quinta-feira, 30 de maio de 2019

Leitura Orante – ASCENSÃO DE JESUS – 02 de JUNHO de 2019


Leitura Orante – ASCENSÃO DE JESUS – 02 de JUNHO de 2019

ASCENSÃO: 
benção que se expande sobre a humanidade

 “Jesus os conduziu para fora, até perto de Betânia 
e, tendo erguido as mãos, os  abençoou. Enquanto os abençoava, 
afastou-se deles e foi elevado ao céu” (Lc 24,50-51)


Texto Bíblico: Lucas 24,46-53


1 – O que diz o texto?
Agora que estamos chegando ao final do tempo pascal, vale a pena notar que a Páscoa, chave, centro e  ponto de partida da fé cristã, é um acontecimento de uma riqueza tal que é impossível descrevê-lo com uma só imagem. Por isso, celebramos o mistério pascal durante cinquenta dias, e logo prolongamos esta celebração cada domingo. Trata-se de um acontecimento único, embora nós, para entendê-lo melhor, o celebremos por etapas. Dito de outra maneira: Paixão, Páscoa, Ascensão e Pentecostes são a mesma realidade. Pode-se falar de quatro momentos, mas, na realidade são distintas perspectivas do mesmo Mistério. 

Quê estamos celebrando com a Ascensão? A Ascensão é mais um aspecto da cristologia pascal. 

Cristo alcançou, na Ascensão, uma situação e um estado de infinitude que lhe permite preencher tudo com sua presença definitiva, e para comunicar-nos sua presença divina. Portanto, não se trata de uma Ascensão para um lugar físico que o afastaria para longe da humanidade.

A nuvem que o “oculta”, enquanto subia ao céu, não está nos indicando sua “ausência”, mas uma forma distinta de sua presença. Daqui em diante, Jesus estará presente entre nós através de seu Espírito, cuja missão é ser memória permanente e dinâmica para que não nos esqueçamos do que Ele disse e fez. 

Precisamos recordar que, terminada a presença histórica de Jesus, vivemos o “tempo do Espírito”, tempo de criatividade e de crescimento responsável. O Espírito não nos proporciona a nós, seguidores e seguidoras de Jesus, “receitas eternas”. Mas nos dá luz e ânimo para buscar caminhos sempre novos a fim de prolongar hoje o modo original de ser e de atuar de Jesus. Assim Ele nos conduz para a verdade completa de Jesus.

Lucas, o único evangelista que fala de ascensão, termina seu relato apresentando-nos os discípulos como que pasmados, olhando para o alto e a alguns personagens vestidos de branco que lhes repreendem: “Homens da Galiléia, porque estás aí olhando ao céu?”

Como Jesus, a única maneira de alcançar a plenitude da vida não é “subir”, mas é “descer” até o mais profundo de nosso ser. Aquele que mais desceu é o que subiu mais alto.

Jesus deixou suas pegadas cravadas na terra, mas os discípulos ficaram assombrados com o olhar fixo nas alturas. Ao céu só se chega caminhando para as profundezas de nosso ser, pois só no mais profundo de cada um (céu interior), podemos encontrar o divino. 


2 – O que o texto diz para mim?
Não causa estranheza que, ao narrar a despedida de Jesus deste mundo, Lucas descreva de forma surpreendente: Jesus ergue as mãos e “abençoa” seus discípulos. É seu último gesto. Jesus volta ao Pai levantando as suas mãos e abençoando os seus seguidores. Ele entra no mistério insondável de Deus e sobre o mundo faz descer sua benção. Jesus deixa atrás de si sua benção. Os discípulos, envolvidos por sua benção, respondem ao gesto de Jesus indo ao templo cheios de alegria. E estavam ali “bendizendo” a Deus.

Saboreando com mais profundidade a narrativa da Ascensão, percebo a insistência de Lucas no tema do bendizer de Jesus: “levantando as mãos os abençoou e enquanto os abençoava se afastou deles...”.

Ao fixar a atenção no seu “bendizer” e fazendo uma tradução ao pé da letra do verbo grego “eu-logeo” (“eu”= bem; “logeo”= dizer), fico surpresa de que Jesus sobe aos céus dizendo coisas boas de seus discípulos e deixando um “informe final” sobre eles, claramente positivo.

É como se, antes de partir, Jesus tivesse relatado sua avaliação para prestar contas ao Pai e, para alívio meu, revela-se satisfatória e elogiosa: sou boa gente, com pontos da vida a serem melhorados com certeza, mas, no conjunto, estou bem. Ele leva anotadas muitas coisas boas de minha vida para contá-las ao Pai.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Vou agora contemplar o gesto das mãos de Jesus que abençoam.

Jesus sempre gostou de “abençoar”. Abençoou as crianças, os pobres, os doentes e desventurados. Seu gesto era carregado de fé e de amor. Ele desejava envolver aqueles que mais sofriam, com a compaixão, a proteção e a benção de Deus.

