o na compaixão, ou então se negar a isso, permanecendo agarrado ao próprio eu – eis a questão.

O sacerdote e o levita viram bem e entenderam o que tinha acontecido, através de um olhar de banda, carregado de suspeita, receio e desconfiança. Seguramente se perguntaram: “Que pode acontecer comigo se me aproximo dele e o ajudo?” Seu comportamento teria sido certamente diferente se se perguntassem: “Quê pode acontecer a este homem, se me aproximo dele e o ajudo?”

O pecado deles é o da omissão: não fazem nada, nem mau nem bom. São piedosos, mas insensíveis; praticam o culto e a liturgia, mas não adoram a Deus em espírito e verdade; enganam-se pensando que se chega a Deus pelo caminho vertical, e não por um caminho estreito e horizontal por onde se encontram as pessoas mais vulneráveis e necessitadas; amam a Deus só de palavras e de boca, e não com obras e segundo a verdade; não se dão conta que só no amor ao próximo é que se revela o amor a Deus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Viram” o ferido, porém, não se deixaram afetar. O amor a Deus foi incapaz de se expressar como amor ao próximo. Julgavam-se estar muito unidos a Deus mas, na verdade, estavam muito distantes do irmão sofredor. A desconectou-se da ética.

Além disso, o “legalismo” falou mais forte que a lei da vida no coração dos dois responsáveis pela religião. Invocando a lei da pureza ritual (proibia o contato com cadáveres), sentiram-se dispensados de acudir o outro necessitado. A obediência ritual superou o apelo moral.

Mais contrastante foi a atitude do samaritano: “chegou perto, viu e sentiu compaixão”.

É a dinâmica da misericórdia! Tudo começa com o “aproximar-se”. É impossível ser afetado pelo outro sem proximidade. Enquanto o sacerdote e o levita se desviaram do homem caído no chão, o samaritano “achegou-se”. A proximidade física permitiu-o “vê-lo” de fato.

O “ver” do samaritano vem depois de chegar junto ao ferido; aproximar-se é o primeiro passo; se alguém não se aproxima não pode ver, e a originalidade e qualidade desta visão é o despertador da própria consciência e é aquela que dá passagem à ação solidária. O samaritano também conhecia as leis sobre a impureza legal, mas optou pelo mandamento do amor.

Portanto, o “ver” do sacerdote e do levita foram qualitativamente distintos do “ver” do samaritano.

A qualidade deste olhar provém da “compaixão”.

A experiência cristã se constitui como uma “mística de olhos abertos” (J.B. Metz), que, tal como um colírio, dilata as pupilas dos olhos para captar o horror tremendo do inferno da pobreza e da exclusão.

A espiritualidade cristã me ajuda a transitar pelos cenários humanos com os olhos abertos, e me oferece uma nova fonte de conhecimento que brota da indignação diante de tanto sofrimento inocente e injusto que me fere.

Olhar-me com os olhos do outro que me visita supõe uma autêntica revolução interior. O olhar do outro me arranca do “ensimesmamento” que me cega e desmascara a enfermidade raiz de minha cultura atual:  a indiferença e a cínica apatia diante da dor dos pobres e marginalizados.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, é aqui que a parábola do samaritano desvela seu significado último e perturbador: o “outro” é o lugar originário no qual Deus me fala e me encontra, convocando-me para a responsabilidade e solidariedade.

Por ser presença de uma linguagem, o corpo é o outro em seu ser de necessidade, a alteridade em sua dignidade que me desperta de meu isolamento e dos meus projetos intimistas.

“Onde está Deus?” Não está entre os conhecedores de Sua identidade, não está nas instituições que o representam, mas está lá, onde ninguém o espera: quem não é “nada” O hospeda e O aponta.

Jesus deslocou Deus, transferindo seu habitat do templo para o corpo daquele que está à “beira da estrada”. O excluído é doravante, a revelação da Sua presença.

O motivo pelo qual o lugar de onde Deus fala é o excluído da vida é porque é desse lugar que Ele convoca o eu para “fazer estrada”, viver o êxodo permanente, gerando-me continuamente para a responsabilidade como pura gratuidade e generosidade. Libertando-me do auto-aprisionamento, o eu tem acesso a uma nova proximidade carregada de compaixão. 

