quarta-feira, 5 de junho de 2019

Leitura Orante – PENTECOSTES – 09 de JUNHO de 2019


Leitura Orante – PENTECOSTES – 09 de JUNHO de 2019

PENTECOSTES: de portas abertas

“...estando as portas trancadas do lugar onde estavam os discípulos 
por medo dos judeus...”(Jo 20,19)


Texto Bíblico: João 20,19-23


1 – O que diz o texto?
Lembremo-nos que, no domingo passado, após a Ascensão, os discípulos retornaram ao Templo de Jerusalém: “E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (Lucas 24, 53). Isso quer dizer que eles ainda não estavam em movimento; eles não tinham tomado consciência de que eram habitados pelo Espírito Santo e que deviam sair do Templo para partir em missão. No entanto, em Pentecostes eles se deram conta de que deviam sair do Templo para transmitir o Sopro de vida (vento), para reunir no Amor todos os povos (fogo) e para comunicar a todos o Amor universal (línguas). A presença do Espírito rompeu os espaços atrofiados e os fez viver de portas abertas. Esta é a missão do Espírito Santo.

A Igreja, como povo de Deus, cheia de graça e de verdade, hoje se veste de festa porque está celebrando seu nascimento. Ela finca suas raízes no acontecimento de Pentecostes quando o Pai, por seu Filho, envia o Espírito da verdade e da vida à humanidade. Os discípulos receberam a força do Espírito em um contexto de debilidade e de medo. As portas estavam fechadas, no meio do mundo, por temor. E é no meio desse mundo desafiador e do medo paralisante que o Espírito rompe as portas e destranca as janelas; o que era realidade fechada e assustada se converte em comunidade “em saída”, apostólica, missionária.

O Ressuscitado cumpre a promessa definitiva: envia seu Espírito. Espírito de vida e confiança, de fortaleza e verdade, de amor e graça. É o Espírito da liberdade, que arranca as portas dos temores e das seguranças e abre as janelas para deixar entrar o vento que faz viver o risco no amor comprometido; é o Espírito do fogo que aviva a luta pela dignidade e a possibilidade da reconciliação do ser humano ferido com o Deus providente e curador, que se revela como compaixão e misericórdia; é o Espírito que torna possível outro mundo, que ativa o cuidado para com a natureza: a ecologia que se faz comunhão e se humaniza, frente ao medo da destruição do universo e daqueles que o habitam.

Com sua presença rompedora, o Espírito enche a casa onde os discípulos estavam juntos. Ele não se deixa sequestrar em certos lugares que dizemos “sagrados”. Agora “sagrada” torna-se a casa: a minha, a tua e todas as casas são o espaço privilegiado da ação Espírito. Ele vem de imprevisto, e nos apanha de surpresa, pois nem sempre estamos preparados para deixar-nos conduzir por Ele. O Espírito não suporta esquemas, rompe o que está programado, é um vento de liberdade, fonte de vida expansiva.

Um vento que sacode nossa casa, que a enche de luz e segue adiante, que traz pólens de primavera e dispersa a poeira, que traz fecundidade e dinamismo para o interior de cada um, «esse vento que faz nascerem os garimpeiros de ouro» (G. Vannucci).


2 – O que o texto diz para mim?
Vivo um permanente Pentecostes. Quando sinto medo é porque me centro em mim mesma, me auto referencio, e a realidade me força a buscar refúgio e proteção. Minha fragilidade e a violência do mundo me alarmam e busco segurança e conservação. Mas isso dificulta anunciar o evangelho, levar a boa notícia ao mundo e impede minha própria realização como cristã, pois apaga minha criatividade e esvazia minha presença inspiradora. Celebrar Pentecostes é acreditar que “outra igreja é possível”, que tenho de superar meus medos para construir e ser a comunidade da confiança, aquela que se arrisca na missão e no exercício da misericórdia, aquela que se descobre como fermento no meio da massa e leva a alegria do evangelho.

O medo, a obscuridade e o fechamento da “casa interior” se transformam, agora com a presença do Espírito, em paz, alegria e envio missionário. São sinais palpáveis da ação misteriosa e transformante do Espírito no interior de cada um e da comunidade. 