A partir de então, os seus seguidores e as suas seguidoras começam sua caminhada, animados por aquela benção com a qual Jesus curava os doentes, perdoava os pecadores e acariciava os pequenos.

Eu, seguidora de Jesus, sou portadora e testemunha de sua benção no mundo.

Como cristã, esqueço que sou canal da bênção de Jesus. A minha primeira tarefa é ser testemunha da Bondade de Deus. Manter viva a esperança, não me render diante de tanto “maldizer”.

Deus olha a humanidade com ternura e compaixão.

A Igreja deve ser no meio do mundo, uma fonte de benção. Num mundo onde é tão frequente “maldizer”, condenar, prejudicar e difamar, é mais necessária do que nunca a presença de seguidores e seguidoras de Jesus que saibam “abençoar”, buscar o bem, dizer bem, fazer o bem, atrair para o bem.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
A benção é uma prática enraizada em quase todas as culturas como o melhor desejo que posso despertar para com os outros. O judaísmo, o islamismo e o cristianismo lhe deram sempre grande importância. E, embora em meu dia tenha sido reduzida a um ritual quase em desuso, não são poucos os que ainda destacam seu conteúdo profundo e a necessidade de recuperá-la.

Abençoar é, antes de qualquer coisa, desejar o bem às pessoas que encontro em meu caminho. Querer o bem de maneira incondicional e sem reservas. Querer a saúde, o bem-estar, a alegria..., tudo o que pode ajudá-la a viver com dignidade. Quanto mais desejo o bem para todos, mais possível é sua manifestação.

Abençoar é aprender a viver a partir de uma atitude básica de amor à vida e às pessoas. Aquele que abençoa esvazia seu coração de outras atitudes pouco sadias, como a agressividade, o medo, a hostilidade ou a indiferença. Não é possível abençoar e ao mesmo tempo viver condenando, rejeitando, odiando.

Abençoar é desejar a alguém o bem do mais profundo de meu ser, mesmo que eu não seja a fonte da benção, mas apenas sua testemunha e portadora. Aquele que abençoa não faz senão evocar, desejar e pedir a presença bondosa do Criador, fonte de todo bem. Por isso, só se pode abençoar numa atitude de agradecimento a Deus.

Senhor, a benção faz bem a quem a recebe e a quem a pratica. Quem abençoa os outros se abençoa a si mesmo. A benção fica ressoando em meu interior, como prece silenciosa que vai transformando meu coração, tornando-o melhor e mais nobre. 

Ninguém pode sentir-se bem consigo mesmo enquanto continua maldizendo o outro no fundo do seu ser. Não é possível ser canal de benção do Criador se do próprio coração brotam palavras de intolerância, de preconceito e julgamento. “Maldizer” o outro é maldizer-se a si mesmo.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Fazer memória dos momentos em que eu fui canal de benção para muitas pessoas.
Usar as redes sociais para “bendizer”.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 24,46-53
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Jesus Cristo, luz da luz – fx 08
Autor: José Weber, svd
Intérprete: Emmanuel/ Toninho Neto/ Filipe Lopes / Maria Diniz / Daiane Lopes
CD: Deus Vivo, Trindade Santa
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:42



quinta-feira, 23 de maio de 2019

Leitura Orante – 6º DOMINGO DE PÁSCOA – 26 de maio de 2019


Leitura Orante – 6º DOMINGO DE PÁSCOA – 26 de maio de 2019

DEUS NÃO É NOSSO HÓSPEDE, MAS A ESSÊNCIA DE NOSSO SER

 “...e viremos a ele e nele faremos morada” (Jo 14,23)


Texto Bíblico: João 14,23-29


1 – O que diz o texto?
Continuamos com o discurso de despedida de Jesus, depois da Última Ceia. O tema do domingo passado era o amor manifestado na entrega aos demais. Terminávamos dizendo que esse amor era a expressão de uma experiência interior, relação com o mais profundo de nós mesmos que é Deus. 

Hoje o evangelho nos fala do que significa essa vivência íntima. A Realidade que somos, é nosso verdadeiro ser. O verdadeiro Deus não é um ser separado que está em alguma parte da estratosfera, mas o fundamento de nosso ser e de cada um dos seres do universo. Tudo está admiravelmente condensado e expresso nesta frase com a qual se inicia o evangelho de hoje: “viremos a ele e faremos nele nossa morada”. O ser humano está habitado por Deus, no sentido mais profundo que possamos imaginar.

Quem toma consciência de sua identidade profunda, descobre-se habitado e amado pelo Mistério e não pode fazer outra coisa senão amar e experimentar a unidade com todos. Na linguagem do quarto evangelho, Deus e Jesus é o “centro” último do nosso interior, o que constitui nossa identidade mais profunda. Deus Trindade abraça e se expressa em toda a realidade; habita tudo e em tudo se manifesta; envolve tudo e em tudo está presente. É o que experimentaram e proclamaram os místicos: “Meu Eu é Deus e não reconheço outro Eu que a Deus mesmo” (S. Catarina de Gênova).