O “próximo” é todo homem e toda mulher através de quem o amor de Deus encontra o meu “eu”, chamando-me para sair de sua terra e caminhar em direção ao outro. É o rosto que derruba o “eu” de seu pedestal e de seus preconceitos e o convoca à bondade, à santidade, à compaixão e à generosidade. Importa “re-inventar” com urgência a solidariedade como valor ético e como atitude permanente de vida...; não uma solidariedade ocasional, mas uma solidariedade cotidiana que se encarna nos pequenos gestos de inclusão.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Alguns sociólogos têm estudado um fenômeno pós-moderno, a “invisibilida-de urbana”. 

Hoje nos acostumamos com a miséria, com a violência, com o sofrimento e exclusão... e essas realidades não nos chocam. É como se não víssemos. “Caímos na globalização da indiferença. Nós nos habituamos ao sofrimento do outro” (Papa Francisco).

Considerar a “invisibilidade” das pessoas nas estradas da vida...

Considerar a gratuidade do samaritano: “ele viu, sentiu compaixão e cuidou do ferido”. 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 10,25-37
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Samaritano – fx 02
Autor: Versão popular e melodia de Reginaldo Veloso
Intérprete: Paulinho Campos, Emmanuel, Maria Diniz, Rita Kfuri
CD: O fascínio das parábolas  do Reino
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 07:30



quarta-feira, 3 de julho de 2019

Leitura Orante – 14º Domingo do Tempo Comum, 07 de JULHO de 2019.


Leitura Orante – 14º Domingo do Tempo Comum, 07 de JULHO de 2019.

ESTAR NO MUNDO À MANEIRA DE JESUS

“...e os enviou à sua frente, dois a dois, 
a todo povoado e lugar para onde ele pretendia ir.” (Lc 10,1)


Texto Bíblico: Lucas 10,1-12.17-20


1 – O que diz o texto?
Ainda carregamos resquícios de uma falsa visão da santidade como afastamento do mundo e de seus perigos e buscar refúgio no deserto, nas montanhas ou nos conventos. Os(a) santo(a) não se afasta do mundo para encontrar a Deus; ele(ela) faz a “experiência” do Deus agindo no mundo.

Aí O encontra e caminha com Ele; o(a) santo(a) é aquele(a) que faz o que Deus faz neste mundo, aquele que faz com que este mundo seja justo, santo, salvo. O mundo não é só o “habitat” da sua missão: é sobretudo a fonte da sua espiritualidade, o lugar certo para encontrar a Deus e escutar o Seu chamado. 

Pondo-nos na escola do Evangelho, é aqui, neste mundo, que Jesus nos chama a estender o Reinado do Pai, trabalhando cada dia como amigos seus que passam, observa, curam, se compadecem, ajudam, transformam, multiplicam os esforços humanos.

Apaixonados pelo Reino nos apaixonamos pelo mundo que, em sua diversidade, riqueza, simplicidade, profundidade, fragilidade, sabedoria... nos fala com novos traços do Deus que buscamos com desvelo. E amando e investigando tudo o que é do mundo, adoramos o Deus Santo que habita em tudo. 

O(a) santo(a) seguidor(a) de Jesus é aquele(a) que, na liberdade, afirma: “Fora do mundo não há salvação”. Ele(ela) descobre na realidade do mundo e da história os “sinais dos tempos” e entra em comunhão com tudo, porque tudo é “diafania” de Deus. Enraíza sua convicção nesta visão, nesta mística da presença de Deus em sua obra, na contemplação de um mundo chamado a reconverter-se em justo e belo, verdadeiro e pacífico, unido e reconciliado, entranhado em Deus, como no primeiro dia da Criação.

A vocação à santidade ativa em nós a paixão pelo Reino, mobilizando-nos a levar adiante a missão, a ir aos lugares do mundo onde há mais necessidade e ali realizar obras duradouras de maior proveito e fruto.

Como seguidores(as) de Jesus, movidos(as) por um olhar novo, entramos em comunhão com a realidade tal como ela é. Trata-se de olhar o mundo como “sacramento de Deus”. Um olhar capaz de descobrir os sinais de esperança que existem no mundo; um olhar afetivo, marcado pela ternura, compassivo e por isso gerador de misericórdia; olhar que compromete solidariamente.

O(a) discípulo(a) missionário(a) não é aquele(a) que, por medo, se distancia do mundo, mas é aquele(a) que, movido(a) por uma radical paixão, desce ao coração da realidade em que se encontra, aí se encarna e aí revela os traços da velada presença do Inefável; o mundo já não é percebido como ameaça ou como objeto de conquista, mas como dom pelo qual Deus mesmo se faz encontrar. O mundo não é lugar da exploração e da depredação, mas é o lugar da receptividade, da oferenda e do encontro inspirador.


