quarta-feira, 24 de abril de 2019

Leitura Orante – 2º DOMINGO DE PÁSCOA – 28 de abril de 2019


Leitura Orante – 2º DOMINGO DE PÁSCOA – 28 de abril de 2019

EXPERIÊNCIA DE RESSURREIÇÃO: 

tocar as chagas da humanidade

“...mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20,20)


Texto Bíblico: João 20,19-31


1 – O que diz o texto?
Os relatos das Aparições nos advertem de que não se trata de uma crônica de acontecimentos. O que João quer nos comunicar são vivências internas dos discípulos reunidos; o que ele quer nos transmitir está mais além daquilo que entra pelos sentidos ou podemos imaginar.

Destacamos algumas das expressões do relato de João para formular a no Crucificado - Ressuscitado. 

O relato deste domingo se revela como uma catequese muito rica em conteúdo. Por uma parte, vincula a ressurreição com a paz, o dom do Espírito, o perdão, a fé, a missão...  Por outra, parece querer responder aos cristãos da “segunda geração”, que já não haviam conhecido o Jesus histórico, nem haviam participado daquela primeira experiência “fundante”. É a eles, representados na figura de Tomé, que lhes é dito: 

“Bem-aventurados aqueles que creram sem terem visto!”

São muitos os que se sentem escandalizados com o Evangelho deste 2º Domingo de Páscoa. Não é possível que Jesus Ressuscitado conserve as chagas no seu corpo! Pode-se tocá-lo como se tocam as feridas sangrentas de um torturado, as mãos frias de um moribundo, os pés feridos de um imigrante?

Frente aos riscos de um falso espiritualismo que quer esquecer-se da “carne”, frente a todas as tentativas de entender a Páscoa como pura mudança de consciência, o Evangelho de João quis ressaltar a corporalidade do Cristo Ressuscitado e o faz desta forma, ou seja, dando um destaque especial às chagas das mãos e do lado aberto; o mesmo corpo do amor vivido e da entrega, o corpo ferido com cravos e lança, se converte assim em um sinal visível de Ressurreição, sinal que continua presente na realidade das pessoas.


2 – O que o texto diz para mim?
A morte de Jesus não foi um acidente de percurso, não é algo que se esquece, sinal de sua condição humana; o Senhor ressuscitado continua sendo Aquele que leva em suas mãos e em seu lado as feridas de sua entrega, os sinais de seu amor crucificado em favor da humanidade. O Senhor ressuscitado continua sendo Aquele que sofre em todos os que sofrem no mundo. 

Como cristãos, professamos: “o Ressuscitado é o Crucificado”; por isso é necessário “tocar suas feridas”, ali onde Ele sofre naqueles que sofrem. Portanto, contemplar o Ressuscitado chagado impulsiona a continuar encontrando o mesmo Jesus nas chagas de todos os sofredores da história.

É surpreendente que o evangelho de João tenha conservado o registro da experiência de Madalena; mas, mais surpreendente ainda é o fato de que tenha recolhido a experiência de Tomé, para assim revelar-nos que a Páscoa significa tocar com mais força, de um modo mais profundo, as chagas de Jesus ressuscitado.

Maria Madalena havia “tocado em Jesus” no horto pascal, porque o amava e pela alegria de saber que Ele estava vivo. Mas, depois teve que deixar de tocá-lo fisicamente (“não me toques”), a fim de tocá-lo e conhecê-lo de um modo diferente, levando a mensagem da Vida de Jesus aos discípulos, fechados numa casa. Ela que o tocou com amor, foi à primeira das ressuscitadas com Jesus no jardim de Vida da Páscoa.

À diferença de Madalena, Tomé precisou aprender a ativar os sentidos: olhar, escutar, tocar...; precisou descer do pedestal dos seus dogmas, das ideias separadas, para retomar a experiência concreta do amor de Jesus, que é a vida entregue pelos outros, amor chagado. Não basta crer em Jesus, separado de sua vida de compromisso em favor da vida; para crer nele é preciso querer tocar suas chagas, que são as chagas do mundo ferido por falta de amor.