S. João da Cruz escreve: “A alma mais parece Deus que alma, e ainda é Deus por participação”.

Não se trata, portanto, de que Deus habite unicamente naqueles que cumprem a palavra de Jesus, num retorno à religião dos méritos e das recompensas. Deus habita já todos os seres: nada poderia existir “fora” d’Ele. Tudo é morada de Deus.

Segundo S. Inácio “Deus habita nas criaturas: nos elementos dando o ser; nas plantas, a vida vegetativa; nos animais, a vida sensitiva; nas pessoas, a vida intelectiva. Do mesmo modo em mim, dando-me o ser, o viver, o sentir e o entender. E também fazendo de mim o seu templo” (EE. 235).

Tudo está inundado de Deus; tudo é sagrado, nada é profano.


2 – O que o texto diz para mim?
Deus não permanece no exterior, mas habita no mais profundo de cada um; sou o que sou devido à presença de Deus em mim. A dignidade e o significado último de cada ser humano não provêm dele mesmo, mas da presença de Deus em seu interior.

Além disso, eu nunca estou fora de Deus. Tudo que sou e tenho é manifestação de sua força, bondade e amor. Conviver com Deus tem sempre algo de aventura que assusta e encanta. É a chamada “experiência numinosa”.

Pois, Deus e o ser humano não são adversários, mas “diferenças que se amam”.

Por isso, ao abraçar cada pessoa, estarei tomando nos braços não apenas os seus limites, fragilidades e sombras, mas também o seu infinito mistério: Deus mesmo.

Igualmente, distanciar-se do outro é expulsar-se de Deus, e quem se fecha à novidade do outro, inevitavelmente limita a ação do Criador no próprio interior.

E para onde quer que eu olhe, lá está Ele: silencioso, como meu próprio mistério. Está presente na distante profundeza do universo como suprema fecundidade e meu Pai, na proximidade dos seres humanos como humildade e meu irmão, em mim mesma como sentido e o vigor que me faz viver.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus viveu uma profunda identificação com o Pai que não posso expressar com palavras. “Eu e o Pai somos um”. Eu também sou chamada a viver essa mesma identificação. Fazer-me uma coisa só com Deus, que é presença e que não está em mim como hóspede agregado que chega e sai, mas como fundamento de meu ser, sem o qual nada pode existir em mim. Essa presença de Deus em mim não altera em nada minha individualidade. Eu sou totalmente eu mesma e totalmente de Deus. Viver esta realidade é o que constitui a plenitude do ser humano.

Uma coisa é a linguagem e outra a realidade que quero manifestar com ele. Deus não tem que vir de nenhum lugar para estar no mais profundo de meu ser. Está aí desde antes de eu existir. Não existe “alguma parte” onde Deus possa estar fora de mim e do resto da criação. Deus é Aquele que torna possível minha existência. Sou eu que estou fundamentada n’Ele desde o primeiro instante do meu existir. Deus já não é esse Outro ao qual tenho que ir ou esperar que venha, senão que forma parte de minha realidade, um espaço do qual posso nos diferenciar, mas não separar.

Descobri-Lo em mim, tomar consciência dessa presença, é como se Ele viesse a mim. Esta verdade é a fonte de toda experiência espiritual.

Os místicos ousam dizer: “temos Deus dentro de nós; é tão unido a nós que Ele é a nossa própria profundidade”.

Aqui está a grande novidade da mensagem e da experiência de Jesus: revelar que o lugar da presença de Deus é o ser humano. Ele é experimentado dentro de mim; mas também é preciso descobri-Lo dentro de cada um dos outros seres humanos. A presença surge de dentro e me sensibiliza a percebê-Lo no outro. 

“Deixar Deus ser Deus em meu interior” significa entrar no fluxo da dinâmica divina, ou seja, viver encontros divinizados, sendo presença divinizada, expressando palavras e atos divinizados...

A presença de Deus em meu interior fica atrofiada quando minha vida é carregada do veneno do preconceito, da intolerância, do julgamento, da suspeita e do medo do diferente. É justamente essa presença divina no eu profundo que me diferencia e me torna original. Encontrar-me com Deus na própria morada interna não é fechar-me num intimismo estéril; implica ampliar o espaço do coração para acolher o outro que pensa, sente e ama de maneira diferente, porque também ele é morada da Trindade.

O Espírito é o garantidor dessa presença dinâmica do Pai e de Jesus em mim: “Ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito”. O verdadeiro Mestre – meu “mestre interior” – que me irá conduzindo até a verdade é o Espírito de Deus, que se expressa no mais profundo de todo ser humano. É a “voz” de Deus em mim, à qual tenho acesso a partir da abertura e disponibilidade interior.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
O teólogo Schillebeeckx afirmou: “Se pudesse tirar de mim o que há de mim, ficaria Deus; se pudesse tirar de mim o que há de Deus, ficaria nada”.

Senhor, ao me reconhecer nessa morada interior, pode receber a paz da qual fala Jesus; não só isso: descobrir que sou Paz. Não é a “paz do mundo”, que sempre será oscilante e inconstante, senão a Paz que abraça todas as situações da vida, porque estou ancorada naquilo que realmente sou.

