quinta-feira, 18 de abril de 2019

Leitura Orante – SEXTA-FEIRA SANTA – 19 de abril de 2019


Leitura Orante – SEXTA-FEIRA SANTA – 19 de abril de 2019

SEXTA-FEIRA SANTA: 
contemplar a Cruz e os crucificados

Estavam junto à cruz de Jesus sua mãe, 
a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena...” (Jo 19,25)


Texto Bíblico: João 19,16-30

1 – O que diz o texto?
Na história do cristianismo tivemos sempre duas grandes tentações: eliminar a cruz ou exaltá-la. A cruz não tem a última palavra no Evangelho, mas é uma página incômoda que não podemos saltar, como tampouco podemos negar nem ocultar a densidade do sofrimento. Negá-lo é negar o humano.

Há algo muito perturbador na ideia de um “Deus crucificado”. Escândalo para uns, contradição para outros, absurdo para muitos... Onde fica a grandeza, a força, o poder? Que sentido tem ainda hoje em dia ajoelhar-se ou fazer reverência diante do crucificado? Como olhar a face da derrota? Como aceitar a morte do Justo? Como compreender o silêncio do Pai diante da morte do Filho? 

E aí surge a eterna pergunta pela questão do mal, pelo sofrimento dos inocentes, pela tragédia que atravessa a criação. Como é possível? E um grito se eleva ao céu, entre a queixa e a incompreensão: “por que?”

O Deus crucificado é, junto à ressurreição, a intuição mais radical de nossa fé. Fala-nos da fragilidade humana, assumida pelo mesmo Deus; fala-nos da paz como único caminho, frente a outras sendas construídas sobre o rancor, a violência ou a lei implacável; fala-nos do amor como a maior transgressão em um mundo que etiqueta muitas pessoas como indignas de serem amadas; fala-nos da dor de Deus, um Deus que não é distante, alheio nem indiferente à criação que saiu de seu coração; um Deus próximo até o ponto de esvaziar-se em nós, conosco, por nós; fala-nos das entranhas de misericórdia d’Aquele que se comove diante dos sofrimentos humanos; fala-nos de compromisso, de uma aliança inquebrantável, e de risco; fala-nos de vítimas inocentes e verdugos inconscientes que não sabem o que fazem. 

Mas, nem para verdugos nem para as vítimas a Cruz há de ter a palavra definitiva. Tudo isso, e muito mais, é o que podemos ver quando contemplamos o Crucificado. 


2 – O que o texto diz para mim?
Gólgota, o monte da Cruz, do Amor e do pranto. Um lugar carregado de densidade. Nele está o amor fiel e atravessado de uma mãe, a fidelidade de um discípulo e a coragem das mulheres que não abandonam nem fogem; ali se expressa a esperança ferida de um bom ladrão, o reconhecimento assombrado de um centurião, a zombaria daqueles que não são capazes de compreender e pedem provas, a indiferença daqueles que repartem as roupas do crucificado; e, sobretudo, Gólgota desvela uma morte que é consequência de uma vida de entrega, feita de gestos, palavras e obras; desvela uma vida que se fez doação radical nas mãos daquele que se revela Misericórdia.

A vida de Jesus é inseparável de sua execução, de sua morte. Estas são consequência de seu modo de ser e de estar na vida e com as pessoas, sendo misericórdia em ação, misericórdia em relação.

O Crucificado é a expressão máxima da ternura entregue até o extremo na missão de aliviar o sofrimento dos últimos. Por isso, a ternura é também subversiva, porque inverte a ordem “colocando como primeiros os últimos” (Mt 20,16). A ternura vivida até o extremo, à maneira de Jesus, tem repercussões sociais e políticas e por isso se faz insuportável para aqueles que “fazem de sua força a norma da justiça” (Sb 2,1-17) e “reprimem a verdade com a injustiça” (Rom 1,18).

Jesus é condenado porque sua atuação e sua mensagem sacodem na raiz o sistema organizado a serviço dos poderosos do império romano e da religião do templo. A vida de Jesus se havia convertido em um estorvo que era necessário eliminar, como as vidas de tantas pessoas que hoje se tornam molestas ao sistema ou que são consideradas “presenças perigosas”. Este é o mistério que hoje estamos contemplando.