Tomé começou sendo o apóstolo de uma espiritualidade sem compromisso social, sem entrega profética, sem solidariedade com os pobres e excluídos. Não era um apóstolo “cristão” de Jesus crucificado, mas um praticante da religião desencarnada que alguns, ainda hoje, continuam defendendo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Tocar” em Jesus, colocar o dedo em suas chagas e a mão no seu lado aberto, é descobrir a ferida sangrenta da história humana, vinculando assim a ressurreição com a dor dos homens e mulheres oprimidos(as), torturados, enfermos, assassinados...

Jesus Ressuscitado continua levando em suas mãos e em seu peito a ferida da história, não só as chagas dos cravos e o corte da lança em seu próprio corpo, mas a chaga dos enfermos e expulsos, dos famintos e oprimidos e a infinidade de pessoas que continuam sofrendo ao nosso lado.

O Ressuscitado se faz reconhecível, é o mesmo Jesus, é o crucificado, é seu corpo chagado. Trata-se de crer no Crucificado. Suas feridas são inseparáveis da morte e da entrega a uma causa: o Reino. Não é a passagem a uma condição superior à do ser humano, mas a mesma condição humana levada a seu cume, assumindo sua história anterior.

As chagas, sinal de seu amor extremo, evidenciam que é o mesmo que morreu na cruz. Já não há lugar para o medo da morte. Ninguém poderá tirar de Jesus a verdadeira Vida, nem tirá-la dos seus discípulos. 

A permanência dos sinais de sua morte indica a permanência de amor; elas são as cicatrizes de um compromisso com a vida. Além disso, elas garantem a identificação do Ressuscitado com o Jesus Crucificado.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, posso dizer que a experiência de Tomé, que é também a minha, tem um valor importante para eu que sou seguidora do Ressuscitado.

Hoje, ressuscitado, Jesus continua expondo-se, deixando-se tocar sem resistências, mostrando suas feridas, permitindo que, como Tomé, “coloco o dedo na ferida”. Quê paradoxo! Os sinais da Ressurreição se encontram aí onde antes se encontravam os sinais de dor e morte. Só quando assumo esta realidade, poderei testemunhar, como os primeiros discípulos, que o “Crucificado ressuscitou!”

São estas suas feridas e chagas nas mãos e no lado aberto os sinais que o Ressuscitado me mostra para que eu possa reconhecer as cicatrizes que também carrego em meu corpo. São estes os sinais que Ele me mostra para que eu possa pôr também minhas mãos na ferida que continua aberta em meu mundo, nas mãos e lados de tantas irmãs e irmãos, de tantos povos, de mim mesma. O Ressuscitado continua carregando todas as chagas e me convida a tocá-las, a acariciá-las, a acolhê-las, a me reconciliar com aquelas que ainda não foram integradas e pacificadas, a me empenhar na transformação daquelas que são fruto da injustiça e do mal.

Páscoa é tocar e acompanhar Jesus nos chagados da vida. 

Páscoa é também (ao mesmo tempo) sentir nas mãos e nos dedos, no coração e no olhar, o abraço de amor de todas as pessoas. Não há Páscoa de Jesus sem corpo-a-corpo de intimidade e proximidade, de homens e mulheres, de crianças e idosos, nos diversos tipos de encontro e comunhão, não para possuir, mas para compartilhar, não para impor-se, mas para juntos abrir caminhos sempre novos de respeito e admiração. Assim me toca Jesus, assim se deixa tocar por mim.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Trago gravada em minha geografia corporal infinitas pequenas mortes e feridas; às vezes tão pequenas que não deixam cicatrizes visíveis, mas estão aí, cravadas em meu corpo. 

Contemplando as chagas do Ressuscitado, ser capaz de reconhecer que fui criada para ressuscitar, com as minhas feridas integradas, pacificadas, iluminadas....

Minha sensibilidade será ativada o suficiente para poder reconhecer esses mesmos sinais de dor em outros corpos e rostos.

“Fazer memória” das cicatrizes da minha história corporal, unindo-as às “feridas do Ressuscitado”.

Isso já é ressurreição, plenitude do mistério da comunhão através dos gestos, da proximidade, do abraço...

A cada abraço sentido, uma ressurreição também vivida!


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 20,19-31
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 

Sugestão: 
Música: Ninguém fez mais do que Jesus – fx 02
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
Coro: Beto, Betinho, Tiago Amaral, Ana Clara, Giba, Maria Diniz
CD: Quando Deus se calou
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:37


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