quinta-feira, 20 de junho de 2019

Leitura Orante – 12º Domingo do Tempo Comum, 23 de JUNHO de 2019.


Leitura Orante – 12º Domingo do Tempo Comum, 23 de JUNHO de 2019.

“PESOS MORTOS” QUE TRAVAM O SEGUIMENTO

“Quem quiser vir após mim negue-se a si mesmo...” (Lc 9,23)


Texto Bíblico: Lucas 9,18-24


1 – O que diz o texto?
Depois do longo e intenso percurso pascal, retomamos o tempo litúrgico conhecido como “Tempo Comum”, seguindo o evangelista Lucas (Ano C).

A cena do evangelho deste domingo é muito conhecida, pois ela é relatada nos três evangelhos sinóticos, embora com grandes diferenças. Os discípulos já levam um bom tempo acompanhando Jesus. Por que o seguem? Jesus quer saber qual é a motivação presente no interior de cada um deles. Por isso, dirige uma pergunta ao grupo: “E vós, quem dizeis que eu sou?” 

Esta é a pergunta que também deve ter ressonância em nosso interior; afinal, dizemos ser seguidores e seguidoras de Jesus. Seguimos, de fato, uma pessoa ou seguimos uma doutrina, uma religião, uma moral...? Não é suficiente repetir fórmulas aprendidas na catequese. Aqui se trata de expressar uma identificação profunda com a vida e com o modo de ser do Profeta da Galileia. Por que o seguimos? Não basta afirmar que Ele é o “Messias de Deus”; é preciso dar passos no caminho aberto por Ele, acender também hoje o fogo que Ele quis espalhar no mundo. Como podemos falar tanto dele sem sentir sua sede de justiça, seu desejo de solidariedade, sua vontade de paz?

Na experiência humana ressoa, desde sempre, a marca ou o chamado a transcender-se, a ir além de si mesmo. O seguimento de Jesus pressupõe a pessoa capaz de sair de si mesmo, de descentrar-se. Deixar ressoar a voz do chamado no próprio interior implica um investimento de toda a pessoa. O ouvido se abre, o olhar se aclara, a mente se expande, o coração compreende, o corpo se ergue e a vida se reinicia.

Vida aberta e sempre em movimento, pronta para acolher e viver as surpresas.

Estamos inseridos numa cultura onde as entregas são vividas pela metade, as opções são de fôlego curto e os projetos não tem consistência.

Vivemos a chamada “cultura líquida” onde tudo parece que nos escapa das mãos. Não há solidez nas decisões, pois elas são apressadas e superficiais, porque o horizonte está obscuro.

Jesus não impõe nenhuma condição, não quer gente que busque carreiras ilustres, riquezas, prestígio... Quer pessoas que sejam capazes de descentrar-se, de renunciar ao próprio ego, de desapegar-se daquilo que as atrofia e as limita para investir numa proposta de vida que dê direção e sentido à própria existência. Este é o lema de Jesus: “renunciar a si mesmo, tomar a cruz cada dia e segui-Lo”


2 – O que o texto diz para mim?
O que significa “renunciar a si mesmo”. Significa sair da visão egocentrada, nascida da crença errônea de que sou o ego. Talvez pudesse ser expresso desta forma: “Deixa de crer que és o eu separado e descobrirás a riqueza de tua verdadeira identidade; nem sequer vê a tua vida a partir do ego, porque sofrerás e farás sofrer; contempla-a a partir de tua verdadeira identidade, onde há uma unidade profunda, mas sem apego nem comparações”.

Não é a renúncia o que me salva, mas o desenvolvimento e a expansão da vida em direção à plenitude.

A renúncia é sempre lícita e aconselhável quando faço por algo melhor. O apego a mim mesmo, às coisas ou às pessoas, me impede de mover com facilidade. Perco o fluxo da vida e o impulso do movimento, a suavidade do “deslizar pela existência”. 

