quinta-feira, 23 de maio de 2019

Leitura Orante – 6º DOMINGO DE PÁSCOA – 26 de maio de 2019


Leitura Orante – 6º DOMINGO DE PÁSCOA – 26 de maio de 2019

DEUS NÃO É NOSSO HÓSPEDE, MAS A ESSÊNCIA DE NOSSO SER

 “...e viremos a ele e nele faremos morada” (Jo 14,23)


Texto Bíblico: João 14,23-29


1 – O que diz o texto?
Continuamos com o discurso de despedida de Jesus, depois da Última Ceia. O tema do domingo passado era o amor manifestado na entrega aos demais. Terminávamos dizendo que esse amor era a expressão de uma experiência interior, relação com o mais profundo de nós mesmos que é Deus. 

Hoje o evangelho nos fala do que significa essa vivência íntima. A Realidade que somos, é nosso verdadeiro ser. O verdadeiro Deus não é um ser separado que está em alguma parte da estratosfera, mas o fundamento de nosso ser e de cada um dos seres do universo. Tudo está admiravelmente condensado e expresso nesta frase com a qual se inicia o evangelho de hoje: “viremos a ele e faremos nele nossa morada”. O ser humano está habitado por Deus, no sentido mais profundo que possamos imaginar.

Quem toma consciência de sua identidade profunda, descobre-se habitado e amado pelo Mistério e não pode fazer outra coisa senão amar e experimentar a unidade com todos. Na linguagem do quarto evangelho, Deus e Jesus é o “centro” último do nosso interior, o que constitui nossa identidade mais profunda. Deus Trindade abraça e se expressa em toda a realidade; habita tudo e em tudo se manifesta; envolve tudo e em tudo está presente. É o que experimentaram e proclamaram os místicos: “Meu Eu é Deus e não reconheço outro Eu que a Deus mesmo” (S. Catarina de Gênova).

S. João da Cruz escreve: “A alma mais parece Deus que alma, e ainda é Deus por participação”.

Não se trata, portanto, de que Deus habite unicamente naqueles que cumprem a palavra de Jesus, num retorno à religião dos méritos e das recompensas. Deus habita já todos os seres: nada poderia existir “fora” d’Ele. Tudo é morada de Deus.

Segundo S. Inácio “Deus habita nas criaturas: nos elementos dando o ser; nas plantas, a vida vegetativa; nos animais, a vida sensitiva; nas pessoas, a vida intelectiva. Do mesmo modo em mim, dando-me o ser, o viver, o sentir e o entender. E também fazendo de mim o seu templo” (EE. 235).

Tudo está inundado de Deus; tudo é sagrado, nada é profano.


2 – O que o texto diz para mim?
Deus não permanece no exterior, mas habita no mais profundo de cada um; sou o que sou devido à presença de Deus em mim. A dignidade e o significado último de cada ser humano não provêm dele mesmo, mas da presença de Deus em seu interior.

Além disso, eu nunca estou fora de Deus. Tudo que sou e tenho é manifestação de sua força, bondade e amor. Conviver com Deus tem sempre algo de aventura que assusta e encanta. É a chamada “experiência numinosa”.

Pois, Deus e o ser humano não são adversários, mas “diferenças que se amam”.

Por isso, ao abraçar cada pessoa, estarei tomando nos braços não apenas os seus limites, fragilidades e sombras, mas também o seu infinito mistério: Deus mesmo.

Igualmente, distanciar-se do outro é expulsar-se de Deus, e quem se fecha à novidade do outro, inevitavelmente limita a ação do Criador no próprio interior.

E para onde quer que eu olhe, lá está Ele: silencioso, como meu próprio mistério. Está presente na distante profundeza do universo como suprema fecundidade e meu Pai, na proximidade dos seres humanos como humildade e meu irmão, em mim mesma como sentido e o vigor que me faz viver.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus viveu uma profunda identificação com o Pai que não posso expressar com palavras. “Eu e o Pai somos um”. Eu também sou chamada a viver essa mesma identificação. Fazer-me uma coisa só com Deus, que é presença e que não está em mim como hóspede agregado que chega e sai, mas como fundamento de meu ser, sem o qual nada pode existir em mim. Essa presença de Deus em mim não altera em nada minha individualidade. Eu sou totalmente eu mesma e totalmente de Deus. Viver esta realidade é o que constitui a plenitude do ser humano.