O “shalom” judaico é muito mais rico que meu conceito de paz; mas o evangelho de João acrescenta um “plus” de significado sobre o já rico significado judaico. A paz, de que fala Jesus, tem sua origem no interior de cada um. É a harmonia total, não só dentro da pessoa, mas com os outros e com a criação inteira. Corresponde ao fruto primeiro das relações autênticas em todas as direções; expressa a consequência do amor que é Deus em cada um, descoberto e vivido. A paz não é buscada diretamente; ela é fruto do amor. Só o amor, ativado e manifestado no próprio interior, conduz à paz verdadeira. Poder-se-ia dizer que esta “paz” não é algo diferente do Espírito. É a paz de quem permanece ancorado em sua identidade profunda, sem identificar-se com os altos e baixos das circunstâncias, nem perder-se com o “vai e vem” da mente.

É a paz que supera toda razão, porque nasce de um “lugar” que está mais além da razão, mais além da mente, na compreensão do Mistério que sou, e que não se vê afetado pelo que ocorre em meu eu.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Considerar, como devo de minha parte, amar as pessoas de tal maneira que me faça transparente, para que através de mim os outros possam conhecer quem é Deus.

Eu devo deixar “transparecer” a imagem de Deus, através da bondade, justiça, serviço... 

Deus “habita em mim”, deixando suas pegadas; através delas sou movida a dar testemunho de quem é Deus.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 14,23-29
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Vai chegar o tempo – fx 07
Autor: Pe. Fábio de Melo
Intérprete: Pe. Fábio de Melo
CD: Canta coração
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:23

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Leitura Orante – 5º DOMINGO DE PÁSCOA – 19 de maio de 2019


Leitura Orante – 5º DOMINGO DE PÁSCOA – 19 de maio de 2019

NO PRINCIPIO ESTÁ O AMOR

“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, 
se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,35)


Texto Bíblico: João 13,31-35


1 – O que diz o texto?
A revelação bíblica afirma que Deus é o Criador e Senhor, que envolve a criação com seu Amor dinâmico e criativo. É um Deus ativo, providente, fonte de vida, que realiza obras admiráveis e santas. Em seu Amor Oblativo, Ele vem ao nosso encontro e nos introduz no movimento de sua própria Vida. Somos seres agraciados(as). Viemos de Deus e voltamos para Ele. “N’Ele vivemos, nos movemos e existimos”.

Aqui nos encontramos como que no centro do mistério único, que é o mistério do Deus Criador e Providente, do Deus que “dá a Vida”, que cuida do universo, do Deus de quem tudo procede e para quem tudo retorna; em síntese, trata-se do mistério do Amor em excesso de Deus.

Portanto, no princípio está o Amor e de suas entranhas tudo procede; cada criatura é uma irradiação de Deus, uma faísca da divindade, um transbordamento do amor de Deus. Tudo fala de Deus, tudo revela o seu Amor. Tudo está “amortizado”; o Amor se faz presença, se faz visível, se manifesta em cada detalhe da criação. No Amor tudo entra em movimento expansivo e aberto.

Jesus, em sua vida, sempre deixou transparecer esse Amor do Pai. O amor de Jesus, extenso e profundo como o oceano, nunca teve fronteiras: envolveu a todos, acolheu a todos sem preconceito de raça, cultura, sexo e religião. O mandamento do amor, mais que um mandato é, antes de tudo, um dom e uma revelação de Jesus a seus discípulos.

O evangelho de hoje também faz parte do discurso de Jesus no evangelho de João, o último e mais extenso, depois do lava-pés. É um discurso que abarca cinco capítulos, e é uma verdadeira catequese à comunidade, resumindo os mais originais ensinamentos de Jesus.


2 – O que o texto diz para mim?
Estou vivendo o tempo Pascal e, com a ressurreição, o amor rompido renasce; com a ressurreição, o amor autocentrado me faz sair de mim mesma; com a ressurreição, os olhares desconfiados se tornam acolhedores; com a ressurreição posso aprender a viver a partir de Deus; com a ressurreição o amor oblativo é capaz de mover minha vida.

Só quem assume a Vida de Deus como sua, será capaz de expandi-la em sua relação com os outros. A manifestação dessa Vida é o amor efetivo a todos os seres humanos.

O distintivo do cristão é o amor fraterno. E o amor é discreto, humilde, conhecedor de sua insuficiência, não é arrogante, não se derrama em palavras, não faz alarde, não vai se proclamando pelas praças, prefere o silêncio, passa desapercebido, prefere as obras às palavras (“o amor deve-se por mais em obras que em palavras” – Santo Inácio).

É o Amor meu distintivo como seguidora de Jesus? O sinal pelo qual os outros reconhecerão que sou discípula é a capacidade de amar uns aos outros. Tenho  insistindo demasiado no acidental: no cumprimento de normas, na crença de algumas verdades e na celebração de alguns ritos. E esvazio o essencial que é o Amor. O Reino não se espalha por meio de armas, nem com a propaganda e nem com marketing algum; o Reino se espalha pelo contágio, porque o “Amor é contagioso”.