A liturgia da Sexta-feira Santa me ajuda a abrir os olhos diante dos crucificados de hoje e a impotente proximidade de Deus com eles.

É preciso olhar sempre a Cruz por dois lados: o dos crucificadores e o das vítimas. Do lado dos crucificadores, a cruz é morte. “Maldita seja a cruz”. Nós cristãos já temos nos acostumado a cantar “Ó Cruz, tu nos salvarás”, e esquecemos que há cruzes que não são cristãs, mas legitimadoras da dor e da injustiça que recai sobre as vidas das pessoas mais feridas e excluídas.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A Cruz nunca vai me poupar da dor, mas me dá lucidez. Ela me impede cair em espiritualidades evasivas, depura minhas imagens de Deus, às vezes demasiado burguesas e light, que não suportam a prova do fracasso, da obscuridade e do silêncio.

A violência e a injustiça geram vítimas e contam com minha cumplicidade. A Boa Notícia do evangelho se manifesta a partir do reverso da história e assume a miséria, a debilidade humana, o limite físico e psíquico, o fracasso. Por isso, a sexta-feira santa me revela também os aspectos mais obscuros de minha condição humana.

Há lugares e situações de vida diante dos quais não posso deixar de exclamar: “Sempre é sexta-feira Santa!”: miséria, exaltação da violência, relações centradas na intolerância, solidão, sonhos quebrados...

Se aproximar de cada um desses lugares é tocar as chagas do Crucificado, chagas que crio e gero com minha indiferença e minha omissão; chagas que me molesta porque cheira mal, porque grita e me desmascara, me devolvendo à minha verdade mais íntima.

Adentrar-me em suas vidas é também apalpar o mistério, o mistério do mal e da injustiça, o mistério de uma Vida com maiúsculas que sempre é mais e que brota a partir de baixo e a partir de dentro para dar à luz a esperança, embora eu, muitas vezes, não saiba percebê-la.

No Crucificado, Deus me mostra a densidade mais profunda de seu mistério. Um Deus que não só está a favor das vítimas, mas que, à mercê de seus verdugos, revela sua máxima solidariedade e proximidade para com “os sem poder”, com aqueles que “desfigurados, nem pareciam homens” (Is. 52,14).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, quando acompanho Jesus na paixão, também “vou sendo talhada” pelas cenas que contemplo, com o coração aberto à dor e à aflição. Essa dor esvazia minha auto suficiência e purifica minha auto imagem triunfal, humanizando-me. Ao contemplar o amor redentor de Deus revelado em seu Filho Jesus, eu me pergunto onde está Ele no sofrimento. Há aqui uma inversão de perguntas: 

Para responder à interrogação -“Onde está Deus nas situações de sofrimento e morte?”, Deus me desafia a responder essa própria questão: “Onde está você no meu sofrimento?”.

Contemplando o Crucificado vou pedir ao Senhor neste dia que me ajude a permanecer solidária nas situações onde a “Divindade se esconde” (S. Inácio), que me ajude a olhar a Cruz e escutar o grito dos crucificados nela; escutar os gritos daqueles que vivem na noite do sofrimento, da violência, da injustiça e do desamor. A Cruz é um grito no qual cabem todos os gritos da humanidade, desde o primeiro choro de uma criança até o último suspiro de um moribundo.

Escuto neste dia os gritos daqueles que vivem na noite do sofrimento, os gritos dos empobrecidos, o grito dos povos e culturas condenadas à exclusão...; todos esses gritos unidos ao grito da mãe-terra, destruída em seus ecossistemas e explorada pela ganância.

Escuto grito das vítimas do bilionário negócio da venda das armas; o grito dos “descartados” e de todos aqueles que o sistema considera como sobrantes: os sem teto, sem terra, sem trabalho; o grito daqueles que são julgados por leis injustas em tribunais que, como Pilatos, lavam as mãos...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Nos Gólgotas deste mundo, continuar apostando, gritando e proclamando Vida, apesar daqueles que investem na cultura da morte.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 19,16-30
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Lamento do Senhor – fx 11
Autor: Pe. Ximenes
Intérprete: Marcos
CD: Cantos da semana santa
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:12



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