Uma coisa é a linguagem e outra a realidade que quero manifestar com ele. Deus não tem que vir de nenhum lugar para estar no mais profundo de meu ser. Está aí desde antes de eu existir. Não existe “alguma parte” onde Deus possa estar fora de mim e do resto da criação. Deus é Aquele que torna possível minha existência. Sou eu que estou fundamentada n’Ele desde o primeiro instante do meu existir. Deus já não é esse Outro ao qual tenho que ir ou esperar que venha, senão que forma parte de minha realidade, um espaço do qual posso nos diferenciar, mas não separar.

Descobri-Lo em mim, tomar consciência dessa presença, é como se Ele viesse a mim. Esta verdade é a fonte de toda experiência espiritual.

Os místicos ousam dizer: “temos Deus dentro de nós; é tão unido a nós que Ele é a nossa própria profundidade”.

Aqui está a grande novidade da mensagem e da experiência de Jesus: revelar que o lugar da presença de Deus é o ser humano. Ele é experimentado dentro de mim; mas também é preciso descobri-Lo dentro de cada um dos outros seres humanos. A presença surge de dentro e me sensibiliza a percebê-Lo no outro. 

“Deixar Deus ser Deus em meu interior” significa entrar no fluxo da dinâmica divina, ou seja, viver encontros divinizados, sendo presença divinizada, expressando palavras e atos divinizados...

A presença de Deus em meu interior fica atrofiada quando minha vida é carregada do veneno do preconceito, da intolerância, do julgamento, da suspeita e do medo do diferente. É justamente essa presença divina no eu profundo que me diferencia e me torna original. Encontrar-me com Deus na própria morada interna não é fechar-me num intimismo estéril; implica ampliar o espaço do coração para acolher o outro que pensa, sente e ama de maneira diferente, porque também ele é morada da Trindade.

O Espírito é o garantidor dessa presença dinâmica do Pai e de Jesus em mim: “Ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito”. O verdadeiro Mestre – meu “mestre interior” – que me irá conduzindo até a verdade é o Espírito de Deus, que se expressa no mais profundo de todo ser humano. É a “voz” de Deus em mim, à qual tenho acesso a partir da abertura e disponibilidade interior.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
O teólogo Schillebeeckx afirmou: “Se pudesse tirar de mim o que há de mim, ficaria Deus; se pudesse tirar de mim o que há de Deus, ficaria nada”.

Senhor, ao me reconhecer nessa morada interior, pode receber a paz da qual fala Jesus; não só isso: descobrir que sou Paz. Não é a “paz do mundo”, que sempre será oscilante e inconstante, senão a Paz que abraça todas as situações da vida, porque estou ancorada naquilo que realmente sou.

O “shalom” judaico é muito mais rico que meu conceito de paz; mas o evangelho de João acrescenta um “plus” de significado sobre o já rico significado judaico. A paz, de que fala Jesus, tem sua origem no interior de cada um. É a harmonia total, não só dentro da pessoa, mas com os outros e com a criação inteira. Corresponde ao fruto primeiro das relações autênticas em todas as direções; expressa a consequência do amor que é Deus em cada um, descoberto e vivido. A paz não é buscada diretamente; ela é fruto do amor. Só o amor, ativado e manifestado no próprio interior, conduz à paz verdadeira. Poder-se-ia dizer que esta “paz” não é algo diferente do Espírito. É a paz de quem permanece ancorado em sua identidade profunda, sem identificar-se com os altos e baixos das circunstâncias, nem perder-se com o “vai e vem” da mente.

É a paz que supera toda razão, porque nasce de um “lugar” que está mais além da razão, mais além da mente, na compreensão do Mistério que sou, e que não se vê afetado pelo que ocorre em meu eu.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Considerar, como devo de minha parte, amar as pessoas de tal maneira que me faça transparente, para que através de mim os outros possam conhecer quem é Deus.

Eu devo deixar “transparecer” a imagem de Deus, através da bondade, justiça, serviço... 

Deus “habita em mim”, deixando suas pegadas; através delas sou movida a dar testemunho de quem é Deus.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 14,23-29
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Vai chegar o tempo – fx 07
Autor: Pe. Fábio de Melo
Intérprete: Pe. Fábio de Melo
CD: Canta coração
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:23

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