Porque fracasso estrepitosamente naquilo que é a essência do Evangelho? Porque digo seguir Aquele que é a visibilização do Amor do Pai e o meu estilo de vida destila doses mortais de indiferença, preconceito, intolerância, julgamento...? Vivo tempos de ira e de ódio, expressões de um fundamentalismo e de um fanatismo que esvaziam toda possibilidade da vivência do amor oblativo. Estou me acostumando a ver o ódio e a vingança como um espetáculo a mais. As mediações digitais e as manipulações ideológicas não me deixa perceber as verdadeiras consequências do ódio sobre as pessoas.

É preciso resgatar a sacralidade do amor; afinal, ele é o motor de uma vida intensa. O amor ágape se expressa justamente como impulso para o diferente, abertura a quem pensa, sente e ama de maneira diferente.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O mandamento do amor continua sendo tão “novo” que está ainda por ser vivido em sua plenitude. Não se trata só de algo muito importante; trata-se do essencial. Sem amor, não há vida cristã. Nietzsche chegou a dizer: “só houve um cristão, e esse morreu na cruz”; precisamente porque ninguém foi capaz de amar como Ele amou.

Essa é, com certeza, minha raiz e minha essência, minha mais profunda força que, às vezes me rompe por dentro, outras vezes me faz subir ao céu. Posso amar e ser amada. Vivo desejando encontro, carinho, palavra de compreensão e reconhecimento. 

Digo de Deus, de quem sou imagem, que é amor. E quando olho ao redor e vejo os outros, sonho viver a partir da cordialidade de braços que se estreitam, olhos que se compreendem ou mãos que se enlaçam.

O amor tem muitos nomes, muitos rostos, muitas formas e expressões. Tem inumeráveis histórias. É amizade, fé, paixão, enamoramento; é fraterno, filial, paterno/materno; é compaixão pelas vidas feridas ou inspiração por viver intensamente. É encontro, quietude ou tormenta. É aceitação incondicional e, ao mesmo tempo, fé nas possibilidades do outro. Amor é saber compartilhar; e também saber pedir ajuda àqueles a quem confio. É desfrutar da presença e encurtar as distâncias. É celebrar juntas a vida e chorar juntos os golpes. Às vezes é sede, e outras vezes é manancial que sacia os desejos. É sinal que estou viva, e há ocasiões em que a vida é canto, e outras em que é luto.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Um mandamento novo: “que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei”. O “como eu vos amei” não é só comparativo, mas originante. Quer dizer: “que deveis amar-vos porque eu os amei, e tanto como eu os amei”. Jesus é o cume das possibilidades humanas. Amar é a única maneira de ser plenamente humano. Ele ativou até o limite a capacidade de amar, até amar como Deus ama. 

Senhor, Jesus não propõe um princípio teórico, e depois pede que todos o cumpram. Ele começa por viver o amor e depois diz: “como eu vos amei”. Quem revela sua adesão a Jesus ficará capacitado para ser filho(a), para atuar como o Pai, para amar como Deus ama.

O amor que Jesus pede não é uma teoria, nem uma doutrina; manifesta-se na vida, em todos e em cada um dos aspectos da existência. A nova comunidade dos(as) seguidores(as) não se caracterizará por doutrinas, nem ritos, nem normas. O único distintivo deve ser o amor manifestado em suas ações. 

O amor não é um sonho, é o impulso básico das pessoas criadas livres; livres para doar-se livremente, livres para participar da infinita abundância de vida com que Deus me cumula. O amor é a vida mesma em seu estado de maturidade e plenitude.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Repassar minha história de amor. 

Que nomes são importantes em minha vida? 

De quê maneira eu ajudo o meu ambiente a estar “carregado de amor”? 

Em quê circunstância da vida eu me revelo como pessoa amável?

Quê passos eu dou para quebrar o círculo de ódio e violência, que mata o amor na raiz?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 13,31-35
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Até aqui o Senhor nos conduziu – fx 04
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Ana Paula Ramalho e Edicléia Tonete
CD: Grupo Chamas – ouço a tua voz
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:09

terça-feira, 7 de maio de 2019

Leitura Orante – 4º DOMINGO DE PÁSCOA – 12 de maio de 2019


Leitura Orante – 4º DOMINGO DE PÁSCOA – 12 de maio de 2019

UMA VOZ QUE MOVE

“Minhas ovelhas ouvem minha voz, 
eu as conheço e elas me seguem.” (Jo 10,27)


Texto Bíblico: João 10,27-30


1 – O que diz o texto?
Todo quarto domingo de Páscoa é dedicado ao tema do “Bom Pastor”; a liturgia não apresenta outros relatos de aparições, mas continuamos com mais um texto profundamente pascal. 

No relato deste domingo, a alegoria do Pastor fala de “escuta”, “conhecimento”, “seguimento” e “vida eterna”, que é a chave do tempo pascal; ao mesmo tempo, num aprofundamento progressivo, o texto remete ao Pai e culmina na Unidade, como Fonte de onde tudo procede e para onde tudo retorna. 