Na vida cristã, o seguimento é questão de sedução, de paixão, de atração, de coração...; isso significa que Jesus Cristo é de fato o “amor primeiro”, aquele que antecede a qualquer outro, de maneira especial o amor a si mesmo. Daí nasce a harmonia interior. Quando o seguimento torna-se o eixo central, todos os elementos da vida, todas as afeições, todas as potencialidades do espírito, encontram-se em “seus lugares”, estabelecendo uma deliciosa experiência de paz. Os afetos “orientados” e “ordenados” à pessoa de Jesus cria um novo referencial, um novo centro afetivo. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Se quiser fazer caminho com Jesus precisa acolher suas condições e entendê-las como Ele as entende. “Renunciar a si mesmo” é descentrar-se, não ser já o centro de seu próprio projeto. É pôr a vida inteira a serviço do outro, neste caso o projeto de Jesus. A isto Jesus chama “perder a vida por sua causa”. E quem assim fizer, “ganhará”, salvará sua vida. A condição que Jesus propõe para segui-lo não pretende negar minha autonomia, mas orientar minhas energias e valores para a construção do Reino que Ele iniciou, renunciando, também Ele, a si mesmo, para cumprir em tudo a vontade do Pai.

Na medida em que me desprendo de todo apego, incluído o apego à vida, a favor dos outros, estarei amando de verdade e, portanto, crescendo como ser humano. Minha Vida com maiúscula se potenciará, e a vida com minúscula, adquirirá, então, todo seu sentido.

A resposta à pergunta de Jesus (“e vós, quem dizeis que eu sou?”) implica adesão à pessoa d’Ele e ao seu projeto, o Reino; significa fazer o caminho com Ele, colocar-se onde sempre se colocou, na margem, na periferia... Isso acarreta oposição, perseguição, cruz. 

Em quê consiste “carregar a Cruz?” É acaso suportar tudo sem reclamar como se toda contrariedade me é mandada pelo Deus mesmo? É submeter-se à dor pela dor, como se a dor fosse um valor em si mesmo?

Algo ou muito disto tenho entendido assim e não tem nada a ver com a condição que Jesus propõe para que eu siga seus passos. Ele quer dizer que todos devem estar dispostos a viver da mesma maneira que Ele viveu, embora sabendo que este estilo de vida pode acarretar a perseguição e talvez a morte. Tomar a Cruz significa prontidão, estar preparado, mobilizado...

Essa é a cruz de Jesus e também deve ser a minha. Não inventar cruzes sob medida, não colocar cruzes sobre mim mesma ou sobre os outros. Seguir os passos de Jesus, assumindo seu estilo de vida!


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Nesse sentido, a cruz de Jesus não é um “peso morto”; ela tem sentido porque é consequência de uma opção radical em favor do Reino. A Cruz não significa passividade e resignação; ela nasce de sua vida plena e transbordante; ela resume, concentra, radicaliza, condensa o significado de uma vida vivida na fidelidade ao Pai, que quer que todos possam viver intensamente. 

“Jesus morreu de vida”: de bondade e de esperança lúcida, de solidariedade alegre, de compaixão ousada, de liberdade arriscada, de proximidade curadora.

Aquele que acompanha Jesus vai também tomando consciência que a opção pela vida pode conduzi-lo à Cruz.

Mas não basta carregar a Cruz; a novidade cristã é carregá-la como Jesus. Essa é a nova maneira de carregar a Cruz que Jesus me ensina: transformá-la em sinal e fonte de amor e de entrega.

A palavra “cruz” – em grego “staurós” – vem do verbo “ficar em pé”. “Tomar sua Cruz” não é, portanto, suportar passivamente a própria vida, tornar-se escravo de um destino tirânico; significa prontidão, estado de vigilância... para passar de uma vida suportada para uma vida escolhida.  


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Quem é Jesus para mim?” 

Pergunta instigante que me ajuda a captar a originalidade de Sua vida, a escutar a novidade de Seu chamado, a me deixar atrair pelo Seu projeto, me contagiar por Sua liberdade, me empenhar por viver seu caminho.

Devo me colocar diante de Jesus, me deixar olhar diretamente por Ele e escutar, a partir do mais profundo de mim mesma, Sua pergunta: “Quem sou Eu realmente para você?”

A esta pergunta responde-se mais com a vida que com palavras sublimes.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 9,18-24
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Até aqui o Senhor nos conduziu – fx 04
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Ana Paula Ramalho e Edicleia Tonete
CD: Ouço tua voz – Grupo Chamas
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:09



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