Na vida cristã, ser espiritual faz referência ao Espírito de Deus. “Espirituais”, de algum modo, são todos, mas a chave para deixar que essa dimensão da vida cresça está em facilitar que, dentro de mim, o Espírito de Deus tenha espaço para mover-se, ressoar e suscitar inquietações. Não se trata de que, ao habitar-me, o Espírito me invada. Antes, trata-se de uma convivência que potencia o melhor de mim mesma, que faz que a solidão seja habitada e mantém os sentidos muito mais alerta.

O Espírito ressoa na oração, na atividade, ao ver o noticiário, ao dar um abraço, ao ler um livro, em uma canção, ao contemplar um quadro, fazendo um passeio, escutando alguém que me fala de sua vida... Ressoa na história e na imaginação que me convida a sonhar um futuro melhor. Ressoa no encontro humano. E, sob seu impulso, amadurece em mim aquela atitude que me leva a viver com mais plenitude: compaixão, justiça, verdade, amor...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A violência, a injustiça, a intolerância e o preconceito em todas as instâncias da sociedade atual me enchem de medo, desalento e desesperança. Não vejo saída e prefiro fechar-me em mim mesma, em meus ambientes mofados e práticas religiosas alienadas, esquecendo-me do grande movimento de vida desencadeado por Jesus, conduzido pelo Espírito de vida. É este mesmo Espírito que irrompe em meu interior, transpassa as portas do coração e ilumina o entendimento para que eu compreenda a novidade do Evangelho e tenha presença diferenciada no contexto em que vivo. 

Deixar-me habitar pelo Espírito implica romper a bolha que asfixia minha vida e derrubar os muros que cercam meu coração e atrofia minha própria existência. 

A mudança de mente, de coração, de esperança, de paradigmas... exige de mim e de cada um que viva, em tempos de Pentecostes, e que cada um possa revisar suas vidas, conservando umas coisas, alterando outras, derrubando ideias fixas, convicções absolutas, modos fechados de viver... que impedem a entrada do ar para arejar o próprio interior. 

Nada mais contrário ao espírito de Pentecostes que uma vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores...

Numa vida assim faltaria por completo o princípio da criatividade, a capacidade de questionar-se, a audácia de arriscar, a coragem de fazer caminho aberto à aventura.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor há em toda pessoa, uma tendência a cercar-se de muros, a encastelar-se, a criar uma rede de proteção. Também os cristãos não estão imunes a esta tentação.

A cultura da indiferença edifica uma barreira intransponível entre mim e os outros. Tornando-me uma ilha sem vida e triste, negando a condição criatural de viver ao lado dos diferentes, meus semelhantes. Em mim, a indiferença, a intolerância e a violência são sintomas de desumanização. E essa desumanização é tanto prejudicial a mim quanto às outras pessoas. Todo mundo perde. Aos poucos, me recolho em meus medos, em minhas inseguranças e começo a acreditar que os diferentes são meus inimigos. A partir de minha reclusão religiosa, social, política..., passa a divulgar discursos fascistas, alimentar práticas fundamentalista de segregação, apoiar-me em moralismos estéreis...

O Espírito de Pentecostes me desarma e me capacita a viver a cultura do encontro; isso significa desenvolver a própria capacidade de contemplação, de compaixão, de assombro, escuta das mensagens e dos valores presentes no mundo à minha volta. Ela ativa uma relação sadia com todos; o centro se expande em direção aos outros e à criação, fazendo-me viver uma conexão livre com toda a realidade, através da íntima solidariedade e do compromisso ativo.  


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Perceber sinais da presença dinamizadora do Espírito de Deus em minha vida pessoal, familiar e comunitária.

Descobrir e potenciar os dons e ministérios que o Espírito continua suscitando nas pessoas e comunidades.

Fazer um tempo de oração mais profunda, procurando escutar as moções que o Espírito suscita em meu interior e que talvez não tenha condições de escutar na pressa diária.

Estar atenta a todas as portas que mantenho fechadas. 

Descobrir que portas continuam fechadas nas igrejas.

Converter essas portas em fronteiras.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 20,19-23
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: O sopro – Fx 02 
Autor e Intérprete: Padre Zezinho, scj
Coro: Angela Márcia, Silvinha Araujo, Sueli Gondim, Ringo, Caio Flavio, Maria do Carmo Diniz, José Luiz Mazziotti, Paulo Roberto de Campos, Dalva Tenório, Vanessa, Luan, Mariangela Zan
CD: Canções que a vida escreveu
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:26



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