São estas realidades que nos permitem conectar com o sentido originário da imagem do Pastor, sem cair na literalidade pastor/ovelhas, paternalismo/cordeirinho, poder/submissão..., que acabam provocando uma justificada resistência e rejeição.

Jesus quer estabelecer com seus(suas) amigos(as) uma relação que seja o reflexo daquela que Ele mesmo tem para com o Pai: uma relação de pertença recíproca, na confiança plena, na íntima comunhão. 

Para expressar esta realidade profunda, esta relação de amizade, Jesus utiliza a imagem do pastor com suas ovelhas: ele as chama e elas reconhecem sua voz, respondem a seu chamado e o seguem. 

Esta parábola é muito instigante. O mistério da voz é sugestivo: desde o ventre de nossa mãe aprendemos a reconhecer sua voz e, quando nascemos, vamos reconhecendo outras vozes. Pelo tom de uma voz percebemos o amor ou o desprezo, o afeto ou a frieza, a acolhida ou a rejeição. 

A voz de Jesus é única! Se aprendermos a distingui-la de outras vozes, Ele nos guiará pelo caminho da vida, um caminho que supera também o abismo da morte.


2 – O que o texto diz para mim?
O contexto do relato deste domingo é o embate de Jesus com as autoridades religiosas judaicas. Depois de dizer que elas não são suas ovelhas, Jesus descreve com todo detalhe o que significa ser dos seus.

Destaca dois traços, os mais essenciais e imprescindíveis: “Minhas ovelhas escutam minha voz... e elas me seguem”. Não se trata só de ouvir a Jesus, mas de escutá-lo. 

Muitas vezes só ouço e aceito somente o que está de acordo com meus interesses. 

Escutá-lo significa me aproximar sem pré-juízos e acolher o que Ele me diz, mesmo que isso implique mudar minhas convicções; escutar é pôr toda minha atenção para tratar de compreender. 

“E elas me seguem”. Não basta escutar, é preciso me colocar em movimento e entrar na nova dinâmica da vida. Escutar tem ressonância interna e ativa todas as minhas potencialidades ali presentes.

A boa notícia de Jesus consiste em manifestar que há uma nova maneira de assumir a existência humana, uma maneira de viver que esteja mais de acordo com as exigências profundas do meu ser. Quando alguém é capaz de escutar esse chamado interior e de viver conforme ele, vive uma existência feliz. Vive de acordo com seu mais íntimo e esta adequação entre a vida exterior e a vida interior é a felicidade.

Em um mundo onde há tanto ruído, discursos ocos e palavreado intolerante, não é fácil prestar atenção a alguma voz em especial. O fato é que às vezes vivo em bolhas onde raramente entram vozes que me comove de verdade. E, no entanto, debaixo de gritos, ruídos, músicas estridentes, anúncios, peças publicitárias e frases que apelam ao conservadorismo, continuam brotando palavras cheias de verdade. Palavras que valem a pena escutá-las. Talvez, detrás de muitos gestos petrificados, palavras sem sentido, falsas seguranças, estarão vozes que clamam por ajuda, ou simplesmente expressam dor, desejo de paz, de consolo.

O verdadeiro desafio é aprender a escutar, por debaixo desses discursos, a palavra profunda, o canto tranquilo ou a voz que põe em movimento.

Saber escutar o outro é uma simples, mas profunda acolhida humana; trata-se de um ato de hospitalidade, pois consiste em abrir espaço para a presença do outro, sem preconceito. Porque quem escuta de verdade recebe toda palavra como nova e ativa a sensibilidade para deixar-se “tocar” pela voz que alarga a vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Vivo mergulhada num mundo de vozes; um “vozerio” me cerca: vozes que me levam à morte, vozes que me chamam à vida; vozes contaminadas pelo egoísmo, adulteradas pelo medo, deturpadas pela impureza, e vozes que são o eco do paraíso convidando para a festa, comunicando paz, convocando à comunhão... É possível que as vozes do egoísmo, do orgulho e da ambição tentem se disfarçar em voz de Cristo, a fim de me arrastar para o vazio e a ruína. Mas o Pastor verdadeiro não fala por ruídos, e sim pelo silêncio; não fala pela força dos pulmões, e sim pelo vento suave de seu Espírito... 

Para escutá-la requer-se interioridade e atenção aos sinais de sua presença: pode ser a voz de um irmão pedindo socorro; pode ser a linguagem de um acontecimento alegre ou triste; pode ser uma palavra lida ou proclamada; pode ser uma inspiração misteriosa captada no silêncio... 

Na arte do discernimento das vozes, o importante é, através da escuta interior, perceber de onde vem e para onde me conduz cada voz que ressoa em mim. Se ela me conduz  para o outro, para o Reino...é clara manifestação da voz do Pastor.

Depois de mais vinte séculos, eu seguidora preciso recordar de novo que o essencial para ser a Igreja de Jesus é escutar sua voz e seguir seus passos.