2 – O que o texto diz para mim?
Para realizar esta nobre missão não pode permanecer sentada. Seguir Jesus exige de mim uma dinâmica continuada, um colocar-me a caminho em direção às margens. Não posso viver o chamado do “Rei Eterno” a partir de uma cômoda instalação pessoal. A disponibilidade, o despojamento e a mobilidade são exigências básicas.

Corro o risco de viver em mundos-bolha; posso construir minha vida encapsulada em espaços feitos de hábito e segurança, convivendo com pessoas semelhantes a mim e dentro de situações estáveis. É difícil romper e sair do terreno conhecido, deixar o convencional. Tudo parece conspirar para que me mantenha dentro dos limites politicamente corretos. Todos podem terminar estabelecendo fronteiras vitais e sociais impermeáveis ao diferente. Se isso acontece, acabo tendo perspectivas pequenas, visões atrofiadas e horizontes limitadas, ignorando um mundo amplo, complexo e cheio de surpresas. Muitas vezes “vejo” o diferente, mas só como notícia, como o olhar do espectador que sabe das “coisas que acontecem”, mas não sente e nem se compadece por elas.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Viver a santidade no mundo de hoje me move a encontrar outras vidas, outras histórias, outras situações…; escutar outros relatos que trazem muita luz para a minha própria vida. Olhar a partir de um horizonte mais amplo, ajuda a relativizar minhas próprias absolutas e me deixar impactar pelos valores presentes no outro. Escutar de tal maneira que o que ouço penetra na minha própria vida; isso significa me implicar afetivamente, me relacionar com pessoas, não com etiquetas. Acolher na minha própria vida outras vidas; abrir espaços para que as histórias dos excluídos e diferentes encontrem morada nas minhas entranhas, na minha memória e no meu coração.

O encontro com o diferente possibilita também o encontro consigo mesma, ou seja, encontrar a própria verdade. Isso implica em se perguntar pela própria identidade, por aquilo que dá sentido à própria vida, o impulso por viver de uma maneira cristificada, conforme os valores do Reino.

Para que haja verdadeiro encontro com o outro, o deslocamento expõe quem se desloca, deixa-o vulnerável e “contaminado” pela realidade que encontrou. Quando alguém se desloca e se aproxima de realidades diferentes, é para encontrar, encontrar-se e aprender.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, como discípula missionária de Jesus, meu desafio não é fugir da realidade, mas aproximar dela com todos os meus sentidos bem abertos para olhar e contemplar, escutar e acolher, percebendo no mais profundo dela a presença ativa do Deus que me ama com criatividade infinita, para encontrar-me com Ele e trabalhar juntos por seu Reino. O mundo precisa de místicos(as) santos(as) que descubram onde está Deus criando algo novo, para proclamar esta boa notícia. 

Eu cristã honro a santidade universal sem fronteiras de raça, de credo, de cultura...

Santidade é dizer sim à vida; é um caminho a ser percorrido “de dois em dois”.

Por que esta insistência em fazer o caminho ao menos junto a outro(a)? Do envio dos discípulos e discípulas de dois em dois, posso tirar duas consequências: uma para os momentos de fragilidade, de cansaço e de desânimo; a outra para quando me sobrevém inesperadamente a luz, a alegria...

Preciso fazer o caminho em companhia para poder estender a mão quando caímos, para aprender a sustentar mutuamente... E, também de “dois em dois” para ter alguém ao meu lado com quem poder brindar, porque é uma ação que não é possível realizá-la sozinha. Celebrar, agradecer, brindar a vida... para isso, quanto mais companheiros e companheiras de estrada, melhor. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Todas as narrativas acerca do chamado conservam a marca intencional de um encontro surpreendente, inesperado e expansivo: deixar a vida estreita para entrar no amplo espaço de vida proposto por Jesus.Diante de Jesus, que “passa e chama” assumir  essa  vida que vivo  hoje, na missão, no trabalho, no meu ambiente, na minha comunidade.

Dar mais sentido à minha própria vida.

Gastar minhas forças, capacidades na missão.

Viver, no meu cotidiano, minha vocação de discípula missionária.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 10,1-12.17-20
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: O tesouro – fx 03
Autor: Benedikit
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Diante de Ti – Antonio Cardoso
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:07