Primeiramente, é preciso despertar a capacidade de escutar Jesus; ativar muito mais em minha comunidade essa sensibilidade, que está viva em muitos cristãos simples que sabem captar a Palavra que vem de Jesus em todo seu dinamismo e sintonizar com sua Boa Notícia de Deus.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, não basta escutar sua voz. É necessário seguir a Jesus. Chegou o momento de me decidir entre em me contentar com uma “religião burguesa” que tranquiliza as consciências, mas afoga minha alegria, ou aprender a viver a fé cristã como uma aventura apaixonante de seguir a Jesus.

Parece óbvio afirmar isso: sou seguidora de uma Pessoa (Jesus Cristo) e não seguidora de uma religião, de uma doutrina, de uma moral... Estas são mediações que deveriam me ajudar a crescer na identificação e vida d’Aquele é o Bom Pastor.

A aventura cristã consiste em crer naquilo que Ele acreditou dar importância àquilo que Ele deu defender a causa do ser humano como Ele a defendeu, me aproximar dos indefesos e desvalidos como Ele se fez presente, ser livre para fazer o bem como Ele, confiar no Pai como Ele confiou e enfrentar a vida e a morte com a esperança com que Ele enfrentou.

Se, aqueles que vivem perdidos, sozinhos e desorientados podem encontrar nas comunidades cristãs um lugar onde se aprendem a viver juntos e de uma  maneira mais digna, solidária e livre, seguindo a Jesus, a Igreja estará oferecendo ao mundo de hoje um de seus melhores serviços.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Sou canal através do qual a Voz de Vida chega até os últimos... 

Colocar  a minha voz à disposição daqueles que mais precisam...

Distinguir as diferentes vozes que se fazem ouvir ao meu redor...

Purificar minha voz no fogo do silêncio...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 10,27-30
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Meu pastor – fx 10
Autor: Pe. Agnaldo José
Intérprete: Pe. Agnaldo José
CD: Pe. Agnaldo José – És o meu Senhor
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:47




quarta-feira, 1 de maio de 2019

Leitura Orante – 3º DOMINGO DE PÁSCOA – 05 de maio de 2019


Leitura Orante – 3º DOMINGO DE PÁSCOA – 05 de maio de 2019

RESSURREIÇÃO: 
experiência que nos tira de um fatal ‘ponto morto’

“...mas naquela noite nada apanharam” (Jo 21)


Texto Bíblico: João 21,1-19

1 – O que diz o texto?
Estamos desfrutando do tempo Pascal no qual tudo na vida dos cristãos (a liturgia, os símbolos, as leituras da Palavra de Deus, as flores, o branco litúrgico, e inclusive, em algumas partes do mundo, o tempo meteorológico) nos fala da vitória da vida. É, sem dúvida, um tempo precioso no qual ressoa a Aleluia da noite de Páscoa e se prolonga na liturgia, na vida e nos corações.

O Evangelho deste domingo nos conduz até à “praia pascal” da Galiléia. Depois dos terríveis capítulos anteriores (gritos, sangue, cruz, violência, tortura, morte...), os apóstolos se encontram de novo na Galiléia, numa paisagem quase idílica, dedicados outra vez à pesca, como se nada tivesse acontecido. O texto está cheio de simbolismos, de significados insinuados e de sugestões, mas basta recordar que tudo acontece no alvorecer, nessa hora tão charmosa na qual vemos ainda com dificuldade.

O encontro com o Ressuscitado nas praias da Galiléia nos motiva a buscar um novo sentido e uma nova inspiração para o cotidiano de nossas vidas. De fato, nem todos os dias são iluminados pelos êxitos; tampouco as noites. Há dias que anoitecem e há noites que amanhecem em meio a muitos fracassos. Nem todas as manhãs nossos pescadores chegam ao porto com suas barcas carregadas de peixes.

A vida tem seus êxitos e seus triunfos. Mas também suas derrotas e fracassos. É preciso saber acolher os triunfos sem que a fumaça do ego cubra nosso coração. E é preciso saber assumir a desilusão do fracasso, sem por isso sentir-nos derrotados. Os triunfos podem alimentar ilusões; os fracassos põem à prova nossa resistência e nossa constância.


2 – O que o texto diz para mim?
Os discípulos, naquela noite não tinham pescado nada, além do cansaço e do frio do lago. Mas não tinham perdido a esperança. A pesca tinha sido um fracasso e, a partir da margem, um estranho personagem lhes sugere que lançassem as redes do outro lado do barco, como se eles não soubessem onde deveriam lançá-las; surpreendentemente eles têm grande êxito na pescaria. Nesse momento, o discípulo amado diz a Pedro: “É o Senhor!” 

Adiantou-se a todos sem mover-se do lugar; olhou para frente sem soltar a ferramenta de trabalho; não gritou sua descoberta; simplesmente sussurrou, mas entre admiração e comoção: “É o Senhor!”

Voltou a sentir a água caindo sobre seus pés e o pulsar de um coração na noite do Serviço e do Amor; suas mãos não deixaram a rede de lado, mas seu olhar foi mais além: “É o Senhor!”

E, como sempre, Jesus se encanta com os encontros em torno ao fogo e à refeição. Ele se manifesta nas coisas simples da vida. Não foi preciso palavras. Um coro de silêncios interiores proclamava: “É o Senhor!”, enquanto se espalhava no ar um agradável odor a peixe recém-assado.

Posso considerar que a exclamação do discípulo amado -“É o Senhor”! - mostra o que significa ser contemplativo. O verdadeiro contemplativo pascal olha ao seu redor, à realidade mesma, à vida em sua contradição, com suas obscuridades e suas claridades, com suas grandezas e suas misérias, com seus êxitos e seus fracassos..., e descobre nela os sinais pequenos, frágeis, vulneráveis e, às vezes, aparentemente contraditórios da presença do Ressuscitado em sua vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Talvez seja este um dos desafios mais importantes da vida cristã neste meu mundo tão cheio de mensagens, de bombardeio de notícias, de imediatismo e rapidez, de encontros e desencontros. 

Eu, seguidora do Ressuscitado neste séc. XXI, do mundo digital, da pós-modernidade ou da arqui-pós-modernidade, da “cultura liquida” e dos “não lugares”, deste mundo complexo e fascinante no qual me toca viver e ao qual devo amar, posso ser essa humilde contemplativa que, em meio aos afazeres cotidianos, sussurra com emoção -“É o Senhor!”- e aponta para o Ressuscitado, presente nas penumbras da vida.

Essa é talvez a missão central da minha vida cristã hoje: captar com emoção a luz que abre passagem entre as folhas da densa floresta contemplá-la com gratuidade, indicá-la com humildade e anunciá-la com amor. E, mais ainda, devo me sentir chamada a deixar transparecer a luz da ressurreição na própria realidade interior, para poder ser presença iluminante no contexto tão obscuro no qual eu vivo.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
É a vida inteira que deve ser iluminada pelo acontecimento pascal. Viver, para o cristão, é acolher sua vida, com suas luzes e sombras, à luz do Ressuscitado que, embora não o veja de maneira transparente, continua se fazendo presente nas praias da sua existência. 

Não há obscuridade que não possa ser iluminada; não há situações, por mais difíceis que sejam que não possam ser revertidas pela presença d’Aquele que está no meio de nós. 

Senhor, gasto energia em dissimular minhas falhas e fracassos quando, afinal, é pela sua aceitação que a porta poderá abrir-se para esse Outro que, por sua vez, me ama incondicionalmente. No segredo do coração posso pressentir que estes fracassos, estas dificuldades são, talvez, a minha maior sorte. Porque através deles me liberto de minhas ilusões sobre mim mesmo. Eles tendem a me deprimir, mas também podem ser uma ocasião para me fazer mais humana e humilde. Acolher o fracasso é retirar minhas couraças, me revelar aberta, tolerante e compassiva. 

Segundo um místico “felizmente Deus criou falhas em nós; caso contrário, não vejo por onde Ele poderia entrar em nossa vida!”.

Minha vivência da fé pascal também me revela que Deus tem mais facilidade de entrar na minha vida pela porta dos fracassos, das feridas, das crises... Aqui é onde me sinto mais desarmada, mais aberta e mais sensível à acolhida do Deus surpreendente que sempre vem ao meu encontro. Por outro lado, Deus encontra muito mais resistência de se fazer presente em minha vida quando me centro na busca da perfeição, das virtudes... Aqui estou “formatada”, fechada em minha autossuficiência.

Através dos fracassos me aproximo de meu ser essencial e da fonte de recursos que transforma estes fracassos em caminhos de realização.

O Pe. Adolfo Nicolás (ex-superior geral dos jesuítas) afirmou certa vez: “é preciso celebrar nossos fracassos”. Causa estranheza ao ouvir tal afirmação, pois vivo em um mundo onde somente os êxitos e vitórias são celebrados. Mas, o certo é que, quando compartilho e acolho meus fracassos, derrotas e quedas surgem uma corrente de comunhão especial, me sinto mais autêntica e vivo tais situações duras como parte de uma vida que, ao mesmo tempo, é difícil e preciosa, que desafia e recompensa, que golpeia e abraça. Assim, posso crescer na consciência de que esses momentos também são constitutivos de minha identidade; eles se revelam como ocasião privilegiada para ativar outros recursos e possibilidades que certamente não brotariam em tempos tranquilos.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Percorrendo o capítulo 21 de João capto a profundidade da contemplação inserida na vida ativa.

Não colocar fronteiras ao Espírito que irá moldando minha visão e minha escuta e, como João, me fará proclamar: “É o Senhor!”, sem soltar a ferramenta, nem o computador, nem o carro, nem o bisturi, nem o livro, nem o pincel, nem o microfone, nem a vassoura...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 21,1-19
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Quem é esse Jesus? – fx 01
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Coletânea - Quem é esse Jesus?
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:38